Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Ucrânia e Putin-2.png

Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.

Nas últimas semanas tem-se multiplicado uma infinidade de artigo de opinião e de comentários numa dicotomia entre os que revelam claramente estar contra a invasão e os outros, os pró Putin.

Antes de continuar, e porque parece estar a haver alguma animosidade contra os russos, devo esclarecer que nada tenho contra o povo russo nem contra a sua cultura, a minha opinião é a de estar contra as políticas de um líder autocrático e oligárquico que impôs ao povo russo uma democracia(?) iliberal belicista.

Uma democracia iliberal visa um poder executivo forte, controlando e manipulando os limites das instituições garantes da democracia tais como tribunais e outras instituições democráticas do estado. Para o justificar argumentam que essas instituições, garantes dos valores democráticos e de liberdade não possuem atribuições eleitorais e, como tal, impedem a vontade da soberania do povo. Desta forma a narrativa social é construída ganhando, assim, legitimidade dentro do cenário democrático. Sobre democracia iliberal ver aqui.

Ao escrever este texto veio-me à memória “From Russia with Love” com a tradução em português “Da Rússia com Amor”, filme de espionagem lançado em 1963 que permanece relativamente fiel ao romance de Ian Fleming, escritor britânico e autor do livro com o mesmo nome.

Questionei-me sobre o porquê deste filme surgir na minha memória. A memória recente deu-me a resposta: foi o nome do comentador Alexandre Guerreio que ouvi recentemente seguir o mesmo relato da propaganda de Putin e dos seus mandatários que podem ver aqui.

Em tempos de guerra surge sempre quem se colocam de um lado, ou de outro, dos intervenientes do conflito. Foi assim também na segunda guerra mundial quando, por estranho que pareça, também houve quem estivesse do lado III Reich, no início não só os alemães.

Instalou-se com esta guerra um conjunto de gente, felizmente pouca, antiamericana e anti NATO às quais acrescentam o seu antieuropeísmo irracional. Os apoiantes desta corrente não são recentes, agitaram-se a pretexto da invasão da Ucrânia por Putin e colocam-se do lado de um Estado que agride militarmente outro povo soberano e que o massacra. Esta é a realidade e não há argumentos que o justifiquem por mais rebuscados que sejam.

Esta gente reanima ódios antigos que vêm do tempo da URSS e da Guerra Fria que agora estão a ser aproveitados para a sua ressurreição com novos contornos. Daí as teses do PCP contra os EUA, a NATO e a União Europeia em favor da defesa das posições do Kremlin.

O colapso da URSS que foi recalcado por uma espécie de catarse saiu do seu subconsciente ideológico. A retórica da paz que proclamam, com omissões de princípio, em relação à invasão da Ucrânia, vem das palavras de Jerónimo de Sousa que vinculam o PCP e está nas críticas feitas ao governo ucraniano em linha com as de Moscovo. Ao mesmo tempo que diz apoiar o apelo “à solidariedade e ajuda humanitárias às populações”, acusa a Ucrânia de dar apoio a grupos fascistas ou neonazis, alinhando com uma das narrativas usadas por Putin para justificar a invasão daquele país.

Os argumentos recorrem a históricos condenatórios de outras guerras em que intervieram outros Estados, mas cujos contornos e circunstâncias não se encaixam com as atuais. Seria bom que o PCP em vez de falar em golpes recordasse o que se passou na Ucrânia.

Sem me alargar em história porque isso compete a outros debruço-me apenas sobre alguns factos da atualidade da última década para nos situarmos.

Yanukovych foi presidente da Ucrânia de 25 de fevereiro de 2010 a 22 de fevereiro de 2014 que formalmente rejeitou um acordo de cooperação com a União Europeia que há muito tinha sido negociado e que poderia, no futuro, fazer passar a Ucrânia a ser um dos seus membros e integrar o bloco dos 28 países. Este mesmo presidente, na mesma altura, terá recebido uma série de empréstimos oferecidos pelo governo russo de Putin iniciando um processo de aproximação política com o Kremelin. Esta situação levou a uma série de protestos no oeste da Ucrânia denominados "Euromaidan" que já tido início em 21 de novembro de 2013. Protestos públicos que evoluíram para apelos à renúncia do presidente Viktor Yanukovych e do seu governo.

