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Coitadinho do PCP que tem sido uma vítima

por Manuel_AR, em 28.07.22

PCP uma vítima (3).png

A ERC - Entidade Reguladora para a Comunicação repreende a SIC, qual menina malcomportada, porque o menino PCP fez queixinha e disse que aquela menina o tratou mal. Fez o papel de donzela ofendida. O PCP quer tentar demonstrar que anda a ser perseguido, o que é no mínimo patético para não dizer caricato.

O PCP e os seus dirigentes entraram em delírio e vitimizam-se. Coitadinho do PCP fez queixinha porque a cobertura noticiosa do comício do 101.º aniversário no Campo Pequeno em março teve um “registo opinativo, que desvaloriza e ridiculariza a posição” do partido, o que contrariou o rigor informativo e a isenção a que a SIC está obrigada por lei, escreveu na altura a ERC.

O que a voz off ao dar notícia do acontecimento disse foi que “Aos 101 anos, o PCP já tem idade suficiente para dizer sempre a mesma coisa”. Eu, que desde o 25 de Abril e no tempo de líder Álvaro Cunhal tenho ouvido sempre o PCP reproduzir sempre a mesma cassete, com mais ou menos variantes consoante os momentos.

Para melhor compreender o que desvairou o PCP reproduzo o que o jornal Público publicou sobre o que foi afirmado no comício: “o PCP não apoia a guerra” e que “não tem nada a ver com o Governo russo e o seu Presidente”. Acrescenta a notícia citando a voz off que “… isso não significa que o partido apoie Zelensky, antes o critica, e afirmou ainda que Jerónimo de Sousa “repete a cartilha” quando fala da responsabilidade dos Estados Unidos na promoção da guerra. “E assim se chega aos 101 anos”, remata a voz off.

A ERC parece ter entrado no jogo do PCP pois que no comunicado diz que embora realce que não se exige que as notícias “sejam um relato neutro e acrítico dos factos noticiados” e que podem integrar uma “componente analítica e interpretativa”, considera que os comentários feitos na peça não são uma interpretação, mas uma opinião que “desvaloriza e ridiculariza a posição do PCP” assente numa “avaliação pessoal e preconcebida do jornalista”. Coitadinho do PCP!

Por fim o segundo o mesmo diário o PCP congratulou-se com a decisão da ERC e aproveitou para lamentar que este não seja um caso isolado, antes um “exemplo de práticas recorrentes de manipulação e deturpação deliberadas das posições” do partido “particularmente presentes” no grupo Impresa, nomeadamente nas coberturas eleitorais. Mas o partido também considera “incompreensível que não sejam retiradas quaisquer consequências” da decisão do regulador, que se limita a “instar” a SIC a cumprir a lei. Mais, uma vez coitadinho do PCP que é uma vítima de uma empresa de comunicação.

Quem costuma ouvir os porta-voz e os dirigentes do PCP pode confirmar que, quer nos comícios, quer ao falar aos órgãos de comunicação, são, de facto, uma espécie de cassetes repetitivas.

Sobre a questão da Ucrânia o PCP bem pode gritar e dizer em abstrato que é contra a guerra e pela paz, (era mais o que faltava dizer o contrário), e que não tem nada a ver com o Governo russo e com o seu Presidente, ao mesmo tempo que responsabiliza os EUA pela guerra.

O PCP nunca afirmou claramente que rejeita a invasão da Ucrânia pela Rússia. Limita-se a falar, tal como o Kremlin, na operação especial, agora já mudou um pouco este discurso. De facto, não houve formalmente uma declaração de guerra, mas houve, objetivamente, uma invasão para ocupação de território de outro país. Se alguém leu ou ouviu alguma declaração de rejeição clara e concreta da invasão da Ucrânia por parte da Rússia de Putin agradeço que me informe quando e onde! Pode ser falha minha.

O PCP bem pode dizer que nada tem a ver com o Governo russo nem com Putin, mas deve saber muito bem que o Partido Comunista da Federação Russa, o PCFR, apoia Putin na questão da Ucrânia.

