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Espantoso que o PSD dos cortes na função pública e nos salários e que sempre alertou para o peso do Estado na economia e nos salários da função pública venha agora, demagogicamente, apresentar propostas de alteração ao Orçamento do Estado para atualizar os salários da função pública em 4%, em linha com a taxa de inflação. Sobrecarregar o orçamento com despesa poderá ser um dos objetivos do PSD condicionando o partido do Governo a gasta mais para cair em déficit excessivo. Não se discute a justiça da proposta, o PCP e o BE também já o fizeram, mas para o PSD parece mais ser uma estratégia demagógica para atrair os trabalhadores da função pública e para causar o desastre nas contas públicas.

O PSD está em campanha para a escolha do novo líder e no próximo dia 28 de maio, parece coincidência, é também o dia do golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 que posteriormente veio a dar lugar à instauração do Estado Novo e é nesta data que vão ser realizadas as eleições diretas no PSD para o novo líder. O que esta última data tem a ver com as eleições no PSD. Provavelmente nada, apenas uma coincidência.

Destas eleições nada de novo se esperará visto que os dois candidatos que se apresentam estiveram ao lado de Passos Coelho. Luís Montenegro como deputado e líder parlamentar do PSD na Assembleia da República entre 2011 e 2017; Jorge Moreira da Silva assumiu em 2013 a pasta do Ambiente no executivo de coligação PSD/CDS chefiado por Passos Coelho e é reconduzido no governo saído das legislativas de 2015, cujo programa acabou chumbado no Parlamento e caiu. Em 2016 é nomeado diretor-geral de Desenvolvimento e Cooperação da OCDE, o que o levou a abandonar a vice-presidência do PSD.

Dos dois, como se costuma dizer, venha o diabo e escolha porque ambos foram cozinhados no caldeirão dos governos neoliberais “troiquianos” de Passos Coelho, e são ambos “passistas” o que quer também dizer que são do passado.

Escrevia Pacheco Pereira no Público acerca dos candidatos que “avaliações da sua preparação para a competição com o PS, em que um aparece mais confrontacional e o outro menos agressivo, mas mais sólido.” E acrescentava que “há o problema das biografias que impedem os dois candidatos de irem mais longe: ambos são descritos como “passistas” e não são capazes de analisar o papel do Governo Passos-Portas-troika na crise estrutural do PSD. Isso significaria porem-se em causa e terem que defrontar o sebastianismo de Passos, que permanece como uma sombra sobre quem queira discutir o que se passou. Na verdade, sejamos justos, há uma parte relevante na crise que é herança de Passos, mas a decadência do partido vai muito mais atrás, até Cavaco Silva.”.

Montenegro é saudosista do passado. Na sua campanha para a liderança não se situa no projeto que tem para o partido e para Portugal. Umas vezes ataca o Governo e, para tal, recupera a palavra “austeridade” dos tempos de Passos Coelho para a utilizar no ataque ao PS que acusa também de ter um orçamento de austeridade. Outras vezes procura frases populistas, demagógicas e pomposas como “O meu passado chama-se Passos, o passado de Costa chama-se Sócrates”. Isto é, faz associações torpes, pelo que se vê bem o caráter político deste potencial líder ao PSD e também candidato a futuro primeiro-ministro se vier um dia a ganhar eleições. Implicitamente, Luís Montenegro, está a considerar que a maioria dos portuguese são estúpidos porque, por associação que faz com o seu objeto de pensamento, nas últimas eleições, votaram em força no passado Sócrates. Quem poderá regressar ao passado são os militantes saudosistas da austeridade se votarem em Montenegro. Passos Coelho é o seu passado, foi quem acusava os portugueses de gastadores e de viverem acima das suas possibilidades, esses eram os maus portugueses, os outros, os que, de facto, gastavam luxuosamente e passaram incólumes eram os bons portugueses.

Foi nesse passado com que, como diz Montenegro se identifica, se formou o embrião do partido CHEGA e do qual ainda não disse claramente que se afastava.

Apesar de incluir no documento das suas propostas medidas sociais para atrair o público PSD ideologicamente mais social-democrata é na senda do passado que, com alguns ajustes, Montenegro seguirá se for eleito e chegar a ser primeiro-ministro.

Nas propostas de ambos os candidatos encontram-se armadilhas, sobretudo na de Luís Montenegro que são em alguns pontos uma espécie de copy paste de programas de partidos de esquerda como o do PS. Fizeram-se algumas alterações, mudou-se a linguagem acrescentando qualquer coisa para satisfazer a ala mais à direita… Sobre gestão da segurança social e das pensões, sobre o SNS nada fica esclarecido, deixam portas abertas para o que der e vier.

Deles pouco ou nada podemos esperar senão o renascimento de políticas da panela onde foram cozinhados. Todavia, se o primeiro vive dois mundos um deles à superfície e outro um micromundo imerso e inacessível. Desde que Luís Montenegro anunciou a sua candidatura à liderança do PSD, emergiu a ligação do ex-líder parlamentar social-democrata à conhecida maçonaria. Quando da sua oposição a Rui Rio para o derrubar Montenegro negou, mas ficou provado que pertenceu a uma loja (Mozart) que foi considerada muito ativa e poderosa, mas que foi desativada.

O segundo, Moreira da Silva, tanto quanto se saiba tem apenas um mundo à superfície é de competência técnica reconhecida, mas de pouca política e nunca se imiscuiu nas guerras internas do PSD ao contrário do seu adversário que pretendeu apear Rui Rio da liderança.

Há uma pedra no sapato do PSD criada por Rui Rio que assobiou para o lado aquando do acordo com o partido Chega nos Açores. Luís Montenegro parece não abandonar a ideia conforme o semanário Expresso no dia 5 de maio o candidato à liderança do PSD Luís Montenegro avisava que não seria “cúmplice da perpetuação do PS no poder” desculpa para não rejeitar diálogo com o partido Chega limitando-se a dizer que neste momento qualquer cenário de diálogo é "imaginário e extemporâneo”. Isto é, como quem diz, tudo é possível para chegar ao poder.

Quanto a Moreira da Silva no início de maio afirmou perentoriamente que não dá para o "peditório" do Chega para um movimento de convergência à direita, reafirmando que com o partido de André Ventura "nunca, jamais, em tempo algum". Apesar disso mantém a situação do Açores que acha ser um caso em que o PSD não tem tido problemas.

Uma das linhas gerais da sua estratégicas da candidatura é refundar o partido, seja lá o que isso queira dizer, e cortar com qualquer ligação ao Chega. Contudo o jornal Público desvenda esse conceito de refundação nas palavras de Moreira da Silva: a ideia de “refundar o PSD” através da atualização das linhas programáticas e da modernização do partido, o ex-diretor para a Cooperação e Desenvolvimento da OCDE deixa a receita para a vitória. “Uma sequência vitoriosa em todos as eleições previstas para os próximos 4 anos pressupõe verdade e inconformismo no diagnóstico dos problemas; inovação e reformismo nas soluções políticas apresentadas; e integridade e credibilidade dos nossos protagonistas. Mas pressupõe também uma dimensão prévia – o espírito de unidade no partido, para o qual todos temos a obrigação de contribuir”, lê-se no texto do Público.

 Quanto a Luís Montenegro em 24 de abril escrevia Ana Sá Lopes que “Ao fugir desta maneira à pergunta claríssima, Montenegro confirma a dúvida. É mesmo ambíguo em relação ao Chega.” Sobre este assunto aconselho a leitura do artigo onde são citadas claramente as respostas de Luís Montenegro às perguntas sobre o Chega AQUI. Parece que a ambiguidade do PSD em relação ao Chega pode vir a ser politicamente vantajoso para o PS. Luís Montenegro diz querer transformar o PSD na "casa dos não socialistas" e captar votos à direita, ou seja, também ao Chega.

Ambos os candidatos parece que ainda não se convenceram de que nada será como dantes, a não ser que os eleitores que se “divorciaram” do PSD, e também do CDS, e optaram por casar com o Chega e com a Iniciativa Liberal podem não voltar atrás a não ser que a vida não lhes tenha corrido como pensaram quando votaram neles. Há muitas coisas em relação às quais não se tem a certeza porque nós pressupomos nos outros uma potencial disposição para se deixarem convencer que é semelhante à que “eles” pressupõem de nós.

