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Ou se ganha, ou se perde, e eu não quero perder o que se perde

Nem posso ouvir falar de “paz”, quando esta palavra significa apenas “rendam-se”, dêem a Putin o que ele quer para pavonear no desfile da vitória.

Foto
Churchill nas ruas bombardeadas de Londres DR

Este artigo começou por ser outra coisa, uma preocupada, urgente, incomodada reacção ao caminho perigoso que nos EUA tem levado o Partido Republicano a tornar-se um partido conservador extremista, bebendo fundo em tudo o que há de mais reaccionário, desigual, racista, antidemocrático e iliberal, subversivo da legalidade e insurreccional. A sua “modernização” é apenas a aceitação de candidatos do QAnon e outros grupos separatistas e supremacistas brancos, cada um mais reaccionário e imaginativo na conspiração do que outro. A gente pensa que eles já são isso tudo e aparece logo outro pior. Trump fê-lo e está a fazê-lo assim e os seus servos, que dependem da sua aprovação para ganhar as primárias republicanas, renovam todos os dias esse caminho antidemocrático e sem lei. E quanto ao Supremo Tribunal americano, cuja história está longe de ser famosa desde a guerra da secessão, que ele ajudou a provocar com a decisão em Dred Scott v. John F.A. Sandford, está hoje politizado pelos republicanos, que fizeram toda a série de manigâncias para garantir uma maioria de juízes, que de um modo geral mentiram sobre as suas intenções aquando das audições para a sua nomeação sobre as suas posições sobre a histórica decisão de Roe vs. Wade, que desde 1973 defende o direito das mulheres ao aborto.

Acresce que nem sequer nesta questão da Ucrânia os republicanos são mais seguros do que os democratas, um dos raros casos em que estes são mais consequentes e firmes, num Partido Democrata que consegue não ser isto em matéria nenhuma. Trump, o amigo e admirador de Putin (e provavelmente mais do que isso), e que atrasou o envio de armas para a Ucrânia, chantageando-os para arranjarem “lixo” sobre o filho de Biden, é a última pessoa em quem confiar na guerra da Ucrânia.

Ia isto tão “americano” até que escrevi a palavra Ucrânia, e deixou logo de ir por aí. É que nem posso ouvir falar de “paz”, quando esta palavra significa apenas “rendam-se”, dêem a Putin o que ele quer para pavonear no desfile da vitória. Fechem os olhos da cara para não ver a realidade brutal, que destrói, assassina, viola, mata e fere, agora mesmo na Ucrânia. É do domínio da força, da violência sem adversativa. Vem do “outro” lado, vem do inimigo. Hoje, como nos últimos dias, um civil é preso numa cidade ocupada, espancado, e encostado a uma parede ou no meio da rua, recebe um tiro de Kalashnikov no peito, e fica a morrer. Ou num apartamento de família, um míssil entra pelo prédio dentro, derruba a fachada, estilhaça os vidros, incendeia as roupas, destrói os locais das famílias, as memórias, os bairros e as suas relações. Se lá estiver gente dentro, morre ou fica com o corpo destruído.

Não, isto não se passa nos EUA, nem em bom rigor em nenhum sítio do mundo. Podemos ir à Síria, a Gaza, ao Sudão, ao Iémen, a todos os locais de guerras no mundo e nada se compara ao que acontece hoje na Ucrânia. É que não há encenação, desinformação, fake news, “nevoeiro de guerra”, nada que possa esconder, minimizar, justificar o que se passa. Abram os olhos da cara e fechem os olhos da obediência e da hipocrisia de gritar pela “paz”, porque nem sequer são os olhos da ideologia, porque aqui não há nenhuma.

Eu sempre escrevi que não era a democracia versus a autocracia que estava em causa na Ucrânia, nem disse alguma vez – e lembrei-o desde início do conflito  que o Governo ucraniano, Zelensky à frente, é flor que se cheire. Mais: tenho reservas que se abandonem os critérios de entrada para a União Europeia para a Ucrânia, asneira que já se paga caro com outros países do centro e Leste da Europa, ou noutro sentido com a Turquia, e fui, presumo, o primeiro a falar na televisão do Batalhão Azov, e dos irmãos nazis e nacionalistas extremos da Rússia e da Ucrânia, tão parecidos que eles são. Mas, chegados aqui, a invasão da Ucrânia sem qualquer provocação imediata, sem qualquer objectivo que não seja a submissão, sem qualquer respeito pelos civis, pelo direito, pelas leis da guerra (que também existem), assente numa política de força e brutalidade, ameaça a minha liberdade. Sim, a minha liberdade. E a paz sem aspas.

