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Fazer gala da violência e muito mais

por Manuel_AR, em 15.02.22

Escrevi no Facebook: "E se eu especular dizendo que tudo o que se viu foi muito bem orquestrado para depois ser aproveitado para subir audiências, como escreveu Fernanda Câncio?

Este artigo de opinião vale mesmo a pena ser lido.

 

Fernanda Câncio-DN.png

Fernanda Câncio

in Diário de Notícias 15 Fevereiro 2022

Fazer gala da violência

Para esplendor da audimetria, a TVI decidiu fazer render uma acusação de violência doméstica sobre uma mulher confrontando, ao vivo e a cores, acusado e vítima. E, claro, teve nessa degradação o que queria - o programa mais visto do dia. Isto na era do "politicamente correto", do metoo e da "cancel culture". Olha se fosse na das cavernas.

"Alguma vez tiveste medo?"

A pergunta é de Cristina Ferreira, a diretora de programas da TVI e apresentadora da "gala" deste domingo do programa Big Brother, a uma concorrente. Em causa a sua relação com outro concorrente que fora nesse mesmo dia alvo de uma queixa pelo crime de violência doméstica contra ela - um crime público, o que significa que qualquer um que não apenas a vítima o pode denunciar às autoridades.

No caso, a denúncia foi apresentada pelo organismo público encarregado de promover a igualdade de género - a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género - , num duplo simbolismo: o de frisar o dever de reporte de um crime com esta tipificação, responsável por grande parte dos homicídios cometidos em Portugal, e de este ter sido publicamente e publicitadamente cometido, já que foi através das imagens da interação dos dois concorrentes, divulgadas pela TVI, que dele se tomou conhecimento.

Cristina Ferreira, que várias vezes invocou, no passado recente, o feminismo a propósito de críticas e ataques de que tem sido alvo, frisando que muitos deles ocorrem por ser mulher - o que é verdade -, e que no programa garantiu até acaloradamente "lutar contra a violência doméstica", entendeu encenar, na dita gala, um tribunal, confrontando agressor e vítima com as imagens das suas interações, para a seguir lhes perguntar o que achavam do que viam. A inquirição foi precedida por um discurso inicial da apresentadora/diretora no qual anunciou que considera ter face aos concorrentes "um dever de imparcialidade e de não julgamento de qualquer tipo de comportamento". Esse dever, explicou, deriva da situação de exposição em que aquelas pessoas vivem, ao admitirem ser filmadas 24 sobre 24 horas.

Caberia perguntar se esse "dever de não julgamento" se aplicaria também a crimes, se em causa não estivesse precisamente a acusação de um crime - o que nos leva a concluir que sim, ela quer que concluamos que se aplica. Sucede que é difícil acreditar que Cristina Ferreira, que ali está na quádrupla condição de apresentadora, diretora, administradora e acionista do canal, se afirmasse imparcial e se eximisse de julgamentos caso um concorrente degolasse outro. Pelo que se calhar temos de admitir que ou não leva assim tão a sério o crime de violência doméstica ou acha que no caso não há crime nenhum. O que significa que, longe de ser imparcial e de não julgar, já julgou e decidiu, juíza na causa própria que é o seu programa no seu canal.

Só ter assim decidido explica que considerasse aceitável submeter às perguntas a que submeteu, e perante tão vasta audiência, uma mulher que pessoas muito mais habilitadas que ela (Cristina Ferreira) a reconhecer o crime em causa consideram estar a ser vítima de violência doméstica. Isto se se quiser partir do princípio - é aquele de que quero partir - de que Cristina Ferreira não está tão e apenas somente ralada com as audiências que mesmo admitindo ter ali uma vítima a quereria submeter, sob o álibi da "liberdade total" no contexto de um programa em que está 24 horas fechada com ele, à degradação de a colocar ainda mais sob o domínio do seu agressor ao afirmar publicamente que as suas manobras de controlo, a sua manipulação e agressividade física são manifestações de amor - submetendo-nos assim a todos à banalização e à desculpabilização do crime e à entronização do criminoso.

