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Fotografia de Putin jornal Público

Eugénia Vasconcellos.jpg

Eugénia de Vasconcellos

Texto publicado no jornal Observador

06 abr 2022 

Vai para a Eurásia que te Pariu, Pá!

Dizem «as sanções não podem ser demasiado pesadas». Não podem? Somos colaboracionistas? Cada cêntimo para a Rússia em troca de petróleo, gás, carvão cheira a medo.Só o cheiro a medo autoriza massacres

A Rússia de Putin mente. Fá-lo com um objectivo claro, a manutenção e expansão do seu regime autocrático e cleptocrático e fá-lo por uma única razão: porque pode. Nós, sublinho, nós deixamos. E nós somos as democracias ocidentais, os herdeiros daqueles que as implementaram e as defenderam.

Em 2014, a Rússia invadiu a Ucrânia e ocupou a Crimeia. Negou-o. A Rússia, então, afirmou repetidamente que eram grupos rebeldes, separatistas, e não tropas russas. Publicamente, na Rússia, esta astúcia foi celebrada por muitos pois estava ao serviço de um bem maior: a preservação da sagrada nação russa e o mito da sua milenar duração contra tudo e todos. A popularidade de Putin disparou na altura, tal como agora, porque a Rússia de Putin tem um desígnio para preencher o vazio pós queda do muro de Berlim. Os vazios podem ser lugares terríveis quando não nos confrontamos com eles e com os lutos que nos propõem. O vazio da igreja e dinástico foi substituído pelo comunismo, pelo culto dos seus líderes e a construção de um inimigo congregador. Posteriormente, quando este regime caiu, nada havia para ocupar o seu lugar. Putin tem, progressivamente, oferecido isso, o que quer que isso seja, à Rússia: restabeleceu a igreja, o culto do líder, o nacionalismo, a missão. E a missão é reintegrar no corpo russo o que dele foi retirado sucessivamente, não interessa se pelos mongóis, se pela Grande Armada de Napoleão, se por Hitler ou pelos Estados Unidos ou pela União Europeia ou a Nato. Pela Tchetchénia ou pela Geórgia. Pelo povo ucraniano. Ainda que para isso seja necessário reescrever a história em ensaios onde os factos são rasurados e em discursos de hora e meia. Depois da reintegração a expansão, como claramente afirmou Medvedev, «construir uma Eurásia de Lisboa a Vladivostok». Se dúvidas houvesse. E claro, esta meta é exequível. A Hungria e a Sérvia demonstraram-no este domingo com as reeleições de Viktor Orban e Aleksandar Vucic, pró-putinistas patrocinados.

A verdade tem de ser repetida pelo menos tantas vezes quanto a mentira porque a luta é desigual: a democracia está em recessão. Mas é a democracia que permite pessoas como Alexandre Guerreiro a disseminar propaganda e desinformação russa em horário nobre, como permite a agenda woke e a extrema esquerda. Mesmo quando esta fragmenta e faz da esquerda, do centro e do centro direita, reféns. A democracia permite a esta extrema esquerda asséptica e maniqueísta apelidar todos quantos não subscrevem os itens agendados de «intolerantes, censores, irrelevantes, banais, fúteis e sem referências éticas». A democracia, pasme-se, permite que se vitimizem, triste figura, ao longo de um manifesto Pela Paz e Contra a Criminalização do Pensamento. Até permite a publicação no Expresso, tal é a criminalização.

A Rússia de Putin mente. E fá-lo com rigor propagandístico norteado pelo sempre actual Goebbels, «uma mentira dita uma vez continua a ser uma mentira, mas uma mentira mil vezes repetida torna-se uma verdade». Lavrov tem sido o discípulo incansável desta fé. A Rússia mente. Nega que invadiu a Ucrânia a 24 de Fevereiro de 2022. Nega ataques a civis. Nega a utilização de crianças como escudo. Nega a violação de mulheres e meninas. Nega as execuções sumárias. Nega os massacres hediondos de Bucha como negou os de Mariupol e Irpin como negará quaisquer outros com a vileza acrescida de culpar os ucranianos por esses crimes quando não lhes atribui encenações. Há cidades à fome e à sede e ao frio. Valas comuns. Cadáveres espalhados pelas ruas. Mutilados. Corpos profanados por minas. E o que se passa nos campos de triagem para onde os ucranianos estão a ser levados aos milhares? Famílias ucranianas resistentes nos territórios ocupados estão a ser separadas, despojadas de documentação, internadas aos milhares em campos de triagem, para serem relocalizadas na Rússia, como se não tivéssemos esse pesadelo acordado ainda com as memórias de 1939-45. As informações são da Cruz Vermelha. São relatadas por vítimas e jornalistas, as imagens são confirmadas por satélites. Nada disto é novo. Nada é feito pela primeira vez. A ONU, afirma que investigará para responsabilizar efectivamente os perpetradores. Tem de fazê-lo rigorosamente. O Tribunal Penal Internacional também. Sabemos todos: Putin é um criminoso de guerra. Há anos que o é. Em 1999 já o era. A pretexto do movimento separatista tchetcheno, ordenou uma «operação anti-terrorista» – parece familiar? A operação durou dez anos e foram massacrados milhares de civis, cidades arrasadas, uma carnificina. Ninguém o parou então nem depois na Geórgia onde usou mesma fórmula em 2008. Sanções e um ano depois, amigos como dantes. Síria. Arménia. Cazaquistão.

