Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Um refrão sobre o povo da nossa terra

por Manuel_AR, em 18.09.21

Gente da minha terra-2.png

Este texto foi escrito em 2016, já lá vão exatamente cinco anos. Reli-o e continuo a considerá-lo atual pelo que resolvi publicá-lo novamente após uma curta revisão e inseri algumas atualizações até porque é tempo de eleições autárquicas em que o nosso povo é mais envolvido e motivado para ir às urnas para eleger o seu poder local. 

No entanto, devo alertar para generalizações que não se deverão fazer. A generalização sendo uma operação mental que consiste em comparar as qualidades comuns a uma classe de indivíduos, desprezando as suas diferenças e reunindo essas qualidades comuns numa só ideia, corre-se o risco de transformar premissas em extensões arbitrárias de valores e de avaliações menos corretas podendo incorrer-se numa falácia. As generalizações podem, imprudentemente, levar a retirar uma conclusão geral da análise de uma situação particular ou de situações particulares que não são representativas de todos os casos possíveis.

Dizer, por exemplo, que os portugueses têm uma determinada característica estaria a incluir também portugueses que poderão não a ter. Exemplo: Pedro é político e boa pessoa. Por isso, todos os políticos são boas pessoas. Também quando se diz que os portugueses são invejosos não quer dizer que os portugueses X, Y e Z o sejam.

Quando me refiro à gente do meu país ou da minha terra, eu e o leitor, poderemos, ou não, estar incluídos nos atributos referidos. Se for o caso, cada um que calce o que lhe sirva. Muitos escritores o fizeram sem apelo nem agravo atribuindo-lhes características que nem todos tinham.

Resta esclarecer, para que puristas de género não me venham acusar de “machista”, que as palavras que escrevi quando foram do género masculino referem-se também ao feminino, evitando os parênteses à frente para (o/os) e o (a/as). Neste contexto, os portugueses e a gente do meu país são todos independentemente do género.

Para finalizar que me desculpem também os adeptos de futebol pela crítica que faço aos comentários que muitas vezes se vêm e ouvem nas televisões, as críticas não se dirigem a eles, mas sim aos que as pronunciam estupidificando os espectadores.

Posto isto, relembro o refrão “Ó gente da minha terra” de um fado interpretado por Mariza entre outros cantores. Contrariamente ao que consta por aí não foi ela que o escreveu. O mérito deve-se à excecional interpretação. Esta canção tem música de Tiago Machado e poema de Amália Rodrigues e o refrão versa assim:

Ó gente da minha terra

Agora é que eu percebi,

Esta tristeza que trago

Foi de vós que recebi.

Inicio este “post” com esta quadra porque recordei autores como Eça de Queiroz e Guerra Junqueiro e outros tantos escritores e políticos que nas suas obras, cada um à sua maneira, traçaram perfis dos portugueses.

O povo português é muito acolhedor, sociável e hospitaleiro e recebe bem tudo quanto é estrangeiro e nos visita. Mostra, a seu modo, a sua subserviência disfarçada de hospitalidade. Genericamente é um povo que ajuda o seu próximo quando necessário, é solidário quando se trata de defesa dos interesses da sua comunidade em que se integra. Falsamente pacífico, introvertido apesar de alegre, preocupa-se mais com a vida dos outros do que em expor a sua. Há várias citações sobre os portugueses, algumas delas antagónicas.

Vejamos algumas dentre as várias personalidades do mundo da literatura e da política. Começo pelo Padre António Vieira, filósofo, escritor e orador português do século VIII que, numa das suas cartas escreveu: “Dizem que temos valor, mas que nos falta dinheiro e união; e todos nos prognosticam os fados que naturalmente se seguem destas infelizes premissas.”. Tem-se confirmado isto, os políticos que o digam.

Em 1997 António Lobo Antunes escrevia: “Eu gosto desta terra. Nós somos feios, pequenos, estúpidos, mas eu gosto disto.” Enfim, uma forma de nos olhar.

A gente do meu país tem uma incapacidade de autocrítica, tudo o que se faz de mal a culpa é sempre dos outros. Teve e tem a mania das grandezas. Fazer-se mais do que aquilo que é, é um dos seus atributos. Mostra aos outros aquilo que, na maior parte das vezes, não é.  A passividade e a falta de dinamismo são doenças sociais e crónicas que lhes foram inoculadas pela ditadura de Salazar que leva a nossa gente a ficar à espera que os problemas desapareçam. O "pai" Salazar e o clericalismo católico resolviam tudo menos a pobreza e a miséria, que a ambos interessava e estava patente nos seus discursos. "Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a pátria e a sua história. Não discutimos a autoridade e o seu prestígio. Não discutimos a família e a sua moral. Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.". Pronunciava Salazar num discurso em 1936. "Ensinai aos vossos filhos o trabalho, ensinai às vossas filhas a modéstia, ensinai a todos a virtude da economia. E se não poderdes fazer deles santos, fazei ao menos deles cristãos."

A não ser na altura dos descobrimentos, salvo algumas exceções, a originalidade da gente do meu país é parca, imita o que vem de fora, às vezes nem sempre o melhor. Não valoriza aquilo que tem de bom. Busca no estrangeiro o que há de pior e que passa a chamar de novo conceito. Não procura o que o pode distinguir pela diferença.

Felizmente que já pós a revolução do 25 de Abril muitos portugueses e portuguesas distinguiram-se lá fora. Aliás, os portugueses que emigraram eram considerados muito bons trabalhadores. Mas, cá dentro o trabalho é bom para os outros.talvez resquícios do colonialismo. O aumento de direitos, regalias e de salários  estão na ordem do dia e, sempre que possível, a redução dos deveres.

Estão na moda há algum tempo os chamados novos conceitos, termo querido pelos que são escolhidos a dedo e que são chamados às televisões para perorarem sobre os seus negócios inovadores que, passados meses ou poucos anos, acabam por encerrar portas. Quase sempre estes inovadores não transportam a qualidade até quem se destina o produto ou serviço. Muito pelo contrário. Caso típico é o da restauração. Proliferam por aí restaurantezitos, os tais dos novos conceitos onde passaram a colocar toalhetes de papel ou de plástico “made in China” colocados sobre uma mesa de ripas de madeira, onde, por vezes, mal cabem o prato e os talheres que se dobram ao cortar o hambúrguer e onde as pessoas se sentam em pequenas cadeiras do mesmo tipo ripado ficando conforme os casos com parte do traseiro fora do assento. Mas o mais caricato é que alguns colocam no interior mesas altas com cadeiras que é preciso escalar para chegar à mesa para comer amostras de iguarias, a que chamam degustação, inventadas pelo chef.

Depois há a ementa. Sob a capa de gastronomia tradicional portuguesa mostram preços com poucas diferenças dos restaurantes clássicos decentes. Ementas enganadoras proliferam desde pataniscas de bacalhau com arroz de feijão que são farinha frita com o sabor do dito. Esparguete à bolonhesa com escassez de carne picada que se afoga no meio duma tomatada do tipo "Ketchup". Hambúrguer no prato com salada e batatas fritas identificadas pelo sabor como de proveniência das mais conceituadas indústrias de congelação alimentar, entre outras iguarias do género. Onde está o bom sabor tradicional da boa batata frita caseira que nas verdadeiras tascas se servia? Não está. É batata congelada frita ou pré-frita.

Os fãs dos novos "conceitos" gastronómicos destes insípidos locais a quem a critica faz publicidade. A esses locais “sem caráter” atribuem os seus inovadores proprietários nomes à antiga portuguesa que se iniciam por Tasca do…, ou da…, Taberna da…, ou do…, Mercado de…, ou da… Muitos deles pertencem a cadeias que proliferam pelas principais cidades do país. E lá vamos nós, a gente portuguesinha a correr para desfrutar do novo conceito do bem comer e bem servir. No entanto quem pensa diferente e emite outros juízos é de imediato apelidado de conservador de retrógrado que se recusa acompanhar o progresso, ou de um perfeito "cota" por não aderir aos tais novos "conceitos".

Mas não ficamos por aqui. Vamos agora à língua portuguesa. Recupero da minha memória Lauro António que tinha um programa de crítica de cinema na televisão. Para fazer a apresentação do excerto dum filme para divulgação apresentava a peça de lançamento que Herman José posteriormente parodiou numa das sua peças humorísticas dizendo a certa altura: “let´s look at a trailer”. Isto passou-se há umas dezenas de anos.

A riqueza da língua portuguesa é depauperada pelos “senhores da comunicação”, sobretudo da rádio, e por quem convidam, que usam e abusam de palavras inglesas para se exprimirem, produzindo com elas uma amálgama de frases das quais se perde o verdadeiro significado. O português não é uma língua falada por meia dúzia de pessoas, porra!

Se alguém quiser dar-se ao trabalho de analisar por exemplo de línguas como a francesa e a espanhola não encontrará palavras de origem anglo-saxónica no seu vocabulário mesmo em expressões científicas e técnicas. Para salvaguardar a sua língua procuram termos adequados para o mesmo conceito.

Sim, já sabemos que há uma linguagem científica que é internacional e que as comunicações em congressos e outros eventos, são feitos em inglês que é a língua oficial. A distinção é que, internamente, naqueles dois países procuram termos equivalente para o seu vocabulário.

Mas nós, a gente portuguesa, queremos parecer originais, dar nas vistas e temos a necessidade de internacionalização para se justificar a utilização da língua inglesa em Portugal. A internacionalização é lá para fora não é cá para dentro. Veja-se o caso de muitas universidades e outras instituições que, para se darem ares de internacionalização utilizam nas suas designações palavras inglesas: Nova School of Business and Economics; Católica Lisbon School of Business & Economics, entre outras.

Estamos a abdicar de um dos valores mais importante na nossa cultura, a língua. As televisões e os emissores de rádio dão uma ajuda para esta abdicação. A ânsia de ser “cool” é tal que usam e abusam de termos ingleses que muitos espetadores e ouvintes desses canais nem sabem o significado. São sumidades que falam para outras sumidades da modernidade bacoca.

Será que os linguistas portugueses não conseguirão encontrar termos adequados em português de palavras inglesas técnicas e específicas da linguagem científica? Estou em crer que sim. Mas, como somos portugueses gostamos de mostrar que estamos “in” e, de certo, modo mostrarmos a nossa subserviência, cedendo até na própria língua, perdendo aos poucos o pouco orgulho que ainda temos (exceção feita ao futebol). A nossa gente está a ser inconscientemente aculturada a vários níveis. A apropriação desses estrangeirismos está na moda, faz parte do parecer, e não do ser. Fica bem. Parece bem. É cool.

Vejamos apenas alguns termos que se encontram por aí na gíria da comunicação social: Stakeholder, Cool, Red Carpet, Roof, In, Out, Sunset, Skills, Frendly, Brunch, Players, Pack, Resort, Look, Fashion.

A partir destes termos amplamente utilizados podemos imaginar uma reportagem com uma locução como esta:

O sunset de hoje foi abrilhantado pela fashion e pelo look das personalidades na nossa vida social e artística que atravessaram a red carpet. O acontecimento cool foi posteriormente continuado com uma conferência sobre as possibilidades de negócio que tais eventos podem possibilitar e onde os players negociaram com outros stackeholders. Um dos intervenientes referiu as skills necessárias para o sucesso deste tipo de negócio.  O evento frendly foi organizado num conhecido Resort de luxo onde foi servido um brunch.

Cool, não acham?   