Não; acredito que simplesmente Cristina Ferreira não saiba o que é a violência doméstica, e, que como tantas outras pessoas, incluindo até, como é conhecido, juízes, ache que se não houver ossos partidos, hematomas e hemorragias, e se a vítima disser que está tudo bem, está tudo bem e não há crime algum. Que não saiba, como tão bem explicou o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos em alguns acórdãos recentes, que a violência doméstica é tortura porque visa a humilhação, o rebaixamento e o controlo absoluto da vítima, transformando-a em objeto à sua disposição.

Aliás, a apresentadora/diretora fez questão de afirmar, para justificar o facto de o acusado de violência doméstica não ter sido, como era exigido pela CIG e por tantos outros, retirado do programa, que todos os concorrentes estão a ser "avaliados diariamente" por uma equipa de médicos. Com esta afirmação, que repetiu por duas vezes, Cristina Ferreira quis certificar que não houve crime, que nenhum mal estava ali a ser causado à concorrente em causa, e que é tudo macaquinhos no sótão e "ódio" - usou esta palavra - de quem denunciou.

Para além de levantar assim uma questão deontológica interessantíssima à Ordem dos Médicos - quem raio são estes clínicos aos quais a produtora Endemol e o canal TVI imputam a decisão sobre a manutenção ou não de um acusado de violência doméstica num programa - Cristina Ferreira tornou assim claras, clarividentes, várias coisas.

Uma é que tudo o que disse sobre não se arrogar "julgar" é mesmo uma grande treta. Tão grande a treta que quem como eu seguiu ontem - por uma vez na vida, por razões profissionais, e para nunca mais, tal o nó nas tripas - toda a emissão da "gala" até ao fim teve oportunidade de ouvir a voz que faz de "grande irmão", ou seja, de ente que tudo vê e ouve, assegurar aos concorrentes que restaram após a expulsão ritual do acusado "por vontade do público" (claro, era preciso "entregar a decisão aos portugueses" para fazer render o suspense) que a concorrente alegadamente vítima estaria "com certeza" disponível para testemunhar a favor do expulso no eventual inquérito criminal.

O que nos leva a outra das evidências: ao questionar a concorrente sobre se se considera vítima, Cristina Ferreira sabia o que ela ia responder - jamais correriam, ela e o canal, o risco de serem acusados em direto de propiciarem, com a sua inação, um crime continuado.

E, por fim, que, alinhando com o discurso habitual dos agressores - que se queixam sempre de serem uns inocentes incompreendidos alvo de vinganças ou conspirações - Cristina Ferreira quis transformar a denúncia de que o concorrente e portanto o programa foram alvo numa questão de "ódio". Só faltou dizer a quem. Mas basta dar uma volta pelas redes sociais e ver as respostas dadas a quem denunciou para perceber: claro que é "ódio aos homens", "falta de peso", "frustração de mal amadas" - os insultos de sempre às feministas. "De puta para baixo", diria a Cristina Ferreira que vende livros à que faz gala da violência doméstica. Alguma vez terão falado?

 

 

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publicado às 17:45

Sobre o dia internacional da mulher

por Manuel_AR, em 08.03.18

Dia da mulher (1).png


Hoje é o dia internacional da mulher e, à parte as manifestações dos vestidos de preto que apesar de muito sugestivas são pouco convincentes tanto que, na última entrega de óscares já se viram vestidos desde o branco ao vermelho, passando pelo amarelo. Tão importante é o que se passa com a prática da violência contra as mulheres em todo o mundo. Na Europa, Portugal está em evidência pela negativa.


Numa sondagem que apresento nas tabelas seguintes que nos envergonham relativamente à Europa e cuja fonte foi a empresa Gallupe, credenciada empresa de sondagens e de pesquisa de opinião que pode consultar aqui.


Pergunta: Por favor, diga se acha que a violência doméstica é um problema sério ou não é um problema sério em [país].


 

Países da Europa



Sim, é um problema sério



%



Portugal



98



France



90



Malta



90



Iceland



85



Sweden



82



Belgium



80



Netherlands



79



Denmark



78



Finland



75



Cyprus



73



Luxembourg



72



Switzerland



68



Ireland



66



Fonte: GALLUP WORLD POLL



 


Pelo menos dois terços em todos os 13 países dizem que violência doméstica é um problema grave.


