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Paulo Rangel o político que atira pedras aos telhados dos vizinhos

Ou a forma de denegrir os adversários pela destruição do caráter

por Manuel_AR, em 22.07.21

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Não percebo como numa rua quase deserta de Bruxelas, à noite, alguém captou as imagens video que andou a circular pelas redes que de sociais pouco ou nada têm. O visado, Paulo Rangel, esclareceu através do Twitter que foi há anos após um jantar de amigos.

Não importa o que faz ou não parte da sua vida privada, porque ninguém tem nada com isso. Não foi cometida nenhuma infração, nem abuso da integridade de terceiros nem tão pouco ofensas. O que acho estranho é que, numa situação como esta, após um jantar, à noite, em Bruxelas numa rua quase deserta alguém estava à espreita para o filmar. Alguém das suas relações estaria à espreita para o tramar? Se foi, só o tramou anos depois. Quem foi aguardou, até porque sabia que, segundo alguns dizem,  a vingança serve-se fria. Para mim isto é muito estranho! Terá sido coincidência, dirão alguns. Não creio em coincidências como esta.

Não tenho grande simpatia pelos pontos de vista de Paulo Rangel devido à forma como tece o discurso nos seus comentários e dabates. São baseados  numa semântica plena de retórica sofista, empregando, deliberadamente, argumentos falsos com aparência de verdadeiros.

De qualquer modo vamos ao que está em causa. São absolutamente desprezíveis e repugnantes  o autor do vídeo, seja ele quem for, e o/os motivo/os o levaram a tal.

Acerca do video que andou a circular pelas redes sociais  sobre um comportamento pontual do político Paulo Rangel do PSD li um artigo que Carlos Esperança publicou no blog Estátua de Sal que pelo seu estilo de escrita aliciante vale a pena ler aqui.

Paulo Rangel – O algoz tornou-se vítima de um facto irrelevante

(Carlos Esperança, 21/07/2021)

Muitos portugueses souberam do vídeo divulgado sobre o eurodeputado Paulo Rangel através do próprio. É uma cena de um homem bêbedo em sucessivos ziguezagues numa rua deserta, demasiado estreita, para cambalear à vontade.

Não me merece qualquer reprovação. Quem nunca se embebedou que atire o primeiro copo. Duvido mais dos que nunca cometeram um exagero ou transgressão do que dos santos, e não restem dúvidas de que foi cobarde e pusilânime quem o filmou e, alguns anos depois, o expôs à execração pública.

O argumento mais canalha para justificar a divulgação de cenas privadas é a justificação, de que tem interesse público, tudo o que se relaciona com figuras públicas. É falso, e diz mais sobre o bufo do que sobre a vítima.

Este caso é, aliás, inócuo para a reputação do político e não me parece que lhe retire votos em eleições. Pode provocar sorrisos, e não é mais ridículo do que tirar as catotas do nariz nas sessões do Parlamento Europeu.

Dito isto, e subscrevendo o desabafo de Paulo Rangel, num tweet do próprio, não posso deixar de recordar ao arruaceiro das terças-feiras, no jornal Público, os assassínios de carácter que semanalmente faz a adversários políticos.

A razão que ora lhe assiste como vítima perde-a semanalmente como algoz, na aptidão para a chicana e nos ataques ad hominem, contra adversários. 

Não se conhece a Paulo Rangel o pudor republicano que o iniba de ampliar campanhas onde os casos pessoais servem, à míngua de argumentos, para denegrir figuras públicas dos partidos concorrentes, nem qualquer ato de solidariedade para com vítimas políticas de campanhas orquestradas para as destruir.

Exige-se a Paulo Rangel, não tanto a Nuno Melo, mais próximo do fascismo, que não se envolva em campanhas negras, e que, de vez em quando, se indigne com a imprensa ao serviço da pior direita, quando divulga conversas íntimas de arguidos, que o STJ manda destruir, por ausência de interesse processual, e que algum magistrado venal se esquece de cumprir, para acabarem na primeira página de um qualquer pasquim.

A razão que ora tem é a que perde no sectarismo que o acompanha e no silêncio a que se remete quando as vítimas são outras.

Paulo Rangel não precisa de solidariedade pelas cenas vulgares que não são infamantes, precisa de se solidarizar com os adversários vítimas da devassa da intimidade através da exposição pública da intimidade e que, ao contrário de uma simples bebedeira, destroem a família, a reputação e a carreira política do visado.