Claro que no modo como andam os costumes, eu digo isto porque alguém me paga para dizer, ou porque não quero perder os meus “lugares” na comunicação social, ou porque no fundo sou um “fascista” vendido ao imperialismo americano, que não percebe as razões alheias. Alheias de quem? De Putin, do “povo russo”, dos ucranianos pró-russos (que os há), dos tchetchenos, da causa anti-imperialista e antibelicista dos amigos da “paz”? É preciso ter aquilo a que os portugueses chamam “lata” para andar a dizer isto, mas há quem o faça.

Por isso, estou todos os dias mais belicista. Essa força bruta tem de ser defrontada e duvido que haja outro modo de o fazer senão com a força. E não me venham com a história do “pensamento único”, porque ao pensamento que é verdadeiramente livre e não anda a mando de ninguém basta andar a mando do bom senso para perceber com meridiana clareza o que se está a passar. Putin é um criminoso e a política da Rússia que ele conduz é um exemplo de tudo aquilo que quem ame a liberdade, a vida das pessoas comuns, e tenha uma gota que seja do shakespeariano “milk of human kindness” recusa, e sabe que com isto não é possível nem “entender”, nem pactuar a não ser por covardia, nem negociar.

Isso mesmo, nem negociar.

O autor é colunista do PÚBLICO

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publicado às 15:48

Ucrânia e Putin-3.png

A “pax romana” foi um período que se situou entre 27 a.C. e 180 d.C. que garantiu naquela época histórica estabilidade e tranquilidade. Também nós, na Europa, atravessámos uma pax europeia até à invasão da Ucrânia confrontando-nos agora com uma guerra perto de nós. Paz que do meu ponto de vista está longe de ser conseguida por teimosia de um invasor que parece pretender substituir a liberdade que tem sido o atributo da democracia europeia por outro tipo de ordem iliberal não democrática.

Parece que Lavrov, ministro dos negócios estrangeiros da Rússia, foi à China e fez declarações em que anunciou uma "nova ordem mundial, multipolar, justa e democrática" acrescentando que “a situação internacional ficará muito mais clara, e que nós, juntamente com vocês e com os nossos apoiantes, caminharemos para uma ordem mundial multipolar, justa e democrática”, o sublinhado é meu. A que justiça e democracia se refere? A hipocrisia do Governo russo não tem limites quando menciona a palavra democracia, palavra que para ele não tem qualquer valor.

Os apoiantes desta tese também os há por cá que aproveitam a invasão da Ucrânia como pretexto para criticar fortemente o ocidente, nomeadamente a NATO, os EUA e a U.E., pelas mais diversas razões. Estes centram-se apenas no princípio da responsabilidade da guerra justa que exige que se examine de quem é a responsabilidade na guerra, olhando apenas para o lado do agressor desvalorizando o ato ilícito da invasão contribuindo para satisfação do invasor Putin que, sendo contrário ao sociocentrismo, está a olhar o mundo duma perspetiva estreita e egocêntrica não se terá apercebido que a Rússia pode sobreviver sem Putin, mas duvida-se que Putin possa sobreviver sem a Rússia.

O presidente autocrata Vladimir Putin não está a colocar as necessidades e as preocupações do povo russo à frente dos seus próprios interesses. O anti sociocentrismo de Putin parece estar a ser agravado por uma esquizofrenia política com uma patologia que se manifesta por uma rutura de contacto com o mundo exterior, por isso a informação sobre a invasão da Ucrânia estar a ser condicionada e censurada, tal como a proibição do direito à manifestação, impensável num regime democrático.

Numa conferência de imprensa, em 2017, Vladimir Putin terá respondendo a uma pergunta sobre um artigo publicado no Washington Post no qual se escrevia que, numa reunião do Salão Oval com diplomatas russos, Donald Trump lhes passou certas informações confidenciais sobre o ISIS, (Islamic State of Iraq and Syria),  deu como resposta que o ocidente estava a desenvolver uma "esquizofrenia política".