Além da questão da integração com a Europa havia ainda acusações de corrupção contra elementos do governo, pró-Rússia, que também motivou os protestos.

A análise da situação concluiu que Yanukovych estaria sob pressão direta da Rússia e que o anúncio brusco de que o acordo com a União Europeia não seria assinado por os russos de Putin ameaçarem impor sanções à Ucrânia tendo sido Yanukovych chamado de urgência para um encontro em Moscovo com o presidente Vladimir Putin.

Mas voltemos à atualidade recente. O estilo fascizante de Putin está presente na organização de um comício político disfarçado de concerto no passado 18 de março do corrente que e cujo seu discurso podemos considerar como sendo para a obtenção de apoio à guerra, de exaltação patriótica e de celebração dos feitos militares da Federação Russa na Ucrânia ao velho estilo nazi.

Do meu ponto de vista há os que dizem defender a paz e ao mesmo se colocam do lado de Putin. Esses que dizem defender a paz são os que sustentam que a culpa da guerra é de outros. Sem o dizerem claramente alinham com o pensamento do presidente Vladimir Putin que, em dezembro de 2021, lamentou o colapso da União Soviética há três décadas a que ele chamou "Rússia histórica", conforme noticiou na altura a agência Reuters.

Os comentários de Putin, em tempo divulgados pela TV do Estado Russo (RT-Russia Today), terão provavelmente alimentado ao que chamaram especulação sobre as suas intenções em política externa que os críticos internos, (não sei se hoje ainda existem), aproveitaram para o acusar de projetar a recriação da União Soviética e de contemplar um ataque à Ucrânia, ação que na altura o Kremlin de Putin considerou como sendo ousada.

 Não há dúvida de que a Rússia de Putin é uma democracia iliberal autocrática tendencialmente expansionista que parece estra a pretender provocar uma crise idêntica à que a Alemanha Nazi colocou em prática em 1938. Há mesmo quem chame a Putin czar e o compare a Stalin e a Ivan, o Terrível, quando na Polónia em 2009 falavam de Putin.

Escrevia-se então em setembro de 2009 aquando das comemorações do início da Segunda Guerra Mundial em Gdansk que “Putin passou a última década a procurar restaurar a grandeza russa, em parte através da reabilitação de Josef Stalin e a encorajar uma narrativa heroica e nacionalista dentro do país”.

Estas afirmações são preocupantes pela tentativa de recuperar um passado tenebroso utilizando táticas semelhantes através da utilização de armamento mais sofisticados e com novas estratégias.

Há um erro quando se pensa que a Rússia, em 1939, trouxe a liberdade à Europa central. Estaline atraiçoou a Polónia depois da invasão nazi invadindo-a pelo Leste. Hoje as ambições imperiais de Putin continuam a ser um perigo, como foi demostrado pela guerra contra a Geórgia em 2008.

Foi em Gdansk onde começou a invasão da Polónia pela Alemanha de Hitler.  No dia 1 de setembro de 1939 iniciou uma guerra de seis anos. A Polónia foi dividida em 1939 pelas tiranias gémeas de Hitler e Estaline e foi onde ocorreu o assassinato em massa de judeus no Holocausto nazi e terá sido o principal alvo de campanhas de propaganda concertada russa do Kremlin.

Relativamente à Ucrânia podemos supor que todas as tentativas para chegar a um acordo de paz com Putin serão do ponto de vista moral do direito internacional e do ponto de vista prático e político serão infrutíferos, prejudiciais e perigosos tal e qual o foram todas as tentativas de apaziguar as nazis realizadas entre 1934 e 1939 ao fazer vários acordos e pactos que resultaram em fracassos e não foram respeitados.

Elísio Estaque, sociólogo, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra escreveu num artigo de opinião mo jornal Publico que “O facto de a NATO ter sido criada como força de oposição à URSS num contexto de Guerra Fria, de profunda divisão ideológica no mundo ocidental (capitalismo versus socialismo), associado à imagem do exército soviético no pós-guerra, visto como força libertadora no confronto contra a Alemanha nazi, contribuiu para perpetuar a simpatia das “vanguardas” com a “pátria do socialismo” durante décadas. Desde a Revolução de Outubro, com Lenine e Trotsky, passando por Estaline, Krushtchov, Brejnev, etc, mesmo após a implosão do regime, muitos continuaram a ver no poder russo a força capaz de se opor aos EUA, o locus do poder hegemónico num mundo unipolar.