Quanto a quem é capaz de expor cenas privadas de quem quer que seja, que não lesam o país nem têm relevância penal, apenas denigrem os autores, herdeiros dos que nos espiavam nos cafés, escutavam telefonemas ou violavam a correspondência durante a ditadura.

Muitos portugueses souberam do vídeo divulgado sobre o eurodeputado Paulo Rangel através do próprio. É uma cena de um homem bêbedo em sucessivos ziguezagues numa rua deserta, demasiado estreita, para cambalear à vontade.

Não me merece qualquer reprovação. Quem nunca se embebedou que atire o primeiro copo. Duvido mais dos que nunca cometeram um exagero ou transgressão do que dos santos, e não restem dúvidas de que foi cobarde e pusilânime quem o filmou e, alguns anos depois, o expôs à execração pública.

O argumento mais canalha para justificar a divulgação de cenas privadas é a justificação, de que tem interesse público, tudo o que se relaciona com figuras públicas. É falso, e diz mais sobre o bufo do que sobre a vítima.

Este caso é, aliás, inócuo para a reputação do político e não me parece que lhe retire votos em eleições. Pode provocar sorrisos, e não é mais ridículo do que tirar as catotas do nariz nas sessões do Parlamento Europeu.

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publicado às 16:14

O que os outros dizem (1).png

Nem sempre gosto do que Daniel Oliveira escreve, é demasido radical  para o meu ideário chegando a ser impulsivo nas suas afirmações. Chega por vezes até a ser agressivo nos cometários que faz, nomeadamente no programa da SIC Notícias "Eixo do Mal" continuamente a interromper os seus colegas de programa onde é manifesto o o seu lado esquerdista.

Apesar disso aqui vai porque considerei o artigo oportuno, irónico e atual pela forma como Rui Rio tem andado a angariar candidatos para as autarquias, não lhe interessando como e quem, por vezes contrariando alguns dos seus pontos de vista anteriores. Veja-se, por exemplo, o caso do candidato à Câmara do Porto. 

Ventura e Garcia: teste de paternidade

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 31/03/2021)

e em A Estátua de Sal

Rui Rio tem um talento único para destruir o que de bom pensávamos dele. Julgávamos que não surfava na espuma dos dias, preservando-se para o longo prazo. Até que abriu uma conta no Twitter e percebemos que a sua circunspeção resultava de infoexclusão. Sabíamos que era corajoso perante o poder imenso do futebol. Até que convidou o maior acionista particular do Futebol Clube do Porto para se candidatar à terceira maior autarquia do país, onde esse clube tem o centro de estágios. Explicando que não havia problema, porque ao contrário do seu adversário não era conselheiro cultural do clube. Sabíamos que não era o rei da tática, mas tinha um rumo de que não se desviava ao primeiro susto. Até que, depois de passar meses a defender que o PSD estava ao centro, fez um acordo com a extrema-direita, nos Açores. O que parecia convicção era mera reação aos seus opositores internos. É isso que move Rui Rio: os seus opositores, sejam no partido, na imprensa ou no futebol.

O convite das estruturas locais para Suzana Garcia liderar a lista do PSD à Câmara Municipal da Amadora mostra que, neste momento, PSD e Chega andam a pescar nas mesmas águas. A pré-candidata teve lugar cativo num programa da manhã de Manuel Luís Goucha – não sei se alguma vez se cruzou com Mário Machado – e sabemos como pensa. Divide o mundo entre as pessoas de bem e as minorias protegidas pelo politicamente correto. Sem desprimor para os chauffeurs de praça, que há muito foram ultrapassados pelos entertainers que desaguam na política, imagino que a TVI lhe pagasse à bandeirada.

Falava-se desta advogada para liderar a lista do Chega em Lisboa. Não deve ter aceitado e Ventura teve de se contentar com um senhor que tem como principal marco da sua longa vida cívica o comentário a uma transmissão em direto de um velório de uma menina de três anos morta pela sua mãe. Na Amadora, Suzana Garcia enfrentaria o candidato do Chega, dirigente de um dos 17 sindicatos de polícia. Para a direita, um dos concelhos mais multiculturais do país é um caso criminal. Já em Oeiras, convivem bem com quem foi condenado e cumpriu pena. É uma questão de estatuto.

