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Editorial

Publicado no jornal Público

27 de Junho de 2022

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Manuel Carvalho

Os novos sinais de perigo que chegam da Ucrânia

O tirano que é capaz de bombardear civis ou que encolhe os ombros perante a ameaça de uma impensável crise alimentar mundial não pensa nem actua num quadro mental em que entra a razão, a emoção ou a humanidade.

A brutalidade da invasão da Rússia continua a exigir mais do que a destruição de cidades. A satisfação dos tiranos do Kremlin não se garante com os combates na frente, o cerco dos inimigos, o bombardeamento táctico ou estratégico de alvos militares. Precisa do terror para se alimentar. Precisa de bombardear centros comerciais povoados por gente normal para mostrar músculo e manter a Ucrânia e o mundo sob ameaça. Se uma potência média resiste desde Fevereiro aos ataques do gigante, a sua punição e a dos que a apoiam têm de se pagar com a barbárie.

Nos últimos dias confirmaram-se as piores expectativas. A mão imperialista que domina o Kremlin e subjuga a Rússia não se contenta apenas com a conquista e a anexação do Donbass. As suas forças militares estão exangues, o seu papel na alta finança mundial está esgotado, mas enquanto houver gás, armas, propaganda e intimidação, Putin não vai parar. Pode haver fome generalizada nos países mais pobres, a Ucrânia pode ficar ainda mais devastada, o isolamento da Rússia no continente onde gosta de ser potência há 300 anos pode adensar-se, mas neste cenário de horrores só parece sobrar a fuga para a frente.

Faz por isso todo o sentido que a NATO e as democracias ocidentais se preparem para o pior. Que agravem as sanções, que reforcem a ajuda à Ucrânia, que tratem de aumentar a sua capacidade de resposta militar rápida para 300 mil homens. O tirano que é capaz de bombardear civis ou que encolhe os ombros perante a ameaça de uma impensável crise alimentar mundial não pensa nem actua num quadro mental em que entra a razão, a emoção ou a humanidade.

A Rússia é hoje muito mais do que nos primeiros dias do conflito uma ameaça para a Europa. A firmeza da resposta ocidental surpreendeu e irritou a fera. O Donbass já não basta. Os receios do envio de tropas para Kaliningrado ou para a fronteira entre a Lituânia e a Bielorrússia ganham consistência. Zelensky quer acabar a guerra até ao final do ano, mas nada nos garante que a Rússia, movida pelo superávite do gás e do petróleo, esteja disposta a aceitar uma meia vitória ou uma meia derrota. A megalomania é uma marca dos déspotas.

No entorpecimento que o tempo começa a causar, convém estar atento. Vivemos o momento mais dramático da história europeia desde a Segunda Guerra, e o cenário pode piorar. A unidade da Europa e da NATO e a certeza moral de que o Kremlin de hoje é uma ameaça à paz e à democracia são dos poucos trunfos de que dispomos para manter o optimismo.

 

 

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publicado às 16:21

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A estratégia que o PCP - Partido Comunista Português tem vindo a seguir após o desaire das eleições, e, mais recentemente, com a invasão da Ucrânia está a desenvolver-se em três frentes.

A primeira frente, a mais recente, é a manutenção da culpabilização da invasão da Ucrânia pelo ocidente tratando o invadido e o ocidente como sendo os agressores. A desculpabilização do agressor é também defendida pelos que, reivindicam um pensamento alternativo, para eles indiscutível, em contraponto ao que eles denominam de pensamento único, que é contra a invasão e que é o errado. Para essa corrente, a Europa, enfeudada aos EUA e à NATO, são os geradores de uma escalada militar belicista.

Pela análise dos argumentos de Vladimir Putin e dos seus seguidores, o ocidente é o meio privilegiado da expansão dos valores negativos da cultura ocidental para a Rússia. É, pois, em nome da autodeterminação dos povos, e não apenas do povo russo, que Vladimir Putin diz prosseguir a sua política externa de forma a romper com os constrangimentos da hegemonia ocidental (ver discursos e intervenções). Ao mesmo tempo insiste em querer preservar a influência de Moscovo no “estrangeiro próximo” que se perdeu com o colapso da URSS (a retórica do PCP está próxima). Todavia a invasão da Ucrânia é demonstrativa da sua contradição por não lhe reconhecer o seu direito à autodeterminação.

A segunda frente do PCP é ideológica e processa-se no âmbito da sua política interna. No partido nada acontece por acaso. O “interior” do partido está rodeado pela discrição onde está enraizada uma ideologia dogmática com certos postulados não sujeitos a crítica e em que é o comité central que faz o ditame do posicionamento ideológico-partidário do momento que obedece a uma liturgia própria. O PCP debate-se, por isso, com o dilema de simultaneamente ter de responder à necessidade de manutenção da sua identidade, cujos valores e princípios são submetidos à ideologia internacionalista do comunismo mais ortodoxo e a vontade do eleitorado que pretende recuperar.

As narrativas produzidas pelo PCP têm vindo a competir com outros discursos existentes no espaço político. Ao longo do tempo, no que se refere a evolução discursiva, desenvolveu algumas alterações na sua terminologia linguística reprimindo algumas expressões e a aceitação de outras pela reformulação de elementos linguísticos que deixaram de ser utilizados na sua antiga formulação com a entrada e a participação do partido no diálogo político que se encetou em Portugal após o estabelecimento do regime democrático, ficando numa espécie de letargia de que tem custado a sair, mas a que parece pretender regressar.

Todavia, ao longo dos anos, ao escutar e ao ler alguns dos discursos dos líderes do PCP tenho verificado que, desde o tempo da URSS e do PCUS (Partido Comunista da União Soviética), até à atualidade, alguns dos pressupostos do PCP mantiveram-se. A NATO continua a ser uma organização agressiva, os EUA capitalistas, imperialistas e agressores e a União Europeia está ao seu mando. Deste modo, faça a Rússia  o que fizer, (leia-se antes Putin), para o PCP estará sempre certa, no pressuposto de que, todos os que considerem como inimigos os de quem sou inimigo, são meus amigos.

Apesar da confusa barracada causada por declarações por figuras do PCP, algumas delas contraditórias, sobre a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin que pode ver aqui e aqui, e em que o líder Jerónimo de Sousa tem afirmado que o PCP garante “não ter nada a ver com o governo russo” nem com Putin o certo é que, os seus militantes e adeptos ao colocarem-se do lado contrário de quem está contra Putin colocam-se, indiretamente, do lado do agressor.

No 101º aniversário do PCP Jerónimo de Sousa afirmou ser “uma calúnia” dizer que o partido apoia a invasão da Ucrânia. Apesar da tentativa de se demarcar do regime de Putin, não foi a ele quem mais atacou. Foi aos EUA que mais apontou o dedo. No mesmo comício, em março, a defesa indireta do agressor que é Vladimir Putin deu-se pelo ataque aos que ajudam o agredido, foi o Ocidente, sobretudo aos EUA, que mais responsabilizou. Narrativa que também tem passado pelas redes sociais pelos seus adeptos. Jerónimo de Sousa apontou “todo um caminho de ingerência, violência e confrontação” que diz ter começado no “golpe de Estado de 2014, promovido pelos EUA, que instaurou um poder xenófobo e belicista”, e que provocou “a recente intervenção militar da Rússia na Ucrânia e a intensificação da escalada belicista dos EUA, da NATO e da União Europeia.” Afinal o que é isto senão a lavagem da política de Putin em relação à Ucrânia? Basta agora acrescentarmos o termo “operação militar especial” que Jerónimo já utilizou para se referir à invasão da Ucrânia. A colagem torna-se ainda mais evidente quando não refere Putin como imperialista nem o coloca em causa pelo que deveria ser para o PCP a tradição leninista da autodeterminação dos povos, já que, Putin responsabiliza Lenine pela independência da Ucrânia por ser o seu "autor e criador".

Os argumentos vindos do Kremlin para a invasão da Ucrânia são apontados ao ocidente, sobretudo à U.E., EUA e NATO o que parece terem dado ao PCP um novo alento. Não é por acaso que os seus capangas ideológicos andam pelas redes sociais e blogues a apoiar indiretamente Putin criticando e colocando-se contra o ocidente. Para o PCP a U.E. e a NATO foram e são uns empecilhos ao avanço estratégico da Rússia para ocidente e um bloqueio à progressão dos desígnios de expansão do comunismo na esperança de que um dia a URSS ou algo parecido regressem.

O PCP, embora esteja contra as políticas capitalistas do Kremlin como diz, ao mesmo tempo está em consonância com a sua política externa. A ambição do Kremlin pelo controle da Europa, pelo menos dos países que pertenceram ao Pacto de Varsóvia, é a hegemonia económica e geopolítica que passa também pelo desmembramento da União Europeia e a NATO que tem sido (e sempre foi) uma pedra no sapato de Putin e que também fazem parte de uma das lutas do PCP.

A terceira frente que não é independente das duas anteriores resulta da pesada derrota nas últimas eleições legislativas que está a fazer com que o PCP regresse ao “show de rua” com reivindicações e greves, com palavras de ordem mais do desgastadas e com o costumeiro radicalismo arcaico e ortodoxo.

As palavras de ordem do PCP voltaram a ser as de um populismo de esquerda para captar as massas populares para a sua luta. Palavras de ordem, as mesmas de sempre, como “aumentar os salários”, “valorizar o trabalho”, “desenvolver o país” às quais acrescentam a inflação e o custo de vida que vieram, em boa-hora, ajudar a direita e a extrema-direita a fazer oposição, como já vimos no Parlamento o PSD a defender aumento na função pública quando anteriormente falava no peso do Estado na economia.

Aprovado o OE para 2022 que o PCP votou contra, juntamente com a direita e com a extrema-direita, pela mão dos sindicatos que controla irá tentar instalar uma instabilidade social artificial com greves, paralisações e manifestações. O seu objetivo é fazer uma oposição de ataque cerrado e de desacreditação da maioria absoluta do Governo do Partido Socialista.

As únicas propostas que o PCP apresenta para melhorar o país são o aumento das pensões, dos salários, a fixação de preços contra o grande capital. Fixação de preço que resultaria em faltas nos abastecimentos de produtos básicos essenciais para as populações, sobretudo as urbanas, em filas para a compra de produtos essenciais como se verificava na ex-URSS da chamada economia planificada do regime comunista.

A economia da URSS era tão planificada que, depois da sua dissolução as privatizações de grandes empresas foram parar à mãos de quadros, antes fiéis do PCUS-Partido Comunista da URSS e “gestores” dessas mesmas empresas do Estado, que são atualmente os grandes oligarcas da Federação Russa e cuja maioria ainda está do lado de Putin.

