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Ditos e escritos daqui e dali

por Manuel_AR, em 20.01.22

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Pelo que se escreve na imprensa, nas redes sociais e se diz nas televisões podemos ter uma visão aproximada do que se pensa ao decorrer desta campanha eleitoral. Assim, sintetizei algumas opiniões e comentários que circulam e que compus de forma coerente utilizando critérios de aproximação ou de afastamento de acordo com as minhas.

Os pontos que se seguem não são uma transcrição de citações, são as minhas opiniões expressas em coerência com os meus pontos de vista, suscetíveis, como é óbvio, de críticas.   

  1. Todos termos visto nos diferentes órgãos de a comunicação social reivindicações de organismos privados e públicos que passam pelos agricultores, comércio, indústria, saúde, justiça, etc. Acredito que estas reivindicações por mais aumentos, mais meios, mais pessoal e mais subsídios sejam justas e necessárias. Todavia, se pensarmos que ao satisfazer-se a justeza das exigências apontadas logo concluiríamos que se iria cair num descalabro financeiro do Estado com altos défices nas contas públicas e elevadas dívidas externas, conduzindo a situações idênticas ou piores às que nos trouxeram a troika. Face a isto, começo a pensar se não estarão todos desejosos que tal aconteça para justificarem uma subida ao poder da direita neoliberal que logo recorrerá, mais uma vez, a severas medidas de austeridade e outras idênticas para equilibrarem as finanças e agarrarem a oportunidade para culparem o partido do governo o causador desse descalabro. Vamos lá então ver se nos entendemos sobre o queremos para o país!

 

Maioria absolutas todos a querem.png

  1. Começo pelo que tem sido mais comentado e criticado, a maioria estável pedida pelo Partido Socialista. Entenda-se por maioria estável uma maioria absoluta e, como consequência, António Costa ser primeiro-ministro. Com António Costa numa maioria absoluta é possível conviver sem receios. O mesmo já não se poderá dizer duma maioria de direita PSD e, ainda menos, se coligado com outros partidos como por exemplo o partido da extrema-direita Chega cuja hipótese não foi convictamente afastada por Rui Rio. Lembremo-nos dos Açores.
  2. Acordos parlamentares de esquerda do PS com o BE e PCP em princípio e no meu ponto de vista são soluções a afastar devido à perda de confiança consequente da irresponsabilidade pelo chumbo do Orçamento de Estado para 2022 alinhados com a direita. Assim, só uma maioria absoluta do PS poderá evitar pressões parlamentares que aqueles partidos farão para condicionar a governação, causando instabilidade.
  3. Há por aí quem pergunte se Rui Rio fizesse tudo o que está a prometer não poderá conduzir o país a uma nova crise. A resposta é afirmativa. Como ele próprio esclareceu em vários debates tudo o que promete é condicional justificado com uma possível aproximação de uma crise que se vislumbram, pelo que reconhece a possibilidade de adiamento das promessas que será inevitável, desconhecendo-se durante quanto tempo. Ora, como se avizinha uma crise económica e social devido a contextos exteriores o pretexto para o não cumprimento das promessas tem as portas entreabertas.
  4. Outra pergunta interessante que se coloca é a de saber quem é o grande inimigo do BE e do PCP que é preciso abater? É a direita? A resposta é imediata – Não, é o PS. Interessante a resposta até porque podemos fazer uma outra pergunta: Quem é que o BE e o PCP estão a ajudar nesta campanha eleitoral? A resposta é inequívoca: são a extrema-direita e a direita PSD, claro! A extrema-direita e o PSD agradecem a ajuda do BE e do PCP. Isto já foi visto no passado quando BE e PCP provocaram a queda do governo PS dando lugar à maioria de direita.
  5. A coordenadora do Bloco de Esquerda é uma atriz extraordinária acusou André Ventura do Chega. Ao que lhe diz respeito ele saberá porquê. No meu entender, e se bem me lembro, Catarina Martins passou da extrema-esquerda antissistema, revolucionária e contestatária a mostrar-se agora com uma faceta de política sedutora e calma que se quer afirmar como cooperante. Pelo meio vai acusando outros (leia-se PS) de que se não existe mais cooperação é porque esses outros não querem, diz ela. E porquê? - Perguntam vocês. Porque em primeiro lugar gostaria de submeter o PS à execução de políticas destrutivas, em segundo lugar para caçar aqui e ali uns votinhos de alguns indecisos e de descontentes com tudo e com todos. Não podemos afirmar com convicção que Catarina Martins é falsa. Faz parte do seu número de teatro a que a obriga a caça ou à dispersão de potenciais votos no PS, com o objetivo único de evitar uma maioria absoluta do PS.
  6. O BE e o PCP pretendem que a votação no PS seja a mais baixa possível, ainda que os votos vão para a direita, desta forma terão mais margem de manobra para, no contexto da Assembleia da República, pressionar o PS para impor políticas radicais. Sem uma maioria muito significativa do PS fica-se novamente na dependência das extremas-esquerdas do BE e do PCP com as inerentes dificuldades de governação pior do que a “geringonça”, ou, então, caminha-se para o país ficar na dependência da direita.
  7. Na campanha que a esquerda anda a fazer, não tenho a certeza se foi João Oliveira do PCP, andam por aí a dizer que se a direita ganha poderão vir campanhas de contestação socia e a instabilidade. Mas que raio de ponto de vista. Os portuguese não gostam que os ameacem e, quando assim é, vão mesmo para o outro lado. PCP e BE vejam se se acalmam. Estão muito agitados por debaixo dessa calma que aparentam.
  8. Há ainda os que falam e relembram com saudosismo o tempo de Salazar, (André Ventura recuperou a matriz do modelo do regime salazarista “Deus, Pátria, Família” ao qual acrescentou “Trabalho”). O regime de então utilizava todos os meios para neutralizar e difamar quem se lhe opunha. Atualmente a extrema-direita e a direita democrática utilizam a mesma estratégia da difamação.
  9. No caso de Ventura a suas narrativas populistas e demagógicas para baralhar a população são abissais. Então André Ventura não se tem afirmado contra a quantidade e qualidade de pessoas que recebem o RSI? Pois é! Mas a última dele foi negar agora o que afirmou poucos dias antes. Vejamos a resposta que deu ontem quando um jornalista lhe fez uma pergunta sobre o número de casos de “subsidiodependência no país”, à qual respondeu baralhando, para confundir, o que disse com o que não disse: “Como é que quer que eu tenha dados concretos sobre pessoas que recebem o RSI e que não devem? É você que os tem? As pessoas só veem e sabem que é assim. Sabemos quantas pessoas recebem RSI. Não sabemos, infelizmente, quantas pessoas o recebem indevidamente”.  Podemos deduzir que André Ventura passou do ser contra o RSI para o “fiscalizar a sério”. Isto é, quer saber das quarenta e tal mil pessoas que recebem RSI para quais são as “dezenas de milhar” (?) que o recebem indevidamente. Para saber quantas pessoas recebem aquele tipo de apoios, basta consultar AQUI. O problema de Ventura é o de saber quais os que o recebem e têm Porches à porta. Por outro lado, isso da fiscalização todos os partidos, da esquerda à direita a querem! Deixemos por agora o troca tintas.
  1. Voltando a António Costa. Em 20 de setembro de 2019 a revista alemã Der Spiegel escrevia sobre a “receita” do “confiável socialista” António Costa. Considerava assim como confiável o primeiro-ministro de Portugal. A autora, Helene Zuber, escrevia então: “Ele sabe como tirar um país da crise. O primeiro-ministro de esquerda, António Costa, salvou Portugal da falência. Enquanto isso, a economia está a crescer. Agora está prestes a ser reeleito. Qual é a sua receita para o sucesso? Quando António Costa conhece pessoas olha-as diretamente no rosto e sorri. Curioso, o primeiro-ministro português aproxima-se de colegas como Angela Merkel, aperta as mãos educadamente antes da entrevista ao vivo na televisão, ouve atentamente os cidadãos que se dirigem nas ruas ao seu chefe de governo. Parece estar sempre de bom humor, com o olhar levemente irónico dos olhos escuros por trás dos óculos sem aro. O simpático governante Costa, com seu governo de minoria socialista, tolerado pelos comunistas e pelo bloco de esquerda trotskista, resistiu por quatro anos - um feito que quase ninguém esperaria que ele fizesse. Dando-lhe o epíteto de "Geringonça", a oposição zombou da aliança quando assumiu o cargo há quatro anos. Costa tem um mandato bem-sucedido”.
  2. Quanto a Rui Rio Rui ele é um político popularucho que fala para o povo entender. Sem papas na língua diz o que pensa o que às vezes o prejudica. Daria um grande propagandista de feira com receitas para todas as maleitas. Nas entrevistas e nos debates mostra-se um exímio vendedor de um qualquer produto que alguém, se não pensasse, não hesitaria em comprar. Há, todavia, um problema. É que, depois do comprador abrir o embrulho e ao acabar de verificar que o produto verificaria que estava com defeito e que a devolução do material era impossível.
  3. Próximo de eleições a direita cata casinhos e tudo o que seja desfavorável que transformam e exageram para parecerem importantes. Esmiúça tudo para desviar o vazio apresentado nas suas propostas.
  4. O que Rui Rio diz disse no passado não têm muita relevância para o atual contexto. É uma incógnita o que se irá passar se ele ganhar as eleições e se uma potencial crise se confirmar. O que ele disse em 2017, quando candidato à liderança do PSD, ao responder a uma pergunta sobre a mudança de linha de rumo do partido, caso fosse eleito, assegurou que não iria haver mudança de estratégia e deu o exemplo da ex-ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, com quem teve divergências mas que, no seu lugar, seguiria a mesma linha, e que faria "igual" ou faria “pior” do que a governante.
  5. Então dr. Rui Rio, ir para o Governo e encontrar contas certinhas era tão bom não era?