Nós, para continuarmos a viver em democracia, temos de a defender e isso obriga-nos a tomar uma posição.

O medo é a arma de Putin. É funcional. A economia é o nosso calcanhar de Aquiles. Ambos nos imobilizaram antes, e na situação ucraniana em 2014. Permitiram que fizéssemos de uma questão maior, uma questão regional. Mas esta guerra é nossa. É a nossa forma de vida que está em causa. As nossas liberdades. Dizem «as sanções não podem ser demasiado pesadas». Não podem? Somos colaboracionistas? Cada cêntimo entregue à Rússia em troca de petróleo, gás e carvão, cheira a medo. Só o cheiro a medo autoriza o massacre de civis, sabê-los desamparados e saber que as consequências desse acto são suportáveis e logo passam. A negação da entrada da Ucrânia na NATO cheira a medo. Não armar e equipar adequadamente a Ucrânia cheira a medo. Medinho. Miúfa. E não é o medo que nos vai defender. O medo vai abrir a estrada de Lisboa a Vladivostok.

A autora escreve segundo a antiga ortografia

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publicado às 19:43


1 comentário

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De Zé Onofre a 24.06.2022 às 21:36

Boa tarde,
Tem razão é inademissível que um Estado invada outro e provoque a morte, o sofrimento e a fuga para outras naçõpes dos naturais do Estado invadido, neste caso.
É um crime contra a humanidade que, infelizmente, se tem tornado carniça para os abutres dos orgãos de comunicação. Estes em vez de serenarem os povos levam-nos a radicalismos e a ódios que apenas aumenta a fogueira da guerra. Dar notícias da guerra é obrigação jornalística. Expor morte, sangue, ruínas e filas de homens desesperados à procura de refúgio, não é jornalismo é explorar a miséria humana.
Entretanto esses jornalista que acicatam os povos uns contra os outros, que quase excomungam quem não obedece ao cânon estabelecido para escrever sobre esta guerra onde um Governo Oligárquico combate um Governo Fantoche colocado no poder pelas democracias Ocidentais - uma vez mais reafirmo que esta guerra é um acto ignomioso - poderiam dedicar-se às misérias de outros pontos do Planeta.
Há países, neste nosso Pequeno Mundo, em que a cada minuto morrem 30 pessoas. Morrem com tanta ignomínia como se morre na Ucrânia. Sofrem tanta violência como os cidadãos ucranianos há tanto tempo, e não apenas nestes últimos quatro meses.
Onde estão os jornalistas a percorrerem os Países da África Oriental onde isto se passa ano após ano, décadada após década.
Onde a diferença de uma deshumanidade praticada em àfrica e a outra praticada na Europa? Será que os mortes negras são diferentes das mortes brancas? Será que o sofrimento de uns não é tão forte como a de outros?
Porquê não dar, já não digo mais, um décimo de atenção aos países explorados pela ganância das Democracias Ocidentais, pela ganância de Estados que se dizem "Comunistas" e pela ganância de Oligarcas e Magnatas que se banham em Dólares, em Euros, em Libras, em Rublos, em Yens, em Iuanes e outras, do que se dá à guerra na Ucrânia - injusta, inexplicável, hedionda - ?
Onde estão os Jornalistas para denunciarem os crimes das chamadas "Democracias", que permitem que os Dez mais ricos tenham um rendimento igual ao de 3.100.000 dos mais pobres.
Não é esta realidade tão ou mais ignóbil que a Guerra injusta, inqualificável que a Rússia move à Ucrânia?
Todos somos culpados. Não há inocentes.
Zé Onofre







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