Embora estes resultados variem significativamente por país, em todos os 13 países maiorias evidentes consideram o abuso doméstico como um problema sério, dos dois terços na Irlanda (66%) para quase todos os adultos em Portugal (98%). Mesmo nos países europeus, muitas vezes vistos como pioneiros na igualdade de género e na formulação de políticas favoráveis ​​à família, como Holanda, Islândia e Suécia, três dos cinco países mais bem classificados do Índice de Desigualdade de género das Nações Unidas - cerca de oito em cada 10 residentes dizem que o abuso doméstico é um problema sério.


 


Pergunta: Você acredita que as mulheres no [país] são tratadas com respeito e dignidade, ou não?


 



Países da Europa


 

Sim, são tratadas com dignidade e respeito



%



Switzerland



94



Denmark



93



Finland



92



Ireland



92



Luxembourg



91



Belgium



89



Iceland



89



Netherlands



87



Malta



85



Sweden



81



France



75



Cyprus



68



Portugal



58



Fonte:GALLUP WORLD POLL



 


A perceção dos residentes portugueses sobre a violência doméstica como um problema grave parece refletir preocupações mais gerais sobre o tratamento das mulheres no país. Cinquenta e oito por cento dos adultos portugueses acreditam que as mulheres no país são tratadas com respeito e dignidade, facilmente a menor figura entre os 13 países incluídos na análise. As taxas elevadas de abuso doméstico - particularmente os casos em que as mulheres foram assassinadas pelos seus cônjuges - fizeram manchetes em Portugal nos últimos anos, assim como os esforços do governo português para aprovar legislação que proteja melhor as mulheres maltratadas.


 Menos probabilidades de dizer que as mulheres são tratadas com respeito e dignidade.


  


Pergunta: Por favor, diga se acha que o abuso sexual é um problema sério ou não é um problema grave em [país].


 



 


Países da Europa


 



% Problema sério



Mulheres



Homens



%



%



Portugal



96



93



Islândia



92



77



França



91



86



Dinamarca



88



84



Suécia



86



80



Bélgica



81



80



Países Baixos



80



68



Suíça



72



52



Chipre



67



62



Finlândia



62



50



Irlanda



60



58



Norte do Chipre



51



49



Fonte: GALLUP WORLD POLL



 


As mulheres também são um pouco menos propensas do que os homens a dizer que as mulheres no seu país são tratadas com dignidade e respeito (79% contra 86%, respetivamente, nos 13 países europeus estudados). Além disso, as mulheres em grupos mais vulneráveis ​​- incluindo aqueles com baixos níveis de educação e aqueles que estão desempregados ou subempregados - são especialmente suscetíveis de discordar de que as mulheres em seu país são respeitadas.


 


 

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publicado às 17:06

A campanha das causas da violência

por Manuel_AR, em 09.06.15

Violência.png


 


Em plena campanha de captação de votos Passos Coelho e Paulo Portas, os dois evangelistas da coligação PAF, dizem cá para fora uma coisa, mas lá bem no fundo os seus “corações” pensam outra. Isto é, falam para os potenciais eleitores que, para eles, não passam de números expressos em votos, as pessoas enquanto tal não são o motivo das suas preocupações.


Durante estes quatro anos o discurso de Passo Coelho e a estratégia comunicacional do seu Governo não foi o de mobilizar a sociedade para um projeto conjunto, mas antes o de criar clivagens dividindo-a com objetivos bem definidos: dividir para poder governar sem contestação a fim de conseguir os seus intentos. Foi o setor público contra o privado, os jovens contra os idosos, os que não têm trabalho contra os que o têm, trabalhadores precários contra os trabalhadores a contrato, pensionistas contra pensionistas, professores contra professores, etc.. Não foi só ele, também elementos do seu Governo, como Miguel Relvas, o disseram. Escusa de desmentir e desafiar para que o provem porque é coisa muito fácil de fazer sem muito esforço.