Recorde-se que poucos dias antes da data trágica da invasão, quando Biden dizia que Putin iria invadir a Ucrânia, este dizia que o ocidente estava a entrar em histeria. Afinal não era histeria, eram certezas.

Após meses de ter negado que tinha intenção de atacar a Ucrânia, Vladimir Putin invadiu o território duma democracia europeia por ar, terra e mar a que chama uma operação militar especial, palavras também utilizadas em artigos por quem se coloca contra o ocidente para justificar a invasão como um senhor coronel Matos Gomes que escreve textos sobre agressões passadas do chamado ocidente noutros contextos geográficos o que nos leva a deduzir que se estará a colocar do lado oposto.

Afirmou Matos Gomes em 24 de fevereiro que "Não se trata de uma invasão. Penso que a Rússia e Putin falou e apresentou os objetivos claramente no discurso. O que a Rússia pretende é que a Ucrânia seja desmilitarizada e não seja uma base de ataque à Rússia. E isto ele disse-o muito claramente". Se isto não é defender a invasão perpetrada por Putin então o que é? Pelas imagens que nos chegam diariamente podemos ver que, afinal, se trata de uma invasão, de uma guerra.  

Perguntava-se no início qual era o objetivo do presidente russo ao invadir a Ucrânia. A justificação dada era o avanço da NATO para o Leste Europeu para cercar a Rússia.

Face à intransigência de um adversário que se tornou hostil e traiçoeiro que se ergue a agredir outro povo a resposta do ocidente foi tentar encurralar Putin, o que significa encurralar também o povo russo, embora se considere pouco sensata a estratégia que poderá brigar Putin, que não quer perder a face perante os russos, a ficar sem margem de manobra. 

Decorridas duas semanas de guerra, o presidente ucraniano propunha negociações e que deixava cair a adesão da Ucrânia à NATO. Afinal, não era apenas aquela a exigência que Putin pretendia. Ainda há dias Zelensky cedeu na proposta de neutralização para chegar a um acordo de paz. Quem não quer a paz?

O que fazer então quando Putin ultrapassou todas as linhas vermelhas que o colocam em direção à meta dos criminosos de guerra. Terá sido a aproximação da NATO que terá levado, segundo ele, à “operação militar”. Mas há outra, que Putin não revela, essa de ordem interna.

Desde 2017 que Putin se confronta com problemas internos na Rússia que terão começado a surgir apesar de ter ganho(?) as eleições presidenciais de 2018. Enfrentou, e estará ainda a enfrentar, situações difíceis devido às consequências das suas políticas quer externas, quer internas. O vazio da política interna está a ser substituído pela ilusão de sucesso internacional, criado e mantido com a ajuda da propaganda mais descarada da história da Rússia moderna, nem sei se Estaline e os anos seguintes da URSS o terão conseguido tão eficazmente, quer pela repressão quer pela censura. Também é certo que tecnologias como as de hoje para essa propaganda não existiam.

Na Rússia de Putin a Internet no seu todo ainda não foi proibida, mas canais de informações mesmo os alternativos como as redes sociais já foram condicionados à população através de todos os filtros disponíveis pelo governo para evitar a corrosão lenta dos chavões propagandísticos.

Contrariamente ao resto do mundo, a população russa não tem, na sua grande maioria, conhecimento do que se passa no país vizinho. Vladimir Putin proibiu a comunicação social da Rússia de usar as expressões "guerra" ou "invasão" e enganou os russos ao dizer que estavam a ser realizadas "operações militares especiais" na Ucrânia. As redes sociais também começam a ficar cada vez mais limitadas e as publicações censuradas, mas na quinta-feira, 11 de março à noite, a televisão estatal russa, o canal “Rússia 1” que é uma das emissoras estatais mais vistas no país e uma das que tem seguido as diretivas autoritárias do Kremlin, leia-se de Putin, quanto à situação da Ucrânia, consentiu numa provocação ao transmitir em direto em horário nobre a opinião de um comentador que criticou a ofensiva russa recusando-se a apoiar a narrativa das televisões encomendada pelo Governo russo.

