Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Editorial

Publicado no jornal Público

27 de Junho de 2022

Manuel Carvalho-Público.jpg

Manuel Carvalho

Os novos sinais de perigo que chegam da Ucrânia

O tirano que é capaz de bombardear civis ou que encolhe os ombros perante a ameaça de uma impensável crise alimentar mundial não pensa nem actua num quadro mental em que entra a razão, a emoção ou a humanidade.

A brutalidade da invasão da Rússia continua a exigir mais do que a destruição de cidades. A satisfação dos tiranos do Kremlin não se garante com os combates na frente, o cerco dos inimigos, o bombardeamento táctico ou estratégico de alvos militares. Precisa do terror para se alimentar. Precisa de bombardear centros comerciais povoados por gente normal para mostrar músculo e manter a Ucrânia e o mundo sob ameaça. Se uma potência média resiste desde Fevereiro aos ataques do gigante, a sua punição e a dos que a apoiam têm de se pagar com a barbárie.

Nos últimos dias confirmaram-se as piores expectativas. A mão imperialista que domina o Kremlin e subjuga a Rússia não se contenta apenas com a conquista e a anexação do Donbass. As suas forças militares estão exangues, o seu papel na alta finança mundial está esgotado, mas enquanto houver gás, armas, propaganda e intimidação, Putin não vai parar. Pode haver fome generalizada nos países mais pobres, a Ucrânia pode ficar ainda mais devastada, o isolamento da Rússia no continente onde gosta de ser potência há 300 anos pode adensar-se, mas neste cenário de horrores só parece sobrar a fuga para a frente.

Faz por isso todo o sentido que a NATO e as democracias ocidentais se preparem para o pior. Que agravem as sanções, que reforcem a ajuda à Ucrânia, que tratem de aumentar a sua capacidade de resposta militar rápida para 300 mil homens. O tirano que é capaz de bombardear civis ou que encolhe os ombros perante a ameaça de uma impensável crise alimentar mundial não pensa nem actua num quadro mental em que entra a razão, a emoção ou a humanidade.

A Rússia é hoje muito mais do que nos primeiros dias do conflito uma ameaça para a Europa. A firmeza da resposta ocidental surpreendeu e irritou a fera. O Donbass já não basta. Os receios do envio de tropas para Kaliningrado ou para a fronteira entre a Lituânia e a Bielorrússia ganham consistência. Zelensky quer acabar a guerra até ao final do ano, mas nada nos garante que a Rússia, movida pelo superávite do gás e do petróleo, esteja disposta a aceitar uma meia vitória ou uma meia derrota. A megalomania é uma marca dos déspotas.

No entorpecimento que o tempo começa a causar, convém estar atento. Vivemos o momento mais dramático da história europeia desde a Segunda Guerra, e o cenário pode piorar. A unidade da Europa e da NATO e a certeza moral de que o Kremlin de hoje é uma ameaça à paz e à democracia são dos poucos trunfos de que dispomos para manter o optimismo.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:21

Putin-Eurásia.png

Fotografia de Putin jornal Público

Eugénia Vasconcellos.jpg

Eugénia de Vasconcellos

Texto publicado no jornal Observador

06 abr 2022 

Vai para a Eurásia que te Pariu, Pá!

Dizem «as sanções não podem ser demasiado pesadas». Não podem? Somos colaboracionistas? Cada cêntimo para a Rússia em troca de petróleo, gás, carvão cheira a medo.Só o cheiro a medo autoriza massacres

A Rússia de Putin mente. Fá-lo com um objectivo claro, a manutenção e expansão do seu regime autocrático e cleptocrático e fá-lo por uma única razão: porque pode. Nós, sublinho, nós deixamos. E nós somos as democracias ocidentais, os herdeiros daqueles que as implementaram e as defenderam.

Em 2014, a Rússia invadiu a Ucrânia e ocupou a Crimeia. Negou-o. A Rússia, então, afirmou repetidamente que eram grupos rebeldes, separatistas, e não tropas russas. Publicamente, na Rússia, esta astúcia foi celebrada por muitos pois estava ao serviço de um bem maior: a preservação da sagrada nação russa e o mito da sua milenar duração contra tudo e todos. A popularidade de Putin disparou na altura, tal como agora, porque a Rússia de Putin tem um desígnio para preencher o vazio pós queda do muro de Berlim. Os vazios podem ser lugares terríveis quando não nos confrontamos com eles e com os lutos que nos propõem. O vazio da igreja e dinástico foi substituído pelo comunismo, pelo culto dos seus líderes e a construção de um inimigo congregador. Posteriormente, quando este regime caiu, nada havia para ocupar o seu lugar. Putin tem, progressivamente, oferecido isso, o que quer que isso seja, à Rússia: restabeleceu a igreja, o culto do líder, o nacionalismo, a missão. E a missão é reintegrar no corpo russo o que dele foi retirado sucessivamente, não interessa se pelos mongóis, se pela Grande Armada de Napoleão, se por Hitler ou pelos Estados Unidos ou pela União Europeia ou a Nato. Pela Tchetchénia ou pela Geórgia. Pelo povo ucraniano. Ainda que para isso seja necessário reescrever a história em ensaios onde os factos são rasurados e em discursos de hora e meia. Depois da reintegração a expansão, como claramente afirmou Medvedev, «construir uma Eurásia de Lisboa a Vladivostok». Se dúvidas houvesse. E claro, esta meta é exequível. A Hungria e a Sérvia demonstraram-no este domingo com as reeleições de Viktor Orban e Aleksandar Vucic, pró-putinistas patrocinados.

A verdade tem de ser repetida pelo menos tantas vezes quanto a mentira porque a luta é desigual: a democracia está em recessão. Mas é a democracia que permite pessoas como Alexandre Guerreiro a disseminar propaganda e desinformação russa em horário nobre, como permite a agenda woke e a extrema esquerda. Mesmo quando esta fragmenta e faz da esquerda, do centro e do centro direita, reféns. A democracia permite a esta extrema esquerda asséptica e maniqueísta apelidar todos quantos não subscrevem os itens agendados de «intolerantes, censores, irrelevantes, banais, fúteis e sem referências éticas». A democracia, pasme-se, permite que se vitimizem, triste figura, ao longo de um manifesto Pela Paz e Contra a Criminalização do Pensamento. Até permite a publicação no Expresso, tal é a criminalização.

A Rússia de Putin mente. E fá-lo com rigor propagandístico norteado pelo sempre actual Goebbels, «uma mentira dita uma vez continua a ser uma mentira, mas uma mentira mil vezes repetida torna-se uma verdade». Lavrov tem sido o discípulo incansável desta fé. A Rússia mente. Nega que invadiu a Ucrânia a 24 de Fevereiro de 2022. Nega ataques a civis. Nega a utilização de crianças como escudo. Nega a violação de mulheres e meninas. Nega as execuções sumárias. Nega os massacres hediondos de Bucha como negou os de Mariupol e Irpin como negará quaisquer outros com a vileza acrescida de culpar os ucranianos por esses crimes quando não lhes atribui encenações. Há cidades à fome e à sede e ao frio. Valas comuns. Cadáveres espalhados pelas ruas. Mutilados. Corpos profanados por minas. E o que se passa nos campos de triagem para onde os ucranianos estão a ser levados aos milhares? Famílias ucranianas resistentes nos territórios ocupados estão a ser separadas, despojadas de documentação, internadas aos milhares em campos de triagem, para serem relocalizadas na Rússia, como se não tivéssemos esse pesadelo acordado ainda com as memórias de 1939-45. As informações são da Cruz Vermelha. São relatadas por vítimas e jornalistas, as imagens são confirmadas por satélites. Nada disto é novo. Nada é feito pela primeira vez. A ONU, afirma que investigará para responsabilizar efectivamente os perpetradores. Tem de fazê-lo rigorosamente. O Tribunal Penal Internacional também. Sabemos todos: Putin é um criminoso de guerra. Há anos que o é. Em 1999 já o era. A pretexto do movimento separatista tchetcheno, ordenou uma «operação anti-terrorista» – parece familiar? A operação durou dez anos e foram massacrados milhares de civis, cidades arrasadas, uma carnificina. Ninguém o parou então nem depois na Geórgia onde usou mesma fórmula em 2008. Sanções e um ano depois, amigos como dantes. Síria. Arménia. Cazaquistão.