O antagonismo político-partidário, óbvio e previsível, na política faz parte do combate pelo poder, mas nesta competição o que está em causa não é a discussão dos assuntos objetivos com interesse para o país, mas encenações de diferenças para se manter ou conquistar o poder.  

No caso da competição para a liderança do PSD temos o que já se sabe sobre as intenções manifestadas pelos dois candidatos, e o que não se sabe, o que só será revelado quando em exercício. Todavia, com Luís Montenegro teremos as ditas reformas neoliberais que recuperados do tempo de Passos Coelho. Quanto a Moreira da Silva criam-se expectativas se serem mais próximas da social-democracia.

Se fosse votante nesta área partidária e ideológica neste momento decisivo para o PSD, não teria dúvidas no candidato que escolheria para líder do partido e potencial primeiro-ministro: Jorge Moreira da Silva.

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publicado às 00:24

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…”quem diz que os votos do Chega se devem somar aos do PSD e da IL assume que o racismo, a xenofobia, o apoio a retrocessos civilizacionais e a vontade de destruir princípios básicos do estado de direito faz parte do património político da direita portuguesa. Não faz.”

(Pedro Marque Lopes, in Facebook)

Comentários e opiniões sobre a maioria absoluta do Partido Socialista arrastam-se no resultado das eleições de 30 de janeiro. Recomendações, regressos ao passado do “socratismo” pré-troika, da troika e do pós-troika. Ele são os cavaquistas; ele são os da crença num movimento profético que surgirá em Portugal pela mão “passista”; ele são os traumatizados que viram em 2015 uma maioria relativa, mas sem maioria parlamentar, desaparecer por via de uma “geringonça” que conduziu ao desaparecimento político de Passos Coelho; ele são os que, ainda a medo e aos poucos, vão clarificando as suas opções ideológicas extremista de direita; ele são os que pretendem colar os jovens aos votos na Iniciativa Liberal; eles são os que acusam os mais velhos de terem contribuído para a maioria absoluta do PS. Há-os para todos os gostos e feitios.

As minhas previsões para a política dos próximos quatro anos vão ser anos do tipo “annus horribilis”. Não consulto oráculos, não faço profecias,  nem tomo o lugar de Pítia portuguesa, mas os próximos anos vão ser extremamente ruins.

O Partido Socialista irá confrontar-se com o circo propagandístico do partido extremista CHEGA na Assembleia da República, com as violentas oposições que virão da direita e da esquerda e pelos apaixonados, emotivos e facciosos jornalistas, natas dos artigos de opinião, comentadores em muitos jornais, rádios, televisões e por aí fora.

Não perdem tempo basta lermos, vermos e ouvirmos o que se publica e se profere, e o que ainda se publicará e divulgará na comunicação social. A espécie de “perseguição” ao Governo proveniente da maioria absoluta não seguirá dentro de momentos já está no ar.

Um outro contributo para o possível annus horribilis virá do PCP cujo seu líder, Jerónimo de Sousa, já voltou ao apelo à “luta de massas”, (leia-se luta de classes) a que, por acréscimo, irá certamente juntar-se o BE. É o contributo “democrático” destes partidos. Quando perdem lançam-se numa espécie de “contra a decisão do povo”. Não aceitam o escrutínio eleitoral. É a ditadura das massas. Não aceitam a democracia tal como ela é, não assumem a derrota e ameaçam. Aliás Jerónimo não assume erros na campanha, apenas “desvantagens”, e apela à “luta de massas”.

Haverá momentos em que as direitas que se dizem contra a esquerda radical e contra a “geringonça” irão alinhar com as duas extremas-esquerda para causarem pressão sobre o governo socialista liberal que recusa o dualismo irredutível, que sempre recusou, e prefere, a integração e o compromisso como a principal maneira de escapar tanto da armadilha extremista da direita neoliberal, quanto da coletivista.

A imprensa politicamente de direita como o Observador, o Nascer do Sol, o Novo e outros jornais, rádios e televisões já estão a postos, na atual situação pós-eleitoral com opiniões e comentários editoriais, com as escolhas das personalidades que entrevistam e que, com mais veemência, criticarão e criticam o “socialismo”, e a “ditadura do PS” e de António Costa. Até agora que até agora têm estado mais preocupados com o estado do PSD e com a perspetiva da saída de Rui Rio. Alguns até estarão muito mais satisfeitos com o desastre do PSD e com a queda certa de Rui Rio do que com a maioria absoluta do PS.

Mas temos ainda a imprensa que aconchega os partidos radicais de direita que estão contra os mais elementares direitos. Será a bem de todos os portugueses ou apenas de alguns? Veja-se esta pérola publicada no jornal Nascer do Sol:

Qual medo da covid-19, qual quê? Medo, sim, é de perder a pensão, o subsídio de desemprego ou outra prestação assistencial qualquer, o Serviço Nacional de Saúde gratuito, a escola e os livros escolares e computadores à borla, a segurança do lugar e do vencimentozinho na Função Pública, o Estado-providência e redistribuidor da riqueza que é incapaz de gerar. O resto que se dane”.

O autor da opinião fala do ‘papão’ da direita liberal que se criou. Não se engana é mesmo. E pergunta no título “Quem tem medo do liberalismo?” A resposta é fácil, muitos milhões de portugueses.

Não me interessa neste caso o contexto donde foi retirada a citação, mas é de facto isto que os portugueses de norte a sul poderão esperar de partidos orientados contra os princípios mais elementares de vivência numa sociedade democrática lançaria centenas de milhares de pessoas num gueto social e numa pobreza ainda maior do que aquela já temos.

É de facto isto o que os liberais radicais de direita pretendem quando falam em reformas do Estado. Acabar com a assistência; acabar com o ensino público e pôr os jovens a pagar propinas no privado; acabar com o SNS ou mantê-lo apenas para indigentes e passar a saúde para o privado; reduzir reformas e, se possível, acabar com elas; reduzir o Estado e os seus trabalhadores, para que os dinheiros públicos sejam desviados para investimentos privados lucrativos que, em vez de criarem riqueza como dizem, geram lucros para distribuir por acionistas. Note-se que sou a favor da iniciativa privada enquanto geradora de riqueza, mas não com a que eles não dizem, mas que está nas entrelinhas.

Deparamo-nos com alguns dos tais fazedores de opinião a darem tratamento elogioso aos novos partidos radicais de direita que entraram na Assembleia e que falam em nome de uma “juventude” que mobilizaram e do seu dinamismo e que terão, presumivelmente, com esses partidos uma “nova”, e mais eficaz, oposição. Esta argumentação é mais evidente com a IL.

A atitude dos da IL é mais galante, mais simpática, deixando esbaterem-se as “linhas vermelhas” programáticas. Em comparação o Chega não tem compostura nas relações sociais, é grosseiro, raiando a agressividade e a má educação.

Mas o problema que se coloca é a da IL vir a ser um engodo para os jovens por os fazer pensar que, por exemplo, na profissão docente ou noutra qualquer, será a IL a dar-lhes melhores perspetivas de futuro. O neoliberalismo poderá trazer vantagem a uma reduzidíssima elite de "ganhadores" das start-ups, enquanto todos os outros, os "perdedores", ficarão cada vez mais pobres. Porque é óbvio que nem todos poderão ser empresários de sucesso e se limitarão a ser trabalhadores por conta de outrem que ficarão sem instrumentos de regulamentação de trabalho.

Foi a ameaça de um Estado e de uma economia neoliberal que levaram o povo a concentrar o voto no PS e a dar-lhe a maioria absoluta e isso Cotrim Figueiredo e muitos outros não terão percebido.

O Chega não é o “fofinho” da direita, procura a senda do retorno ao passado encoberto por alguns ajustes. Defende um conjunto de medidas que vão no caminho do ensino do passado cujos “conteúdos” foram vivenciados pelos mais velhos, mas que poderá atrair os mais novos a quem o passado nada diz por terem sempre vivido em liberdade.

O professor do programa é Gabriel Mithá Ribeiro (podem ver o que ele tem a dizer sobre o ensino aqui). Claramente tem defendido a valorização da ordem, da autoridade e da hierarquia, da família e da nação, combate ao valor da “solidariedade” trazido pelo 25 de Abril que para ele é um movimento secundário face à “autorresponsabilidade”, reabilitação da história colonial portuguesa e negacionista do racismo na atualidade.

Afinal podemos ter um espírito aberto e ao mesmo tempo crítico sem, contudo, acreditarmos em tudo o que nos dizem. Podemos fazer perguntas às quais ainda não nos deram respostas objetivas.