A direção do PSD está a avaliar a proposta pública de candidatura – não deixa de ser estranho que primeiro se conheça o candidato, depois a opinião do partido. Terá ficado espantada ao conhecer as posições políticas da advogada. Prefiro pensar que estão apenas a avaliar as reações públicas ao anúncio para saber se não metem a pata na poça de novo. É aborrecido, mas menos preocupante, que a direção do maior partido da oposição seja calculista e sonsa do que tenha vivido num buraco nos últimos anos e desconheça as posições de uma das figuras mais mediáticas do país. E que se tornou mediática por causa dessas posições. Bem sei que Suzana Garcia falava num espaço pouco visto pelas “elites de Lisboa”, como diria Rui Rio. Mas há limites para o alheamento em relação ao país. E o país também são os programas da manhã, que lamentavelmente fazem opinião.

Antes Rui Rio anunciava candidatos que não sabiam que já o eram, agora anunciam-se candidatos que Rui Rio não sabe quem são. E André Ventura, que percebe que Suzana Garcia lhe rouba votos, aproveitou mais um momento de descoordenação no PSD para, num tweet, elogiar Rio pela evolução que esta escolha revela. Uma forma de condicionar a direção do PSD, levando-a a recusar uma candidata que associa os social-democratas ao Chega. Mas mesmo recuando, o mal está feito num partido desnorteado.

Ao contrário do que já ouvi de alguns antigos dirigentes do PSD, como Miguel Morgado, o André Ventura que concorreu à Câmara de Loures não era diferente deste. Seria virgem nas barbaridades racistas, quando o convidaram. Mas as suas primeiras declarações públicas contra toda a etnia cigana foram antes das eleições autárquicas. A tempo de o CDS ter desfeito a coligação para se demarcar do que antes era considerado inaceitável pela direita democrática. A tempo de o PSD manter o candidato e de Passos Coelho fazer questão de ir ao comício de Loures para lhe dar apoio pessoal e direto.

O Ventura que Pedro Passos Coelho laçou era este e é este que está desestruturar a direita portuguesa. Da mesma forma, se Rui Rio der asas e legitimidade a Suzana Garcia – que, não por acaso, prefere ir pelo PSD a um concelho menos relevante do que à capital pelo Chega –, ela não revelará nada que não se saiba já. Ventura não é filho de pai incógnito, Garcia também não o será. Se o PSD lançar mais um político de extrema-direita, já não faz sentido falar de crise da direita. É um suicídio.

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publicado às 18:33

Porque vale a pena ler

por Manuel_AR, em 22.03.20

Resultado de imagem para estado de emergencia


Imagem de RTP.PT


Querem ir para um contentor?




(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 21/03/2020)



E que esperar dos ricos, os que podem atravessar esta crise sem problemas? Que esperar da banca que salvámos e que continua a aumentar as comissões? Que esperar do absoluto silêncio desta gente? Gostava de ouvir dizer: eu vou oferecer dinheiro para a compra de material, para a investigação, para ajudar a frente de guerra. Eu tenho um plano para ajudar os outros, os que não têm plano.


Concordo com o estado de emergência. Sei que são detestáveis as medidas de suspensão das liberdade, direitos e garantias, mas esta situação é excecional, e quem nos governa e superintende não tem a unha longa do ditador nem a garra do abutre. Nem temos o excecional sistema antidemocrático, semidemocrático ou democraticamente musculado da Ásia. Não sabemos quanto tempo a pandemia vai durar, não sabemos se vai regressar uma vez controlada e não sabemos quando teremos uma vacina para nos salvar.


 

A razão para decretar o estado de emergência é simples. E não tem a ver com o facto de as pessoas estarem a desobedecer, a ignorar a distância social ou o isolamento e a quarentena. Estamos na fase positiva, otimista e humorada da crise. Trocamos palavras de encorajamento, memes e mensagens, anedotas, vídeos, notícias falsas e verdadeiras. Estamos na fase do combate. Do choque.


Tal como com o anúncio súbito de uma doença grave, esta fase passará. A última fase é a da aceitação. No meio vêm a ira, a negociação e a depressão. O isolamento prolongado de seres humanos dentro de casas e famílias acabará por provocar estragos. Vamos irritar-nos uns com os outros e com os governantes e não existe escape. Não há entretenimento, arte, futebol, desporto, convívio, conversa de bar. Não há ar livre, a contemplação do céu e do mar, o cheiro da terra e da chuva, o brilho da luz do sol e da lua. A prisão domiciliária, mesmo com saúde, testa a nossa resiliência, e as redes tecnológicas não substituem a vida. O contacto humano extremo, na família, raspa os nervos. A ansiedade também.


No rescaldo da crise do coronavírus, a ser clinicamente debelada, virá a fase da reconstrução depois da destruição planetária. Esta fase necessita de medidas estritas de comportamento. Há que evitar o caos social, a criminalidade, os aproveitadores e todos os que florescem nas ruínas e numa economia de guerra e de mercado negro. A violência da situação ainda não nos atingiu.