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publicado às 17:02

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Os comentários que se seguem aos debates é suposto serem feitos por jornalistas credenciados e cada um com a sua orientação ideológica. A meu ver tenho constatado que a isenção e a independência, sobretudo na SIC, não são os pontos fortes dos intervenientes nos paneis de comentário.

Sou dos que considero que a comunicação social deve ter um papel relevante na critica e no escrutínio público do poder e, ao mesmo tempo, ter a liberdade de expressão e de opinião que devem ser estimuladas dentro dos limites da civilidade, da educação, da tolerância e de respeito pelo caráter de cada um.

Naquele canal televisivo os comentadores Ricardo Costa, José Gomes Ferreira e Bernardo Ferrão nos seus comentários tentam fazer passar para os telespetadores uma perceção de distanciamento ideológico, mas, para quem esteja atento aos pormenores, notará que incluem cirurgicamente pequenas "alterações”, provavelmente intencionais, ao significado ou às circunstâncias de um facto que possa sugerir algo em desabono do governo socialista e de António Costa.

Com a proximidade das eleições notam-se mais estas pequenas campanhas detratoras por via de jornalistas e comentadores. São opiniões, dirão. Certo. Mas também nos comentários sobre acontecimentos da política que se relacionem com a justiça e com a economia tiram da cartola algo do passado que introduzem no confuso emaranhado das lógicas em que se embrenham fazendo campanha e oposição partidária ao abrigo de fazer jornalismo. Não admira, têm que estar sintonizados com a “voz dos donos”. É normal.

Os jornalistas também são eleitores e terão as suas simpatias ideológicas e partidárias e alguns não as escondem, pelo que tentam fazer comentários positivos aos políticos do seu círculo ideológico-partidário e negativos para outros candidatos concorrentes colocando-os nos pratos de uma balança. Comentar desfavoravelmente a prestação de um interveniente político num debate que seja da simpatia do comentador pode favorecer o seu preferido em prejuízo do adversário.

Dou um exemplo como hipótese: quem estiver a comentar um debate entre, por exemplo, a líder do BE Catarina Martins e o líder do PSD Rui Rio poderá emitir uma opinião em que a prestação do BE foi mais bem conseguida do que a do PSD evidenciando os argumentos do BE ao fazer críticas ao PS. Assim, ao concordar com a crítica feita pelo BE ao PS potencialmente posso estar a condicionar pela negativa potenciais eleitores do PS que irão para o BE já que é pouco provável que haja eleitores do BE que irão votar PSD mesmo considerando a critica feita ao PS. Mas, pelo contrário, é mais provável que estes mesmos possam votar no PSD.

Como é possível em debates como os que temos visto entrar com pormenores que podem ser tecnicamente relevantes, mas que só contribuem para ruído e compressão da mensagem. Quanto a avaliações, tenham paciência! Catem também as falhas de pormenor nas narrativas de Rui Rio.

A obtenção de mais votos e, consequentemente, de deputados é, em quaisquer eleições, o grande objetivo dos partidos. Para as eleições que se irão realizar em 30 de janeiro há um outro objetivo que se apresenta: o do BE e do PCP é retirar votos ao PS para evitar que este tenha uma maioria absoluta.  Para a direita, no caso do PSD, o objetivo é o de conseguir mais votos alguns retirados ao PS.

