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Covid, vacinas, estão diariamente na comunicação social. Outras notícias para além das relacionadas com a covid parecem ser acessórias para os cidadãos que estão confinados, centrados nas suas preocupações que a pandemia trouxe às suas vidas e que ainda lhes vai trazer no futuro.

Movimentos pela verdade, negacionistas, ocupam as redes sociais em catadupa. Uma notícia que assomou nos últimos dias na comunicação social e nas redes foi a do juiz Rui Pedro Fonseca e Castro. Este juiz esteve também entre os organizadores do protesto negacionista do fim-de-semana do dia 20/03 e que foi suspenso do Conselho Superior da Magistratura (CSM) por “contestar o estado de emergência e de incentivar publicamente ao incumprimento das regras anticovid-19”e por ter “suspendido um julgamento de um caso urgente de violência doméstica porque o procurador e o funcionário judicial recusaram tirar as máscaras na sala de audiência”.

O CSM considerou que a conduta imputada ao juiz “é suficientemente indiciada, mostra-se prejudicial e incompatível com o prestígio e a dignidade da função judicial”, instaurando-lhe, por isso, um processo disciplinar.

Também em fevereiro de 2021 a anestesiologista Maria Margarida de Oliveira, cofundadora do movimento médicos pela verdade que que em entrevistas e nas redes sociais se manifestou contra o uso de máscaras e chegou a receitar estratégias para enganar os testes à covid-19 e dicas para manipular os resultados dos testes PCR, foram consideradas um risco para a saúde pública e, que por isso, foi suspensa por seis meses pela Ordem dos Médicos.

A negação do conhecimento e desenvolvimento científico em todas as áreas que possam ter implicações na sociedade tem como missão o embrutecimento lento, mas progressivo por meio da negação da ciência de modo a tornar-se uma mais-valia para os que pretendem a implementação de autoritarismos mais ou menos violentos, ou seja, políticas e práticas fascistas. O deficiente sistema educativo ou a sua falta em algumas áreas conduz à ignorância. É uma das estratégias dos fascistas que têm como objetivos negar realidades e a levar as pessoas a acreditarem em teorias estapafúrdias.

As narrativas negacionistas e os movimentos pela verdade (ou pela mentira, digo eu), é mais uma questão semântica, usam novas formas circulação da informação para influenciar a formação de crenças em alguns setores das populações. Apresentam-se contra o sistema e apoiam-se muitas vezes nos valores mais conservadores da sociedade e, segundo alguns especialistas, estão diretamente relacionadas ao crescimento da extrema-direita em vários países.

Esta tese também é defendida por Pacheco Pereira no jornal Público de hoje quando escreve sobre a “verdade” “nome absurdo mas revelador da pretensão destes movimentos de que são detentores de algum conhecimento especial que está a ser escondido pelo poder político e pelos cientistas, que estão a usar a pandemia como pretexto para terem mais poder e para limitar as liberdades. Estão a tentar criar uma “ditadura” em nome de interesses ocultos para o vulgo, mas bem conhecidos dos “verdadeiros”, seja a conspiração judeo-maçónica, o grupo de Bilderberg, os demónios vivos de George Soros e de Bill Gates, os que estão a encher os ares de sinais 5G, ou alienígenas maléficos. Como diz um cartaz empunhado por um senhor “verdadeiro”: “Os mafiosos da farsa covid grupo Bilderberg com a loucura da nova ordem mundial seguidos pelos lacaios políticos mundiais da maçonaria e do Opus Dei. Acordem.”

Estes grupelhos, que mais parecem seitas, negam a ciência e a história que não estejam de acordo com a sua vontade e a seu bel-prazer. Negam a eficácia das vacinas, negam as mudanças climáticas e outras evidências científicas como negam a gravidade da pandemia covid-19. O historiador francês Pierre Vidal chama aos negacionistas assassinos de memórias por aproximação aos que pretendem negar factos históricos ou ainda reescrever a história, como alguns grupos como a extrema-direita e os nazis  através de escritos destinados “a um público especializado: herdeiros ou sobreviventes dos nazis ou nacionalistas de extrema direita que, na década de 1930, eram aliados dos nazis. O "revisionismo" pode aí, de acordo com o público e de acordo com os autores, assumir a forma de uma negação radical: os nazistas não mataram nenhum judeu…”.

 Até aos dias de hoje as fake news, (notícias falsas) têm tido um papel relevante para a difusão de teorias negacionistas nomeadamente, através das redes sociais como o Facebook e o Twitter, com novas formas de circulação da informação que passaram a influenciar a formação de crenças nas pessoas. As redes sociais dão a ilusão da existência duma parcial democratização pelo acesso, por parte da população, à informação e pela produção de conteúdos por meio da internet e das redes sociais, como é o exemplo deste post que acabo de colocar na rede. Há, contudo, uma falta de regulamentação que faz com que uma pessoa possa defender qualquer ideia estapafúrdia e disseminar fake news, que ganha considerável repercussão por se apoiar exatamente na reprodução de valores conservadores, ou não.

O livro “Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming” 2010, “Mercadores da Dúvida” de Naomi Oreskes e Erik Conway, que podem ver aqui no site do livro, revela as táticas de poucos e reputados cientistas que, com apoio de empresários, lóbis e políticos, para semear dúvidas e desprezar ou evitar medidas regulamentares que teriam, segundo eles na qualidade de vida. Arquitetaram um “mercado da dúvida”, fundamentalista com o objetivo de evitar qualquer regulação governamental sobre assuntos de interesses políticos e económicos obscuros. O livro mostra e auxilia a entender as campanhas difamatórias contra a ciência e os cientistas.

Os autores mostram as estratégias promovidas por parte da indústria, dos media e de alguns cientistas para negar, mitigar ou dissolver o consenso científico em torno de resultados danosos à indústria devido à relação de causalidade entre o tabaco e o cancro do pulmão ou a contribuição das indústrias de combustíveis fósseis para as mudanças climáticas.