O fundador do PSD, Francisco Sá Carneiro disse em 1975 “Portugal precisa de apoio internacional generalizado e merece-o. Esse apoio, venha de onde vier, tem de respeitar a nossa independência e uma rigorosa não ingerência nos nossos assuntos.” O que vemos hoje é o contrário, sancionado pelo governo dos quatro anos de Passos Coelho. O desrespeito pela nossa independência também passa pela língua. Muita gente da nossa terra sustentou esta tese com o argumento de que quem empresta até nos pode matar se quiser, ainda que se cumpra o contrato. E há ainda quem aplauda teses como estas. Tudo o que é estrangeiro, mesmo que seja péssimo, é bom para a nossa gente. Tem que respeitar o estrangeiro mesmo que a faça padecer e humilhar. Até quando se discutiam as sanções a Portugal muita da nossa gente letrada sintonizava com europeus da união dizendo que regras são regras e devem ser cumpridas.

O vandalismo que infelizmente existe em toda parte em Portugal tem mais requinte. Nisso també temos que imitar e sermos ainda melhores. Tens um carro novo? Eu risco-o de uma ponta a outra. Para que serve uma floresta? Apenas para dar sombra e se é do vizinho rival ainda melhor, incendeia-se. O ramo da tua árvore incomoda-me, faz sombra na minha horta, se não o cortas deito-te a árvore a baixo. Há relatos especialmente a norte de homicídios devido à utilização de águas de um riacho. Um puxava a água e não deixava o outro regar. Não há negociação. Mata-se e pronto. As reservas naturais são anti progresso, não deixam que se construa. Incendeia-se e mata-se o bicho.

Somos um país de gente insana que provoca incêndios premeditados nas nossas florestas, loucos, alcoólicos, drogados, desempregados, dizem-nos nas televisões e como crédulos que somos acreditamos. Não há rede organizada mas atos isolados o que confirma a insanidade das gentes. Somos autores de espetáculos gratuitos para as televisões que vibram com tanta notícia.

Danificar com rabiscos, a que chamam "grafitis", paredes de edifícios públicos e outros,  faz parte do grupo da gente do vandalismo. Excluo daqui as pinturas que são um expressão artística urbana desde que escolhido o local certo. Esses que as fazem são outra gente.

A chamada mania das grandezas é outra nota que define a nossa gente e a que os sucessivos governos vão dando expressão, quer em tempo de abundância, quer em tempo de restrições, o chamado tempo das "vacas magras". Se uns fazem nós também temos que fazer, assim pensa a gente das autarquias. Quando há dinheiro esbanja-se em coisas de utilidade discutível para a comunidade local, depois vive-se na penúria.

Um caso histórico e paradigmático do passado é o Convento de Mafra, construção iniciada por D. João V com o ouro que vinha do Brasil. Homem fervorosamente católico, não está com meias medidas, e, para cumprimento duma promessa, caso obtivesse sucessão do seu casamento com a rainha D. Maria Ana de Áustria manda construir um convento gigantesco. Alto e importante desígnio nacional. E, a gente da nossa terra, vivendo na miséria, aplaudia com o apoio clerical. Maior convento não haveria no mundo, diziam.

O sentimento que se tem pela prosperidade e pelo desejo de possuir o que outros possuem faz parte e é característico da gente da minha terra. Tu tens? Eu invejo. Tu compras? Eu também. Tu viajas? Eu também. Se possível melhor, mesmo que isso me custe os olhos da cara e me endivide.

A gente do interior, fechada sobre si e pouco comunicativa, quando algum afoito intrometido tenta conversa refugia-se no estado do tempo. É a conversa da treta sem sentido cujo diálogo é quase sempre o mesmo. Veja-se este exemplo:

- Bom dia D. Zulmira! Então está a regar a suas couves?

- Pois é. Tem que ser.

- O tempo não tem estado nada bom. Tem sido uma desgraça para as alfaces.

- Tenha fé senhora. Deus há de ajudar.

- Olhe, nem queira saber! Tinha lá um feijão verde "sameado" estragou-se-me todo. Com isto assim não sei onde vamos parar.

- Tudo isto é uma calamidade e o governo não faz nada…

A gente da agricultura apresenta sempre a mesma escusa. No inverno é frio e a chuva e no verão é o calor e a seca. Basta escutar nos locais do interior a conversa entre vizinhos e conhecidos. Virgílio Ferreira tinha razão quando disse que "Frente a uma situação difícil, o Português opta pela espera de um milagre ou pela descompressão de uma anedota. O grave disto é que o milagre não vem e a anedota descomprime de tudo. Ficamos assim à mercê do azar e nem restos de razão para mexer um dedo". 

Face a algo imprevisto ou revés não é raro ver por esse país a mobilização de multidões, motivadas pela religião, em procissões de agradecimento aos mais diversos santinhos e santinhas de qualquer coisa ou lugar, e há mais do que muitos, pelo bem com que os agraciou ou pelo mal ter passado, não importa como aconteceu. Agradece-se pelo que aconteceu, ou pelo que parou de acontecer ou roga-se para que não volte a acontecer e aconteça o que ainda pode acontecer. Depois regressa-se a casa.

É o efeito da religiosidade da gente que vive obcecada com o divino que tudo resolve e a quem tudo é devido. A gente da minha terra faz manifestações e revolta-se quando um pároco é substituído, mas permanece queda a tudo o resto, mesmo ao que possa prejudicar ou mudar a sua vida ou a da comunidade. Facilmente manipulada por outras gentes lá se vai manifestando, de vez em quando, contra algo que não está bem, sobretudo quando descontente com o partido que ganhou ou não gosta dum primeiro-ministro pelos mais disparatados motivos.

E aqui a gente da minha terra divide-se entre o norte e o sul do rio Tejo. A norte o conservadorismo bacoco gerado pela ignorância. É como se um certo tipo de gene tivesse marcado a gente por sessenta anos de mentalização de Salazar que deu os seus frutos e se tem propagado através das gerações. A sul a gente é mais afoita e sem medo e também conservadora mas em sentido oposto porque aí a religião conta menos. São os "mouros" como lhe chamam os do norte. Não se deixam conduzir por homilias com matizes de política disfarçada.

As gentes de Portugal não gostam de discutir o papel da religião dominante, deveria dizer antes clericalismo dominante aceitando acriticamente a sua moralidade hipócrita. Seguem a preceito o postulado de Salazar "Portugal nasceu à sombra da Igreja e a religião católica foi desde o começo o elemento formativo da alma da nação e o traço dominante do carácter do povo português".

Somos ainda uma gente de fé que peregrina e cumpre promessas por graças que lhe foram concedidas por santos milagreiros. Locais de peregrinação são casos paradigmáticos onde se vão cumprir promessas de graças julgadas concedidas e fazer pedidos para aquilo que os Homens não lhes podem dar.

Somos uma gente maioritariamente cristã e crédula a quem é prometido o céu e acredita nos pregadores dos ofícios religiosos quando lhe dizem que as desigualdades sociais não têm importância na nossa curta vida, são condições de provação que serão compensadas na vida eterna. Assim é alimentado o espírito das mentes ingénuas e boas das gentes deste Portugal.

Em fevereiro de 1878 Eça de Queiroz em Cartas a Joaquim Araújo escrevia que “(...) o povo em Portugal, nas províncias, não é católico - é padrista: que sabe ele da moral do cristianismo? da teologia? do ultramontanismo (partidário da autoridade absoluta do papa) ? Sabe do santo de barro que tem em casa, e do cura que está na igreja."

Em 2012 a revista Sábado publicou uma crónica "Nós, os Portugueses" onde caracterizava a gente portuguesa escrevendo a certa altura: "Como se pode caracterizar, ainda que de maneira genérica, o povo português? Somos atenciosos, cordiais, flexíveis, facilmente nos moldamos à cultura do interlocutor e dialogamos, sem reservas, sobre diversos temas de forma animada. Contudo, e ainda que possamos achar uma certa piada às graças sobre os atrasos sistemáticos, para encontros, ou sobre o não cumprimento de prazos, apreciamos que os nossos “brandos e bons costumes” sejam respeitados!".

A arrogância e superioridade da nossa gente, quando em contacto com povos de outras culturas africanas e orientais, é notório pelo tratamento “por tu” sem que haja qualquer justificação de proximidade. É uma espécie de mostra de superioridade face ao seu interlocutor de outra cultura ou de outra cor de pele. Mas, cuspir para o chão e deitar objetos no espaço por onde passa ou frequenta que atingem o auge em momentos de concentração popular são reveladores da sua "superioridade".

Há outra gente, que frequenta meios cujas revistas cor-de-rosa se encarregam de divulgar. A gente do meu país, especialmente  a das grandes cidades, não passa sem a sua dose de cultura. Telenovelas, "Reality Shows” tais como “Big Brother”, "Quinta das celebridades", "Love on Top" e outras rasquices televisivas semelhantes, fazem parte das suas preferências culturais. A estas ainda se incluem a leitura de revistas cor-de-rosa que pode ser comprovado pelo número das tiragens semanais e onde proliferam fotografias de colunáveis a que se atribuem nomes de boa origem inglesa como "socialites", que passou a ser incorporado na língua portuguesa, tal e qual, jet set e outras piroseiras, misturadas com outras gentes que deixam devassar a sua vida privada.

Milhares das nossas gentes frequentam redes sociais, especialmente o Instagram, onde se expõem de corpo e alma, sobretudo de corpo,  para recolherem muitos "likes"  de seguidores(as) que os levarão ao êxtase da visibilidade e exposição.

O voyeurismo da vida dos outros vende, aliena, leva ao consumismo por imitação. Gente anónima, que quer mostrtar que existe, mas sobretudo, atores de telenovela e outros como futebolistas, treinadores, apresentadores de TV, políticos, banqueiros, cozinheiros (a quem agora se passou a chamar "chefs"), empresários de renome, ilustres desconhecidos (as) catapultados (as) pelo atrelar a outros (as) já bem conhecidos (as), sem profissão e por aí adiante, são vasculhados e expõem-se, deixam revelar a sua vida, a sua intimidade familiar, fazem poses frente às câmaras para fotografias que sabem sairão nas próximas edições. Passam a ser referências, exemplos modistas para quem compra e lê essas revistas e vê programas televisivos do género.

Nada escapa ao vasculho. Uns põem-se a jeito, outros para se tornarem popularuchos porque, quem não aparece esquece como diz a nossa gente. Reis e rainhas, príncipes e princesas, condes e condessas todos são servidos de bandeja à gente ávida de escândalos e conhecimento do modo de vida de tais nobres figuras. A vida dessa outra gente é o que interessa. Casamentos, trajes, divórcios, nascimentos, batizados, aniversários, festas, discotecas são essenciais são o pão para a alma.

É o mundo que tem material para os cronistas da vida mundana cuja pobreza e vazio intelectual são evidentes para quem os vê e escuta, com o distanciamento necessário, em alguns programas televisivos. Essa gente comentadora é colocada à frente das câmaras para abordar temas sérios com uma frivolidade confrangedora. Não é por acaso que programas de qualidade duvidosa têm as audiências que têm. É o mundo da outra gente, que a nossa gente ajuda a viver. Os canais de televisão oferecem conteúdos que as gentes gostam de ver. Dá à gente o que ela quer. Cabe aqui a pergunta que é de saber quem surgiu primeiro, se o ovo ou a galinha, no sentido de saber se não terão sido criados certos “apetites” que depois são exigidos como ofertas. Dar a provar para gerar necessidade.

Fertiliza-lhes a imaginação, ajuda-os a sonhar com uma vida a que nunca terão acesso. Ficam-se pelo sonho. E sonhar é bom. Fazem-lhe esquecer e alienar-se do que é importante. Mas a realidade é inexorável, e volta sempre, mas não constatam que é nela, e por ela, que devem lutar

De norte a sul as gentes do meu país adoram futebol. Sofrem, vibram, participam de forma passiva uns, mais ativamente e furiosamente outros. Deslocam-se atrás do seu clube para onde quer que vá. São desportistas do passeio que transforma o espírito desportivo, que deveria ser pacífico, numa atividade grupal insana e de rivalidades permanentes. E, mais uma vez, as televisões ajudam com debates intermináveis onde os participantes gritam, ofendem-se mutuamente, insultam-se, mexem-se convulsivamente nas cadeiras, gesticulam. Sei lá? E isto tudo tem audiências. É o que importa afinal. Captar audiências à custa da confusão que desinforma, mais do que informa.