Ainda no sentido desta terceira frente e aproveitando a atual conjuntura internacional devido à invasão da Ucrânia seguida do pedido de adesão à U.E., o PCP luta com as armas desestabilizadoras que tem ao seu dispor para dar apoio, mal disfarçado, à política de Vladimir Putin. Esta posição é coerente com a nota do gabinete de imprensa do PCP de 22 de fevereiro deste ano.

Há ainda a salientar a despropositada conferência que o PCP organizou no ISCTE na passada terça-feira, em Lisboa, para analisar as “consequências do uso do euro para o país se este rumo se mantiver” e as “possibilidades para concretizar uma rutura”. Parece-me que Putin terá ficado agradecido, assim como o PCFR.

O PCP faz um balanço negativo da adesão ao euro e destes 20 anos em que a moeda esteve a circular baseia-se na perda de soberania sobre a sua política monetária, cambial e orçamental; nos períodos de recessão ou estagnação económica, tornou-se mais endividado e dependente, perdeu capacidade produtiva, e não convergiu com a média da União Europeia. “Temos o dever de perguntar: como serão os próximos 20 anos? Vamos resignar-nos a este cenário?” questiona o PCP. Os argumentos parecem ser idênticos aos da extrema-direita quando está contra a U.E.

Os comunistas realçaram na conferência, organizada pelos eurodeputados do PCP, que “A permanência no euro já é suficientemente longa para se tirar conclusões independentes das conjunturas e dos governos. Este é o tempo de recordar a propaganda e as promessas então feitas e de as conformar com os impactos reais da adesão. Mas é sobretudo o tempo de pensarmos o presente e o futuro. Este debate assume recusar inevitabilidades”.

A proposta e a estratégia do PCP ao adotar uma estratégia anacrónica para criticar a presença de Portugal no Euro vai no sentido de que Portugal fique novamente “orgulhosamente só”, tal como proferiu Salazar num discurso em 1965 quando o mundo se opunha à manutenção do colonialismo. É lamentável que após 57 anos, embora num contexto distinto, mas igualmente severo, o PCP esteja a querer encaminhar Portugal para o desastre.

A discussão veio facilitar a abertura do tema que está no alinhamento com Putin ao aperceber-se de uma Europa Unida pelo que há que estilhaçar esta perigosa união. Não nos admiremos se a extrema-direita vier também a alinhar com a ladainha comunista sobre a U.E. Temos visto nos últimos anos como a extrema-direita na Europa tem trazido para a discussão populista a verborreia contra a União Europeia.

Enquanto continua a haver países de leste, nomeadamente a Moldávia, que pretendem entrar para a U.E. e para a NATO/OTAN e para zona Euro, coisa que o presidente Vladimir Putin vê como um cerco à Rússia, e o Reino Unido acha que terá sido um erro a sua saída da U.E. o PCP continua a propor a saída de Portugal do Euro. Não é novidade, a sua coerência reside no facto de ter estado sempre contra a entrada de Portugal para a U.E. e para a zona Euro que, para aquele partido, é uma organização “defensora do grande capital”. Aliás, em 2016, o PCP defendia “derrotar a União Europeia, criar ‘outra Europa’ dos trabalhadores”. Qual? A da ex-URSS?

De facto, parece-me estranho que o PCP nas atuais circunstâncias esteja novamente a levantar a discussão e a colocar em causa o Euro e a U.E. Caso fosse desmantelada a U.E. esta ficaria dividida e a porta ficaria aberta ao imperialismo de Vladimir Putin. Neste aspeto o PCP é coerente porque sempre foi contra a U.E., mas, saído das “amarras” de compromissos de apoio parlamentar com o PS encontrou novamente o folego e a oportunidade para, ao arrepio da guerra da Ucrânia, se aproximar dos pontos de vista de Vladimir Putin cuja filosofia é contra a E.U. e contra o Euro por ver neles um empecilho apesar de a ter enfeudado ao fornecimento de gás e petróleo da Rússia.

Este debate sobre o Euro não surge por acaso e regressa com os mesmos estribilhos já bem conhecidos.

Convém também não esquecer que este espírito anti U.E. e anti NATO foi também a do anterior presidente dos EUA Donald Trump que esteve empenhado no seu enfraquecimento como realçou o Presidente francês Emmanuel Macron em 2019: “O que estamos a assistir é a morte cerebral da NATO", devido às decisões do presidente norte-americano sobre a Aliança Atlântica e também pelo comportamento do presidente turco”. A invasão russa da Ucrânia ocorreu num momento de enfraquecimento da NATO e não de um ostensivo e concreto alargamento até à fronteira russa.

O PCP sabe que a política externa de Vladimir Putin se pauta pelo confronto com os países ocidentais como se tem verificado há algum tempo. Os comunistas do PCP encontraram agora uma oportunidade de fazer eclodir uma discussão sobre o Euro porque a conjuntura da invasão da Ucrânia, a que também Jerónimo de Sousa chamou “operação militar especial”, e a que, claramente, nunca se opuseram, a não ser em falar em abstrato na paz que dizem pretender.

O presidente Vladimir Putin, para justificar os seus objetivos argumenta que se está a criar um “cerco estratégico”, o que é falso, e, de acordo com esta narrativa, traçou uma política externa que diz ser defensiva. Independentemente da avaliação que possamos fazer quanto a esta linha de argumentação, há uma verdade inequívoca: as ações de Moscovo ao longo dos últimos anos quer na Moldávia, na Geórgia, na Crimeia e agora na Ucrânia, as ações de Moscovo desfizeram dúvidas quanto à postura bélica assumida pelo presidente Putin.

 

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publicado às 16:17

Afinal as cassetes ainda existem

por Manuel_AR, em 13.05.22

“A conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa”. (Palavras do líder do Partido Comunista da Federação Russa, numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscovo a 3 de abril de 2022)

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O grande perigo para a Europa e para o Mundo não vem da NATO, nem dos EUA, mas do presidente Vladimir Putin. A pergunta que se coloca é a de saber se a Suécia e a Finlândia teriam pedido com brevidade a entrada na NATO caso Putin não tivesse invadido a Ucrânia. Putin passou a ser um fator de instabilidade também para a União Europeia que, segundo ele, teria a pretensão de desagregar.

Agora um ditador candidato a “imperador” quer pressionar a Finlândia, país autónomo, soberano e independente, a não aderir à NATO e, por isso, ameaça tudo quanto mexe. Desde quando um país obriga outro a seguir os seus ditames com a justificação de se sentir ameaçado. Por aqui vê-se quem ameaça o Mundo e qual a sua estratégia para o enfraquecimento dos mecanismos de proteção e defesa dos países que os rodeiam.

Putin nunca viu com bons olhos que Helsínquia aderisse em 1995 e encontrasse na União Europeia o seu espaço estratégico preferencial. A questão da adesão à NATO nunca se tinha colocado apesar de ser essa a preferência de grande maioria dos finlandeses.

Vamos ver se a Turquia deixará, ou melhor, não se oporá!

Putin, em vez de fazer uma aproximação à Europa e ao ocidente optou por se dispersar com divagações pouco credíveis conforme é citado no Kremlin: "O nosso dever comum é impedir o renascimento do nazismo, (o sublinhado é meu), que trouxe tanto sofrimento aos povos de vários países. É necessário preservar e transmitir (...) a verdade sobre os acontecimentos da guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade e irmandade". Palavras vazias sem sentido e que contrariam as suas ações pois atua pior do aqueles que diz estar a combater.

No dia 8 de maio Vladimir Putin, por ocasião do 77º aniversário da “Vitória na Grande Guerra Patriótica”, enviou mensagens de congratulações para vários países onde declarava, repetindo qual cassete gravada, que "Hoje, o dever comum é evitar o renascimento do nazismo, que trouxe tanto sofrimento para as pessoas de diferentes países. É preciso preservar e passar aos descendentes a verdade sobre os acontecimentos dos anos de guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade fraterna".

Que valores são estes a que se refere vindos de quem agride, ameaça, causa sofrimento com falsas justificações através de uma retórica mentirosa como a de “impedir o renascimento do nazismo” quando os seus atos, práticas e discursos contradizem o que ele diz querer evitar?

A utilização de forma genérica, mas específica, das palavras nazismo e desnazificação aplicados ao caso da Ucrânia não surgem por acaso. Foram escolhidas porque ele sabe que a nível mundial, estas palavras estão ainda bem presentes nas memórias coletivas dos povos e têm uma carga muito negativa. Daí a insistência no apelo demagógico contra o renascimento do nazismo passando a mensagem de que ele é o libertador das nações oprimidas pelo nazismo.

Falar de desnazificação e acusar a NATO de ser a responsável pela agressão à Ucrânia é, pelo menos, risível. São estratégias de desvirtuar informação apontando a outros, erros, falhas, atitudes e intenções que não servem senão para ocultar as do agente emitente. Como em qualquer totalitarismo, na Rússia de Putin a desinformação, a mentira, a mentira por omissão e a deturpação de factos são a regras aplicadas ao povo.

Porém, podemos questionar em que diferem as atuações de Putin daqueles que ele diz querer libertar os povos.  Nazismo é um tipo de fascismo totalitário com forte natureza nacionalista, agravado por radicalismos racistas, étnicos e xenófobos. A Rússia do presidente Vladimir Putin é uma autocracia com uma forte componente totalitária que se estende à regulação de todos os aspetos da vida pública e privada da Rússia, conforme informações que vão chegando ao nosso conhecimento. A Rússia é governada, na prática, pelo poder de uma única pessoa política e de fação personalizado em Vladimir Putin cuja autoridade não tem limites. A Duma (câmara baixa da Assembleia Federal da Rússia), não passa de um conjunto de deputados que são uma espécie de “Yes men”, até mesmo o Partido Comunista da Federação Russa, de que irei escrever mais adiante.

Como nos regimes totalitários e no nazismo Vladimir Putin tem implementado no seu país, repressão, perseguição a opositores, censura obstinada que proíbe publicação de informação que lhe seja desfavorável tornando-a inacessível às populações, etc.. Por outro lado, Putin tem apoiado financeiramente partidos xenófobos e racistas da extrema-direita na Europa. O que é isto afinal?

Lamentável é também haver em alguns países do ocidente partidos e pessoas que, dizendo-se democratas, apoiam ditaduras e um ditador que invade um país soberano. Neste alinhamento também se encontram os que dizem estar a favor do povo e da cultura russa, o que é indubitavelmente aceitável, mas são também esses os que defendem, tipo "copy paste", o pensamento presente nos argumentos discursivos de Vladimir Putin.