Os chamados mercadores da dúvida são cientistas que utilizam as suas credenciais científicas para desvanecerem as diferenças entre as controvérsias científicas e as disputas de opinião na comunicação social. O primeiro capítulo daquele trabalho mostra o caso da indústria do tabaco que foi a inventora e a mais hábil praticante da estratégia de promover a dúvida quanto aos resultados da ciência. Segundo os autores nos anos 1950 estudos científicos tornaram evidente a ligação entre o fumo e o cancro. Em 1953, a American Tobacco, Benson & Hedges, Philip Morris e U.S. Tobacco contrataram uma firma de relações públicas para defender seu produto e montaram uma comissão para fornecer argumentos que desafiassem a crescente evidência científica de que fumar prejudicava a saúde. 

Estes cientistas mal-intencionados ganharam espaço na comunicação social, disseminando dúvidas e inventando debates sobre temas cientificamente consolidados. Programas de financiamento de pesquisa de empresas com somas inimagináveis, até mesmo nos dias atuais, também foram usados para estimular pesquisas que corroborassem dúvidas, incertezas e o ceticismo, promovendo uma luta velada da ciência contra a ciência. Mais recentemente temos as condutas de Trump e de Bolsonaro que têm sido amplamente divulgadas sobre temas idênticos.

Não há provas, por enquanto, de que em Portugal os negacionistas sejam financiados como o são noutros países onde há a certeza de que altos financiamentos marcam o desenvolvimento dos negacionismos.  É o caso de David Koch que, segundo The Guardian, em agosto de 2019, «foi um dos principais financiadores dos negacionistas da mudança climática, apoiando cientistas para saquear ainda mais a Terra que estava a destruir. A revelação num livro de Christopher Leonard mostra que Koch desempenhou um grande papel no financiamento da negação da mudança climática. À medida que avançamos para uma catástrofe climática que parece cada vez mais provável de acontecer nos próximos 11 anos.»  

No que se refere à covid-19, seguindo o caminho comum a outros negacionismos, os negacionistas da pandemia passaram a desqualificar e a agredir os cientistas e o discurso científico, sem terem argumentos válidos e de facto sobre as dúvidas que levantam, apresentado uma narrativa que se encaixa em valores compartilhados por determinados grupos, na sua maioria apadrinhados por algumas áreas da extrema-direita.

Num artigo de opinião no jornal Público de Maria João Marques escreveu que “As máscaras – que comprovadamente contrariam o contágio de vírus respiratórios, como se viu com a inexistência de gripe neste inverno que passou – não funcionam e são elementos de destruição populacional em massa”. Ora esta afirmação pode ser comprovada por dados publicados pela Gripnet / Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, como mostra o gráfico da época de vigilância da síndrome gripal de 2020/21 da semana 49 de 2020 à semana 20 de 2021.  Podemos verificar a coincidência do uso de máscara com a diminuição da síndrome gripal desta época, o que contraria a tese dos negacionistas e os de “qualquer coisa” pela verdade.

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Negacionistas e outros “qualquer coisa” pela verdade, dizendo-se pela verdade, são os próprios inimigos da verdade.  Promovidos pelas extremas-direitas, autocráticos, fascistas e, em menor número, algumas extremas-esquerdas, tentam por todos os meios desacreditar a democracia. Usam todos os meios que ela lhes possibilita para a destruir desenvolvendo processos de desestabilização, instabilidade, seja porque meios forem, que lhes permita novamente captar o poder e tomar conta das decisões políticas para relegarem todos os direitos das Constituições democráticas conquistadas pelos povos.

O ressurgir de novos líderes populistas será uma primeira fase para o culminar das ditaduras. Os líderes populistas por serem antissistema, contra a corrupção, defensores da segurança que está em risco por todos os que são diferentes consideram-se heróis modernos e os interpretes da nação, e por isso, promovem nas populações, por meio das suas narrativas, necessidades de uma autoridade vertical que ponha cobro seja lá ao que for.

Ao acreditarem nas suas próprias mentiras e propaganda projetam em outros as suas próprias ações, isto é, a disseminação de mentiras, sendo os governos os mestres da mentira. Os negacionistas de criar inimigos e defini-los como corporizações vivas de inverdade que os ajuda a assumi-los como únicos detentores da verdade.

Enfim são os mestres do embuste.

 

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publicado às 19:28

Desconfinamento acelerado

por Manuel_AR, em 29.05.20


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Um cartão amarelo ao desconfinamento acelerado



(Editorial de Manuel Carvalho in Jornal Público 29/05/2020)


Os surtos que hoje afligem Lisboa não bastam para que se ponha tudo em causa. Mas servem como uma espécie de cartão amarelo. Para nós e, principalmente, para o primeiro-ministro e o Presidente












Os surtos que hoje afligem Lisboa não bastam para que se ponha tudo em causa, do inevitável desconfinamento à competência e capacidade das autoridades sanitárias para os controlarem. Mas servem como uma espécie de cartão amarelo. Para nós e, principalmente, para o primeiro-ministro e o Presidente. Ainda é muito cedo e a situação é ainda demasiado incerta para que possam ir à praia, sugerindo aos cidadãos a existência de uma normalidade tão falsa como perigosa. Uma coisa é a necessidade imperiosa de reabrir a economia, que obriga milhões de portugueses a correrem riscos para ir trabalhar; outra coisa, completamente diferente, é sugerir que podem dispor gratuitamente dos seus tempos livres, como se o perigo tivesse passado. Não passou. A situação de Lisboa está aí para o provar.



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publicado às 15:46

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Esta semana foi publicado no jornal Público um artigo de João Ferrão que, embora de opinião, apresenta um cunho científico. Conheço o autor desde os meus tempos da faculdade quando frequentava o curso de Geografia Humana, variante de Planeamento Regional e Local.


João Ferrão, na altura assistente de Professor Jorge Gaspar, foi meu professor nas aulas práticas da cadeira de Geografia Humana do primeiro ano. Na altura era ele um jovem professor quando eu, na mesma altura mais entradote, frequentava as suas aulas com interesse e aplicação, apesar das minhas curtas permanências na faculdade a que me obrigava o meu trabalho como responsável pelo departamento de informática de uma empresa.


