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PSD – a disputa de Rangel a Rui Rio

por Manuel_AR, em 29.11.21

Hoje partilho um texto escrito por Carlos Esperança que me parece adequado ao momento do rescaldo eleitoral interno do PSD. 

PSD – a disputa de Rangel a Rui Rio

(Carlos Esperança, 27/11/2021 in Estátua de Sal)

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A vitória de Rui Rio sobre Rangel é uma colossal derrota do aparelho do PSD perante os militantes do partido. Bastou uma sondagem, que mais parecia um palpite, da TVI, já com chancela da CNN, para intimidar os sindicatos de voto de Rangel e deixar livres os eleitores.

A moderação de Rio foi a única vantagem que exibiu sobre o seu acarinhado adversário. Com a derrota, Rangel volta para Bruxelas a acabar o mandato, a difamar o Governo e a defender as posições mais à direita, mas arrastou consigo a plêiade de figuras públicas e figurões que não toleram a Rui Rio a sua autonomia. Até a lei da eutanásia voltará a ser aprovada, depois de o PR ter pretextado outra reavaliação pela próxima legislatura.

Amanhã nenhum jornal dirá que o PR foi o grande perdedor e que será obrigado a tecer a Rui Rio as loas de que precisa para proteger o partido ao serviço do qual interfere nos outros órgãos de soberania.

Para o PS foi um resultado prejudicial, sobretudo agora, quando na próxima legislatura seria uma utopia contar com os partidos que lhe chumbaram o OE-2022 na presunção de que fariam agora o que recusaram antes, e a vitória sobre Rui Rio, a existir, será sempre mais moderada do que sobre Rangel. Relevante é evitar que se quebrem as hipóteses de reproduzir o apoio maioritário de esquerda a futuros governos de outras legislaturas.

Hoje vai ser uma noite de insónia para Miguel Relvas, Marco António, Passos Coelho, Luís Filipe Meneses, Carlos Moedas e Marcelo Rebelo de Sousa. O obscuro e poderoso líder da distrital de Lisboa é outro derrotado, o tal que considerava Rui Rio de esquerda, ao contrário de Carlos Moedas, o que esqueceu quem o propôs para apanhar o comboio dos notáveis ao lado do eterno perdedor, Paulo Rangel. A tralha cavaquista foi esmagada.

Vai ser bonito ver os líderes distritais que apostavam em Rangel e no apoio presidencial a justificarem-se aos eleitores que os desautorizaram e a quem tinham recomendado o candidato perdedor.

Até o antigo sátrapa da Madeira, que apoiou Rui Rio contra Rangel, se vingou de novo do PR, com quem recusou encontrar-se na Madeira. Apoiou o candidato de quem o PR não pode dispor.

Tem razão para comemorar com mais umas ponchas.

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publicado às 18:01

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A propósito das eleições diretas no PSD, independentemente de quem as ganhe, é fácil antecipar que, durante as próximas semanas, ouviremos falar de entrevistas e comunicações até à saturação sobre a derrota ou a vitória de um dos ainda candidatos.

Permito-me fazer um prognóstico sobre quem vai liderar o PSD, se Rio ou Rangel. Com a esperança de me enganar acho que Rangel será o ganhador. E, se o for, é válido o pensamento de quem considera que foram comentadores na maior parte da comunicação social que para isso contribuíram.

Para os militantes do PSD, se não a maioria, o partido está há cerca de seis   anos fora da governação do país, e a saudade é muita, e muitos dos seus boys anseiam por cargos. Muitos embarcam no mito tipo sebastianista, isto é, delírio sentimental e ideológico, para eles verdadeiro, embora racionalmente falso. O “passismo”, é o motor dos militantes e adeptos do PSD que os força a acreditar na personificação de Passos Coelho e do seu ideário em Paulo Rangel.

 Como também salientei no  blogue com o título “As eleições diretas no PSD que podem transformar-se em indiretas” Sousa Tavares escreveu no semanário Expresso: “Rangel recusa-se a dizer o que fará se ganhar sem maioria absoluta ou que lhe permita governar em coligação à direita ou o que fará se o mesmo acontecer ao PS; Rio diz que o interesse do país e da governabilidade está à frente do interesse do partido e, portanto, facilitaria um Governo do PS minoritário, esperando que o PS fizesse o mesmo a um Governo PSD minoritário.”

A grande diferença é que Passos Coelho quando primeiro-ministro era pouco palavroso, nada meloso, pouco demagógico, transmitia segurança mesmo a quem não aderia às suas ideias neoliberais e, sobretudo, não era propagandista de ideias falsas, fazia o que estava nos seus projetos mesmo sabendo que desagradava, ao contrário de Rangel cujo discurso é perigosamente demagógico e falacioso e vive num ideal só dele sobre o que acha deve ser será um opositor e um primeiro-ministro.

Desde então a verdadeira identidade política do PSD foi-se perdendo com o Governo de Passos em coligação com Paulo Portas sob supervisão da troika. Estava a reajustar-se com Rui Rio quando apareceram os antigos apoiantes das políticas de Passos como Luís Montenegro e, recentemente, Paulo Rangel que irá contribui para a lavagem daqueles anos que tem estado em curso, para gáudio dos nostálgicos passistas.

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publicado às 17:59

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A propósito das próximas eleições diretas no PSD a coisa está agreste. Há dois candidatos, ambos afirmam colocar à frete os interesses do país, mas, como em tudo, há sempre um mais interessado do que outros. A escolha depende dos militantes do partido que soberanamente escolher um dos candidatos. Como não sou militante a minha visão é de distanciamento e independência relativamente a cada um dos candidatos, todavia, tendo em consideração os efeitos que cada um poderá exercer no país, tal como a estabilidade política e social necessária, não nego ter inclinação por um deles.

Estamos a atravessar uma crise política forçada pelos partidos de esquerda mais radical que votaram contra o Orçamento de Estado para 2022 ao lado da direita. O intuito talvez fosse tentarem, cada um por si, recuperar eleitores perdidos que se afastaram do radicalismo desde as eleições de 2019 e, recentemente, nas autárquicas atribuindo as culpas ao Governo e a António Costa.

Os dois candidatos Paulo Rangel e Rui Rio têm visões diferentes sobre o que pretendem para o partido e para o país. Cada um dos protagonistas tem mostrado o seu estilo de estar na política e as visões para o país. Um deles tem projetos mais ou menos centrados no país, o outro em projetos mais pessoais e partidários. Paulo Rangel parece-me pertencer a este último.  

Paulo Rangel está rodeado de gente que, tal como ele, fizeram parte da entourage de Passos Coelho quando foi primeiro-ministro. Ligados à fação mais à direita do PSD que, desde Cavaco Silva, se afastaram das raízes sociais-democratas. Personagem melíflua e palavrosa e com narrativas ao mesmo tempo sedutoras e enganadoras, mas sem consistência centra-se numa oposição desprovida de projetos objetivos para o país e para as pessoas. Os apoios a Rangel vêm dos neoliberais do partido e de lóbis muito fortes de grupos e comunidades.

Aproveitando a vitória pífia de Carlos Moedas em Lisboa e do slogan da campanha “tempos novos” Rangel adotou a estratégia de colagem admitindo "sintonia de pontos de vista" com Moedas sobre "tempos novos" da política. Num almoço com Paulo Rangel Moedas salientou que o almoço serviu para dar um “grande abraço” para “dar força” ao seu “amigo” Paulo Rangel na reta final da campanha interna para a liderança para o PSD. Mas, por outro lado, disse rejeitar que o encontro com Rangel pudesse ser interpretado como um apoio, afirmando que essa interpretação “é feita pelos jornalistas, analistas e comentadores”. Estranha afirmação plena de contradição. Os “tempos novos” são o regresso às políticas dos velhos tempos do para além da troica. Como Moedas ganhou tangencialmente a Câmara de Lisboa Rangel terá pensado que lhe poderia acontecer o mesmo com as legislativas caso ganhasse e viesse a ir a votos como futuro primeiro-ministro.