Tudo isto conduz-me, mais uma vez, aos argumentos do PCP em relação à invasão da Ucrânia. Em primeiro lugar, é preciso também que se entenda o pensamento do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa que “aplaude” a decisão de Putin sobre a “intervenção militar” na Ucrânia, basta ler os discursos de Gennady Zyuganov, líder daquele partido.

Recuemos então seis anos, 2016, e recordemos o que o líder do PCP disse no discurso de abertura do XX Congresso do PCP, em Almada, acerca da União Europeia e do Euro a quem não poupou críticas por serem, segundo ele, a “fonte dos maiores males dos portugueses”. Dizia então Jerónimo de Sousa, referindo-se a um discurso feiro no Parlamento Europeu sobre o Estado da União Europeia que, segundo ele, não se tratava de "maquilhar, refundar ou democratizar" a União Europeia (UE). Nem "mudar alguma coisa para ficar tudo na mesma". Disse que os comunistas não estão aqui para isso. Querem mesmo mudar o mundo e, quanto à UE, "articular ruturas que permitam construir uma outra Europa". Isso mesmo, mudar o mundo para que lado? O que pretenderia ele dizer na altura com a construção de uma nova Europa? Seria uma espécie de premonição do que se iria passar?

Mesmo com uma pequena margem de erro é o que, atualmente, o presidente Vladimir Putin e o seu partido Rússia Unida acolitado pelo Partido Comunista da Federação Russa, têm afirmado. Cada um que tire as ilações que entender.

Recentemente as palavras de Jerónimo de Sousa também não levantam dúvidas sobre o seu alinhamento com o seu congénere da Rússia, o PCFR,  e com Putin ao considerar que não houve uma invasão nem que há uma guerra na Ucrânia causada pela Rússia, mas sim “uma operação militar” embora acrescente que o PCP “condena”.

A subtileza passa a  evidência quando se refere a “operação militar” em vez de guerra (de facto, não houve formalmente uma declaração de guerra),  mas enfileira com a retórica de Putin apesar de, como disse, ser capitalista, única verdade.

Jerónimo de Sousa, no entanto, admite, contradizendo-se, que “Há uma guerra, isso é incontornável”, e esclarece que “é claro para o PCP que estamos perante uma Rússia capitalista” da qual “o PCP claramente se demarca”, “não tendo nada a ver” com Putin. Jerónimo de Sousa é muito hábil só que, por acaso, não deve ter lido os discursos de Putin e do secretário-geral do PCFR, ou, se os leu, fez-se de esquecido.

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Vamos lá ver então se eu entendo: “não houve uma invasão”; “houve uma operação militar”; “há uma guerra e isso é incontornável”.

Analisemos então qual a aproximação das narrativas do PCP com a intervenção do líder do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, em 3 de abril de 2022 numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscou sob o tema “Temos que resistir e vencer.”, onde o líder do Partido Comunista da Federação Russa recordou a solidariedade das forças patrióticas de esquerda do mundo. A ortodoxia no seu melhor.

Gennady Zyuganov tem a certeza de que o objetivo “é derrotar o nazismo e o fascismo, caso contrário, se espalhará por toda a Europa "e muitos jovens terão que usar sobretudos". Nazismos e fascismo são palavras coincidentes nos discursos de Putin e de Zyuganov. O chefe da fação comunista afirmou ainda na Duma do Estado da Federação Russa que "Se todos nós – a Duma, o Conselho da Federação e o Conselho de Segurança – apoiamos a operação especial, devemos explicar às pessoas o que estamos a perseguir, por que é que apoiamos ativamente os que defendem fielmente o mundo russo, a nossa língua, dignidade e Donbass, e a nossa amizade com a Ucrânia."

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Em 19 de abril já tinha afirmado algo sobre a “mentalização” pró militarista agressiva dos jovens russos ao dizer que "acreditava que nas escolas e nas universidades haveria muito trabalho para explicar a situação em que todos nós nos encontramos. Mas não vejo e não sinto isso nem nas atividades de ministros, professores, diretores de escolas ou figuras culturais", disse Gennady Zyuganov.

Zyuganov chega a lembrar as palavras do presidente Putin numa reunião com jornalistas estrangeiros em outubro de 2021 onde disse, (no contexto dos problemas socioeconómicos da humanidade que pioraram e que houve turbulências em escala global) que "O modelo existente de capitalismo na grande maioria dos países esgotou-se". Zyuganov acrescenta ainda que "Olhando para Biden, esta múmia ambulante, que ameaça todos, torna-se assustadora para a América". O líder do PCFR disse ter tirado uma conclusão ao observar que a Alemanha começou novamente a apoiar o nazismo, e a França está totalmente dançando ao som americano. O segredo foi revelado, é o ódio aos EUA. É assim que as coisas começam, agressões imaginárias, ódios, seja ao que for, como etnias, raças, nações, países que servem como bodes expiatórios para justificarem agressões e perseguições. É assim o nazismo!

Zyuganov afirmou ainda que “vamos ter de lidar com todos os desafios, porque, na sua maioria, os cidadãos do espaço pós-soviético já entenderam quem é o organizador da nova agressão. E toda a conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa. "Estamos presentes no final do conto de fadas sobre o mercado, sobre o livre comércio, sobre a liberdade de expressão", continuou o líder comunista (os sublinhados são meus). Sobre política externa da Rússia Zyuganov observou ainda a importância da interação da Rússia com a China, Índia, Vietname, Irão, Paquistão e Turquia.

Terminou prometendo que “Faremos de tudo para trazer paz à Ucrânia fraternal. Faremos tudo para desenvolver a nossa união", e que "vem uma nova etapa no processo de integração. E tenho certeza de que o Partido Comunista e as forças patrióticas de esquerda estarão na vanguarda deste trabalho, preparando-se para o centenário da formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas", concluiu o líder do Partido Comunista da Federação Russa. A mensagem de agressividade deste senhor líder de um partido que fala em paz, amizade e fraternidade está patente no seu discurso no “Dia da Vitória na Grande Guerra Patriótica”.

A razão por que inclui estas passagens do discurso de Zyuganov é por que, nas entre linhas, encontram-se pontos de vista aproximados aos de Putin que o PCP parece perfilhar fazendo-o através de narrativas travestidas que não evidenciam substância e cuja conversa é apenas o que está na superfície para convencerem e apelar a potenciais adeptos.

Mais recentemente numa intervenção num comício no dia 1º de Maio de 2022 o líder do PCFR, Gennady Zyuganov, afirmou que “agora na Ucrânia, a Rússia está a lutar principalmente por um mundo multipolar. “Estamos lutando pelo mundo russo, porque o mundo russo não está nos planos deles”.

A propaganda de Putin tem conseguido ter eficácia junto dos seus agentes e adeptos no ocidente e tem como grande aliado o Partido Comunista de Federação Russa. Comparando tantas opiniões, até da esquerda, que se indignam contra a incapacidade de alguns em condenar uma agressão imperialista assinada por um regime autocrático, verifica-se de facto quem está a fazer uma “tentativa de impor, à escala do povo, um pensamento único”, na Rússia e também aqui em Portugal.

Há pessoas que parecem ser crédulas por vontade própria que se deixam contaminar por invenções demasiado extraordinárias para que sejam autênticas veiculadas pelos canais de propaganda de Putin, tais como a da necessidade de desnazificar a Ucrânia, os laboratórios onde se preparam armas químicas na proximidade da Rússia, o genocídio dos que falam russo. O que está a acontecer é que, na minha opinião, a invasão da Ucrânia, serviu para mascarar as fraquezas internas da Rússia por ele causadas. Quem nos pode garantir que os que escrevem contra o ocidente apoiando as retóricas de Putin é que estão na posse da verdade e que todas as outras são mentiras?

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publicado às 14:23

Opinião

Uma coisa é Putin, outra a Rússia

O agressor não é o povo russo, é Putin e a sua corte militar e civil, mas o agredido é o povo ucraniano, seja quem for quem o governe.

Foto A Vladimirka, de Levitan, a estrada para o exílio na Sibéria DR

Eu tenho as melhores memórias da Rússia, melhor, eu devo muito à Rússia, e por isso me repugna confundir Putin com “os russos”, como agora se faz. Mais do que essas memórias, tenho uma grande admiração pelos russos e, quanto à cultura russa, ela “fez-me”, tanto como tudo o resto.

Conheci a Rússia ainda era URSS e depois logo a seguir, nos anos conturbados de transição, e no retorno a essa maldição russa, a autocracia, a ditadura. Lembro-me de um russo, membro da Duma, provavelmente do Partido Comunista, feliz por encontrar estrangeiros, convidar-me a ir a sua casa, muito modesta, num daqueles blocos de apartamentos dos subúrbios de Moscovo, iguais aos que os mísseis russos estão a destruir em Kiev. Abria os armários onde tinha a sua reserva de comidas “especiais”, aquelas que era difícil arranjar, por exemplo, uma espécie de fiambre, e oferecia-as ao “estrangeiro” por pura generosidade, porque nada tinha a ganhar com o que estava a fazer. Falámos do Hadji Murat, de Tolstoi, que ele tinha tido de estudar na escola, uma história do “império” que muito provavelmente tínhamos “lido” de forma muito diferente.

Foto Edifícios bombardeados em Kiev ROMAN PILIPEY/EPA

Saí pela porta daqueles prédios sinistros e hoje nem me lembro do nome do homem e da família que o acompanhava, mas sei o que significou a palavra hospitalidade. Havia uma proximidade muito parecida com a nossa, sem cerimónias nem protocolos, apenas companhia e conversa, entre dois mundos que estavam bastante longe na geografia e mesmo na história. O meu, por muito mau que fosse, com 48 anos de ditadura, o dele com a tragédia dos milhões de mortos às costas, alguns da sua família. Tragédia não é uma palavra leve, mas não se conhece nada da Rússia sem a perceber. E, no entanto, eu sabia que ele era da burocracia do poder soviético em extinção, e ele que eu era do “inimigo”. Mas, como já disse várias vezes, aquele foi um período excepcional em que as coisas podiam ter evoluído de forma diferente. Ou talvez não.

A Federação Russa de Putin estava a caminho, melhor, já lá estava. Conheci oligarcas, burocratas, militares, membros do PCUS, e não era difícil perceber que, à medida que se subia na escala do poder e do dinheiro, aumentava a brutalidade, na proporção directa do sofrimento histórico do povo russo em nome do qual exerciam o poder, e com essa indiferença pela violência quando os seus interesses estavam ameaçados. Indiferença que começava nos “seus”, em nome dos quais falavam.