Na sua cegueira dogmática já veem nesta guerra as trombetas a anunciar o fim do capitalismo ocidental e a consequente queda do império americano.

Fazer comparações com outras ações belicistas da NATO, no passado, ou apresentar contabilidades da mortandade em várias outras latitudes que não a Europa, são de uma insensatez intolerável. Nenhuma ação bélica desta natureza pode ser relativizada, seja onde for e por quem for”.

Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.

Há quem esteja com uma venda nos olhos espreitando por alguns orifícios causados pelo desgaste ou que não queira ver por néscia teimosia, e menos por ignorância, e que, por isso, insistem na retórica discursiva do prisioneiro inocente que se defende dizendo que foram outros que o quiseram tramar. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:14

Ver ouvir escrever.png

Centremo-nos primeiro no mais recente percurso político da Ucrânia e nas suas tensões com a Rússia que começaram em 2019 com a onda conservadora nas urnas para a presidência em que Zelensky ganhou com 73% dos votos a Poroshenko que concorria à reeleição. Poroshenko, admitiu na altura a derrota após a publicação das primeiras contagens dizendo que não deixaria a política. Zelensky aproveitou a sua popularidade em alta, prometeu reformas no sistema político, dissolveu o parlamento e anunciou a convocação de eleições legislativas.

Ao apresentar um plano de governo levou para a discussão pública as críticas feitas na televisão aos "oligarcas" da política ucraniana e defendeu a entrada da Ucrânia para a União Europeia e para a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN) que era a questão central e levou ao atual conflito com a Rússia.

Nos dias que se seguiram à invasão muitos que apoiam a agressão bélica utilizaram uma linguagem com uma gíria cujo objetivo é o de confundir as opiniões públicas seguindo o Presidente Vladimir Putin que também tem recorrido a esse processo de utilizar as palavras nacionalistas, neonazistas, libertação do país da extrema direita, limpeza étnica, etc., quando se refere à Ucrânia.

Acusam Zelensky de fomentar o crescimento do neonazismo e da conivência com o grupo neonazi Batalhão de Azov. Este grupo de milícias foi criado em 2014 para conter separatistas russos nas regiões de Donetsk e Lugansk, tendo sido esta milícia de extrema-direita incorporada em 2015 no exército ucraniano que os pró-russos dizem ainda hoje perdura. É por isso que Putin fala em "desnazificação" para justificar as suas metas no avanço militar de ocupação da Ucrânia. Mas essa situação é interna e compete ao povo desse país soberano pressionar o governo se, para tal, quiser resolver o problema.

Mas nesta equação entrou uma nova variável já conhecida que é Donald Trump. No primeiro ano de presidência, Zelensky esteve na base de uma "trapalhada" de Donald Trump que quase levou o então presidente norte-americano a um processo para impeachment. Em 2019, ano de eleições na UJcrânia, Donald Trump ligou para Zelensky a pedir para que o filho de Joe Biden, seu adversário na corrida à eleição, fosse investigado e que na altura fazia parte do conselho de administração numa empresa ucraniana de gás natural. Trump foi então apanhado num telefonema a reter a ajuda militar à Ucrânia, já em curso, dizendo que ("Gostaria que você nos fizesse um favor, no entanto") dizia, em troca de Zelensky comprometer Biden, rival de Trump às eleições. Trump "poluiu a Ucrânia com sua  negociação política" como se pode ler num artigo na revista The Atlantic. Foi acusado de tentar recrutar poder estrangeiro para interferir a seu favor na disputa eleitoral. Trump chegou a ter a interrupção do mandato aprovada pela Câmara, mas foi barrada pelo Senado americano.

Centremo-nos agora em segundo lugar sobre o que se observa nas redes sociais, em artigos de opinião, comentadores, comentários na comunicação social, comunicados de partidos.

Começo com a perturbante reação do PCP que teima em defender um regime que é criminoso à luz do direito internacional. O PCP agarra-se ao passado soviético mantendo uma linha de defesa de Moscovo disfarçada de rejeição do capitalismo de Putin ao mesmo tempo que culpabiliza o capitalismo dos EUA e a NATO pela invasão da Ucrânia. Não se aperceber que a Rússia já não é aquilo que formou o seu ideário, mas que é um projeto de poder de um homem que alimenta e subsidia muitos partidos da extrema-direita europeia ao mesmo tempo que se queixa da extrema-direita na Ucrânia.