Tudo isto sobre a queixinha do PCP à ERC é uma espécie de faz de conta para enganar incautos que também serviu para mobilizar e motivar as suas hostes internas que devem andar um pouco desmobilizadas e tristonhas. Voltou a salientar que se houver algum militante ou simpatizante do PCP que leia este “post” e que ache que o partido oficialmente condena a invasão da Ucrânia pelo Presidente da Rússia que o escreva claramente nos comentários.

Se partidos da extrema-direita lhe apanham o jeito, aliás parece que já o apanharam, como se viu na peixeirada que fizeram na Assembleia da República aquando da discussão do Estado da Nação e que ameaçaram fazer queixinha ao Presidente da República. Ou será que o PCP os quer imitar?

Por favor, senhores do PCP, não façam por perder a dignidade que sempre tiveram e que o povo português sempre respeitou, mesmo os que, racionalmente, não concordam com as suas posições políticas e ideológicas.

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publicado às 12:18

Um artigo na análise política isento  sobre a invasão da Ucrânia e não alinhado com extremistas anti ocidente que defendem o projeto do ocidente se submeter a Putin.

Tatiana Stanovaya

Foto:  Dmitry Kostyukov / R.Politik

Sobre a autora:

Tatiana Stanovaya é bolsista não residente no Carnegie Endowment for International Peace e fundadora e CEO da empresa de análise política R.Politik. Ela nasceu em Moscovo e mora em França desde 2010.

 Guerra da Rússia

O Ocidente está errado sobre essas cinco suposições sobre Putin, texto publicado pela primeira vez por "Política Externa" e no DER SPIGEL em 06/06/2022

A questão de saber se Putin precisa sair da guerra é secundária: ele acredita que vencerá. O Ocidente deve olhar para a situação de forma diferente se quiser ser mais eficaz.

Foto: Alexander Zemlianichenko / dpa

Uma das razões pelas quais é tão difícil entender as intenções da Rússia e o que está em jogo na guerra da Ucrânia é a discrepância significativa entre a visão dos observadores externos e a visão do Kremlin sobre os acontecimentos. Algumas coisas que alguns tomam como certa são percebidas completamente diferentes em Moscovo – como a suposta incapacidade da Rússia par alcançar uma vitória militar. A maioria das discussões de hoje no Ocidente sobre como ajudar a Ucrânia a vencer o campo de batalha ou forçar Kiev a fazer concessões têm pouco a ver com a realidade. Isso também se aplica à questão de como o presidente russo Vladimir Putin poderia ser levado a salvar a cara.

Abaixo, vou refutar cinco suposições comuns sobre como Putin vê esta guerra. O Ocidente deve olhar para a situação de forma diferente se quiser ser mais eficaz e reduzir os riscos de escalada.

Suposição 1:

Putin sabe que vai perder.

Essa suposição baseia-se no equívoco de que o principal objetivo da Rússia é obter o controle de grande parte da Ucrânia – e que, portanto, significaria o fracasso se os militares russos tivessem um desempenho ruim, não avançar ou mesmo ter que se retirar. O principal objetivo de Putin nesta guerra, no entanto, nunca foi controlar partes do território da Ucrânia, mas destruir a Ucrânia, que ele vê como um projeto "anti-Rússia". E ele quer – do seu ponto de vista – impedir que o Ocidente use o território ucraniano como ponte para atividades geopolíticas anti-russas. Como resultado, a Rússia não se vê como um fracasso. A Ucrânia não poderá juntar-se à OTAN nem existir pacificamente sem considerar as exigências da Rússia: russificação (ou "desnazificação" na língua de propaganda russa) e "financiamento da OTAN" (referido na propaganda russa como "desmilitarização"), ou seja, uma renúncia a qualquer cooperação militar com a OTAN. Para alcançar esses objetivos, a Rússia quer manter a sua presença militar em território ucraniano e continuar a atacar a infraestrutura ucraniana. Grandes ganhos territoriais ou a captura da capital ucraniana Kiev não são necessários (mesmo que a Rússia inicialmente tenha sonhado com isso). Até mesmo a anexação das regiões de Luhansk e Donetsk, que Moscovo considera apenas uma questão de tempo, é uma meta secundária local com a qual a Rússia quer fazer a Ucrânia pagar pelo que vê como decisões geopolíticas pró-ocidentais erradas das últimas duas décadas. Aos olhos de Putin, ele não vai perder esta guerra. Ele provavelmente até pensa que está a ganhar, e ele está à espera da Ucrânia admitir que a Rússia ficará ali para sempre.