Mas, na conversa anódina com o meu anfitrião russo, o território comum era o muito que aprendi sobre a Rússia e que veio dos livros, essa forma de saber cada vez mais desprezada pela ignorância atrevida das redes sociais e do mundo obsessivamente presencial dos dias de hoje. Foram estas memórias e a Rússia de Pushkin, Turgueniev, Tchekov, Tolstoi, Tsvetaeva, Akhmatova, Pasternak e Soljenitsin que me ajudaram a nunca me ter enganado sobre Putin. Em 2014, escrevi a propósito da sublevação da Praça Maidan que “a questão da Ucrânia chegou aqui, porque os europeus e os americanos foram irresponsáveis e atiçaram um conflito para que não tinham saída viável, e porque Putin é perigoso e não é de agora”.

Também não me enganei sobre Putin, nem sobre a elite dirigente da Ucrânia, sobre a qual convém não ter muitas ilusões, em particular não retratando esta guerra como uma guerra entre a democracia e a ditadura, mas sim como outra coisa: uma guerra entre um agressor e um agredido. O agressor não é o povo russo, é Putin e a sua corte militar e civil, mas o agredido é o povo ucraniano, seja quem for quem o governe. Esta diferença é aquela que, não sendo feita, faz com que quem a omite fique do lado do agressor. E nesta guerra ficar do lado do agressor é espezinhar a liberdade, a soberania, o direito, a humanidade e as pessoas. Não as pessoas “especiais”, mas as pessoas comuns.

Admito que a maioria dos russos apoie esta guerra e não é apenas porque a censura de Putin evita o conhecimento do que se passa e a dura repressão impede qualquer liberdade para o protesto. Proibir e prender, agredir e matar é uma coisa que quem tem o poder na Rússia sabe muito bem fazer desde sempre, da Okrana à Cheka, ao KGB e ao SVR, dos czares, passando por Estaline, até Putin. Mas o que também faz parte dessa tragédia russa é que alguma da sua cultura esteja exactamente nos antípodas dessa violência, e que descreva melhor do que ninguém a combinação da obediência e da rebeldia, que a história com h pequeno fez ao povo russo, aos “humildes”. Nestes dias é do conto de Tolstoi Aliocha, o Pote que me lembro, descrevendo a sua morte após cair de um telhado:

Surpreso com alguma coisa, estendeu a mão e morreu.”

O autor é colunista do PÚBLICO

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publicado às 12:52

Por favor não desculpem o agressor!

por Manuel_AR, em 23.04.22

OPINIÃO

PCP: ocultar que há um agredido e um agressor

José Pacheco Pereira

In jornal Público, 23/04/2022

Jornal Público.png

Quem justifica, legitima, favorece, protege o PCP com o seu discurso contorcido sobre a guerra? Os russos. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

Falar em guerra sem nomear o agredido e o agressor, e tirar daí consequências, é colocar-se do lado do agressor. Quem beneficia na apresentação neutral da “guerra”? O agressor. Quem beneficia numa defesa da “paz” que trata os beligerantes como iguais? O agressor. Quem fala em detalhe dos males de “uns” (os ucranianos) e genericamente e sem pormenores dos males dos “outros” (os russos) não está do lado da “paz”, mas da guerra. Quem justifica, legitima, favorece, protege o PCP com o seu discurso contorcido sobre a guerra? Os russos. Toda a gente percebe, a começar por muitos eleitores, simpatizantes e militantes do PCP, por isso é que esta situação é devastadora para o PCP. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

O problema do PCP não é um remake do caso da Checoslováquia, como por aí se diz. Na invasão da Checoslováquia, havia de um lado a URSS e do outro um processo que os soviéticos consideravam ser de subversão do socialismo e do campo socialista. O PCP podia entender que devia estar de um “lado” contra o outro, porque um dos lados lhe era próximo ideológica e politicamente. Onde é que há hoje algo de remotamente parecido com “o lado” da URSS?

O PCP diz que o lado” ucraniano é péssimo, mas diz também que não se identifica com o outro” lado com Putin. Se é assim, porque não trata os dois lados” da mesma maneira e se põe à margem? Se o conflito é entre a NATO e o regime de Putin, que é para todos os efeitos igualmente maléfico, por que razão o PCP acaba encostado a um dos lados, sempre pronto para o justificar pela equivalência? Por que razão, entre aquilo que considera o militarismo da NATO e a “violação do direito internacional” por Putin (um gigantesco eufemismo), entre o lado agressivo da NATO e o autocrata belicista, o PCP sente-se mais confortável com o segundo, que protege até pela terminologia cautelosa e moderada com que o trata? Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

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Nem a Polónia, em 1939, nem a Ucrânia, em 2022, eram democracias perfeitas, mas havia um agressor e um agredido DR

Não adianta vir com a história de que a “guerra” começou em 2014, porque esta de que estamos a ser testemunho começou em 2022. E, em 2022, não há um único factor que justifique a invasão da Ucrânia, não há motivo forte, nenhuma provocação, nenhum acto novo de envolvimento da NATO, nenhuma colocação de tropas americanas na fronteira, nenhum exercício militar conjunto, nenhuma manobra daquelas que se usam para preparar uma invasão. Nem pouco nem muito, não há mesmo. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

Vamos admitir que o que Putin diz é verdadeiro (quase nada é…) e que a Ucrânia é governada por nazis (falso, embora haja demasiados nazis na Ucrânia como na Rússia, e na Europa, os que Putin financia), que são corruptos (verdade, como na Rússia os amigos de Putin), que reprimem o russo e a cultura russa no Donbass (em parte verdade), que perseguem os partidos pró-russos (idem), que assassinaram muitos ucranianos pró-russos (os números são fantasiosos, mas havia uma guerra de fronteiras em curso com a intervenção da Rússia), que querem entrar para a NATO (querer, querem, só que a NATO não os aceitou), e que desde 2014 existe uma guerra escondida naquela parte do mundo (que, se houvesse, seria conforme o direito internacional, depois da anexação da Crimeia e do apoio às milícias pró-russas no Donbass). Pelo contrário, os países ocidentais da agressiva NATO engoliram a conquista territorial russa da Crimeia com o rabo entre as pernas. Nem disso Putin se pode queixar. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

Mesmo que se admita tudo isto (insisto que não é verdade a maioria das coisas), que o PCP repete numa lógica que só serve para a legitimação da invasão, o que é que aconteceu de muito grave em 2022 que levou Putin a preparar, negar e depois começar uma invasão maciça da Ucrânia? Nada. É uma pura agressão, uma pura guerra de grande escala que inclui desde início a ameaça do nuclear, o ataque a civis (incontroverso em geral, mesmo que nalguns casos possa haver montagens), e o PCP vem agora falar com neutralidade de uma “guerra” com dois lados igualmente culpados, um muito mais do que outro, o do agredido. Tretas. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

A atitude do PCP não afecta apenas o PCP, afecta a saúde da democracia muito para além do partido. Permitiu à direita radical encontrar um adversário a jeito e o que deseja é a ilegalização do PCP. Não o diz, por falta de coragem, mas é o que está lá. E o PCP, enfraquecendo-se por culpa própria, fez um enorme favor à direita radical, e não é pelo encolhimento do voto dos comunistas, mas pelo enfraquecimento do movimento sindical em particular.

Pode-se afirmar que a CGTP segue a estratégia do PCP, politiza as lutas a favor da ideologia e política do PCP, tem uma visão marxista da sociedade e da “luta de classes”, pode-se dizer isto tudo, até porque é verdade. Mas com a crescente indiferença, para não lhe chamar outra coisa, dos partidos sociais-democratas, PS e PSD, sobre os direitos dos trabalhadores, um operário ameaçado de um despedimento colectivo predador, um empregado de supermercado obrigado a condições de trabalho degradantes que o Estado não controla como deve, uma trabalhadora vítima de assédio, sem meios nem recursos para ir a um advogado, todos os que são explorados por salários de miséria (sim, isto existe) e querem reivindicar os seus direitos e a dignidade do trabalho, todos eles precisam de uma força que encontravam num já muito debilitado movimento sindical e sem o qual não há democracia. O PCP, para além de se ter perdido a si mesmo, acabou por fazer, nas suas palavras, o maior frete possível ao “patronato”. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

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publicado às 17:21

Ucrânia e Putin-8.png

Quem tiver paciência para ler na íntegra os discursos do Presidente Vladimir Putin antes e depois do 24 de fevereiro, data triste marcada pela invasão da Ucrânia pelas suas forças, encontrará nos artigos e opiniões escritos pelos que se dizem não pertencer ao “pensamento único do rebanho” muitas semelhanças, algumas passagens parecem ser frases transcritas sobre as causas da invasão fazendo parecer que são o ocidente, a OTAN, os EUA e a U.E. os grandes responsáveis por tal ato alinhando com as teses de Moscovo e, claro, como a da Embaixada Russa em Portugal.

Parecem querer deixar claro que as vítimas só merecem solidariedade quando são perfeitas, daí as acusarem de erros e outras culpas. Para esses se não há vítimas perfeitas, não há solidariedade para com eles nunca. É uma nova moral, a deles, que nos querem quase impor.

Elencam os defeitos ucranianos merecedores do inferno, por não serem os meninos bem-comportados que deviam ser. Se os ucranianos não são isentos de quaisquer culpas e serem por eles vistos como inocentes, então, não se pode reclamar dos alegados injustos e perversos crimes de guerra russos cuja responsabilidade não é dos russos, mas do seu chefe máximo Putin. Para esta gente as vítimas só merecem solidariedade se forem univocamente perfeitas e, como não há vítimas perfeitas, então não são nunca merecedoras de solidariedade.

Cito abaixo, com realce, algumas das citações dos argumentos do discurso de Putin publicado por alguns órgãos de comunicação russos a 24 de fevereiro de 2022 titulado com “O discurso do Presidente à nação em conexão com a situação no Donbass”.

Putin: Assim, começarei com o facto de que a Ucrânia moderna foi inteiramente criada pela Rússia, mais precisamente, bolchevique, a Rússia comunista. Este processo começou quase imediatamente após a revolução de 1917.

Putin parece prender ser o interprete único da história russa. A Ucrânia não deixou de ser um país por ter sido anexado durante a Revolução Soviética:

A Ucrânia não deixou de ser um país por ter sido anexado durante a Revolução Soviética, como também o foram outros países depois da II Guerra que ficaram sob a alçada da ex-URSS.

Putin omite factos históricos ao referir-se apenas à Ucrânia moderna. Mas um país, não é por isso que deixa de ser soberano e de existir historicamente. A Rússia moderna também foi criada pelos mesmos e não foi por isso que deixa de ser um país independente e soberano!

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Putin: sem qualquer autorização do Conselho de Segurança da ONU, …eles (o ocidente) conduziram uma sangrenta operação militar contra Belgrado, usaram aviação, mísseis bem no coração da Europa.