Nós, para continuarmos a viver em democracia, temos de a defender e isso obriga-nos a tomar uma posição.

O medo é a arma de Putin. É funcional. A economia é o nosso calcanhar de Aquiles. Ambos nos imobilizaram antes, e na situação ucraniana em 2014. Permitiram que fizéssemos de uma questão maior, uma questão regional. Mas esta guerra é nossa. É a nossa forma de vida que está em causa. As nossas liberdades. Dizem «as sanções não podem ser demasiado pesadas». Não podem? Somos colaboracionistas? Cada cêntimo entregue à Rússia em troca de petróleo, gás e carvão, cheira a medo. Só o cheiro a medo autoriza o massacre de civis, sabê-los desamparados e saber que as consequências desse acto são suportáveis e logo passam. A negação da entrada da Ucrânia na NATO cheira a medo. Não armar e equipar adequadamente a Ucrânia cheira a medo. Medinho. Miúfa. E não é o medo que nos vai defender. O medo vai abrir a estrada de Lisboa a Vladivostok.

A autora escreve segundo a antiga ortografia

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:43

O que terá levado ontem, 19/06, João Soares no comentário da semana com Miguel Poiares Maduro no Telejornal na RTP1, no momento da frase da semana, a fazer publicidade aos livros de um coronel reformado de quem proliferam “posts” no Facebook contra o Ocidente em relação à invasão da Ucrânia ?

Matos Gomes frase escolhida João Soares.png

A frase tirada de um contexto pode ter várias conotações a quem a lê. João Soares deu-lhe a sua.

O referido senhor coronel escreveu no Facebook em 9 de junho do corrente ano que “António Costa mente. Mente como mentem todos os líderes europeus que se atrelaram à estratégia dos EUA de separar a União Europeia da Rússia e de fazer da Rússia o seu inimigo.”

Pois é, João Soares publicitou os livros do senhor coronel acrescentando que é “um grande escritor da língua portuguesa”. O que levou João Soares a elogiar o senhor coronel anti ocidente com uma frase e o aconselhamento dos seus livros? Isso deixou-me muitas dúvidas sobre a posição de João Soares em relação â matéria da Ucrânia e da Rússia. Também já tinha ficado com algumas dúvidas quanto à posição de João Soares em relação à Ucrânia numa entrevista que ele deu em 13 de março de 2022 ao jornal Sol. Soares terá dito ser contra a guerra, mas a sua clareza foi pouco clara, desculpem a redundância. Pareceu-me haver um lado obscuro e cínico na sua posição relativamente à Ucrânia quando apresenta com elogios alguém que, logo após a invasão da Ucrânia, se mostrou contra o Ocidente, NATO, EUA e U.E.

No entanto, no meio da política do bom-senso há, por outro lado, uma situação a lidar com alguma precaução, é que, nós, enquanto país, não temos vantagens em hostilizar a Rússia apesar de estarmos ao lado da Ucrânia. Não, não é o mesmo de estar bem com Deus e com o diabo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:19

Um artigo na análise política isento  sobre a invasão da Ucrânia e não alinhado com extremistas anti ocidente que defendem o projeto do ocidente se submeter a Putin.

Tatiana Stanovaya

Foto:  Dmitry Kostyukov / R.Politik

Sobre a autora:

Tatiana Stanovaya é bolsista não residente no Carnegie Endowment for International Peace e fundadora e CEO da empresa de análise política R.Politik. Ela nasceu em Moscovo e mora em França desde 2010.

 Guerra da Rússia

O Ocidente está errado sobre essas cinco suposições sobre Putin, texto publicado pela primeira vez por "Política Externa" e no DER SPIGEL em 06/06/2022

A questão de saber se Putin precisa sair da guerra é secundária: ele acredita que vencerá. O Ocidente deve olhar para a situação de forma diferente se quiser ser mais eficaz.

Foto: Alexander Zemlianichenko / dpa

Uma das razões pelas quais é tão difícil entender as intenções da Rússia e o que está em jogo na guerra da Ucrânia é a discrepância significativa entre a visão dos observadores externos e a visão do Kremlin sobre os acontecimentos. Algumas coisas que alguns tomam como certa são percebidas completamente diferentes em Moscovo – como a suposta incapacidade da Rússia par alcançar uma vitória militar. A maioria das discussões de hoje no Ocidente sobre como ajudar a Ucrânia a vencer o campo de batalha ou forçar Kiev a fazer concessões têm pouco a ver com a realidade. Isso também se aplica à questão de como o presidente russo Vladimir Putin poderia ser levado a salvar a cara.

Abaixo, vou refutar cinco suposições comuns sobre como Putin vê esta guerra. O Ocidente deve olhar para a situação de forma diferente se quiser ser mais eficaz e reduzir os riscos de escalada.

Suposição 1:

Putin sabe que vai perder.

Essa suposição baseia-se no equívoco de que o principal objetivo da Rússia é obter o controle de grande parte da Ucrânia – e que, portanto, significaria o fracasso se os militares russos tivessem um desempenho ruim, não avançar ou mesmo ter que se retirar. O principal objetivo de Putin nesta guerra, no entanto, nunca foi controlar partes do território da Ucrânia, mas destruir a Ucrânia, que ele vê como um projeto "anti-Rússia". E ele quer – do seu ponto de vista – impedir que o Ocidente use o território ucraniano como ponte para atividades geopolíticas anti-russas. Como resultado, a Rússia não se vê como um fracasso. A Ucrânia não poderá juntar-se à OTAN nem existir pacificamente sem considerar as exigências da Rússia: russificação (ou "desnazificação" na língua de propaganda russa) e "financiamento da OTAN" (referido na propaganda russa como "desmilitarização"), ou seja, uma renúncia a qualquer cooperação militar com a OTAN. Para alcançar esses objetivos, a Rússia quer manter a sua presença militar em território ucraniano e continuar a atacar a infraestrutura ucraniana. Grandes ganhos territoriais ou a captura da capital ucraniana Kiev não são necessários (mesmo que a Rússia inicialmente tenha sonhado com isso). Até mesmo a anexação das regiões de Luhansk e Donetsk, que Moscovo considera apenas uma questão de tempo, é uma meta secundária local com a qual a Rússia quer fazer a Ucrânia pagar pelo que vê como decisões geopolíticas pró-ocidentais erradas das últimas duas décadas. Aos olhos de Putin, ele não vai perder esta guerra. Ele provavelmente até pensa que está a ganhar, e ele está à espera da Ucrânia admitir que a Rússia ficará ali para sempre.

 Suposição 2:

O Ocidente deve encontrar uma maneira de ajudar Putin a salvar a face, reduzindo assim os riscos de uma escalada adicional, possivelmente nuclear.

Imagine uma situação em que a Ucrânia aceita a maioria das exigências da Rússia: reconhece a Crimeia como russa e o Donbass como independente, compromete-se a reduzir o tamanho do exército e promete nunca pertencer à OTAN. Isso vai acabar com o conflito? Mesmo que a resposta pareça ser um sim retumbante para muitos, isso é errado. A Rússia está numa batalha com a Ucrânia, mas geopoliticamente ela vê-se numa guerra contra o Ocidente em território ucraniano. No Kremlin, a Ucrânia é vista como uma arma anti russa nas mãos do Ocidente; mas a sua destruição não significa automaticamente a vitória da Rússia neste jogo geopolítico antiocidental. Para Putin, esta guerra não está ocorrendo entre a Rússia e a Ucrânia. A liderança ucraniana não é um ator independente, mas uma ferramenta ocidental que deve ser neutralizada.

Quaisquer que sejam as concessões que a Ucrânia possa fazer (não importa o quão politicamente realistas possam ser), Putin continuará a escalar a guerra até que o Ocidente mude sua abordagem para o chamado problema da Rússia. Ele teria que admitir que, como Putin vê, as raízes da agressão russa residem no facto de que Washington ignorou as preocupações geopolíticas russas por 30 anos. Alcançar isso tem sido o verdadeiro objetivo de Putin, e isso não mudou. O Kremlin pode até mesmo usar exigências russas irrealistas, que Kiev rejeita, para aumentar as apostas no confronto entre a Rússia e o Ocidente – e, assim, testar se o Ocidente permanece unido e consistente. O Ocidente hoje não entende o problema: no seu esforço para parar a guerra da Rússia, está a concentrar-se nos pretextos artificiais de Moscovo para a invasão da Ucrânia. Ele ignora a obsessão de Putin com a chamada ameaça ocidental – bem como a sua disposição para forçar o Ocidente a dialogar sob as condições russas através de uma nova escalada. A Ucrânia é apenas um refém.