A propósito, vimos, na apresentação do livro da cristalizada jornalista Maria João Avillez, o atual presidente da Câmara de Lisboa e ex-ministro de Passos Coelho, Carlos Moedas, na fundação Calouste Gulbenkian salientar para os jornalistas, depois de ter assistido à apresentação do livro afirmar que não vai “tomar posição” na disputa interna do PSD, mas, ao mesmo tempo, vai dizendo que quer que haja uma “verdadeira oposição ao PS”, tal como Rangel vem salientado ao longo da sua campanha.

Também, a propósito, José Saraiva escreveu, numa entrevista feita na casa de Maria João Avillez, que “Sentados no sofá, é impossível não reparar nas dezenas de fotografias emolduradas que quase tapam os livros numa estante próxima. Uma delas, a preto e branco, destaca-se pela dimensão generosa e posição proeminente. «É o meu pai com o Salazar. E está aqui muito bem» concluiu a entrevistada.

Voltando ao candidato à liderança do PSD, Paulo Rangel, do meu ponto de vista é um ardiloso da política cuja retórica leva a confundir quem, menos atento, o escuta não se apercebendo dos argumentos demagógicos e sem provas evidentes das suas afirmações decorrentes das notícias do dia e consoante as ocasiões.

Alguns comentadores, achando-se com privilégio de oráculos, vaticinam que António Costa prefere que Paulo Rangel ganhe as eleições diretas no PSD porque isso se poderá traduzir nas eleições legislativas em votos para o PS!!?  

O candidato Rui Rio com a sua espontaneidade fala mais para o país e é por todos entendido. Tem a noção de que a probabilidade de uma maioria absoluta, mesmo com outros partidos à sua direita é quase impossível. E daí as suas propostas.

Pelo contrário de Paulo Rangel luta pelo poder e só recentemente começou a equacionar alguma abertura para viabilizar um futuro governo. Rangel quando questionado sobre cenários de governabilidade após as legislativas de 30 de janeiro rejeitou um "PSD em segundo lugar" ou ser "vice-primeiro-ministro", repetindo que vai trabalhar para liderar um PSD com "maioria estável no parlamento" sozinho ou com coligações com partidos da direita "moderados". O seu devaneio não tem limites e a sua leitura da realidade está no mundo da imaginação porque está carecida de bom senso. Afinal qual é o seu projeto para no caso de, mesmo que em coligação com outros partidos, não conseguir a tal maioria estável?

Quanto a Rui Rio tenho ainda na memória a polémica que se instalou com Pinto da Costa, senhor do Futebol Clube do Porto quando ele era então presidente da Câmara Municipal do Porto e se manteve firme no seu propósito de “reduzir a área comercial disponível para o FC Porto negociar em cerca de 75 por cento, e isto sem apresentar qualquer proposta alternativa para os dragões financiarem as obras do seu novo estádio. Isto apesar da troca da área comercial para habitacional ter um custo nove milhões de euros” circunstância que Pinto da Costa nunca lhe perdoou.

Acusado pelos radicais da ala direita do PSD de ser a muleta do PS ele responde em função do que é melhor para o país. Rui Rio não defende   um bloco central (PSD+PS) coisa hoje em dia pouco provável o que Rui Rio assume é que está disponível para viabilizar um Governo do PS.

Paulo Rangel faz a predição da instabilidade garantindo que só haverá estabilidade com maioria absoluta do PSD. A pergunta é: e se o PSD ganhar sem maioria absoluta, mesmo em coligação com partidos à sua direita, não a conseguir? E se ao recusar, como claramente afirmou, qualquer alinhamento com o partido Chega provocará nova crise política?

Os que pretendem desacreditar Rui Rio não dão crédito aos argumentos de “estabilidade”, “responsabilidade” e “sentido de Estado” que vão de encontro a muitos portugueses ao contrário do posicionamento ideologicamente marcado de Paulo Rangel que é muito mais neoliberal liberal e nunca afirmou que o PSD é um partido do centro – onde se ganham eleições – e muito menos de esquerda. O facto é que os partidos sociais-democratas na U.E. estão no grupo político mais à esquerda e ao centro (S&D) onde se inclui o PS, tal como o SPD da Alemanha, agora no governo deste país. O PSD inclui-se no grupo da direita e centro-direita (PPE). Portanto mesmo que Rui Rio anuncie que o PSP é um partido de esquerda, perde o seu tempo o esforço estará numa aproximação ao centro-esquerda que se encontra entre o centro e a esquerda no espectro ideológico.

Sejas como for não faço vaticínios, mas talvez fosse mais útil ao país uma vitória de Rui Rio nas eleições internas do PSD.

Ao acabar de escrever este texto numa sondagem da Pitagórica divulgada pela TVI, o PSD teria melhor resultado nas legislativas de janeiro se fosse o atual presidente do partido social-democrata, Rui Rio, o líder.

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publicado às 18:58

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A propósito do CDS tem-se verificado que os portugueses não apreciam radicalismos e que se situam mais ou menos no centro político e que a propósito de eleições antecipadas, alguns líderes partidários, comentadores, analistas políticos, sobretudo os que afinam o seu mecanismo narrativo pelo lado ideológico à direita têm anunciado que, politicamente, e referindo-se sobretudo ao PS, partido do Governo, está em fim de ciclo, está esgotado.

Não é o Governo que está em fim de ciclo, como nos querem fazer crer, são os partidos tradicionais partidos da direita que ajudaram a construir a democracia, que parecem estar há algum tempo em fim de ciclo, talvez desde que partidos como o Iniciativa Liberal e o Chega foram constituídos.

O PSD e o CDS-PP, sobretudo este último, tiveram falta de visão. Foram eles que criaram as condições para o surgimento de partidos mais à direita, sobretudo como consequência do mandato de Passos Coelho e Paulo Portas e da formação da chamada “geringonça”. O abandono do debate ideológico e estratégias imediatistas para chegarem ao poder terão para isso contribuído. Para poderem conquistar votos ou alinhavam mais à direita ou mais à esquerda consoante opiniões e sondagens. Ora se assumiam à direita, ora se afirmavam como sendo do centro, ora do centro-direita.

Também a propósito, o que está a passar-se no CDS não deveria estar a acontecer. Como desconheço o que se passa internamente nos partidos, a não ser pelos órgãos de comunicação, pouco ou nada posso acrescentar não ser algumas opiniões sobre as causas dos problemas internos que se refletem no contexto democrático do país.

Culpabilizar e responsabilizar um líder eleito por maioria em 26 de janeiro de 2020 no 28º Congresso do partido pelas perdas de votos nas autárquicas a menos de um ano após ter sido eleito parece-me um pouco oportunismo dos que se lhe estão a opor, nomeadamente o apagado e deslocado no Parlamento Europeu Nuno Melo.

O CDS-PP não é como têm dito o partido fundador da democracia. O partido procurava corporizar politicamente as ideias da direita moderada e foi conotado com os setores mais conservadores da sociedade portuguesa e, por isso, sofreu ataques pela esquerda mais radical. Foi um dos partidos de direita atores no estabelecimento da democracia, embora na altura nem sempre alinhasse no processo democrático pelos melhores motivos devido a possíveis ligações com movimentos da extrema-direita, mas foi-se aos poucos democratizando sobretudo com o seu presidente já falecido Freitas do Amaral.

O que se tem passado ultimamente passado no CDS não é nada bom e pode acabar com a sua extinção cujos militantes e simpatizantes poderão ir engrossar a Iniciativa Liberal, talvez menos o PSD e até mesmo o Chega, o que não é nada bom para a nossa democracia dado que os partidos radicais de direita que existem por aí ávidos por arrecadar algumas franjas das direitas. Note-se que o votante destes dois últimos partidos na sua maioria supõe-se serem oriundos do PSD e do CDS-PP, poucos terão vindo das esquerdas.

O CDS sendo um partido de direita nunca foi até agora um liberal radical apesar do seu atual líder dizer em outubro de 2019 que era admirador da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e do antigo presidente norte-americano Ronald Reagan, dois políticos neoliberais conservadores. Em janeiro de 2020 confessava-se admirador de Paulo Portas. O CDS é um partido que, bem liderado, poderá recuperar alguns votos que perdeu para outros partidos.