Os senhores da bola são gente que se dão ares de especialistas e que acha que o futebol também é uma ciência com estatuto e linguagem própria. Vê-se pelas declarações futebolísticas que são duma pobreza confrangedora. Usam uma linguagem composta por palavras que juntas nada dizem de objetivo. São os intelectuais da bola.

Vejamos alguns vídeos:  

 

 

Retira-se que:

Sim… foi um bom jogo… Para mim e para a equipa… Chegou-se a um resultado positivo… Que era a vitória. Vamos festejar esta vitória e pensar no próximo jogo. É sempre importante conseguir as vitórias…

 

Pois claro. digo eu!... O óbvio

 

 

Dedicatórias, vitórias do grupo da união e do trabalho… O jogo já é história, temos que pensar é no próximo…

Frase profunda do comentador

… compreensão que temos que fazer do adversário…

Alta psicologia.

Parabéns a todos…

Que mais se poderia dizer?

Não tenho nada a apontar aos meus jogadores. Fizemos tudo para superar os cinco jogadores… Por várias vezes superámos quatro, por várias vezes superámos três, nunca conseguimos ultrapassar os cinco, mas… foi profundamente ingrato…

 

 

Filosofia da melhor.

 

 …jogo tradicionalmente difícil e tornou-se na realidade difícil… porque  (?) uma boa equipa, uma equipa que nas últimas quatro jornadas teve três vitórias, uma equipa que se bate muito bem… nunca desiste e via à procura do resultado… mas acabou por ganhar na minha perspetiva a melhor equipa… tivemos as melhores oportunidades, podíamos ter feito um pouco mais cedo… era um campo que tínhamos que vencer e que era uma jornada importante…

Do mal, o menos, em futebol o que mais se poderá dizer? Nada… E o resto é o vazio…

O seguinte vídeo mostra de facto a elegância e a fluidez verbal da terminologia futebolística.

 

 

É disto que a gente do meu país, amante do futebol, gosta. Por isso o futebol merece um pouco mais de desenvolvimento. Tendo pretensões a mostra que há uma ciência futebolística, já que não o é pelo discurso pelo menos tenta pelos métodos. Assim, fazem estatísticas com dados ao segundo de golos marcados e por marcar, lances, remates à baliza por jogador, cartões amarelos e vermelhos dos jogos, lesões por jogador, resumos semanais, mensais e até anuais, comparações que não conduzem a resultado nenhum, nem contribuem para nada a não ser demonstrar o indemonstrável. E, na época seguinte, nada se avançou repete-se mais ou menos o que se disse na época anterior, até à exaustão da paciência da outra parte de nossa gente que não vai em cantigas de futebol enquanto tema de discussão.

Não há técnica, nem estatísticas nem o que quer que inventem para prever quem ganha ou perde jogos, se assim fosse todos os especialistas ganhavam o totobola. Os jogos ganham-se com as pernas dos jogadores e uma bola a saltar dum lado para o outro até que haja uma abertura para ela entrar no retângulo duma das balizas. Certezas nunca há. Os inquisidores futebolísticos, porque há uma inquisição futebolística, escusam de culpabilizar treinadores e jogadores lançando-os na próxima oportunidade à fogueira da opinião pública dos adeptos e clubistas. É o que muitas vezes se verifica quando um clube perde um jogo e, sobretudo, se for um campeonato.

É um fenómeno mundial, dizem sociólogos. Pois é, não é por acaso. Não veem que tudo isto é, em todo o mundo, um negócio de milhões para alguns. O futebol deixou de ser um desporto de competição para ser um mercado e um negócio que a nossa gente e outras gentes alegremente acarinham. Se a isto juntarmos ainda os furiosos gangues de adeptos que se auto denominam claques, apadrinhadas pelos clubes, que utilizam a violência gratuita uns contra os outros e contra outros cidadãos com intuitos desmoralizadores sobre as equipas adversárias temos um perfeito caldo de cultura.

Para além do futebol há o delírio dos concertos e dos festivais que começaram a proliferar por aí, especialmente durante os meses de verão, e tão do agrado especialmente da nossa gente jovem mais urbana cujos ascendentes fugiram há muito do interior para as grandes cidades para mudar da vida.

É o delírio. Todos os lugares querem ter visibilidade e a melhor forma é um festival "rock". As televisões ajudarão à promoção. São autênticas migrações de jovens deslocando-se de norte a sul para verem os seus ídolos. As entradas são caras, sem contar com deslocações, estadia e alimentação, mas os euros aparecem sempre. Para as contas do país da nossa gente é que é o problema porque, o caché pago funciona como importações o que vai ajudar ao desequilíbrio da balança comercial. São milhões de euros. Mas que importa isso. Quem promove e organiza festivais sabe que é dinheiro em caixa e daí a proliferação deste tipo de negócio. É bom porque movimenta as economias locais, mas muito melhor é para quem os organiza. Até a “Festa do Avante” para atrair a gente jovem convida grupos "rock". Ainda bem!

Mais uma vez nos dizem que não é só cá. Lá fora, no estrangeiro, e o mesmo. Pois é, mas também nos dizem que somos uma país pobre e que temos que pagar com juros os milhares de milhões que a troika nos emprestou por termos gasto acima das possibilidades. Afinal quem paga tudo isto?

Na política os jovens filhos da nossa gente ingressam pelas juventudes partidárias. Gente jovem a quem a educação para os valores não lhes foi transmitida nem incutida que quer obter o sucesso a qualquer preço. Valem-se da intriga, da mentira, denegrindo pessoas… pegam na política do vale tudo, do desdém pelo próximo que colocam ao serviço da política filiando-se num partido que os possa catapultar para lugares onde possam viver à custa do erário público.

Mesquinhez, inveja, egoísmo, mexeriquice, passividade, iliteracia, conservadorismo a vários níveis, desprezo pelos bens de terceiros, desprezo pelo nosso património cultural e florestal, dar importância ao parecer, mais do que ao ser, etc., etc..

Mas nada disto é recente, pois Guerra Junqueiro dizia em 1896 que somos "Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (...)

A imbecilidade reproduz-se ao longo dos anos e neste século XXI mantém-se, emerge sempre que uma oportunidade surge. O facto novo que confirma a dose de estupidez que agora começou a percorrer a nossa gente urbana são as manifestações negacionistas. Grupelhos de gente do meu país, manipulada pelas redes sociais, que rejeita hoje as recomendações resultantes da investigação  científica sobre vacinação e alterações climáticas agitam-se com teorias da conspiração e pós-verdades ficando-se pelo domínio da estupidez demonstrada em manifestações de ódio, rebeldes, agressivas e sem nexo. 

É a gente do meu país!

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:23

Estúpidos e estupidez ou tolice crassa

por Manuel_AR, em 30.08.21

Negacionismo_estupidez.png

Montagem baseada na fotografia de Nuno Ferreira Santos 

jornal Público

A estupidez e a tolice não têm limites. A tolice é arrogante, perentória. Afirma-se como algo completamente idiota, mas com toda a autoridade necessária. Isto porque a tolice é segura de si mesmo, mas a estupidez pode hesitar. Todos nós diariamente dizemos estupidezes, mas eu esforço-me por evitar dizer demasiadas tolices sobretudo as que são individual e socialmente prejudiciais. 

Notícias sobre grupelhos anti vacinas e outros que negam tudo o que vem à rede   estimularam a escrita deste texto. Foi a causa próxima, mas a causa remota para esta minha incursão sobre a estupidez deve-se um livro que li há algum tempo e que não divulgo porque se trataria de publicidade, talvez enganosa e a editora não me paga para fazer publicidade. Aqui está, um pensamento estúpido. Refletindo sobre o que então li não pude deixar de me auto considerar e passar também a incluir-me no grupo dos estúpidos, pois foi este o meu sentimento após a leitura do dito livro do qual ao longo do texto resolvi incluir algumas citações, poucas.

Foi uma sensação estranha e alguns laivos de raiva que me percorreram. Eu estava incluído naqueles cujos estupidez se evidencia, nesses mesmos cujas ideias obtusas eu fazia por combater. Eu que julgava ser um apoiante da ciência "decente", (também há aquela que é imprópria, falsa). Pensava que estaria incluído no grupo daqueles que consideram partilhar com os restantes membros certos de valores, atitudes e comportamentos.

Utilizo as redes sociais e descobri que há muito espaço onde estúpidos disputam a sua estupidez, fazendo-a multiplicar por aqueles que, não se considerando estúpidos seguem um preceito passando a fazer desse grande grupo da estupidez.

O viés da estupidez manifesta-se através da tolice e deriva do chamado viés cognitivo que são erros inconscientes de pensamento que surgem de problemas relacionados com a memória, atenção e outros erros mentais. Normalmente é devido a preconceitos que resultam dos esforços de nosso cérebro para simplificar o mundo incrivelmente complexo em que vivemos. É um enviesamento cognitivo talvez devido a erros de perceção social gerados por incompatibilidade entre perceção social e realidade social.

Assim, e segundo especialistas “As expectativas podem ser auto confirmadas, não apenas porque criam predições autorrealizáveis, mas também porque podem influenciar, enviesar e distorcer a maneira como as pessoas interpretam, avaliam, julgam, lembram e explicam os comportamentos e características dos outros”. Há investigações que demonstram que as expectativas influenciam o modo como as pessoas recolhem informações de maneira que confirmem as suas expectativas. (Jussim, Lee; 2012 ; Social Perception and Social Reality: Why Accuracy Dominates Bias and Self-Fulfilling Prophecy; Oxford University Press).

A estupidez espreita, penetra por onde encontre uma fresta e apresenta-se em todas as áreas do saber, seja medicina, vacinação, ambiente, crise climática e muitas outras sobre o que, consoante a estupidez lhes dita, dizem conhecer e estarem informados. O seu lugar de eleição são as redes sociais onde podem encontrar estúpidos que, inconscientemente, vão engrossar a casta dos estúpidos.

Os negacionistas da vacinação com a sua falta de literacia em saúde, para além de ignorantes, desconhecem que ainda paira na nossa memória coletiva o tempo em que o sarampo, a varíola e a poliomielite matavam ou marcavam para a vida. Os mais velhos perguntem aos vossos pais e avós, se ainda os tiverem, que viveram numa época a que hoje chamamos obscurantista!

Sobre a ignorância recordo aqui uma pesquisa que fiz sobre o efeito de Dunning-Kruger que se resume a que uma pessoa incompetente numa determinada área apresentará obviamente maus desempenhos neste campo, mas, além disso, e segundo o seu próprio critério, essa pessoa não vai notar a sua própria ignorância e sobrestima o seu desempenho. Assim, também o estúpido, preso na sua própria ignorância, abstém-se da capacidade de ver as coisas do ponto de vista de alguém que saberá mais do que ele e sofre também do efeito de Dunning-Kruger.

Considerando-me, como afirmei no início deste texto, no grupo dos estúpidos, no entanto, tento redimir-me recorrendo ao conhecimento de quem não é idiota e é pouco estúpido. Se alguém estúpido, ou que ache não ser estúpido, me esteja a ler pode confirmar o efeito da sua ignorância em: Dunning, David, (2011). The Dunning–Kruger Effect On Being Ignorant of One's Own Ignorance ; Advances in Experimental Social Psychology. Elsevie.

Esta investigação ainda mostra que as pessoas verdadeiramente competentes subestimam ligeiramente as suas competências. O verdadeiro especialista está consciente de ser um especialista, mas também estará ciente do que não sabe e do que ainda tem de aprender. Por sua vez o estúpido, desconhecendo que é estúpido, não se perturba pelo que, certamente, não se priva de impor ao seu séquito, e a outros, a sua estupidez. Ao escrever este texto sinto-me como eles: escrevo sobre o que julgo que sei, mas, de facto não sei. Por isso, para aprender, recorro muitas vezes aos que sabem e cujo conhecimento já foi validado e reconhecido por outros especialistas da sua área.