Por seu lado o Bloco de Esquerda anda numa roda-viva para ver se consegue distanciar-se das posições do PCP numa dança intermitente que ora critica, ora desvaloriza, ou, a dizer, como ontem aconteceu, que “O Bloco de Esquerda defende que é dever das autoridades portuguesas identificar e investigar os oligarcas russos” e a deputada Mariana Mortágua sublinha que os interesses económicos não podem sobrepor-se às sanções contra Vladimir Putin. Mas, sobre a votação do empréstimo financeiro à Ucrânia, a deputada do Bloco de Esquerda diz que acusar o partido de votar contra é querer confundir o debate”.

Nas redes sociais parece-me que ser-se contracorrente às evidências começa a dar jeito para os que desejam feedbacks a todos o custo aos seus posts e opiniões publicadas na imprensa.

Ser polémico está na moda, “vende”. Falem mal de mim ou sobre mim, mas é preciso que falem. Alguns colocam-se em pontos de vista que tentam contrariar factos e evidências recorrendo aos mais artificiosos argumentos, virando do avesso a realidade dos factos, buscando no passado longínquo as causas para justificar hoje a agressão de Putin contribuindo, assim, para a lavagem da sua imagem. Justificar a agressão à Ucrânia comparando-a com outros casos que se verificaram no passado e noutros contextos parece-me caricato. Também neste domínio há negacionistas da realidade de facto, como os há nas mais absurdas situações e circunstâncias.

Pensamentos apressados que sugerem tomadas de decisões, em momentos de emoção e nervosismo, como apelar à provocação ao adversário, à confrontação e à guerra têm o risco de agravar conflitos em vez de os acalmarem. Recorro a uma frase da radical Ana Gomes, senhora que se candidatou a Presidente da República, que afirmou na SIC Notícias “Para que serve a NATO se não consegue travar massacres contra populações na Europa?” e acrescenta que a zona de exclusão aérea no país invadido pela Rússia “tem de estar em cima da mesa”, mesmo que Vladimir Putin considere isso um ato de guerra. Entrámos na zona da paranoia.

Pensarmos que conhecemos bem e confiamos no adversário que se tem pela frente é no mínimo ingenuidade. Putin não é de confiança recorde-se quando disse que o ocidente estava em histeria quando Biden apontava uma data para a invasão da Ucrânia. Muitos gozaram com a data marcada para início da guerra. Passados dias deu-se a invasão.

Putin deve estar com problemas internos e, por isso, a censura que instituiu na Rússia passou a ser obrigatória e foi agravada.  A censura é necessária como fator para a formação e consolidação do "putinismo”. Putin tem plena consciência da importante função destinada à censura. É a guerra da informação e da contra informação, da opinião e da contraopinião que se agudizam em tempos de guerra.  O controlo da informação e a censura desde sempre desempenharam um papel fundamental na formação e para a consolidação dos estados totalitários.

Putin pretende mostrar que só existe politicamente o que o público sabe que existe. Daí as mentiras, os cortes e as inversões dos factos à boa maneira estalinista. Serve-se da guerra para controlar ainda mais o espaço da informação e bloquear os principais meios de comunicação independentes que possam gerar movimentos que, normalmente, levam a grandes protestos.‎

Seis dias depois das tropas russas atacarem a Ucrânia, a Rússia (leia-se Putin) bloqueou a Dozhd TV e a Ekho Moskvy por supostamente espalharem, segundo ele, "informações deliberadamente falsas" sobre a invasão da Ucrânia por Moscovo tendo ficado indisponíveis na Rússia logo após o anúncio.