Os factos:

A operação militar foi decidida após o fracasso das negociações para terminar o conflito no Kosovo entre os separatistas armados albaneses do Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) e as forças sérvias comandadas pelo líder nacionalista Slobodan Milosevic.

A intervenção da NATO, com o objetivo de evitar uma limpeza étnica e crimes de guerra como os sucedidos em Srebrenica ou no cerco a Sarajevo, não teve a aprovação do Conselho de segurança da ONU após veto da Rússia e da China (entre os membros permanentes).

Em resultado dos bombardeamentos, a Jugoslávia retirou-se do Kosovo, que se tornou num país de facto, apesar de não ser reconhecido por um número suficiente de países. É no Kosovo que os EUA têm a maior base militar fora do país.

Slobodan Milosevic acabou por se demitir em 2000 face a manifestações e no ano seguinte foi preso e levado para Haia, onde o Tribunal Penal Internacional para a Ex-Jugoslávia o acusou de crimes de guerra e contra a humanidade. A sua morte por ataque cardíaco, em 2006, impediu o desfecho do caso.

***

Putin: …Temos que lembrar esses factos, porque alguns colegas ocidentais não gostam de recordar esses eventos, e quando falamos sobre isso, eles preferem apontar não para as normas do direito internacional, mas para as circunstâncias que eles interpretam como bem entenderem.

Antes da invasão da Ucrânia terá Putin, olhado para as normas do direito internacional? Este argumento é também utilizado pelos que se colocam ao lado de Putin, ao recorrer ao”mau comportamento” do ocidente para justificar a agressão. Parece que, neste caso, quem coloca de lado todas as normas e pratica crimes de guerra como os que se têm visto pelos órgãos de comunicação é o próprio Putin com a invasão após a data do discurso.   

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Continua o discurso:

Putin: Depois foi a vez do Iraque, Líbia, Síria. O uso ilegítimo da força militar contra a Líbia, a perversão de todas as decisões do Conselho de Segurança da ONU sobre a questão líbia levou à destruição completa do Estado, ao fato de que surgiu um enorme foco de terrorismo internacional, ao fato de que o país mergulhou em uma catástrofe humanitária, no abismo da guerra civil de longo prazo que ainda não cessou. A tragédia à qual centenas de milhares e milhões de pessoas estavam condenadas, não só na Líbia, mas em toda esta região, deu origem a um êxodo migratório em massa do norte da África e do Oriente Médio para a Europa.

Foi preparado um destino semelhante para a Síria. As ações militares da coligação ocidental no território deste país sem o consentimento do governo sírio e a sanção do Conselho de Segurança da ONU nada mais são do que agressão, intervenção.

Em 2015, as Forças Armadas foram usadas para colocar uma barreira confiável à penetração de terroristas da Síria na Rússia. Não tínhamos outra maneira de nos proteger.

Os factos:

Os factos foram intencionalmente distorcidos no discurso para que Putin tivesse argumentos para uma despropositada comparação com a invasão que lançou sobre a Ucrânia, esquecendo a sua intervenção na Síria para a apoiar o ditador Assad.

Uma coligação liderada pelos EUA também realizou ataques aéreos e mandou forças especiais para a Síria a partir de 2014 para ajudar uma aliança de milícias curdas, árabes, assírias e turcas chamada de Forças Democráticas Sírias, as FDS, que antes estava dominando pelo Estado Islâmico. As (FDS) defendem um governo secular, democrático e federalista em território sírio.

O Presidente russo, Vladimir Putin em 2015 mobilizou as suas tropas para ajudar Bashar al-Assad na guerra civil na Síria que já leva mais de uma década. Em 2016 a zona oriental de Alepo era conquistada pelo regime às forças da oposição, com a ajuda da força aérea da Rússia, que reduziu praticamente a ruínas uma das cidades mais antigas do mundo.

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Putin: Após o colapso da URSS, a redivisão do mundo realmente começou, e as normas do direito internacional que se tinham desenvolvido naquela época – e a chave, as básicas foram adotadas no final da Segunda Guerra Mundial e consolidaram em grande parte seus resultados – começaram a interferir com aqueles que se declararam vencedores na Guerra Fria.

O saudosismo:

Putin mostra-se saudosista e elogia indiretamente o passado ao tempo da URSS para imputar ao ocidente a culpa de todos os males que inclusivamente levaram ao fim da Guerra Fria.

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Putin: … a invasão do Iraque também sem qualquer fundamento legal. Como pretexto, eles escolheram as supostas informações confiáveis disponíveis para os Estados Unidos sobre a presença de armas de destruição em massa no Iraque. Como prova disso, publicamente, diante dos olhos de todo o mundo, o Secretário de Estado dos EUA sacudiu algum tipo de tubo de ensaio com pó branco, assegurando a todos que esta é a arma química que está sendo desenvolvida no Iraque. E então descobriu-se que tudo isso era uma fraude, um blefe: não há armas químicas no Iraque. Incrivelmente, surpreendentemente, o fato permanece. Havia mentiras no mais alto nível estadual e da alta tribuna da ONU. E como resultado, enormes baixas, destruição, uma incrível onda de terrorismo.

Confundir e misturar factos são argumentos ineptos:

As fraquezas e estratégias errada da política externa dos EUA e de países que o coadjuvaram na invasão do Iraque foi uma espécie de retaliação ao terrorismo do 11 de setembro de 2000 muito mal escolhida, mas não se tratou de uma ocupação territorial e à luz da mora não pode justificar um caso de invasão como aquele que Putin cometeu.

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Putin: Apesar de tudo, em dezembro de 2021, tentámos mais uma vez chegar a um acordo com os Estados Unidos e seus aliados sobre os princípios de garantir a segurança na Europa e sobre a não expansão da OTAN. Tudo em vão. A posição dos EUA não está mudando. Eles não consideram necessário negociar com a Rússia sobre esta questão-chave para nós, perseguindo seus objetivos, negligenciando nossos interesses.

 

A tese da liberdade de escolha:

A que interesses é que Putin se refere? Voltar a fazer sucumbir os países quer estiverem sob o domínio da Ex-URSS? É que Putin ainda não conseguiu digerir a sua frustração de que países que eram satélites da URSS após a libertação da sua esfera estejam a optar por aderir à União Europeia e pedirem a sua entrada para a OTAN. Países livres e soberanos têm o direito de optar pela sua entrada nas organizações que entenderem e, se isso, acontece talvez seja porque estejam receosos da uma agressão por parte de Moscovo/Putin e que lhes acontecesse como está a gora a acontecer à Ucrânia.

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Putin: Quanto à esfera militar, a Rússia moderna, mesmo após o colapso da URSS e a perda de uma parte significativa de seu potencial, é hoje uma das potências nucleares mais poderosas do mundo e, além disso, tem certas vantagens numa série de novos tipos de armas. A este respeito, ninguém deve ter dúvidas de que um ataque direto ao nosso país levará à derrota e terríveis consequências para qualquer potencial agressor.

………………………………..

A expansão da infraestrutura da Aliança do Atlântico Norte, o início do desenvolvimento militar dos territórios da Ucrânia são inaceitáveis para nós. Certamente não é sobre a própria OTAN – é apenas um instrumento da política externa dos EUA. O problema é que nos territórios adjacentes a nós – notei, em nossos próprios territórios históricos – está sendo criado um hostil "anti-Rússia", que é colocado sob controle externo total, intensamente estabelecido pelas forças armadas dos países da OTAN e bombeado com as armas mais modernas.

Para os Estados Unidos e os seus aliados, esta é a chamada política de conter a Rússia, dividendos geopolíticos óbvios. E para o nosso país, é, em última análise, uma questão de vida ou morte, uma questão do nosso futuro histórico como povo. E isso não é um exagero – é. Esta é uma ameaça real não só aos nossos interesses, mas à própria existência do nosso Estado, à sua soberania. Esta é a linha vermelha que tem sido repetidamente falada. Eles atravessaram.

 

A omissão dos falsos pacifistas:

Putin pontua sobre uma possível justificação para iniciar uma invasão seja onde for por motivos de defesa e clama ao povo pelo orgulho nacional na sua defesa preparando a população para potenciais ataques sobre os que ele chama agressores.

Putin contradiz todos quantos criticam e assinalam o ocidente como um conjunto de países belicistas que tem enormes custo financeiros com inclusão nos orçamentos dos países enormes verbas destinados ao armamento. Putin é claro no que diz respeito ao armamento e ao investimento nas suas forças armadas considerando a Rússia como “uma das potências nucleares mais poderosas do mundo. A todos quanto sejam contra os EUA e os seus aliados Putin agradece a ajuda e é um estímulo para futuras pretensões expansionistas.

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Putin: Vemos que as forças que realizaram um golpe de Estado na Ucrânia em 2014 tomaram o poder e estão segurando-o com a ajuda, de facto, de procedimentos eleitorais decorativos, finalmente abandonaram a solução pacífica do conflito. Durante oito anos, fizemos todo o possível para resolver a situação por meios pacíficos e políticos. Tudo em vão.

A falsa desculpa:

A atuações do Kremlin como se passa na Bielorrússia onde está há anos um ditador títere de Moscovo, e na própria Rússia onde a oposição é esfrangalhada e depois perseguida por Putin, tal qual hoje a censura férrea está em circulação em toda a Rússia. Fazem censura ao que se passa na Ucrânia e proíbem a liberdade de expressão sobre a guerra. Então não é uma intervenção militar especial?

 

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Putin: Claro, eles também irão para a Crimeia, assim como em Donbass, com guerra, a fim de matar, como punidores de gangues de nacionalistas ucranianos, cúmplices de Hitler durante a Grande Guerra Patriótica, mataram pessoas indefesas. Eles também declaram abertamente que reivindicam uma série de outros territórios russos.

…………………………..

Todo o curso dos acontecimentos e a análise das informações recebidas mostram que o confronto da Rússia com essas forças é inevitável. É só uma questão de tempo: eles se preparam, esperam por uma hora conveniente. Agora eles também afirmam possuir armas nucleares. Não permitiremos que isso aconteça.

As mentiras desmontadas pelos factos:

A justificação para a invasão era que, o inimigo, a Ucrânia, seria um potencial invasor e que, como tal, para o evitar deveria ser primeiro invadido. Apenas e porque havia “análise das informações recebidas”.  Também para Hitler o inimigo eram os judeus e a Polónia e que, por isso, a invadiu. Curiosa esta narrativa. Como Putin, no seu discurso antes da invasão, preparava os russos para o apoio das suas teses conotando e chamando aos ucranianos nacionalistas, nazis e neonazis e até cúmplices de Hitler. Vemos agora, trinta e quatro dias, após a invasão da Ucrânia quem é criminoso de guerra! 