 Suposição 2:

O Ocidente deve encontrar uma maneira de ajudar Putin a salvar a face, reduzindo assim os riscos de uma escalada adicional, possivelmente nuclear.

Imagine uma situação em que a Ucrânia aceita a maioria das exigências da Rússia: reconhece a Crimeia como russa e o Donbass como independente, compromete-se a reduzir o tamanho do exército e promete nunca pertencer à OTAN. Isso vai acabar com o conflito? Mesmo que a resposta pareça ser um sim retumbante para muitos, isso é errado. A Rússia está numa batalha com a Ucrânia, mas geopoliticamente ela vê-se numa guerra contra o Ocidente em território ucraniano. No Kremlin, a Ucrânia é vista como uma arma anti russa nas mãos do Ocidente; mas a sua destruição não significa automaticamente a vitória da Rússia neste jogo geopolítico antiocidental. Para Putin, esta guerra não está ocorrendo entre a Rússia e a Ucrânia. A liderança ucraniana não é um ator independente, mas uma ferramenta ocidental que deve ser neutralizada.

Quaisquer que sejam as concessões que a Ucrânia possa fazer (não importa o quão politicamente realistas possam ser), Putin continuará a escalar a guerra até que o Ocidente mude sua abordagem para o chamado problema da Rússia. Ele teria que admitir que, como Putin vê, as raízes da agressão russa residem no facto de que Washington ignorou as preocupações geopolíticas russas por 30 anos. Alcançar isso tem sido o verdadeiro objetivo de Putin, e isso não mudou. O Kremlin pode até mesmo usar exigências russas irrealistas, que Kiev rejeita, para aumentar as apostas no confronto entre a Rússia e o Ocidente – e, assim, testar se o Ocidente permanece unido e consistente. O Ocidente hoje não entende o problema: no seu esforço para parar a guerra da Rússia, está a concentrar-se nos pretextos artificiais de Moscovo para a invasão da Ucrânia. Ele ignora a obsessão de Putin com a chamada ameaça ocidental – bem como a sua disposição para forçar o Ocidente a dialogar sob as condições russas através de uma nova escalada. A Ucrânia é apenas um refém.

 

Suposição 3:

Putin está a perder não só militarmente, mas também internamente, e a situação política na Rússia é tal que Putin poderia em breve enfrentar um golpe.

O oposto é verdade, pelo menos por enquanto. A elite russa está tão preocupada em como garantir a estabilidade política e evitar protestos que está a reunir-se em torno de Putin como o único líder que pode consolidar o sistema político e evitar a agitação. A elite é politicamente impotente, assustada e vulnerável – incluindo aquelas retratadas nos media ocidentais como aquecedores e falcões. Fazer algo sobre Putin hoje seria equivalente ao suicídio a menos que Putin perca (física ou mentalmente) a sua capacidade de governar. Apesar de novas divisões e fraturas nas fileiras e insatisfação com as políticas de Putin, o regime permanece firme. A maior ameaça a Putin é o próprio Putin. Mesmo que o tempo esteja trabalhando contra ele, acordar a elite é um processo que levará muito mais tempo do que muitas pessoas esperam. Vai depender de quão presente Putin permanece na vida cotidiana do governo.

 

Suposição 4:

Putin tem medo de protestos antiguerra.

Na verdade, Putin tem mais medo dos protestos pró-guerra e tem que lidar com o zelo de muitos russos que querem destruir aqueles que chamam de nazis ucranianos. O sentimento público poderia encorajar a escalada e levar Putin a tomar uma postura mais dura e determinada – mesmo que esse sentimento seja devido à própria propaganda do Kremlin. Este é um ponto extremamente importante: Putin despertou um nacionalismo sombrio no qual ele é cada vez mais dependente. Aconteça o que acontecer com Putin, o mundo terá que lidar com essa agressividade pública e as crenças antiocidentais e antiliberais que tornam a Rússia tão problemática para o Ocidente.

