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A longa guerra pelo futuro está para começar

 Editorial de Manuel Carvalho

in jornal Público, 11de Julho de 2022

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Os autocratas russos vão certamente reprimir todos os sinais de descontentamento da sua população. As democracias europeias terão outras dificuldades.

A Rússia está cada vez mais perto de conseguir os seus objectivos militares na Ucrânia. Já não está em causa a queda do Governo de Volodymyr Zelensky e a sua substituição por um executivo fantoche manipulado pelo Kremlin, como a primeira fase da “operação militar especial” indicava. Como revelou sem qualquer pudor o embaixador de Moscovo em Londres, a Rússia parece para já ficar contente com o controlo de um quinto da área actual da Ucrânia.

O que está em causa é o controlo do Donbass, a zona mais rica em matérias-primas, na produção industrial e na agricultura, e um corredor junto ao mar Negro que garante a continuidade territorial da Rússia até à Crimeia. Mas não é de afastar a possibilidade de Moscovo levar as suas conquistas até ao Dniepre, como aconteceu quando o país foi partilhado com a Áustria-Hungria, até ao final da I Guerra Mundial.

Se a Ucrânia for amputada de uma parte substancial dos seus territórios históricos, a Europa estará condenada a viver uma longa era de Guerra Fria. A ocupação jamais será aceite por Kiev, pela União Europeia e, em geral, pela NATO. As sanções vão perdurar, a militarização da fronteira Leste da Europa será acelerada e a Rússia tenderá a cortar os abastecimentos de energia ao Ocidente.

Como nos anos duros do pós-guerra, a ameaça russa tenderá a reforçar o projecto europeu. Mas, sejamos realistas, a eventualidade de o conflito actual se perpetuar num jogo de nervos não augura nada de bom. O que acontecer nos próximos meses, principalmente no Inverno, permitirá antecipar com maior nitidez os desafios com os quais a Europa terá de lidar.

Se os custos das sanções e o corte nos abastecimentos de gás à Europa vão agravar as debilidades económicas da Rússia e submeter a sua população a maiores privações, sabemos também que os europeus terão de sofrer um agravamento das suas condições de bem-estar. As restrições no consumo de gás vão gerar dificuldades numa população habituada a enfrentar as agruras do Inverno com a energia vinda da Rússia. E os impactes na economia de países como a Alemanha, onde o gás é essencial para a produção industrial, estão ainda por avaliar.

É neste confronto que residem todas as incertezas. Os autocratas russos vão certamente reprimir todos os sinais de descontentamento da sua população. As democracias europeias terão outras dificuldades. Uma crise económica longa e o agravamento das condições de vida são ameaças capazes de estimular soluções autoritárias e extremistas. A guerra pode ficar em suspenso na Ucrânia, mas as suas consequências imprevisíveis serão determinantes para o futuro próximo.

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publicado às 09:40

Jerónimo e Putin.png

A estratégia que o PCP - Partido Comunista Português tem vindo a seguir após o desaire das eleições, e, mais recentemente, com a invasão da Ucrânia está a desenvolver-se em três frentes.

A primeira frente, a mais recente, é a manutenção da culpabilização da invasão da Ucrânia pelo ocidente tratando o invadido e o ocidente como sendo os agressores. A desculpabilização do agressor é também defendida pelos que, reivindicam um pensamento alternativo, para eles indiscutível, em contraponto ao que eles denominam de pensamento único, que é contra a invasão e que é o errado. Para essa corrente, a Europa, enfeudada aos EUA e à NATO, são os geradores de uma escalada militar belicista.

Pela análise dos argumentos de Vladimir Putin e dos seus seguidores, o ocidente é o meio privilegiado da expansão dos valores negativos da cultura ocidental para a Rússia. É, pois, em nome da autodeterminação dos povos, e não apenas do povo russo, que Vladimir Putin diz prosseguir a sua política externa de forma a romper com os constrangimentos da hegemonia ocidental (ver discursos e intervenções). Ao mesmo tempo insiste em querer preservar a influência de Moscovo no “estrangeiro próximo” que se perdeu com o colapso da URSS (a retórica do PCP está próxima). Todavia a invasão da Ucrânia é demonstrativa da sua contradição por não lhe reconhecer o seu direito à autodeterminação.

A segunda frente do PCP é ideológica e processa-se no âmbito da sua política interna. No partido nada acontece por acaso. O “interior” do partido está rodeado pela discrição onde está enraizada uma ideologia dogmática com certos postulados não sujeitos a crítica e em que é o comité central que faz o ditame do posicionamento ideológico-partidário do momento que obedece a uma liturgia própria. O PCP debate-se, por isso, com o dilema de simultaneamente ter de responder à necessidade de manutenção da sua identidade, cujos valores e princípios são submetidos à ideologia internacionalista do comunismo mais ortodoxo e a vontade do eleitorado que pretende recuperar.

As narrativas produzidas pelo PCP têm vindo a competir com outros discursos existentes no espaço político. Ao longo do tempo, no que se refere a evolução discursiva, desenvolveu algumas alterações na sua terminologia linguística reprimindo algumas expressões e a aceitação de outras pela reformulação de elementos linguísticos que deixaram de ser utilizados na sua antiga formulação com a entrada e a participação do partido no diálogo político que se encetou em Portugal após o estabelecimento do regime democrático, ficando numa espécie de letargia de que tem custado a sair, mas a que parece pretender regressar.

Todavia, ao longo dos anos, ao escutar e ao ler alguns dos discursos dos líderes do PCP tenho verificado que, desde o tempo da URSS e do PCUS (Partido Comunista da União Soviética), até à atualidade, alguns dos pressupostos do PCP mantiveram-se. A NATO continua a ser uma organização agressiva, os EUA capitalistas, imperialistas e agressores e a União Europeia está ao seu mando. Deste modo, faça a Rússia  o que fizer, (leia-se antes Putin), para o PCP estará sempre certa, no pressuposto de que, todos os que considerem como inimigos os de quem sou inimigo, são meus amigos.

Apesar da confusa barracada causada por declarações por figuras do PCP, algumas delas contraditórias, sobre a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin que pode ver aqui e aqui, e em que o líder Jerónimo de Sousa tem afirmado que o PCP garante “não ter nada a ver com o governo russo” nem com Putin o certo é que, os seus militantes e adeptos ao colocarem-se do lado contrário de quem está contra Putin colocam-se, indiretamente, do lado do agressor.

No 101º aniversário do PCP Jerónimo de Sousa afirmou ser “uma calúnia” dizer que o partido apoia a invasão da Ucrânia. Apesar da tentativa de se demarcar do regime de Putin, não foi a ele quem mais atacou. Foi aos EUA que mais apontou o dedo. No mesmo comício, em março, a defesa indireta do agressor que é Vladimir Putin deu-se pelo ataque aos que ajudam o agredido, foi o Ocidente, sobretudo aos EUA, que mais responsabilizou. Narrativa que também tem passado pelas redes sociais pelos seus adeptos. Jerónimo de Sousa apontou “todo um caminho de ingerência, violência e confrontação” que diz ter começado no “golpe de Estado de 2014, promovido pelos EUA, que instaurou um poder xenófobo e belicista”, e que provocou “a recente intervenção militar da Rússia na Ucrânia e a intensificação da escalada belicista dos EUA, da NATO e da União Europeia.” Afinal o que é isto senão a lavagem da política de Putin em relação à Ucrânia? Basta agora acrescentarmos o termo “operação militar especial” que Jerónimo já utilizou para se referir à invasão da Ucrânia. A colagem torna-se ainda mais evidente quando não refere Putin como imperialista nem o coloca em causa pelo que deveria ser para o PCP a tradição leninista da autodeterminação dos povos, já que, Putin responsabiliza Lenine pela independência da Ucrânia por ser o seu "autor e criador".

Os argumentos vindos do Kremlin para a invasão da Ucrânia são apontados ao ocidente, sobretudo à U.E., EUA e NATO o que parece terem dado ao PCP um novo alento. Não é por acaso que os seus capangas ideológicos andam pelas redes sociais e blogues a apoiar indiretamente Putin criticando e colocando-se contra o ocidente. Para o PCP a U.E. e a NATO foram e são uns empecilhos ao avanço estratégico da Rússia para ocidente e um bloqueio à progressão dos desígnios de expansão do comunismo na esperança de que um dia a URSS ou algo parecido regressem.

O PCP, embora esteja contra as políticas capitalistas do Kremlin como diz, ao mesmo tempo está em consonância com a sua política externa. A ambição do Kremlin pelo controle da Europa, pelo menos dos países que pertenceram ao Pacto de Varsóvia, é a hegemonia económica e geopolítica que passa também pelo desmembramento da União Europeia e a NATO que tem sido (e sempre foi) uma pedra no sapato de Putin e que também fazem parte de uma das lutas do PCP.

A terceira frente que não é independente das duas anteriores resulta da pesada derrota nas últimas eleições legislativas que está a fazer com que o PCP regresse ao “show de rua” com reivindicações e greves, com palavras de ordem mais do desgastadas e com o costumeiro radicalismo arcaico e ortodoxo.

As palavras de ordem do PCP voltaram a ser as de um populismo de esquerda para captar as massas populares para a sua luta. Palavras de ordem, as mesmas de sempre, como “aumentar os salários”, “valorizar o trabalho”, “desenvolver o país” às quais acrescentam a inflação e o custo de vida que vieram, em boa-hora, ajudar a direita e a extrema-direita a fazer oposição, como já vimos no Parlamento o PSD a defender aumento na função pública quando anteriormente falava no peso do Estado na economia.

Aprovado o OE para 2022 que o PCP votou contra, juntamente com a direita e com a extrema-direita, pela mão dos sindicatos que controla irá tentar instalar uma instabilidade social artificial com greves, paralisações e manifestações. O seu objetivo é fazer uma oposição de ataque cerrado e de desacreditação da maioria absoluta do Governo do Partido Socialista.

As únicas propostas que o PCP apresenta para melhorar o país são o aumento das pensões, dos salários, a fixação de preços contra o grande capital. Fixação de preço que resultaria em faltas nos abastecimentos de produtos básicos essenciais para as populações, sobretudo as urbanas, em filas para a compra de produtos essenciais como se verificava na ex-URSS da chamada economia planificada do regime comunista.

A economia da URSS era tão planificada que, depois da sua dissolução as privatizações de grandes empresas foram parar à mãos de quadros, antes fiéis do PCUS-Partido Comunista da URSS e “gestores” dessas mesmas empresas do Estado, que são atualmente os grandes oligarcas da Federação Russa e cuja maioria ainda está do lado de Putin.