O que propõem, ou melhor, o que prometem estes partidos que dizem ter soluções para bem do país e do povo? Falam em reformas em sentido lato; falam na reforma dos Estado sem dizer em quê e como; falam em mudar a vida das pessoas (em quê e a quais pessoas?); falam em baixa de impostos sem dizerem como e quando o farão.

Outras perguntas se podem ainda fazer: como pensam os eleitores que aqueles partidos irão contribuir para melhorar a sua vida e a do povo em geral? Por que razões defendem com tanta veemência esses partidos os seus apoiantes? Como pensam que ficaria Portugal sob o domínio desses mesmos partidos? Para o justificarem adjetivo “melhor”, sem mais nada, não serve.

Que vantagens obteriam com maiorias destes partidos? A resposta tirar o socialismo do poder não serve.  O derrube do PS e de António Costa que vantagens traria para o país e para eles próprios? Estará esta gente preocupada com o país e com as pessoas que nele trabalham e vivem? Os órgãos de comunicação social de direita e de quem com ela se identifica estarão de facto preocupados com a vida dos portugueses em geral ou com apenas a de alguns?

As perguntas parecem ser redundantes, mas é mesmo assim. Naqueles partidos as propostas também são redundantes.

 

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publicado às 18:33

A derrocada do CDS

por Manuel_AR, em 02.02.22

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Não sou politólogo nem especialista em análise nem em comentário político, observo e avalio o que me chega pelos órgãos de comunicação social e por via dos intérpretes partidários numa perspetiva umas vezes emotiva, outras mais racional com isenção e distanciamento, o que às vezes nem sempre é possível. As minhas interpretações não partem de investigações empíricas ou de vivências partidárias, são apenas opiniões.

O que hoje me levou a desenvolver estas minhas reflexões foi o desaparecimento do CDS do círculo da política parlamentar que, apesar de nunca ter sido eleitor e ter sido bastante crítico deste partido acho que foi uma perda para a democracia, assim como foi mau para a democracia o surgimento desse simulacro de partido que dá pelo nome de Chega e que, mesmo numa ótica de extrema-direita, é uma aberração. Com todo o respeito pelas artes circenses, este partido a fazer política é como um circo de feira das mais rascas. Mas a democracia pluralista tem destes fenómenos a que ela própria tem de dar resposta.

Centrando-me no CDS e interrogo-me sobre as causas que terão levado a que este partido tenha desaparecido do Parlamento e que, se não houver quem o “agarre”, possa estar prestes a desaparecer da democracia.

Muitos analistas já estão a dissertar sobre as causas e apontam as mais sofisticadas razões para tal causa. Eu, tenho a minha dada pela observação ao longo do tempo. Há causas uma mais remotas   e outras mais recentes, é para estas que as interpretações, várias, apontam.

Para Cecília Meireles uma das causas que levou aos danos a que o partido ficou sujeito foi ter-se virado para dentro a discutir questões ideológicas em vez de discutir os problemas do país, o que, para ela, foi uma perda de tempo. Ela sendo militante do partido sabe as causas muito melhor do que eu. Todavia, olhando ao longo de algum tempo verifico que as causas podem remontar ao tempo da PaF quando o CDS fez uma coligação como PSD e acrescido pela trocas e baldrocas do líder do CDS-PP, Paulo Portas, ao revogar o irrevogável aquando  da sua inesperada demissão de ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros abriu uma crise política em julho de 2013. Portas voltou atrás e ficou no Governo liderado pelo PSD como vice-primeiro-ministro.

Paulo Portas chegou ao Governo pela segunda vez após as legislativas de 5 de julho de 2011 após obter um dos melhores resultados para o CDS (11,7% e mais de 650 mil votos), que elegeu 24 deputados.

A gota de água para saída do líder do CDS do Governo foi na altura a escolha de Passos Coelho de Maria Luís Albuquerque para substituir Vítor Gaspar, que tinha apresentado a sua demissão. Paulo Portas queria um novo responsável na pasta das finanças.

Quatro dias após Paulo Portas ter apresentado ao então primeiro-ministro o seu pedido de demissão que seria “irrevogável” os líderes dos dois partidos que compunham a coligação chegaram a um acordo. Este incluía a manutenção de Portas no Governo, já não como ministro dos Negócios Estrangeiros, mas como vice-primeiro ministro. O irrevogável tornou-se não irrevogável.

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A ameaça de demissão por Paulo Portas provocou um mês de crise da qual o CDS não saiu ileso do episódio e teve numas sondagens o pior resultado. Nesse mesmo mês de julho, o CDS não conseguia mais do que 8,1% das intenções de voto, resultado negativo para o partido de Paulo Portas que nunca tinha registado um número tão baixo.

Após um mês de crise, provocada pela demissão de Paulo Portas do Governo, o CDS não terá saído incólume deste episódio e recebe dos portugueses o pior resultado desde o início do barómetro das sondagens.

As eleições legislativas de 2015 não deram à coligação PaF, (PSD com CDS), uma maioria absoluta e não foi mesmo conseguida com uma maioria parlamentar de direita tendo o PS e os partidos à sua esquerda conseguido a maioria de deputados. Na sequência da moção de rejeição apresentada pelo PS ao programa de governo da PaF foi aprovada, com votos a favor de todos os deputados de PS, PCP, BE, PEV e PAN (123). E votos contra de todos os deputados do PSD e do CDS (107). Não houve abstenções.

O CDS-PP liderado por Paulo Portas tinha concorrido em coligação com o PSD às legislativas de 4 de outubro de 2015, apesar da vitória, o PSD e o CDS-PP em conjunto tinham obtido 38,55% e perderam cerca de 722 mil votos relativamente às legislativas de 2011 quando concorreram separados. A coligação ficou com 104 deputados.

Em dezembro de 2015 Paulo Portas comunicou aos dirigentes partidários da comissão política do CDS que não ia recandidatar-se à liderança no próximo congresso que seria convocado em Conselho Nacional no dia 7 de janeiro de 2016.

Em janeiro de 2016 Assunção Cristas então vice-presidente do CDS-PP anunciou que seria candidata à liderança do partido no 26.º Congresso, que iria decidir a sucessão de Paulo Portas.

Assunção Cristas no XIX Governo, entre 2011 e 2013, tinha sido Ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, e entre 2013 e 2015, Ministra da Agricultura e do Mar. Assunção Cristas foi responsável pela introdução, em 2013, de uma política que facilitou a plantação de eucaliptos em Portugal, acabando com muitas das restrições existentes anteriormente relativas ao eucalipto.

Em 2012 Assunção Cristas foi mentora da Lei do Arrendamento. Como jurista sabia bem das consequências desta norma que aplicada terá causada que milhares de inquilinos serem despejados ou obrigados a abandonar as suas casas pelo excessivo aumento das rendas que alguns consideraram uma lei iníqua e cruel por colocar senhorios em total supremacia sobre os inquilinos.

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Em dezembro de 2015 o líder do CDS-PP, Paulo Portas comunicou que não se recandidataria à liderança do partido. A 12 e 13 de março de 2016 realizou-se o 26º Congresso, em Gondomar, no qual Assunção Cristas assumiu a presidência do partido que tinha concorrido em lista única, tendo sido reeleita presidente do CDS-PP no 27.º Congresso a 10 e 11 de março de 2018.

Terá começado aqui no seguimento da  demissão  de Portas a queda do CDS que Cristas não conseguiu segurar atempadamente. Foi no entanto o início da queda do CDS já com Assunção Cristas. Paulo Portas sentiu que iria ficar agarrado ao seu “irrevogável” e terá previsto o que se iria passar com o CDS, antecipou, assim, uma saída estratégica a tempo de poder vir a ser responsabilizado pelo descalabro do partido.

Em fevereiro de 2019 Cristas apresenta uma moção de censura ao Governo e dispara contra a esquerda e contra o PSD por apoiar o PS no parlamento e vai dizendo que recebeu manifestações de apoio relativas à moção de censura que o partido apresentava ao Governo. Lembrava que foi "uma decisão tomada por unanimidade na Comissão Executiva da CDS”. Entretanto o deputado socialista Ascenso Simões sugeria que a moção de censura do CDS-PP ao Governo fora motivada pelo "fantasma" da privatização do Pavilhão Atlântico no anterior Governo (PSD-CDS), processo em que Assunção Cristas teve responsabilidades como ministra.