‎‎A Echo of Moscow, uma estação de notícias russa independente que transmite desde 1991, anunciou que encerraria na quinta-feira depois de se recusar a cumprir as regras de censura exigida em reportagens sobre a guerra na Ucrânia sendo obrigada a utilizar apenas fontes militares oficiais do Kremlin.‎ Outra estação foi a TV Rain, a principal emissora de televisão independente do país que encerrou temporariamente também na quinta-feira as suas transmissões em desacordo com regras semelhantes.‎

Nos jornais russos, talvez a maior parte, os artigos publicados são um vómito de inverdades de propaganda. E só acredita neles quem quiser acreditar. Como não vivenciamos os momentos "in loco" podemos ser tentados a acreditar que a comunicação do ocidente é que está errada e que a verdade, a dele (a de Putin), é que está certa. Foi assim no passado com Hitler, com Estaline e também o foi com Salazar aqui, no nosso canto junto ao mar.

Não se compreende porque um grupo de pessoas, felizmente pequeno, se tenha colocado do lado de Putin contra a Ucrânia apenas com o argumento de serem contra a NATO, os U.E. e os EUA. Dizem que são pela paz, mas não dizem em que termos. Falam em negociação, mas que negociação? O que pretendem será a capitulação incondicional da Ucrânia, país soberano, para que fique na órbitra da Rússia de Putin? Será a dissolução da NATO deixando Putin livrfe para o controle total da Europa? Se assim não é então que manifestem sobre qual será para eles a alternativa para a paz.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:27

Guerra Ucrania.png

Na guerra da informação, das opiniões, comentários e outras emotivas representações escritas começam a desabrochar na imprensa, nos blogs, nas redes sociais. A dicotomia “putinsófilos” e “ucranisófilos” juntam-se, por um lado os pró NATO, EUA e U.E. e, por outro, os do anti NATO, EUA e U.E. E assim se vai lançando a confusão no espírito das massas, nome dileto que líderes bolcheviques como Lenin davam ao povo.

Depois do primeiro impacto devido à surpresa comentadores, desenhadores de opiniões, jornalista e especialistas em política internacional que a tudo estão atentos e que de tudo sabem recuperaram da surpresa e, cá vai disto, lançam artigos desde os mais curtos aos mais extensos, recorrem à história que escrevem à sua maneira com propaganda contra a NATO, a União Europeia, o regime ucraniano que dizem sustentado por esquadrões da morte nazis saudosos de Hitler. Seguem a nomenclatura lexical de Putin desculpabilizando-o. Muito deles com afinidades com as extremas-esquerdas que, dizendo-se contra o capital e o imperialismo ocidental, apoiam o capitalismo-imperialista-autocrático de Putin e que nada tem a ver com o povo russo.  Para estes senhores parece que, quem estiver a apoiar a Ucrânia são uma cambada de nazis.

Ser-se anticapitalista e anti-imperialista e, ao mesmo tempo, defender outro tipo de capitalismo e de imperialismo como o de Putin, apenas, porque ideologicamente se é contra organizações e uniões que apenas servem para defesa de países que se sentem ameaçados por outros imperialismos, isso é prevenção contra-ataques de outros. São pelo regresso de uma nova e mais complicada guerra fria que ninguém quer. Defendem a paz sem entenderem a incoerência porque, ao mesmo tempo parecem estar do lado do que recorrem à guerra para ocupação do povo da Ucrânia personalizados pelo tirano Putin. Esses bem podem cantar hinos à paz que ninguém os ouve porque a alternativa que eles apoiam é a guerra. Ainda há muitos que preferem a guerra, que nunca viveram, na expectativa de que Putin possa eliminar o eixo do mal a que chamam NATO, EUA e a União Europeia.

Será o capitalismo russo de esquerda? O PCP parece achar que sim, embora no seu comunicado tente enganar o povo, assim como Putin tem feito com as suas intervenções. Segundo se pode ler num comunicado do PCP “a Rússia é um país capitalista, o seu posicionamento é determinado no essencial pelos interesses das suas elites e dos detentores dos seus grupos económicos”, mas apesar disso o PCP defende que a Rússia não é um agressor, mas uma vítima para a qual não é aceitável que um inimigo “esteja acampado nas suas fronteiras” que faz “um cerco militar por via de um ainda maior alargamento da NATO”. Já que o PCP gosta tanto do passado o que dizia na altura quanto ao Pacto de Varsóvia, uma aliança militar firmada entre os países comunistas do leste europeu ocupados (Hungria, Roménia, Alemanha Oriental, Albânia, Bulgária, Checoslováquia e Polónia) com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Aliás o PCP deve estar no mesmo registo de “Os países ocidentais que tentam implementar sanções contra a Rússia são um "império de mentiras", disse o presidente Vladimir Putin numa reunião dedicada à crise económica na Rússia segundo o PRAVDA.