 

Suposição 3:

Putin está a perder não só militarmente, mas também internamente, e a situação política na Rússia é tal que Putin poderia em breve enfrentar um golpe.

O oposto é verdade, pelo menos por enquanto. A elite russa está tão preocupada em como garantir a estabilidade política e evitar protestos que está a reunir-se em torno de Putin como o único líder que pode consolidar o sistema político e evitar a agitação. A elite é politicamente impotente, assustada e vulnerável – incluindo aquelas retratadas nos media ocidentais como aquecedores e falcões. Fazer algo sobre Putin hoje seria equivalente ao suicídio a menos que Putin perca (física ou mentalmente) a sua capacidade de governar. Apesar de novas divisões e fraturas nas fileiras e insatisfação com as políticas de Putin, o regime permanece firme. A maior ameaça a Putin é o próprio Putin. Mesmo que o tempo esteja trabalhando contra ele, acordar a elite é um processo que levará muito mais tempo do que muitas pessoas esperam. Vai depender de quão presente Putin permanece na vida cotidiana do governo.

 

Suposição 4:

Putin tem medo de protestos antiguerra.

Na verdade, Putin tem mais medo dos protestos pró-guerra e tem que lidar com o zelo de muitos russos que querem destruir aqueles que chamam de nazis ucranianos. O sentimento público poderia encorajar a escalada e levar Putin a tomar uma postura mais dura e determinada – mesmo que esse sentimento seja devido à própria propaganda do Kremlin. Este é um ponto extremamente importante: Putin despertou um nacionalismo sombrio no qual ele é cada vez mais dependente. Aconteça o que acontecer com Putin, o mundo terá que lidar com essa agressividade pública e as crenças antiocidentais e antiliberais que tornam a Rússia tão problemática para o Ocidente.

 

Suposição 5:

Putin está profundamente dececionado com a sua comitiva e deu luz verde para processar funcionários de alto escalão.

Esta é uma questão muito debatida no Ocidente que surgiu da especulação: sobre a suposta prisão do ex-vice-chefe de gabinete de Putin, Vladislav Surkov, a detenção de Sergei Beseda, um alto funcionário de segurança encarregado da Ucrânia, e supostas expurgas no círculo íntimo de Putin. Todos esses rumores devem ser vistos com extremo ceticismo. Primeiro, não há confirmação de nenhum desses rumores. (Em vez disso, fontes de alto escalão sugerem que nem Beseda nem Surkov foram presos). Em segundo lugar, Putin pode estar chateado e desapontado com A sua equipa, mas não é o seu estilo realizar expurgas no seu círculo interno – a menos que crimes graves tenham sido cometidos. Para Putin, apenas as intenções contam, e se os serviços de inteligência russos o calcularam mal ou mesmo o informaram mal sem más intenções, dificilmente haverá acusação. E, finalmente, a campanha militar na Ucrânia foi meticulosamente controlada pelo próprio Putin desde o início, deixando pouco espaço para as autoridades subordinadas mostrarem iniciativa.

Tudo isso significa que o suposto dilema do Ocidente – ou dobrar o apoio à Ucrânia porque Putin está perdendo, ou apaziguar Putin, não o irritando porque ele é desesperador e perigoso – está fundamentalmente errado. Há apenas duas maneiras possíveis de sair do confronto: ou o Ocidente muda a sua atitude em relação à Rússia e começa a levar a sério as preocupações russas que levaram a esta guerra – ou o regime de Putin entra em colapso e a Rússia revê as suas ambições geopolíticas.

No momento, tanto a Rússia quanto o Ocidente parecem acreditar que o seu homólogo está condenado e que o tempo está do seu lado. Putin sonha com o Ocidente experimentando uma convulsão política, enquanto o Ocidente sonha com Putin sendo deposto ou derrubado, ou morrendo de uma das muitas doenças que ele regularmente diz ter. Ninguém está certo. Em última análise, um acordo entre a Rússia e a Ucrânia só é possível como um acordo entre a Rússia e o Ocidente como um todo – ou como resultado do colapso do regime de Putin. E isso nos dá uma ideia de quanto tempo esta guerra poderia durar: anos, no máximo.

 



 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:24

Jerónimo e Putin.png

A estratégia que o PCP - Partido Comunista Português tem vindo a seguir após o desaire das eleições, e, mais recentemente, com a invasão da Ucrânia está a desenvolver-se em três frentes.

A primeira frente, a mais recente, é a manutenção da culpabilização da invasão da Ucrânia pelo ocidente tratando o invadido e o ocidente como sendo os agressores. A desculpabilização do agressor é também defendida pelos que, reivindicam um pensamento alternativo, para eles indiscutível, em contraponto ao que eles denominam de pensamento único, que é contra a invasão e que é o errado. Para essa corrente, a Europa, enfeudada aos EUA e à NATO, são os geradores de uma escalada militar belicista.

Pela análise dos argumentos de Vladimir Putin e dos seus seguidores, o ocidente é o meio privilegiado da expansão dos valores negativos da cultura ocidental para a Rússia. É, pois, em nome da autodeterminação dos povos, e não apenas do povo russo, que Vladimir Putin diz prosseguir a sua política externa de forma a romper com os constrangimentos da hegemonia ocidental (ver discursos e intervenções). Ao mesmo tempo insiste em querer preservar a influência de Moscovo no “estrangeiro próximo” que se perdeu com o colapso da URSS (a retórica do PCP está próxima). Todavia a invasão da Ucrânia é demonstrativa da sua contradição por não lhe reconhecer o seu direito à autodeterminação.

A segunda frente do PCP é ideológica e processa-se no âmbito da sua política interna. No partido nada acontece por acaso. O “interior” do partido está rodeado pela discrição onde está enraizada uma ideologia dogmática com certos postulados não sujeitos a crítica e em que é o comité central que faz o ditame do posicionamento ideológico-partidário do momento que obedece a uma liturgia própria. O PCP debate-se, por isso, com o dilema de simultaneamente ter de responder à necessidade de manutenção da sua identidade, cujos valores e princípios são submetidos à ideologia internacionalista do comunismo mais ortodoxo e a vontade do eleitorado que pretende recuperar.

As narrativas produzidas pelo PCP têm vindo a competir com outros discursos existentes no espaço político. Ao longo do tempo, no que se refere a evolução discursiva, desenvolveu algumas alterações na sua terminologia linguística reprimindo algumas expressões e a aceitação de outras pela reformulação de elementos linguísticos que deixaram de ser utilizados na sua antiga formulação com a entrada e a participação do partido no diálogo político que se encetou em Portugal após o estabelecimento do regime democrático, ficando numa espécie de letargia de que tem custado a sair, mas a que parece pretender regressar.

Todavia, ao longo dos anos, ao escutar e ao ler alguns dos discursos dos líderes do PCP tenho verificado que, desde o tempo da URSS e do PCUS (Partido Comunista da União Soviética), até à atualidade, alguns dos pressupostos do PCP mantiveram-se. A NATO continua a ser uma organização agressiva, os EUA capitalistas, imperialistas e agressores e a União Europeia está ao seu mando. Deste modo, faça a Rússia  o que fizer, (leia-se antes Putin), para o PCP estará sempre certa, no pressuposto de que, todos os que considerem como inimigos os de quem sou inimigo, são meus amigos.

Apesar da confusa barracada causada por declarações por figuras do PCP, algumas delas contraditórias, sobre a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin que pode ver aqui e aqui, e em que o líder Jerónimo de Sousa tem afirmado que o PCP garante “não ter nada a ver com o governo russo” nem com Putin o certo é que, os seus militantes e adeptos ao colocarem-se do lado contrário de quem está contra Putin colocam-se, indiretamente, do lado do agressor.