Semyond Bagdasarov, um famoso académico e deputado russo, aproveitou a sua presença no programa 'An Evening with Vladimir Soloviev', “Uma noite com Vladimir Soloviev (um homem referido como forte defensor de Putin e um crítico franco da independência da Ucrânia e propagandista-chefe) para pedir ao presidente russo que ponha fim ao ataque, deixando ainda o alerta de que os aliados da Rússia, como a China e a Índia, podiam acabar por virar as costas a Moscovo.

Por seu lado Karen Georgievich Shakhnazarov, realizadora russa Karen Bagdasarov pediu ao líder russo para acabar com o ataque, enquanto tentou quebrar a narrativa do Kremlin de que está conduzindo uma "operação especial" limitada na região de Donbass, fazendo referência aos ataques à capital de Kiev.

No dia 4 de março a decisão do governo russo de bloquear oficialmente o acesso ao Facebook relativamente à invasão por Moscovo/Putin da vizinha Ucrânia provocou uma reação do Presidente para os assuntos Globais da Meta que escreveu no Twitte: "Em breve, milhões de russos encontrar-se-ão isolados de informações confiáveis, privados das de se ligar com a família e amigos e silenciados de falar". Continuaremos a fazer tudo o que pudermos para restaurar os nossos serviços para que permaneçam disponíveis e para que as pessoas se expressem com segurança e se organizem para a ação."

Ucrânia e Putin-4.png

Os males causados pela diminuição do rendimento das famílias, agravados pelas medidas severas das sanções económico e financeiras, aumentam a crescente desconfiança pública nas autoridades, no descontentamento público gerado por um governo ineficiente, com a corrupção e cleptocracia que o sistema permite ou aprova e com o aventureirismo geopolítico com enormes custos como o demonstram especialista em política russa.  

O Presidente Putin encontra-se num beco político sem saída, enquanto o povo se encontra numa crise existencial que lhe está a ser induzida pela propaganda que afirma que o ocidente quer destruir a Rússia.

Biden e Putin parecem ter entrado numa esquizofrenia que se manifesta pelas emoções que os levam a utilizar, sobretudo o primeiro, com uma verbosidade de palavras de baixa política com as adjetivações que faz a Putin com que lhe poderão ser aplicadas, mas que envergonham qualquer diplomacia. A esquizofrenia de Putin é mais sofisticada, aproxima-se da metafísica ao pretender transcender a própria realidade sem o conseguir levando o povo russo a pensar se a Rússia não estará, de facto, a atravessar uma crise existencial que o ocidente lhe estará a causar.

Vladimir Putin ficou subitamente nervoso com o facto de poder vir a ser o arquiteto que, devido à invasão da Ucrânia, conduziu a Rússia para uma crise económica e financeira sem precedentes pelas sanções do ocidente, porque sabe que isso tem como ricochete poder voltar o povo contra ele.

Com a informação disponível, credível, fiável e isenta de facciosismos sobre o que na realidade se passa na Rússia é ao pouco ou nada. Isto devido a que os jornalistas não podem trabalhar no país a não ser clandestinamente, enquanto no ocidente, onde há liberdade jornalística e onde se exerce livremente essa liberdade de expressão.

Apesar do senhor que manda no Kremlin lutar para esconder a realidade da guerra no ocidente textos e mais textos são publicados e republicados em blogs e redes sociais e explanações históricas de ditos especialistas em política internacional e geoestratégica de esforçam por atacar/condenar os EUA, a NATO, e a EU, como se fossem estes os agressores, defendendo a paz, tornando claro que são contra a guerra, mas, ao mesmo tempo, justificam os pontos de vista de Putin.

Alguns pretendem desacreditar a informação chamando pensamento único aos que não alinham em argumentos de crítica aos países do ocidente que pretendem que sejam os causadores da invasão da Ucrânia por Putin designando, como ele, “intervenção militar pacífica” ou “intervenção militar especial”. Pretendem assim justificar o mal que é a guerra na Ucrânia com o mal causado e apoiado por outros (os EUA) noutros contextos diferentes.