 

Suposição 5:

Putin está profundamente dececionado com a sua comitiva e deu luz verde para processar funcionários de alto escalão.

Esta é uma questão muito debatida no Ocidente que surgiu da especulação: sobre a suposta prisão do ex-vice-chefe de gabinete de Putin, Vladislav Surkov, a detenção de Sergei Beseda, um alto funcionário de segurança encarregado da Ucrânia, e supostas expurgas no círculo íntimo de Putin. Todos esses rumores devem ser vistos com extremo ceticismo. Primeiro, não há confirmação de nenhum desses rumores. (Em vez disso, fontes de alto escalão sugerem que nem Beseda nem Surkov foram presos). Em segundo lugar, Putin pode estar chateado e desapontado com A sua equipa, mas não é o seu estilo realizar expurgas no seu círculo interno – a menos que crimes graves tenham sido cometidos. Para Putin, apenas as intenções contam, e se os serviços de inteligência russos o calcularam mal ou mesmo o informaram mal sem más intenções, dificilmente haverá acusação. E, finalmente, a campanha militar na Ucrânia foi meticulosamente controlada pelo próprio Putin desde o início, deixando pouco espaço para as autoridades subordinadas mostrarem iniciativa.

Tudo isso significa que o suposto dilema do Ocidente – ou dobrar o apoio à Ucrânia porque Putin está perdendo, ou apaziguar Putin, não o irritando porque ele é desesperador e perigoso – está fundamentalmente errado. Há apenas duas maneiras possíveis de sair do confronto: ou o Ocidente muda a sua atitude em relação à Rússia e começa a levar a sério as preocupações russas que levaram a esta guerra – ou o regime de Putin entra em colapso e a Rússia revê as suas ambições geopolíticas.

No momento, tanto a Rússia quanto o Ocidente parecem acreditar que o seu homólogo está condenado e que o tempo está do seu lado. Putin sonha com o Ocidente experimentando uma convulsão política, enquanto o Ocidente sonha com Putin sendo deposto ou derrubado, ou morrendo de uma das muitas doenças que ele regularmente diz ter. Ninguém está certo. Em última análise, um acordo entre a Rússia e a Ucrânia só é possível como um acordo entre a Rússia e o Ocidente como um todo – ou como resultado do colapso do regime de Putin. E isso nos dá uma ideia de quanto tempo esta guerra poderia durar: anos, no máximo.

 



 

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publicado às 14:24

Ucrânia e Putin-2.png

Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.

Nas últimas semanas tem-se multiplicado uma infinidade de artigo de opinião e de comentários numa dicotomia entre os que revelam claramente estar contra a invasão e os outros, os pró Putin.

Antes de continuar, e porque parece estar a haver alguma animosidade contra os russos, devo esclarecer que nada tenho contra o povo russo nem contra a sua cultura, a minha opinião é a de estar contra as políticas de um líder autocrático e oligárquico que impôs ao povo russo uma democracia(?) iliberal belicista.

Uma democracia iliberal visa um poder executivo forte, controlando e manipulando os limites das instituições garantes da democracia tais como tribunais e outras instituições democráticas do estado. Para o justificar argumentam que essas instituições, garantes dos valores democráticos e de liberdade não possuem atribuições eleitorais e, como tal, impedem a vontade da soberania do povo. Desta forma a narrativa social é construída ganhando, assim, legitimidade dentro do cenário democrático. Sobre democracia iliberal ver aqui.

Ao escrever este texto veio-me à memória “From Russia with Love” com a tradução em português “Da Rússia com Amor”, filme de espionagem lançado em 1963 que permanece relativamente fiel ao romance de Ian Fleming, escritor britânico e autor do livro com o mesmo nome.