No 101º aniversário do PCP Jerónimo de Sousa afirmou ser “uma calúnia” dizer que o partido apoia a invasão da Ucrânia. Apesar da tentativa de se demarcar do regime de Putin, não foi a ele quem mais atacou. Foi aos EUA que mais apontou o dedo. No mesmo comício, em março, a defesa indireta do agressor que é Vladimir Putin deu-se pelo ataque aos que ajudam o agredido, foi o Ocidente, sobretudo aos EUA, que mais responsabilizou. Narrativa que também tem passado pelas redes sociais pelos seus adeptos. Jerónimo de Sousa apontou “todo um caminho de ingerência, violência e confrontação” que diz ter começado no “golpe de Estado de 2014, promovido pelos EUA, que instaurou um poder xenófobo e belicista”, e que provocou “a recente intervenção militar da Rússia na Ucrânia e a intensificação da escalada belicista dos EUA, da NATO e da União Europeia.” Afinal o que é isto senão a lavagem da política de Putin em relação à Ucrânia? Basta agora acrescentarmos o termo “operação militar especial” que Jerónimo já utilizou para se referir à invasão da Ucrânia. A colagem torna-se ainda mais evidente quando não refere Putin como imperialista nem o coloca em causa pelo que deveria ser para o PCP a tradição leninista da autodeterminação dos povos, já que, Putin responsabiliza Lenine pela independência da Ucrânia por ser o seu "autor e criador".

Os argumentos vindos do Kremlin para a invasão da Ucrânia são apontados ao ocidente, sobretudo à U.E., EUA e NATO o que parece terem dado ao PCP um novo alento. Não é por acaso que os seus capangas ideológicos andam pelas redes sociais e blogues a apoiar indiretamente Putin criticando e colocando-se contra o ocidente. Para o PCP a U.E. e a NATO foram e são uns empecilhos ao avanço estratégico da Rússia para ocidente e um bloqueio à progressão dos desígnios de expansão do comunismo na esperança de que um dia a URSS ou algo parecido regressem.

O PCP, embora esteja contra as políticas capitalistas do Kremlin como diz, ao mesmo tempo está em consonância com a sua política externa. A ambição do Kremlin pelo controle da Europa, pelo menos dos países que pertenceram ao Pacto de Varsóvia, é a hegemonia económica e geopolítica que passa também pelo desmembramento da União Europeia e a NATO que tem sido (e sempre foi) uma pedra no sapato de Putin e que também fazem parte de uma das lutas do PCP.

A terceira frente que não é independente das duas anteriores resulta da pesada derrota nas últimas eleições legislativas que está a fazer com que o PCP regresse ao “show de rua” com reivindicações e greves, com palavras de ordem mais do desgastadas e com o costumeiro radicalismo arcaico e ortodoxo.

As palavras de ordem do PCP voltaram a ser as de um populismo de esquerda para captar as massas populares para a sua luta. Palavras de ordem, as mesmas de sempre, como “aumentar os salários”, “valorizar o trabalho”, “desenvolver o país” às quais acrescentam a inflação e o custo de vida que vieram, em boa-hora, ajudar a direita e a extrema-direita a fazer oposição, como já vimos no Parlamento o PSD a defender aumento na função pública quando anteriormente falava no peso do Estado na economia.

Aprovado o OE para 2022 que o PCP votou contra, juntamente com a direita e com a extrema-direita, pela mão dos sindicatos que controla irá tentar instalar uma instabilidade social artificial com greves, paralisações e manifestações. O seu objetivo é fazer uma oposição de ataque cerrado e de desacreditação da maioria absoluta do Governo do Partido Socialista.

As únicas propostas que o PCP apresenta para melhorar o país são o aumento das pensões, dos salários, a fixação de preços contra o grande capital. Fixação de preço que resultaria em faltas nos abastecimentos de produtos básicos essenciais para as populações, sobretudo as urbanas, em filas para a compra de produtos essenciais como se verificava na ex-URSS da chamada economia planificada do regime comunista.

A economia da URSS era tão planificada que, depois da sua dissolução as privatizações de grandes empresas foram parar à mãos de quadros, antes fiéis do PCUS-Partido Comunista da URSS e “gestores” dessas mesmas empresas do Estado, que são atualmente os grandes oligarcas da Federação Russa e cuja maioria ainda está do lado de Putin.

Ainda no sentido desta terceira frente e aproveitando a atual conjuntura internacional devido à invasão da Ucrânia seguida do pedido de adesão à U.E., o PCP luta com as armas desestabilizadoras que tem ao seu dispor para dar apoio, mal disfarçado, à política de Vladimir Putin. Esta posição é coerente com a nota do gabinete de imprensa do PCP de 22 de fevereiro deste ano.

Há ainda a salientar a despropositada conferência que o PCP organizou no ISCTE na passada terça-feira, em Lisboa, para analisar as “consequências do uso do euro para o país se este rumo se mantiver” e as “possibilidades para concretizar uma rutura”. Parece-me que Putin terá ficado agradecido, assim como o PCFR.

O PCP faz um balanço negativo da adesão ao euro e destes 20 anos em que a moeda esteve a circular baseia-se na perda de soberania sobre a sua política monetária, cambial e orçamental; nos períodos de recessão ou estagnação económica, tornou-se mais endividado e dependente, perdeu capacidade produtiva, e não convergiu com a média da União Europeia. “Temos o dever de perguntar: como serão os próximos 20 anos? Vamos resignar-nos a este cenário?” questiona o PCP. Os argumentos parecem ser idênticos aos da extrema-direita quando está contra a U.E.

Os comunistas realçaram na conferência, organizada pelos eurodeputados do PCP, que “A permanência no euro já é suficientemente longa para se tirar conclusões independentes das conjunturas e dos governos. Este é o tempo de recordar a propaganda e as promessas então feitas e de as conformar com os impactos reais da adesão. Mas é sobretudo o tempo de pensarmos o presente e o futuro. Este debate assume recusar inevitabilidades”.

A proposta e a estratégia do PCP ao adotar uma estratégia anacrónica para criticar a presença de Portugal no Euro vai no sentido de que Portugal fique novamente “orgulhosamente só”, tal como proferiu Salazar num discurso em 1965 quando o mundo se opunha à manutenção do colonialismo. É lamentável que após 57 anos, embora num contexto distinto, mas igualmente severo, o PCP esteja a querer encaminhar Portugal para o desastre.

A discussão veio facilitar a abertura do tema que está no alinhamento com Putin ao aperceber-se de uma Europa Unida pelo que há que estilhaçar esta perigosa união. Não nos admiremos se a extrema-direita vier também a alinhar com a ladainha comunista sobre a U.E. Temos visto nos últimos anos como a extrema-direita na Europa tem trazido para a discussão populista a verborreia contra a União Europeia.

Enquanto continua a haver países de leste, nomeadamente a Moldávia, que pretendem entrar para a U.E. e para a NATO/OTAN e para zona Euro, coisa que o presidente Vladimir Putin vê como um cerco à Rússia, e o Reino Unido acha que terá sido um erro a sua saída da U.E. o PCP continua a propor a saída de Portugal do Euro. Não é novidade, a sua coerência reside no facto de ter estado sempre contra a entrada de Portugal para a U.E. e para a zona Euro que, para aquele partido, é uma organização “defensora do grande capital”. Aliás, em 2016, o PCP defendia “derrotar a União Europeia, criar ‘outra Europa’ dos trabalhadores”. Qual? A da ex-URSS?

De facto, parece-me estranho que o PCP nas atuais circunstâncias esteja novamente a levantar a discussão e a colocar em causa o Euro e a U.E. Caso fosse desmantelada a U.E. esta ficaria dividida e a porta ficaria aberta ao imperialismo de Vladimir Putin. Neste aspeto o PCP é coerente porque sempre foi contra a U.E., mas, saído das “amarras” de compromissos de apoio parlamentar com o PS encontrou novamente o folego e a oportunidade para, ao arrepio da guerra da Ucrânia, se aproximar dos pontos de vista de Vladimir Putin cuja filosofia é contra a E.U. e contra o Euro por ver neles um empecilho apesar de a ter enfeudado ao fornecimento de gás e petróleo da Rússia.

Este debate sobre o Euro não surge por acaso e regressa com os mesmos estribilhos já bem conhecidos.

Convém também não esquecer que este espírito anti U.E. e anti NATO foi também a do anterior presidente dos EUA Donald Trump que esteve empenhado no seu enfraquecimento como realçou o Presidente francês Emmanuel Macron em 2019: “O que estamos a assistir é a morte cerebral da NATO", devido às decisões do presidente norte-americano sobre a Aliança Atlântica e também pelo comportamento do presidente turco”. A invasão russa da Ucrânia ocorreu num momento de enfraquecimento da NATO e não de um ostensivo e concreto alargamento até à fronteira russa.