Nas eleições legislativas em 6 de outubro de 2019 o CDS-PP obteve um escasso resultado de 4,22%, 221.774 votos o que lhe atribuíram apenas 5 deputados comparando com 2011 quando concorreu isolado quando conseguiu 11,7% e 24 deputados, a perda foi enorme.

Confirmando esta perda, uma hora e pouco depois do fecho das urnas das eleições de outubro Cristas pediu a realização de um congresso extraordinário e disse não se iria recandidatar. Neste 28.º Congresso realizado a 26 e 27 de janeiro de 2020 Francisco Rodrigues dos Santos foi eleito para a presidência do partido.

Em outubro de 2021 durante a polémica contra o líder do CDS Rodrigues dos Santos e para a marcação dum congresso o ex-dirigente do CDS Paulo Portas afirmava que faria tudo o que pudesse para não se desfiliar do partido. Afirmou ainda que a situação era "grave" e que "o líder de um partido democrático não cancela eleições internas" referia-se a Rodrigues dos Santos.

Por razões óbvias, decorrentes do que afirmei anteriormente, a queda do CDS começou com a demissão de Paulo Portas e com Assunção Cristas a ocupar a liderança do partido. Paulo Portas terá previsto o que se iria passar e tomou a iniciativa de sair pela porta grande para não ser envolvido no desastre que antevia acontecer ao partido.

Em abril de 2019 é fundado o partido CHEGA de direita radical,  populista de direita que defende o liberalismo económico, o nacionalismo português, o conservadorismo nacional, conservadorismo social, o euroceticismo, o nativismo, é anti-imigração, anti ciganismo e o antifeminismo.

O surgimento deste partido que elegeu um deputado terá também sido uma causa próxima, senão a mais importante, da perda de votos do CDS e alguns do PSD, talvez devido à fuga para o novo partido dos que se encontravam acantonados naqueles partidos dos que com ele melhor se identificariam; o mesmo terá acontecido com a volatilidade de votos, sobretudo dos eleitores associados à incerteza e à imprevisibilidade que são mais sujeitos à manipulação e à demagogia.   

Tudo quanto se possa dizer para justificar o descalabro a que chegou o CDS nesta eleições não chega, há que investigar outras razões mais profundas e uma das possíveis respostas poderá estar não apenas no líder Francisco Rodrigues dos Santos, mas na volatibilidade do eleitorado para os novos partidos que entretanto surgiram e cuja linguagem fascizante atrai alguns e o IL cuja narrativa, embora clássica e ortodoxa de liberalismo que face à novidade terá atraído muitos jovens e gentes das classes mais altas que antes terão votado CDS ou PSD.  

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publicado às 18:54

Democracia e Perigo.png

Li um artigo de Luís Monteiro Carvalho publicado na “Rosa Mecânica” que me pareceu, embora com algum exagero é bom para nos fazer refletir sobfre a preservação da democracia com distanciamento e sem emoções à flor da pele que este momento propicía a todos os que a querem manter e defender, por isso, aqui o incluo.

 

Quando observamos a maioria das últimas sondagens, relativas às eleições legislativas do próximo domingo, 30 de janeiro, ficamos com a sensação de que o perigo bate à porta. O PSD aparece posicionado em primeiro lugar nas intenções de voto e o CHEGA destaca-se como terceira força política mais votada.

O perigo não é só relativamente ao facto de o PSD poder vir a ganhar as eleições e reverter ou desvirtuar tudo aquilo que foi possível conquistar com uma governação à esquerda durante seis anos, nomeadamente na educação, na saúde, na economia, no combate às desigualdades, no aumento do salário mínimo e das pensões, no clima e no combate à pandemia, através do apoio às pessoas, às famílias e às empresas. O perigo é, também e principalmente, o CHEGA aparecer em algumas sondagens, como terceira força política mais votada.

Sejamos realistas, se o PSD sozinho não for o mais votado – que é um cenário muito provável – Rui Rio precisará do CDS, da IL e, naturalmente, do CHEGA. Solução que para Rui Rio é preferencial, estando os partidos disponíveis para negociar em conjunto. Significa isto que corremos o perigo de acordar no dia a seguir às eleições com um futuro governo formado pela direita e pela extrema-direita. Um governo que reverterá medidas tão importantes, como é o caso da devolução de rendimentos às famílias. Corremos um risco que acabem com o Serviço Nacional de Saúde tendencialmente gratuito. Corremos o risco de haver um aumento e acentuação no que diz respeito às desigualdades socioeconómicas. Corremos o risco de haver uma reversão de direitos, liberdades e garantias que tanto nos custaram a conquistar.

Num cenário de vitória do PSD, ter o CHEGA como terceira força política mais votada, dará a André Ventura um maior poder de negociação política junto de Rui Rio, exigindo por isso ser Vice-Primeiro Ministro de Portugal e uns quantos Ministérios, como o próprio já fez questão de referir.

Corremos o risco de acordar com um novo regime, como o líder do CHEGA tanto ambiciona. Um regime idêntico ao dos tempos do Estado Novo num país “que nos tempos do passado se chamava Portugal suicidado”. Aliás, o próprio CHEGA usou já por várias vezes e tem no seu programa eleitoral o lema “Deus, Pátria e Família”, a trilogia da educação durante esse período negro da nossa história, doutrina defendida por Salazar, base do ensino escolar nos tempos da ditadura.

Corremos o risco de acordar com um futuro Governo onde há necessidade de ter, na sua formação, um partido de extrema direita, como é o caso do CHEGA. Um partido que tem constantemente posições atentatórios ao nosso Estado de Direito Democrático. Um partido saudosista, xenófobo, racista e que defende e incentiva ao ódio, à repressão e à perseguição de minorias e etnias. Recorde-se até que Rui Rio, há uns tempos, negou a existência de racismo na sociedade portuguesa.

Não podemos, nem devemos tolerar, esta normalização e transposição de barreiras que são impensáveis em pleno século XXI, considerando tudo aquilo que a história já nos mostrou.

O perigo bate à porta. Será isto que queremos deixar entrar no nosso País, nas nossas comunidades, na nossa casa?

Não deixemos cerrar as portas que abril abriu! Não deixemos que a semente de esperança, que deu origem ao cravo que em tempos foi plantado, morra!

Para isso é preciso votar. É preciso votar bem. Votar em quem defende um país melhor, mais justo, mais fraterno, mais coeso e solidário.

É preciso votar em quem pretende relançar a economia, em quem quer aumentar os salários médios e em quem combate, de forma exemplar, a pandemia.

É absolutamente essencial votar em quem defende contas públicas certas.

É preciso votar em quem defende a construção ou modernização de mais 100 unidades de cuidados de saúde primários e a construção de novas unidades hospitalares.

É preciso votar em quem tem ideias concretas para reduzir o peso da dívida pública no PIB.

É preciso votar em quem defende creches gratuitas, de forma progressiva, até 2024.

É preciso votar num partido que pretende aprovar as alterações legislativas para a Agenda do Trabalho Digno na Assembleia da República até julho de 2022.

É preciso votar em quem defende os apoios à habitação jovem e residências para os estudantes deslocados.

É absolutamente essencial votar num partido que garante a estabilidade e o progresso social e económico das pessoas e do nosso País.

No próximo domingo, dia 30 de janeiro, vota. Vota com responsabilidade. Vota Partido Socialista, porque só assim, todas e todos juntos, seguimos e conseguimos!

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publicado às 16:05

Eleições e indecisões.png

Os comentários que se seguem aos debates é suposto serem feitos por jornalistas credenciados e cada um com a sua orientação ideológica. A meu ver tenho constatado que a isenção e a independência, sobretudo na SIC, não são os pontos fortes dos intervenientes nos paneis de comentário.

Sou dos que considero que a comunicação social deve ter um papel relevante na critica e no escrutínio público do poder e, ao mesmo tempo, ter a liberdade de expressão e de opinião que devem ser estimuladas dentro dos limites da civilidade, da educação, da tolerância e de respeito pelo caráter de cada um.

Naquele canal televisivo os comentadores Ricardo Costa, José Gomes Ferreira e Bernardo Ferrão nos seus comentários tentam fazer passar para os telespetadores uma perceção de distanciamento ideológico, mas, para quem esteja atento aos pormenores, notará que incluem cirurgicamente pequenas "alterações”, provavelmente intencionais, ao significado ou às circunstâncias de um facto que possa sugerir algo em desabono do governo socialista e de António Costa.