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Putin: … a Rússia após o colapso da URSS aceitou novas realidades geopolíticas. Respeitamos e continuaremos a tratar todos os países recém-formados no espaço pós-soviético da mesma forma.

… a Rússia não pode se sentir segura, desenvolver, existir com uma ameaça constante emanando do território da Ucrânia moderna.

… decidi realizar uma operação militar especial. O seu objetivo é proteger as pessoas que foram submetidas ao bullying e ao genocídio pelo regime de Kiev por oito anos. E para isso, lutaremos pela desmilitarização e desnazificação da Ucrânia, bem como trazendo à justiça àqueles que cometeram numerosos crimes sangrentos contra civis, incluindo cidadãos da Federação Russa.

Ao mesmo tempo, nossos planos não incluem a ocupação de territórios ucranianos. Não vamos impor nada a ninguém à força.

 

A pergunta que merece resposta

Se os planos não incluem a ocupação de territórios ucranianos e de não impor nada a ninguém, a pergunta que se coloca é então o que foi que aconteceu nos últimos 39 dias e o que continua a acontecer?  Será que tudo quanto se vêm em todos os canais informativos de todo o mundo, com exceção da Rússia, é tudo ficção, mentira e propaganda do ocidente? Só os apoiantes do Kremlin é que acreditarão nisso refugiando-se do que no passado o ocidente também fez.

 

Putin: No centro de nossa política está a liberdade, a liberdade de escolha para todos determinarem independentemente seu futuro e o futuro de seus filhos. E consideramos importante que esse direito – o direito de escolha – possa ser usado por todos os povos que vivem no território da Ucrânia de hoje, por todos que o querem.

 

Salvadores há muitos.

Mais uma vez a deturpação das realidades Putin quer mostrar-se ao povo russo como o grande salvador da humanidade e, neste caso, da Ucrânia. Falar em liberdade quando no seu país ela está condicionada ou não existe, falar no direito de escolha quando quer impor a sua escolha a outros. Um país soberano, seja ele o que for tem o direito de escolher o que regime que quiser, não necessita de salvadores que os ocupem.

****

Ecos da história.

Desde o início de março de 2014, manifestações de grupos pró-russos e anti governo ocorreram nos oblasts de Donetsk e Luhansk, que integram a região da Bacia do Rio Donets, na sequência da Revolução ucraniana de 2014 e do movimento Euromaidan. Esse conflito armado ocorreu em parte do território ucraniano que foi objeto de diversos protestos pró-russos em todo sul e leste da Ucrânia. Trata-se de um conflito armado entre as forças separatistas das autodeclaradas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk e o governo ucraniano.[43][44] Os separatistas são amplamente liderados por cidadãos russos.[45] Os paramilitares voluntários russos são relatados por compor entre 10% e mais de 50% dos combatentes.

Após o colapso da União Soviética em 1991, a Ucrânia firmou-se como uma nação independente. Contudo, no Leste, especialmente em Donetsk e Luhansk (na região da Bacia do Donets (Donbas), as minorias russas começaram a reinvindicar mais autonomia política, algo a que o governo central em Kiev resistia. No final da década de 2000, o governo ucraniano passou a buscar uma maior aproximação com a Europa Ocidental, algo que a Rússia via com maus olhos. Em 2013, em meio a uma crise económica, o presidente Víktor Yanukóvytch rejeitou um acordo com a União Europeia e iniciou uma reaproximação com o governo russo. A população ucraniana, principalmente aquelas concentradas nas grandes cidades do Oeste, iniciaram-se enormes protestos (conhecidos como Euromaidan) e forçaram o presidente Yanukóvytch a renunciar em fevereiro de 2014. Aproveitando-se do caos político que se seguiu na Ucrânia, a Rússia anexou, em março, a região da Crimeia.

 

Em síntese: E mais não digo. Se não existissem estes pretextos Vladimir Putin recorreria a outros para justificar a invasão que há muito terá premeditado. O tempo oportuno foi este após a saída de Merkel da cena política e a presidência dos EUA ter mudado de Trump para Biden.

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publicado às 15:55

Ucrânia e Putin-7.png

Insiro hoje no blogue uma análise do discurso do presidente Vladimir Putin antes da invasão da Ucrânia que poderá ajudar a esclarecer pontos de vista duvidosos que circulam pelas redes sociais. Se pretender aceder ao discurso original poderá seguir este link.

Vladimir Putin justifica a invasão da Ucrânia pela necessidade de a Rússia "se proteger", parar o "genocídio" e "desnazificar" a Ucrânia. A DW analisa as alegações do Presidente da Federação Russa.

Todavia, podemos dizer que na Ucrânia, como em muitos outros países, existem pequenos grupos extremistas de direita. No entanto, segundo especialistas, eles desempenham um papel completamente insignificante na sociedade. Assim, não há razão real para falar em "desnazificação", alegação de Putin e do PCP como justificação da sua ausência na telepresença de Zelensky na Assembleia da República.

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Verificação de factos da DW - Deutsche Welle

A Deutsche Welle (DW) é a emissora internacional da Alemanha e uma das mais bem-sucedidas e relevantes media internacionais.

Tropas russas estão a bombardear cidades ucranianas e a realizar hostilidades em larga escala no território da Ucrânia. A invasão russa começou em 24 de fevereiro, pouco antes disso, o presidente russo Vladimir Putin fez um discurso aos russos, no qual salientou as razões pelas quais decidiu ordenar um ataque, que, do seu ponto de vista, é uma defesa. DW - sobre o quão objetivos são os principais argumentos dados por Putin.

As tropas da OTAN estão se aproximando das fronteiras da Rússia?

A declaração de Putin: "A aliança (...) está a expandir-se constantemente, a máquina militar está a mover-se e a aproximar-se perto das nossas fronteiras."

Verificação de factos da DW: Esta declaração é enganosa.

É verdade nesta declaração que, após o colapso da União Soviética, 14 países da Europa Oriental tornaram-se parte da Aliança do Atlântico Norte. Quatro desses países fazem fronteira com a Rússia. Em 2008, a Ucrânia também teve a perspetiva de ingressar na OTAN, mas desde então o processo correspondente foi congelado. O chanceler alemão Olaf Scholz durante a sua visita a Moscovo em meados de fevereiro ressaltou que, num futuro previsível, a admissão da Ucrânia à OTAN não está na ordem do dia.

Também é verdade que a infraestrutura logística e os locais de voo necessários para o possível reforço operacional das tropas foram preparados no território dos países membros da OTAN do Leste Europeu. No entanto, é importante notar que essas medidas foram tomadas após a anexação da Crimeia ucraniana pela Rússia em 2014, o que constitui uma violação do direito internacional, e foram uma reação a essas ações de Moscovo.

A Aliança do Atlântico Norte continua a cumprir as disposições da Lei fundadora da OTAN-Rússia de 1997, que proíbe a implantação permanente adicional de forças de combate significativas nos países que se juntarem à OTAN.

No que respeita à deterioração das relações entre a Rússia e o Ocidente, a OTAN começou a rodar batalhões de grupos de combate nos Estados Bálticos e na Polónia em 2016. No entanto, esses grupos de batalha de 5.000 soldados são muito pequenos para representar uma ameaça real à Rússia, cujas forças armadas somam cerca de 850.000 soldados ativos.

Os países membros individuais da OTAN também realizam cooperação bilateral fora da aliança. Moscovo assistiu com grande suspeita à implantação de sistemas de defesa antimísseis Aegis Ashore. Eles estão a preparar-se para serem colocados na Roménia e já foram colocados na Polónia.

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Imagem de DW
Moradores de Kiev estão a procurar proteção contra ataques de mísseis no metropolitano

Estes sistemas foram originalmente desenvolvidos para navios de guerra. Eles podem produzir mísseis de cruzeiro que podem chegar à Rússia em pouco tempo, explica Wolfgang Richter, coronel aposentado do Bundeswehr e funcionário da Fundação para a Ciência e Política (SWP), com sede em Berlim, em entrevista à DW. No entanto, segundo ele, este não é um problema insolúvel.

"Esse problema pode ser resolvido através de verificação específica. Isso significa que a Rússia pode ter a oportunidade de garantir que não haja mísseis de cruzeiro prontos para lançamento nos silos de lançamento de Aegis Ashore. Mas Moscovo rejeitou uma oferta para entrar em um diálogo de controle de armas, disse Richter. "Em vez disso, escolheu a guerra e destruiu a perspetiva de uma solução negociada."

O ataque russo é uma defesa de acordo com a Carta das Nações Unidas?

Declaração de Putin: "As circunstâncias exigem que ajamos de forma decisiva e imediata. As Repúblicas Do Povo de Donbass pediram ajuda à Rússia. A este respeito, de acordo com o artigo 51 da Parte 7 da Carta das Nações Unidas, com a aprovação do Conselho da Federação da Rússia e em prol dos tratados de amizade e assistência mútua ratificados pela Assembleia Federal em 22 de fevereiro deste ano com a República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk, decidi realizar uma operação militar especial", disse Putin no seu discurso em 24 de fevereiro.

No mesmo discurso, o presidente da Federação Russa apontou: "Nós simplesmente não ficámos com nenhuma outra oportunidade de proteger a Rússia, o nosso povo, exceto aquele que seremos forçados a usar hoje."

Verificação de factos da DW: Ambas as alegações são falsas. Não é verdade que a Rússia seja forçada a "defender-se" contra a Ucrânia, nem que possa contar com a Carta das Nações Unidas.

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Imagem de DW

A alegação faz parte de uma série de acusações de Putin de que a Ucrânia está a conduzir operações militares ofensivas e até a preparar-se para uma guerra contra a Rússia.

Pouco depois de a Rússia reconhecer o autoproclamado "DPR" e "LPR", eles recorreram a Moscovo para pedir ajuda, e Putin enviou tropas para a região ocupada por separatistas pró-russos, a que ele chamou "manutenção da paz". De facto, no entanto, foi uma continuação da ocupação assustadora da Rússia na Ucrânia que começou em 2014.

Moscovo ainda não forneceu nenhuma evidência de que a Ucrânia atacou a Rússia, não há informações independentes sobre esta questão. Nas áreas separatistas no leste da Ucrânia, pelas quais há vários anos, houve falsas ações de bandeira, ou seja, ataques que blogueiros expuseram como encenados.