A não ser quem fala em fim de ciclo do Governo com o objetivo de induzir quem os escuta a uma deslocação para a direita, não há nota nem provas disso, a não ser circunstanciais, que aponte para um fim de ciclo. Para tal teríamos que conhecer se haverá ou não deslocação de votos dos chamados flutuantes para a direita pois estes eleitores são os que determinam muitas vezes qual o(s) partido(s) que vão ocupar cargos de governação. São estes eleitores voláteis que oscilam com as suas preferências de voto de uma eleição para outra e que poderão orientar-se para o Chega e para a Iniciativa Liberal engrossando as suas fileiras.

Assim sendo, uma coligação entre o centro-esquerda e centro-direita poderia ser uma opção, mas não é bem aceite por vários setores sociais e partidos nem por esse “passadista” Paulo Rangel candidato a líder do PSD. Por outro lado, a ser concretizada poderia, a prazo, causar instabilidade social e movimentações sindicais condicionados por partidos da esquerda radical.

O exemplo da Alemanha que foi governada mais de dezasseis anos pela chamada “Grande Coligação” demonstra-nos a possibilidade ou não de o mesmo poder acontecer em Portugal. A nossa cultura política e o ambiente social são diferentes da Alemanha, mas uma adaptação dos princípios poderia ser ajustada. Vejamos quais os argumentos, as principais vantagens e os princípios que presidiram à formação de uma grande coligação no caso alemão, mas que se poderia a adequar ao caso português. Ao contrário do sistema bipartidário, as coligações evitam a polarização social e obrigam os partidos a criatividade na capacidade de compromissos. Quando nenhum partido político, por si só, consegue uma maioria no Parlamento torna-se necessário uma solução bi ou pluripartidária.

Para além de maiorias absolutas nos parlamentos o que pode contribuir para a estabilidade são também os acordos de coligação que se caracterizam por acordos entre parceiros de coligação, no início de um período legislativo sobre as metas que pretendem atingir nos próximos anos. Embora com enquadramento diferente foi o que aconteceu em Portugal à esquerda com a “geringonça” desde 2015 que agora mordeu a corda graças à radicalização dos partidos à esquerda do PS.  

Em Portugal desconfia-se de maiorias absolutas, e os partidos, sobretudo os da esquerda radical fazem os possíveis para, nos momentos eleitorais, diabolizar as maiorias absolutas como sendo um mal, talvez aproveitando-se das más experiências a que o país esteve sujeito quando foram eleitoralmente concretizadas à direita. Contudo, maiorias aritméticas parlamentares têm mostrado ser uma boa opção. É óbvio que isto também depende do conteúdo ideológico e programático dos partidos que se apresentam a essa solução.  

Com Rui Rio na liderança do PSD um acordo pós-eleitoral a nível parlamentar poderia ser uma hipótese a considerar, uma espécie de coligação semáforo, uma espécie de geringonça ao centro e centro-esquerda. Neste caso faria sentido houver conversações bilaterais entre o PS e o PSD, já que existe matéria em comum que pudessem estabelecer. Todavia, as bases do PS mais à esquerda e as mais à direita no PSD forçariam o bloqueio desta solução.

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publicado às 19:08

O lustroso e falacioso Rangel

por Manuel_AR, em 31.10.21

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A campanha de propaganda a Paulo Rangel para projetar e purificar a sua imagem política e pessoal já começou com o apoio de alguns órgãos de comunicação. O que já era espectável. Desde que Rui Rio é líder do PSD tem havido tentativas para o desmontar do cavalo do poder.

Em 2020 Paulo Rangel apoiou Rui Rio na disputa interna desencadeada por Luis Montenegro e por Miguel Pinto Luz, propõe-se agora à corrida para montar o cavalo apetecível do poder, primeiro no PSD e quiçá do governo do país se, eleito líder do partido. Justifica o propósito da sua candidatura a líder do PSD pelo seu posicionamento mais ao centro e por considerar que tem uma “visão de médio prazo”.

Anos antes esteve ao lado da ala mais à direita do PSD com Cavaco Silva e Passos Coelho e numa entrevista ao programa Grande Reportagem na RTP3 em 27 de outubro abriu portas a um acordo com CDS-PP e com a Iniciativa Liberal. Só não se pronunciou quanto ao Chega. Como em política tudo é possível não sabemos se para conseguir uma maioria de direita no Parlamento não o chamará para um acordo. Aliás o próprio Rui Rio assim fez nos Açores. Hoje, antes de ter publicado este texto, Rangel afirmou numa entrevista à TSF que o PSD deve ambicionar governar o país e rejeita a ideia de uma aliança ao Chega, talvez não, mas há outras formas obter apoios. Com Rangel há sempre incógnitas na equação da política.

Em dezembro de 2019 o eurodeputado do PSD não encontrava no discurso de André Ventura "nenhum fascismo - até agora, não quer dizer que no futuro não seja assim" e, sobretudo, discorda dos que procuram diabolizar o deputado único do Chega, afirmou. Bem, dá que pensar!

Mas há mais, o mesmo eurodeputado do PSD Paulo Rangel afirmou em setembro do corrente ano que o antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho deve ser "uma inspiração" para o país.

Paulo Rangel esteve sempre alinhado com potenciais caminhos onde se encontra o poder e que o pudessem levar até lá. Passado uma década, depois de ter disputado a liderança e perdido para Pedro Passos Coelho, e sendo eurodeputado desde 2009 vai concorrer pela segunda vez à presidência do PSD, desta vez contra Rui Rio.

Rui Rio escolheu Rangel como ‘número 1’ a Bruxelas em 2017 com o PSD quando desta vez, sozinho, registou o pior resultado de sempre nestes sufrágios, pouco abaixo dos 22%, o que levou Rui Rio a afirmar sobre Rangel que “Podia ser compreensível que mudássemos, podia vir uma outra pessoa. Mas face àquilo que são as características dele e às características que precisamos, ele simplesmente não é dispensável desse cargo e faz todo o sentido fazer mais um mandato”.

Depois do chumbo do Orçamento de Estado para 2022 alguns órgãos de comunicação iniciaram a promoção do produto Rangel como candidato à liderança do PSD. Mesmo o Presidente da República fez a sua ação promocional de Paulo Rangel ao receber, nesta fase crítica do país e sem justificação objetiva, um elemento que é apenas um candidato à liderança de um partido. Mas Rangel representa também a figura do candidato de alguns grupos sociais minoritários que são um lóbi poderoso. Não sabemos se farão ou não parte rede de contactos internacionais que pode ser útil ao partido como ele afirmou numa entrevista.

Pelo que conheço de Paulo Rangel, que é apenas pela análise das suas intervenções, entrevistas, debates televisivos e comentário político, noto que os seus melhores atributos se baseiam nos seus dotes oratórios, na retórica falaciosa que utiliza nos debates políticos. Em resumo: é uma espécie de tagarela da política que altera a visão dos factos de forma bem construída com o objetivo de iludir quem o escuta e quem esteja pouco atento às suas narrativas e ao desenrolar da política.

Numa entrevista referiu-se ao clientelismo do PS. Fase a alguns factos terá alguma razão. Mas quem tem telhados de vidro o melhor é ficar calado. A pergunta que se coloca é qual o partido que não tem clientelas. O PSD também é um herói do dito clientelismo vejam-se quando se prevê trocas de líder  a procura que cada um faz de clientelas de apoio que depois poderão ter consequência nas distribuição de poderes.

Rangel é uma espécie de embusteiro da política, com arte, de tal modo que os desprevenidos nem dão pelo engano. As suas intervenções políticas são lustrosas, demagogicamente e aparentemente consistentes e ao mesmo tempo obscuras porque não se lhe vislumbram as intensões por se concentrar apenas no ataque dos adversários políticos e menos nos seus projetos para o partido e para país. À pergunta se já tinha um programa do partido para as eleições a resposta foi ainda não, mas isso é uma coisa que se faz rapidamente. Claro faz-se qualquer que não será exequível apenas para convencer eleitores. Rangel escolhe bem e manipula as palavras que acha terão mais impacto nos mais iletrados que o escutam que não conseguem vislumbrar os seus esquemas silogísticos falaciosos.