Para os liberais de direita e para os extremistas de direita o objetivo é arrecadar mais votos, logo conseguir mais deputados, venham eles donde vierem, para que possam exercer pressão sobre o PSD para negociações pós-eleitorais. Para os partidos à esquerda do PS, chamados de extrema-esquerda, o objetivo é a obtenção de números de votos para pressionarem o PS a uma nova negociação.

Por entre estas competições para a obtenção de votos há também obsessões. A de Rui Rio, de Catarina Martins, marioneta do ideológico trotskista Francisco Louçã, do troca-tintas de André Ventura do Chega é o reconhecimento, mas que não dizem, de que António Costa é um político inteligente e competente que receiam e, por isso, jogam tudo para afastá-lo. É a pessoa de António Costa que é o político, o primeiro-ministro, o secretário-geral do PS e o defensor da democracia e do socialismo liberal constitucional que pretendem afastar.

O BE espera que, com o afastamento de António Costa, possa surgir um novo líder do PS como Pedro Nuno dos Santos que ceda ao BE e ao PCP e constitua uma nova geringonça caso a direita ganhe sem maioria, ou o PS perca as eleições. Só uma maioria absoluta do PS poderá ter a capacidade para afastar essa possibilidade.

O que todos temem por motivos diferentes, mas sobretudo o PCP e o BE, é que o PS liderado por António Costa possa conquistar uma maioria absoluta de deputados nas próximas eleições, que lhes tiraria a possibilidade de limitar e bloquear decisões fundamentais e a continuação de uma governabilidade estável do país para quatro anos.

No campo meramente de competição, para Rui Rio, António Costa é uma obstrução na engrenagem que o poderá elevar até ao poder. Está a ficar mais claro que para Rui Rio chegar ao poder precisa dos votos que possam vir de quem votou anteriormente PS e das franjas da direita que saiam das eleições para poder contar com uma maioria parlamentar, não negando em absoluto a possibilidade de também contar com os deputados do Chega.

No momento em que escrevo uma das últimas sondagens dá uma maioria de esquerda com algumas possíveis nuances. Segundo esta sondagem feita para o jornal Público, RTP e Antena 1 o PS conseguirá obter um mínimo de 104 deputados e um máximo de 113, neste caso a três lugares da maioria absoluta no Parlamento e podendo fazer negociações parlamentares com o PAN e o Livre, como defende Rui Tavares. Mesmo no cenário dos 104 deputados continua a existir uma maioria de esquerda com o BE, CDU, Livre (elege um deputado em qualquer dos cenários) e o PAN. Assim, a direita cresce, mas não ganha. O PSD em caso algum consegue uma maioria de direita para governar – nem no cenário mais otimista, nem mesmo com quatro deputados do PAN. Se assim acontecer Rui Rio vai confrontar-se, mais uma vez, com a oposição dentro do partido.

Mais do que uma maioria do PS é mais de temer uma maioria absoluta do PSD. Rui Rio apesar de se dizer do centro facilmente irá infletir para a direita por pressão da ala mais à direita do partido. Só PS ao conseguir uma maioria confortável nas eleições se pode libertar-se do jugo do PCP e, sobretudo, do BE ao mesmo tempo que poderá também influenciar Rui Rio a manter um rumo diferente. Note-se que para o caso duma revisão constitucional serão necessários dois terços de votos dos deputados.

O que Rui Rio propõe é uma espécie de continuação do modelo social que o governo de Coelho/Portas estabeleceu de 2011 a 2015, mas numa versão mais light.

Pode ser uma versão menos radical, mas, do mesmo modo, pelo que tem vindo a reclamar de modo mais ou menos astucioso é um modelo baseado na redução de impostos às empresas, de salários, do Estado Social, da tendência para a privatização da Saúde, da Educação, Segurança Social, etc., e tudo o mais que a fação mais neoliberal do PSD irá impor a Rui Rio que irá originar o agravamento das condições económicas, financeiras e sociais que se conhecem até que, segundo o próprio, haja crescimento económico. Podemos até concordar com alguns pontos mas o modelo que apresenta pode ser ajustado à realidade portuguesa e de com uma progressão e ritmo adequados seguindo uma outra via.

Tudo isto apesar de, em termos pessoais, apreciar a atitude de Rui Rio como político franco, aberto, por vezes realista, mas outras vezes demagogo e cheio de condicionais “ses”, que capta simpatias, que pretende ser do centro e não de direita, mas lá vai piscando o olho à direita e ao votantes do centro-esquerda verdadeiro partido social-democrata que é o PS em termos de comparação europeia como o Grupo do Partido Popular Europeu a que pertence o PSD e Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Sociais Democratas Parlamento Europeu a que pertence o PS.

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publicado às 19:18

Os trajes e os “ses” de Rui Rio

por Manuel_AR, em 14.01.22

Rui Rio e os seus trajes.png

Do debate entre António Costa e Rui Rio tirei duas conclusões, a primeira é que Rui Rio veste dois fatos conforme lhe dá mais jeito. Um dos fatos é o do político social-democrata que diz querer ocupar o centro político, é o fato com corte ajustado ao que diz ser o seu ideário. No debate de ontem vestiu outro fato cujo corte mal-amanhado pelo alfaiate que lhe deixou a aba e a manga do casaco demasiado descaídas para o lado direito.

Baralhou-se e baralhou quem o escutou. Quando António Costa disse que se demitiria se ficar em segundo, Rui Rio para assustar o povo especula que com Pedro Nuno Santos, como seu sucessor, a “geringonça” pode ser reativada. Qual foi o objetivo de Rio? Será concentrar os votos em Costa? Tal lógica de Rui Rio a partir das palavras de Costa não se percebe.

A maneira frontal de Rui Rio debater e tentar esclarecer complicou a análise das suas soluções para o país que poderá ter levado a que parte de quem o viu e ouviu estivesse menos preparada para compreender os aspetos técnicos das opções que tomaria para baixar impostos, para não atualizar salários, para privatizar a TAP e parte do Serviço Nacional de Saúde. Sobre alterações na justiça não soube explicar ao cidadão comum que não era uma forma subtil com que pretende controlar os juízes, ao propor a nomeação de portugueses idóneos (?!!) para ir para o Conselho Superior do Ministério Público ou da Magistratura. Porventura será algo idêntico ao que está a acontecer com a Polónia e a Hungria que ameaçam "valores fundamentais" da União Europeia, como a independência do poder judicial e a defesa do Estado de direito. Para Rui Rio tudo foi um pouco atabalhoado e cujos resultados são duvidosos quer na sua eficácia, quer nas vantagens, se aplicados.