Percebi isto com clareza. Que a ira virá. Estou em clausura há dias, interrompida para passear e correr pelo parque, onde reparei que ninguém mantinha a distância social e os turistas se comportavam como turistas, com as selfies do costume. A esplanada regurgitava. Os jovens bebiam cerveja na relva e contavam anedotas sobre o vírus, a centímetros uns dos outros, contentes das súbitas férias. Isto irritou-me.



Em casa, fui tratar das plantas, arrancar ervas daninhas, regar a lavanda, cortar as flores mortas do inverno. O silêncio de sepulcro foi interrompido por uma viola clássica. Uma melodia de intensa beleza, que ecoava nos pátios e iluminava o dia gelado. Depois das imagens de Nápoles e Roma a cantar à varanda, pensei que a natureza humana se redime a buscar beleza onde a pode encontrar. Até ao homem do Black & Decker. Um som estrídulo veio cortar o ar como uma faca mal afiada. O tipo do bricolage. Todos conhecemos este tipo de coca-bichinhos, assombra o Leroy Merlin, o IKEA e o AKI por distração, passa os fins de semana nos arranjos, conserta coisas por desporto e invade os vizinhos e os domingos com o ruído da broca infatigável. Do prego preciso. Da serra elétrica e da ferramenta das porcas e parafusos. O homem do Black & Decker nunca descansa e por vezes completa a tarefa com um relato de futebol. A música, envergonhada, calou-se e nunca mais voltou.


Leitores, desejei bater no homem do Black & Decker. Podia ter esperado um pouco, ter-se sentado a apreciar a melodia que nos era oferecida como um prémio na prisão. Mais tarde, na mercearia do bairro, gritei com um homem que passou à frente de toda a gente, pessoas mais velhas com máscaras, e começou aos berros a fazer perguntas em cima de mim. Foi-se embora. Estou a ficar irritada.


No fim de semana passado, fui recebendo mensagens de vários médicos, alguns do Porto, outros de Lisboa, uns destacados para a frente de guerra, outros à espera de serem destacados, uns já separados das famílias, outros em contacto com médicos italianos que lhes enviavam notícias do centro do terror. E percebi que os médicos estavam nervosos e irritados. Porque não tinham proteção e ninguém tinha pensado nisso a tempo e horas, porque se estavam a infetar, porque se iriam infetar juntamente com os trabalhadores e técnicos de saúde, porque eles são os nossos soldados e se não os tratarmos bem eles vão morrer e primeiro do que nós. O que mais os irritava era o facto de as medidas serem tardias e as pessoas não acatarem as regras. Cada português que desobedece está a pôr-nos em risco de vida, somos a carne para canhão, diziam.


Os internos em estágio foram chamados, os mesmos que a senhora ministra queria pôr a trabalhar de graça, como se fossem missionários em África. A relação dos médicos com a ministra não é boa nem de confiança, é o mínimo que se pode dizer. O stresse no meio clínico era evidente, e a raiva fustigava gente que costuma manter a calma olímpica. Os do parque, entretidos nas anedotas e cervejas, nunca pensam nos outros. Nos que estão em contacto com doentes infetados e nem proteção têm. Esta falha, ou a falta de testes, ou a infeção do Hospital de Santa Maria por incúria, a infeção de tantos médicos logo no princípio são sinais de incompetência. Querem ir para um contentor?, gritava um médico.



E que esperar dos ricos, os que podem atravessar esta crise sem problemas? Que esperar da banca que salvámos e que continua a aumentar as comissões? Que esperar do absoluto silêncio desta gente? Gostava de ouvir dizer: eu vou oferecer dinheiro para a compra de material, para a investigação, para ajudar a frente de guerra. Eu tenho um plano para ajudar os outros, os que não têm plano.



Um amigo bem abastado e abastecido contou-me que amigos dele fugiram para o Brasil e os trópicos, em aviões e jatos privados. Abandonaram o barco. Eu mesma ouvi um grupo de brasileiros ricos no restaurante do topo do El Corte Inglés a beberem vinho, em cima uns dos outros, a rirem às gargalhadas e a dizerem que no dia seguinte marchavam de avião para o Brasil e “prà ilha”. Essa Europa já era. Apeteceu-me metê-los de quarentena num contentor, ao frio. Vamos ficar irritados. Se vamos.


 


 


 



 


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publicado às 18:02


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