Com a proximidade das eleições notam-se mais estas pequenas campanhas detratoras por via de jornalistas e comentadores. São opiniões, dirão. Certo. Mas também nos comentários sobre acontecimentos da política que se relacionem com a justiça e com a economia tiram da cartola algo do passado que introduzem no confuso emaranhado das lógicas em que se embrenham fazendo campanha e oposição partidária ao abrigo de fazer jornalismo. Não admira, têm que estar sintonizados com a “voz dos donos”. É normal.

Os jornalistas também são eleitores e terão as suas simpatias ideológicas e partidárias e alguns não as escondem, pelo que tentam fazer comentários positivos aos políticos do seu círculo ideológico-partidário e negativos para outros candidatos concorrentes colocando-os nos pratos de uma balança. Comentar desfavoravelmente a prestação de um interveniente político num debate que seja da simpatia do comentador pode favorecer o seu preferido em prejuízo do adversário.

Dou um exemplo como hipótese: quem estiver a comentar um debate entre, por exemplo, a líder do BE Catarina Martins e o líder do PSD Rui Rio poderá emitir uma opinião em que a prestação do BE foi mais bem conseguida do que a do PSD evidenciando os argumentos do BE ao fazer críticas ao PS. Assim, ao concordar com a crítica feita pelo BE ao PS potencialmente posso estar a condicionar pela negativa potenciais eleitores do PS que irão para o BE já que é pouco provável que haja eleitores do BE que irão votar PSD mesmo considerando a critica feita ao PS. Mas, pelo contrário, é mais provável que estes mesmos possam votar no PSD.

Como é possível em debates como os que temos visto entrar com pormenores que podem ser tecnicamente relevantes, mas que só contribuem para ruído e compressão da mensagem. Quanto a avaliações, tenham paciência! Catem também as falhas de pormenor nas narrativas de Rui Rio.

A obtenção de mais votos e, consequentemente, de deputados é, em quaisquer eleições, o grande objetivo dos partidos. Para as eleições que se irão realizar em 30 de janeiro há um outro objetivo que se apresenta: o do BE e do PCP é retirar votos ao PS para evitar que este tenha uma maioria absoluta.  Para a direita, no caso do PSD, o objetivo é o de conseguir mais votos alguns retirados ao PS.

Para os liberais de direita e para os extremistas de direita o objetivo é arrecadar mais votos, logo conseguir mais deputados, venham eles donde vierem, para que possam exercer pressão sobre o PSD para negociações pós-eleitorais. Para os partidos à esquerda do PS, chamados de extrema-esquerda, o objetivo é a obtenção de números de votos para pressionarem o PS a uma nova negociação.

Por entre estas competições para a obtenção de votos há também obsessões. A de Rui Rio, de Catarina Martins, marioneta do ideológico trotskista Francisco Louçã, do troca-tintas de André Ventura do Chega é o reconhecimento, mas que não dizem, de que António Costa é um político inteligente e competente que receiam e, por isso, jogam tudo para afastá-lo. É a pessoa de António Costa que é o político, o primeiro-ministro, o secretário-geral do PS e o defensor da democracia e do socialismo liberal constitucional que pretendem afastar.

O BE espera que, com o afastamento de António Costa, possa surgir um novo líder do PS como Pedro Nuno dos Santos que ceda ao BE e ao PCP e constitua uma nova geringonça caso a direita ganhe sem maioria, ou o PS perca as eleições. Só uma maioria absoluta do PS poderá ter a capacidade para afastar essa possibilidade.

O que todos temem por motivos diferentes, mas sobretudo o PCP e o BE, é que o PS liderado por António Costa possa conquistar uma maioria absoluta de deputados nas próximas eleições, que lhes tiraria a possibilidade de limitar e bloquear decisões fundamentais e a continuação de uma governabilidade estável do país para quatro anos.

No campo meramente de competição, para Rui Rio, António Costa é uma obstrução na engrenagem que o poderá elevar até ao poder. Está a ficar mais claro que para Rui Rio chegar ao poder precisa dos votos que possam vir de quem votou anteriormente PS e das franjas da direita que saiam das eleições para poder contar com uma maioria parlamentar, não negando em absoluto a possibilidade de também contar com os deputados do Chega.

No momento em que escrevo uma das últimas sondagens dá uma maioria de esquerda com algumas possíveis nuances. Segundo esta sondagem feita para o jornal Público, RTP e Antena 1 o PS conseguirá obter um mínimo de 104 deputados e um máximo de 113, neste caso a três lugares da maioria absoluta no Parlamento e podendo fazer negociações parlamentares com o PAN e o Livre, como defende Rui Tavares. Mesmo no cenário dos 104 deputados continua a existir uma maioria de esquerda com o BE, CDU, Livre (elege um deputado em qualquer dos cenários) e o PAN. Assim, a direita cresce, mas não ganha. O PSD em caso algum consegue uma maioria de direita para governar – nem no cenário mais otimista, nem mesmo com quatro deputados do PAN. Se assim acontecer Rui Rio vai confrontar-se, mais uma vez, com a oposição dentro do partido.

Mais do que uma maioria do PS é mais de temer uma maioria absoluta do PSD. Rui Rio apesar de se dizer do centro facilmente irá infletir para a direita por pressão da ala mais à direita do partido. Só PS ao conseguir uma maioria confortável nas eleições se pode libertar-se do jugo do PCP e, sobretudo, do BE ao mesmo tempo que poderá também influenciar Rui Rio a manter um rumo diferente. Note-se que para o caso duma revisão constitucional serão necessários dois terços de votos dos deputados.

O que Rui Rio propõe é uma espécie de continuação do modelo social que o governo de Coelho/Portas estabeleceu de 2011 a 2015, mas numa versão mais light.

Pode ser uma versão menos radical, mas, do mesmo modo, pelo que tem vindo a reclamar de modo mais ou menos astucioso é um modelo baseado na redução de impostos às empresas, de salários, do Estado Social, da tendência para a privatização da Saúde, da Educação, Segurança Social, etc., e tudo o mais que a fação mais neoliberal do PSD irá impor a Rui Rio que irá originar o agravamento das condições económicas, financeiras e sociais que se conhecem até que, segundo o próprio, haja crescimento económico. Podemos até concordar com alguns pontos mas o modelo que apresenta pode ser ajustado à realidade portuguesa e de com uma progressão e ritmo adequados seguindo uma outra via.

Tudo isto apesar de, em termos pessoais, apreciar a atitude de Rui Rio como político franco, aberto, por vezes realista, mas outras vezes demagogo e cheio de condicionais “ses”, que capta simpatias, que pretende ser do centro e não de direita, mas lá vai piscando o olho à direita e ao votantes do centro-esquerda verdadeiro partido social-democrata que é o PS em termos de comparação europeia como o Grupo do Partido Popular Europeu a que pertence o PSD e Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Sociais Democratas Parlamento Europeu a que pertence o PS.

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publicado às 19:18

 

  

Será a censura que incomoda Pacheco Pereira? | Nota da Direcção | PÚBLICO

O que revelam os debates

A racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates.

José Pacheco Pereira num artigo de opinião publicado no jornal Públicode faz uma análise dos debates que, de certo modo, coincidem com os meus pontos de vista enquanto telespectador atento.

Os intervenientes nos debates partidários, assim como os comentadores que se lhes seguem, preocupam-se mais com pontos de vista efémeros do que com a verdade e a isenção, sobre assuntos muitas vezes longe das suas áreas de competência profissional. São uma espécie de relatores do que se viu, mas, de acordo com a sua idiossincrasia ideológica e partidária avaliam positivamente os intervenientes que mais dela se aproxima podendo assim influenciar o público o sentido de voto.

O que revelam os debates

(José Pacheco Pereira, in jornal Público, 08/01/2022)

A racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates.

Numa campanha eleitoral que se passa quase exclusivamente na comunicação social, os debates televisivos, mais de 30, acabam por ter mais importância do que se fossem mitigados por eventos de campanha, que a pandemia hoje não permite. (*) Já escrevi e repito, apesar da fúria de alguns jornalistas e gente de agências de comunicação que precisa de os bajular: uma campanha eleitoral totalmente dependente da comunicação social abre caminho a perversidades. Não se trata de mediação, que é suposto ser uma função fundamental da comunicação social, trata-se de opinião, de manipulação, de parti-pris, simpatias e antipatias escondidos sob a intangibilidade da condição profissional. Não é preciso ir mais longe do que a recente campanha interna no PSD em que a maioria dos jornalistas e órgãos de comunicação social fez campanha por Paulo Rangel e contra Rio. A coisa foi tão evidente que não é preciso dar exemplos, mas, se for preciso, abundam.