A repetição de palavras sinónimas que enchem a frase sem explicitação completa do pensamento, e com adjetivações sucessivas são uma estratégia que ajuda a reter a ideia no ataque que pretende fazer passar. O estribilho “dizer com toda a clareza” tem o objetivo de fazer crer que a sua mensagem tem credibilidade. Bem-falante Rangel é um tribuno da narrativa política, um embusteiro de casaca que se faz acreditar através de patranhas muito bem construídas montadas por raciocínios que deturpam a realidade objetiva recorrendo a figuras de estilo linguístico como a linguagem metafórica, perífrases, anáforas, eufemismos para reforçar as suas mensagens. Tomemos como exemplo as suas próprias palavras ao dizer que pretende ser “Um líder aberto, um líder executivo, um líder agregador”, linguagem anafórica que cria algum impacto. Há um outro chavão que Rangel recuperou de 2007 que é a de que “Portugal vive uma verdadeira claustrofobia constitucional, verdadeira claustrofobia democrática”.

O alvo de Paulo Rangel não é apenas o PS é, sobretudo, António Costa a quem faz ataques pessoais, com o seu estilo lustroso. Ele sabe que é por ai que terá margem de manobra para atrair apoiantes.  Todavia, ofende-se quando é ele o visado. Repare-se que Rangel disse que António Costa era viscoso. “Com costa é tudo mais viscoso, mais gasoso” afirmou publicamente numa entrevista *a revista Visão sua apoiante. Não será isto ataque pessoal? Deteta-se em Rangel algum cinismo enganoso, uma espécie de “santinho de pau carunchoso”, que é sinónimo de pessoa de aspeto sonso e coração velhaco. A sua própria divulgação pública de que é homossexual faz parte da sua estratégia política.

Os portugueses não precisam de primeiros-ministros bem-falantes com vocabulário rico, para muitos, incompreensível, com retóricas enganadoras e sedutoras. Ele próprio o afirmou ao dizer que pretende “cativar”, “seduzir” as pessoas. Compare-se com o primeiro-ministro inglês ou o francês que falam direta e claramente ao povo sem uma comunicação rebuscada.

Como é sabido o combate democrático desenrola-se em muitas e variada circunstância no espaço dos meios de comunicação que o torna possível, mas que tantas vezes contribui para exagerar alguns dos seus defeitos promovendo um regime baseado na negatividade.

Num momento em que os cidadãos têm mais necessidade de informação para terem uma ideia acerca do que se está a passar para poderem tomar decisões apropriadas os meios de comunicação social alimentam e distorcem a visão dos temas políticos de tal modo que acabam por gerar desesperos e ansiedades inúteis. Eles alimentam o desencanto e a desconfiança em vez de explicarem a normalidade democrática. As pessoas ficariam a saber que as coisas não são tão graves quanto nos fazem crer. Neste contexto o verbo distorcer não significa falsidade. É mais no sentido relativo do que absoluto tendo em conta as conotações que se pode tomar de um texto noticioso.

Por outro lado, as pessoas prestam mais atenção aos pormenores triviais do que aos assuntos políticos centrais e que não sejam expostos em toda a sua complexidade. É a preferência pelo sensacional que pode ser explicado pelo facto de a política ser um tema aborrecido e até irritante o que coloca os meios de comunicação face ao desafio de a tornar interessante para os consumidores diários. A sensação que nos fica é que apenas o escândalo o desastre, o que é mau, é notícia. Nunca se fala nos meios de comunicação do que corre bem, mas quase sempre do que corre mal daí se chegar à conclusão de que tudo é mal feito.

Este meu exercício de opinião tem a ver com as atribulações que se passam no PSD e com a crise que resultou do chumbo do Orçamento de Estado. O que Rangel trará para o país, se por acaso for eleito líder do PSD, é o seu posicionamento ideológico à direita na linha de Cavaco Silva e de Passos Coelho.  Basta vermos que Poiares Maduro, antigo ministro da Presidência de Passos Coelho foi escolhido para coordenador das bases do seu programa e Fernando Alexandre, ex-secretário de Estado Adjunto do ministro da Administração Interna também do governo de Passos Coelho, que será o responsável pela coordenação da parte económica. Aliás, como Rangel afirmou na entrevista à RTP3 poderá recorrer ao apoio da direita CDS-PP e IL, mas, por outro lado, diz-se do centro-direita.

Vejamos os grupos a que pertencem no parlamento Europeu os dois principais partidos PSD e PS. Os dois principais grupos do Parlamento Europeu são o PPE – Partido Popular Europeu, agrupamento partidário democrata cristão/conservador, onde estão incluídos o PSD e CDS-PP. O Grupo S&D, Aliança Progressista dos Socialistas e Sociais-Democratas a que pertencer o PS. A CDU (PCP+PEV) pertence ao grupo GUE/NGL - Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde.

O PSD está no grupo da direita e centro-direita e o PS encontra-se no grupo dos sociais-democratas de que também faz parte o SPD Partido Social-Democrata da Alemanha que ganhou as últimas eleições com uma diferença mínima da CDU/CSU.

Posto isto o que pretendo demonstrar é que o PSD não faz parte do grupo dos sociais-democratas onde se encontra o PS como prendem fazer crer isto porque é importante para a luta interna pela liderança do PSD. Há, portanto, duas tendências: uma aproximada à social-democracia que é Rui Rio e outra mais de direita, mas neoliberal que é a de Paula Rangel.

Para terminar, e apenas como curiosidade histórica, podem ver o vídeo de 08/08/3013 que abaixo incluo.

 

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publicado às 16:27

O retorno dos coelhos

por Manuel_AR, em 09.10.21

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O eterno retorno era uma doutrina dos estoicos retomada, em particular pelo filósofo alemão, Nietzsche segundo a qual há um eterno recomeço, isto é, uma série de acontecimentos idênticos aos precedentes. O estoicismo foi criado por Zenão de Cício, na cidade de Atenas, cerca de 300 a.C.. Os estoicos defendem a austeridade na virtude, o desprezo por todos os tipos de sentimentos externos, como a paixão e os desejos extremos e foi recuperado pelo cristianismo que afirmava e afirma que só "através da aceitação do destino e da renúncia às paixões, pelo que o homem deverá destacar-se pela indiferença face à dor e pela firmeza de ânimo perante os males e as agruras da vida”. Enfim, mais ou menos a apologia da austeridade aos níveis das agruras pessoais e bens materiais.

Não vou aqui dissertar sobre temas filosóficos, mas isto vem a propósito do que tem vindo a ser noticiado e comentado após a calma das emoções geradas pelos resultados das eleições autárquica. Interpretações que têm emanado dos comentadores políticos e fazedores de opinião, quais oráculos do tipo Pítias, sobre o futuro político, quer em relação ao partido dito perdedor, quer em relação ao partido dito ganhador oriundos da comunicação social.

Com é sabido, Carlos Moedas ganhou Lisboa, mas teve ao seu lado durante a campanha elementos que estiveram também em tempo ao lado de Passos Coelho. Moedas foi, e ainda é, um animado adepto saudosista das políticas de Passos, assim como os que o ajudaram na campanha como é o caso de Sofia Galvão, Miguel Morgado, João Marques de Almeida, António Leitão Amaro não são dedicados "passistas”.

Moedas integrou o XIX Governo Constitucional e que fez parte do Executivo durante a maior parte do seu período de vigência. Era considerado o braço-direito do anterior primeiro-ministro, facto que o colocou em destaque nas relações entre o governo português e os responsáveis da troika. Mais recentemente, a 30 de julho, Carlos Moedas, numa entrevista ao semanário NOVO, afirmou que “gostava de ver outra vez Passos Coelho num lugar de destaque". Segundo o semanário a frase é suficientemente ampla para nela caberem várias hipóteses, mas a “admiração” é indisfarçável.

Este enquadramento serve como justificação para o título do artigo e para alerta de que o retorno da direita passista ao poder pode vir a ser mais real do que virtual, caso Rui Rio não se candidate novamente à liderança do PSD ou se se candidatar não ganhar. Se assim for é certo que o poder do PSD fica novamente na mão dos neoliberais de Passos Coelho numa campanha a fazerem-se passar por sociais-democratas. Aliás, hoje o semanário Expresso publica um artigo de opinião do senhor de má memória que dá pelo nome de Cavaco Silva que o comprova: Cavaco diz que Governo de Costa “não foi capaz” de aproveitar as condições herdadas de Passos, (!?) e critica também os adversários do Governo, denunciando uma “oposição política débil e sem rumo, desprovida de uma estratégia consistente”.