Para além de Jorge Gaspar, diretor do curso, João Ferrão foi um dos professores que mais me marcou positivamente pois foi um marco na minha vida universitária que me indicou e abriu pistas para o futuro no âmbito do interesse pela pesquiza geográfica. Doutorado pela Universidade de Lisboa em Geografia Humana e investigador do Instituto de Ciências Sociais com uma personalidade ímpar quer como pessoas quer como investigador levou-me a acompanhar por fora o seu percurso profissional e académico tendo algumas vezes assistido às suas intervenções públicas uma delas quando era Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades entre 2005 e 2009.


Dado o seu saber, não apenas no domínio da geografia humana e ordenamento do território, considerei o artigo publicado como uma peça com o interesse e a importância merecedor de divulgação e por isso incluo no meu blog de vulgares opiniões, uma peça que merece se lidas e analisada.


A geografia da covid-19: algumas precisões


(João Ferrão, in Público, 16/04/2020)


É, sem dúvida, importante divulgar informação regionalizada e apontar potenciais causas para os resultados diferenciados observados nas diversas regiões. Mas convém enquadrar estes resultados numa visão mais ampla, quer do ponto de vista conceptual, quer no que se refere ao conhecimento do território de Portugal continental.


Todos os dias, ao final da manhã, numa conferência de imprensa da responsabilidade do Ministério da Saúde, são apresentados e comentados os resultados apurados na meia-noite anterior sobre o avanço da covid-19 em Portugal. A informação disponibilizada inclui dados por áreas de intervenção das administrações regionais de saúde – Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve –, o que é positivo porque permite perceber que a incidência desta pandemia, como a de qualquer outra doença infecciosa, não é geograficamente homogénea. Quando jornalistas questionam a diretora-geral da Saúde sobre as razões dessas diferenças regionais, é respondido, e bem, que apenas estudos aprofundados poderão dar uma resposta segura à pergunta colocada. Mas ainda assim são enunciados três fatores explicativos principais: estrutura etária, densidade demográfica e total de lares de idosos existentes.


É, sem dúvida, importante divulgar informação regionalizada e apontar potenciais causas para os resultados diferenciados observados nas diversas regiões. Mas convém enquadrar estes resultados numa visão mais ampla, quer do ponto de vista conceptual, quer no que se refere ao conhecimento do território de Portugal continental.


A primeira distinção a fazer é entre exposição, suscetibilidade e vulnerabilidade. Sendo a origem do coronavírus externa ao país, o conceito de exposição define-se, numa primeira fase, em função do grau de abertura de cada território ao exterior. Por exemplo, as áreas metropolitanas, as regiões exportadoras, as regiões com dinâmicas transfronteiriças mais intensas ou as áreas que mantêm uma circulação regular de pessoas com comunidades emigrantes (neste caso, da Europa) estão mais expostas à possibilidade de importação de vírus. Mas as características de cada um desses tipos de territórios são diferenciadas sob muitos pontos de vista, das características sociodemográficas e habitacionais das populações que aí residem à dotação de serviços de saúde. Assim, podemos imaginar duas áreas com idêntico grau de exposição a focos externos da pandemia mas que, tendo suscetibilidades diferenciadas, revelam níveis de vulnerabilidade distintos.


No sentido oposto, e apesar de as pessoas com mais de 70 anos corresponderem a um grupo de risco reconhecido pela OMS e confirmado pelos resultados de países onde a pandemia se fez sentir mais cedo e também em Portugal, uma região com uma estrutura demográfica muito envelhecida (portanto, potencialmente muito suscetível), mas pouco exposta ao exterior (internacional e mesmo nacional), pode revelar-se pouco vulnerável. Em suma, a vulnerabilidade de cada região – neste caso, medida através da incidência de casos de infeção e da sua gravidade – são o resultado do jogo de duas componentes – exposição e suscetibilidade – que pode variar ao longo do ciclo epidemiológico, sobretudo à medida que a exposição externa vai sendo mais controlada (encerramento seletivo de fronteiras, cancelamento de voos, etc.).


Esta última observação permite realçar uma outra distinção: numa segunda fase da pandemia, a exposição passa a definir-se sobretudo em função de focos internos através de dois tipos de difusão, uma por contiguidade física e outra por interação funcional. A primeira ocorre a partir da expansão em mancha de óleo dos focos preexistentes em direção a áreas e concelhos vizinhos, baseada em movimentos pendulares casa-trabalho, cadeias de abastecimento, enfim, todo o leque de interações físicas que famílias, empresas e outras entidades com uma localização relativa próxima mantêm entre si. É o que sucede, por exemplo, nas áreas metropolitanas ou nas áreas de industrialização rural dispersa. A segunda, difusão por interação funcional, envolve as cidades de média dimensão (em geral, capitais de distrito). Estas aglomerações urbanas, pelo tipo de serviços especializados que possuem (universidades e politécnicos, hospitais regionais, equipamentos públicos de nível supramunicipal, etc.) e pelos grupos sociais que aí residem (com maior mobilidade), mantêm uma relação significativa quer com as áreas mais expostas internacionalmente (e que estiveram na primeira linha da importação de casos infetados), quer com concelhos das áreas rurais.


À luz deste enquadramento, é agora mais fácil reinterpretar quer as diferenças regionais, quer a pertinência dos três fatores explicativos acima invocados: estrutura etária, densidade demográfica e total de lares de idosos existentes.


Os dados disponíveis, apesar de todas as dúvidas que suscitam no que se refere à sua efetiva cobertura e fiabilidade, permitem identificar quatro questões relevantes.


Em primeiro lugar, não são as regiões ou concelhos com uma estrutura demográfica mais envelhecida que revelam um maior número de infetados, tanto em valor absoluto como relativo. Pelo contrário, a haver uma relação generalizada (o que merece sempre a maior prudência) ela aponta para que seja nas áreas com uma estrutura etária mais jovem que, muitas vezes, se verifica uma maior incidência da covid-19. Ou seja, o grupo etário com mais de 70 anos é efetivamente um grupo de risco, mas uma área com uma população muito envelhecida não é necessariamente uma área de risco.