Ainda no sentido desta terceira frente e aproveitando a atual conjuntura internacional devido à invasão da Ucrânia seguida do pedido de adesão à U.E., o PCP luta com as armas desestabilizadoras que tem ao seu dispor para dar apoio, mal disfarçado, à política de Vladimir Putin. Esta posição é coerente com a nota do gabinete de imprensa do PCP de 22 de fevereiro deste ano.

Há ainda a salientar a despropositada conferência que o PCP organizou no ISCTE na passada terça-feira, em Lisboa, para analisar as “consequências do uso do euro para o país se este rumo se mantiver” e as “possibilidades para concretizar uma rutura”. Parece-me que Putin terá ficado agradecido, assim como o PCFR.

O PCP faz um balanço negativo da adesão ao euro e destes 20 anos em que a moeda esteve a circular baseia-se na perda de soberania sobre a sua política monetária, cambial e orçamental; nos períodos de recessão ou estagnação económica, tornou-se mais endividado e dependente, perdeu capacidade produtiva, e não convergiu com a média da União Europeia. “Temos o dever de perguntar: como serão os próximos 20 anos? Vamos resignar-nos a este cenário?” questiona o PCP. Os argumentos parecem ser idênticos aos da extrema-direita quando está contra a U.E.

Os comunistas realçaram na conferência, organizada pelos eurodeputados do PCP, que “A permanência no euro já é suficientemente longa para se tirar conclusões independentes das conjunturas e dos governos. Este é o tempo de recordar a propaganda e as promessas então feitas e de as conformar com os impactos reais da adesão. Mas é sobretudo o tempo de pensarmos o presente e o futuro. Este debate assume recusar inevitabilidades”.

A proposta e a estratégia do PCP ao adotar uma estratégia anacrónica para criticar a presença de Portugal no Euro vai no sentido de que Portugal fique novamente “orgulhosamente só”, tal como proferiu Salazar num discurso em 1965 quando o mundo se opunha à manutenção do colonialismo. É lamentável que após 57 anos, embora num contexto distinto, mas igualmente severo, o PCP esteja a querer encaminhar Portugal para o desastre.

A discussão veio facilitar a abertura do tema que está no alinhamento com Putin ao aperceber-se de uma Europa Unida pelo que há que estilhaçar esta perigosa união. Não nos admiremos se a extrema-direita vier também a alinhar com a ladainha comunista sobre a U.E. Temos visto nos últimos anos como a extrema-direita na Europa tem trazido para a discussão populista a verborreia contra a União Europeia.

Enquanto continua a haver países de leste, nomeadamente a Moldávia, que pretendem entrar para a U.E. e para a NATO/OTAN e para zona Euro, coisa que o presidente Vladimir Putin vê como um cerco à Rússia, e o Reino Unido acha que terá sido um erro a sua saída da U.E. o PCP continua a propor a saída de Portugal do Euro. Não é novidade, a sua coerência reside no facto de ter estado sempre contra a entrada de Portugal para a U.E. e para a zona Euro que, para aquele partido, é uma organização “defensora do grande capital”. Aliás, em 2016, o PCP defendia “derrotar a União Europeia, criar ‘outra Europa’ dos trabalhadores”. Qual? A da ex-URSS?

De facto, parece-me estranho que o PCP nas atuais circunstâncias esteja novamente a levantar a discussão e a colocar em causa o Euro e a U.E. Caso fosse desmantelada a U.E. esta ficaria dividida e a porta ficaria aberta ao imperialismo de Vladimir Putin. Neste aspeto o PCP é coerente porque sempre foi contra a U.E., mas, saído das “amarras” de compromissos de apoio parlamentar com o PS encontrou novamente o folego e a oportunidade para, ao arrepio da guerra da Ucrânia, se aproximar dos pontos de vista de Vladimir Putin cuja filosofia é contra a E.U. e contra o Euro por ver neles um empecilho apesar de a ter enfeudado ao fornecimento de gás e petróleo da Rússia.

Este debate sobre o Euro não surge por acaso e regressa com os mesmos estribilhos já bem conhecidos.

Convém também não esquecer que este espírito anti U.E. e anti NATO foi também a do anterior presidente dos EUA Donald Trump que esteve empenhado no seu enfraquecimento como realçou o Presidente francês Emmanuel Macron em 2019: “O que estamos a assistir é a morte cerebral da NATO", devido às decisões do presidente norte-americano sobre a Aliança Atlântica e também pelo comportamento do presidente turco”. A invasão russa da Ucrânia ocorreu num momento de enfraquecimento da NATO e não de um ostensivo e concreto alargamento até à fronteira russa.

O PCP sabe que a política externa de Vladimir Putin se pauta pelo confronto com os países ocidentais como se tem verificado há algum tempo. Os comunistas do PCP encontraram agora uma oportunidade de fazer eclodir uma discussão sobre o Euro porque a conjuntura da invasão da Ucrânia, a que também Jerónimo de Sousa chamou “operação militar especial”, e a que, claramente, nunca se opuseram, a não ser em falar em abstrato na paz que dizem pretender.

O presidente Vladimir Putin, para justificar os seus objetivos argumenta que se está a criar um “cerco estratégico”, o que é falso, e, de acordo com esta narrativa, traçou uma política externa que diz ser defensiva. Independentemente da avaliação que possamos fazer quanto a esta linha de argumentação, há uma verdade inequívoca: as ações de Moscovo ao longo dos últimos anos quer na Moldávia, na Geórgia, na Crimeia e agora na Ucrânia, as ações de Moscovo desfizeram dúvidas quanto à postura bélica assumida pelo presidente Putin.

 

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publicado às 16:17

Assumam que querem a vitória da Rússia

por Manuel_AR, em 09.04.22

Opinião

Sejam adultos, assumam que querem a vitória da Rússia

Neste cenário, em que só é possível a paz dos cemitérios, qualquer pessoa que partilhe o quadro de valores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos sente um dever moral de apelar a que se continue a ajudar a resistência ucraniana.


Não há nada mais perigoso do que uma opção política baseada apenas em princípios éticos, a não ser uma opção política baseada em tudo menos em princípios éticos. Uma decisão bem-intencionada pode ser contraproducente: pode ela própria ser nefasta para os valores que deseja promover, se não tiver em atenção os limites que a infinita complexidade do mundo impõe aos nossos sentimentos de dever. Mas uma decisão que não siga uma qualquer bússola de valores, seja por niilismo, oportunismo ou embaraço em enfrentar o substrato moral das alternativas, é logo à partida uma decisão inaceitável. A amoralidade é pior do que a temeridade.

Os últimos dias provocaram duas mudanças dramáticas na discussão. Em primeiro lugar, deixou de fazer sentido a ideia de que a Rússia sairá inevitavelmente vencedora da invasão. O falhanço da conquista da capital mostra que, para além da capacidade admirável de resistir ao agressor, a Ucrânia pode mesmo derrotá-lo. Em segundo lugar, os destroços materiais e humanos mostraram o verdadeiro significado de uma ocupação russa, além de que as subsequentes mentiras de Moscovo revelaram o valor real da palavra de Putin. Como é que, perante isto, se negoceia um acordo de paz com cedências territoriais?

Neste cenário, em que só é possível a paz dos cemitérios, qualquer pessoa que partilhe o quadro de valores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos sente um dever moral de apelar a que se continue a ajudar a resistência ucraniana. O Ocidente tem de redobrar o seu apoio, para evitar a rendição. Com mais pressão diplomática, certamente, mas também com mais armas, mais apoio logístico e humanitário, e mais sanções económicas.

Ainda assim, há muitas pessoas que continuam a querer contaminar a discussão com o nevoeiro de uma complexidade que não existe. Escrevem crónicas e manifestos extraordinários, a denunciar o belicismo de Zelenskii, a defender que não se forneçam mais armas à Ucrânia, a lamentar que “pensar” seja “difícil”, a acusar os outros de serem levados pelo sensacionalismo e o sentimentalismo, e a pedir mais jornalismo do que propaganda (o que, aliás, é desde logo um insulto aos jornalistas que atestam as atrocidades russas nos órgãos que publicam esses textos).

O que convinha, para benefício do debate numa sociedade adulta, é que fossem totalmente claros e consequentes com o que defendem. Sendo que o que defendem, como é ostensivo, é a vitória da Rússia. Só isso explica que, em face da evidência da barbárie, continuem a desviar a conversa. Muitos dos autores daqueles textos passaram os últimos anos a alinhar com a política externa de Putin. Quer em geral, quando defendem o direito da Rússia à sua zona de influência, num mundo “multipolar” contrário à ordem liberal euro-americana, quer em particular no tema da Ucrânia, no qual estiveram sempre, sempre, sempre do lado das posições de Moscovo. Viveram bem com o governo fantoche de Ianukovitch, opuseram-se ao movimento pró-europeu e pró-democrático de Maidan, apoiaram a anexação da Crimeia, acusaram Zelenskii de ser infantil, populista e neonazi. Quando chegam a este ponto e propõem coisas como o fim do fornecimento de armas defensivas à resistência, querem o quê? Querem evidentemente a rendição da Ucrânia e a vitória da Rússia.

Deixemo-nos, nós próprios, de rodeios: o problema destas pessoas não é a dificuldade de pensar; é a dificuldade de assumirem o que verdadeiramente pensam.

O autor é colunista do PÚBLICO

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publicado às 19:00

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A “pax romana” foi um período que se situou entre 27 a.C. e 180 d.C. que garantiu naquela época histórica estabilidade e tranquilidade. Também nós, na Europa, atravessámos uma pax europeia até à invasão da Ucrânia confrontando-nos agora com uma guerra perto de nós. Paz que do meu ponto de vista está longe de ser conseguida por teimosia de um invasor que parece pretender substituir a liberdade que tem sido o atributo da democracia europeia por outro tipo de ordem iliberal não democrática.

Parece que Lavrov, ministro dos negócios estrangeiros da Rússia, foi à China e fez declarações em que anunciou uma "nova ordem mundial, multipolar, justa e democrática" acrescentando que “a situação internacional ficará muito mais clara, e que nós, juntamente com vocês e com os nossos apoiantes, caminharemos para uma ordem mundial multipolar, justa e democrática”, o sublinhado é meu. A que justiça e democracia se refere? A hipocrisia do Governo russo não tem limites quando menciona a palavra democracia, palavra que para ele não tem qualquer valor.

Os apoiantes desta tese também os há por cá que aproveitam a invasão da Ucrânia como pretexto para criticar fortemente o ocidente, nomeadamente a NATO, os EUA e a U.E., pelas mais diversas razões. Estes centram-se apenas no princípio da responsabilidade da guerra justa que exige que se examine de quem é a responsabilidade na guerra, olhando apenas para o lado do agressor desvalorizando o ato ilícito da invasão contribuindo para satisfação do invasor Putin que, sendo contrário ao sociocentrismo, está a olhar o mundo duma perspetiva estreita e egocêntrica não se terá apercebido que a Rússia pode sobreviver sem Putin, mas duvida-se que Putin possa sobreviver sem a Rússia.