O PCP sabe que a política externa de Vladimir Putin se pauta pelo confronto com os países ocidentais como se tem verificado há algum tempo. Os comunistas do PCP encontraram agora uma oportunidade de fazer eclodir uma discussão sobre o Euro porque a conjuntura da invasão da Ucrânia, a que também Jerónimo de Sousa chamou “operação militar especial”, e a que, claramente, nunca se opuseram, a não ser em falar em abstrato na paz que dizem pretender.

O presidente Vladimir Putin, para justificar os seus objetivos argumenta que se está a criar um “cerco estratégico”, o que é falso, e, de acordo com esta narrativa, traçou uma política externa que diz ser defensiva. Independentemente da avaliação que possamos fazer quanto a esta linha de argumentação, há uma verdade inequívoca: as ações de Moscovo ao longo dos últimos anos quer na Moldávia, na Geórgia, na Crimeia e agora na Ucrânia, as ações de Moscovo desfizeram dúvidas quanto à postura bélica assumida pelo presidente Putin.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:17

Afinal as cassetes ainda existem

por Manuel_AR, em 13.05.22

“A conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa”. (Palavras do líder do Partido Comunista da Federação Russa, numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscovo a 3 de abril de 2022)

Putin Imperador-2.png

O grande perigo para a Europa e para o Mundo não vem da NATO, nem dos EUA, mas do presidente Vladimir Putin. A pergunta que se coloca é a de saber se a Suécia e a Finlândia teriam pedido com brevidade a entrada na NATO caso Putin não tivesse invadido a Ucrânia. Putin passou a ser um fator de instabilidade também para a União Europeia que, segundo ele, teria a pretensão de desagregar.

Agora um ditador candidato a “imperador” quer pressionar a Finlândia, país autónomo, soberano e independente, a não aderir à NATO e, por isso, ameaça tudo quanto mexe. Desde quando um país obriga outro a seguir os seus ditames com a justificação de se sentir ameaçado. Por aqui vê-se quem ameaça o Mundo e qual a sua estratégia para o enfraquecimento dos mecanismos de proteção e defesa dos países que os rodeiam.

Putin nunca viu com bons olhos que Helsínquia aderisse em 1995 e encontrasse na União Europeia o seu espaço estratégico preferencial. A questão da adesão à NATO nunca se tinha colocado apesar de ser essa a preferência de grande maioria dos finlandeses.

Vamos ver se a Turquia deixará, ou melhor, não se oporá!

Putin, em vez de fazer uma aproximação à Europa e ao ocidente optou por se dispersar com divagações pouco credíveis conforme é citado no Kremlin: "O nosso dever comum é impedir o renascimento do nazismo, (o sublinhado é meu), que trouxe tanto sofrimento aos povos de vários países. É necessário preservar e transmitir (...) a verdade sobre os acontecimentos da guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade e irmandade". Palavras vazias sem sentido e que contrariam as suas ações pois atua pior do aqueles que diz estar a combater.

No dia 8 de maio Vladimir Putin, por ocasião do 77º aniversário da “Vitória na Grande Guerra Patriótica”, enviou mensagens de congratulações para vários países onde declarava, repetindo qual cassete gravada, que "Hoje, o dever comum é evitar o renascimento do nazismo, que trouxe tanto sofrimento para as pessoas de diferentes países. É preciso preservar e passar aos descendentes a verdade sobre os acontecimentos dos anos de guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade fraterna".

Que valores são estes a que se refere vindos de quem agride, ameaça, causa sofrimento com falsas justificações através de uma retórica mentirosa como a de “impedir o renascimento do nazismo” quando os seus atos, práticas e discursos contradizem o que ele diz querer evitar?

A utilização de forma genérica, mas específica, das palavras nazismo e desnazificação aplicados ao caso da Ucrânia não surgem por acaso. Foram escolhidas porque ele sabe que a nível mundial, estas palavras estão ainda bem presentes nas memórias coletivas dos povos e têm uma carga muito negativa. Daí a insistência no apelo demagógico contra o renascimento do nazismo passando a mensagem de que ele é o libertador das nações oprimidas pelo nazismo.

Falar de desnazificação e acusar a NATO de ser a responsável pela agressão à Ucrânia é, pelo menos, risível. São estratégias de desvirtuar informação apontando a outros, erros, falhas, atitudes e intenções que não servem senão para ocultar as do agente emitente. Como em qualquer totalitarismo, na Rússia de Putin a desinformação, a mentira, a mentira por omissão e a deturpação de factos são a regras aplicadas ao povo.

Porém, podemos questionar em que diferem as atuações de Putin daqueles que ele diz querer libertar os povos.  Nazismo é um tipo de fascismo totalitário com forte natureza nacionalista, agravado por radicalismos racistas, étnicos e xenófobos. A Rússia do presidente Vladimir Putin é uma autocracia com uma forte componente totalitária que se estende à regulação de todos os aspetos da vida pública e privada da Rússia, conforme informações que vão chegando ao nosso conhecimento. A Rússia é governada, na prática, pelo poder de uma única pessoa política e de fação personalizado em Vladimir Putin cuja autoridade não tem limites. A Duma (câmara baixa da Assembleia Federal da Rússia), não passa de um conjunto de deputados que são uma espécie de “Yes men”, até mesmo o Partido Comunista da Federação Russa, de que irei escrever mais adiante.

Como nos regimes totalitários e no nazismo Vladimir Putin tem implementado no seu país, repressão, perseguição a opositores, censura obstinada que proíbe publicação de informação que lhe seja desfavorável tornando-a inacessível às populações, etc.. Por outro lado, Putin tem apoiado financeiramente partidos xenófobos e racistas da extrema-direita na Europa. O que é isto afinal?

Lamentável é também haver em alguns países do ocidente partidos e pessoas que, dizendo-se democratas, apoiam ditaduras e um ditador que invade um país soberano. Neste alinhamento também se encontram os que dizem estar a favor do povo e da cultura russa, o que é indubitavelmente aceitável, mas são também esses os que defendem, tipo "copy paste", o pensamento presente nos argumentos discursivos de Vladimir Putin.

Tudo isto conduz-me, mais uma vez, aos argumentos do PCP em relação à invasão da Ucrânia. Em primeiro lugar, é preciso também que se entenda o pensamento do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa que “aplaude” a decisão de Putin sobre a “intervenção militar” na Ucrânia, basta ler os discursos de Gennady Zyuganov, líder daquele partido.

Recuemos então seis anos, 2016, e recordemos o que o líder do PCP disse no discurso de abertura do XX Congresso do PCP, em Almada, acerca da União Europeia e do Euro a quem não poupou críticas por serem, segundo ele, a “fonte dos maiores males dos portugueses”. Dizia então Jerónimo de Sousa, referindo-se a um discurso feiro no Parlamento Europeu sobre o Estado da União Europeia que, segundo ele, não se tratava de "maquilhar, refundar ou democratizar" a União Europeia (UE). Nem "mudar alguma coisa para ficar tudo na mesma". Disse que os comunistas não estão aqui para isso. Querem mesmo mudar o mundo e, quanto à UE, "articular ruturas que permitam construir uma outra Europa". Isso mesmo, mudar o mundo para que lado? O que pretenderia ele dizer na altura com a construção de uma nova Europa? Seria uma espécie de premonição do que se iria passar?

Mesmo com uma pequena margem de erro é o que, atualmente, o presidente Vladimir Putin e o seu partido Rússia Unida acolitado pelo Partido Comunista da Federação Russa, têm afirmado. Cada um que tire as ilações que entender.

Recentemente as palavras de Jerónimo de Sousa também não levantam dúvidas sobre o seu alinhamento com o seu congénere da Rússia, o PCFR,  e com Putin ao considerar que não houve uma invasão nem que há uma guerra na Ucrânia causada pela Rússia, mas sim “uma operação militar” embora acrescente que o PCP “condena”.

A subtileza passa a  evidência quando se refere a “operação militar” em vez de guerra (de facto, não houve formalmente uma declaração de guerra),  mas enfileira com a retórica de Putin apesar de, como disse, ser capitalista, única verdade.

Jerónimo de Sousa, no entanto, admite, contradizendo-se, que “Há uma guerra, isso é incontornável”, e esclarece que “é claro para o PCP que estamos perante uma Rússia capitalista” da qual “o PCP claramente se demarca”, “não tendo nada a ver” com Putin. Jerónimo de Sousa é muito hábil só que, por acaso, não deve ter lido os discursos de Putin e do secretário-geral do PCFR, ou, se os leu, fez-se de esquecido.