Em segundo lugar, a densidade populacional, por si só, não se associa de forma relevante com o grau de incidência da covid-19. Áreas com densidades demográficas muito distintas podem ter taxas de incidência relativamente semelhantes e superiores à média. Simetricamente, áreas com densidades idênticas podem revelar uma presença muito diversificada de habitantes infetados. De facto, sob a designação genérica “densidade demográfica” escondem-se dois aspetos distintos: grau de urbanização e tipo de povoamento. Claro que nas cidades, grandes e médias, a densidade demográfica é maior e, por isso e sobretudo pelo seu modo de funcionamento enquanto espaços de estudo, trabalho, consumo e lazer, a interação pessoal, direta e indireta, é mais intensa. A difusão comunitária, quer por transmissão direta, quer através do uso de superfícies comuns, tende, pois, a ser mais elevada do que a média. Mas o tipo de povoamento também é relevante. Em áreas de povoamento difuso e de pequena propriedade, onde se misturam num mesmo território funções residenciais e atividades agrícolas e industriais, os contactos sociais são igualmente densos. Pelo contrário, em áreas com povoamento concentrado, caracterizado por povoações relativamente isoladas e maioritariamente habitadas por idosos com fraca mobilidade, o potencial de difusão comunitária é muito menor. Ou seja, a densidade demográfica apenas possui poder explicativo nos casos extremos (cidades ou territórios com um elevado grau de despovoamento), pelo que, por si só, esconde mais do que esclarece.


Em terceiro lugar, a questão dos lares de idosos. A um nível micro, e correspondendo estes equipamentos a uma concentração de idosos, eles são, naturalmente, locais de risco. Mas os casos mais graves podem ocorrer em contextos territoriais muito distintos, e resultam de uma conjugação de fatores internos e externos a cada um dos lares. Parece difícil aceitar a hipótese – mas apenas estudos aprofundados o poderão confirmar ou infirmar – de que existe uma relação entre o total de lares de idosos e o grau de incidência de infetados e mortos ao nível regional.


Dizer que a região Norte tem valores mais elevados porque “por acaso” alguém veio infetado de uma feira no Piemonte, a região italiana com maior incidência da covid-19, é não entender que estes vários Nortes conciliam, ainda que em graus diferenciados, uma forte exposição externa e uma suscetibilidade local elevada


Finalmente, os mapas por concelho disponibilizados diariamente pela DGS, independentemente das limitações que poderão ter como atrás se salientou, aconselham alguma prudência quando se comparam dados de diferentes regiões. Sobretudo nas que têm uma configuração transversal ao país – as regiões Norte e Centro –, as diferenciações internas são tão significativas que dificilmente tem sentido falar das regiões como um todo. Deste ponto de vista, a região Norte é particularmente interessante, já que os resultados globalmente elevados apenas são compreensíveis se considerarmos que existem vários Nortes particularmente expostos e suscetíveis: a área metropolitana, com as suas franjas suburbanas mais pobres; as áreas de industrialização difusa, sobretudo do Vale do Ave; as cidades médias (Viana do Castelo, Braga, Guimarães, Vila Real, Bragança); os concelhos junto à Galiza, o troço da fronteira luso-espanhola com uma dinâmica transfronteiriça mais intensa; e Trás-os-Montes, com uma forte relação com comunidades emigrantes de vários países europeus (desde o regresso de portugueses despedidos recentemente ao vaivém de trabalhadores da construção civil). Dizer que a região Norte tem valores mais elevados porque “por acaso” alguém veio infetado de uma feira no Piemonte, a região italiana com maior incidência da covid-19, é não entender que estes vários Nortes conciliam, ainda que em graus diferenciados, uma forte exposição externa e uma suscetibilidade local elevada, ou seja, um significativo potencial de vulnerabilidade em relação a esta ou a qualquer outra doença infecciosa. Os mapas por concelho diariamente disponibilizados pela DGS mostram ainda que, no caso da região Centro, o contraste entre os municípios do litoral e do interior é tão acentuado que os totais regionais têm um valor igualmente enganador.


Será, então, que não vale a pena dar atenção aos valores regionais e municipais diariamente divulgados pela DGS sobre a evolução da covid-19? Muito pelo contrário. Pelo que revelam e pelas dúvidas e questões que suscitam, esses dados abrem mais uma janela de observação para conhecermos e compreendermos melhor não só a pandemia, mas o próprio país na sua diversidade territorial. Dados fiáveis ao nível municipal e estudos aprofundados baseados em evidência empírica permitirão no futuro conhecer as várias geografias da exposição, suscetibilidade e vulnerabilidade a doenças infecciosas, replicando os avanços científicos alcançados na última década no domínio das alterações climáticas e seus impactos.


O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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publicado às 18:37

O que nos leva a pensar o que acontece de mau não nos acontece a nós, mas aos outros? Não é porque pensamos que somos invencíveis, é porque gostamos de pensar que somos imunes às influências das mensagens da comunicação social de massa e de fatores adversos. É isto que a teoria do “efeito de terceira pessoa” estuda.


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Apresentação.


Estamos em fase de pandemia derivada ao COVID-19 e as medidas a tomar têm duas vertentes a primeira obviamente ligada à saúde e a outra são políticas adotadas para lidar com o problema. Esta última é a que tem mais impacto na solução para mitigação das dificuldades mais graves que hoje vão começar, não podem estar sujeitas a pressões seja de que lóbis forem por estar em causa as pessoas e o travão à propagação da epidemia. Se a coisa agrava por falta de coragem política quem deverá ser responsabilizado? Em caso de falha, e numa circunstância como esta, assumir a culpa e fazer pedidos formais de desculpa à posteriori não serve de nada nem a ninguém. Para situações drásticas impõem-se medidas drásticas.


Vemos exemplos por esse mundo fora a serem tomadas medidas que por cá se recusam ou recusava-se que fossem tomadas apontando as mais diversas justificações e cautelas, algumas até com risco de agravamento da situação.