Há pessoas, pressupostamente instruídas, que rejeitam hoje as recomendações científicas sobre, por exemplo, a vacinação e as alterações climáticas e agitam-se com teorias da conspiração e pós-verdades ficando-se pelo domínio da estupidez. Atenção o conceito estupidez, conforme os contextos, pode abarcar a mentira, a tolice, as balelas, a ignorância e a inaptidão. Posso acrescentar equivalências como parvoíce e o sumo da imbecilidade generalizada que é a pós-verdade e verdades alternativas (leia-se mentiras).

Negacionismo_estupidez-2.png

Quem sobressai pela estupidez não significa que não seja inteligente porque para produzir disparates necessita de inteligência e cognição para os inventar, defender e os disseminar. São os tolos inteligentes que, partem de premissas falsas e teorias não validadas nem cientificamente provadas. Para eles é uma verdade alternativa, (como se esta fosse possível!), que não corresponde no todo, nem em parte, a factos comprovados. Digo uma tontice sobre determinado facto que não aconteceu e divulgo a quem me contesta: esta é a minha verdade alternativa! Neste caso, confirma-se a minha estupidez. Penso, mas logo, sou estúpido.

O paradigma da tolice está nos que afirmam que esta, ou aquela, é a sua opinião e que a podem partilhar em locais como redes sociais onde a estupidez e a tolice se irão repetir sem restrições e onde as mais variadas conotações se irão afirmar. Por sua vez, aqueles que seguem a partilha pensam ficar “conhecedores” e assumem o seu conteúdo como verdade absoluta sem validação nem confirmação.  Quem está a ler o que neste momento partilho poderá constatar isso mesmo, com a diferença de que fiz os possíveis, com mais ou menos êxito, por validar as minhas tolices.

A pós-verdade veio para confundir as opiniões públicas porque o seu significado, segundo o Dicionário Oxford, significa uma condição em que “os factos objetivos têm menos influência para formar a opinião publica do que o apelo às emoções e às crenças pessoais”.

Vejamos a seguinte situação: se você, que está a ler este texto, não partilha das mesmas opiniões está errado e, ao argumentar contra esta posição, o que pretende á manipular-me. Ou ainda: o mesmo leitor, ao defender que não partilha das minhas opiniões apresentando argumentos, eu posso dizer que o que ele pretende é manipular-me. O que acontece é que os pontos de vista polarizam-se e cada um pretende impor o seu ponto de vista   pela desacreditação e pondo em causa a honestidade do outro atingindo-o até no seu caráter. Assim, os factos, o que realmente interessa, o que interessa para o caso passam a conceitos totalmente acessórios e até suspeitos. Uma observação com imparcialidade deste tipo de ações perguntaria se tudo o que estava a observar não seria estúpido ou uma tolice.

Estupidez e tolice são adjetivos que podemos dar a essa treta a que se chama pós-verdade, fake news (notícias falsas, mentiras), teorias da conspiração muitas vezes fundamentadas por falsas investigações. 

Assisti a uma intervenção na SIC Notícias (22/08/2021, Noticiário da 19H) de um relativamente jovem fogoso, dito professor universitário de Saúde Pública Internacional convencido de possuir o segredo da interpretação dos dados pandémicos que afirmava que um critério para definir o estado em que se deviam tomar medidas face à covid-19 era através do número de mortes pela doença. E, espante-se, afirmou ainda que a obrigatoriedade de apresentação do Certificado Digital de Vacinação Covid era contra a liberdade e comparou com as marcas que os nazis faziam nos braços dos judeus para os identificarem. Qual a base científica em que se baseia aquele jovem professor para produzir tanta estupidez e que deve passar a outros que a irão reproduzir e partilhar.  São pessoas como esta que alinham, não pela ciência, mas primando pela procura de pontos de vistas tolos que lhe possam dar visibilidade televisiva.  

A estupidez não tem limites, diria até que é a tolice que não tem limites. A tolice é arrogante, perentória. Afirma-se algo completamente idiota, mas com toda a autoridade necessária. Isto porque a tolice é segura de si mesmo, mas a estupidez pode hesitar. Todos nós diariamente dizemos estupidezes, mas eu esforço-me por evitar dizer demasiadas tolices sobretudo as que são individual e socialmente prejudiciais. 

Como explicar a tolice de pessoas que fazem protesto sem máscara nem distanciamento social, incluindo crianças, em que se ouve o hino nacional e onde a confusão de várias palavras de ordem demonstra a confusão mental desta gente: “Liberdade”, “Portugal”, “O povo unido jamais será vencido”. Palavras de ordem do 25 de abril à mistura com julgamentos no tribunal de Nuremberga e citações de Salgueiro Maia. Por cima de T-shirts pretas muitos dos manifestantes prenderam a bandeira nacional ao pescoço, à laia de capas. A manifestação/encontro na via pública foi liderada pelo juiz Rui Fonseca e Castro, suspenso de funções e alvo de um processo-crime por incitamento à desobediência civil contra as medidas impostas para combater a pandemia é o mesmo juiz Rui Fonseca e Castro, do movimento Juristas pela Verdade que pode consultar aqui. Mas, qual verdade? A única, a deles, a absoluta? Apenas a tolice pode explicar a sua verdade.

Gente deste tipo até aproveita graves problemas que a afetam a saúde de milhões de pessoas para propaganda política. Não pretendo fazer juízos de intenção, mas devem pertencer a grupos fascizantes e extremistas de direita porque cidadãos normais na posse das suas faculdades de valores sociais que se agarram logo a símbolos da nação, com tendência para a violência e ameaças como foi o caso de Gouveia e Melo, apenas executor das medidas tomadas pelo Governo, que foi recebido com protestos anti vacinação e ameaças como aconteceu em Odivelas, e, daí, o estilo das palavras de ordem utilizadas. Gente normal, põe máscaras num caso e não se enrola na bandeira de Portugal noutro caso, e tenta fazer passar-se pela voz de todos os portugueses. Estamos a viver o tempo em que os disparates que se dizem nas redes sociais e em “sites” manhosos excedem-se para a vida real.

Para finalizar: caso tenha lido todo o texto e se me considera um estúpido não hesite, coloque um comentário. Mas se você considerar o contrário não coloque nenhum comentário e ficarei com a certeza e muito feliz porque, afinal, não pertenço aos estúpidos.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:01

O editorial de hoje , 26 de junho de 2021, do jornal Público escrito por Ana Sá Lopes tem a vantagem de nos possibilitar refletir sobre algo que, na maior parte das vezes, passa ao lado de alguns das direitas que usam palas no olhos que os obriga a olhar apenas num só sentindo esquecendo-se do papel ativo que tiveram nos desenvolvimentos do terrorismo no pós 25 de Abril, (não  esquecer o MDLP), muitos deles andam por aí utilizando a democracia que o dito cujo dia lhes trouxe para o boicotar logo que lhes oferçam condições para isso.

O editorial esclarece isso mesmo e ajuda e contribui para evitar a amnésia história que muitos pretendem.

 

Editorial

Obrigada, Presidente Eanes (sobre Otelo)

A direita gosta muito de se insurgir contra os alegados “donos” do 25 de Abril. O problema – e agora veio ao de cima mais uma vez na morte de Otelo Saraiva de Carvalho – é que demasiadas pessoas de direita nunca se sentiram à vontade com o 25 de Abril (e passaram o sentimento aos filhos).

Já que o nosso Presidente da República em funções se sente mais à vontade a elogiar Marcelino da Mata do que a prestar homenagem a Otelo Saraiva de Carvalho, é fundamental agradecer ao antigo Presidente Ramalho Eanes ter vindo lembrar duas coisas básicas: “A ele [Otelo] a pátria deve a liberdade e a democracia. E esta é dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar.” Depois do texto confuso com que Marcelo decidiu “evocar” Otelo Saraiva de Carvalho no dia da sua morte, é um bálsamo saber que há um ex-Presidente da República, que abandonou as funções em 1986, capaz de sentido de Estado no momento da morte de um homem decisivo para a nossa liberdade. É evidente que Ramalho Eanes é um homem do 25 de Abril e Marcelo Rebelo de Sousa não é – talvez isto também ajude a explicar que o “filho do governador colonial” esteja mais à vontade para fazer a homenagem a Marcelino de Mata do que para “evocar” Otelo.

Ramalho Eanes não silencia o papel de Otelo nas FP-25 e é claro a condenar os “desvios políticos perversos, de nefastas consequências”. Por esses “desvios políticos perversos”, Otelo passou cinco anos em prisão preventiva. Sim, Mário Soares pressionou PS e PSD a aprovarem a amnistia – mas também tinha sido Mário Soares a pressionar para o regresso de António Spínola a Portugal (esteve exilado no Brasil e em Madrid), outro cabecilha de uma organização terrorista, o MDLP, só que neste caso era terrorismo de extrema-direita. Quando morreu, em 1996, o homem do MDLP teve direito a luto nacional. Otelo, parece que por vontade expressa do primeiro-ministro imediatamente aceite pelo Presidente da República, segundo diz o Expresso, não terá.

 Jornal Público (2).png

Leia o jornal Público

A direita gosta muito de se insurgir contra os alegados “donos” do 25 de Abril. O problema – e agora veio ao de cima mais uma vez na morte de Otelo Saraiva de Carvalho – é que demasiadas pessoas de direita nunca se sentiram à-vontade com o 25 de Abril (e passaram o sentimento aos filhos). O facto de muitos dirigentes políticos de direita, incluindo Cavaco Silva, se recusarem a utilizar o cravo na lapela – o símbolo popular do 25 de Abril – é todo um tratado de semiótica.

Quem se espanta com a violência verbal que anda no Twitter devia conhecer o meu “liceu” nos anos 80: a fractura dos defensores do 25 de Abril contra aqueles que apenas aprenderam a “viver habitualmente” com o 25 de Abril estava tão exposta naquela época como hoje. Na verdade, a única novidade é a existência de redes sociais.

Devemos agradecer profundamente a Otelo o 25 de Abril. Mas também devemos estar gratos às várias lideranças dos partidos de direita pelo facto de terem conseguido “integrar” muitos dos desolados do 25 de Abril na democracia. São dívidas históricas.

  

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:37

A estupidez que os pariu

por Manuel_AR, em 23.06.21

Lisboa-Eleições Moedas-2.png

Quem não tem cão caça com gato. Embora o cão seja o ajudante do caçador, quem não o tem, porque um cão de caça é caro e custa a manter, recorre ao gato para o mesmo efeito. A caça é que não vai deixar de se fazer. Transferindo este ditado popular para a política os caçadores são os partidos, como o PSD, por exemplo, conduzido por Rui Rio e os outros à sua direita como as iniciativas e partidos extremistas que surgiram das últimas eleições. Estão neste role a Iniciativa Liberal e o Chega. Porque não têm ideias, nem um projeto, nem uma visão para o país nem para a cidade de Lisboa enredam-se em questões menores e casuais para fazer oposição. Sem alternativas e projetos credíveis dedicam-se à calhandrice política pegando em casos que em nada contribuem para a melhoria do país e das pessoas. É a caça ao poder para substituir umas clientelas por outras. O que muda é o partido.

A tábua de salvação de Rui Rio e do PSD para subir na sua credibilidade é o ato eleitoral para as autarquias que se aproxima a passos largos. Ou o PSD alcança bons resultados, especialmente em Lisboa, nem que, se não obtiver maioria, tenha de fazer umas alianças com as direitas CDS+PPM+MPT+ALIANÇA, mesmo chegando-se às mais radicais como o CHEGA. Uma miscelânea de direita, muito pior que a geringonça.