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Começo por mencionar as minhas impressões sobre os comentários que se teceram e tecem em catadupa nos órgãos de comunicação social sobre o primeiro-ministro António Costa, o Governo, o PSD e Rui Rio durante a campanha eleitoral para as autárquicas e após as eleições.

António Costa desde que esteve na presidência portuguesa do Conselho da União Europeia e, tendo em conta as notícias que, entretanto, foram surgindo nos órgãos de comunicação e a que alguns socialistas chamam casos e casinhos, fica-se com a ideia de que o Governo, e sobretudo alguns ministros, entraram em roda livre, mesmo depois de junho quando do seu regresso. A coisa que já vinha de antes parece que piorou. Os casos que iam surgindo como sendo de casos e casinhos sucederam outros que o são de facto. Não é certo que algumas perdas nas autárquicas não tenham contribuído também para esses factos.

Chegado até aqui penso que António Costa deve começar a ter algum cuidado e prestar mais atenção e observar mais tudo quanto o rodeia. Ouvir neste caso não significa executar o que outros acham que deveria fazer, mas descobrir estratégias para o futuro próximo. Analisemos agora, com algum cuidado, os mais recentes comentários sobre António Costa e o seu Governo e também os comentários sobre a sucessão, ou não, de Rui Rio no PSD levantados após as eleições autárquicas. 

Quanto a António Costa e sem qualquer ordem cronológica detenho-me em algumas das afirmações que são sistematicamente repetidas nos comentários mais ou menos proféticos como a insistência na fragilidade do Governo após as eleições; remodelação do governo a ser feita após aprovação do orçamento (a única que poderá ter algum fundamento); perda de autoridade do primeiro-ministro; fadiga em relação ao Governo; o Governo está muito mais fraco após as eleições; a inversão da tendência política em Portugal; a semana tal foi um desastre para o Governo.

A somar a estes sinais amargos, as semanas a seguir às autárquicas foram um desastre para o Governo. Pedro Nuno Santos verbalizou — da forma mais bruta possível — tudo o que o opõe ao ministro das Finanças, a quem culpa pelo afastamento do presidente da CP. O descontentamento com João Leão será alargado a outros ministérios, como escreve o Expresso, mas a declaração do ministro das infraestruturas abriu a caixa de Pandora. Dificilmente os dois poderão coexistir num próximo Governo e vai ser interessante ver como se desfaz este novelo. Para somar à semana desgraçada, o ministro da Defesa decidiu aproveitar politicamente o fim do mandato do vice-almirante, louvado quase unanimemente pelo sucesso das vacinas, para despachar o Chefe de Estado-Maior da Armada e colocar Gouveia e Melo no posto.

Daqui as primeiras mexidas consequentes saídas da primeira reunião da direção socialista neste sábado que elegeu os dirigentes que integrarão a comissão política, o secretariado e a comissão permanente do PS

Quanto ao PSD e a Rui Rio parecer ser evidente a exploração jornalística de um dito “combate” dentro do PSD, que é o de “se concentrar naquele que é o combate maior que terá pela frente, que é o de se constituir como verdadeira alternativa ao Governo do Partido Socialista” como afirmou numa entrevista de Montenegro falando das rivalidades internas no partido, afastando-se estrategicamente dessas guerras. Faz-se de bom da fita, por agora, para depois atacar os despojos. Rio não está em condições de ser "alternativa sólida" ao PS. Acrescentou ainda que não pretende pôr-se já a caminho porque acha que o PSD ainda não está na hora de ganhar eleições e porque não acredita que o PSD sendo com Rui Rio ou sendo com Paulo Rangel não tem tempo de recuperar e renascer das perdas eleitorais.

Infeliz, à sua maneira, também está o PSD. A vitória de Lisboa e de Coimbra e o aumento total de câmaras deram a Rui Rio um sopro de vida, mas o combate interno intensifica-se — enquanto o PS sonha que Rio se mantenha no cargo. Com o PSD em convulsão, se Paulo Rangel conseguir ganhar as diretas a situação política muda: o curriculum de Rangel faz prever um PSD mais combativo, numa altura em que o PS ainda se encontra no cimo da colina, mas vai escorregando.

A proposição de que basta repetir uma mentira para que ela se torne verdade, uma das regras básicas da propaganda política, pode aplicar-se também num propósito de formulações hipotéticas, opiniões e suposições que sucessivamente se repetem mesmo que não sejam mentiras. Se se repetir uma ideia que não sendo mentira pode ser potencialmente uma verdade, ou seja, algo não verificado ainda, a sua repetição passada pelos “fazedores” da opinião pública pode ser vista como sendo uma verdade, embora não o seja ainda. É a chamada a ilusão da verdade.

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publicado às 18:28

Paulo Rangel o político que atira pedras aos telhados dos vizinhos

Ou a forma de denegrir os adversários pela destruição do caráter

por Manuel_AR, em 22.07.21

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Não percebo como numa rua quase deserta de Bruxelas, à noite, alguém captou as imagens video que andou a circular pelas redes que de sociais pouco ou nada têm. O visado, Paulo Rangel, esclareceu através do Twitter que foi há anos após um jantar de amigos.

Não importa o que faz ou não parte da sua vida privada, porque ninguém tem nada com isso. Não foi cometida nenhuma infração, nem abuso da integridade de terceiros nem tão pouco ofensas. O que acho estranho é que, numa situação como esta, após um jantar, à noite, em Bruxelas numa rua quase deserta alguém estava à espreita para o filmar. Alguém das suas relações estaria à espreita para o tramar? Se foi, só o tramou anos depois. Quem foi aguardou, até porque sabia que, segundo alguns dizem,  a vingança serve-se fria. Para mim isto é muito estranho! Terá sido coincidência, dirão alguns. Não creio em coincidências como esta.

Não tenho grande simpatia pelos pontos de vista de Paulo Rangel devido à forma como tece o discurso nos seus comentários e dabates. São baseados  numa semântica plena de retórica sofista, empregando, deliberadamente, argumentos falsos com aparência de verdadeiros.

De qualquer modo vamos ao que está em causa. São absolutamente desprezíveis e repugnantes  o autor do vídeo, seja ele quem for, e o/os motivo/os o levaram a tal.

Acerca do video que andou a circular pelas redes sociais  sobre um comportamento pontual do político Paulo Rangel do PSD li um artigo que Carlos Esperança publicou no blog Estátua de Sal que pelo seu estilo de escrita aliciante vale a pena ler aqui.

Paulo Rangel – O algoz tornou-se vítima de um facto irrelevante

(Carlos Esperança, 21/07/2021)

Muitos portugueses souberam do vídeo divulgado sobre o eurodeputado Paulo Rangel através do próprio. É uma cena de um homem bêbedo em sucessivos ziguezagues numa rua deserta, demasiado estreita, para cambalear à vontade.

Não me merece qualquer reprovação. Quem nunca se embebedou que atire o primeiro copo. Duvido mais dos que nunca cometeram um exagero ou transgressão do que dos santos, e não restem dúvidas de que foi cobarde e pusilânime quem o filmou e, alguns anos depois, o expôs à execração pública.

O argumento mais canalha para justificar a divulgação de cenas privadas é a justificação, de que tem interesse público, tudo o que se relaciona com figuras públicas. É falso, e diz mais sobre o bufo do que sobre a vítima.

Este caso é, aliás, inócuo para a reputação do político e não me parece que lhe retire votos em eleições. Pode provocar sorrisos, e não é mais ridículo do que tirar as catotas do nariz nas sessões do Parlamento Europeu.

Dito isto, e subscrevendo o desabafo de Paulo Rangel, num tweet do próprio, não posso deixar de recordar ao arruaceiro das terças-feiras, no jornal Público, os assassínios de carácter que semanalmente faz a adversários políticos.

A razão que ora lhe assiste como vítima perde-a semanalmente como algoz, na aptidão para a chicana e nos ataques ad hominem, contra adversários. 