Os debates, quando não têm um interlocutor suplementar que interfere de forma agressiva no debate, prejudicando-o (como se passou em debates da SIC em que parecia que havia um terceiro participante na campanha), na parte em que há um genuíno frente-a-frente são reveladores e podem ter um papel na opinião traduzida no voto. Eles revelam, em primeiro lugar, as qualidades e defeitos pessoais dos antagonistas, traços de carácter por detrás da encenação, o que sabem ou não sabem, a inteligência, a capacidade de clareza, a riqueza vocabular, a cultura política ou a sua ausência, a experiência e aquilo a que os sociólogos chamam background assumptions, as ideias, preconceitos, gostos, que estão por detrás do discurso público. Nisto os debates são razoavelmente eficazes, e a logomaquia dos comentários posteriores pode ser útil na sua revelação e escrutínio.


É, no entanto, verdade que essa torrente de comentários, mesmo os melhores - porque muitos não têm pés nem cabeça e resultam em “notas” absurdas para mostrar como são originais os “professores” ou são exercícios de La Palisse –, se tornam em grande parte desnecessários porque os espectadores apreendem com facilidade este aspecto da comunicação, que é empático e por isso imediatamente transmissível. Por exemplo, a frieza de Catarina Martins e Rui Tavares, o cansaço de Jerónimo, a habilidade de Costa, os labirintos em que se enreda Rio, a agressividade monocórdica de Ventura, tudo isto se percebe de imediato, seja quais forem as simpatias que se tenha por cada um deles.

Depois, há um outro nível, que é o da racionalidade, normalmente num exercício de “revelação” do outro, em que o grande e o único exemplo foi o de Rui Tavares face a Ventura. Mas a racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates. Quando Cotrim de Figueiredo disse que o Bloco de Esquerda era o “Bloqueio de Esquerda”, designação trazida no bolso de casa, acabou por conseguir que ela fosse repetida nos títulos comunicacionais – porque era para isso que tinha sido preparada –, mas por outro lado mostrava que nada mais do que dissera valia a pena repetir.

Ventura, que foi a personagem-chave nos primeiros debates pelo estilo agressivo, pareceu dominar, mas esse aparente domínio revelou algo que lhe é prejudicial, a repetição de acusações, invectivas, afirmações de peito cheio, mas de cabeça vazia, vai perdendo eficácia à medida que os debates com ele são sempre a mesma coisa. O seu único sucesso foi com Rio, que ele enredou em directo, com todos os outros ficou a falar sozinho, sem ter nada para dizer. Também aqui o debate mais conseguido foi o de Rui Tavares.

Aquilo para que os debates pouco servem é para discutir propostas ou programas de governação, com o tempo curto de mais para pensar e discutir a sério. Numa atitude hipócrita, a comunicação social está sempre a queixar-se de que não se discutem os “problemas dos portugueses”, porém aceita um modelo que impede qualquer discussão, mas que é bastante para o espectáculo, para os truques e armadilhas preparados. A rigidez da legislação eleitoral tem também um papel, ao multiplicar de forma absurda o número de debates para assegurar artificialmente a igualdade das candidaturas.

Há também um outro aspecto que é negativo nos debates tal como estes se têm desenvolvido. A obsessão de os transformar em combates, que é comunicacionalmente mais atractivo, impede que se tracem as “linhas vermelhas” com propostas antidemocráticas que o crescendo populista está a colocar em cima da mesa. Ora o populismo é a grande novidade na vida política portuguesa.

Não adianta chamar fascista a Ventura, que não o é, mas sim um extremista de direita, que já basta como epíteto e é mais correcto, mas já se ganhava alguma coisa se ele fosse confrontado com as suas propostas antidemocráticas que ele debita como se fossem “normais”. Um exemplo é a de “cortar” os lugares de “políticos” pela metade, ou a de cortar os salários dos deputados para metade, que parecem populares, mas que são intrinsecamente antidemocráticas. Alguém lhe explica que nos milhares de lugares “políticos”, nas autarquias, por exemplo, a esmagadora maioria não são remunerados, mas o sinal de uma dedicação à causa pública, ou uma democratização da participação popular? Ou que a demagogia sobre os salários dos políticos, conduz a que haja apenas candidatos desqualificados para quem qualquer salário é bom, ou lobistas ricos com rendimentos que não precisam de ganhar um tostão para beneficiar do acesso ao poder? Ou pura e simplesmente dizer-lhe que numa democracia há o primado da lei, e que as garantias de defesa e do ónus da prova são para todos, assassinos e corruptos incluídos. E que penalizar os “crimes de colarinho branco” com o dobro das penas dos assassinos é uma perversão da justiça, por muito que os seus apoiantes salivem com os “casos” de corrupção e se revelem indiferentes aos crimes de ódio. Em tudo isto e muito mais, tem havido falta de coragem para confrontá-lo, porque estas posições só são populares quando não se combatem com a intransigência da democracia.

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publicado às 18:31

Debates com orangotangos.png

Li hoje um artigo de opinião no jornal Público que me pareceu ao mesmo tempo sério e com algum humor pesando, contudo, que há pontos com que não concordei. Mas isso é outra dança.

Permitam-me, previamente, esclarecer os leitores que não tenho quaisquer simpatias ideológicas nem com a opositora Catarina Martins, parte interveniente no debate, nem com o seu partido.

Há intervenientes nos debates que se comportam e exprimem como orangotangos. Isto é uma caricatura e não um ataque pessoal, nem ao caráter, mas à forma que essa gente utiliza nos debates. Também Trump nos debates com Biden se comportou como um orangotango, compara a autora do artigo.

Sei que muitos outros orangotangos, fiéis subservientes do orangotango mor, não concordarão comigo, mas ficamos quites, também não concordo mesmo nada com eles, se concordasse também pertenceria ao grupo dos ditos.

Há quem aprecie e valorize intervenientes nos debates políticos em que, à falta de projetos objetivos, e de argumentos credíveis e fundamentados, servem-se de grunhisses para fazer passar as suas mensagens. Mas, “Debater com demagogos populistas, sem educação, maneiras ou escrúpulos, que querem precisamente não debater, não é fácil”, tal como não seria fácil debater com um orangotango.

Posto isto incluo o artigo que fará os tais fiéis adeptos de peixeiradas vibrar de raiva e de ódio, único sentimento que lhes assiste. Mas também reconheço que no intervalo dos grunhidos alguma coisa, mas muito pouca, poderá ser percetível. Mas, enfim, há gente para gostar de tudo e, como diz o ditado cada cabeça sua sentença, e esta é a minha.

 

Quero alguém que saiba debater com o demagogo sem maneiras

(Maria João Marques, in jornal Público, 05/01/2022)

Nestas legislativas teremos pouca campanha de rua, à conta da quinta vaga de uma pandemia que anda por aí. Donde, os debates entre candidatos são úteis – essenciais mesmo – para passar mensagens, diferenciar projetos políticos, confrontar ideias, arrebatar eleitores. Porém, desta feita, temos uma novidade: o líder do Chega, repetindo a estratégia das presidenciais. A saber: estragar os debates em que participa.

Dos dois debates que vi com André Ventura, este portou-se como aquele miúdo parvo e abusador que vê um colega no recreio a desenhar e vai lá e risca a folha e o desenho todo. Há quem julgue esta estratégia vencedora. Não é. Os eleitores veem só o miúdo parvo, nenhum génio político. Tirando o pequeno nicho que se deleita com políticos comportando-se como orangotangos (sem ofensa para os orangotangos), os restantes veem à légua a fanfarronice de fazer muito barulho para, precisamente, não debater. O objetivo é pôr-se de fora e boicotar uma característica do regime que alegadamente pretendem destruir: os debates (mais ou menos esclarecedores) antes de cada eleição.

Claro que a estratégia não é nova, nem foi inventada por Ventura, político que de resto não tem muita criatividade própria e vai buscar quer o conteúdo quer a forma aos seus superiores – copia o já desaparecido Trump e defende obedientemente o que lhe mandam os seus financiadores. Trump, no primeiro debate com Biden para as presidenciais de 2020, também transformou o exercício numa gritaria a que a comentadora Dana Bash famosamente chamou shitshow. Nessa altura também houve quem garantisse que os urros de Trump ganharam a um aparentemente frágil Biden. Não percebem que estes produtos políticos como Trump e Ventura se derrotam a si próprios nos debates (e na política em geral).