O presidente autocrata Vladimir Putin não está a colocar as necessidades e as preocupações do povo russo à frente dos seus próprios interesses. O anti sociocentrismo de Putin parece estar a ser agravado por uma esquizofrenia política com uma patologia que se manifesta por uma rutura de contacto com o mundo exterior, por isso a informação sobre a invasão da Ucrânia estar a ser condicionada e censurada, tal como a proibição do direito à manifestação, impensável num regime democrático.

Numa conferência de imprensa, em 2017, Vladimir Putin terá respondendo a uma pergunta sobre um artigo publicado no Washington Post no qual se escrevia que, numa reunião do Salão Oval com diplomatas russos, Donald Trump lhes passou certas informações confidenciais sobre o ISIS, (Islamic State of Iraq and Syria),  deu como resposta que o ocidente estava a desenvolver uma "esquizofrenia política".

Recorde-se que poucos dias antes da data trágica da invasão, quando Biden dizia que Putin iria invadir a Ucrânia, este dizia que o ocidente estava a entrar em histeria. Afinal não era histeria, eram certezas.

Após meses de ter negado que tinha intenção de atacar a Ucrânia, Vladimir Putin invadiu o território duma democracia europeia por ar, terra e mar a que chama uma operação militar especial, palavras também utilizadas em artigos por quem se coloca contra o ocidente para justificar a invasão como um senhor coronel Matos Gomes que escreve textos sobre agressões passadas do chamado ocidente noutros contextos geográficos o que nos leva a deduzir que se estará a colocar do lado oposto.

Afirmou Matos Gomes em 24 de fevereiro que "Não se trata de uma invasão. Penso que a Rússia e Putin falou e apresentou os objetivos claramente no discurso. O que a Rússia pretende é que a Ucrânia seja desmilitarizada e não seja uma base de ataque à Rússia. E isto ele disse-o muito claramente". Se isto não é defender a invasão perpetrada por Putin então o que é? Pelas imagens que nos chegam diariamente podemos ver que, afinal, se trata de uma invasão, de uma guerra.  

Perguntava-se no início qual era o objetivo do presidente russo ao invadir a Ucrânia. A justificação dada era o avanço da NATO para o Leste Europeu para cercar a Rússia.

Face à intransigência de um adversário que se tornou hostil e traiçoeiro que se ergue a agredir outro povo a resposta do ocidente foi tentar encurralar Putin, o que significa encurralar também o povo russo, embora se considere pouco sensata a estratégia que poderá brigar Putin, que não quer perder a face perante os russos, a ficar sem margem de manobra. 

Decorridas duas semanas de guerra, o presidente ucraniano propunha negociações e que deixava cair a adesão da Ucrânia à NATO. Afinal, não era apenas aquela a exigência que Putin pretendia. Ainda há dias Zelensky cedeu na proposta de neutralização para chegar a um acordo de paz. Quem não quer a paz?

O que fazer então quando Putin ultrapassou todas as linhas vermelhas que o colocam em direção à meta dos criminosos de guerra. Terá sido a aproximação da NATO que terá levado, segundo ele, à “operação militar”. Mas há outra, que Putin não revela, essa de ordem interna.

Desde 2017 que Putin se confronta com problemas internos na Rússia que terão começado a surgir apesar de ter ganho(?) as eleições presidenciais de 2018. Enfrentou, e estará ainda a enfrentar, situações difíceis devido às consequências das suas políticas quer externas, quer internas. O vazio da política interna está a ser substituído pela ilusão de sucesso internacional, criado e mantido com a ajuda da propaganda mais descarada da história da Rússia moderna, nem sei se Estaline e os anos seguintes da URSS o terão conseguido tão eficazmente, quer pela repressão quer pela censura. Também é certo que tecnologias como as de hoje para essa propaganda não existiam.

Na Rússia de Putin a Internet no seu todo ainda não foi proibida, mas canais de informações mesmo os alternativos como as redes sociais já foram condicionados à população através de todos os filtros disponíveis pelo governo para evitar a corrosão lenta dos chavões propagandísticos.

Contrariamente ao resto do mundo, a população russa não tem, na sua grande maioria, conhecimento do que se passa no país vizinho. Vladimir Putin proibiu a comunicação social da Rússia de usar as expressões "guerra" ou "invasão" e enganou os russos ao dizer que estavam a ser realizadas "operações militares especiais" na Ucrânia. As redes sociais também começam a ficar cada vez mais limitadas e as publicações censuradas, mas na quinta-feira, 11 de março à noite, a televisão estatal russa, o canal “Rússia 1” que é uma das emissoras estatais mais vistas no país e uma das que tem seguido as diretivas autoritárias do Kremlin, leia-se de Putin, quanto à situação da Ucrânia, consentiu numa provocação ao transmitir em direto em horário nobre a opinião de um comentador que criticou a ofensiva russa recusando-se a apoiar a narrativa das televisões encomendada pelo Governo russo.

Semyond Bagdasarov, um famoso académico e deputado russo, aproveitou a sua presença no programa 'An Evening with Vladimir Soloviev', “Uma noite com Vladimir Soloviev (um homem referido como forte defensor de Putin e um crítico franco da independência da Ucrânia e propagandista-chefe) para pedir ao presidente russo que ponha fim ao ataque, deixando ainda o alerta de que os aliados da Rússia, como a China e a Índia, podiam acabar por virar as costas a Moscovo.

Por seu lado Karen Georgievich Shakhnazarov, realizadora russa Karen Bagdasarov pediu ao líder russo para acabar com o ataque, enquanto tentou quebrar a narrativa do Kremlin de que está conduzindo uma "operação especial" limitada na região de Donbass, fazendo referência aos ataques à capital de Kiev.

No dia 4 de março a decisão do governo russo de bloquear oficialmente o acesso ao Facebook relativamente à invasão por Moscovo/Putin da vizinha Ucrânia provocou uma reação do Presidente para os assuntos Globais da Meta que escreveu no Twitte: "Em breve, milhões de russos encontrar-se-ão isolados de informações confiáveis, privados das de se ligar com a família e amigos e silenciados de falar". Continuaremos a fazer tudo o que pudermos para restaurar os nossos serviços para que permaneçam disponíveis e para que as pessoas se expressem com segurança e se organizem para a ação."

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Os males causados pela diminuição do rendimento das famílias, agravados pelas medidas severas das sanções económico e financeiras, aumentam a crescente desconfiança pública nas autoridades, no descontentamento público gerado por um governo ineficiente, com a corrupção e cleptocracia que o sistema permite ou aprova e com o aventureirismo geopolítico com enormes custos como o demonstram especialista em política russa.  

O Presidente Putin encontra-se num beco político sem saída, enquanto o povo se encontra numa crise existencial que lhe está a ser induzida pela propaganda que afirma que o ocidente quer destruir a Rússia.

Biden e Putin parecem ter entrado numa esquizofrenia que se manifesta pelas emoções que os levam a utilizar, sobretudo o primeiro, com uma verbosidade de palavras de baixa política com as adjetivações que faz a Putin com que lhe poderão ser aplicadas, mas que envergonham qualquer diplomacia. A esquizofrenia de Putin é mais sofisticada, aproxima-se da metafísica ao pretender transcender a própria realidade sem o conseguir levando o povo russo a pensar se a Rússia não estará, de facto, a atravessar uma crise existencial que o ocidente lhe estará a causar.

Vladimir Putin ficou subitamente nervoso com o facto de poder vir a ser o arquiteto que, devido à invasão da Ucrânia, conduziu a Rússia para uma crise económica e financeira sem precedentes pelas sanções do ocidente, porque sabe que isso tem como ricochete poder voltar o povo contra ele.

Com a informação disponível, credível, fiável e isenta de facciosismos sobre o que na realidade se passa na Rússia é ao pouco ou nada. Isto devido a que os jornalistas não podem trabalhar no país a não ser clandestinamente, enquanto no ocidente, onde há liberdade jornalística e onde se exerce livremente essa liberdade de expressão.

Apesar do senhor que manda no Kremlin lutar para esconder a realidade da guerra no ocidente textos e mais textos são publicados e republicados em blogs e redes sociais e explanações históricas de ditos especialistas em política internacional e geoestratégica de esforçam por atacar/condenar os EUA, a NATO, e a EU, como se fossem estes os agressores, defendendo a paz, tornando claro que são contra a guerra, mas, ao mesmo tempo, justificam os pontos de vista de Putin.

Alguns pretendem desacreditar a informação chamando pensamento único aos que não alinham em argumentos de crítica aos países do ocidente que pretendem que sejam os causadores da invasão da Ucrânia por Putin designando, como ele, “intervenção militar pacífica” ou “intervenção militar especial”. Pretendem assim justificar o mal que é a guerra na Ucrânia com o mal causado e apoiado por outros (os EUA) noutros contextos diferentes.

Para os das esquerdas radicais, anti ocidente, anti NATO e para os discretos apoiantes de Putin que se dizem defensores da paz é difícil reconhecer que os interesses de cada uns dos lados, Ucrânia e Rússia, devem ser tidos em conta. Mas, pelo que se depreende das opiniões que escrevem e das publicações de textos oriundas de fontes alinhadas pelo mesmo tom parece que, pelo contrário, são a favor do estabelecimento de linhas vermelhas inamovíveis que sejam contra os valores morais, princípios da democracia e regras internacionais que devem ser respeitadas e inegociáveis.

Porém, há também grandes organizações como o banco HSBC que alinham, talvez por interesses financeiros estar nas boas graças de Putin e da sua propaganda. Segundo o Financial Times, o HSBC também suaviza o tom com o qual se refere à guerra na Ucrânia, retirando dos seus relatórios referências à palavra "guerra", noticia o "Financial Times", alterando a palavra "guerra" para expressões mais suaves, como por exemplo "conflito". Alinha assim com o Kremlin que desde o primeiro dia chama à invasão da Ucrânia uma "operação militar especial".