Não se conhece a Paulo Rangel o pudor republicano que o iniba de ampliar campanhas onde os casos pessoais servem, à míngua de argumentos, para denegrir figuras públicas dos partidos concorrentes, nem qualquer ato de solidariedade para com vítimas políticas de campanhas orquestradas para as destruir.

Exige-se a Paulo Rangel, não tanto a Nuno Melo, mais próximo do fascismo, que não se envolva em campanhas negras, e que, de vez em quando, se indigne com a imprensa ao serviço da pior direita, quando divulga conversas íntimas de arguidos, que o STJ manda destruir, por ausência de interesse processual, e que algum magistrado venal se esquece de cumprir, para acabarem na primeira página de um qualquer pasquim.

A razão que ora tem é a que perde no sectarismo que o acompanha e no silêncio a que se remete quando as vítimas são outras.

Paulo Rangel não precisa de solidariedade pelas cenas vulgares que não são infamantes, precisa de se solidarizar com os adversários vítimas da devassa da intimidade através da exposição pública da intimidade e que, ao contrário de uma simples bebedeira, destroem a família, a reputação e a carreira política do visado.

Quanto a quem é capaz de expor cenas privadas de quem quer que seja, que não lesam o país nem têm relevância penal, apenas denigrem os autores, herdeiros dos que nos espiavam nos cafés, escutavam telefonemas ou violavam a correspondência durante a ditadura.

Muitos portugueses souberam do vídeo divulgado sobre o eurodeputado Paulo Rangel através do próprio. É uma cena de um homem bêbedo em sucessivos ziguezagues numa rua deserta, demasiado estreita, para cambalear à vontade.

Não me merece qualquer reprovação. Quem nunca se embebedou que atire o primeiro copo. Duvido mais dos que nunca cometeram um exagero ou transgressão do que dos santos, e não restem dúvidas de que foi cobarde e pusilânime quem o filmou e, alguns anos depois, o expôs à execração pública.

O argumento mais canalha para justificar a divulgação de cenas privadas é a justificação, de que tem interesse público, tudo o que se relaciona com figuras públicas. É falso, e diz mais sobre o bufo do que sobre a vítima.

Este caso é, aliás, inócuo para a reputação do político e não me parece que lhe retire votos em eleições. Pode provocar sorrisos, e não é mais ridículo do que tirar as catotas do nariz nas sessões do Parlamento Europeu.

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publicado às 16:14

Troika dez anos depois (4).png

O pedido de ajuda internacional a Portugal que há dez ano deu lugar à intervenção da” troika” foi recordado através de vários artigos publicados na imprensa na primeira semana de abril (em 6 de abril 2021).

Para a direita, na altura no poder com a coligação PSD/CDS, a vinda foi abençoada pois seria essa a oportunidade de pôr em prática o plano neoliberal do PSD e do CDS porque facilitava a aplicação do projeto neoliberal de Passos Coelho e dos seus capangas que há muito traziam na manga. Para outros que não os desse lado, foi a tormenta que lhes abalou o bolso e a dignidade, para outros ainda foram o PS e José Sócrates os grandes causadores que trouxeram a “troika” a Portugal com os aplausos da direita pois era a oportunidade que lhes faltava.

Sobre aquele tempo de má memória escrevem-se agora várias narrativas. Apenas tive oportunidade de ler alguns artigos a que me irei referir.

Comecemos por Paulo Rangel, o reviravoltas de opiniões consoante lhe dita o seu interesse. Colocando de lado a argumentação e as suas retóricas constitucionalistas a que se refere num artigo vamos de facto ao que interessa.

O que Rangel defende é a constitucionalidade da aprovação no parlamento dos apoios sociais por uma maioria negativa entre a direita e parte da esquerda a qual gerou polémica por ser contrária aos pontos de vista do Primeiro-Ministro que contrariou o do Presidente da República. O que se estranha é que a direita, juntamente com a esquerda mais radical, tenha aprovado apoios sociais quando ela, a direita, por princípio, está sempre contra este tipo de apoios.

Rangel acusa o primeiro-ministro António Costa de ter políticas calvinistas, isto é, de não abrir os cordões à bolsa para pagar apoios sociais. Há um apagão de memória assumido por parte de quem, no passado, apoiava medidas e políticas calvinistas em questões de apoios sociais e cortes em salários e pensões. Sem qualquer pudor, aquele douto jurista / advogado / deputado europeu do PSD/ antigo apoiante incondicional de Passos Coelho / agora apoiante incondicional de Rui Rio, vem defender, legitimar e enaltecer a coligação negativa, situação que ele acha absolutamente defensável.

Leia-se o que ele escreveu com a epígrafe “Apoios sociais: o “calvinismo constitucional” de Costa”: “O que não se afigura normal e provocou este pico de tensão política é a dramatização que encenou o primeiro-ministro, focada no ataque ao Presidente Marcelo. É, por isso, muito infeliz e claramente enviesado o uso e abuso da expressão “coligação negativa”. No caso dos apoios sociais, ela é até uma coligação “pela positiva”, já que não rejeita ou impede nada.

É a justificação do injustificável com a cuspidela de víbora acicatando as relações institucionais, mas daquele senhor tudo se espera até inverosímil.

Façamos agora uma retrospetiva do que também foi escrito e dito pela imprensa na efeméride da troika. Há para todos os gostos.

Teixeira do Santos, para mim um dos responsáveis da vinda da troika afirmou que "Portugal, de 2011 até agora, foi consistente e mostrou rigor nas contas públicas" e que "Os mercados já não olharão para nós como há 10 anos".

Outros escreveram que “Portugal continua a apresentar debilidades estruturais que o deixam à mercê da irracionalidade dos mercados ou de uma mudança de política monetária”.

“Portugal pediu ajuda internacional há precisamente dez anos. Numa década, o país aplicou medidas de austeridade e tentou livrar-se delas a seguir. Mas há marcas da troika que ficaram”.

Com o título de Troika: “Isto é só um intervalo” escreveu-se que “Portugal continua a apresentar debilidades estruturais que o deixam à mercê da irracionalidade dos mercados ou de uma mudança de política monetária”.

“Há dez anos, o Governo socialista pedia ajuda financeira externa, mas o programa foi aplicado pela coligação PSD/CDS. Decisões impopulares como aumentos de impostos ou a redução da TSU deixaram marcas no centro-direita”.

“Deixar o país condicionado à receita preferida das entidades financiadoras é um atestado de menoridade à nossa soberania democrática. Apesar de todas as divergências que nos separam, temos de ser nós a arrumar a casa. Sob pena de outros o fazerem por nós”.

Quem o lado liberal defende escreveu com o título “Criatividade política e rebaldaria orçamental” que “Em termos constitucionais, sim, é a oficialização da rebaldaria orçamental – só que essa rebaldaria já existe, em termos políticos, desde 2015. É por isso que o presidente está errado, estando, ao mesmo tempo, certo”. Claro que sabemos a quem o articulista se refere ao referir desde 2015.

E assim se comemorou a vinda da troika que José Sócrates, com o beneplácito do então ministro das finanças Teixeira dos Santos, proporcionou para vanglória da direita.

 

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publicado às 18:52

Os artimanhosos

por Manuel_AR, em 08.01.21

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Artimanhoso, adjetivo constituído por artimanha + manhoso, é aquele que age com artimanha, que utiliza uma forma hábil, e sobretudo engenhosa, de conseguir algo com astúcia levando outros ao engano sobre si e sobre o que pretende. A artimanha é a arte dos fingidores que são os que dissimulam, que querem passar por aquilo que não são, que disfarçam.

Para penetrar nas gretas das fraquezas do outro os artimanhosos utilizam caminhos orientados por via da manipulação dos seus relatos. Podemos falar de tramas, de urdiduras, de fiar relatos, de tecer história.