Em todo o caso, se Ventura e Trump se arrumam a si próprios pelo nojo e desprezo que geram na maioria, o certo é que os parceiros de debate também ficam com o desenho todo riscado. Foi o que aconteceu a Catarina Martins e a Rui Rio. Em ambos, quem determinou os temas dos debates foi Ventura – ao lançar as suas atoardas, dislates, mentiras, ataques pessoais (estes só para Catarina Martins, que é mulher, e os homens como Ventura sentem-se importantes quando atacam mulheres; já com Rio, o desejado futuro chefe, convinha não atacar pessoalmente; e os homens como Ventura também usualmente têm medo de atacar outros homens). As duas contrapartes aceitaram passivamente responder a tudo o que Ventura lançava para o debate, por mais alucinado que fosse. Ao invés de debates, tivemos uma espécie de entrevistas hostis de Ventura aos seus oponentes. Foi penoso.

Catarina Martins lá marcou o seu ponto aqui e ali. Falou da ambiguidade do Chega nos “vistos gold” e offshores. Lembrou que a maioria dos que recebem apoios sociais são mulheres pobres e crianças; e reputou de “cruel” a atuação do Chega nos Açores ao cortar estas ajudas. Se esteve bem em não descer ao nível subterrâneo de Ventura, é incompreensível não ter ripostado (perante as várias acusações de ter faltado a votações) que Ventura está no pódio dos deputados faltosos. Foi insuportável como permitiu ser interrompida constantemente, em pose de carneiro sacrificial, ao invés de lhe dirigir um imperioso “não me interrompa”. Tendo em conta o fenómeno estudado de mulheres permanentemente interrompidas em reuniões (e debates), é intolerável ver tal coisa replicada sem resposta na televisão. A moderadora (e bem) repreendeu Ventura, mas Catarina Martins perdeu a oportunidade de dar uma de Kamala Harris com o seu “I’m speaking” quando Mike Pence a interrompia no debate dos vice-presidentes.

Rui Rio foi ainda mais surpreendente. Se rejeitou acordos e coligações, deu o exemplo do errático Chega nos Açores, mencionou que votar no Chega em vez de no PSD era ajudar à vitória do PS, no resto do tempo foi outro cordeirinho respondendo àquilo que Ventura exigia. E assim tivemos um líder da oposição, candidato a primeiro-ministro, com possibilidades de ganhar as eleições, falando de temas inúteis como a diminuição do número de deputados (temos um número de deputados perfeitamente adequado ao tamanho da população comparativamente às outras democracias europeias) ou indo mesmo, todo contente, para assuntos perigosos como os abusos dos apoios sociais (isto vindo do partido que votou para criar apoios sociais para acudir a vários grupos afetados pela pandemia, numa coligação negativa contra o Governo) ou prisão perpétua.

Das duas, uma. Ou Rui Rio estava com grande vontade de irritar o eleitorado centrista que lhe pode ganhar as legislativas, tudo para ir buscar meia dúzia de votos aos simpatizantes da extrema-direita; ou está bastante confundido, julgando que os problemas mais importantes do país são a quantidade de deputados, a inexistência de prisão perpétua, os abusos das migalhas do RSI e quejandos. Incompreensível como Rio, lá pelo meio do debate, não disse que julgava mais útil debater economia, alterações climáticas (dois temas que lhe são caros), como remendar o SNS, aplicação dos fundos de recuperação pós-covid, enfim, os assuntos que de facto têm influência na vida das pessoas. Para explicar as suas ideias. E para evidenciar que nestas áreas Ventura fica sem ter que dizer.

Nenhum atirou a Ventura que discussões securitárias são pouco relevantes num dos países mais seguros do mundo. Que a corrupção não se combate com medidas histriónicas de faz de conta como a duplicação do tempo das penas – porque o problema não é a duração destas mas praticamente não existirem acusações nem condenações por corrupção (seja qual for a pena). As campanhas milionárias onde o Chega desbarata dinheiro como se não houvesse amanhã. Um largo etc. Não. Passou sem escrutínio.

Debater com demagogos populistas, sem educação, maneiras ou escrúpulos, que querem precisamente não debater, não é fácil. Concedo. De todo o modo, os que debatem com Ventura ou se preparam para não deixar a conversa enredar-se nos temas de estimação do Chega, e atacam as muitas fragilidades de Ventura, ou mais vale seguirem o exemplo do PCP. Ventura é um político risível, cheio de vulnerabilidades a que se pode atirar, o único talento que tem é para a histeria, foi ao tapete em vários debates nas presidenciais. O problema nem é Ventura ganhar votos com os debates, que não ganha. Mas os outros perderem eleitores à conta da falta de habilidade.

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publicado às 18:01

A direita destrambelhada e as tetas da vaca

por Manuel_AR, em 30.06.21

Teta da vaca-2.png

As direitas acusam o PS de estar a e a apoderar-se e a ocupar as estruturas do Estado. Mas qual é o objetivo dos partidos senão o da conquista do poder e o controle absoluto das estruturas estatais, utilizando todos os meios que a democracia lhes possibilita, para alimentar clientelas partidária?  É o jogo de sais tu para ir para lá eu. Quando a teta da vaca é só uma todos querem a sua mamada.

A covid-19 veio causar no povo uma inércia no pensamento político restringido a protestos pela falta de liberdade, de sociabilização e de diversão pelos confinamentos e restrições imposta pelo Governo por motivo de preservação de saúde pública que muitos veem como atentados às liberdades individuais e à intervenção coletiva.

Da esquerda à direita, cada um à sua maneira, por motivos diversos, têm clamado, com mais ou menos vigo,r contra o que alguns chamam atentado às liberdades. Pretendem incutir na sociedade a perceção de que a pandemia pode servir como tentativa de limitação das liberdades democráticas, insinuando até, que, à boleia da pandemia, o governo está a querer minar a democracia à semelhança de outros países, como tem perpassado pelas redes sociais o que não é  mais do que um dos disparates que se divulgam através daqueles canais vulgarmente conotados com as direita radicais.

Há um exemplo que ajuda a caraterizar muito bem o ponto de vista de alguns partidos da direita que manifestamente se mostram contra as restrições impostas devido à Covid-19 que são evidência demagógica e demonstrativa do seu desprezo pela saúde pública. Um dos exemplos é veiculado pela IL – Iniciativa Liberal num cartaz colocado em Lisboa na Alameda Afonso Henriques, (esteve lá meses e foi retirado à cerca de uma semana), na altura em que a pandemia se encontrava no seu ponto alto e a expandir-se, onde se podia ler “Libertem a Infância” e “Abram os parques infantis”.

Declarações e casos como este mostram o valor que essa agente dá à saúde colocando a população em perigo em nome de uma “liberdade” egoisticamente individual desdenhando da saúde pública e do cumprimento dos requisitos científicos e legislativos aplicáveis e pertinentemente adequados em caso de emergência pública.

Cartaz Iniciativa Liberal.png

Se a IL estivesse no poder saberíamos com que contar, teríamos a mesma política sanitária que Bolsonaro tem praticado no Brasil.

Na ótica das alianças partidos da direita que se juntem, ou façam aliança com o CHEGA de Ventura e quejandos, mostram a sofreguidão do poder e enquadram-se perfeitamente naquele provérbio popular que diz “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem tu és”.

O PSD e o CDS enquanto não decidirem deixar de fazer oposição com casos e casinhos, sem rumo e sem um projeto coerente e que sejam uma alternativa credível ao governo do PS, não abandonarem soluções que passem por alianças com a extrema-direita não se livram da fama sem obterem disso qualquer proveito.

Acordos e compromissos com a extrema-direita além de serem vulneráveis à crítica têm de mostrar que é vantajoso para ambos para não ser entendido como capitulação pela direita e centro-direita, refiro-me, claro está, à tendência que Rui Rio tem mostrado em relação ao partido CHEGA seja diretamente, seja por aproximação a candidatos que se encontram entre um e outro, coisa bastante estranha. Veja-se o caso da candidata à Câmara da Amadora Suzana Garcia pelo PSD que  aceitou o convite depois de ter andado hesitante entre os convites do CHEGA e de Rui Rio.