Nesta altura atacar o ocidente e ao mesmo tempo fazer pedidos de paz é, quer se queira ou não, estar do lado do presidente Vladimir Putin o que se evidencia, como anteriormente referi, em textos publicados a quem a eles recorre para reforço dos seus argumentos. Um dos casos foi o recurso a um artigo de opinião escrito por  Mário Soares em maio de 2015 na Revista Visão quando criticou a aproximação da NATO para Leste com a adesão de países como a Polónia entre outros. Interpretação abusiva do que ele escreveu que era mais um alerta para o ocidente. Mário Soares tinha razão. A aproximação da NATO para leste foi uma consequência do desmantelamento da URSS e a libertação dos países de leste do jugo comunista. Foi nesta sequência que alguns desses países pediram a adesão à E.U. e a pretensão de entrarem para a NATO. Esta pretensão talvez fosse devido à insegurança que teriam em relação a possíveis agressões do Kremlin para recuperarem a sua antiga jurisdição sobre esses países. Mas, Mário Soares também escreveu que “Vladimir Putin é um homem perigoso. Ou, como dizem os brasileiros, um homem astuto, perigoso e imprevisível”. Apesar deste evidente ponto de vista o autor, enquanto Primeiro-Ministro e enquanto Presidente da República, nunca colocou em questão a retirada de Portugal daquela aliança militar intergovernamental.

Aqueles que falam da desmilitarização do ocidente, de paz e do aumento das verbas e de gastos com a defesa no orçamento da U.E. esquecem-se, ou omitem, nos seus relatos que a Rússia é considerada pela maioria dos analistas como a segunda maior potência militar do mundo e com grandes investimentos nas forças de guerra e que agora se encontra em grande vantagem e, por isso, lançou-se numa operação invasiva de um país soberano.

O semanário Expresso de 9 de março de 2022, recordava o que Pulido Valente escreveu a criticar a forma como a Europa se foi desarmando, e alertava para os riscos de “a Inglaterra gastar em defesa menos de 2% do PIB, num momento em que Putin embarcou numa política claramente agressiva e revanchista”.

Face a tudo isto deveria então o ocidente, nomeadamente a E.U., desproteger-se? Não. Mas foi o que aconteceu e parece que para alguns radicais de esquerda que assim deveria continuar.

A invasão da Ucrânia não terá sido uma surpresa visto que a presidência dos EUA, em 22 de novembro de 2021, segundo o “site” francês “Meta-Defense”, previu uma ofensiva na Ucrânia pela Rússia no inverno, a ocorrer em janeiro e ou fevereiro. Publicava na altura que “O objetivo previsto seria a criação de um corredor que permitisse ligar a Crimeia à Rússia por via terrestre, provavelmente até a foz do Dnieper e a cidade de Zaporizhia, também um importante centro industrial em termos de aeronáutica civil e militar, mas também a cidade portuária de Mariopol, crítica em termos de infraestrutura. Além de ligar a Crimeia, isso permitiria a Moscovo transformar o Mar de Azov num mar “interior”, inteiramente limitado pela costa russa”.

Apesar do senhor que manda no Kremlin lutar para esconder a realidade da guerra no ocidente textos e mais textos são publicados e republicados em blogs e redes sociais e explanações históricas de ditos especialistas em política internacional e geoestratégica de esforçam por atacar/condenar os EUA, a NATO, e a EU, como se fossem estes os agressores, defendendo a paz, tornando claro que são contra a guerra, mas, ao mesmo tempo, justificam os pontos de vista de Putin.

Estranhamente são também os que debatem e se empenham na busca do que se fez de mau no passado para justificarem que se faz de mau no presente. São os mesmo que pedem a desmilitarização do ocidente (porta escancarada para a entrada de Putin até ao ponto da possibilidade da sua ambição) e que exigem negociações diplomáticas para se chegar à paz. O ponto que não esclarecem é como isso será possível com o cinismo de quem diz que quer negociar e ao mesmo tempo diz não estar disponível para quaisquer negociações que não seja a capitulação do invadido com condições impostas pelo invasor, como tem vindo a ficar demonstrado.

Penso que esta retórica dos que se mostram contra os aliados ocidentais e que tão insistentemente invocam negociações para a paz não são mais do que fait divers para dissimularem o seu alinhamento com os senhores do Kremlin, a quem chamam capitalistas, ao mesmo tempo que se distanciam dos outros que são o rebanho aos que se afastam dos pontos de vista deles.

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publicado às 18:37

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Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.

Nas últimas semanas tem-se multiplicado uma infinidade de artigo de opinião e de comentários numa dicotomia entre os que revelam claramente estar contra a invasão e os outros, os pró Putin.

Antes de continuar, e porque parece estar a haver alguma animosidade contra os russos, devo esclarecer que nada tenho contra o povo russo nem contra a sua cultura, a minha opinião é a de estar contra as políticas de um líder autocrático e oligárquico que impôs ao povo russo uma democracia(?) iliberal belicista.

Uma democracia iliberal visa um poder executivo forte, controlando e manipulando os limites das instituições garantes da democracia tais como tribunais e outras instituições democráticas do estado. Para o justificar argumentam que essas instituições, garantes dos valores democráticos e de liberdade não possuem atribuições eleitorais e, como tal, impedem a vontade da soberania do povo. Desta forma a narrativa social é construída ganhando, assim, legitimidade dentro do cenário democrático. Sobre democracia iliberal ver aqui.

Ao escrever este texto veio-me à memória “From Russia with Love” com a tradução em português “Da Rússia com Amor”, filme de espionagem lançado em 1963 que permanece relativamente fiel ao romance de Ian Fleming, escritor britânico e autor do livro com o mesmo nome.

Questionei-me sobre o porquê deste filme surgir na minha memória. A memória recente deu-me a resposta: foi o nome do comentador Alexandre Guerreio que ouvi recentemente seguir o mesmo relato da propaganda de Putin e dos seus mandatários que podem ver aqui.

Em tempos de guerra surge sempre quem se colocam de um lado, ou de outro, dos intervenientes do conflito. Foi assim também na segunda guerra mundial quando, por estranho que pareça, também houve quem estivesse do lado III Reich, no início não só os alemães.

Instalou-se com esta guerra um conjunto de gente, felizmente pouca, antiamericana e anti NATO às quais acrescentam o seu antieuropeísmo irracional. Os apoiantes desta corrente não são recentes, agitaram-se a pretexto da invasão da Ucrânia por Putin e colocam-se do lado de um Estado que agride militarmente outro povo soberano e que o massacra. Esta é a realidade e não há argumentos que o justifiquem por mais rebuscados que sejam.

Esta gente reanima ódios antigos que vêm do tempo da URSS e da Guerra Fria que agora estão a ser aproveitados para a sua ressurreição com novos contornos. Daí as teses do PCP contra os EUA, a NATO e a União Europeia em favor da defesa das posições do Kremlin.

O colapso da URSS que foi recalcado por uma espécie de catarse saiu do seu subconsciente ideológico. A retórica da paz que proclamam, com omissões de princípio, em relação à invasão da Ucrânia, vem das palavras de Jerónimo de Sousa que vinculam o PCP e está nas críticas feitas ao governo ucraniano em linha com as de Moscovo. Ao mesmo tempo que diz apoiar o apelo “à solidariedade e ajuda humanitárias às populações”, acusa a Ucrânia de dar apoio a grupos fascistas ou neonazis, alinhando com uma das narrativas usadas por Putin para justificar a invasão daquele país.

Os argumentos recorrem a históricos condenatórios de outras guerras em que intervieram outros Estados, mas cujos contornos e circunstâncias não se encaixam com as atuais. Seria bom que o PCP em vez de falar em golpes recordasse o que se passou na Ucrânia.

Sem me alargar em história porque isso compete a outros debruço-me apenas sobre alguns factos da atualidade da última década para nos situarmos.

Yanukovych foi presidente da Ucrânia de 25 de fevereiro de 2010 a 22 de fevereiro de 2014 que formalmente rejeitou um acordo de cooperação com a União Europeia que há muito tinha sido negociado e que poderia, no futuro, fazer passar a Ucrânia a ser um dos seus membros e integrar o bloco dos 28 países. Este mesmo presidente, na mesma altura, terá recebido uma série de empréstimos oferecidos pelo governo russo de Putin iniciando um processo de aproximação política com o Kremelin. Esta situação levou a uma série de protestos no oeste da Ucrânia denominados "Euromaidan" que já tido início em 21 de novembro de 2013. Protestos públicos que evoluíram para apelos à renúncia do presidente Viktor Yanukovych e do seu governo.

Além da questão da integração com a Europa havia ainda acusações de corrupção contra elementos do governo, pró-Rússia, que também motivou os protestos.

A análise da situação concluiu que Yanukovych estaria sob pressão direta da Rússia e que o anúncio brusco de que o acordo com a União Europeia não seria assinado por os russos de Putin ameaçarem impor sanções à Ucrânia tendo sido Yanukovych chamado de urgência para um encontro em Moscovo com o presidente Vladimir Putin.

Mas voltemos à atualidade recente. O estilo fascizante de Putin está presente na organização de um comício político disfarçado de concerto no passado 18 de março do corrente que e cujo seu discurso podemos considerar como sendo para a obtenção de apoio à guerra, de exaltação patriótica e de celebração dos feitos militares da Federação Russa na Ucrânia ao velho estilo nazi.

Do meu ponto de vista há os que dizem defender a paz e ao mesmo se colocam do lado de Putin. Esses que dizem defender a paz são os que sustentam que a culpa da guerra é de outros. Sem o dizerem claramente alinham com o pensamento do presidente Vladimir Putin que, em dezembro de 2021, lamentou o colapso da União Soviética há três décadas a que ele chamou "Rússia histórica", conforme noticiou na altura a agência Reuters.

Os comentários de Putin, em tempo divulgados pela TV do Estado Russo (RT-Russia Today), terão provavelmente alimentado ao que chamaram especulação sobre as suas intenções em política externa que os críticos internos, (não sei se hoje ainda existem), aproveitaram para o acusar de projetar a recriação da União Soviética e de contemplar um ataque à Ucrânia, ação que na altura o Kremlin de Putin considerou como sendo ousada.

 Não há dúvida de que a Rússia de Putin é uma democracia iliberal autocrática tendencialmente expansionista que parece estra a pretender provocar uma crise idêntica à que a Alemanha Nazi colocou em prática em 1938. Há mesmo quem chame a Putin czar e o compare a Stalin e a Ivan, o Terrível, quando na Polónia em 2009 falavam de Putin.

Escrevia-se então em setembro de 2009 aquando das comemorações do início da Segunda Guerra Mundial em Gdansk que “Putin passou a última década a procurar restaurar a grandeza russa, em parte através da reabilitação de Josef Stalin e a encorajar uma narrativa heroica e nacionalista dentro do país”.

Estas afirmações são preocupantes pela tentativa de recuperar um passado tenebroso utilizando táticas semelhantes através da utilização de armamento mais sofisticados e com novas estratégias.