Sou mais prosaico do que poético, mas, por coincidência, através de pesquisas que efetuei vieram ter à minha mão alguns poemas que nada têm a ver com este tema, mas que me serviram como metáforas para uma caraterização acutilante deste tipo de indivíduos. Um deles é da autoria da poetisa norte-americana Louise Glück, Prémio Nobel da Literatura em 2020, da qual utilizei o poema “O Poder de Circe” publicado na antologia Rosa do Mundo, Poemas Para o Futuro (2001), da Assírio & Alvim, que aqui transcrevo parcialmente:

“Nunca transformei ninguém em porco. / Algumas pessoas são porcos; / faço-os parecerem-se a porcos. /Estou farta do vosso mundo / que permite que o exterior disfarce o interior.

Os teus homens não eram maus; / uma vida indisciplinada / fez-lhes isso. Como porcos, / sob o meu cuidado / e das minhas ajudantes, / tornaram-se mais dóceis.”

Outros versos, do poema “Em Creta” de Sophia de Mello Breyner Andresen, "Antologia", págs. 253, 254 e 255, Círculo de Poesia Moraes Editores, 3ª. edição, 1975 podem servir para o mesmo fim: / Porque pertenço à raça daqueles que / [percorrem o labirinto, / Sem jamais perderem o fio de linho da palavra.

Fernando Pessoa escreveu um poema intitulado “Autopsicografia” em que, logo na primeira quadra, afirma que “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor…, mas os artimanhosos são fingidores sem sentir dor”.

Os artimanhosos não são poetas, por isso, pertencem ao grupo daqueles que, por labirintos intricados, jamais perdem o fito sobre quem, o quê e como pretendem atacar.

O cinema e a televisão são os meios onde mais se vislumbra o fingimento, onde se faz que tudo pareça verdade ou dela se aproxime. Tal é o caso das novelas televisivas e de programas como os “reality shows” como o Big Brother onde se constroem mundos do faz de conta para parecerem reais. Não através de artimanhas, mas pela construção/representação exagerada da realidade assente na produção de um espetáculo que leve o telespectador a acreditar que, o que vê e ouve é de facto real. Os reality shows mesmo parecendo em tempo real, os intervenientes ao saberem que estão a ser gravados fazem dos seus atos serem reais.

Os telespectadores, face à narrativa ficcional teatralizada, vão-se identificando, ou não, com os personagens nos seus múltiplos atributos. A identificação leva o telespectador a reconhecer-se com personagens interpretadas pelo ator, assumindo um ou mais dos seus atributos distintivos. Pode também projetar-se nas personagens que é o ato pelo qual o indivíduo atribui a outros, (os personagens), os seus próprios sentimentos ou manifesta a sua natureza própria. Assim, em síntese: a identificação é o movimento de fora para dentro e a projeção é o movimento de dentro para fora, (conceitos desenvolvidos pelo filósofo Edgar Morin, “A experiência do cinema”, 2003, p.143-172).

Na vida real é a projeção em mim do “outro” que é alguém que se admira ou de inveja e que se tenta imitar ou superar. Na nossa vida cotidiana privada e social estamos em permanente projeção-identificação desempenhando continuamente um papel, tornando-se, por vezes, em algumas pessoas num processo patológico.

Seja no cinema, seja na televisão, quando identificamos as imagens no ecrã e as associamos à vida real pomos as nossas projeções identificações em ação. A imagens cinematográficas e televisivas em que falta, na prática, uma comprovada realidade, detêm um poder afetivo muito forte, que a identifica como espetáculo dado pelo encanto da imagem que realça a visão das coisas simples e cotidianas. Um filme ou uma telenovela não são os mesmos para dois espectadores. A projeção-identificação é um processo em que sentimentos e obsessões se projetam na imaginação sobre as coisas e seres reais.

Alguém que se admira e que se tenta imitar é uma identificação com o outro e, ao mesmo tempo, o outro é incorporado na personalidade é um anel de transferências recíprocas.

Nos grupos familiares os astuciosos e artimanhosos, através da trica, vão construindo, junto dos que orbitam à sua volta, intrigas para bloquear laços entre parentescos. A manipulação é o ato de tentar influenciar alguém, seja para benefício próprio, seja ou para dito benefício da pessoa que está a ser manipulada, e a arma dos astuciosos.

Quem já passou os olhos pelo clássico “Ilustre Casa de Ramires” de Eça de Queiroz apercebeu-se da arte da artimanha em contexto de sedução quando a personagem Gracinha confeciona ovos queimados, muito do gosto do Fidalgo, para lhe agradar e reconquistar o antigo noivo, e quando da artimanha sedutora da D. Ana Lucena oferece, indiretamente através de uma amiga, um cesto com perfumados pêssegos da Feitosa ao Fidalgo da Torre (pág. 152).

Algumas peças teatrais têm caracterizado a atitude da artimanha. Recordo especialmente Moliére, e também Gil Vicente, no Auto da Barca do Inferno onde o onzeneiro tenta convencer o diabo a deixá-lo regressar a terra em troca de uma recompensa quando regressasse à barca.  Entra aqui a personagens da peça, manipuladora e influenciadora fazendo acreditar os outros em algo, pela manipulação e pela influência a acreditar em algo para tomar uma decisão.

O artimanhoso na hipótese de enviar propostas inaceitáveis para uma outra parte, ao agir de forma demorada, artimanhosa, desleal, e de forma obstinada, estará a atuar contrariamente à boa-fé, ao utilizar artimanhas para conseguir os seus fins. Furtivamente consegue fugir através das suas artimanhas e astúcias para se aproveitar do que mais lhe agrade sem que alguém se aperceba das suas verdadeiras intenções.

O que se tem passado nos EUA que culminou ontem com a invasão do Capitólio, por incitação do presidente Trump, é consequência das suas atitudes e pelas artimanhas que ele construiu para induzir o seu eleitorado a sentir-se perdedor sem se aperceber que está a ser por ele manipulado. Depois de ter certeza de que perderia as eleições engendrou um estratagema que levasse a esta consequência criada pela sua artimanha, sem se preocupar com o prejuízo causado ao seu próprio país. Para pessoas como Trump as eleições são desnecessárias. Também ao nível social, empresarial e outros agregados, os artimanhosos tudo fazem para empurrar para fora do seu círculo quem já não satisfaça os seus anseios expectáveis.

Na política uns, e continuo a referir-me aos artimanhosos, procuram a manutenção do poder a todo o custo, outros procuram degenerar a coesão social, outros ainda, procuram destruir a união e harmonia nos grupos de parentesco seus ou de outros, mas todos utilizam os mesmos procedimentos conducentes ao cumprimento de objetivos moralmente pouco saudáveis que resultam em desconfiança nos outros.

No palco do confronto do debate democrático e do antagonismo das ideias e soluções para os problemas, representa-se uma espécie de farsa expressa por atitudes e comportamentos, crenças e ingenuidades onde as artimanhas discursivas são apoiadas por narrativas falsas e adulteradas, altamente ideológicas e interesseiras dos políticos e dos partidos e seus aliados que são exímios em enganar, distorcer e ludibriar quem os escuta para obtenção de benefícios próprios. Nos processos eleitorais as artimanhas típicas inserem-se no discurso ideológico e populista da crítica aos adversários tendo em vista a obtenção do poder a que preço for.

Na política a artimanha pode nem sempre ser criticável nos regimes ditatoriais, como foi o caso do salazarismo em Portugal, o recurso a artimanhas e metáforas necessárias à linguagem literária e noticiosa eram utilizadas para driblar a censura e era prática corrente, até no jornalismo que nada tinha a ver com falsas notícias, era apenas uma forma de comunicar os factos verdadeiros por meias palavras.

Ao nível dos diversos grupos sociais as artimanhas também se evidenciam no palavreado e nas atitudes aparentemente conciliadoras, cujo objetivo é a obtenção de benefícios que, não sendo monetários, se situam na satisfação pessoal, por vezes são motivados por invejas, para superação dum sentimento subconsciente e duma certa inferioridade da própria condição do sujeito, mais aparente do que real, devido ao ambiente em que viveram durante as primeiras fases da vida. Os artimanhosos são dominados pela inveja e servem-se de todos os meios para igualarem ou superarem os que consideram ser seus antagonistas, sejam eles nos grupos de parentesco ou simplesmente de amigos e conhecidos.