Rui Rio e o PSD necessitam de mostrar serviço nem que seja através de fazer oposição do vale tudo, ainda que Rio tenha que retirar do seu léxico a frase “a bem do país”, isto é, como já em tempo afirmou "eu opto pelo interesse nacional e não pelo interesse tático do partido". Segundo Rui Rio, as próximas eleições autárquicas são "absolutamente decisivas", porque "o que determina em primeira linha a força de um partido na sociedade não é número de deputados, é o número de autarcas".

Nesta sequência avança com Carlos Moedas para a autarquia de Lisboa. O chavão “Novos Tempos” na candidatura de Carlos Moedas faz todo o sentido porque nos recorda, não apenas os velhos tempos em que foi ministro de Passos Coelho, mas também a pretensão de iludir os eleitores com o jargão ”novos tempos” para os conduzir ao pensamento dos “velhos tempos”.

Carlos Moedas integrou o XIX Governo Constitucional e fez parte do Executivo durante a maior parte do seu período de vigência. Foi considerado o braço-direito do primeiro-ministro Passos Coelho, facto que o colocou em destaque nas relações entre o governo português e os responsáveis da troika que acompanhavam os progressos do programa de assistência financeira do FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia em Portugal.

 Recordemos que Sampaio da Nóvoa, nas eleições presidenciais de 2016, disse que queria vencer as eleições em nome de um “tempo novo” que teria começado no país. Carlos Moedas transformou aquele slogan em “novos tempos” numa espécie de anástrofe ou inversão.  

Carlos Moedas na apresentação da sua candidatura disse que a sua maneira de fazer política seria diferente, mas, rapidamente passou por uma metamorfose transformando-se numa espécie de André Ventura com um populismo em versão light.  

Se eu quiser votar em Moedas, desconheço qual o seu projeto objetivo para a cidade de Lisboa. A sua oposição a Medina baseia-se em aproveitamentos de oportunidades que lhe vão caindo nos braços baseadas em tricas que nada têm a ver com o projeto lisboeta nem com o que critica ficando-se sem saber o que está mal, o que faria melhor, ou o que alteraria na cidade de Lisboa. Anda ao sabor da corrente e das marés que, ora sobem, ora descem. Anda a surfar nas ondas do oceano escuro das suas propostas e alternativa equilibrando-se com críticas descabidas e desproporcionadas dirigidas para olhos menos atentos que apreciam este tipo de discurso.

Considero Carlos Moedas uma pessoas inteligente, mas, a inteligência não é incompatível com incompetência e com impreparação para certas áreas e para determinadas funções. A experiência tem o seu peso em áreas muito específicas. É por isso que muitos autarcas falham por serem apenas nomeações políticas. Carlos Moedas é o caso. Não enxerga o que é ser presidente de uma câmara como a de Lisboa.

Faltar-lhe-á a força política suficiente para se libertar do figurino do passado que o prende às medidas para além da troika de Passos Coelho pensando que é possível redesenhá-lo numa autarquia como Lisboa, com roupas mais atuais, daí os “tempos novos” o equivalente aos amanhãs que brilham e às auroras resplandecentes. Tudo quanto possa fazer em Lisboa terá o peso do neoliberalismo “passadista” de Passos que pretende aplicar à gestão da cidade, daí a sua miopia política que não o deixará enxergar mais longe com os seus raciocínios eleitoralistas de vistas curtas, à medida dos acontecimentos ocasionais que lhe vão parar ás mãos não raras vezes por proporcionadas pelos próprios adversários políticos.

Ao fazer oposição o seu pensamento é quadrado, tudo é preto ou branco, sem matizes. Daí a conferência de imprensa sobre o caso da informação às embaixadas pela Câmara de Lisboa onde faz associações que qualquer um considera serem estupidez de principiante. Tem-se mostrado um candidato obtuso e com argumentos descabidos dos propósitos que não acrescentaram valor a uma candidatura para uma autarquia como a de Lisboa. Mostrou existir uma relação entre uma tolice, isto é, um fraco nível intelectual e a maldade entendidos como o desprezo de outrem.

Carlos Moedas passou a entrar em delírio quando, sobre o caso das informações sobre os promotores das manifestações que foram comunicadas pela Câmara de Lisboa às embaixadas ao acusar Fernando Medina de ser “cúmplice” do Presidente russo Vladimir Putin. É um tipo de ataque que se insere nas margens cinzentas da política método que também está a ser acolhida em opiniões com máscara de respeitáveis, estilo que Moedas passou a perfilhar. Deixou de ser o Carlos Moedas de opiniões por vezes aceites por serem consensuais e com prestígio intelectual. Passou a entrar no jogo eleitoral da pobreza populista que é seguida pela extrema-direita.

Como é possível sem se ser doente, demente, senil, “maluquinho”, lunático, sem se ter as faculdades mentais diminuídas, se não se for próximo da direita radical, acusar alguém na sua essência democrática como tendo relações políticas perversas com Putin. Os que, assim, sem mais, fazem acusações deste tipo são os que, em suma, se colocam ao lado dos que defendem a essência corrupta da democracia e contra o absoluto do sistema corrupto.

A campanha para as eleições autárquicas ainda vai no início, mas o candidato Carlos Moedas já entrou em delírio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:25

Ingleses nos champions Porto (2).png

 

A subserviência perante o que é estrangeiro, sobretudo a Inglaterra, parece ser o nosso fado desde séculos. Alianças, tratados, acordos e outros que tais raramente no favoreceram dando-nos em troca migalhas quais pedintes europeus.

Quando há algo que nos desagrada que provenha da Inglaterra lá estamos nós a curtir as mágoas que nos causam as decisões vindas da grande ilha europeia. Ainda em janeiro deste ano, no auge da segunda vaga da pandemia, o Reino Unido   proibiu a entrada de pessoas e bens não essenciais oriundos de um conjunto de países do hemisfério Sul devido à nova estirpe de coronovírus detetada no Brasil. Portugal surge incluído neste grupo devido à "forte ligação" com o Brasil, o que levou o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, a considerar "absurda" e "sem lógica" a decisão do Reino Unido suspender os voos com Portugal, medida "súbita e inesperada" cujos fundamentos disse desconhecer.

Nesta declaração está claro a questão do turismo que ansiosamente o nosso Governo espera como pão para a boca. A nossa dependência do turismo inglês é crónica. Anos e anos a nossa economia vive na dependência do turismo. Anos e anos em que os governos, de direita e de centro-esquerda que se alternaram no poder não reformaram a economia para diversificar a nossa dependência externa, nomeadamente de Inglaterra e no século XXI chamada Reino Unido.

Há séculos, pelo menos desde o início do século XVIII que os tratados com a Inglaterra nos são desfavoráveis mesmo em circunstância favoráveis Portugal e a Inglaterra eram aliados na guerra da Sucessão de Espanha; mesmo quando o comércio entre ambos atingira um nível mais elevado a Inglaterra olhava para Portugal como um útil comprador para os seus têxteis. Portugal fica a olhar porque a sua política industrial na época foi um fracasso, “pisca o olho” à nossa aliada e vê nos mercados ingleses de vinho a forma de desenvolveras exportações e surge o tratado de Methuen. E, pasme-se, como este tratado veio com vantagens para a nossa aliada mais antiga. O conjunto de medidas acordadas entre ingleses e portugueses limitava gravemente a economia já que vista que não podiam diversificar a sua agricultura e estabelecer acordos comerciais com outras nações, ao passo que o consumo em grande escala do tecido inglês tornava Portugal uma das nações mais endividadas da época. Para minorar as dívidas acumuladas e a falta de dinamismo económico, Portugal aumentou a cobrança sobre o ouro extraído no Brasil. Posteriormente constatou-se que os ingleses compravam menos vinhos do que os portugueses adquiriam os tecidos britânicos. Além disso, Portugal devia dinheiro aos ingleses e tornou-se cada vez mais dependente da Inglaterra.

Pode perguntar-se o que tem isto a ver com o turismo? A nossa dependência do Reino Unido com efeitos no turismo sem contrapartidas. as receitas de turismo do Reino Unido em Portugal até outubro de 2019, antes da pandemia, de acordo com dados do Banco de Portugal, subiram 7,8% para 2.931 milhões de euros. O turismo é razão da nossa subserviência face aos Reino Unido e também da nossa sobrevivência.

No editorial do jornal Público de 30 de maio Manuel Carvalho escrevia com mostras de indignação e sobre a falta de respeito mostrado para com os portugueses pelos órgão de poder intervenientes: “Os britânicos voltaram a gozar de privilégios no Porto que se julgavam extintos há séculos. Como outrora, tiveram por estes dias direito a leis exclusivas e a estatutos de excepção. Puderam fazer o que os indígenas não podem, como reunir-se aos magotes com cerveja na mão, assistir a um jogo de futebol ao vivo, deambular em hordas pela rua e, aqui e a ali, dar largas ao mau feitio estimulado pelo álcool. Tinham prometido que nada disto aconteceria, que eles viriam e iriam numa bolha de segurança, que teriam os movimentos condicionados por “fanzones”, que haveria a garantia de que todos tinham feito testes e seriam acompanhados. Era mentira.”.

E mais adiante acrescenta: “Os jovens que jogaram a final do campeonato de râguebi acreditaram que a recusa da DGS da presença de 500 espectadores se baseava na aplicação de um critério universal, como manda o Estado de direito. Os jovens que noite sim, noite não são convidados pela polícia a desamparar os miradouros, também. Os donos dos restaurantes que correm com os clientes que se atrasam na sobremesa à hora do fecho, também. Os adeptos do futebol que sonharam com uma última jornada com duas ou três mil pessoas nos estádios, também. Quem se sujeita ao cumprimento da lei não pode aceitar que o Estado o trate como um pária no seu próprio país.”

E termina: “Mas há um equilíbrio obrigatório entre os eventuais ganhos de imagem lá fora e o insulto à dignidade dos portugueses cá dentro. Um país decente não ajusta nem suspende as regras em vigor. Nem para os adeptos do Sporting, como aconteceu no final do campeonato nacional, nem para estrangeiros.”

Parece termos voltado aos idos anos 80 quando íamos para o Algarve fugindo do calor abrasador de agosto em Lisboa para nos refrescarmos nas águas tépidas da costa algarvia.  Lá tínhamos que pagar a carestia dos cafés e dos restaurantes, baratíssimos para os ingleses veraneantes que tomavam conta do Algarve e que pensavam ser deles, e nós, na nossa terra éramos, uns pobretanas mal recebidos naqueles espaços. Nada tenho contra os ingleses nem tão pouco sentimentos xenófobos, mas a discriminação é irritante.

João Miguel Tavares num artigo de opinião caracterizou melhor do que eu o sentimento da altura “Tristemente, ocupávamos mesas sem conseguir consumir com um entusiasmo comparável ao dos britânicos – e sem deixar comparáveis gratificações. Havia histórias míticas sobre jantares bem regados que acabavam com gorjetas que valiam um mês de salário. Nenhum português pós-FMI podia competir com isso. Triste consequência: éramos maltratados pelos nossos próprios compatriotas, que nos atendiam em último, nos serviam em último, e nos traziam a conta em primeiro.”.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:30

Operação Marquês.png

A busca irracional pela responsabilização por um problema mesmo que incorretamente pode ser também utilizada como manobra política ou influenciadora para angariar adeptos em nome de um objetivo. O exemplo mais claro são as perseguições a pessoas e a povos apontados como os principais culpados pelos problemas mesmo que estes não lhes sejam imputados, isto é, a procura duma espécie de bodes expiatórios.

A justiça que alguns candidatos a justiceiros pretendem que seja feita é por convicções, pelo que pensam, acham, ouvem e leem na comunicação social e baseada em opiniões mais ou menos desfavoráveis sobre os presumíveis culpados que lhes impingem e que, de imediato, passam a ser culpados e condenados antes de qualquer julgamento.