Há um erro quando se pensa que a Rússia, em 1939, trouxe a liberdade à Europa central. Estaline atraiçoou a Polónia depois da invasão nazi invadindo-a pelo Leste. Hoje as ambições imperiais de Putin continuam a ser um perigo, como foi demostrado pela guerra contra a Geórgia em 2008.

Foi em Gdansk onde começou a invasão da Polónia pela Alemanha de Hitler.  No dia 1 de setembro de 1939 iniciou uma guerra de seis anos. A Polónia foi dividida em 1939 pelas tiranias gémeas de Hitler e Estaline e foi onde ocorreu o assassinato em massa de judeus no Holocausto nazi e terá sido o principal alvo de campanhas de propaganda concertada russa do Kremlin.

Relativamente à Ucrânia podemos supor que todas as tentativas para chegar a um acordo de paz com Putin serão do ponto de vista moral do direito internacional e do ponto de vista prático e político serão infrutíferos, prejudiciais e perigosos tal e qual o foram todas as tentativas de apaziguar as nazis realizadas entre 1934 e 1939 ao fazer vários acordos e pactos que resultaram em fracassos e não foram respeitados.

Elísio Estaque, sociólogo, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra escreveu num artigo de opinião mo jornal Publico que “O facto de a NATO ter sido criada como força de oposição à URSS num contexto de Guerra Fria, de profunda divisão ideológica no mundo ocidental (capitalismo versus socialismo), associado à imagem do exército soviético no pós-guerra, visto como força libertadora no confronto contra a Alemanha nazi, contribuiu para perpetuar a simpatia das “vanguardas” com a “pátria do socialismo” durante décadas. Desde a Revolução de Outubro, com Lenine e Trotsky, passando por Estaline, Krushtchov, Brejnev, etc, mesmo após a implosão do regime, muitos continuaram a ver no poder russo a força capaz de se opor aos EUA, o locus do poder hegemónico num mundo unipolar.

Na sua cegueira dogmática já veem nesta guerra as trombetas a anunciar o fim do capitalismo ocidental e a consequente queda do império americano.

Fazer comparações com outras ações belicistas da NATO, no passado, ou apresentar contabilidades da mortandade em várias outras latitudes que não a Europa, são de uma insensatez intolerável. Nenhuma ação bélica desta natureza pode ser relativizada, seja onde for e por quem for”.

Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.

Há quem esteja com uma venda nos olhos espreitando por alguns orifícios causados pelo desgaste ou que não queira ver por néscia teimosia, e menos por ignorância, e que, por isso, insistem na retórica discursiva do prisioneiro inocente que se defende dizendo que foram outros que o quiseram tramar. 

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publicado às 19:14

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Centremo-nos primeiro no mais recente percurso político da Ucrânia e nas suas tensões com a Rússia que começaram em 2019 com a onda conservadora nas urnas para a presidência em que Zelensky ganhou com 73% dos votos a Poroshenko que concorria à reeleição. Poroshenko, admitiu na altura a derrota após a publicação das primeiras contagens dizendo que não deixaria a política. Zelensky aproveitou a sua popularidade em alta, prometeu reformas no sistema político, dissolveu o parlamento e anunciou a convocação de eleições legislativas.

Ao apresentar um plano de governo levou para a discussão pública as críticas feitas na televisão aos "oligarcas" da política ucraniana e defendeu a entrada da Ucrânia para a União Europeia e para a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN) que era a questão central e levou ao atual conflito com a Rússia.

Nos dias que se seguiram à invasão muitos que apoiam a agressão bélica utilizaram uma linguagem com uma gíria cujo objetivo é o de confundir as opiniões públicas seguindo o Presidente Vladimir Putin que também tem recorrido a esse processo de utilizar as palavras nacionalistas, neonazistas, libertação do país da extrema direita, limpeza étnica, etc., quando se refere à Ucrânia.

Acusam Zelensky de fomentar o crescimento do neonazismo e da conivência com o grupo neonazi Batalhão de Azov. Este grupo de milícias foi criado em 2014 para conter separatistas russos nas regiões de Donetsk e Lugansk, tendo sido esta milícia de extrema-direita incorporada em 2015 no exército ucraniano que os pró-russos dizem ainda hoje perdura. É por isso que Putin fala em "desnazificação" para justificar as suas metas no avanço militar de ocupação da Ucrânia. Mas essa situação é interna e compete ao povo desse país soberano pressionar o governo se, para tal, quiser resolver o problema.

Mas nesta equação entrou uma nova variável já conhecida que é Donald Trump. No primeiro ano de presidência, Zelensky esteve na base de uma "trapalhada" de Donald Trump que quase levou o então presidente norte-americano a um processo para impeachment. Em 2019, ano de eleições na UJcrânia, Donald Trump ligou para Zelensky a pedir para que o filho de Joe Biden, seu adversário na corrida à eleição, fosse investigado e que na altura fazia parte do conselho de administração numa empresa ucraniana de gás natural. Trump foi então apanhado num telefonema a reter a ajuda militar à Ucrânia, já em curso, dizendo que ("Gostaria que você nos fizesse um favor, no entanto") dizia, em troca de Zelensky comprometer Biden, rival de Trump às eleições. Trump "poluiu a Ucrânia com sua  negociação política" como se pode ler num artigo na revista The Atlantic. Foi acusado de tentar recrutar poder estrangeiro para interferir a seu favor na disputa eleitoral. Trump chegou a ter a interrupção do mandato aprovada pela Câmara, mas foi barrada pelo Senado americano.

Centremo-nos agora em segundo lugar sobre o que se observa nas redes sociais, em artigos de opinião, comentadores, comentários na comunicação social, comunicados de partidos.

Começo com a perturbante reação do PCP que teima em defender um regime que é criminoso à luz do direito internacional. O PCP agarra-se ao passado soviético mantendo uma linha de defesa de Moscovo disfarçada de rejeição do capitalismo de Putin ao mesmo tempo que culpabiliza o capitalismo dos EUA e a NATO pela invasão da Ucrânia. Não se aperceber que a Rússia já não é aquilo que formou o seu ideário, mas que é um projeto de poder de um homem que alimenta e subsidia muitos partidos da extrema-direita europeia ao mesmo tempo que se queixa da extrema-direita na Ucrânia.

Por seu lado o Bloco de Esquerda anda numa roda-viva para ver se consegue distanciar-se das posições do PCP numa dança intermitente que ora critica, ora desvaloriza, ou, a dizer, como ontem aconteceu, que “O Bloco de Esquerda defende que é dever das autoridades portuguesas identificar e investigar os oligarcas russos” e a deputada Mariana Mortágua sublinha que os interesses económicos não podem sobrepor-se às sanções contra Vladimir Putin. Mas, sobre a votação do empréstimo financeiro à Ucrânia, a deputada do Bloco de Esquerda diz que acusar o partido de votar contra é querer confundir o debate”.

Nas redes sociais parece-me que ser-se contracorrente às evidências começa a dar jeito para os que desejam feedbacks a todos o custo aos seus posts e opiniões publicadas na imprensa.

Ser polémico está na moda, “vende”. Falem mal de mim ou sobre mim, mas é preciso que falem. Alguns colocam-se em pontos de vista que tentam contrariar factos e evidências recorrendo aos mais artificiosos argumentos, virando do avesso a realidade dos factos, buscando no passado longínquo as causas para justificar hoje a agressão de Putin contribuindo, assim, para a lavagem da sua imagem. Justificar a agressão à Ucrânia comparando-a com outros casos que se verificaram no passado e noutros contextos parece-me caricato. Também neste domínio há negacionistas da realidade de facto, como os há nas mais absurdas situações e circunstâncias.

Pensamentos apressados que sugerem tomadas de decisões, em momentos de emoção e nervosismo, como apelar à provocação ao adversário, à confrontação e à guerra têm o risco de agravar conflitos em vez de os acalmarem. Recorro a uma frase da radical Ana Gomes, senhora que se candidatou a Presidente da República, que afirmou na SIC Notícias “Para que serve a NATO se não consegue travar massacres contra populações na Europa?” e acrescenta que a zona de exclusão aérea no país invadido pela Rússia “tem de estar em cima da mesa”, mesmo que Vladimir Putin considere isso um ato de guerra. Entrámos na zona da paranoia.

Pensarmos que conhecemos bem e confiamos no adversário que se tem pela frente é no mínimo ingenuidade. Putin não é de confiança recorde-se quando disse que o ocidente estava em histeria quando Biden apontava uma data para a invasão da Ucrânia. Muitos gozaram com a data marcada para início da guerra. Passados dias deu-se a invasão.

Putin deve estar com problemas internos e, por isso, a censura que instituiu na Rússia passou a ser obrigatória e foi agravada.  A censura é necessária como fator para a formação e consolidação do "putinismo”. Putin tem plena consciência da importante função destinada à censura. É a guerra da informação e da contra informação, da opinião e da contraopinião que se agudizam em tempos de guerra.  O controlo da informação e a censura desde sempre desempenharam um papel fundamental na formação e para a consolidação dos estados totalitários.

Putin pretende mostrar que só existe politicamente o que o público sabe que existe. Daí as mentiras, os cortes e as inversões dos factos à boa maneira estalinista. Serve-se da guerra para controlar ainda mais o espaço da informação e bloquear os principais meios de comunicação independentes que possam gerar movimentos que, normalmente, levam a grandes protestos.‎

Seis dias depois das tropas russas atacarem a Ucrânia, a Rússia (leia-se Putin) bloqueou a Dozhd TV e a Ekho Moskvy por supostamente espalharem, segundo ele, "informações deliberadamente falsas" sobre a invasão da Ucrânia por Moscovo tendo ficado indisponíveis na Rússia logo após o anúncio.

‎‎A Echo of Moscow, uma estação de notícias russa independente que transmite desde 1991, anunciou que encerraria na quinta-feira depois de se recusar a cumprir as regras de censura exigida em reportagens sobre a guerra na Ucrânia sendo obrigada a utilizar apenas fontes militares oficiais do Kremlin.‎ Outra estação foi a TV Rain, a principal emissora de televisão independente do país que encerrou temporariamente também na quinta-feira as suas transmissões em desacordo com regras semelhantes.‎

Nos jornais russos, talvez a maior parte, os artigos publicados são um vómito de inverdades de propaganda. E só acredita neles quem quiser acreditar. Como não vivenciamos os momentos "in loco" podemos ser tentados a acreditar que a comunicação do ocidente é que está errada e que a verdade, a dele (a de Putin), é que está certa. Foi assim no passado com Hitler, com Estaline e também o foi com Salazar aqui, no nosso canto junto ao mar.