O manipulador, quando em situação de privilégio, impulsiona outras personagens do contexto político e social onde se insere a agirem de acordo com os seus objetivos não revelados. A artimanha coexiste nos mais diversos níveis da sociedade: na política, na arte, no trabalho, nas escolas, do futebol, nas relações sociais de bairro e doméstico, nos comentadores televisivos, nos intervenientes em debates, nos que pretendem influenciar a opinião pública, os chamados líderes de opinião, através dos órgãos de comunicação.

A obsessão pela gabarolice de mostrar ser mais dos que os outros manifesta-se também no seio dos grupos de parentesco formais ou informais, lugar onde os artimanhosos agem consciente ou inconscientemente, levando até à separação de pessoas com objetivos egoístas ou até de pequenas invejas. Muitos servem-se do casamento como artimanha para agarrar um elevador social que os possa catapultar e os retire da sua pequenez. 

Contudo, é na política onde o fingimento se eleva ao mais alto nível no sentido de convencer os outros fingidores seus opositores. Os líderes na política são tão falsos e artimanhosos que até enganam os que os escolheram em eleições, defraudando-os logo que se encontrem no poder.

Veja-se o caso do que hoje foi notícia de que o PSD resolveu apresentar uma queixa-crime contra o primeiro-ministro, depois de António Costa ter acusado Paulo Rangel, Miguel Poiares Maduro e Ricardo Batista Leite de estarem envolvidos numa campanha para denegrir a imagem externa do país. Ora aqui está um caso de que, aparentemente, um político acusa outros políticos de artimanhas. Nada nos garante a veracidade, ou não, do que terá sido dito por aqueles políticos do PSD. Fazem agora de damas ofendidas para que possam vir a ser notícia, quando o mesmo é por eles feito a outros estão sempre desculpados. Políticos de tanta pequenez nunca se viu, talvez seja por Portugal ter um espaço geográfico também pequenino.

Isto pode não ser o que parece, pode ser apenas uma manobra/artimanha para fazer oposição ao primeiro-ministro e ao Governo. Pode até ser a deformação de uma realidade para justificar ou encontrar argumento para fazer oposição. Se haverá ou não envolvimento em campanha para denegrir a imagem externa do país nunca chegaremos a conhecer a verdade absoluta e mais profunda, apenas os seus indícios, as suas variantes, que podem ser várias, as versões que se engendram e as suas infinitas interpretações.

Finalizo este texto sobre as artimanhas encontradas e inerentes a uma leitura temática, preferencialmente à estrutural, (alcançados através da reconstrução da ordem das ideias de um texto), da “Ópera do Malandro” de Chico Buarque.  Embora na peça se pretenda evidenciar os aspetos político-sociais dum tipo de malandro, o transgressor, responsável pela lesão patrimonial e moral de um grupo social mais amplo, a sociedade brasileira do século XX denota, sobretudo, as "artimanhas" utilizadas pelos grupos dominantes política e economicamente para não perderem as conquistas. Podemos associar a esta peça o encontro da astúcia e da sedução como armas para atingir objetivos, não apenas na política, mas também noutros campos sem preconceitos preconizados pelos juízos de valor pessoais e sociais.  

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publicado às 18:40

Conluio do silêncio

por Manuel_AR, em 12.11.19

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Há por aí muita gente indignada a escrever artigos de opinião sobre um tema que, como grandes democratas que se consideram, insurgem-se sobre a discussão que se levantou sobre saber se os novos e únicos deputados de partidos entrados no Parlamento são, ou não, um grupo parlamentar referindo-se ao Chega, ao Iniciativa Liberal e ao Livre.


Antes de continuar devo dizer desde já que sou contra a limitação da palavra dos referidos partidos. As suas intervenções devem gerir-se pelo regimento parlamentar que é aceite e ter proporcionalmente o tempo que lhes confere a sua eleição, tal como a qualquer outro partido.


Um dos colunistas residentes no jornal Público, João Miguel Tavares coloca em título: “Os porteiros do regime não sabem fazer contas”. Outro, esse mais sofisticado na linguagem para que poucos o entendam, e à boa maneira salazarenta, dá o título, do meu ponto de vista insultuoso à maioria parlamentar democraticamente eleita de “A tentação do PS, do BE e do PCP de domesticar o Parlamento”.


Neste o artigo de opinião, Paulo Rangel, o seu autor, escreve:


“Percebe-se qual era o cálculo e a intenção pragmática das forças da esquerda. Por um lado, calar o Livre, que, por razões diversas, é percepcionado por todos eles como perigosa concorrência. Por outro lado, silenciar a Iniciativa Liberal, que, alinhando por um credo nos antípodas dos socialismos, não terá qualquer pejo em enfrentar desabridamente a esquerda. Por outro lado, ainda, apagar o Chega, que, sendo um movimento conservador e populista de direita radical, agita todos os fantasmas. A estas razões, acresce uma outra que é comum a todos e talvez a principal. É que os três novos partidos com representação parlamentar não são nem esperam ser “partidos de Governo”; num certo sentido, e cada um à sua maneira, são ainda partidos de protesto. Esta natureza tribunícia de partidos de protesto – de partidos “fora do sistema” – dá-lhes uma liberdade e latitude de discurso que nenhum dos outros pode ter”.


O ponto de vista de Paulo Rangel coloca-se numa posição hipocritamente democrática porque se trata de falar de forças de direita com a qual também se identifica e porque dois deles combatem, como ele, a esquerda sendo, por isso, também potenciais aliados e por haver uma maioria parlamentar de esquerda democraticamente eleita. Por interesse ideológico convém-lhe defender esses partidos, talvez por pensar que não lhe fazem “mossa”. Incluir aqui também o Livre não poderia deixar de ser, justificando-o por ser um concorrente da “outra” esquerda, o que lhe interessa. Caro dr. Paulo Rangel, nós não temos um olho tapado com uma pala! Sim, já sei, estou a fazer juízos de intenção. Pois estou, e então, posso fazê-los ou não?


Paulo Rangel está a esquecer-se de que foi assim, com paninhos quentes da direita democrática mais conservadora, juntamente com outros fatores, que a extrema direita em Espanha, o Vox, subiu estrondosamente.


Para Rangel o Chega, o Iniciativa Liberal e o Livre são simplesmente partidos de protesto. Talvez o sejam agora! Ver-se-á depois. Silenciador foi o seu partido no tempo em que apoiava incondicionalmente Passos Coelho. E apagavam o mais possível a pegada dos potenciais “competidores” de esquerda que dizia serem, na altura, partidos de protesto e perigosos comunistas que queria voltar ao PREC. Sim, mais uma vez, pode ser juízo de intenção e escrever o que não disse. Mas sabe, como nas leis, é preciso saber ler nas entrelinhas. Os partidos de extrema-esquerda que antes intitulava de protesto estão agora implantados na Assembleia da República.


Esquece-se que André Ventura afirmou há relativamente pouco tempo que agora é apenas um mas no futuro serão muitos mais. São de protesto, mas vejamos se no futuro próximo não serão também concorrentes do seu partido.


João Miguel Tavares é mais lógico, mais racional, coloca os pontos nos “is” e, sem grandes delongas, vai ao cerne da questão e é mais realista ao escrever que:


“É um absurdo silenciar três deputados com a desculpa que não são um grupo parlamentar, até porque a melhor forma de os transformar num grupo parlamentar é mesmo fazendo tudo para que não abram a boca. A pressão política e mediática vai obviamente ser insustentável, a esquerda vai obviamente ceder e os três novos partidos vão obviamente poder falar nos debates quinzenais, como têm direito.”


Ponto de vista com que não se pode deixar de concordar. Quanto mais se proíbe mais o emergir na opinião pública se torna viral o que apenas contribui para esses partidos se auto vitimizarem. Por vezes deixar falar ajuda ao enterro de quem fala pelo surgir de contradições.


O dr. Paulo Rangel pretende chegar à mesma conclusão, mas encheu-se de demagogia e de democracia hipócrita. Tenha presente que aqueles partidos que desvaloriza e que são próximos da extrema-direita, para crescerem, não vão buscar eleitores e consequentes votos às esquerdas, vão procurá-los à direita. A intenção é boa, mas a sua razão de fundo tem como base a maioria estar agora do lado da esquerda. O resto é conversa mole.

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publicado às 19:12


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