Para os das esquerdas radicais, anti ocidente, anti NATO e para os discretos apoiantes de Putin que se dizem defensores da paz é difícil reconhecer que os interesses de cada uns dos lados, Ucrânia e Rússia, devem ser tidos em conta. Mas, pelo que se depreende das opiniões que escrevem e das publicações de textos oriundas de fontes alinhadas pelo mesmo tom parece que, pelo contrário, são a favor do estabelecimento de linhas vermelhas inamovíveis que sejam contra os valores morais, princípios da democracia e regras internacionais que devem ser respeitadas e inegociáveis.

Porém, há também grandes organizações como o banco HSBC que alinham, talvez por interesses financeiros estar nas boas graças de Putin e da sua propaganda. Segundo o Financial Times, o HSBC também suaviza o tom com o qual se refere à guerra na Ucrânia, retirando dos seus relatórios referências à palavra "guerra", noticia o "Financial Times", alterando a palavra "guerra" para expressões mais suaves, como por exemplo "conflito". Alinha assim com o Kremlin que desde o primeiro dia chama à invasão da Ucrânia uma "operação militar especial".

Nesta altura atacar o ocidente e ao mesmo tempo fazer pedidos de paz é, quer se queira ou não, estar do lado do presidente Vladimir Putin o que se evidencia, como anteriormente referi, em textos publicados a quem a eles recorre para reforço dos seus argumentos. Um dos casos foi o recurso a um artigo de opinião escrito por  Mário Soares em maio de 2015 na Revista Visão quando criticou a aproximação da NATO para Leste com a adesão de países como a Polónia entre outros. Interpretação abusiva do que ele escreveu que era mais um alerta para o ocidente. Mário Soares tinha razão. A aproximação da NATO para leste foi uma consequência do desmantelamento da URSS e a libertação dos países de leste do jugo comunista. Foi nesta sequência que alguns desses países pediram a adesão à E.U. e a pretensão de entrarem para a NATO. Esta pretensão talvez fosse devido à insegurança que teriam em relação a possíveis agressões do Kremlin para recuperarem a sua antiga jurisdição sobre esses países. Mas, Mário Soares também escreveu que “Vladimir Putin é um homem perigoso. Ou, como dizem os brasileiros, um homem astuto, perigoso e imprevisível”. Apesar deste evidente ponto de vista o autor, enquanto Primeiro-Ministro e enquanto Presidente da República, nunca colocou em questão a retirada de Portugal daquela aliança militar intergovernamental.

Aqueles que falam da desmilitarização do ocidente, de paz e do aumento das verbas e de gastos com a defesa no orçamento da U.E. esquecem-se, ou omitem, nos seus relatos que a Rússia é considerada pela maioria dos analistas como a segunda maior potência militar do mundo e com grandes investimentos nas forças de guerra e que agora se encontra em grande vantagem e, por isso, lançou-se numa operação invasiva de um país soberano.

O semanário Expresso de 9 de março de 2022, recordava o que Pulido Valente escreveu a criticar a forma como a Europa se foi desarmando, e alertava para os riscos de “a Inglaterra gastar em defesa menos de 2% do PIB, num momento em que Putin embarcou numa política claramente agressiva e revanchista”.

Face a tudo isto deveria então o ocidente, nomeadamente a E.U., desproteger-se? Não. Mas foi o que aconteceu e parece que para alguns radicais de esquerda que assim deveria continuar.

A invasão da Ucrânia não terá sido uma surpresa visto que a presidência dos EUA, em 22 de novembro de 2021, segundo o “site” francês “Meta-Defense”, previu uma ofensiva na Ucrânia pela Rússia no inverno, a ocorrer em janeiro e ou fevereiro. Publicava na altura que “O objetivo previsto seria a criação de um corredor que permitisse ligar a Crimeia à Rússia por via terrestre, provavelmente até a foz do Dnieper e a cidade de Zaporizhia, também um importante centro industrial em termos de aeronáutica civil e militar, mas também a cidade portuária de Mariopol, crítica em termos de infraestrutura. Além de ligar a Crimeia, isso permitiria a Moscovo transformar o Mar de Azov num mar “interior”, inteiramente limitado pela costa russa”.

Apesar do senhor que manda no Kremlin lutar para esconder a realidade da guerra no ocidente textos e mais textos são publicados e republicados em blogs e redes sociais e explanações históricas de ditos especialistas em política internacional e geoestratégica de esforçam por atacar/condenar os EUA, a NATO, e a EU, como se fossem estes os agressores, defendendo a paz, tornando claro que são contra a guerra, mas, ao mesmo tempo, justificam os pontos de vista de Putin.