Parece que aquele discurso tem dado os seus frutos. A desmobilização de contestações, a falta de interesse de discutir direitos e deveres, a indiferença perante tudo o que seja política, o comodismo, o conformismo, o desinteresse da sociedade por tudo o que seja política, o cultivo do individualismo feroz e a competitividade por um posto de trabalho mal pago.


Não é por acaso que a violência em Portugal tem-se agravado e, nos últimos anos, tem verificado um aumento significativo dos números. Há vários fatores explicativos. Os alinhados com a atual política do governo desvalorizam estes números e afirmam que sempre houve violência mas que não lhe era dada visibilidade. Estas almas que tal afirmam pretendem tapar o sol com a peneira. A tal visibilidade dada pelos órgãos de comunicação social só é dado porque o fenómeno está em expansão e, por isso, não passa despercebida.


Sendo um fenómeno multifatorial pode por isso ter várias explicações. Algumas são devidas à mediatização dos casos, outras à variável socioeconómica, mas a forma como o Governo tem resolvido a crise tem ajudado a agravar a ansiedade e a desesperança que são contributos para a violência.


A perda do poder real de compra, a falta de recursos para cuidar da saúde, agravamento e as dificuldades criadas ao Serviço Nacional de Saúde, a forma como as pessoas fazem a leitura da impunidade para alguns e a severidade injustificada da justiça para outros, a perda de emprego, impossibilidade de cumprir compromissos por motivos não imputáveis aos próprios, privações económicas e familiares, entre outros, podem ter influência nos comportamentos individuais de violência familiar e social manifestada aos seu vários níveis. Há cada vez mais agressividade no dia-a-dia.


O fenómeno da violência para de associado aos fatores atrás referidos, a crise em si mesma gerou medidas imprevisíveis e draconianas num curtíssimo espaço de tempo, e o discurso político e as mensagens passadas pelo Governo têm dado sem dúvida o seu contributo, e muito.


A violência doméstica também subiu em flecha. Ela é uma das causas da degradação social provocada pela violência das medidas cegas tomadas por um Governo que vê apenas nos números da macroeconomia o seu único objetivo colocando as pessoas ao nível de danos colaterais.  


Constata-se também a violência exercida por cidadãos sobre outros cidadãos funcionários das finanças, como se eles fossem os causadores das desgraças que lhes bateu à porta;


A violência sobre professores é outro dos fenómenos que piorou no tempo de Maria de Lurdes Rodrigues quando era ministra da educação e se agravou com o ministério de Nuno Crato que contribui em força para a continuar a descredibilizar e a desautorizar os professores. No campo da educação a forma e os processos utilizados contribuíram para um reforço dos comportamentos de violência por parte de alunos e de encarregados de educação.


Os Anuários Estatísticos do INE e as estatísticas da justiça mostram que no ano letivo de 2013/2014 foram registados 6693 ilícitos em ambiente escolar mais 5,4% que no ano letivo anterior, dos quais 1665 foram ofensas corporais. A justificação dada por pretensos especialistas em educação, afetos à maioria governamental, diz que não é bem assim, e que, muitas das vezes a responsabilidade pertence aos professores. Fala quem não está no terreno ou então tentam a desculpabilização dos responsáveis da tutela.


Por razões que afetam as suas vidas e talvez por desconhecimento da verdadeira causa dos problemas que enfrentam as pessoas tendem a manifestar a sua revolta e desagrado onde podem. A degradação do Serviço Nacional de Saúde pode ser um dos muitos exemplo. Veja-se o que aconteceu nas urgências dos hospitais durante o último inverno (só mês de janeiro). Segundo o Observatório Nacional da Violência contra os Profissionais de Saúde foram verificadas 33 notificações de violência contra profissionais do Serviço Nacional de Saúde, próximas das que se verificaram em todo o ano de 2007. Desde então os números nunca pararam de crescer como mostra o gráfico seguinte.


Violência_Prof_Saúde.png


A violência que nos últimos anos se tem manifestado dos modos mais diversos. Não ver que há uma associação entre o aumento da violência a crise e o projeto do Governo neoliberal que tomou medidas que nem o próprio memorando da troika contemplava e até as agravou, é viver um estado de fantasia política.

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publicado às 19:03


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