Não se compreende porque um grupo de pessoas, felizmente pequeno, se tenha colocado do lado de Putin contra a Ucrânia apenas com o argumento de serem contra a NATO, os U.E. e os EUA. Dizem que são pela paz, mas não dizem em que termos. Falam em negociação, mas que negociação? O que pretendem será a capitulação incondicional da Ucrânia, país soberano, para que fique na órbitra da Rússia de Putin? Será a dissolução da NATO deixando Putin livrfe para o controle total da Europa? Se assim não é então que manifestem sobre qual será para eles a alternativa para a paz.

 

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publicado às 18:27

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Na guerra da informação, das opiniões, comentários e outras emotivas representações escritas começam a desabrochar na imprensa, nos blogs, nas redes sociais. A dicotomia “putinsófilos” e “ucranisófilos” juntam-se, por um lado os pró NATO, EUA e U.E. e, por outro, os do anti NATO, EUA e U.E. E assim se vai lançando a confusão no espírito das massas, nome dileto que líderes bolcheviques como Lenin davam ao povo.

Depois do primeiro impacto devido à surpresa comentadores, desenhadores de opiniões, jornalista e especialistas em política internacional que a tudo estão atentos e que de tudo sabem recuperaram da surpresa e, cá vai disto, lançam artigos desde os mais curtos aos mais extensos, recorrem à história que escrevem à sua maneira com propaganda contra a NATO, a União Europeia, o regime ucraniano que dizem sustentado por esquadrões da morte nazis saudosos de Hitler. Seguem a nomenclatura lexical de Putin desculpabilizando-o. Muito deles com afinidades com as extremas-esquerdas que, dizendo-se contra o capital e o imperialismo ocidental, apoiam o capitalismo-imperialista-autocrático de Putin e que nada tem a ver com o povo russo.  Para estes senhores parece que, quem estiver a apoiar a Ucrânia são uma cambada de nazis.

Ser-se anticapitalista e anti-imperialista e, ao mesmo tempo, defender outro tipo de capitalismo e de imperialismo como o de Putin, apenas, porque ideologicamente se é contra organizações e uniões que apenas servem para defesa de países que se sentem ameaçados por outros imperialismos, isso é prevenção contra-ataques de outros. São pelo regresso de uma nova e mais complicada guerra fria que ninguém quer. Defendem a paz sem entenderem a incoerência porque, ao mesmo tempo parecem estar do lado do que recorrem à guerra para ocupação do povo da Ucrânia personalizados pelo tirano Putin. Esses bem podem cantar hinos à paz que ninguém os ouve porque a alternativa que eles apoiam é a guerra. Ainda há muitos que preferem a guerra, que nunca viveram, na expectativa de que Putin possa eliminar o eixo do mal a que chamam NATO, EUA e a União Europeia.

Será o capitalismo russo de esquerda? O PCP parece achar que sim, embora no seu comunicado tente enganar o povo, assim como Putin tem feito com as suas intervenções. Segundo se pode ler num comunicado do PCP “a Rússia é um país capitalista, o seu posicionamento é determinado no essencial pelos interesses das suas elites e dos detentores dos seus grupos económicos”, mas apesar disso o PCP defende que a Rússia não é um agressor, mas uma vítima para a qual não é aceitável que um inimigo “esteja acampado nas suas fronteiras” que faz “um cerco militar por via de um ainda maior alargamento da NATO”. Já que o PCP gosta tanto do passado o que dizia na altura quanto ao Pacto de Varsóvia, uma aliança militar firmada entre os países comunistas do leste europeu ocupados (Hungria, Roménia, Alemanha Oriental, Albânia, Bulgária, Checoslováquia e Polónia) com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Aliás o PCP deve estar no mesmo registo de “Os países ocidentais que tentam implementar sanções contra a Rússia são um "império de mentiras", disse o presidente Vladimir Putin numa reunião dedicada à crise económica na Rússia segundo o PRAVDA.

A perda de alguns países chamados do Leste após a queda do regime soviético está atravessada na garganta de Putin e de alguns partidos comunistas. Esses países passaram a ser livres e, como tal, puderam fazer as suas opções de aderiram á U.E e à NATO, até como defesa para sua própria sobrevivência enquanto países e nações.

Putin com a sua ânsia de poder absoluto que carateriza os ditadores, não terá percebido que teria mais a ganhar negociando antes da guerra. Como ele já houve outros que também quiseram ser donos da Europa e do Mundo, mas acabaram por finar.

Numa entrevista ao “Politico” Fiona Hill, uma das mais claras especialistas russas, que estudou Putin ao longo de vários anos trabalhou com administrações republicanas e democratas afirmou que “Putin esteve nos arquivos do Kremlin durante a Covid a olhar para mapas e tratados antigos e todas as diferentes fronteiras que a Rússia teve ao longo dos séculos. Ele disse, repetidamente, que as fronteiras russas e europeias mudaram muitas vezes. E nos seus discursos, ele foi verificar vários ex-líderes russos e soviéticos, assim como Lenin e dos comunistas, porque na sua opinião eles romperam com o império russo, perderam terras russas na revolução, e sim, Estaline trouxe de volta alguns deles novamente para o grupo como os Estados Bálticos e algumas das terras da Ucrânia que haviam sido divididas durante a Segunda Guerra Mundial, mas que foram novamente perdidos com a dissolução da URSS. A opinião de Putin é que as fronteiras mudam, e assim as fronteiras do antigo império russo ainda estão em jogo para Moscou dominar agora.”

A questão que se coloca é a de saber se alguma vez se esperaria que países da NATO fossem alguma vez atacar a Rússia? O que está em causa é o ocidente poder defender-se do imperialismo expansionista russo, ou melhor, de Putin, porque o povo não entra nessas aventuras. 

As intenções expansionistas de Putin estão claras.  Segundo a Rus-News de 1 de março de 2022 o presidente Vladimir Putin disse em 5 de dezembro do ano passado que “Nas próximas décadas, a Rússia crescerá, é claro, com o Ártico e os territórios do Norte, são coisas completamente óbvias” o que incluía a exploração mineira. O anúncio foi feito durante uma reunião com voluntários e finalistas do concurso “Voluntário da Rússia”. Salientou ainda que mais de 70% do território da Rússia está localizado nas latitudes do Norte e tudo o que acontece no Norte é de "interesse e valor especial". “Nem estou a falar o desenvolvimento da Rota do Mar do Norte”, acrescentou. O Norte para Putin é indefinido pode ir até ao norte da Finlândia. O desenvolvimento nessa direção, segundo o presidente, é o futuro da Rússia em termos de extração de recursos naturais para o país. Só não ouve e não percebe quem não quer.

Parece não haver dúvidas de que Putin está a ser apoiado por grupos de extrema-direita

Putin não tem aliados só à esquerda. Na Europa, há partidos que podem ter recebido financiamento por investidores russos ligados a Putin. Marine Le Pen, líder da Frente Nacional francesa da extrema-direita francesa foi recebida pelo Presidente russo Vladimir Putin, encorajando a sua candidatura às presidenciais para a primeira volta a 23 de Abril de 2017. É acusada de ter recebido fundos de um banco russo para financiar a sua campanha eleitoral.

Matteo Salvini, líder da Lega, partido italiano de extrema-direita, é também apoiante de Putin, surgindo numa ocasião com uma t-shirt vestida que ilustrava a cara do Presidente russo. O mais recente é o do aliado nos tempos é Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, que se reuniu com Putin no mês passado, em Moscovo, e que não condenou, tanto quanto se saiba, as ações do presidente russo face à Ucrânia.

Todavia, Europa alguns partidos da mesma extrema-direita ficaram numa situação desconfortável pelo ataque de Vladimir Putin à Ucrânia. A líder do RN - Rassemblement National, antiga FN - Front National (Frente Nacional), e Matteo Salvini, da Liga de direita da Itália, que passaram anos a divulgar a sua afinidade com o presidente russo, aceitando empréstimos russos à medida que a Rússia reunia tropas ao redor das fronteiras da Ucrânia, alguns desses amigos de Putin minimizaram a ameaça ou acusaram o Ocidente de aumentar as tensões. Ainda outros como o Presidente da República Checa, o primeiro-ministro da Hungria, quando Putin declarou guerra à Ucrânia e mísseis balísticos caíram sobre alvos ucranianos, essa atitude tornou-se mais difícil o que levou muitos a recuar a sua simpatia e apressaram-se com declarações a condenar o ataque.

As dúvidas se é que as havia no apoio e simpatias das extremas direitas por Putin e pela invasão da Ucrânia foi dissipada. “A imagem de "homem forte" do presidente russo e o desdém pelos liberais transformaram-no num herói para os nacionalistas brancos”, escreve Sergio Olmos no The Guardian em 5 de março de 2022.

Num evento nacionalista realizado na semana passada na Florida, EUA, um organizador e líder supremacista branco pediu “uma salva de palmas para a Rússia", no meio de um rugido de aplausos para o presidente russo, poucos dias depois de este invadir a Ucrânia e muitos participantes responderam gritando: "Putin! Putin!".

A WABE uma estação de televisão pública de Atlanta na Georgia no dia 1 de março de 2022 pode ler-se que líderes republicanos no Congresso estão divididos sobre o que fazer com a deputada Marjorie Taylor Greene depois desta congressista ter discursado num evento de fim de semana organizado por um nacionalista branco em que se dizia maravilhada com a invasão da Rússia à Ucrânia enquanto a multidão eclodiu em cânticos de "Putin!”

A guerra na Ucrânia expôs a afinidade da extrema-direita americana com Putin. Como também já escrevi no anterior blogue, aquela afinidade é complicada e mostra a dificuldade que os líderes republicanos têm para combater a tendência do partido em direção ao autoritarismo ao estilo de Trump em abraçar o extremismo de direita.

A esperança do ocidente, Europa e EUA, de que após a queda do regime soviético e do muro de Berlim tudo iria ser um mar de rosas foi um erro tremendo. A desmilitarização do ocidente leia-se U.E. foi um erro de cálculo e de estratégia de que Putin, após ter tomado o poder, veio a aproveitar-se. O autoritarismo e as ambições imperialistas de Putin surgidas após a queda do regime soviético podem agravar-se. 

Putin com o êxito da tomada da Ucrânia que irá ser seguido pela substituição de um governo fantoche a soldo de Moscovo, não irá parar. Países que saíram do domínio soviético e que aderiram á U.E. estarão na mira de um autocrata com a paranoia do poder e da riqueza.

O ceticismo deve ser nestas alturas a atitude mais sensata. O comentário político nos órgãos de comunicação, podem não ser absolutamente credíveis porque há muitos comentadores políticos e personagens muito conhecidas que publicam na Internet informações que não são propriamente mentiras, mas imprecisas, e cabe a quem as lê abordar cada mensagem com cuidado.