Estranhamente são também os que debatem e se empenham na busca do que se fez de mau no passado para justificarem que se faz de mau no presente. São os mesmo que pedem a desmilitarização do ocidente (porta escancarada para a entrada de Putin até ao ponto da possibilidade da sua ambição) e que exigem negociações diplomáticas para se chegar à paz. O ponto que não esclarecem é como isso será possível com o cinismo de quem diz que quer negociar e ao mesmo tempo diz não estar disponível para quaisquer negociações que não seja a capitulação do invadido com condições impostas pelo invasor, como tem vindo a ficar demonstrado.

Penso que esta retórica dos que se mostram contra os aliados ocidentais e que tão insistentemente invocam negociações para a paz não são mais do que fait divers para dissimularem o seu alinhamento com os senhores do Kremlin, a quem chamam capitalistas, ao mesmo tempo que se distanciam dos outros que são o rebanho aos que se afastam dos pontos de vista deles.

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publicado às 18:37

UE Castiga Portugal.pngMuitos, como eu, estarão fartos e exaustos das políticas da U.E. apesar de sabermos da inoportunidade e perigos que poderão advir duma saída daquele agrupamento de países que pretendem impor um pensamento único de cariz ortodoxo.


A U.E. é uma espécie de Cérbero, cão de três cabeças que guarda as portas dum mundo no qual não se impede a entrada, mas impede-se a saída.


Quando alguém chega, Cérbero faz a festa, tece elogios. Quando alguém quer sair desse mundo ele impede sua saída a todo o custo. Cérbero torna-se assim um cão feroz e temido por todos. A U.E. é uma espécie de diretório multicéfalo com orientação de pensamento único de maioria dominante que pretende impor regras e submeter os mais fracos. Neste clube que domina o Parlamento Europeu encontram-se o PSD e CDS-PP que apoiam medidas mesmo que elas vão contra os interesses de Portugal, até quando se encontravam no poder.


Tudo funciona como uma espécie de bullying contra um aluno que se tem esforçado e tem conseguido, em parte, ser cumpridor embora, ultimamente, tentando um caminho diferente.


Quem manda na U.E. vê as coisas deste modo: há vários caminhos mas o único a seguir é aquele que nós impomos mesmo que, no fim desse caminho, seja a queda num precipício.


Nesta última semana o Brexit deixou de ser o prato do dia apesar das técnicas da confeção do cozinhado serem mais difíceis do que o problema português. Todavia, Portugal passou a ser um fator de de distração para os problemas de que enferma a U.E..


É mais do que evidente que as declarações sobre Portugal oriundas dos responsáveis máximos desta união de pensadores pretendem que não seja posta em causa a teoria do pensamento único. No livro, “A Realidade é Real?”, que li há muito, mas cuja leitura recuperei, Paul Watzlawick, escrevia no prefácio da página 7 o seguinte axioma: “A ilusão mais perigosa de todas é a de que existe apenas uma realidade.”


Os defensores dos argumentos do chamado “pensamento único” num mundo globalizado tanto a nível económico como a nível da informação, e, a sua inevitabilidade como fator de desenvolvimento, esquecem o conceito de democracia emergente nos finais do Século XX.


A filosofia do “pensamento único”, está a impedir, deformar, destruir, o livre pensamento, a discussão de ideias, a democracia participativa, a soberania e estados nacionais, a promover o controlo da comunicação social, caminhando para a restrição dos direitos humanos, etc., criando nos atores secundários que são as populações de países soberanos uma visível sonolência.


Em termos ideológicos os impositores desta “nova doutrina” na U.E. pretendem ser os apóstolos da única verdade impingindo aos países a crença de que ela é irreversível e que ou se adere a ela ou se fica à margem da História e do desenvolvimento.


Caso paradigmático é o que se tem passado nos últimos meses com adiamentos sucessivos sobre as ditas sanções a Portugal e a Espanha, neste último caso justificando o adiamento da decisão devido às eleições. Podemos tirar inerentes conclusões. Se a direita ganhasse por uma maioria confortável, o que não foi o caso, tudo ficaria solucionado e o caso encerrado com as desculpas do costume. Como assim não foi há que castigar o infrator, o povo espanhol, que votou contra o pensamento único votando numa maioria de esquerda, embora sem entendimento a nível das cortes espanholas.