Rússia-PCFR.png

Vamos lá ver então se eu entendo: “não houve uma invasão”; “houve uma operação militar”; “há uma guerra e isso é incontornável”.

Analisemos então qual a aproximação das narrativas do PCP com a intervenção do líder do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, em 3 de abril de 2022 numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscou sob o tema “Temos que resistir e vencer.”, onde o líder do Partido Comunista da Federação Russa recordou a solidariedade das forças patrióticas de esquerda do mundo. A ortodoxia no seu melhor.

Gennady Zyuganov tem a certeza de que o objetivo “é derrotar o nazismo e o fascismo, caso contrário, se espalhará por toda a Europa "e muitos jovens terão que usar sobretudos". Nazismos e fascismo são palavras coincidentes nos discursos de Putin e de Zyuganov. O chefe da fação comunista afirmou ainda na Duma do Estado da Federação Russa que "Se todos nós – a Duma, o Conselho da Federação e o Conselho de Segurança – apoiamos a operação especial, devemos explicar às pessoas o que estamos a perseguir, por que é que apoiamos ativamente os que defendem fielmente o mundo russo, a nossa língua, dignidade e Donbass, e a nossa amizade com a Ucrânia."

Rússia-PCFR-2.png

Em 19 de abril já tinha afirmado algo sobre a “mentalização” pró militarista agressiva dos jovens russos ao dizer que "acreditava que nas escolas e nas universidades haveria muito trabalho para explicar a situação em que todos nós nos encontramos. Mas não vejo e não sinto isso nem nas atividades de ministros, professores, diretores de escolas ou figuras culturais", disse Gennady Zyuganov.

Zyuganov chega a lembrar as palavras do presidente Putin numa reunião com jornalistas estrangeiros em outubro de 2021 onde disse, (no contexto dos problemas socioeconómicos da humanidade que pioraram e que houve turbulências em escala global) que "O modelo existente de capitalismo na grande maioria dos países esgotou-se". Zyuganov acrescenta ainda que "Olhando para Biden, esta múmia ambulante, que ameaça todos, torna-se assustadora para a América". O líder do PCFR disse ter tirado uma conclusão ao observar que a Alemanha começou novamente a apoiar o nazismo, e a França está totalmente dançando ao som americano. O segredo foi revelado, é o ódio aos EUA. É assim que as coisas começam, agressões imaginárias, ódios, seja ao que for, como etnias, raças, nações, países que servem como bodes expiatórios para justificarem agressões e perseguições. É assim o nazismo!

Zyuganov afirmou ainda que “vamos ter de lidar com todos os desafios, porque, na sua maioria, os cidadãos do espaço pós-soviético já entenderam quem é o organizador da nova agressão. E toda a conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa. "Estamos presentes no final do conto de fadas sobre o mercado, sobre o livre comércio, sobre a liberdade de expressão", continuou o líder comunista (os sublinhados são meus). Sobre política externa da Rússia Zyuganov observou ainda a importância da interação da Rússia com a China, Índia, Vietname, Irão, Paquistão e Turquia.

Terminou prometendo que “Faremos de tudo para trazer paz à Ucrânia fraternal. Faremos tudo para desenvolver a nossa união", e que "vem uma nova etapa no processo de integração. E tenho certeza de que o Partido Comunista e as forças patrióticas de esquerda estarão na vanguarda deste trabalho, preparando-se para o centenário da formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas", concluiu o líder do Partido Comunista da Federação Russa. A mensagem de agressividade deste senhor líder de um partido que fala em paz, amizade e fraternidade está patente no seu discurso no “Dia da Vitória na Grande Guerra Patriótica”.

A razão por que inclui estas passagens do discurso de Zyuganov é por que, nas entre linhas, encontram-se pontos de vista aproximados aos de Putin que o PCP parece perfilhar fazendo-o através de narrativas travestidas que não evidenciam substância e cuja conversa é apenas o que está na superfície para convencerem e apelar a potenciais adeptos.

Mais recentemente numa intervenção num comício no dia 1º de Maio de 2022 o líder do PCFR, Gennady Zyuganov, afirmou que “agora na Ucrânia, a Rússia está a lutar principalmente por um mundo multipolar. “Estamos lutando pelo mundo russo, porque o mundo russo não está nos planos deles”.

A propaganda de Putin tem conseguido ter eficácia junto dos seus agentes e adeptos no ocidente e tem como grande aliado o Partido Comunista de Federação Russa. Comparando tantas opiniões, até da esquerda, que se indignam contra a incapacidade de alguns em condenar uma agressão imperialista assinada por um regime autocrático, verifica-se de facto quem está a fazer uma “tentativa de impor, à escala do povo, um pensamento único”, na Rússia e também aqui em Portugal.

Há pessoas que parecem ser crédulas por vontade própria que se deixam contaminar por invenções demasiado extraordinárias para que sejam autênticas veiculadas pelos canais de propaganda de Putin, tais como a da necessidade de desnazificar a Ucrânia, os laboratórios onde se preparam armas químicas na proximidade da Rússia, o genocídio dos que falam russo. O que está a acontecer é que, na minha opinião, a invasão da Ucrânia, serviu para mascarar as fraquezas internas da Rússia por ele causadas. Quem nos pode garantir que os que escrevem contra o ocidente apoiando as retóricas de Putin é que estão na posse da verdade e que todas as outras são mentiras?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:23

Ucrânia e PCP.png

Antes de começar compete-me esclarecer que não sou anticomunista, embora com divergências ideológicas, e que tenho respeito por um partido que sempre lutou contra o fascismo e que, em Portugal, faz parte da democracia. Contudo, isto não me impede de discordar de muitos dos pontos de vista do PCP, quer quanto à política interna quer quanto às suas opções em política externa. O PCP apesar de várias críticas que lhe possam fazer, algumas com razão, é um partido necessário à democracia por ser um agregador de vontades e ideias de muitos trabalhadores e reformados e que é o oposto dos movimentos inorgânicos, formados com interesses pouco claros, que têm surgido à revelia das instituições e organizações sindicais que fazem parte de uma democracia.

Assim, feito o esclarecimento, farei as críticas que bem entender segundo o meu ponto de vista, mesmo que sujeito a insultos vindos dos que dizem não seguir o “pensamento único”, como critica o secretário-geral do PCP quanto aos “proclamados valores ocidentais”, que hostilizam e ‘queimam’ na praça pública quem se atreva a ir ao arrepio da cartilha ditada e imposta pelas autoridades do pensamento único”.

Fico, no entanto, com uma dúvida: quem afinal quer impor um pensamento único ao pretender esconder as evidências de uma invasão a que chamam eufemisticamente “intervenção militar especial” para não mencionarem a palavra guerra ou invasão?

É que, de acordo com especialistas de direito internacional, que eu não sou, uma intervenção militar refere-se à utilização das forças militares para controlo de alguma situação que seria de responsabilidade de outra autoridade ou força e que deve obrigatoriamente ser temporária e com uma área de atuação bem definida. Guerra é quando um país que tem a sua soberania (povo, governo e território) é atacado.

Penso que fica claro qual a posição veiculada pelo PCP pelas palavras da deputada Paula Santos líder do grupo parlamentar. Contudo, as notícias dos acontecimentos em que estão em causa a identificação refugiados ucranianos pela Câmara de Setúbal por uma associação russa levou-me a associações do PCP com o seu congénere representado na Duma, o Parlamento da Rússia.

As declarações do PCP sobre a invasão indignaram pessoas e todos os partidos com assento no Parlamento. Pontos de vista ambíguos, disfarçados de pedidos de paz e contra a guerra de forma genérica e plenas de vazio nos vários contextos do discurso dos comunistas. Acusam o invadido e quem o apoia de incentivarem à guerra e o invasor de ser um capitalista, mas que, apesar disso, é discretamente travestido de herói libertador (palavras são minha) da Ucrânia nazi, fascista, xenófoba apoiada pelo imperialismo do ocidente. Estas afirmações podem ser revistas em qualquer dos principais órgãos de comunicação. “O PCP não vai participar na sessão solene na Assembleia da República com a presença do Presidente da Ucrânia, na quinta-feira, por videoconferência, por considerar que Volodimyr Zelensky "personifica um poder xenófobo e belicista".

A ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia teve outro desenvolvimento que não o dado por Paula Santos. Quem assistiu às declarações dos partidos após a cerimónia, a líder parlamentar do PCP ao falar sobre o discurso do Presidente ucraniano Volodimir Zelensky, ao justificar a posição do seu partido de não ter marcado presença no Parlamento foi em primeiro lugar a de terem classificado como insultuosa a comparação feita por Zelensky entre a luta ucraniana e o 25 de Abril e a segundo lugar supostamente decorrente da primeira era justificada pela ilegalização do Partido Comunista ucraniano e com a suspensão de outros partidos políticos.

"O PCP não participará numa sessão da Assembleia da República concebida para dar palco à instigação da escalada da guerra, contrária à construção do caminho para a paz, com a participação de alguém como Volodimir Zelensky, que personifica um poder xenófobo e belicista, rodeado e sustentado por forças de cariz fascista e neonazi, incluindo de caráter paramilitar, de que o chamado Batalhão Azov é exemplo", sustentou a líder parlamentar comunista, Paula Santos, em conferência de imprensa, no parlamento.

Esclareçamos então a veracidade dos factos daquelas afirmações e sem tentativas de alterações e reescritas da história. Segundo refere o jornal Público de 22 de abril à data dos factos referidos, Volodimir Zelensky ainda não tinha iniciado a sua carreira política e, por isso, não teve qualquer influência direta na ilegalização, nem de qualquer força política que integrou nestes últimos três anos. Volodimir Zelensky só foi eleito chefe de Estado em abril de 2019, com o partido político “O Servo do Povo”.

Zelensky não esteve diretamente envolvido neste processo e foi responsável pela suspensão de atividade política de 11 outros partidos em março, após a introdução da lei marcial no país. Zelensky justificou esta decisão alegando que estas forças tinham ligações diretas com a Rússia e Vladimir Putin. Portanto, a deturpação de factos pelo PCP é evidente. Então, a ser como dizem, todos os países que apoiam a Ucrânia seriam considerados como xenófobos, fascistas, neonazis, e outros malévolos epítetos.

Em março Jerónimo de Sousa disse que "A opção de classe do PCP é oposta à das forças políticas que governam a Rússia capitalista e dos seus grupos económicos.”. Mas, também disse que “o PCP opõe-se à estratégia de escalada armamentista e da dominação imperialista que os Estados Unidos há muito puseram em marcha". Quer dizer, os Estados Unidos são imperialistas, coisa que, para o PCP, a Rússia (leia-se Putin) não o é. Por consequência, para o PCP, terá sido o ocidente unido que desempenhou o papel de grande causador que pôs em marcha a invasão da Ucrânia.

Putin é anti União Europeia e um dos seus intentos será o de acabar com ela o que não é novidade porque o ex Presidente dos EUA Donald Trump estava alinhado pelo mesmo projeto.

Em março 2018 escreveu João Marques Almeida no jornal ECO: “O regime russo tem uma ambição política: destruir a União Europeia” e apresentava dois argumentos para relativizar os que negam mesmo a existência de uma ameaça russa.

Neste mesmo artigo Marques Almeida escreveu ainda em 2018 data em que Trump estava no mandato que “Putin mantém a velha estratégia soviética de tentar dividir a Europa dos Estados Unidos. A natureza ideológica da União Soviética e o anti-comunismo estrutural do sistema político norte americano impediram os objectivos soviéticos. Mas hoje, na Casa Branca, encontra-se um Presidente demasiado ambíguo em relação a Moscovo. Ninguém conhece bem a natureza da relação entre Trump e Putin, ou sobre os negócios que terão feito no passado, mas os sinais são preocupantes. Com Trump, há o risco de os Estados Unidos deixarem de liderar a Aliança Atlântica contra a Rússia”.

Cada um que tire as ilações que entender.

 

Nota: As citações estão conforme o Acordo Ortográfico utilizado pela fonte.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:05

Opinião

Uma coisa é Putin, outra a Rússia

O agressor não é o povo russo, é Putin e a sua corte militar e civil, mas o agredido é o povo ucraniano, seja quem for quem o governe.

Foto A Vladimirka, de Levitan, a estrada para o exílio na Sibéria DR

Eu tenho as melhores memórias da Rússia, melhor, eu devo muito à Rússia, e por isso me repugna confundir Putin com “os russos”, como agora se faz. Mais do que essas memórias, tenho uma grande admiração pelos russos e, quanto à cultura russa, ela “fez-me”, tanto como tudo o resto.

Conheci a Rússia ainda era URSS e depois logo a seguir, nos anos conturbados de transição, e no retorno a essa maldição russa, a autocracia, a ditadura. Lembro-me de um russo, membro da Duma, provavelmente do Partido Comunista, feliz por encontrar estrangeiros, convidar-me a ir a sua casa, muito modesta, num daqueles blocos de apartamentos dos subúrbios de Moscovo, iguais aos que os mísseis russos estão a destruir em Kiev. Abria os armários onde tinha a sua reserva de comidas “especiais”, aquelas que era difícil arranjar, por exemplo, uma espécie de fiambre, e oferecia-as ao “estrangeiro” por pura generosidade, porque nada tinha a ganhar com o que estava a fazer. Falámos do Hadji Murat, de Tolstoi, que ele tinha tido de estudar na escola, uma história do “império” que muito provavelmente tínhamos “lido” de forma muito diferente.

Foto Edifícios bombardeados em Kiev ROMAN PILIPEY/EPA

Saí pela porta daqueles prédios sinistros e hoje nem me lembro do nome do homem e da família que o acompanhava, mas sei o que significou a palavra hospitalidade. Havia uma proximidade muito parecida com a nossa, sem cerimónias nem protocolos, apenas companhia e conversa, entre dois mundos que estavam bastante longe na geografia e mesmo na história. O meu, por muito mau que fosse, com 48 anos de ditadura, o dele com a tragédia dos milhões de mortos às costas, alguns da sua família. Tragédia não é uma palavra leve, mas não se conhece nada da Rússia sem a perceber. E, no entanto, eu sabia que ele era da burocracia do poder soviético em extinção, e ele que eu era do “inimigo”. Mas, como já disse várias vezes, aquele foi um período excepcional em que as coisas podiam ter evoluído de forma diferente. Ou talvez não.

A Federação Russa de Putin estava a caminho, melhor, já lá estava. Conheci oligarcas, burocratas, militares, membros do PCUS, e não era difícil perceber que, à medida que se subia na escala do poder e do dinheiro, aumentava a brutalidade, na proporção directa do sofrimento histórico do povo russo em nome do qual exerciam o poder, e com essa indiferença pela violência quando os seus interesses estavam ameaçados. Indiferença que começava nos “seus”, em nome dos quais falavam.

Mas, na conversa anódina com o meu anfitrião russo, o território comum era o muito que aprendi sobre a Rússia e que veio dos livros, essa forma de saber cada vez mais desprezada pela ignorância atrevida das redes sociais e do mundo obsessivamente presencial dos dias de hoje. Foram estas memórias e a Rússia de Pushkin, Turgueniev, Tchekov, Tolstoi, Tsvetaeva, Akhmatova, Pasternak e Soljenitsin que me ajudaram a nunca me ter enganado sobre Putin. Em 2014, escrevi a propósito da sublevação da Praça Maidan que “a questão da Ucrânia chegou aqui, porque os europeus e os americanos foram irresponsáveis e atiçaram um conflito para que não tinham saída viável, e porque Putin é perigoso e não é de agora”.

Também não me enganei sobre Putin, nem sobre a elite dirigente da Ucrânia, sobre a qual convém não ter muitas ilusões, em particular não retratando esta guerra como uma guerra entre a democracia e a ditadura, mas sim como outra coisa: uma guerra entre um agressor e um agredido. O agressor não é o povo russo, é Putin e a sua corte militar e civil, mas o agredido é o povo ucraniano, seja quem for quem o governe. Esta diferença é aquela que, não sendo feita, faz com que quem a omite fique do lado do agressor. E nesta guerra ficar do lado do agressor é espezinhar a liberdade, a soberania, o direito, a humanidade e as pessoas. Não as pessoas “especiais”, mas as pessoas comuns.