Recorre à evocação da história e a outros contextos para justificar a ação de Putin de hoje de invadir a Ucrânia, ou apara atacar os imperialistas do ocidente, os EUA, a NATO e a U.E. Num desvario sectário alegam com o belicismo do ocidente justificações para de agressões e da guerra desde tudo seja contra o ocidente. Recorrem a outros conflitos descontextualizados para o justificarem. Nãoo compreendo estes pontos de vista.

Na verdade, o Partido Comunista Português (PCP) à semelhança de Putin ainda não conseguiu ultrapassar, e acho que jamais ultrapassará, o trauma do fim da União Soviética e vai morrer com esse pesar. Por outro lado, já alguém do PCP, há muito tempo, classificou a Coreia do Norte como uma democracia. Também sabemos que Hitler e Estaline fizeram um pacto por via do qual invadiram e dividiram entre eles países como a Polónia. Mas os tempos passaram, a História condenou essas atitudes e hoje as atitudes das nações e dos povos são outras, mas neste outro contexto surgiu, qual reencarnação, um novo apocalíptico que pretende restaurar os velhos tempos da guerra. Apesar disso, alguns como o PCP, nada mudaram e, mesmo às portas da morte, dá-nos este espetáculo.

 

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publicado às 19:21

Embora concordando, em parte, com o que escreve Rui Tavares no jornal Público parece-me ser um atribuito da esquerda querer sempre tudo para já. Neste caso estou com os que dizem que muito, depressa e bem não há quem! E quando se pretende transformar o país lá aparecem as manifestações contra.

 

OPINIÃO

(Rui Tavares, in jornal Público, 10/03/2021)

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E uma missão para transformar o país, porque não há?

Portugal precisa de um grande debate nacional sobre o seu modelo de desenvolvimento futuro, e precisa de várias reformas transformadoras: pelo menos no ensino, na regionalização e na administração pública, incluindo justiça.

Marcelo Rebelo de Sousa apresentou cinco missões ao país para o seu segundo mandato e eu desejo-lhe toda a sorte do mundo. Nenhuma das missões de Marcelo é insensata ou incorreta, bem pelo contrário: manter o regime democrático e com ele fazer frente “às mais graves pandemias” (incluindo, presumivelmente, a pandemia do nacional-populismo); desconfinar com sensatez; reconstruir as vidas das pessoas com crescimento, mas sobretudo com coesão, que são a terceira e quarta missão; e, finalmente, assumir que Portugal “não é uma ilha no universo” e aprofundar a nossa ação no plano da lusofonia, europeu e mundial.

Concordo com tudo, e aplaudo a passagem em que Marcelo Rebelo de Sousa apresentou a sua visão de uma democracia feita de “inclusão, tolerância, respeito por todos os portugueses”, em que ninguém seja “sacrificado ao mito do português puro”.

Infelizmente, não chega. Se as nossas missões forem só estas, corremos o risco de falhar redondamente, tal é o tamanho dos desafios que temos pela frente e o peso dos problemas que trazemos de trás. Nesta década vamos ter não só as consequências da pandemia, mas uma economia global em plena transformação e com divergências acentuadas entre a Ásia e o Ocidente, e agora também entre os EUA e a UE, se não for aprovada uma segunda bazuca. Mas teremos também a expansão da inteligência artificial, do teletrabalho, da hiperconectividade em 5G, da impressão 3D, tudo a necessitar de mais incorporação de conhecimento e tecnologia e de mais capacidade de requalificar a força de trabalho. E teremos ainda o aprofundar da crise ecológica e os seus impactos no território nacional, na vida das pessoas, na agricultura e na biodiversidade. Desafios não faltam, e a maior parte deles — como no passado a entrada na China na Organização Mundial do Comércio, o alargamento a leste e a entrada no euro, que conjuntamente nos puseram a patinar durante as duas primeiras décadas do século — nem sequer entram no debate público em Portugal. Com que recursos financiar as universidades do futuro? Com que impostos combater o predomínio dos combustíveis fósseis? Como garantir que funciona o elevador chamado Estado social?

O discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, tal como a prática governativa de António Costa, está feito de boas intenções e sentimentos no sítio certo: é de facto preciso reconstruir a vida das pessoas, e nas suas belas palavras isto “é tudo ou quase tudo: emprego, rendimentos de empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos”. Mas se é verdade que isto “é muito mais do que recuperar ou regressar a 2019”, por que não existe um diagnóstico acerca dos padecimentos do Portugal de 2019 que já então tornavam difícil que superássemos sem mais os desafios da nova década?

A verdade é esta: Portugal não chega lá com esta indefinição em torno do seu modelo de desenvolvimento, nem com metas que eram adequadas ao nosso passado recente mas que estão profundamente desajustadas do grau de exigência que temos de ter para o futuro. Não é preciso só manter, reconstruir, recuperar; é preciso entender que um Portugal que joga para o empate — apenas convergir com a média da União Europeia, sem querer tornar-se numa sociedade de vanguarda em termos económicos, ambientais e sociais — acabará a perder e, na posição periférica que temos, tornar-se insustentável.

Passam governos e doutrinas políticas e continua a não haver uma resposta satisfatória ao problema do que queremos ser na Europa e no mundo neste século XXI. A doutrina de Passos Coelho e Paulo Portas era, no seu “ir além da troika”, a de que Portugal teria de se tornar competitivo cortando nos custos do trabalho, ou seja, embaratecendo-se. A doutrina da saída do euro, que tantos defenderam há uns anos, era a mesma, apenas por outra via: desvalorizar o “novo escudo” e ser competitivo, embaratecendo-se. Ambas se esqueceram de um detalhe: as pessoas emigram. E se cortamos os salários aos portugueses, ou lhes damos um salário em moeda fraca, as pessoas — num contexto de liberdade de circulação na União Europeia — vão ganhar mais lá fora com a formação que lhes demos cá dentro.

Perante a rejeição dupla destes caminhos (da desvalorização da austeridade a da desvalorização da saída do euro) a estratégia de António Costa e de Marcelo Rebelo de Sousa tem sido navegar à vista. Não chega.

Portugal precisa de um grande debate nacional sobre o seu modelo de desenvolvimento futuro, e precisa de várias reformas transformadoras: pelo menos no ensino, na regionalização e na administração pública, incluindo justiça. E precisa de o fazer agora, que o 25 de Abril se aproxima do meio século. Mas, caramba, como a falta de ambição da nossa elite política é aflitiva.

 

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

 

Historiador; fundador do Livre

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publicado às 15:45

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Em Portugal sempre existiu populismo, embora contido, nos vários partidos, sobretudo em tempo de campanha eleitoral. Nessa altura regressam à tona  partidos mais radicais que, não tendo programa exequível, tentam demonstrar contradições do sistema e procuram a explorara a distinção entre dois grupos antagónicos: um, virtuoso e maioritário, o povo, que todos exaltam e outro que diz defender procurando ganhar vantagens com o apelo a reivindicações ou preconceitos amplamente disseminados entre a população utilizando as redes sociais.

Nessas alturas os dirigentes partidários apelam às emoções, o que é legítimo, porque a política também é feita de emoções, todos os políticos tentam utilizar uma linguagem emocional e tentam apresentar propostas que agradem aos eleitores.

Por outro lado, o desinteresse pela política por parte dos cidadãos, porque acham que a discussão política é para meia dúzia de iluminados dos partidos que lutam entre si para chegar ao poder, é um outro fator explicativo.

Quais as implicações de aceitar de forma cega tudo o que se diz e escreve nos órgãos de comunicação clássicos e, sobretudo, nas redes sociais e quais as consequências dessa aceitação devido ao desvario das populações que o reproduzem acriticamente de forma viral? 

Governantes de países passaram a utilizar a tecnologia das redes sociais para comunicar com as pessoas e que por serem governantes o que eles dizem são aceites pelos seus apoiantes como verdades e opiniões a serem aceites ou desmentidas transformando verdade em mentiras e mentiras em verdades. Mentiras e informações falsas colocadas nas redes sociais até mesmo em conferências de imprensa ditas por responsáveis máximos da política dos países são por muitos tomadas como verdades, o caso do Presidente Trump nos EUA é um caso de estudo.

Em Portugal passou a estar também na moda dirigentes partidários e responsáveis do Governo comunicarem através das redes sociais. Os partidos da extrema-direita são prolíferos na propagação do populismo e das suas mais absurdas teses.

Após as eleições nos Açores o acordo com o Chega gerou polémica que emergiu na comunicação social e nas redes sociais que deu, e ainda está a dar, para todos os gostos. Numa primeira análise o PSD caiu, por vontade própria, na armadilha de se apoiar num partido populista como o Chega dando-lhe o protagonismo que até então lhe tinha faltado para além das caóticas intervenções de André Ventura na AR. Não é por acaso que os populistas utilizam uma retórica para chegar a segmentos da população que sentem que foram deixados para trás pelos dois maiores partidos e que se deixam, devido á sua ignorância política, encantar por discursos simplistas e chavões fáceis de fixar repetidos até à exaustão.

Como tem sido habitual ao longo de décadas as inovações e modas em sentido lato, sejam elas boas ou más, chegam com anos de atraso. O mesmo aconteceu com o populismo da extrema-direita que se pensava ser pouco ou nada representativa na nossa sociedade e que Portugal estaria a salvo, muito embora soubéssemos que andavam por aí acantoados em partidos de direita e do centro-direita considerados democráticos e que fazem parte do denominado arco da governação.

Aliás, os partidos populistas e da extrema radical de direita estiveram sempre presentes na maior parte dos países, especialmente na U.E., não se extinguiram após a derrota do nazismo e dos fascismos, apenas ficaram adormecidos durante algumas décadas vindo a ressurgir.

O fenómeno do populismo associado ao próprio conceito não é fácil de caracterizar embora vários especialistas já tenham proposto várias definições. Na perspetiva do filósofo e historiador britânico de Isaiah Berlin não há apenas um populismo, há versões do mesmo “consoante a mudança histórica que sublinha a natureza específica do desenvolvimento do populismo em países, locais e datas específicas”. Acha que uma única fórmula para cobrir todos os populismos em todo o lado não serão muito úteis.

O interessante foi que Berlin comparou ao conto da Cinderela a tentativa de definir populismo através de uma única definição. Diz que não devemos sofrer de um complexo de Cinderela. Há um sapato, para o qual deve existir um pé em algum lado. Há vários tipos de pés nos quais os sapatos “quase” se encaixam. O príncipe que anda sempre a vaguear com o sapato acredita que um dia encontrará o pé certo.  Esse será o populismo puro e a sua essência.