No caso de Portugal a coisa é mais complicada e causa frenesim nos senhores “donos” da U.E. por ter sido possível um entendimento para uma maioria de esquerda parlamentar que sustenta um Governo do Partido Socialista no poder. Isto não agrada aos senhores da direita da U.E., onde se encontram o PSD e o CDS, portanto, há que castigar o povo que votou fora do pensamento dominante.


Apenas ensaístas, comentadores e políticos da cegueira neoliberal sabem que ficaria comprometida a política da ortodoxia vigente na U.E. se vier a ter sucesso outra política, colocando em causa o princípio do não há alternativa.


Para constatar o facto, basta analisarmos as declarações dos ex-governantes e representantes do calhambeque que forma agora a oposição ao Governo em Portugal.


Maria Luís Albuquerque fez afirmações que apenas constatam o que escrevo. Disse ela que “Se eu fosse ministra das Finanças a questão das sanções não se colocava”. Isto é, se Passos Coelho fosse ainda primeiro-ministro não haveria sanções mesmo que o défice do 3%fosse ultrapassado? É a comprovação de que há, de facto, uma retaliação da U.E. porque Portugal deixou de ter um Governo que deixou de seguir a via do pensamento único e da subserviência.


Outra pressão intencional, especulativa, com base numa falsidade, veio há dias do ministro das finanças alemão Wolfgang Shäuble ao afirmar que Portugal está a pedir "um novo programa" e que "vai consegui-lo". Claro que veio de seguida a corrigir dizendo que "Os portugueses não o querem e não vão precisar de um segundo resgate se cumprirem as regras europeias". O que é isto senão uma forma de pressão causando instabilidade nos mercados e sobre a dívida portuguesa. A justificação, para além de distrair sobre o Brexit devido é a de em Portugal não estarem no poder partidos de subserviência e seguidores de pensamento único, tão do seu agrado.  


Há uma justificação que se pode avançar: se em Portugal a aplicação de outro caminho e de outras políticas alternativas tiverem eventualmente sucesso isso poderá comprometer a credibilidade dos defensores do não há alternativa a da aplicação de austeridade cega, extrema e contínua em países mais vulneráveis. A Wolfgang Schäuble isso não interessará que fique no seu “currículo”.


Não é admissível que responsáveis da U.E. ponham publicamente em causa a credibilidade e a confiança dos mercados sobre um país, membro de pleno direito, que tem feito os possíveis para cumprir as regras, interferindo ainda que indiretamente na sua política interna.


A Alemanha sempre teve e continua a ter ambições hegemónicas na U.E.. O final da guerra fria, (que agora passou a estar, outra vez, parece, em cima da mesa), com o desmantelamento da eis União Soviética veio facilitar-lhe aquela ambição de dominação.


Na ótica do desvio ao pensamento único, os meninos desestabilizadores, mal comportados, entenda-se que não escolham os seus governos de acordo com a linha dominante, devem ser repreendidos e castigados de forma persecutória. Não de verifica o mesmo empenho dos dirigentes da U.E. a criticar quando são eleitos governos de extrema-direita que limitam liberdades nos seus países.


Na U.E. a liberdade democrática através do voto popular está estabelecida e garantida, mas desde que esteja em linha a orientação oficial dominante, caso contrário o caldo está entornado.


A Alemanha e países alinhados terão pretensões de caminhar para uma U.E. menos democrática. Senão, leia-se o documento preparado por Wolfgang Schäuble, ministro das finanças alemão, publicado pelo jornal alemão Handelsblatt que pretende que uma entidade independente, separada da Comissão Europeia faça a análise dos orçamentos dos Países-membros da EU entre outras reformas ainda pouco claras quanto aos intuitos.


Afinal, o que se pretende é a ingerência nos Estados de modo a limitar cada vez mais a soberania de (apenas de alguns!) países apesar de membros dum clube de ricos.


 


Na política, e no Euro 2016 que ganhe Portugal!

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publicado às 19:56


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