Admito que a maioria dos russos apoie esta guerra e não é apenas porque a censura de Putin evita o conhecimento do que se passa e a dura repressão impede qualquer liberdade para o protesto. Proibir e prender, agredir e matar é uma coisa que quem tem o poder na Rússia sabe muito bem fazer desde sempre, da Okrana à Cheka, ao KGB e ao SVR, dos czares, passando por Estaline, até Putin. Mas o que também faz parte dessa tragédia russa é que alguma da sua cultura esteja exactamente nos antípodas dessa violência, e que descreva melhor do que ninguém a combinação da obediência e da rebeldia, que a história com h pequeno fez ao povo russo, aos “humildes”. Nestes dias é do conto de Tolstoi Aliocha, o Pote que me lembro, descrevendo a sua morte após cair de um telhado:

Surpreso com alguma coisa, estendeu a mão e morreu.”

O autor é colunista do PÚBLICO

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:52

Ucrania-Putin Imperador.png

Fico estupefacto com os argumentos dos que se dizem não alinhados com o rebanho do pensamento único, isto é, os que não pensam como eles, que não estão de acordo com os postos de vista de Putin e que não se colocam, neste caso, contra o ocidente U.E., NATO e EUA. Os seus argumentos são uma tentativa de justificarem a “boa ação” que é a invasão da Ucrânia.

São estes os que, há mais de 60 dias, surgiram nas redes sociais, em blogues, artigos de opinião na imprensa, em comentários televisivos nas horas nobres de noticiários, a atacar o ocidente para justificarem a invasão bélica de um país soberano por um ditador megalómano e provocador.

Por entre aqueles há de tudo: civis, jornalistas, professores, especialistas em política internacional, estrategos, há de tudo. Nestes também se incluem outros que são, ou já foram, generais, majores generais, coronéis no ativo, na reserva ou na reforma que peroram desde política internacional à estratégia e táticas de guerra.

As narrativas de todos eles situam-se, não no facto enquanto tal, a invasão de um país por outro que ultrapassou os limites da decência ao deitar para o lixo tudo o que são compromissos ou acordos de convivência pacifica que é suposto existirem entre países civilizados e cooperantes. Não devemos esquecer-nos que quem tenta imputar ou criticar o ocidente pelas causas da invasão da Ucrânia são os descrentes nos direitos humanos, na democracia, no direito internacional, na tolerância pela diferença, na solidariedade, no próprio direito de autodeterminação dos povos.

Em vez de se centrarem sobre a invasão, utilizam subterfúgios para esconderem uma, pelos menos aparente, simpatia pelo invasor, enquanto ao mesmo tempo se preocupam em negá-la afirmando que até são pela paz, opõem-se ao militarismo, ao armamento e pedem negociações para paz. Tudo isto em abstrato. Limitam-se a estar contra a tudo quanto venha do ocidente, U.E. e EUA. Consciente ou inconscientemente colocam-se do lado do invasor e contra os que o defendam ou ajudam o invadido. Nada contra o invasor.

Alguns sugerem apelos ao bom senso para que o invadido se renda vindo de militares, ex-militares de tendências russófilas (leia-se putinófilas). São titulados como comentadores com que alguns canais de televisão nos presenteiam.

O invadido, como para Putin e para os que o apoiam, é mostrado como a ultradireita, os nazis, os mercenários que cometem genocídio, etc. Como justificação recordam e apresentam-nos passados trágicos, quiçá também cruéis, para justificarem no presente barbaridades e crueldades dos invasores. Colocar o problema ao inverso que é o de ser o invadido que provoca genocídios. Fracos argumentos os desta gente que os mesmos paranoicos que chamam a quem está em desacordo com eles de pertencerem à manada e que clara e razoavelmente estão consonantes com o pensamento do ocidente.

Os “putinófilos” mostram a sua incapacidade de condenar uma invasão vinda de um regime autocrático que, quer se queira, ou quer não, é, na verdadeira acessão da palavra imperialista. Imperialistas não são apenas os EUA, o próprio autocrata russo já se referiu ao Imperio Russo, sendo mencionado por alguns como um nacionalista que poderá levá-lo até onde lhe permitirem a reconstituição das fronteiras desse império. Todavia, Vladimir Putin nega estas especulações sobre as tentativas de restaurar o Império Russo. Mas sabemos como ele também negou, dias antes, a invasão da Ucrânia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:02

Mentiras do PCP

por Manuel_AR, em 22.04.22

In Polígrafo em 22 de abril de 2022

Polígrafo.png

A ausência do PCP na sessão no Parlamento destinada a apoiar Volodymyr Zelensky - convidando-o a discursar – foi explicada pela líder parlamentar do PCP, Paula Santos, na quarta-feira, com este argumento: “Volodymyr Zelensky personifica um poder xenófobo e belicista, rodeado e sustentado por forças de cariz fascista e neonazi, incluindo de carácter para-militar, de que o chamado Batalhão Azov é exemplo."

O Polígrafo olhou para os argumentos do PCP e verificou um a um.

1.

O que está em causa: Desde que Zelensky é presidente, foi iniciado algum conflito militar, interno ou externo, pela Ucrânia enquanto Estado (com exceção da defesa à agressão russa, desde 24 de fevereiro deste ano)?

A análise: Volodymyr Zelensky foi eleito a 21 de abril de 2019. Todos os conflitos armados – civis e militares - anteriores a 2022 que tiveram ou têm a Ucrânia como palco iniciaram-se na primeira metade da década: Euromaidan (2013/2014); Donbass (2014). Também a crise na Crimeia – com a perda do território, mas sem confronto militar, apesar do posicionamento de tropas russas – é dessa época (2014).

No discurso de posse, a 20 de maio, Zelensky afirmou que o cessar fogo no Donbass era uma prioridade.

Avaliação do Polígrafo: Falso

__________________________

2.

O que está em causa: No mandado de Zelensky, desde 2019, houve alguma medida segregadora em relação à presença ou direito à cidadania de algum povo ou etnia ou a proibição do uso da língua russa?

A análise: Não houve nenhuma lei aprovada nem a evidência de prática reiterada discriminatória relativamente a algum povo ou etnia. 

No que concerne o idioma russo, a 25 de abril de 2019, quatro dias depois da eleição de Zelensky (mas ainda sem este ter tomado posse), o parlamento ucraniano (órgão de soberania autónomo) aprovou uma lei que obrigavao uso do idioma ucraniano na administração pública e ao seu reforço nos órgãos de comunicação social.

A iniciativa legislativa foi elogiada pelo então ainda presidente ucraniano, Poroshenko, que acabara de perder as eleições presidenciais. Zelensky dissolveu o Parlamento logo no discurso da sua investidura, menos de um mês depois da aprovação desta lei.

Recorde-se que na Ucrânia, os idiomas ucraniano e russo eram ambos de uso generalizado. Zelensky, por exemplo, falava primacialmente russo.

Avaliação do Polígrafo: Falso

__________________________

3.

O que está em causa: O Batalhão Azov foi criado ou institucionalizado durante o mandato de Zelensky?

A análise: Este batalhão tem, de facto, a sua matriz em movimentos neonazis e supremacistas brancos, desde logo indiciada pelo símbolo que adotou.

Contudo, foi criado em 2014 – para combater as forças pró-russas no conflito no Donbass – e integrado na Guarda Nacional Ucraniana no final de 2014, mais de quatro anos e meio antes de Zelensky chegar à política e ao topo da hierarquia de Estado.

São imputadas a este grupo várias atrocidades nessa guerra civil que decorre na parte leste do país. Atualmente, é uma das forças militares que constitui o bloco militar ucraniano que combate as tropas russas, tentando travar o avanço dos invasores no território da Ucrânia, embora minoritária no relativamente ao contingente global de soldados e milicianos.

Avaliação do Polígrafo: Falso

 

Não se confirmam, assim, as imputações de um poder “xenófobo e belicista, rodeado e sustentado por forças de cariz fascista e neonazi” que o PCP faz ao atual presidente eleito da Ucrânia.

Zelensky herdou o conflito militar no Donbass (existente desde 2014), bem como, nesse contexto, a participação do lado ucraniano (contra os separatistas pró-russos) de um grupo que, de facto, é formado por vários elementos de extrema-direita e até nazis (Batalhão Azov), mas que é minoritário no quadro da Guarda Nacional Ucraniana. Politicamente, Zelensky não beneficiou do apoio da extrema-direita na sua eleição, em 2019.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:29


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.