A Operação Marquês surgiu em simultâneo com a criação de um ambiente propício às emoções fáceis e até contraditórias e sem o distanciamento e a racionalidade necessários. A manipulação da opinião pública pode conduzir a julgamentos e a condenações por antecipação aos tribunais. Em caso de suspeição há a tentação de culpar, antes de prova de facto, o outro que não seja da minha simpatia ou do meu clube e, no caso contrário, a tentação de ilibá-lo, justificá-lo e desculpá-lo.  Nos casos de processos fraudulentos provenientes da direita observam-se atitudes mais condescendente quando de corrupção ou fraude se trate o que é também é evidente na comunicação social.

O caso da presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, Conceição Cabrita, suspeita de "um crime de corrupção passiva de titular de cargo político" e de "um crime de prevaricação de titular de cargo político" ficou proibida de manter "contactos diretos e indiretos com os demais arguidos", assim como com o deputado António Ribeiro Gameiro (PS). Este é apenas um caso em que a SIC ao dar a notícia mais do que uma vez mencionou Gameiro como sendo do PS omitindo a filiação partidária da autarca que é do PSD.

Voltando à Operação Marquês. Mais do que uma vez afirmei que tenho a convicção de que, no caso de José Sócrates, dado os indícios dos crimes em que supostamente terá estado envolvido até ao julgamento será suspeito de alguns crimes que lhe estão a ser imputados. Bem pode Sócrates clamar aos quatro ventos que é tudo mentira, que é tudo falso, que o quiseram “tramar”, que são tudo invenções, que é objeto de perseguição política que isso não o ilibará.  Todos os que se encontram envolvidos em investigações por suspeita de crime, seja ele qual for, quer durante os processos de inquérito, quer mesmo após condenação, e com provas de facto, são presumivelmente inocentes. Salvo raras exceções nunca admitem a culpa. Para eles é a sua verdade, assim como Sócrates também tem a sua verdade. Faz parte do processo de autodefesa.

Por outro lado, não é menos verdade que os órgãos de comunicação social por fugas de informação, aparentemente premeditadas, são responsáveis por condenações na opinião pública, mesmo antes dos julgamentos, contribuindo para a culpabilização dos potenciais ou eventuais arguidos com o objetivo de prenderem os leitores e forçarem a opinião pública, esquecendo-se o direito à presunção de inocência.

Basta regressarmos a novembro de 2014 e recordarmos o desembarque do avião que trouxera José Sócrates de Paris e encontrou a polícia à sua espera, bem como os meios de comunicação social que haviam sido avisados da sua chegada, era fácil a qualquer observador concluir que o espetáculo teria sido montado.

Assiste-se em direto a manifestações de ódio, umas evidentes, outras, mais contidas, especialmente nas televisões, com entrevistas e debates onde as opiniões são apenas num sentido, com inexistência de contraditório, numa espécie de jornalismo do tipo partido único.

Frustradas as expectativas de uma fogueira inquisitória e de condenação a que o juiz Ivo Rosa, segundo alguns, deveria pegar fogo, censuram-no agora por ter cumprido o dever que lhe compete fora da emoção e da parcialidade. E, mais uma vez, a SIC no mesmo dia da decisão no Jornal da Noite Ricardo e Costa e João Gomes Ferreira aparecem a criticar e a contestar as decisões do juiz. O que os move?  A ânsia de justiça ou um ódio por marcas que os atingiram no passado?

No meu entender o juiz Ivo Rosa, cumpriu a lei ao prescrever o que tal deveria ser.  Sobre ele abatem-se já os gritos histéricos de jornalistas e comentadores de serviço, sedentos de popularidade, clamando contra a prescrição do crime, por ter passado o limite do tempo de investigação, ao mesmo tempo que surgem manifestantes histéricos convocados por redes sociais a pedir a cabeça do juiz com emoções mais ou menos exaltadas. Daqui até se exigir os métodos da idade média aplicados á modernidade vai um passo. Tudo quanto foi o procedimento do ministério público ao longo dos anos em que dura a Operação Marquês foram as sucessivas fugas de informação que degradaram as investigações.

Não são novidade a estratégias historicamente conhecidas dos radicais de extrema-direita no aproveitamento de factos mais ou menos polémicos para através de propaganda falaciosa influenciar as massas para o seu objetivo, criar instabilidade, perseguições étnicas e culturais e estimular o descontentamento contra as instituições. Esta gente, com o discurso mimético, tende a omitir a quem os apoia que, caso chegassem ao poder, seriam os primeiros a cercear a liberdade de manifestação e de expressão de pensamento e a criar tribunais plenários em que a instituição policial era disfarçada de fórum justicialista. Uma farsa com a cumplicidade activa de juízes, para "legalizar" o mais puro arbítrio. As sentenças não seriam preparadas nem escritas pelos juízes: já vinham escritas das polícias tranformadas em investigadoras políticas. Os que lançam petições para demissões de juizes ou outras barbaridades do género estarão naquela linha.

Estão em presença dois poderes independentes que alguns pretendem confundir: o da justiça e o da política, por vezes sustentadas pela comunicação social com a prevalência da segunda. Na primeira está a justiça que deve ser feita face a atos praticados. Na segunda está a política e em que está em causa o homem que foi primeiro-ministro e que segundo a investigação entrou em esquemas de corrupção. Acrescento ainda uma terceira ordem que contém as duas anteriores e que são as vozes histéricas das redes sociais que pretendem que prevaleça na opinião pública que é a de ordem política, mas com um novo alvo agora direcionado para o juiz Ivo Rosa.

A perceção que se tem é de que para a fazer esquecer da memória coletiva foi apagada a forma como nasceu e foi orientado o processo de instrução que andou pelas páginas e ecrãs dos meios de comunicação, como se de uma novela se tratasse transformando o processo numa bandalheira e numa promiscuidade sistemática e continuamente esburacado que serviam como fugas sucessivas de informações de que o processo de instrução padeceu desde o seu início e cuja origem jamais iremos conhecer.

Neste sentido recomendo um artigo que Garcia Pereira escreveu em que aponta a sua mira e que pode ler aqui com o título “Operação Marquês” – De quem é a culpa afinal? E cujo fundamento é, “Mas a questão essencial é esta – será que a responsabilidade desse inquietante e negativo resultado é de quem interpretou e aplicou a lei, ou é de quem, atuando como atuou, por ação ou omissão, o tornou inevitável?”

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:25

Embora concordando, em parte, com o que escreve Rui Tavares no jornal Público parece-me ser um atribuito da esquerda querer sempre tudo para já. Neste caso estou com os que dizem que muito, depressa e bem não há quem! E quando se pretende transformar o país lá aparecem as manifestações contra.

 

OPINIÃO

(Rui Tavares, in jornal Público, 10/03/2021)

Rui Tavares.png

E uma missão para transformar o país, porque não há?

Portugal precisa de um grande debate nacional sobre o seu modelo de desenvolvimento futuro, e precisa de várias reformas transformadoras: pelo menos no ensino, na regionalização e na administração pública, incluindo justiça.

Marcelo Rebelo de Sousa apresentou cinco missões ao país para o seu segundo mandato e eu desejo-lhe toda a sorte do mundo. Nenhuma das missões de Marcelo é insensata ou incorreta, bem pelo contrário: manter o regime democrático e com ele fazer frente “às mais graves pandemias” (incluindo, presumivelmente, a pandemia do nacional-populismo); desconfinar com sensatez; reconstruir as vidas das pessoas com crescimento, mas sobretudo com coesão, que são a terceira e quarta missão; e, finalmente, assumir que Portugal “não é uma ilha no universo” e aprofundar a nossa ação no plano da lusofonia, europeu e mundial.

Concordo com tudo, e aplaudo a passagem em que Marcelo Rebelo de Sousa apresentou a sua visão de uma democracia feita de “inclusão, tolerância, respeito por todos os portugueses”, em que ninguém seja “sacrificado ao mito do português puro”.

Infelizmente, não chega. Se as nossas missões forem só estas, corremos o risco de falhar redondamente, tal é o tamanho dos desafios que temos pela frente e o peso dos problemas que trazemos de trás. Nesta década vamos ter não só as consequências da pandemia, mas uma economia global em plena transformação e com divergências acentuadas entre a Ásia e o Ocidente, e agora também entre os EUA e a UE, se não for aprovada uma segunda bazuca. Mas teremos também a expansão da inteligência artificial, do teletrabalho, da hiperconectividade em 5G, da impressão 3D, tudo a necessitar de mais incorporação de conhecimento e tecnologia e de mais capacidade de requalificar a força de trabalho. E teremos ainda o aprofundar da crise ecológica e os seus impactos no território nacional, na vida das pessoas, na agricultura e na biodiversidade. Desafios não faltam, e a maior parte deles — como no passado a entrada na China na Organização Mundial do Comércio, o alargamento a leste e a entrada no euro, que conjuntamente nos puseram a patinar durante as duas primeiras décadas do século — nem sequer entram no debate público em Portugal. Com que recursos financiar as universidades do futuro? Com que impostos combater o predomínio dos combustíveis fósseis? Como garantir que funciona o elevador chamado Estado social?

O discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, tal como a prática governativa de António Costa, está feito de boas intenções e sentimentos no sítio certo: é de facto preciso reconstruir a vida das pessoas, e nas suas belas palavras isto “é tudo ou quase tudo: emprego, rendimentos de empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos”. Mas se é verdade que isto “é muito mais do que recuperar ou regressar a 2019”, por que não existe um diagnóstico acerca dos padecimentos do Portugal de 2019 que já então tornavam difícil que superássemos sem mais os desafios da nova década?

A verdade é esta: Portugal não chega lá com esta indefinição em torno do seu modelo de desenvolvimento, nem com metas que eram adequadas ao nosso passado recente mas que estão profundamente desajustadas do grau de exigência que temos de ter para o futuro. Não é preciso só manter, reconstruir, recuperar; é preciso entender que um Portugal que joga para o empate — apenas convergir com a média da União Europeia, sem querer tornar-se numa sociedade de vanguarda em termos económicos, ambientais e sociais — acabará a perder e, na posição periférica que temos, tornar-se insustentável.

Passam governos e doutrinas políticas e continua a não haver uma resposta satisfatória ao problema do que queremos ser na Europa e no mundo neste século XXI. A doutrina de Passos Coelho e Paulo Portas era, no seu “ir além da troika”, a de que Portugal teria de se tornar competitivo cortando nos custos do trabalho, ou seja, embaratecendo-se. A doutrina da saída do euro, que tantos defenderam há uns anos, era a mesma, apenas por outra via: desvalorizar o “novo escudo” e ser competitivo, embaratecendo-se. Ambas se esqueceram de um detalhe: as pessoas emigram. E se cortamos os salários aos portugueses, ou lhes damos um salário em moeda fraca, as pessoas — num contexto de liberdade de circulação na União Europeia — vão ganhar mais lá fora com a formação que lhes demos cá dentro.

Perante a rejeição dupla destes caminhos (da desvalorização da austeridade a da desvalorização da saída do euro) a estratégia de António Costa e de Marcelo Rebelo de Sousa tem sido navegar à vista. Não chega.

Portugal precisa de um grande debate nacional sobre o seu modelo de desenvolvimento futuro, e precisa de várias reformas transformadoras: pelo menos no ensino, na regionalização e na administração pública, incluindo justiça. E precisa de o fazer agora, que o 25 de Abril se aproxima do meio século. Mas, caramba, como a falta de ambição da nossa elite política é aflitiva.

 

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

 

Historiador; fundador do Livre

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:45

Heróis de ontem, de hoje e de amanhã

por Manuel_AR, em 19.02.21

Guerra colonial.png

Acho um desplante quando leio ou escuto muitos dos nossos comentadores e líderes de opinião habituais que ocupam espaço na nossa comunicação social perorarem sobre casos que não viveram. Comentam e exprimem juízos sobre factos passados como se os tivessem presenciado, vivido, sentido na pele e convivido quando na época a que se referem ainda não eram nascidos ou eram crianças de tenra idade.