Artigos de opinião rebelam-se contra medidas mais severas que possam vir a ser tomadas, parecendo preferir que a doença alastre sem controle em nome de ideologias que defendem, como que a dizer que isso só acontece aos outros, a nós não!


Vem isto em relação à decisão que tardou de fechar as escolas



entários ao blogue.

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publicado às 18:25

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Os enfermeiros são uma classe necessária e imprescindível em todo e qualquer serviço de saúde. São eles que fazem a manutenção médica diária dos doentes, apoiam-nos e tratam-nos seja nos hospitais públicos seja nos privados, casas de saúde etc. Eu diria mais, sem eles a saúde colapsava já que os médicos não poderiam responder a tudo. Têm a formação adequada para as tarefas que desempenham, mas não são médicos. Mas, por outro lado, se questionássemos pessoas que estão ou estiveram internada nos hospitais públicos sobre a forma como os enfermeiros lidam com os doentes ouvir-se-iam de certeza muitas razões de queixa nomeadamente as atitudes que tomam para com os doentes. Todavia tenho consciência de que as generalizações podem ser injustas para muitos.


Os que hoje são enfermeiros devem ter optado pela enfermagem por vocação, por gosto, seja lá pelo que for, caso contrário teriam optado por medicina. Podem dizer que não tinham média para entrar e que, por isso, escolheram o curso superior de enfermagem. Seja, mas não são médicos. Não tiraram um curso de medicina e sim de enfermagem. Não podem agora através de formas de pressão tentarem administrativamente equalizar-se aos médicos cuja formação é em teoria e na prática muito diferente. Se não o fosse então os médicos teriam tirado o curso de enfermagem com menos custos financeiros e de saberes. Um médico pode fazer o serviço dum enfermeiro o contrário já não é verdadeiro.


Isto leva-me à chamada luta dos enfermeiros reivindicando carreiras, altos salários e o mesmo estatuto dos médicos. Na minha opinião foi uma manobra política de oposição contra o Governo utilizando as reivindicações laborais. Como se sabe na central sindical UGT existem duas correntes uma delas do TSD (Trabalhadores Sociais Democratas). Há um dos Sindicatos dos Enfermeiros que pertence àquela central sindical. Parece-me que é este o grupo que mais se tem salientado na luta por salários chorudos e em ações de rua. Oportunisticamente utiliza problemas ditos laborais para fazer pressão política sobre o Governo diria mais, fazer oposição já que o PSD tem falhado.


O que me parece ser mais estranho é que, se não me engano, foi esta a mesma classe que não se mobilizou para se manifestar com tanta perseverança e persistência quando o anterior Governo PSD/CDS lhes cortou direitos e salários, aumentou-lhes as horas de trabalho e retirou as horas extraordinárias e muitos tiveram que emigrar. Nessa altura a classe dos enfermeiros estava caladinha exceto um ou outro protesto sem significado e amochava.


Os enfermeiros querem o sol e a lua mesmo que impossível. Querem mais dinheiro, carreira fácil, estatuto e tudo o que mais vier do saco, e tudo o mais que lhes vier à cabeça que seja reivindicativo. Não sabem eles que quem depois pagará a fatura somos todos e eles também. Não se percebe a violência com que o protesto é feito o que me leva a crer que o ódio e a exaltação que se verifica nas atitudes deve ter influência de origem política e partidária.


Não são os únicos licenciados deste país, mas os enfermeiros com as greves estão indiretamente a utilizar os doentes, que deles necessitam e sofrem por esses hospitais, para fazerem valer as suas reivindicações exageradas relativamente a outros trabalhadores. É humanamente imoral e oportunisticamente político.

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publicado às 13:48

Ambivalência do serviço de saúde

por Manuel_AR, em 13.04.15

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Bem podem o ministro da saúde, Paulo Macedo, chamar tolices aos estudos sobre a saúde em Portugal recentemente divulgados pelo INE, e Passos Coelho dizer que as estatísticas publicadas pelo mesmo instituto têm que ser justificadas, apenas porque os números não lhes agradam, que a realidade não se altera. Caiem no costumeiro ridículo de quererem que a realidade não seja a que pretendem.


A bola da tolice está do lado deles por julgarem que os portugueses são tolos. Foram-no sim, quando, levados ao engano, votaram numa gente sem escrúpulos sociais que se esconderam sobe a capa da “troika” para fazer mais do que o memorado previa.


Muitos dos que por aí peroram nos órgãos de comunicação social tentam salvaguardar a imagem de Paulo Macedo, louvando a sua competência e relevando o facto de ter feito um bom trabalho em governos anteriores ao reorganizar as finanças enquanto Diretor Geral dos Impostos entre 2004 e 2007. É a prova do ditado popular “cria fama e deita-te a dormir”.


Cá para mim nada de confusões. Paulo Macedo, com a sua voz calma, tenta convencer os “tolos” dos portugueses que o escutam, (julga ele que o são), lançando para o ar ideias falsas sobre melhoria, reorganização e eficiência do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e dos hospitais. Para ele há mais camas nos hospitais, há consultas mas rápidas, há mais intervenções cirúrgicas, há mais de tudo…


Claro que Paulo Macedo e quem como ele fala não tem necessidade de recorrer ao Serviço Nacional de Saúde porque têm as suas medicinas privadas. Mas, mesmo que tivessem que recorrer a um hospital público de urgência, porque são figuras públicas teriam de imediato prioridade mesmo que tivessem que parar tudo o que houvesse em mãos.


Aqueles mesmos senhores quando se referem ao SNS falam como se alguma vez o tivessem utilizado. Seria bom que fizessem uma apreciação nos locais sem avisos e preparações prévias. O que vemos nas televisões sobre visitas do ministro ou dos secretários de estado a hospitais e centros clínicos não são mais do que fachada. Todos sabemos como isso funciona em termos de propaganda. O gabinete do senhor ministro ou do secretário de estado, ou seja lá de quem for, quando toma uma decisão dessas, o departamento de comunicação do ministério previne antecipadamente essa ou essas instituições ou unidades hospitalares da respetiva visita. O que acontece depois já é conhecido. É preparada uma encenação de pessoas e de ambientes, do género teatro para ministro ou secretário de estado ver e para televisões captarem imagens. Mas a realidade com que os utentes se confrontam diariamente é bem diferente.