A segunda conclusão que tirei é no domínio do “Se”, como no caso da baixa do IRC e IRS, do crescimento económico. A primeira é que, no que se refere à economia as empresas terão logo baixa no IRC para a economia crescer tudo o resto se verá ou adiará. É fácil resolver problemas assim.

Por entre outras soluções tiradas da cartola para resolver os problemas do país que tenciona aplicá-las se as atuais circunstâncias se mantiverem. Está a aproximar-se uma crise, consequência da pandemia C-19, com o aumento das energias, a inflação, aumento das taxas de juro, etc., daí que é muito fácil prometer apenas e se tudo se mantiver como está. Mas as incertezas são várias nada pode estar garantido, por isso Rui Rio ter-se mantido numa atitude de “Se”…

Em quase tudo o que disse Rui Rio a vestimenta que apresentou com abas e mangas descaídas para a direita são o modelo light do neoliberalismo do último governo PSD-CDS com a diferença de que um desculpou-se com a crise financeira e com a troika e Rui Rio irá, se ganhar as eleições, desculpar-se com a crise energética, aumento das matérias-primas, crise económica e aumento das taxas de juro. Com Rui Rio é tudo no domínio do se.  Nada está garantido se ganhar e for da responsabilidade dele o novo orçamento que, segundo ele será apenas para sei meses a contar da data da eventual aprovação.

Estas são as conclusões que tirei e que me interessam para tomar uma decisão sobre o meu sentido de voto. O que está implícito no modelo que Rui Rio apresenta é para os cidadãos esperarem dois ou mais anos, dependendo de que a economia melhor, depois, quanto aos impostos, logo se verá. Mais um “Se”.

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publicado às 17:32

 

  

Será a censura que incomoda Pacheco Pereira? | Nota da Direcção | PÚBLICO

O que revelam os debates

A racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates.

José Pacheco Pereira num artigo de opinião publicado no jornal Públicode faz uma análise dos debates que, de certo modo, coincidem com os meus pontos de vista enquanto telespectador atento.

Os intervenientes nos debates partidários, assim como os comentadores que se lhes seguem, preocupam-se mais com pontos de vista efémeros do que com a verdade e a isenção, sobre assuntos muitas vezes longe das suas áreas de competência profissional. São uma espécie de relatores do que se viu, mas, de acordo com a sua idiossincrasia ideológica e partidária avaliam positivamente os intervenientes que mais dela se aproxima podendo assim influenciar o público o sentido de voto.

O que revelam os debates

(José Pacheco Pereira, in jornal Público, 08/01/2022)

A racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates.

Numa campanha eleitoral que se passa quase exclusivamente na comunicação social, os debates televisivos, mais de 30, acabam por ter mais importância do que se fossem mitigados por eventos de campanha, que a pandemia hoje não permite. (*) Já escrevi e repito, apesar da fúria de alguns jornalistas e gente de agências de comunicação que precisa de os bajular: uma campanha eleitoral totalmente dependente da comunicação social abre caminho a perversidades. Não se trata de mediação, que é suposto ser uma função fundamental da comunicação social, trata-se de opinião, de manipulação, de parti-pris, simpatias e antipatias escondidos sob a intangibilidade da condição profissional. Não é preciso ir mais longe do que a recente campanha interna no PSD em que a maioria dos jornalistas e órgãos de comunicação social fez campanha por Paulo Rangel e contra Rio. A coisa foi tão evidente que não é preciso dar exemplos, mas, se for preciso, abundam.

Os debates, quando não têm um interlocutor suplementar que interfere de forma agressiva no debate, prejudicando-o (como se passou em debates da SIC em que parecia que havia um terceiro participante na campanha), na parte em que há um genuíno frente-a-frente são reveladores e podem ter um papel na opinião traduzida no voto. Eles revelam, em primeiro lugar, as qualidades e defeitos pessoais dos antagonistas, traços de carácter por detrás da encenação, o que sabem ou não sabem, a inteligência, a capacidade de clareza, a riqueza vocabular, a cultura política ou a sua ausência, a experiência e aquilo a que os sociólogos chamam background assumptions, as ideias, preconceitos, gostos, que estão por detrás do discurso público. Nisto os debates são razoavelmente eficazes, e a logomaquia dos comentários posteriores pode ser útil na sua revelação e escrutínio.


É, no entanto, verdade que essa torrente de comentários, mesmo os melhores - porque muitos não têm pés nem cabeça e resultam em “notas” absurdas para mostrar como são originais os “professores” ou são exercícios de La Palisse –, se tornam em grande parte desnecessários porque os espectadores apreendem com facilidade este aspecto da comunicação, que é empático e por isso imediatamente transmissível. Por exemplo, a frieza de Catarina Martins e Rui Tavares, o cansaço de Jerónimo, a habilidade de Costa, os labirintos em que se enreda Rio, a agressividade monocórdica de Ventura, tudo isto se percebe de imediato, seja quais forem as simpatias que se tenha por cada um deles.

Depois, há um outro nível, que é o da racionalidade, normalmente num exercício de “revelação” do outro, em que o grande e o único exemplo foi o de Rui Tavares face a Ventura. Mas a racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates. Quando Cotrim de Figueiredo disse que o Bloco de Esquerda era o “Bloqueio de Esquerda”, designação trazida no bolso de casa, acabou por conseguir que ela fosse repetida nos títulos comunicacionais – porque era para isso que tinha sido preparada –, mas por outro lado mostrava que nada mais do que dissera valia a pena repetir.

Ventura, que foi a personagem-chave nos primeiros debates pelo estilo agressivo, pareceu dominar, mas esse aparente domínio revelou algo que lhe é prejudicial, a repetição de acusações, invectivas, afirmações de peito cheio, mas de cabeça vazia, vai perdendo eficácia à medida que os debates com ele são sempre a mesma coisa. O seu único sucesso foi com Rio, que ele enredou em directo, com todos os outros ficou a falar sozinho, sem ter nada para dizer. Também aqui o debate mais conseguido foi o de Rui Tavares.

Aquilo para que os debates pouco servem é para discutir propostas ou programas de governação, com o tempo curto de mais para pensar e discutir a sério. Numa atitude hipócrita, a comunicação social está sempre a queixar-se de que não se discutem os “problemas dos portugueses”, porém aceita um modelo que impede qualquer discussão, mas que é bastante para o espectáculo, para os truques e armadilhas preparados. A rigidez da legislação eleitoral tem também um papel, ao multiplicar de forma absurda o número de debates para assegurar artificialmente a igualdade das candidaturas.