Dir-me-ão que isso não é impeditivo de tecer opiniões sobre temas de então porque se recorre à documentação e relatos históricos disponíveis. É certo, mas o que está em causa é a convicção com que opinam sobre factos ou acontecimentos e exprimem sentimentos como se deles tivessem sido contemporâneos.   

Uma coisa é a disponibilidade de fontes históricas que, no caso, só podem ser documentos textuais, registos sonoros e representações pictórica como fotografias e vídeos. Outra coisa são as interpretações ou reinterpretações que fazem a partir dessas fontes. Isto já não é ciência histórica, são opiniões e interpretações, mais ou menos aceites ou assentes em factos históricos em que a ideologia também está envolvida. Neste conjunto incluo editoriais como o de Ana Sá Lopes, opiniões como as de João Miguel Tavares, e de Manuel Loff como historiador que vieram a propósito da morte de Marcelino da Mata.

Marcelino da Mata foi um comando negro do Exército português que lutou ao lado das tropas portugueses durante a guerra colonial (na Guiné) e que teve homenagem de Estado que despontou logo coros de opiniões, umas criticando, outras aplaudindo, outras, ainda, julgando as escritas opiniões.

Se defender os meus pontos de vista sobre factos reportados a uma parte do passado à luz dos presentes contextos é como se escrevesse hoje a justificar e a enaltecer a importância do exemplar heroísmo de Miguel de Vasconcelos por ter representado os interesses castelhanos durante os 40 anos de dependência espanhola que terminou terminada com a Restauração da Independência conseguida pelo golpe de estado revolucionário ocorrido a 1 de dezembro de 1640 perpetrado por um grupo de conspiradores.

Se sugerisse que Miguel de Vasconcelos, na data das comemorações da efeméride, fosse recordado de forma elogiosa por ter sido “injustamente” defenestrado, a minha atitude ficaria, deste modo, ideologicamente comprometida, mesmo 381 anos depois. Tal opinião, se publicada, seria contestada por várias outras mais ou menos extremadas, porque a minha interpretação subjetiva me colocava apenas num dos lados do facto histórico. Não poderia estar simultaneamente do lado espanhol e do lado português, teria de fazer uma opção. Não poderia estar do lado dos heróis e, ao mesmo tempo, dos vilões, os outros. Para estar com ambos os lados teria, então, de apresentar argumentos válidos que sustentassem tal opção. Com o olhar do presente teria então de abraçar os heróis e os vilões numa atitude de ambiguidade ideológica. Mas em política as coisas nem sempre são brancas ou pretas, há também cinzentos.

Um dos problemas das ciências sociais ao qual a ciência histórica não escapa é a penetração ideológica subjetiva nas investigações veiculando as ideologias das práticas dominantes ou das práticas suas opositoras. Isto é, as ideologias teóricas resistem e dominam as formações científicas nas ciências sociais e às quais a história não fica imune.

Ana Sá Lopes, no editorial do jornal Público, faz uma crítica ao facto de responsáveis do Governo se colocarem numa atitude de expressão de “justo reconhecimento ao tenente-coronel Marcelino da Mata, um dos militares mais condecorados de sempre, pela dedicação e empenho depositados ao serviço do Exército português e de Portugal” com fez o ministro da Defesa Nacional.

Por sua vez o PSD entregou um voto de pesar em que enaltece “a excelsa bravura” e o “exemplar heroísmo” e o CDS pediu um dia de luto nacional.

O caso mais evidente de que tenho conhecimento que causou alguma polémica foram o editorial de Ana Sá Lopes e o artigo de opinião de João Miguel Tavares que foi contra-atacado por Manuel Loff.   Como seria de esperar seguiu-se ontem a reação de JMT.

Escrevi algumas vezes neste blogue sobre as opiniões de João Miguel Tavares, umas vezes em concordância, outras vezes totalmente em desacordo. No caso presente limito-me a um simples ‘não sei’.  Porquê desta minha atitude simplista?

A razão está em dois dos meus pontos de vista: o primeiro por me parecer que (as aparências por vezes iludem) todas aquelas manifestações de reconhecimento a Marcelino da Mata estejam numa linha de circunstância meramente política e propagandística, mais ou menos ideológica, tendo em vista uma espécie de mostra oficial do não racismo português. O segundo por ser uma forma de manifestação hipócrita de não hostilização da direita e da extrema-direita por acomodação a um passado que foi colono-ditatorial e de patriotismo oportunista que tinha em vista a manutenção das colónias perdidas pela revolução do 25 de Abril.

Estes meus pontos de vista, que valem o que cada um quiser, baseia-se no facto de as opiniões sobre o passado histórico se transformarem em tentativas de rescrita, omitindo uns factos, salientando ou construindo outros consoante satisfaça as ideologias de cada um, sejam elas de direita ou de esquerda mais ou menos radicais, sobretudo quando se referem aos 50 anos de Estado Novo, ao colonialismo e à pós-revolução de Abril de 1975 que criaram sobre os factos mitos feitos à medida. Quer nos agradem, quer não, os factos históricos não se apagam, nem se reescrevem, podemos é discordar ou concordar com as abordagens que são feitas e reinterpretá-las à luz de novas investigações e de novos documentos cientificamente validados.  

Os factos históricos são realidades objetivas, são independentes dos observadores, embora possam ser percebidos de modo diferente por cada um de nós por razões que se prendem, por vezes, com a falta de acesso a informação fidedigna e imparcial e têm de ser adequados à realidade, devendo os resultados obtidos ser verificados pelos restantes.

Tendo em conta esta perspetiva João Miguel Tavares escreve a certa altura do seu artigo que “Há uma forma particular de pobreza que afecta este país – a pobreza da nossa memória histórica, demasiado selectiva e formatada, que conduz à ignorância generalizada sempre que falamos de factos ou de pessoas que não encaixam na historiografia oficial do regime”. Ou seja, acusa o regime de seleção e formatação dos factos históricos. Não sabemos a que regime se refere? Será ao regime democrático? Será ao regime de Governo atual? E se fosse outro o partido o do Governo o regime também se comportaria da mesma forma? Ficamos sem respostas!

Há algo, no que escreve Miguel Tavares, que me parece caricato quando se refere à historiografia oficial do regime ao afirmar que “Marcelino foi colocado do lado de fora da história da democracia portuguesa e, por isso, morreu sem que o seu nome e a sua vida extraordinária fossem integrados na memória colectiva.” Vamos lá a ver, além de Marcelino da Mata não houve centenas, senão milhares, de outros militares que combateram nas ex-colónias, que arriscaram a vida e que não foram condecorados nem durante, nem depois, do regime do Estado Novo e que não foram integrados na memória coletiva. O que sabe JMT da memória coletiva senão aquilo que lhe ‘enfiaram’, pela sua educação e formação, na cabeça ao longo das suas primaveras e que, suponho, racionalmente, posteriormente aceitou, acrescido pelo que leu e ouviu, ou pelo que lhe contaram sem as certezas validadas pela investigação histórica.

JMT teria dois anos quando aconteceu a Revolução do 25 de Abril de 1974 que terminou com o fim oficial do Estado Novo, data em que também se iniciou o PREC (Processos Revolucionário em Curso) que terminou mais de um ano depois com o 25 de Novembro de 1975.

Nicles, é a vivência que JMT tem dessa altura. Neste aspeto, a não ser pelo que lhe relatam nos bastidores a que tem acesso em determinadas fileiras, sabe ainda menos do que eu. O que ele, e outros, sabem é através de fontes históricas e de relatos. Está no seu direito de defender ou censurar uma época, não pode é assumir grande ciência sobre os acontecimentos do passado. Pode ainda, isso sim, fazê-lo através de outros, consoante as ideologias. Não pode é tentar ‘lavar’ ou fazer com que passos da história sejam omitidos, por muito que o deseje e tentar sugerir que outros o fazem.

Defender ou atacar Marcelino da Mata são sofismas que cada um gere conforme a sua subjetividade política e ideológica.   

A perda da memória histórica do século XX terá como causa o nulo ou pouquíssimo tempo dedicado nas escolas ao estudo na disciplina de história, sobre o Estado Novo e do pós-25 de Abril o que contribui para o esquecimento e desconhecimento dos factos histórico daquela época como sejam a ditadura, a guerra colonial, os presos políticos, os torturadores, os funcionários da polícia política, os denunciantes. Talvez, como escreveu Ana Sá Lopes, “devido à estratégia para integrar o velho regime no novo regime, o esquecimento acabou por ser a via aceitável para o convívio possível”.

À medida que os anos passam os jovens estão, e estarão se nada mudar, cada vez mais, afastados da nossa história do século XX e acham, por desconhecimento, que tudo quanto sejam assomos de regresso a regimes autoritários com persecução política e étnica pertence ao domínio da ficção e da imaginação de alguns.

Grave também é, devido às interpretações menos avisadas, aceitar uma espécie de maniqueísmo em que a realidade histórica deve ser aceite e dominada simultaneamente por duas visões antagónicas, as do bem e as do mal porque, como no dizer de Tavares, uma “sociedade adulta deveria perceber – lição essencial em tempos maniqueístas – é perfeitamente possível alguém ser herói e ser vilão”.

Não venha agora dizer que grita como no título do artigo de opinião de ontem: “Mais uma comparação com o nazismo e eu grito”. Pois pode gritar à vontade porque poderemos também ser uma sociedade adulta e comparar com outros regimes como o do estalinismo em que, segundo JMT, também deveria ser perfeitamente possível alguém ser herói e ser vilão. Sim, JMT, não podemos varrer da nossa memória coletiva o que foram aqueles dois regimes e que as suas ameaças não estão radicalmente afastadas, mesmo no nosso país.

Assim sendo, porque não sermos também solidários e aceitar os vilões que negam o holocausto, compreender os atos praticados pelas SS, soldados e altas patentes nazis através de perseguições contra os judeus e outros, na altura considerados pelo regime heróis e patriotas, mas que, com o passar do tempo, também poderiam ser louvados e condecorados por serviços prestados à Pátria.  E porque também na atualidade não se transformam facínoras da PIDE em heróis porque estavam contra os inimigos da Pátria e do Estado Novo.

Para que fique esclarecido não tenho nada a favor, nem contra Marcelino da Mata, o que entendo é que a homenagem prestada foi extemporânea e desajustada. Compreendo o seu passado, e o de muitos outros no contexto de uma guerra em que havia ordens a cumprir, a bem ou a mal.  Ou será que todos teriam de fugir para fora do país? Eu estive lá! Também sou culpado e, portanto, ser também homenageado, assim como muitos outros que lá estiveram. Não enramalhetem ou desenfeitem o desnecessário, porque a história é o que é.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:06

Educação ou má educação. Eis a questão!

Fundamentando uma opinião

por Manuel_AR, em 27.01.21

Escola e ma-educação.png

A leitura de um artigo de opinião que Henrique Raposo escreveu para o semanário Expresso sobre má educação levou-me a refletir um pouco e a esboçar a minha sobre o tema que o autor aborda. Antes, porém, devo dizer que concordo com a maior parte do que o autor escreveu, mas situemo-nos em primeiro lugar nos conceitos de educação que, neste contexto, entendo deverem ser esclarecidos.

Entende-se por educação o conjunto dos princípios, valores e normas de conduta socialmente transmitidas que estruturam a personalidade de um sujeito. Não confundamos com outro conceito de educação que é o processo educativo formal sob a forma de escolarização, isto é, de instrução em ambientes educativos especializados onde as pessoas passam alguns anos da sua vida.

Há quem pense que a má ou a boa educação terá a ver com a classe social...