A qualidade da assistência pública de saúde recuou cerca de vinte anos senão mais. A finalidade está bem clara, isto é, degradar o SNS para que utentes que, apesar de pagarem impostos elevados, mas não pertençam a outros subsistemas de saúde e não possam ter seguros de saúde, fiquem sujeitos a um serviço público de saúde sem condições que se vai progressivamente degradando, obrigando-os a pagamentos em serviços privados por vezes incomportáveis. A organização do SNS está a ser feita de forma a possibilitar a transferência de verbas do setor público para o setor privado da saúde.


O que está subjacente é que no acesso aos serviços de saúde haja um serviço público de saúde de primeira, para os que podem pagar, e outro, de segunda, com serviços públicos de saúde sem condições, a ser utilizados pelos mais carenciados e pelo grupo que referi anteriormente.


 É bom recordar que o ministro Paulo Macedo entre 2003 e 2004, integrou a Comissão Diretiva da Seguros e Pensões e que entre 2001 e 2004 foi administrador da Médis, Companhia Portuguesa de Seguros de Saúde. Para bom entendedor meia palavra basta.


Durante a anterior campanha eleitoral para as legislativas de 2010 quando o então primeiro-ministro José Sócrates disputava as eleições com Passos Coelho alertava para o facto ao dizer que estava em curso a criação de “dois sistemas de saúde, um para pobres e outro para ricos”. A confirmação tem estado à vista.


Eu sei do que estou a falar.

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publicado às 22:35

Estado de negação

por Manuel_AR, em 09.02.15

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O estado de negação é uma atitude em que uma pessoa, um grupo, seja ele profissional ou empresarial, tenta esconder recusando uma verdade e a realidade de factos. Também é um estado de negação quando se recusa admitir algo que está a acontecer negando a evidência arranjando um processo de fuga a uma questão colocada. É uma questão de sobrevivência.


É uma fuga a factos pouco favoráveis ou negativos de uma atuação ou decisão tomadas para si ou para o seu grupo ou até para com a sociedade em geral.


O primeiro-ministro entrou mais uma vez em estado de negação ao subestimar à partida a vitória do Syriza na Grécia. Mas, mais do que sobre a Grécia, é sobre Portugal o estado de negação do primeiro-ministro sobrevalorizando décimas estatísticas de indicadores económicos e sociais através das quais ele e os seus ministros concluem estarmos em crescimento económico e com os problemas sociais e de desemprego e resolvidos.


 


Nesta fase de acalmia as hostes do Governo de Passos Coelho suspenderam, digamos que temporariamente, o afã no que respeita a cortes de salários e pensões, despedimentos na função pública, flexibilização das leis laborais, aliás recomendada no último relatório do FMI, devido à proximidade de eleições legislativas. Entrou numa outra fase do seu estado de negação permanente, isto é, negar que tudo quanto exigiu aos portugueses não foi mau, foi bom porque os bons resultados estão à vista. À vista de quem? "Os frutos dos sacrifícios já se fazem notar" disse em janeiro Maria Luís Albuquerque e acrescenta que o número de carros aumentou. O olhar dela é mais arguto e fiável do que qualquer estatística de indicadores económicos ou de pobreza. É o estado da negação da outra realidade do país.  


Passos Coelho, após ter aberto uma guerra de confronto entre gerações e entre vários grupos sociais e profissionais, adultos empregados e jovens desempregados que, em alguns casos, felizmente raros, deu frutos tão bons que ainda se continuam a conhecer através da imprensa. Apesar de tudo esconde o sol com a peneira e diz que a pobreza em Portugal não é de hoje mas já vem de trás, negando o seu agravamento.


Veja-se recentemente o caso da saúde com os medicamentos que podem trazer a pessoas esperança de vida, as urgências hospitalares onde morrem por falta de assistência atempada. Tudo isto é mentira, não existe em Portugal e segundo os responsáveis do ministério da saúde o serviço nacional de saúde está melhor do que sempre esteve.


Agora pretende abrir outra guerra, a de colocar os portugueses numa animosidade contra a Grécia fazendo-os sentir que estão a ser prejudicados e que, se o forem, a culpa é exclusivamente dos gregos.


Mas também há quem esteja umas vezes em estado de negação e outras em estado de afirmação consoante os interesses. José Manuel Fernandes, diretor do Observador, género de mercenário que serve quem mais cargos e mais dinheiro lhe prometer, acompanha o seu primeiro-ministro nos estados de negação. Abre apenas uma janela contrária no que respeita a Sócrates, entrando em estado de afirmação absoluto e perentório apoiando-se na visão doentia das opiniões de Nuno Garoupa, responsável da fundação controlada por Francisco Manuel dos Santos:


 “A opinião pública pode e deve fazer um julgamento político, independentemente do julgamento legal e judicial. A política e a justiça não são a mesma coisa.” Ou seja, deixem-se da hipocrisia do “inocente até prova em contrário”, pois isso é verdade nos tribunais mas não é verdade quando temos de julgar politicamente alguém como José Sócrates. O julgamento político, como ele sublinha, não está sujeito aos mesmos critérios do julgamento penal.".


Para estes senhores é tudo muito claro. É o estado da negação no seu melhor sobre o que deve ser justiça e a ética num país democrático e livre. Para esta gente o julgamento, desde que político, é válido através dos média e na praça pública mesmo com base em mentiras e factos não comprovados. O caso a que se referem, ao contrário do que pretendem negar, não é exclusivamente politico, tornaram-no simbiótico pois quiseram que ficasse sujeito a critérios legais, penais e políticos, e vice-versa.  


Seguindo aquele critério será uma ótima ocasião para julgarmos politicamente Passos Coelho na praça pública, através dos media, por toda a política executada que trouxe a Portugal o descalabro económico por querer ir para além da troika, destruir centenas de milhar de famílias e de empregos e por afirmações como salvar vidas sim, “mas não custe o que custar”.