Para Isaiah Berlin “Todos os populismos são derivações do mesmo, desvios do mesmo e variantes do mesmo, mas algures por aí esconde-se um verdadeiro e perfeito populismo, que pode ter durado apenas seis meses, ou [ocorreu] em apenas um lugar”. Consultar BERLIN, Isaiah – «To define populism»., 1967, p. 6.

O populismo reclama ser pela afirmação dos direitos do povo face ao grupo dos interesses privilegiados, considerados habitualmente como inimigos do povo e da nação, dirige as suas críticas às deficiências da democracia representativa que diz não refletir o pensar e o querer do povo.  Veja, por exemplo, o caso do partido Chega e o género de intervenções feitas por André Ventura e os estribilhos e lugares-comuns que ele utiliza. O Chega representa a chegada do populismo da extrema-direita a Portugal.

Como chegámos até aqui?

Acima de tudo, a globalização fez com que as nossas vidas fossem de facto influenciadas por fatores que não podemos controlar. E enquanto os populistas dizem que é preciso "recuperar o controlo", os outros políticos dizem que não se pode fazer nada, "ou porque somos parte da UE ou porque a imigração vai continuar…". O resultado é que a maioria não tenta responder às necessidades e aos receios, às vezes justificáveis, das populações.

Nos estados europeus a globalização e a crise económico-financeira diminuíram o investimento, impedindo ou retardando o desenvolvimento económico agravado pela crise de 2008 e pelos efeitos da austeridade consequentes aplicados pelos governos acrescidos pelo aumento do desemprego que causaram um sentimento de insegurança. A "crise migratória" que os dirigentes europeus declararam existir no território da União Europeia ajudou ao crescimento de partidos populistas e xenófobos.

Os movimentos de imigração e de refugiados que assolaram e assolam os países da U.E. geram uma concorrência no mercado de trabalho nos países que os acolhem aproveitado como um dos argumentos da extrema-direita xenófoba que é falacioso porque aqueles vão ocupar as lacunas que os autóctones não querem ocupar assim como a escassez de investimento no comércio local que tem vindo a desaparecer e onde ninguém quer investir. Estas imigrações ocasionam graves problemas de acolhimento nos países de chegada que são aproveitados pelos populistas da extrema-direita racista e xenófoba.

Esta situação e outras, assim como as indecisões ao nível da U.E. tem sido aproveitada por alguns governos apoiados por partidos de direita ou de extrema-direita como na Hungria de Orbán, na Polónia de Jaroslaw Kaczynski, e na Áustria de Sebastian Kurz em coligação com o Partido da Liberdade da Áustria (FPö), que têm adotado políticas violadoras dos direitos fundamentais e da democracia liberal defendidos pela U.E. Em Espanha, pelos mesmos motivos e como reação à política de austeridade e contra o euro, surge o Podemos, embora sem conseguir chegar ao poder. No espaço da União Europeia foi a "crise migratória" existente que ajudou ao crescimento de partidos populistas e xenófobos como o AfD alemão.

Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional, partido da extrema-direita francesa e nacionalista radical, antes da eleição de Macron, apresentava-se como uma perigosa candidata à vitória na eleição presidencial, o que poderia colocar em perigo a sobrevivência do projeto europeu.

Quando foi colocada a Le Pen a questão sobre as razões por que os partidos que se dizem antissistema estão a obter tanto relevo na Europa resumiu o credo populista da extrema-direita na europa: «Creio que todos os povos aspiram a ser livres. Os povos dos países da União Europeia, e talvez também os americanos, terão tido durante demasiado tempo a sensação de que os líderes políticos não estão a defender os seus interesses (os do povo), mas antes, interesses especiais(?). Há uma espécie de revolta da parte do povo contra o sistema, que já não os serve mais, mas antes a si próprio». Ver aqui. É com este palavreado, a que chamam argumento, que as extremas-direita, nacionalistas, xenófobas e populistas se agarram para, habilidosamente, iludirem os insatisfeitos com as políticas praticadas em democracia que acham não ter contemplado os seus interesses.

Uma das evidências dos perigos que espreitam as democracias liberais vem dos partidos de extrema-direita é o que atualmente estão a perpetrar os governos da Hungria e da Polónia, a que se juntou depois o apoio da Eslovénia, utilizando uma força de bloqueio contra o pacote de resposta à crise aceite por todos. Consideram ser inaceitável que não possam aceder aos novos fundos europeus por discordarem da condicionalidade do critério pelo respeito ao Estado de Direito. São eles os mesmos países que propagam que se mostram receosos do regresso do “espectro do comunismo” à Europa, como se no atual contexto político isso fosse o perigo real.

Este é apenas um exemplo de como governos autocráticos de extrema-direita se dedicam por todos os meios democraticamente disponibilizados a minar os alicerces das democracias e dos perigos que a direita populista faz pairar sobre a democracia europeia. Manuel Carvalho escreveu num editorial do jornal Público que “Não se pode aceitar que a Hungria ou a Polónia beneficiem das vantagens da Europa, ao mesmo tempo que se dedicam a minar os seus alicerces”.

A mensagem nacionalista, anti-imigrante, anti étnica, racista e xenófoba, por vezes eurocética e anti União Europeia veiculada pela extrema-direita é representada em Portugal pelo partido Chega.  O populismo em Portugal ainda está no seu início, mas já está a dar os seus frutos e a “vender bem”. O perigo do populismo do Chega, e de outros partidos do mesmo, ou pior espetro, deteta-se por meio de diatribes tais como:

- Críticas isoladas e desconexas dirigidas aos políticos, aos partidos (que não seja o deles);

- Críticas aos órgãos representativos dos cidadãos indigitados através de eleições livres;

- Chamando a si a luta contra a corrupção colocando em causa setores da administração pública, organizações privadas com relevância na vida económica ou social com tentativas para descredibilizar, sem fundamentação científica, o funcionamento do sistema político (veja-se o caso de Trump nos EUA);

- Incoerência com outros valores e medidas que igualmente defende, que são um fator disruptor dos direitos fundamentais da liberdade e da igualdade e da tolerância garantes da dignidade da pessoa humana, pondo também em risco o Estado de direito que os salvaguarda.

Estes movimentos e partidos são um vírus que se está a expandir tornando-se uma ameaça e um perigo para a democracia e que vai corrompendo por forma dissimulada os seus valores e procedimentos essenciais, tanto mais perigoso se torna quando partidos democráticos para obterem ou manterem no poder os chamam para fazer acordos colocando os interesse partidários acima dos interesses democráticos do país e dos próprios cidadãos.

Sofia Lorena, num artigo publicado no jornal Público em 2018 baseado no pensamento de Daniele Albertazzi, especialista em movimentos políticos e estudioso do fenómeno populista na “Escola de Governo e Sociedade da Universidade de Birmingham”, escreveu que «Um líder populista é aquele que se vai apresentar como representante de um único povo, unido e homogéneo, que está face a uma ameaça. Esta ameaça pode ser a elite política ou algo externo. Estes líderes defendem que o seu povo está a ser roubado — dos seus valores, princípios, identidade. E em breve será demasiado tarde para recuperar o que lhes está a ser tirada».

É fácil defender que os povos europeus perderam o controlo das suas vidas porque há anos que a Liga Norte italiana de Salvini, partido de extrema-direita, dizia que "temos de ser donos e senhores da nossa própria terra". André Ventura chegou a dizer em agosto de 2020 que “Eu e Salvini, de mãos dadas, é um sinal para o futuro de Portugal e Itália”.

Para os populistas há sempre bodes expiatórios que são os causadores da desgraça do povo, na Alemanha nazi eram os judeus, noutros países são os muçulmanos, em Portugal, por enquanto, são os ciganos e em alguns casos os negros e outras etnias, os políticos e os partidos são extensão da corrupção.

Os populistas atacam a lentidão da democracia representativa e liberal e "apresentam-se sempre como defensores do tal povo homogéneo contra outros — os imigrantes, as etnias, as pessoas que seguem uma religião minoritária ou que não se encaixam por algum motivo", diz Albertazzi.

 

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publicado às 18:52

O cão de Boris Johnson

por Manuel_AR, em 15.12.19

O cão de Boris Johnson


PÚBLICO -



Foto: DYLAN MARTINEZ/REUTERS


(Vicente Jorge Silva, in Público, 15/12/2019)


Se política e comédia coexistem muitas vezes estreitamente, quando entram em choque frontal o resultado pode ser simplesmente catastrófico.







Eis, assim, uma hipótese de resumir os motivos que levaram os britânicos – com excepção dos escoceses e dos irlandeses – a contrariar uma convicção que se instalara através de múltiplas sondagens ao longo dos últimos três anos: a de que uma maioria dos súbditos de Sua Majestade seria, afinal, contra o “Brexit" e a favor do “Remain”. Ora, mesmo que essas sondagens reflectissem a realidade, a duração infindável de uma crise política centrada exclusiva e obsessivamente no “Brexit" tornou-se literalmente insuportável. Era preciso sair do pesadelo – e só Boris, com a ajuda providencial de Corbyn, o pior candidato trabalhista imaginável, poderia proporcioná-lo através de um dos seus golpes irresistíveis de comediante.



Apesar das possíveis semelhanças e familiaridade com outros políticos populistas – como Trump, Bolsonaro ou Órban –, o registo de Boris é outro: pode não ter vergonha de mentir descaradamente ou dizer enormidades ridículas, mas dificilmente o poderemos associar aos discursos do ódio e outras barbaridades mais ou menos extremistas que caracterizam essas personagens. Não por acaso, apesar das cumplicidades que partilham, Boris temeu durante a campanha eleitoral aparecer em público ao lado de Trump (como este desejaria).


Mas eis que chegou o momento da verdade, em que a arte da comédia se arrisca a contar pouco. Ou seja, como irá Boris descalçar a bota do “Brexit”, cuja história, afinal, está ainda muito longe de ter acabado, ou como conseguirá gerir as pulsões nacionalistas de escoceses e irlandeses? Aí começa outro capítulo deste folhetim que culminou, no capítulo anterior, na tal imagem enternecedora do cão de Boris, Dilyn, a ser beijado pelo dono. Se política e comédia coexistem muitas vezes estreitamente, quando entram em choque frontal o resultado pode ser simplesmente catastrófico.


PS – Outro género cómico está a ser cultivado por António Costa e Mário Centeno a propósito do seu diferendo sobre o orçamento europeu. Costa acha normalíssimo andar de candeias às avessas com o seu silencioso ministro das Finanças, como se não se encontrassem ambos, pelo menos, nos conselhos de ministros, e essa insustentável discordância que os opõe não causasse grande estranheza entre os nossos parceiros europeus. Além disso, acontece que nem Costa nem Centeno têm talento de comediantes…



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publicado às 19:13


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