Educação ou má educação.pdf

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:29

Os artimanhosos

por Manuel_AR, em 08.01.21

Artimanhosos (3).png

Artimanhoso, adjetivo constituído por artimanha + manhoso, é aquele que age com artimanha, que utiliza uma forma hábil, e sobretudo engenhosa, de conseguir algo com astúcia levando outros ao engano sobre si e sobre o que pretende. A artimanha é a arte dos fingidores que são os que dissimulam, que querem passar por aquilo que não são, que disfarçam.

Para penetrar nas gretas das fraquezas do outro os artimanhosos utilizam caminhos orientados por via da manipulação dos seus relatos. Podemos falar de tramas, de urdiduras, de fiar relatos, de tecer história.

Sou mais prosaico do que poético, mas, por coincidência, através de pesquisas que efetuei vieram ter à minha mão alguns poemas que nada têm a ver com este tema, mas que me serviram como metáforas para uma caraterização acutilante deste tipo de indivíduos. Um deles é da autoria da poetisa norte-americana Louise Glück, Prémio Nobel da Literatura em 2020, da qual utilizei o poema “O Poder de Circe” publicado na antologia Rosa do Mundo, Poemas Para o Futuro (2001), da Assírio & Alvim, que aqui transcrevo parcialmente:

“Nunca transformei ninguém em porco. / Algumas pessoas são porcos; / faço-os parecerem-se a porcos. /Estou farta do vosso mundo / que permite que o exterior disfarce o interior.

Os teus homens não eram maus; / uma vida indisciplinada / fez-lhes isso. Como porcos, / sob o meu cuidado / e das minhas ajudantes, / tornaram-se mais dóceis.”

Outros versos, do poema “Em Creta” de Sophia de Mello Breyner Andresen, "Antologia", págs. 253, 254 e 255, Círculo de Poesia Moraes Editores, 3ª. edição, 1975 podem servir para o mesmo fim: / Porque pertenço à raça daqueles que / [percorrem o labirinto, / Sem jamais perderem o fio de linho da palavra.

Fernando Pessoa escreveu um poema intitulado “Autopsicografia” em que, logo na primeira quadra, afirma que “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor…, mas os artimanhosos são fingidores sem sentir dor”.

Os artimanhosos não são poetas, por isso, pertencem ao grupo daqueles que, por labirintos intricados, jamais perdem o fito sobre quem, o quê e como pretendem atacar.

O cinema e a televisão são os meios onde mais se vislumbra o fingimento, onde se faz que tudo pareça verdade ou dela se aproxime. Tal é o caso das novelas televisivas e de programas como os “reality shows” como o Big Brother onde se constroem mundos do faz de conta para parecerem reais. Não através de artimanhas, mas pela construção/representação exagerada da realidade assente na produção de um espetáculo que leve o telespectador a acreditar que, o que vê e ouve é de facto real. Os reality shows mesmo parecendo em tempo real, os intervenientes ao saberem que estão a ser gravados fazem dos seus atos serem reais.

Os telespectadores, face à narrativa ficcional teatralizada, vão-se identificando, ou não, com os personagens nos seus múltiplos atributos. A identificação leva o telespectador a reconhecer-se com personagens interpretadas pelo ator, assumindo um ou mais dos seus atributos distintivos. Pode também projetar-se nas personagens que é o ato pelo qual o indivíduo atribui a outros, (os personagens), os seus próprios sentimentos ou manifesta a sua natureza própria. Assim, em síntese: a identificação é o movimento de fora para dentro e a projeção é o movimento de dentro para fora, (conceitos desenvolvidos pelo filósofo Edgar Morin, “A experiência do cinema”, 2003, p.143-172).

Na vida real é a projeção em mim do “outro” que é alguém que se admira ou de inveja e que se tenta imitar ou superar. Na nossa vida cotidiana privada e social estamos em permanente projeção-identificação desempenhando continuamente um papel, tornando-se, por vezes, em algumas pessoas num processo patológico.

Seja no cinema, seja na televisão, quando identificamos as imagens no ecrã e as associamos à vida real pomos as nossas projeções identificações em ação. A imagens cinematográficas e televisivas em que falta, na prática, uma comprovada realidade, detêm um poder afetivo muito forte, que a identifica como espetáculo dado pelo encanto da imagem que realça a visão das coisas simples e cotidianas. Um filme ou uma telenovela não são os mesmos para dois espectadores. A projeção-identificação é um processo em que sentimentos e obsessões se projetam na imaginação sobre as coisas e seres reais.

Alguém que se admira e que se tenta imitar é uma identificação com o outro e, ao mesmo tempo, o outro é incorporado na personalidade é um anel de transferências recíprocas.

Nos grupos familiares os astuciosos e artimanhosos, através da trica, vão construindo, junto dos que orbitam à sua volta, intrigas para bloquear laços entre parentescos. A manipulação é o ato de tentar influenciar alguém, seja para benefício próprio, seja ou para dito benefício da pessoa que está a ser manipulada, e a arma dos astuciosos.

Quem já passou os olhos pelo clássico “Ilustre Casa de Ramires” de Eça de Queiroz apercebeu-se da arte da artimanha em contexto de sedução quando a personagem Gracinha confeciona ovos queimados, muito do gosto do Fidalgo, para lhe agradar e reconquistar o antigo noivo, e quando da artimanha sedutora da D. Ana Lucena oferece, indiretamente através de uma amiga, um cesto com perfumados pêssegos da Feitosa ao Fidalgo da Torre (pág. 152).

Algumas peças teatrais têm caracterizado a atitude da artimanha. Recordo especialmente Moliére, e também Gil Vicente, no Auto da Barca do Inferno onde o onzeneiro tenta convencer o diabo a deixá-lo regressar a terra em troca de uma recompensa quando regressasse à barca.  Entra aqui a personagens da peça, manipuladora e influenciadora fazendo acreditar os outros em algo, pela manipulação e pela influência a acreditar em algo para tomar uma decisão.

O artimanhoso na hipótese de enviar propostas inaceitáveis para uma outra parte, ao agir de forma demorada, artimanhosa, desleal, e de forma obstinada, estará a atuar contrariamente à boa-fé, ao utilizar artimanhas para conseguir os seus fins. Furtivamente consegue fugir através das suas artimanhas e astúcias para se aproveitar do que mais lhe agrade sem que alguém se aperceba das suas verdadeiras intenções.

O que se tem passado nos EUA que culminou ontem com a invasão do Capitólio, por incitação do presidente Trump, é consequência das suas atitudes e pelas artimanhas que ele construiu para induzir o seu eleitorado a sentir-se perdedor sem se aperceber que está a ser por ele manipulado. Depois de ter certeza de que perderia as eleições engendrou um estratagema que levasse a esta consequência criada pela sua artimanha, sem se preocupar com o prejuízo causado ao seu próprio país. Para pessoas como Trump as eleições são desnecessárias. Também ao nível social, empresarial e outros agregados, os artimanhosos tudo fazem para empurrar para fora do seu círculo quem já não satisfaça os seus anseios expectáveis.

Na política uns, e continuo a referir-me aos artimanhosos, procuram a manutenção do poder a todo o custo, outros procuram degenerar a coesão social, outros ainda, procuram destruir a união e harmonia nos grupos de parentesco seus ou de outros, mas todos utilizam os mesmos procedimentos conducentes ao cumprimento de objetivos moralmente pouco saudáveis que resultam em desconfiança nos outros.

No palco do confronto do debate democrático e do antagonismo das ideias e soluções para os problemas, representa-se uma espécie de farsa expressa por atitudes e comportamentos, crenças e ingenuidades onde as artimanhas discursivas são apoiadas por narrativas falsas e adulteradas, altamente ideológicas e interesseiras dos políticos e dos partidos e seus aliados que são exímios em enganar, distorcer e ludibriar quem os escuta para obtenção de benefícios próprios. Nos processos eleitorais as artimanhas típicas inserem-se no discurso ideológico e populista da crítica aos adversários tendo em vista a obtenção do poder a que preço for.

Na política a artimanha pode nem sempre ser criticável nos regimes ditatoriais, como foi o caso do salazarismo em Portugal, o recurso a artimanhas e metáforas necessárias à linguagem literária e noticiosa eram utilizadas para driblar a censura e era prática corrente, até no jornalismo que nada tinha a ver com falsas notícias, era apenas uma forma de comunicar os factos verdadeiros por meias palavras.

Ao nível dos diversos grupos sociais as artimanhas também se evidenciam no palavreado e nas atitudes aparentemente conciliadoras, cujo objetivo é a obtenção de benefícios que, não sendo monetários, se situam na satisfação pessoal, por vezes são motivados por invejas, para superação dum sentimento subconsciente e duma certa inferioridade da própria condição do sujeito, mais aparente do que real, devido ao ambiente em que viveram durante as primeiras fases da vida. Os artimanhosos são dominados pela inveja e servem-se de todos os meios para igualarem ou superarem os que consideram ser seus antagonistas, sejam eles nos grupos de parentesco ou simplesmente de amigos e conhecidos.

O manipulador, quando em situação de privilégio, impulsiona outras personagens do contexto político e social onde se insere a agirem de acordo com os seus objetivos não revelados. A artimanha coexiste nos mais diversos níveis da sociedade: na política, na arte, no trabalho, nas escolas, do futebol, nas relações sociais de bairro e doméstico, nos comentadores televisivos, nos intervenientes em debates, nos que pretendem influenciar a opinião pública, os chamados líderes de opinião, através dos órgãos de comunicação.

A obsessão pela gabarolice de mostrar ser mais dos que os outros manifesta-se também no seio dos grupos de parentesco formais ou informais, lugar onde os artimanhosos agem consciente ou inconscientemente, levando até à separação de pessoas com objetivos egoístas ou até de pequenas invejas. Muitos servem-se do casamento como artimanha para agarrar um elevador social que os possa catapultar e os retire da sua pequenez. 

Contudo, é na política onde o fingimento se eleva ao mais alto nível no sentido de convencer os outros fingidores seus opositores. Os líderes na política são tão falsos e artimanhosos que até enganam os que os escolheram em eleições, defraudando-os logo que se encontrem no poder.

Veja-se o caso do que hoje foi notícia de que o PSD resolveu apresentar uma queixa-crime contra o primeiro-ministro, depois de António Costa ter acusado Paulo Rangel, Miguel Poiares Maduro e Ricardo Batista Leite de estarem envolvidos numa campanha para denegrir a imagem externa do país. Ora aqui está um caso de que, aparentemente, um político acusa outros políticos de artimanhas. Nada nos garante a veracidade, ou não, do que terá sido dito por aqueles políticos do PSD. Fazem agora de damas ofendidas para que possam vir a ser notícia, quando o mesmo é por eles feito a outros estão sempre desculpados. Políticos de tanta pequenez nunca se viu, talvez seja por Portugal ter um espaço geográfico também pequenino.

Isto pode não ser o que parece, pode ser apenas uma manobra/artimanha para fazer oposição ao primeiro-ministro e ao Governo. Pode até ser a deformação de uma realidade para justificar ou encontrar argumento para fazer oposição. Se haverá ou não envolvimento em campanha para denegrir a imagem externa do país nunca chegaremos a conhecer a verdade absoluta e mais profunda, apenas os seus indícios, as suas variantes, que podem ser várias, as versões que se engendram e as suas infinitas interpretações.

Finalizo este texto sobre as artimanhas encontradas e inerentes a uma leitura temática, preferencialmente à estrutural, (alcançados através da reconstrução da ordem das ideias de um texto), da “Ópera do Malandro” de Chico Buarque.  Embora na peça se pretenda evidenciar os aspetos político-sociais dum tipo de malandro, o transgressor, responsável pela lesão patrimonial e moral de um grupo social mais amplo, a sociedade brasileira do século XX denota, sobretudo, as "artimanhas" utilizadas pelos grupos dominantes política e economicamente para não perderem as conquistas. Podemos associar a esta peça o encontro da astúcia e da sedução como armas para atingir objetivos, não apenas na política, mas também noutros campos sem preconceitos preconizados pelos juízos de valor pessoais e sociais.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:40


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.