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publicado às 23:43

Conto do vigário

por Manuel_AR, em 05.02.15

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Há pequenas memórias da nossa vida que não se apagam e que, quando menos se espera, surgem associadas a factos do presente.


Há muitos anos atrás, muito antes do 25 de abril de 1974, apareciam, de tempos, a tempos, uns sujeitos engravatados vestindo fatos impecáveis, calçando sapatos esmeradamente limpos pelo brilho da graxa e com irrepreensível penteado e barba escanhoada.


Dirigiam-se a casa das pessoas tocavam à campainha e apresentavam-se utilizando uma linguagem esmerada proveniente do círculo a que diziam pertencer.


A apresentação tinha quase sempre o mesmo formato. Tinham chegado dum país como os Estados Unidos da América, Espanha, Canadá, Argentina, etc., pertenciam ao círculo dos amigos dos embaixadores e traziam umas novidades que, não podendo deixar na embaixada, viam-se obrigados a desfazerem-se deles a preços módicos. No leque destes produtos, segundo eles excecionais e produzidos pelas mais famosas empresas da altura, incluíam-se perfumes, joias, relógios e até tabaco estrangeiro raramente comercializado em Portugal.  


Quando os preços pedidos não agradavam ao potencial "cliente" pediam-lhe que fizesse uma oferta e, não raras vezes vendiam o produto por menos de metade do preço inicialmente pedido.


Muitos foram os que caíram na esparrela. Após efetuado o "negócio" e com o dinheirinho na mão desparecia numa pressa porque, segundo eles, tinham que ir ainda apanhar o avião. Mas surpresa! A abertura da impecável e por vezes até luxuosa embalagem que conteria o almejado produto mostrava, no seu interior, algo totalmente diferente. Os perfumes eram uma água amarelada com um ligeiro odor a alfazema, os relógios que seria de esperar um Rolex era um daqueles que se vendiam nas feiras da altura, as joias eram pechisbeques e o tabaco só a caixa era de marca o conteúdo era tabaco do mais rasca.


Esta recordação surge-me frequentemente sempre que vejo o senhor primeiro-ministro Passos Coelho a falar perante as câmaras de televisão quando interpelado sobre temas da atualidade.


Seja sobre o que for, com a sua voz de barítono, falando pausadamente e tentando ser convincente sobre o que está a perorar. O problema é como no passado aconteceu o conteúdo é muito diferente da embalagem que está a pretender vender no presente para tirar dividendos no futuro. Quem assim não o entender corre o risco de voltar a ser otário.


 


Mais grave ainda é quando se refere aos problemas da saúde, nomeadamente no que respeita ao medicamento para a cura da hepatite C. Disse então que embora reconheça que cabe ao Estado fazer tudo o que está ao seu alcance para garantir os melhores cuidados de saúde no Serviço Nacional de Saúde (SNS), Passos Coelho considerou que, "com recursos limitados, suportar qualquer preço do mercado não existe em Portugal nem em qualquer lugar do mundo".


Podemos em teoria concordar mas o primeiro-ministro sendo uma neoliberal empenhado e acreditando no mercado deveria compreender a posição das empresas em vez de as criticar. É óbvio que o que digo é sarcasmo como não podia deixar de ser. Para Passos e os ministros do seu governo a vida humana, desde que uma qualquer pessoa não tenha recursos ou estes sejam escassos para pagar uma determinada terapia parece não ter valor. Leva-nos a pensar: quanto vale mais, a vida de um rico ou vida de um pobre ou remediado? Respondam senhores Ministro da Saúde, Secretário de Estado Adjunto, Leal da Costa, e senhor primeiro-ministro. E, contudo, todos pagamos impostos.


Numa outra linha de pensamento, sem querer comparar porque não é o caso, a questão dos recursos limitados para manter vivos em campos de concentração um número imenso de prisioneiros judeus também foi um dos argumentos para o ato desumano para milhões de mortes programadas.


 


O que podemos subentender destas posições de Passos Coelho?


 


Os Estados devem fazer tudo o que está ao seu alcance para salvar vidas humanas, os Estados devem fazer tudo o que está ao seu alcance para garantir os melhores cuidados de saúde mas é mentira que custe o que custar, no sentido em que tenhamos os recursos ilimitados para suportar qualquer preço de mercado, isso não existe nem em Portugal nem em lado nenhum do mundo"


 


"Eu discordo da forma como essas perguntas [sobre o preço da vida humana] são colocadas porque elas só podem ter um propósito que é o de entender que qualquer que seja o custo de qualquer coisa, ele tem que ser suportado não importa o quê. E todas as pessoas sabem que não é assim".


E se ele, ou qualquer outro com poder e financeiro  estivessem no lugar duma dessas pessoas será assim ou ou não?

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publicado às 19:03

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Em caso de doença quem nos vale se o próprio Serviço Nacional de Saúde foi atacado por um vírus que lhe provocou uma doença física e moral que o conduzirá, certamente, à morte. Vejam-se as notícias que têm vindo a público pelos órgãos de comunicação social sobre os hospitais e as urgências.


O Ministro da Saúde e em alternância o seu Secretário de Estado Adjunto da Saúde, Fernando Leal da Costa, têm vindo às televisões, com o seu bla…, bla…, costumeiro, acalmar as gentes ansiosas sobre o que se passa nos hospitais onde, em vez de se procurar a cura passaram a ser locais de expectativas negativas sobre o que lhes poderá acontecer se o pior não for a morte.  


Por mais confiança que queiram transmitir à população quem passa pelas urgências dos hospitais ou por uma hospitalização por questões de saúde não trará com certeza boas notícias e poderá nem sair curado da doença, antes pelo contrário, poderá vir até a morrer da cura, coisa que, a acontecer, nunca será provado.