Questionei-me sobre o porquê deste filme surgir na minha memória. A memória recente deu-me a resposta: foi o nome do comentador Alexandre Guerreio que ouvi recentemente seguir o mesmo relato da propaganda de Putin e dos seus mandatários que podem ver aqui.

Em tempos de guerra surge sempre quem se colocam de um lado, ou de outro, dos intervenientes do conflito. Foi assim também na segunda guerra mundial quando, por estranho que pareça, também houve quem estivesse do lado III Reich, no início não só os alemães.

Instalou-se com esta guerra um conjunto de gente, felizmente pouca, antiamericana e anti NATO às quais acrescentam o seu antieuropeísmo irracional. Os apoiantes desta corrente não são recentes, agitaram-se a pretexto da invasão da Ucrânia por Putin e colocam-se do lado de um Estado que agride militarmente outro povo soberano e que o massacra. Esta é a realidade e não há argumentos que o justifiquem por mais rebuscados que sejam.

Esta gente reanima ódios antigos que vêm do tempo da URSS e da Guerra Fria que agora estão a ser aproveitados para a sua ressurreição com novos contornos. Daí as teses do PCP contra os EUA, a NATO e a União Europeia em favor da defesa das posições do Kremlin.

O colapso da URSS que foi recalcado por uma espécie de catarse saiu do seu subconsciente ideológico. A retórica da paz que proclamam, com omissões de princípio, em relação à invasão da Ucrânia, vem das palavras de Jerónimo de Sousa que vinculam o PCP e está nas críticas feitas ao governo ucraniano em linha com as de Moscovo. Ao mesmo tempo que diz apoiar o apelo “à solidariedade e ajuda humanitárias às populações”, acusa a Ucrânia de dar apoio a grupos fascistas ou neonazis, alinhando com uma das narrativas usadas por Putin para justificar a invasão daquele país.

Os argumentos recorrem a históricos condenatórios de outras guerras em que intervieram outros Estados, mas cujos contornos e circunstâncias não se encaixam com as atuais. Seria bom que o PCP em vez de falar em golpes recordasse o que se passou na Ucrânia.

Sem me alargar em história porque isso compete a outros debruço-me apenas sobre alguns factos da atualidade da última década para nos situarmos.

Yanukovych foi presidente da Ucrânia de 25 de fevereiro de 2010 a 22 de fevereiro de 2014 que formalmente rejeitou um acordo de cooperação com a União Europeia que há muito tinha sido negociado e que poderia, no futuro, fazer passar a Ucrânia a ser um dos seus membros e integrar o bloco dos 28 países. Este mesmo presidente, na mesma altura, terá recebido uma série de empréstimos oferecidos pelo governo russo de Putin iniciando um processo de aproximação política com o Kremelin. Esta situação levou a uma série de protestos no oeste da Ucrânia denominados "Euromaidan" que já tido início em 21 de novembro de 2013. Protestos públicos que evoluíram para apelos à renúncia do presidente Viktor Yanukovych e do seu governo.

Além da questão da integração com a Europa havia ainda acusações de corrupção contra elementos do governo, pró-Rússia, que também motivou os protestos.

A análise da situação concluiu que Yanukovych estaria sob pressão direta da Rússia e que o anúncio brusco de que o acordo com a União Europeia não seria assinado por os russos de Putin ameaçarem impor sanções à Ucrânia tendo sido Yanukovych chamado de urgência para um encontro em Moscovo com o presidente Vladimir Putin.

Mas voltemos à atualidade recente. O estilo fascizante de Putin está presente na organização de um comício político disfarçado de concerto no passado 18 de março do corrente que e cujo seu discurso podemos considerar como sendo para a obtenção de apoio à guerra, de exaltação patriótica e de celebração dos feitos militares da Federação Russa na Ucrânia ao velho estilo nazi.

Do meu ponto de vista há os que dizem defender a paz e ao mesmo se colocam do lado de Putin. Esses que dizem defender a paz são os que sustentam que a culpa da guerra é de outros. Sem o dizerem claramente alinham com o pensamento do presidente Vladimir Putin que, em dezembro de 2021, lamentou o colapso da União Soviética há três décadas a que ele chamou "Rússia histórica", conforme noticiou na altura a agência Reuters.