Há também um outro aspecto que é negativo nos debates tal como estes se têm desenvolvido. A obsessão de os transformar em combates, que é comunicacionalmente mais atractivo, impede que se tracem as “linhas vermelhas” com propostas antidemocráticas que o crescendo populista está a colocar em cima da mesa. Ora o populismo é a grande novidade na vida política portuguesa.

Não adianta chamar fascista a Ventura, que não o é, mas sim um extremista de direita, que já basta como epíteto e é mais correcto, mas já se ganhava alguma coisa se ele fosse confrontado com as suas propostas antidemocráticas que ele debita como se fossem “normais”. Um exemplo é a de “cortar” os lugares de “políticos” pela metade, ou a de cortar os salários dos deputados para metade, que parecem populares, mas que são intrinsecamente antidemocráticas. Alguém lhe explica que nos milhares de lugares “políticos”, nas autarquias, por exemplo, a esmagadora maioria não são remunerados, mas o sinal de uma dedicação à causa pública, ou uma democratização da participação popular? Ou que a demagogia sobre os salários dos políticos, conduz a que haja apenas candidatos desqualificados para quem qualquer salário é bom, ou lobistas ricos com rendimentos que não precisam de ganhar um tostão para beneficiar do acesso ao poder? Ou pura e simplesmente dizer-lhe que numa democracia há o primado da lei, e que as garantias de defesa e do ónus da prova são para todos, assassinos e corruptos incluídos. E que penalizar os “crimes de colarinho branco” com o dobro das penas dos assassinos é uma perversão da justiça, por muito que os seus apoiantes salivem com os “casos” de corrupção e se revelem indiferentes aos crimes de ódio. Em tudo isto e muito mais, tem havido falta de coragem para confrontá-lo, porque estas posições só são populares quando não se combatem com a intransigência da democracia.

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publicado às 18:31

O tempo da justiça beneficia o infrator

por Manuel_AR, em 13.12.21

Tempo da justiça e do infrator.png

Para além do mais o processo João Rendeiro traz-nos a propósito a criminalidade que fez escola nos últimos anos e a benignidade da forma como a justiça portuguesa muitas das vezes trata os crimes perpetrados por poderosos da alta especulação por atividades financeiras especulativas e ilícitas. A corrupção passiva e ativa de políticos, banqueiros e seus satélites deixa-nos a perceção de impunidade desses senhores arrogantes que nos fazem de parvos.

Os senhores da alta finança sabem e acreditam ou, se preferirem, acreditavam, que o seu estatuto e os meios de que dispõem os tornam intocáveis perante um poder político e uma justiça que se vai arrastando passinho a passinho.

Quando apanhados não ficam sem chão, com o dinheiro ganho em negociatas, recebimentos de luvas ou subtraído a outrem, recorrem aos melhores, mais caros e mais conhecidos escritórios de advogados especialistas na área que os vão “safando” e protelando o final da chatice, por vezes até às prescrições dos processos. Acreditar na justiça e deixar a justiça fazer o seu trabalho sim, mas há limites! Veja-se por exemplo o caso do julgamento de Duarte Lima, antigo deputado do PSD, acusado pelo homicídio de Rosalina Ribeiro, ocorrido no Brasil em 2009, vai iniciar-se só em 9 de março de 2022 no Juízo Central Criminal de Sintra, 12 anos depois.

E não deverá ficar por aqui, surgirão “pauzinhos na engrenagem” para continuar a empatar. Nada disto passa em branco numa sociedade que contempla tudo isto. Dizem-nos que há o tempo da política e o tempo da justiça. A sério?!

Ainda a propósito de João Rendeiro tem-se falado e escrito muito na última semana, mas e outros casos que não fugindo andam por aí, aguardando ou adiando julgamentos e possíveis condenações o passa para a opinião pública a ideia da demasiada complacência para com esses senhores.  Deram-lhe tempo para tudo inclusivamente para fugir.

Conforme tem sido divulgado pelos órgãos de comunicação social Rendeiro teve tempo para vender bens imobiliários, obras de arte, engendrou moradas falsas na Polónia e até teve tempo de sobra para preparar a fuga com tal desplanto que parece um filme de uma série policial em que, no final o criminoso consegue escapar-se indo passar os seus dias numa praia de um qualquer paraíso. Não terá sido apenas João Rendeiro que sozinho arquitetou todo plano, decerto que teve como conselheiros advogados estrategas nestas andanças.

Os populismos da extrema-direita sabem bem aproveitar tudo isto lançando desconfianças acerca da justiça em Portugal devido à disparidade de acesso e de tratamento entre arguidos com mais ou menos posses.

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publicado às 18:50

PSD diretas-sebastianismo (1).png

A propósito das eleições diretas no PSD, independentemente de quem as ganhe, é fácil antecipar que, durante as próximas semanas, ouviremos falar de entrevistas e comunicações até à saturação sobre a derrota ou a vitória de um dos ainda candidatos.

Permito-me fazer um prognóstico sobre quem vai liderar o PSD, se Rio ou Rangel. Com a esperança de me enganar acho que Rangel será o ganhador. E, se o for, é válido o pensamento de quem considera que foram comentadores na maior parte da comunicação social que para isso contribuíram.

Para os militantes do PSD, se não a maioria, o partido está há cerca de seis   anos fora da governação do país, e a saudade é muita, e muitos dos seus boys anseiam por cargos. Muitos embarcam no mito tipo sebastianista, isto é, delírio sentimental e ideológico, para eles verdadeiro, embora racionalmente falso. O “passismo”, é o motor dos militantes e adeptos do PSD que os força a acreditar na personificação de Passos Coelho e do seu ideário em Paulo Rangel.

 Como também salientei no  blogue com o título “As eleições diretas no PSD que podem transformar-se em indiretas” Sousa Tavares escreveu no semanário Expresso: “Rangel recusa-se a dizer o que fará se ganhar sem maioria absoluta ou que lhe permita governar em coligação à direita ou o que fará se o mesmo acontecer ao PS; Rio diz que o interesse do país e da governabilidade está à frente do interesse do partido e, portanto, facilitaria um Governo do PS minoritário, esperando que o PS fizesse o mesmo a um Governo PSD minoritário.”