Dizem então os responsáveis máximos pela saúde em Portugal, cada um à sua vez, para quem se sentir doente não recorrer às urgências dos hospitais e, acrescentam, a culpa da sobrelotação dos hospitais é dos utentes que, por tudo e por nada, recorrem às urgências hospitalares (dizem-no, é claro, por outras palavas). Como se as pessoas gostassem de andar por esses hospitais a passar tempo sem necessidade disso. Ficavam em casa e pronto! Ou, então, automedicavam-se com mezinhas e sempre poupavam uns dinheiritos ao Estado para o qual contribuem com os impostos, conduzindo ao agravamento do seu problema de saúde.


Face ao facto do que se passa nas urgência e para aliviar a sobrecarga das mesmas aconselham então os doentes a recorrerem ao atendimento nos centros de saúde que, dizem eles, passarão a estar abertos mais tempo.


Ou o ministro Paulo Macedo não sabe do que está a falar, ou o informam mal ou está deliberadamente a fazer de parvos os utentes destes centros. Além do mais é evidente que o senhor ministro não utiliza estes serviços pois tem recursos para ter a sua medicina privada. Gostaríamos de o ver a marcar uma urgência num daqueles centro de saúde levantando-se às cinco da manhã para estar à porta do centro às seis, onde já se encontra uma fila de gente à esperar que o centro abra às oito para, no final, correr o risco de as cinco ou oito consultas de urgência que o médico tem livres, já estejam preenchidas quando chegar a sua vez. Isto no inverno, com chuva e frio e com uma camada de febre em cima.


Se o senhor ministro e o seu secretário de estado adjunto tivessem que recorrer a estes serviços talvez pusessem em primeiro lugar as pessoas à frente das deias do seu partido e do Governo de que fazem parte.


Um ministro e um secretário de estado politicamente honestos que gerissem serviços como os da saúde, de importância vital para as populações, que não tivessem condições para o exercício das suas funções que colocassem acima dos interesses pessoais, partidários e de governo demitiam-se. Portanto, não venham alguns comentadores falar da competência do ministro da saúde lançando as culpas para outro ministério que lhes impõe essas medidas. Quando não se têm condições para exercer com competência uma função pública essencial para as pessoas não se exerce.


Na saúde (e também noutro serviço públicos) os interesses políticos e partidários, seja lá outros que forem, não podem sobrepor-se aos interesses das pessoas, salvo risco de se cair no ridículo ao dizer-se, como já o foi, embora noutro contexto que o Serviço Nacional de Saúde está melhor, as pessoas é que estão pior.  


 


Imagens de: www.humortadela.com.br

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publicado às 15:22

O regresso dos papões

por Manuel_AR, em 11.10.14

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A sondagem da Aximage que o Jornal de Negócios publicou mostram resultados muito favoráveis a António Costa. Estes resultados são ainda muito precoces e muita coisa se irá ainda passar.


Ora, face a esta situação de popularidade de António Costa e do Partido Socialista, começam a despontar os arautos dos papões e o ciclo iniciou-se já com uma das aventesmas da política, António Barreto. Diz esta sumidade, que Costa deve ter cuidado com as alianças à esquerda dominada pelos comunistas e refere, pondo no mesmo baralho tudo qunto é esquerda do PS, misturando o Bloco de Esquerda e o Livre o que, para Barreto "põe problemas seríssimos" e "caminho perigoso ao estar a aliar-se a partidos comunistas". Mas quem lhe disse a ele que isso iria acontecer. Será que tem informação privilegiada? E alianças com a direita que problemas coloca? O facciosismo é lamentável num sociólogo.


Para quem não se recorde António Barreto foi ministro da Agricultura do 1º governo de Mário Soares que fez a célebre "Lei Barreto" sobre a reforma agrária e, porque atacado, naquela altura, por todos à esquerda do PS deve ter ficado com o trauma dos comunistas.


Num debate televisivo em 2102, na SIC, posicionava-se com Manuela Ferreira Leite numa uma solução em que no Serviço Nacional de Saúde quando estivesse em causa a manutenção da saúde através de meios dispendiosos e tivesse mais de setenta anos deveria pagar os tratamentos. Afirmações polémicas que causaram escândalo na altura.


Já este ano defendia na Rádio Renascença "tornar a Constituição mais simples para, depois, no plano político, ser possível ter mais liberdade de opção. E é no plano político e não constitucional que defende a manutenção de um sistema de saúde público, mas com maior liberdade de recurso ao privado, de contratualização com o privado.".


Mas há mais, diz que "os empresários não têm liberdade para dizer e fazer o que querem", talvez seja por isso que muitos enriqueceram num curto espaço de tempo. Então como é que se cosntruiram (e detruiram) grande gupos económicos. Veja-se para já o caso BES. É preciso lata. 


 Por outro lado, façamos-lhe justiça, nem tudo o que esta aventesma da política disse foi mau, entre outras afirmações também diz, quanto à educação, admitir a liberdade de escolha, mas sem que o Estado pague a privados. “Quem quer fazer educação privada que a pague. O Estado não deve pagar cheques ensino não deve estar a subvencionar as escolas privadas, como faz atualmente. O Estado gasta milhões e milhões nisso, nas escolas privadas e acho que não o deve fazer.”. 


Podemos e devemos levar a sério os professores catedráticos e investigadores em ciências sociais mas não podemos esquecer-nos de que em todas as formações sociais existe uma função da pluralidade contraditória de sistemas ideológicos de codificação do real e que, por isso, são as ideologias dominantes ligadas ao bloco do poder que retêm a atenção constituindo obstáculos fundamentais à elaboração de conhecimentos científicos.


Presidente do Conselho de Administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos, António Barreto pediu a demissão prematura de Presidente do Conselho de Administração da fundação em abril de 2104. Para o Jornal Económico  a saída de Barreto deve-se a "diferenças de opinião com a família fundadora em torno da estratégia da instituição em áreas como o ensino superior" em cuja área Francisco Manuel dos Santos "defendia uma postura mais interventiva". Resta saber em que sentido...


Será que é apenas uma questão de opinião que conduziu a António Barreto à demissão ou estará a prepara-se para outros voos? O facto é que ele começou já a dar entrevistas com afirmações polémicas o que poderá dar mais protagonismo na comunicação social. Pelos vistos começa bem. lançando para opinião pública os papões do costume.

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publicado às 22:58


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