A perda de alguns países chamados do Leste após a queda do regime soviético está atravessada na garganta de Putin e de alguns partidos comunistas. Esses países passaram a ser livres e, como tal, puderam fazer as suas opções de aderiram á U.E e à NATO, até como defesa para sua própria sobrevivência enquanto países e nações.

Putin com a sua ânsia de poder absoluto que carateriza os ditadores, não terá percebido que teria mais a ganhar negociando antes da guerra. Como ele já houve outros que também quiseram ser donos da Europa e do Mundo, mas acabaram por finar.

Numa entrevista ao “Politico” Fiona Hill, uma das mais claras especialistas russas, que estudou Putin ao longo de vários anos trabalhou com administrações republicanas e democratas afirmou que “Putin esteve nos arquivos do Kremlin durante a Covid a olhar para mapas e tratados antigos e todas as diferentes fronteiras que a Rússia teve ao longo dos séculos. Ele disse, repetidamente, que as fronteiras russas e europeias mudaram muitas vezes. E nos seus discursos, ele foi verificar vários ex-líderes russos e soviéticos, assim como Lenin e dos comunistas, porque na sua opinião eles romperam com o império russo, perderam terras russas na revolução, e sim, Estaline trouxe de volta alguns deles novamente para o grupo como os Estados Bálticos e algumas das terras da Ucrânia que haviam sido divididas durante a Segunda Guerra Mundial, mas que foram novamente perdidos com a dissolução da URSS. A opinião de Putin é que as fronteiras mudam, e assim as fronteiras do antigo império russo ainda estão em jogo para Moscou dominar agora.”

A questão que se coloca é a de saber se alguma vez se esperaria que países da NATO fossem alguma vez atacar a Rússia? O que está em causa é o ocidente poder defender-se do imperialismo expansionista russo, ou melhor, de Putin, porque o povo não entra nessas aventuras. 

As intenções expansionistas de Putin estão claras.  Segundo a Rus-News de 1 de março de 2022 o presidente Vladimir Putin disse em 5 de dezembro do ano passado que “Nas próximas décadas, a Rússia crescerá, é claro, com o Ártico e os territórios do Norte, são coisas completamente óbvias” o que incluía a exploração mineira. O anúncio foi feito durante uma reunião com voluntários e finalistas do concurso “Voluntário da Rússia”. Salientou ainda que mais de 70% do território da Rússia está localizado nas latitudes do Norte e tudo o que acontece no Norte é de "interesse e valor especial". “Nem estou a falar o desenvolvimento da Rota do Mar do Norte”, acrescentou. O Norte para Putin é indefinido pode ir até ao norte da Finlândia. O desenvolvimento nessa direção, segundo o presidente, é o futuro da Rússia em termos de extração de recursos naturais para o país. Só não ouve e não percebe quem não quer.

Parece não haver dúvidas de que Putin está a ser apoiado por grupos de extrema-direita

Putin não tem aliados só à esquerda. Na Europa, há partidos que podem ter recebido financiamento por investidores russos ligados a Putin. Marine Le Pen, líder da Frente Nacional francesa da extrema-direita francesa foi recebida pelo Presidente russo Vladimir Putin, encorajando a sua candidatura às presidenciais para a primeira volta a 23 de Abril de 2017. É acusada de ter recebido fundos de um banco russo para financiar a sua campanha eleitoral.

Matteo Salvini, líder da Lega, partido italiano de extrema-direita, é também apoiante de Putin, surgindo numa ocasião com uma t-shirt vestida que ilustrava a cara do Presidente russo. O mais recente é o do aliado nos tempos é Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, que se reuniu com Putin no mês passado, em Moscovo, e que não condenou, tanto quanto se saiba, as ações do presidente russo face à Ucrânia.