A grande diferença é que Passos Coelho quando primeiro-ministro era pouco palavroso, nada meloso, pouco demagógico, transmitia segurança mesmo a quem não aderia às suas ideias neoliberais e, sobretudo, não era propagandista de ideias falsas, fazia o que estava nos seus projetos mesmo sabendo que desagradava, ao contrário de Rangel cujo discurso é perigosamente demagógico e falacioso e vive num ideal só dele sobre o que acha deve ser será um opositor e um primeiro-ministro.

Desde então a verdadeira identidade política do PSD foi-se perdendo com o Governo de Passos em coligação com Paulo Portas sob supervisão da troika. Estava a reajustar-se com Rui Rio quando apareceram os antigos apoiantes das políticas de Passos como Luís Montenegro e, recentemente, Paulo Rangel que irá contribui para a lavagem daqueles anos que tem estado em curso, para gáudio dos nostálgicos passistas.

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publicado às 17:59

Mais do mesmo e o bluff da maioria absoluta

por Manuel_AR, em 24.11.21

Bluff das esquerdas (1).png

Neste blog já abordei o tema do temor de maiorias absolutas manifestado pelo PCP e pelo BE. A propósito entrou na calha a vez a Jorge Cordeiro, membro da comissão política do PCP, defender, quinta-feira 11 de novembro, que uma maioria absoluta aproximaria o PS de uma política de direita e premiaria o partido que "devia ser castigado" ao mesmo tempo que acusa António Costa de apropriação de propostas apresentadas pelo PCP.

Acusa e tenta descredibilizar António Costa ao afirmar que ele fez bluff nas negociações porque queria eleições legislativas antecipadas e acusa ainda o PS de se apropriar “indevidamente” de propostas do PCP para as incluir no programa eleitoral com que se apresentará ao eleitorado nas eleições de 30 de janeiro. Permitam-me duvidar de Jorge Cordeiro. Será que o bluff vem só de um lado? Durante todo o debate sobre o OE para 2022 o bluff partiu do PCP.

Como pode ler aqui as maiorias absolutas são, para o BE e para o PCP, uma obsessão fóbica. Estes partidos e os seus dirigentes têm um medo patológico de carácter obsessivo de que se possa vir a concretizar uma maioria absoluta do PS o que se torna evidente quando Jorge Cordeiro concretiza que “o PS tinha um objetivo: alcançar a maioria absoluta, porque imagina que com essa maioria absoluta pode ficar mais livre para fazer aquilo que quiser”.  

A pergunta que também que se pode colocar é: e se a direita conseguir uma maioria absoluta já não há problema? A atitude anti PS é uma visão das esquerdas radicais que parece indiciar que, para elas, é pior uma maioria absoluta do PS do que uma maioria absoluta da direita PSD sem ou em coligação com outros partidos como já se verificou no passado quando o BE e o PCP votaram ao lado da direita abrindo alas ao governo de Passos Coelho.

O empenho em recuperar votos perdidos é tal que o bom senso se perde na verborreia partidária do PCP e do BE. Uma coisa é fazer campanha para fazer passar uma mensagem com propostas concretas ao eleitorado para captar votos, outra é fazer campanha com ataques sistemáticos, sem fundamento válido. É evidente o objetivo. O partido de onde poderão captar alguns votos, por algum descontentamento, é o PS.  A atitude anti PS do PCP não é nova. No passado o seu alvo de ataque era também o PS. Aliás, Jorge Cordeiro não se acanha em afirmar isso mesmo: “as eleições são uma oportunidade para o reforço da CDU com a garantia de que com mais deputados poderemos ter melhores condições para assegurar uma trajetória política no país que valorize salários, direitos e o SNS”. Nada de novo, as ferramentas mobilizadoras do PCP para melhorar e fazer crescer o país são os sucessivos aumentos de salários, aumentar direitos e ao mesmo tempo reduzir deveres e menos horas de trabalho. A demagogia no seu melhor. Tudo isto é socialmente justo desde que isso não possibilite debilitar empresas, aumentar o desemprego e quebrar o país. Quanto ao SNS, o BE e o PCP nada concretizam, a direita também faz oposição utilizando os mesmos argumentos, portanto, também aqui nada de novo o que nos apresentam aqueles partidos.

Quando há eleições, como os portugueses já se habituaram, o objetivo assenta na tónica do ataque ao PS. Para aqueles partidos o alvo não é a direita. A direita, para o PCP e o BE, transforma-se então numa aliada.

Tal e qual como diz Fernando Rosas num artigo de opinião com o título Tempo dos Oráculos onde critica comentadores que, segundo ele, “sentenciam que a esquerda consumir-se-á no fogo dos infernos e o regresso ao bloco central ou à direita desenha-se certo nos despojos da razão.” Nem a propósito,  porque para se ter o voto dos eleitores o que importa são as intervenções que o intimidem e manipulem. O voto pelos projetos para o país, muitas vezes inexequíveis, ficam para segundo plano.  

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publicado às 19:35

Esquerda desconcertada (1).png

A propósito da crise gerada pelo BE e pelo PCP que estes partidos pretendem imputar ao PS, o desconcerto de Catarina Martins do Bloco de Esquerda, coadjuvada por opiniões e comentários de Francisco Louçã Fernando Rosas e Daniel Oliveira e outros comentadores, cada um ao seu estilo, saem do quadro da razoabilidade política.

Catarina Martins dia sim, dia sim, afirma que o Primeiro-ministro “quebrou pontes com a esquerda na obsessão da maioria absoluta” que a culpa de tudo o que se passou durante a discussão do O.E. 22 não aprovado juntamente com a direita é da responsabilidade do PS e, claro, de António Costa.

Catarina diariamente traz inovações e retóricas para demonstrar que a crise política é “artificial, desnecessária e é um truque de António Costa”. Parece uma obsessão compulsiva da Catarina estar a ser perseguida por maiorias absolutas.

É uma obsessão de Catarina e também de Jerónimo atacarem o PS que é, segundo eles, onde está o grande perigo.  Para eles o perigo não vem da direita, vem do PS. Esta obsessão está rapidamente a transformar-se numa fobia da maioria absoluta do PS. Estão a ficar partidariamente megalofóbicos, ou seja, estão a ter medo de algo maior do que para eles é considerado o normal. Isto é, sentem-se desconfortáveis e agitados, por um partido ou um personagem que possa vir a ser maior e mais poderoso (PS?), (António Costa?).

A fobia é um medo irracional e desproporcional em relação a algo. O medo é uma emoção causada por um tipo de ameaça ou dano real ou ilusório. A reação ao medo é um mecanismo de defesa adaptativo e de grande utilidade, pois serve como um aviso de perigo. É entre o medo e a fobia que os partidos, quer o PCP, quer o BE, se situam.