"O direito à autodefesa pressupõe um ataque da outra parte. No caso da Ucrânia, esteataque da Ucrânia à Rússia não é absolutamente observado", diz Pia Fuhrhop (Pia Fuhrhop), especialista da Fundação de Ciência e Política (SWP) no campo da segurança internacional, em entrevista à DW. Furhop chama ao argumento de Putin "traiçoeiro" e explica: "Exatamente o oposto: nas últimas semanas, a Ucrânia fez de tudo para impedir que a Rússia se referisse especificamente ao direito à autodefesa".

A Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), que monitoriza a Ucrânia numa missão especial há anos, também refuta inequivocamente a alegação de Putin de que a invasão russa se enquadra no artigo 51 da Carta das Nações Unidas. O presidente da OSCE e ministro das Relações Exteriores polonês Zbigniew Rau condenou a invasão russa como uma "violação fundamental da Carta das Nações Unidas". Justificar o ataque nos termos do artigo 51º foi "lamentável e vergonhoso", ressaltou.

Por sua vez, o secretário-geral da ONU, António Guterres, falando aos repórteres, disse: "Esta guerra não faz sentido. Viola os princípios da Carta das Nações Unidas."

O artigo 51º da Carta das Nações Unidas garante aos Estados-membros da ONU o direito à "autodefesa individual ou coletiva" em caso de ataque armado. No entanto, como ressalta Marcelo Cohen, professor de direito internacional do Instituto de Pós-Graduação em Estudos Internacionais e de Desenvolvimento em Genebra, não é o caso da Rússia. "O argumento de Putin é infundado por várias razões", disse Cohen em entrevista à DW. - Primeiro, os dois territórios separatistas ("DPR" e "LPR") não são estados do ponto de vista do direito internacional. Em segundo lugar, antes da invasão da Rússia. A Ucrânia não tomou "medidas violentas" contra esses dois territórios." E, em terceiro lugar, o uso maciço da força contra instalações militares em toda a Ucrânia é desnecessário e desproporcional, enfatiza o especialista.

Sem qualquer evidência de um ataque armado pela Ucrânia, as ações da Rússia permanecem, de facto, uma guerra de agressão sem qualquer justificativa nos termos do artigo 51º.

 O "genocídio" ocorreu na Ucrânia?

A alegação de Putin: o objetivo da chamada "operação especial" da Rússia na Ucrânia é "proteger as pessoas que foram submetidas a bullying e genocídio pelo regime de Kiev por oito anos".

Verificação de factos da DW: Isso não é verdade.

O termo "genocídio", segundo a Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, adotada pela Assembleia Geral da ONU em 1948, significa "atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso como tal".

Não há relatos de tais massacres direcionados de civis na Ucrânia, embora todas as vítimas civis do conflito tenham sido cuidadosamente documentadas por observadores internacionais desde 2014. Nos relatórios regulares da missão de monitoramento da OSCE, que tem viajado em ambos os lados da linha de contato no leste da Ucrânia desde 2014 – também com o consentimento da Rússia – não há evidências de morte sistemática de civis. As baixas civis do conflito são consideradas pelos observadores como resultado dos combates ou das suas consequências.

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos em 2021, um total de cerca de 3.000 civis morreram na zona de combate no leste da Ucrânia.

A Missão observadora da OSCE regista todos os mortos e feridos nos seus relatórios diários. O maior número de civis foi morto na primeira fase do conflito em 2014-2015. Desde 2016, o número de vítimas vem diminuindo constantemente. O último relatório de resumo disponível da missão de observação de 2020 registou as mortes de 161 civis entre 1º de janeiro de 2017 e meados de setembro de 2020 – com um número aproximadamente igual de vítimas de ambos os lados. A causa predominante da morte foi bombardeios de artilharia, seguidos de minas terrestres e explosões de munição.

"A maioria das vítimas - 81 mortos e 231 feridos - foram causadas por minas, artilharia não detonada e outros explosivos. Civis foram mortos ou feridos em várias circunstâncias, incluindo enquanto trabalhavam nos campos, pescando ou caminhando", diz o relatório de setembro de 2020 da Missão Especial de Monitoramento da OSCE. Pia Furhop, da Fundação Ciência e Política, chama às acusações de Putin de genocídio de "absolutamente infundadas".

Na sua opinião, o presidente russo não se importa com os factos: "No sistema autoritário, que hoje é a Rússia, os media de investigação não têm oportunidade para verificar isso de forma alguma. A este respeito, basta que ele Putin justifique a guerra sem uma base factual", disse Furhop.

 É necessário "desnazificar" a Ucrânia?

Afirmação de Putin: para evitar o suposto bullying e o suposto "genocídio", a Rússia precisa fazer esforços para "desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia".

Verificação de factos da DW: Esta declaração não é verdadeira.

A declaração de Putin é uma narrativa de propaganda que ele vem repetindo há muito tempo e que não tem base de facto. Para implementar os seus planos na Ucrânia, Putin usa o conceito histórico de "desnazificação". Descreve as políticas dos países vitoriosos em relação à Alemanha nazi após a Segunda Guerra Mundial. O objetivo desta medida, então, era libertar o país da influência dos nazis e remover as pessoas que apoiaram este curso dos seus postos.

É errado comparar isso com a situação na Ucrânia, ressalta Andreas Umland, analista do Centro de Estudos da Europa Oriental de Estocolmo (SCEEUS), em entrevista à DW. "Falar de nazismo na Ucrânia é absolutamente inapropriado", disse ele. "O presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky é um judeu de língua russa que na última eleição presidencial com uma grande vantagem contornou o candidato ucraniano sem raízes judaicas."

De acordo com Andreas Umland, existem de facto grupos de ultradireita na Ucrânia. No entanto, seu impacto é relativamente pequeno se compararmos a situação na Ucrânia com a situação de alguns outros países europeus, diz ele. "Nas últimas eleições parlamentares em 2019 na Ucrânia os partidos ultradireita e radicais saíram como uma frente unida, e essa frente unida ganhou um total de 2,15% dos votos", lembra o especialista.

Por sua vez, Ulrich Schmid, professor no estudo da cultura e da sociedade russa na Universidade de St. Gallen, na Suíça, chama às palavras de Putin sobre a necessidade de "desnazificar a Ucrânia" como uma "insinuação descarada". Schmid está envolvido em pesquisas no campo do nacionalismo na Europa Oriental. "De facto, durante os protestos euromaidano em 2013 e 2014, havia grupos separados de extrema-direita. No entanto, hoje eles desempenham um papel secundário no país", disse Schmid em entrevista à DW. "Existem esses grupos, mas há pelo menos tantos grupos de extrema-direita na própria Rússia quanto existem na Ucrânia", acrescenta.

Grupos militantes ucranianos de direita que lutam contra separatistas no leste da Ucrânia, como o Regimento Azov, foram criticados. O Regimento Azov foi fundado por um grupo de ultradireita, mas em 2014 foi incluído nas tropas internas do Ministério dos Assuntos Internos da Ucrânia, aponta a Guarda Nacional, Umland. Depois disso, houve uma separação do movimento radical e do regimento. Este último ainda usa símbolos radicais de direita, mas não pode mais ser classificado como extremista de direita. Durante os cursos de treinamento para militares, soldados que compartilham ideologia extremista de direita foram notados, mas foram identificados, e isso causou um escândalo, observa Umland.

Resumindo, podemos dizer que na Ucrânia, como em muitos outros países, existem pequenos grupos extremistas de direita. No entanto, segundo especialistas, eles desempenham um papel completamente insignificante na sociedade. Assim, não há razão real para falar em "desnazificação".

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publicado às 17:17

Ucrânia e Putin-6.png

Depois do dia 24 de fevereiro de 2022 um frémito de indignação percorreu o país de norte a sul que se consubstanciou nas redes sociais e na comunicação social numa espécie de libertação dum sono ou na indiferença.

Cabeças que se prezavam de ser friamente raciocinadoras também despertaram da letargia. Para grande surpresa minha fiquei a saber que essas cabeças pensantes, algumas deles dizendo ter lido uma “porrada” de livros, não sabemos escritos por quem, tinham uma reserva de força capaz de querer impor, sem resistências, pensavam, um pensamento político único sobre as circunstâncias que naquela data ocorreram e manifestam contra a maioria que achou, e acha, ser vil a invasão da Ucrânia, sem aviso, pelo senhor Vladimir Putin. Uma ilusão agradável para alguns uma desilusão para outros.

Poucos dias bastaram para evidenciar que não haveria uma força donde pudesse vir um movimento indubitável e unívoco anti invasão. A invasão do dia 24 de um país que alguns nem sequer saberiam onde ficava não foi abalo suficiente para libertar mentes empedernidas pelo ódio que fez saltar o fogo das suas entranhas contra todos quantos alinhavam em favor de quem se opôs à invasão e à decisão de Putin e lhe fazia frente e alinhavam com o chamado ocidente, EUA, NATO, e E.U.

Estendiam um véu translucidamente púdico sobre o agressor para lhe disfarçar discretamente com falsas e injustificáveis conveniências políticas e ideológicas os perigos humanitários que estavam a acontecer patenteados pela agressão. Lançaram-se e lançam-se à defesa e ao disfarce de um mal manifestamente certo. Defender ou justificar a realidade de uma agressão à soberania de um país com alusões a males praticados no passado por outros é um “crime” de lesa racionalidade e de facciosismo ideológico. Refugiam-se em afirmações com a liberdade de expressão de pensamento, única racionalidade que os assiste. São uma espécie de ideólogos isolados vaidosos do seu isolamento e da sua independência e isenção(?) em relação aos que designam por rebanho.

Acham-se com a superioridade intelectual que as suas ideias lhe dão, ou lhes parecem dar, mas pouco respeitadores, parece, do regime onde vivem optando pela defesa do totalitarismo em confrontação com países democráticos. Há uma obsessão alucinante para com o objetivo dos EUA, dizendo que após o fim da URSS querem dominar a Eurásia, alargar a NATO e a União Europeia, “neutralizar” a Rússia, etc., e outros disparates. Os discursos de Vladimir Putin não se afastam muito disto. Omitem que os antigos países de leste após a queda da URSS aderiram voluntariamente à NATO e à U.E., ninguém os invadiu para lhes impor fosse o que fosse.

Este “clube”, espécie de associação dos amigos de Putin que existia pelo território da ideologia antidemocracia parece ter-se fortalecido após a invasão da Ucrânia. A ele aderiram alguns intelectuais das letras e das ciências famosos pelas suas ideias democrática parecem agora ser famosos pelas suas ideias próximas de um autoritarismo terrorista. A sumula dos seus escritos, embora sem o referirem explicitamente, parecem estar do lado da tirania e não da liberdade.