Todavia, Europa alguns partidos da mesma extrema-direita ficaram numa situação desconfortável pelo ataque de Vladimir Putin à Ucrânia. A líder do RN - Rassemblement National, antiga FN - Front National (Frente Nacional), e Matteo Salvini, da Liga de direita da Itália, que passaram anos a divulgar a sua afinidade com o presidente russo, aceitando empréstimos russos à medida que a Rússia reunia tropas ao redor das fronteiras da Ucrânia, alguns desses amigos de Putin minimizaram a ameaça ou acusaram o Ocidente de aumentar as tensões. Ainda outros como o Presidente da República Checa, o primeiro-ministro da Hungria, quando Putin declarou guerra à Ucrânia e mísseis balísticos caíram sobre alvos ucranianos, essa atitude tornou-se mais difícil o que levou muitos a recuar a sua simpatia e apressaram-se com declarações a condenar o ataque.

As dúvidas se é que as havia no apoio e simpatias das extremas direitas por Putin e pela invasão da Ucrânia foi dissipada. “A imagem de "homem forte" do presidente russo e o desdém pelos liberais transformaram-no num herói para os nacionalistas brancos”, escreve Sergio Olmos no The Guardian em 5 de março de 2022.

Num evento nacionalista realizado na semana passada na Florida, EUA, um organizador e líder supremacista branco pediu “uma salva de palmas para a Rússia", no meio de um rugido de aplausos para o presidente russo, poucos dias depois de este invadir a Ucrânia e muitos participantes responderam gritando: "Putin! Putin!".

A WABE uma estação de televisão pública de Atlanta na Georgia no dia 1 de março de 2022 pode ler-se que líderes republicanos no Congresso estão divididos sobre o que fazer com a deputada Marjorie Taylor Greene depois desta congressista ter discursado num evento de fim de semana organizado por um nacionalista branco em que se dizia maravilhada com a invasão da Rússia à Ucrânia enquanto a multidão eclodiu em cânticos de "Putin!”

A guerra na Ucrânia expôs a afinidade da extrema-direita americana com Putin. Como também já escrevi no anterior blogue, aquela afinidade é complicada e mostra a dificuldade que os líderes republicanos têm para combater a tendência do partido em direção ao autoritarismo ao estilo de Trump em abraçar o extremismo de direita.

A esperança do ocidente, Europa e EUA, de que após a queda do regime soviético e do muro de Berlim tudo iria ser um mar de rosas foi um erro tremendo. A desmilitarização do ocidente leia-se U.E. foi um erro de cálculo e de estratégia de que Putin, após ter tomado o poder, veio a aproveitar-se. O autoritarismo e as ambições imperialistas de Putin surgidas após a queda do regime soviético podem agravar-se. 

Putin com o êxito da tomada da Ucrânia que irá ser seguido pela substituição de um governo fantoche a soldo de Moscovo, não irá parar. Países que saíram do domínio soviético e que aderiram á U.E. estarão na mira de um autocrata com a paranoia do poder e da riqueza.

O ceticismo deve ser nestas alturas a atitude mais sensata. O comentário político nos órgãos de comunicação, podem não ser absolutamente credíveis porque há muitos comentadores políticos e personagens muito conhecidas que publicam na Internet informações que não são propriamente mentiras, mas imprecisas, e cabe a quem as lê abordar cada mensagem com cuidado.

Recorre à evocação da história e a outros contextos para justificar a ação de Putin de hoje de invadir a Ucrânia, ou apara atacar os imperialistas do ocidente, os EUA, a NATO e a U.E. Num desvario sectário alegam com o belicismo do ocidente justificações para de agressões e da guerra desde tudo seja contra o ocidente. Recorrem a outros conflitos descontextualizados para o justificarem. Nãoo compreendo estes pontos de vista.

Na verdade, o Partido Comunista Português (PCP) à semelhança de Putin ainda não conseguiu ultrapassar, e acho que jamais ultrapassará, o trauma do fim da União Soviética e vai morrer com esse pesar. Por outro lado, já alguém do PCP, há muito tempo, classificou a Coreia do Norte como uma democracia. Também sabemos que Hitler e Estaline fizeram um pacto por via do qual invadiram e dividiram entre eles países como a Polónia. Mas os tempos passaram, a História condenou essas atitudes e hoje as atitudes das nações e dos povos são outras, mas neste outro contexto surgiu, qual reencarnação, um novo apocalíptico que pretende restaurar os velhos tempos da guerra. Apesar disso, alguns como o PCP, nada mudaram e, mesmo às portas da morte, dá-nos este espetáculo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:21


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Posts mais comentados