E para sublimar os seus medos e combaterem a sua fobia (a da maioria absoluta do PS) repetem os mesmos argumentos fazendo de alvo o PS. A sublimação é o mecanismo de defesa que transforma uma frustração e energia em impulsos que possam ser bem vistos pela sociedade e, neste caso, também úteis para os partidos.  Isto é, a sublimação ameniza, por exemplo, dor, angústia, frustração, entre outros.

Jerónimo de Sousa do PCP, embora mais moderado, segue os passos de Catarina. A sua obsessão  é também o chamado bloco central com que “A direita sonha novamente”, dizem. Sobre isto Jerónimo de Sousa lá vai lançando para o ar que (eles) "queriam e querem, no fundo, que o PS consiga uma maioria absoluta e, se depois perder, roda outra vez para os partidos do chamado 'bloco central'. Começa-se outra vez a ouvir falar no bloco central. Corrigidas as zangas lá na direita, do PSD e do CDS, lá sonham outra vez com o bloco central", sustentou em 6 de novembro Jerónimo de Sousa, num discurso no final de um jantar comemorativo do centenário do PCP.

Para além desta obsessão Jerónimo de Sousa acumula à semelhança de Catarina a fobia da maioria absoluta do PS e, para evitar tal “catástrofe” (este nome que aqui insiro é ironia), Jerónimo de Sousa também pede o voto no PCP que é a forma de evitar a maioria absoluta do PS e o regresso do "Bloco Central". Estas obsessões da maioria absoluta têm como objetivo enfraquecer o PS e recuperar votos perdidos.

Isto do Bloco Central é um mito que serve como prenúncio de um mal que é utilizado pelo BE e pelo PCP. Duvido que o PS vá alinhar numa fórmula como de entendimento político entre o Partido Socialista e o Partido Social-Democrata.  Entre 1983 e 1985, com Mário Soares como primeiro-ministro partidos na altura de centro-esquerda e de centro-direita respetivamente formaram uma coligação de Governo. Os dois partidos à esquerda do PS, críticos da U.E., serão sempre contra coligações como a que foi feita na Alemanha, a denominada Grande Coligação, que durou cerca de dezasseis anos e que proporcionou estabilidade no país.

Em Portugal um acordo ao centro seria possível sem ser como Bloco Central que possuiu uma carga negativa. Seria antes uma espécie de “trotinete”, uma espécie de compromisso assente em dois partidos cuja extremidade guiadora seria o governo e que permitiria dirigir as duas rodas (partidos) e se propelia com o impulso dos dois.

O que Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, cada um a seu modo, estão a tentar com as suas declarações não é mais do que uma gestão/reparação de danos que os respetivos partidos causaram a si próprios culpabilizando o Governo e o PS. Em sentido figurado, claro, tudo está a passar-se como se, após um "crime", o "criminoso" culpasse a vítima por ter morrido.

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publicado às 19:30

Comentário e opinião.png

Quem sou eu para, bem ou mal, comentar o que doutos comentadores, professores catedráticos, experimentados políticos, advogados chamados para comentadores, conceituados jornalistas e muitos outros, muitos deles sentados nos bancos do serviço público que nada têm a perder.  A estes podemos juntar ainda os que se movem no mundo do privado que escrevem, opinam e publicam nos vários órgãos de comunicação social da imprensa à televisão.

Quando emito uma opinião, por muito fundamentada e acertada que seja, consegue ser, para frequentadores das redes sociais, menos credível do que as “fake news” que eles partilham e multiplicam num ápice.

Entendo que a análise política é diferente do comentário e da opinião política. Assim, uma afirmação sobre um facto pode ser comprovada como verdadeira ou falsa. Um comentário é algo que se diz ou escreve e que expressa uma opinião pessoal. Expressa sentimentos subjetivos sobre um facto ou factos, mas que não podem ser provados. As opiniões podem ser baseadas em factos e, muitas vezes pretendem aliciar outros deliberadamente para as posições de quem as emite. A análise política grosso modo aborda ou aprofunda a origem dos sistemas políticos e o modo como se desenvolvem e funcionam. Pesquisa e analisa governos, ideias políticas, políticas, e as suas tendências entre outros temas.

Quando o comentário e a opinião pretendem ser preditivos e substituir-se à análise política transformam-se duma espécie de oráculos o que é frequente verificar-se nos comentários e nos frente a frente televisivos.

Considerar que face a acontecimentos presentes comparativamente com o passado colocar várias hipóteses que poderão ser confirmadas, ou infirmadas, é uma coisa, outra é, dizer-se que vai acontecer isto ou aquilo com base em circunstâncias tão fluidas como são as da política. Vejamos o seguinte exemplo: quando se afirma que a “geringonça” chegou ao fim, ou que a destruição da esquerda está à vista, ou que a direita não ganhará as próximas eleições através de informações vagas e dados insuficientes é aproxima-se de oráculos.

O prof. Fernando Rosas, pessoa por quem tenho imensa consideração enquanto intelectual de esquerda, escreveu num artigo de opinião no jornal Público a propósito do “tempo dos oráculos da desgraça” que vê numa “campanha destinada a tentar fazer as forças de esquerda pagar a ousadia de, desta vez no seu conjunto, votarem contra o Orçamento de Estado (OE). À exceção dos seus próprios argumentos e predições tudo quanto se alvitrar sobre isto do que possa acontecer à esquerda são oráculos. Considera que “há uma vaga oracular que assenta num punhado de fábulas mistificadoras” que tenta justificar.

Sobre os oráculos em geral concordo com Fernando Rosas, porque há muitos comentários e opiniões que por vezes são mais oráculos do que pontos de vista. A tentativa de desconstrução das opiniões que ele toma como fábulas mistificadoras vão no sentido de purificar os falhanços do BE devido a radicalismo e sectarismo. Note-se que o prof. Fernando Rosas foi um dos fundadores do Bloco de Esquerda.

Fernando Rosas apresenta quatro pontos, a que chama fábulas mistificadoras, que, segundo ele fundamentam a sua tese.  Razões que, na minha opinião, fogem às verdadeiras questões. Foi criada uma crise sim porque se ousou “votar contra um OE por se considerar que ele não serve os interesses do país” e sim foi uma “irresponsabilidade” apesar de haver “outras soluções constitucionalmente possíveis.” Seria que qualquer uma dessas outras soluções, dado os pressupostos do PCP, e, sobretudo, os do BE evitariam uma crise num futuro próximo?  Creio que não porque estas forças quiseram impor o seu próprio orçamento ao Governo descaracterizando o inicial.