De resto a atividade narrativa desse clube, para além de núcleo de propaganda, trata mais de estimular o ódio ao ocidente e de ajudar a fortalecer a legitimação de poderes autocratas invasores de países soberanos, que nem os ideais liberais e neoliberais aceitam, do que apelar à fraternidade humana. Espécie de “clube” de ideólogos isolados e vaidosos do seu isolamento, sobretudo vaidosos do que eles chamam da sua independência e “isenção” que as suas ideias lhes parecem dar. O sentido do “clube” é, ainda, tentar mostrar que os objetivos do Presidente russo, Vladimir Putin na Ucrânia são “nobres” e que a invasão lançada sobre o país vizinho era “inevitável”.

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publicado às 17:54

Assumam que querem a vitória da Rússia

por Manuel_AR, em 09.04.22

Opinião

Sejam adultos, assumam que querem a vitória da Rússia

Neste cenário, em que só é possível a paz dos cemitérios, qualquer pessoa que partilhe o quadro de valores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos sente um dever moral de apelar a que se continue a ajudar a resistência ucraniana.


Não há nada mais perigoso do que uma opção política baseada apenas em princípios éticos, a não ser uma opção política baseada em tudo menos em princípios éticos. Uma decisão bem-intencionada pode ser contraproducente: pode ela própria ser nefasta para os valores que deseja promover, se não tiver em atenção os limites que a infinita complexidade do mundo impõe aos nossos sentimentos de dever. Mas uma decisão que não siga uma qualquer bússola de valores, seja por niilismo, oportunismo ou embaraço em enfrentar o substrato moral das alternativas, é logo à partida uma decisão inaceitável. A amoralidade é pior do que a temeridade.

Os últimos dias provocaram duas mudanças dramáticas na discussão. Em primeiro lugar, deixou de fazer sentido a ideia de que a Rússia sairá inevitavelmente vencedora da invasão. O falhanço da conquista da capital mostra que, para além da capacidade admirável de resistir ao agressor, a Ucrânia pode mesmo derrotá-lo. Em segundo lugar, os destroços materiais e humanos mostraram o verdadeiro significado de uma ocupação russa, além de que as subsequentes mentiras de Moscovo revelaram o valor real da palavra de Putin. Como é que, perante isto, se negoceia um acordo de paz com cedências territoriais?

Neste cenário, em que só é possível a paz dos cemitérios, qualquer pessoa que partilhe o quadro de valores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos sente um dever moral de apelar a que se continue a ajudar a resistência ucraniana. O Ocidente tem de redobrar o seu apoio, para evitar a rendição. Com mais pressão diplomática, certamente, mas também com mais armas, mais apoio logístico e humanitário, e mais sanções económicas.

Ainda assim, há muitas pessoas que continuam a querer contaminar a discussão com o nevoeiro de uma complexidade que não existe. Escrevem crónicas e manifestos extraordinários, a denunciar o belicismo de Zelenskii, a defender que não se forneçam mais armas à Ucrânia, a lamentar que “pensar” seja “difícil”, a acusar os outros de serem levados pelo sensacionalismo e o sentimentalismo, e a pedir mais jornalismo do que propaganda (o que, aliás, é desde logo um insulto aos jornalistas que atestam as atrocidades russas nos órgãos que publicam esses textos).

O que convinha, para benefício do debate numa sociedade adulta, é que fossem totalmente claros e consequentes com o que defendem. Sendo que o que defendem, como é ostensivo, é a vitória da Rússia. Só isso explica que, em face da evidência da barbárie, continuem a desviar a conversa. Muitos dos autores daqueles textos passaram os últimos anos a alinhar com a política externa de Putin. Quer em geral, quando defendem o direito da Rússia à sua zona de influência, num mundo “multipolar” contrário à ordem liberal euro-americana, quer em particular no tema da Ucrânia, no qual estiveram sempre, sempre, sempre do lado das posições de Moscovo. Viveram bem com o governo fantoche de Ianukovitch, opuseram-se ao movimento pró-europeu e pró-democrático de Maidan, apoiaram a anexação da Crimeia, acusaram Zelenskii de ser infantil, populista e neonazi. Quando chegam a este ponto e propõem coisas como o fim do fornecimento de armas defensivas à resistência, querem o quê? Querem evidentemente a rendição da Ucrânia e a vitória da Rússia.

Deixemo-nos, nós próprios, de rodeios: o problema destas pessoas não é a dificuldade de pensar; é a dificuldade de assumirem o que verdadeiramente pensam.

O autor é colunista do PÚBLICO

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publicado às 19:00

A Europa deve afinar os seus objetivos

por Manuel_AR, em 29.03.22

O risco de uma terceira guerra mundial deixou de estar no âmbito do impossível. A Rússia está agora a realizar ataques a poucos quilómetros das fronteiras da NATO e, dada a imprevisibilidade de Putin, não podemos descartar a possibilidade de um confronto direto entre a Rússia e a Aliança. Isso levantaria a possibilidade quase inimaginável de um conflito nuclear, que os nossos líderes têm o dever de evitar.

Como a Rússia e a Europa fazem parte de uma massa de terra ininterrupta, a estabilidade na ponta do continente é fundamental para a paz regional. Mas as barreiras diplomáticas entre a Rússia e a NATO estão a multiplicar-se. Raramente as organizações internacionais do pós-Segunda Guerra Mundial estiveram tão ausentes, ou mesmo impotentes, perante o conflito. Mesmo a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, criada com o objetivo de garantir a estabilidade entre a Rússia, Estados Unidos e Europa, está a mostrar-se inadequada para o desafio atual.

A União Europeia respondeu com firmeza à agressão da Rússia, demonstrando a sua unidade ao impor severas sanções financeiras e económicas. Mas a guerra na Ucrânia mostrou que a Europa não está suficientemente preparada para enfrentar os seus desafios mais imediatos. A UE deve agora concentrar-se em quatro prioridades.

Em primeiro lugar, a UE deve expandir as suas capacidades de segurança e defesa, e a "Bússola Estratégica" que está a ser elaborada deve servir para orientar a política neste domínio. Embora a Europa claramente deva investir nas suas capacidades militares, isso significa não apenas gastar mais dinheiro, mas também empreender tais esforços como europeus e não como Estados individuais. De acordo com a Agência Europeia de Defesa, os Estados-membros da UE gastam um total de cerca de 200 mil milhões de euros anualmente em defesa, mais do que a Índia, Rússia e Reino Unido juntos. A tarefa agora é melhorar a eficiência em vez de simplesmente aumentar os gastos militares ao nível nacional. E isso requer a adoção de uma visão europeia no planeamento militar nacional.

Em segundo lugar, a UE deve repensar a sua dependência energética da Rússia. A Europa depende do gás russo há muito tempo e pode ter de pagar um preço por fechar a torneira, como a Alemanha começou a fazer ao suspender o gasoduto Nord Stream 2. Como diz Nathalie Tocci, do Istituto Affari Internazionali, nenhum cálculo económico deve superar o que é necessário para a unidade europeia.
Em terceiro lugar, a Europa deve desenvolver uma política comum de migração com uma divisão geográfica de responsabilidade para aceitar refugiados das nossas respectivas vizinhanças a leste ou a sul. A partir de 2015, a então chanceler alemã Angela Merkel aceitou unilateralmente centenas de milhares de refugiados sírios, enquanto o resto da Europa olhava para o outro lado. Hoje, os Estados-membros da UE devem mostrar uma vontade comum de ajudar aqueles que fogem da guerra.

O êxodo de dois milhões de ucranianos para a Polónia desde o início da guerra destacou as incongruências da política de migração europeia. A solidariedade da Europa com os refugiados ucranianos é um gesto positivo que mostrou o melhor aos nossos cidadãos; mas deve também fazer-nos refletir sobre a nossa atitude muito menos acolhedora em relação aos refugiados de outras partes do mundo.

Por último, a Europa deve ajudar a mitigar os efeitos da guerra na segurança alimentar global. Como a Ucrânia e a Rússia juntas fornecem 19% da cevada do mundo, 14% do trigo e 4% do milho, o conflito também está a afetar muitas outras economias. Por exemplo, o Quénia, com uma população aproximadamente do mesmo tamanho da Ucrânia, obtém metade das suas importações de trigo da Rússia e da Ucrânia. Com 276 milhões de pessoas em todo o mundo sofrendo de fome severa, as regiões mais pobres, em particular, sofrerão como resultado do atual conflito.

À medida que a UE aborda estas prioridades imediatas, a missão fundadora da União de construir a paz e prevenir a guerra deve permanecer no seu cerne. Um mundo que ainda sofre com a pandemia da covid-19 e suas consequências, e atualmente parece incapaz de reverter as consequências das alterações climáticas, não pode dar-se ao luxo de um conflito deste tipo.

A Europa deve, portanto, usar os meios à sua disposição, incluindo sanções, para tentar mudar o comportamento de Putin. Acima de tudo, deve desempenhar um papel fundamental para evitar que as hostilidades na Ucrânia se transformem numa guerra entre as grandes potências.

O papel da China, que supostamente está a considerar vender armas à Rússia para ajudar no esforço de guerra de Putin, provavelmente será crucial para evitar um conflito global. O encontro mais recente entre Putin e o presidente chinês Xi Jinping, na véspera dos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano em Pequim, parecia sugerir uma quase aliança entre as duas potências.

Muitos traçaram paralelos com a visita do presidente dos EUA, Richard Nixon, à China em 1972, que anunciou uma reaproximação sino-americana destinada a combater a ameaça representada pela União Soviética. Mas enquanto a China pode ser tentada a formar uma aliança com a Rússia, uma guerra mundial não seria adequada para Xi, e tornar-se parte de tal conflito ainda menos.

Impedir que uma aliança China-Rússia se enraíze é fundamental para preservar o atual equilíbrio nas relações internacionais. A Europa pode e deve instar a China a desempenhar um papel na procura de um fim negociado para o conflito na Ucrânia. Para esse fim, é vital que os EUA, a UE e a NATO não sejam vistos como fracos e divididos na política interna ou externa.

Apesar da tragédia da guerra na Ucrânia, sinto-me orgulhoso do que a Europa fez nas últimas semanas. As respostas em Bruxelas, Paris, Berlim, Varsóvia e Madrid foram unânimes: a agressão de Putin não deve ficar impune. Uma UE mais assertiva e decisiva deve refletir não apenas a ressonância entre os governos nacionais, mas também a consciência dos cidadãos de que a sua segurança, interesses e princípios estão a ser ameaçados. Só com esta mentalidade a Europa realizará os seus objetivos.


Javier Solana, ex-alto representante da UE para as Relações Externas e Política de Segurança, secretário-geral da NATO e ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha, é presidente do EsadeGeo - Centro para a Economia Global e Geopolítica e membro ilustre da Brookings Institution.

© Project Syndicate, 2022.


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publicado às 18:35


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