Os comentários de Putin, em tempo divulgados pela TV do Estado Russo (RT-Russia Today), terão provavelmente alimentado ao que chamaram especulação sobre as suas intenções em política externa que os críticos internos, (não sei se hoje ainda existem), aproveitaram para o acusar de projetar a recriação da União Soviética e de contemplar um ataque à Ucrânia, ação que na altura o Kremlin de Putin considerou como sendo ousada.

 Não há dúvida de que a Rússia de Putin é uma democracia iliberal autocrática tendencialmente expansionista que parece estra a pretender provocar uma crise idêntica à que a Alemanha Nazi colocou em prática em 1938. Há mesmo quem chame a Putin czar e o compare a Stalin e a Ivan, o Terrível, quando na Polónia em 2009 falavam de Putin.

Escrevia-se então em setembro de 2009 aquando das comemorações do início da Segunda Guerra Mundial em Gdansk que “Putin passou a última década a procurar restaurar a grandeza russa, em parte através da reabilitação de Josef Stalin e a encorajar uma narrativa heroica e nacionalista dentro do país”.

Estas afirmações são preocupantes pela tentativa de recuperar um passado tenebroso utilizando táticas semelhantes através da utilização de armamento mais sofisticados e com novas estratégias.

Há um erro quando se pensa que a Rússia, em 1939, trouxe a liberdade à Europa central. Estaline atraiçoou a Polónia depois da invasão nazi invadindo-a pelo Leste. Hoje as ambições imperiais de Putin continuam a ser um perigo, como foi demostrado pela guerra contra a Geórgia em 2008.

Foi em Gdansk onde começou a invasão da Polónia pela Alemanha de Hitler.  No dia 1 de setembro de 1939 iniciou uma guerra de seis anos. A Polónia foi dividida em 1939 pelas tiranias gémeas de Hitler e Estaline e foi onde ocorreu o assassinato em massa de judeus no Holocausto nazi e terá sido o principal alvo de campanhas de propaganda concertada russa do Kremlin.

Relativamente à Ucrânia podemos supor que todas as tentativas para chegar a um acordo de paz com Putin serão do ponto de vista moral do direito internacional e do ponto de vista prático e político serão infrutíferos, prejudiciais e perigosos tal e qual o foram todas as tentativas de apaziguar as nazis realizadas entre 1934 e 1939 ao fazer vários acordos e pactos que resultaram em fracassos e não foram respeitados.

Elísio Estaque, sociólogo, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra escreveu num artigo de opinião mo jornal Publico que “O facto de a NATO ter sido criada como força de oposição à URSS num contexto de Guerra Fria, de profunda divisão ideológica no mundo ocidental (capitalismo versus socialismo), associado à imagem do exército soviético no pós-guerra, visto como força libertadora no confronto contra a Alemanha nazi, contribuiu para perpetuar a simpatia das “vanguardas” com a “pátria do socialismo” durante décadas. Desde a Revolução de Outubro, com Lenine e Trotsky, passando por Estaline, Krushtchov, Brejnev, etc, mesmo após a implosão do regime, muitos continuaram a ver no poder russo a força capaz de se opor aos EUA, o locus do poder hegemónico num mundo unipolar.

Na sua cegueira dogmática já veem nesta guerra as trombetas a anunciar o fim do capitalismo ocidental e a consequente queda do império americano.

Fazer comparações com outras ações belicistas da NATO, no passado, ou apresentar contabilidades da mortandade em várias outras latitudes que não a Europa, são de uma insensatez intolerável. Nenhuma ação bélica desta natureza pode ser relativizada, seja onde for e por quem for”.

Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.

Há quem esteja com uma venda nos olhos espreitando por alguns orifícios causados pelo desgaste ou que não queira ver por néscia teimosia, e menos por ignorância, e que, por isso, insistem na retórica discursiva do prisioneiro inocente que se defende dizendo que foram outros que o quiseram tramar. 

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publicado às 19:14


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