A segunda que Fernando Rosas aponta como mistificação é uma falácia baseada numa hipotética obsessão de António Costa por uma maioria absoluta e que, por isso, desejava uma crise. Este ponto é uma possibilidade sem fundamento. O desejar-se algo não significa que esse algo aconteça, aliás há sondagens que neste momento desmentem tal argumento.  A crise foi desencadeada pelo PCP e pelo BE porque foi evidente que de facto que “o Governo “cedeu tudo o que podia ceder” para salvar o OE. Sim, tendo em vista as boas contas públicas com redução possível do défice e redução da dívida. O BE não entende isso dos mercados e das dívidas dos países, ou melhor, entende, mas como é pela revolução permanente deveria cortar-se com o Mundo. Os restantes argumentos do segundo ponto são pontos de vista subjetivos e muito discutíveis.

O terceiro ponto ou mistificação passa, segundo diz Fernando Rosas, por ser uma dramatização sobre o que perdem os funcionários públicos ou os pensionistas pela não passagem do OE ao escrever que o “Governo em funções pode e deve, mesmo sem aprovação do OE, proceder aos aumentos e atualizações anunciados para cada um destes casos”. Então, assim sendo, os OE em alguns casos são uma espécie de jogo que se faz entre partidos e que, aprovados ou não, tudo pode continuar como se nada tivesse acontecido. Parece-me uma visão um pouco enviesada.

A quarta mistificação apresentada por Fernando Rosas é quando escreve que é um oráculo feito por alguns que “faz furor no comentário político dos oráculos, é de que a esquerda que hoje não se entende não será solução para uma maioria futura”. Acrescenta ainda que este é um “argumento surpreendente, pois é a direita que parece estar triplamente descredibilizada”, e “porque é ela que se esfarela em cruentas lutas intestinas para saber quem apresenta ao ato eleitoral e que “para governar, as direitas todas juntas precisam de maioria absoluta e parecem estar longe dessa possibilidade”.

Será assim? Verdade é que a direita anda descredibilizada e em lutas intestinas e por isso não terá maioria para governar. Estes argumentos também me parecem ser oráculos. E se, entretanto, a direita se conseguir reorganizar?

O argumento que faz depender dos problemas internos nos partidos de direita e das circunstâncias políticas atuais um possível entendimento à esquerda, parece-me estar a desvalorizar qualquer hipótese de a direita vir a ter maioria. Repare-se que no caso do PSD se Paulo Rangel ganhar a liderança assumiu acordos com a Iniciativa Liberal. Por outro lado, o CDS está a ser desfalcado de militantes que, na melhor das hipóteses, irão engrossar o IL e já não incluo o Chega. O imprevisível em política acontece.

Mantendo-se os partidos à esquerda do PS, PCP e BE, irredutíveis e na negação de cedências e de acerto de alguns consensos e compromissos é também provável que, mesmo que uma maioria de esquerda saia das próximas eleições, seja mais difícil manter-se um acordo semelhante ou melhor do que a passada “geringonça”. O contrário disto será um otimismo e uma profecia de Fernando Rosas. As dificuldades que existem na direita são um argumento aceitável, contudo, quem diz que após a sua organização maioria de direita não poderá vir a ser uma possibilidade, então, lá estará a esquerda toda tramada. E a responsabilidade será então de quem?

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publicado às 19:04

Daniel Oliveira e PS.png

A propósito, e mais uma vez, do chumbo do Orçamento de Estado para 2022 pelas esquerdas radicais, Daniel Oliveira, ex-Bloco de Esquerda de que foi um dos fundadoresn e do qual abandonou a militância, sendo hoje independente afirmou no programa "Sem Moderação" que o PS deseja a perda de força da Esquerda para virar ao centro e aniquilar a sua ala mais progressista.

Segundo Daniel Oliveira o chumbo do orçamento foi perpetrado por aqueles que agora dizem que a culpa foi de quem o queria aprovar, isto é, o PS. Isto parece algo como se alguém partisse um copo que estava na mesa e depois viesse desculpar-se dizendo que a culpa foi de quem colocou o copo na mesa.

Mas, afinal, quem poderia aceitar as propostas do BE e do PCP para alteração do O.E. que iriam colocar novamente Portugal no fio da navalha orçamental, dando passos mais compridos do que a perna.

Daniel Oliveira afina o seu diapasão com Catarina Martins e com Francisco Louçã e arroja dizer que “Há uma parte do PS que quer secar o Bloco de Esquerda e o PCP, e isso é por causa do próprio PS”. E que “Há uma parte que vê grande vantagem nisto", para virar o PS ao centro. Talvez até não fosse mau de todo, mesmo os que são de esquerda começam a estar fartos especialmenet do BE. Os que ainda seguem as teses do BE no que se refere ao chumbo O.E. ou são os seguidistas a todos o custo e os sectários.

A política é uma ciência social recente não exata, baseia-se nas probabilidades não quantitativas dos  acontecimentos, a não sere em sondagens. Procede à análise dos fenómenos que impliquem a existência de poder político, ou seja, dos fenómenos que impliquem a capacidade de influenciar os indivíduos. Para tal tenta explicações prováveis mais ou menos fundamentadas, por meio de estudos, observações e experimentações, esta última difícil de executar em ciência política.

Sobre política o que nos chega, a nós, leigos, não são os resultados de investigações sistemáticas e metodológicas, são apenas comentários e opiniões transformadas em hipóteses não comprovadas empiricamente, e as intervenções de políticos, essas, conforme as ocasiões do tempo político.  

Deste modo, quando se dão opiniões ou se escrevem comentários sobre política, mesmo os que estão nos seus meandros baseiam-se nas informações que têm e em decisões aproximadas tendo em conta factos, experiências anteriores e informações obtidas nos momentos.

Voltando ao propósito de Daniel Oliveira é interessante analisar a sua análise doa acontecimentos políticos que estão implícitos na sua afirmação de que "a radicalização da Direita facilita" o processo, ao mesmo tempo que a "perda de força do Bloco de Esquerda e do PCP libertam o voto para a extrema-Direita". Esta afirmação causa-me alguma perplexidade. Então se o BE e o PCP perdem força a consequência é o voto ser libertado para a extrema-direita? Mas os votos libertados de onde e de quem vão para a extrema-direita?  

E mais, teorizou ele, "Dá-se uma inclinação total do sistema político para a Direita por falta de força da Esquerda, e isto tem a ver com lutas internas no PS."

Alguém por aí me ajude a perceber!

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publicado às 19:28


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