As direitas andam destrambelhadas, cindem-se, criam novos partidos e movimentos, militantes de partidos do centro desligam-se e criam partidos de extrema-direita, veja-se o caso de André Ventura, obra de Passos Coelho por ocasião das eleições autárquicas de 2017 em que o CDS-PP deixa cair André Ventura e o PSD lhe mantém o apoio.

As afirmações feitas por André Ventura sobre a comunidade cigana levantaram à data muita polémica que levou o dirigente do CDS, Francisco Mendes da Silva, a não ficar calado disparando na altura uma feroz crítica nas redes sociais: “Não há praticamente nada que André Ventura diga que eu não considere profundamente errado, ligeiro, fruto da ignorância e de um populismo que tanto pode ser gratuito, telegénico ou eleitoralista. Já o vi falar de tudo e mais alguma coisa, em muitos casos de assuntos que conheço técnica e/ou factualmente. Nunca desilude na impreparação e no gosto em ser o porta-estandarte das mais variadas e assustadoras turbas. Se perder, tudo bem: que nem mais um dia o meu partido fique associado a tão lamentável personagem.”, enquanto o PSD de Passos Coelho fazia orelhas moucas. Ventura foi um derrame da fervura do caldo de cultura neoliberal e de direita mais radical criada no PSD de Passos Coelho.

Em maio decorreu uma reunião/convenção de “amigos”, o Movimento Europa e Liberdade (MEL), o mesmo que é dizer convenção das direitas, que conseguiu juntar, pela primeira vez, os quatro líderes partidários do espaço não socialista, PSD, CDS, IL e CHEGA onde tentaram mostrar que há pontes de diálogo entre os vários partidos. Defendendo Rui Rio que "o PSD não é um partido de direita", reiterando o posicionamento "ao centro" que tem defendido e acrescentando que se a convenção do MEL fosse "um congresso das direitas" provavelmente "era barrado à entrada".

Nesse encontro o líder do Chega, André Ventura, foi aplaudido à entrada na sala e sentou-se junto a Passos Coelho, que o aplaudiu no final. O significado deste ato poderá ter vários sentidos. No seu discurso quando subiu ao palco disse que “Rui Rio não tem conseguido fazer o seu papel de oposição à direita e que não há possibilidade nenhuma de governo à direita sem o CHEGA”. Não se percebe que haja pontes com partidos de extrema-direita xenófoba e racista como o CHEGA.

Não é um congresso das direitas democráticas, mas elas lá estavam. Se revirmos os programas escritos, mas não publicitados de alguns dos partidos da MEL como o IL e o CHEGA podemos confirmar a sua posição no leque ideológico. O Iniciativa Liberal defende a liberalização total da economia propondo, por exemplo, no caso da educação e da saúde dois sistemas paralelos: um para os pobres, sem condições, e outro para quem possa pagar a expensas próprias as despesas de saúde ou pagar os prémios de seguro exorbitantes pedidos pelas companhias de seguros que se agravam à medida do envelhecimento dos segurados.

O programa do IL é demagógico, ambíguo e inexequível. Quando fosse aplicado, se o fosse, os que nele votaram já estariam todos mortos. Seriam votos em vão, tal a impossibilidade a curto prazo no nosso país. O programa da IL é apenas um programa de manobra de distração e para apresentar quando do pedido de legalização do partido.

Para o mundo do trabalho na visão da IL há dois patamares de indivíduos: aqueles a que chamam empreendedores e os outros, os que ficariam submetidos às regras da oferta e procura como qualquer mercadoria. Para a IL Portugal seria um país dividido entre os ricos e os pobres. Os primeiros, os que criavam riqueza os segundo os que lhe proporcionariam a riqueza entre os quais muitos ficariam para trás.

Para a IL acabar-se-ia com o imposto progressivo e o que cada um pagaria seria os mesmos em termos percentuais fossem ricos ou pobres.

No capítulo do emprego do dito programa a contradição e a ambiguidade são patentes, basta ler o ponto introdutório:

“No mercado de trabalho, insiste-se num combate à “precariedade” muitas vezes em detrimento da criação de emprego, e consequente aumento da liberdade de escolha de ocupação. Quantos de nós, presos a um sistema criado para toda a vida – quer do lado do emprego, quer do lado das obrigações – não temos capacidade para ser livres e arriscar fazer mais, construir algo diferente. O que nos retira a mobilidade social, e a esperança de construir um futuro melhor.”.

“Estamos, num certo sentido, agrilhoados para a vida a um emprego e a pagar as contas com que o Estado está a contar.”

Pergunta-se desde quando é que alguém, no sistema liberal atual, fica agrilhoado a um emprego para toda a vida? Podemos concluir que o verdadeiro significado é a liberalização total dos contratos de trabalhos com articulações que possibilitem aos “empreendedores” quaisquer despedimentos incondicionais, ou seja a liberalização total do mercado de trabalho.

Mas há mais no local das promessas a que dão o título de “queremos” sem se perceber como serão concretizadas:

            Queremos:

“Aumentar a liberdade contratual, mantendo standards de salários… Defender um seguro mínimo universal de desemprego em substituição do atual sistema de SS – Segurança Social; baixar os encargos sociais para emprego de longa duração, tornando-o competitivo.”. Seguro mínimo universal a ser pago por quem? Pelo trabalhador, claro está!

Não se percebe o que se entende por “standards” de salários nem outros pontos do programa da IL. Seria exaustivo estar aqui a enumerar e a comentar o dito programa. Para saber mais basta consultá-lo com espírito crítico para se perceberem as armadilhas da aplicação.

As direitas acusam o PS de estar a querer dominar e a apoderar-se das estruturas do Estado, mas qual é o objetivo dos partidos, senão a conquista do poder e o controle das estruturas estatais e o controle absoluto utilizando todos os meios que a democracia lhes possibilita. É o jogo do, sais tu para ir para lá eu. Quando a teta da vaca é só uma todos querem a sua mamada.

Nota Final: A imagem reproduzida no início, podendo ter uma conotação anti partidos e antidemocrática, não foi esse o sentido que o autor lhe pretendeu dar.

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publicado às 18:04

Populismo3.png

Em Portugal sempre existiu populismo, embora contido, nos vários partidos, sobretudo em tempo de campanha eleitoral. Nessa altura regressam à tona  partidos mais radicais que, não tendo programa exequível, tentam demonstrar contradições do sistema e procuram a explorara a distinção entre dois grupos antagónicos: um, virtuoso e maioritário, o povo, que todos exaltam e outro que diz defender procurando ganhar vantagens com o apelo a reivindicações ou preconceitos amplamente disseminados entre a população utilizando as redes sociais.

Nessas alturas os dirigentes partidários apelam às emoções, o que é legítimo, porque a política também é feita de emoções, todos os políticos tentam utilizar uma linguagem emocional e tentam apresentar propostas que agradem aos eleitores.

Por outro lado, o desinteresse pela política por parte dos cidadãos, porque acham que a discussão política é para meia dúzia de iluminados dos partidos que lutam entre si para chegar ao poder, é um outro fator explicativo.

Quais as implicações de aceitar de forma cega tudo o que se diz e escreve nos órgãos de comunicação clássicos e, sobretudo, nas redes sociais e quais as consequências dessa aceitação devido ao desvario das populações que o reproduzem acriticamente de forma viral? 

Governantes de países passaram a utilizar a tecnologia das redes sociais para comunicar com as pessoas e que por serem governantes o que eles dizem são aceites pelos seus apoiantes como verdades e opiniões a serem aceites ou desmentidas transformando verdade em mentiras e mentiras em verdades. Mentiras e informações falsas colocadas nas redes sociais até mesmo em conferências de imprensa ditas por responsáveis máximos da política dos países são por muitos tomadas como verdades, o caso do Presidente Trump nos EUA é um caso de estudo.

Em Portugal passou a estar também na moda dirigentes partidários e responsáveis do Governo comunicarem através das redes sociais. Os partidos da extrema-direita são prolíferos na propagação do populismo e das suas mais absurdas teses.

Após as eleições nos Açores o acordo com o Chega gerou polémica que emergiu na comunicação social e nas redes sociais que deu, e ainda está a dar, para todos os gostos. Numa primeira análise o PSD caiu, por vontade própria, na armadilha de se apoiar num partido populista como o Chega dando-lhe o protagonismo que até então lhe tinha faltado para além das caóticas intervenções de André Ventura na AR. Não é por acaso que os populistas utilizam uma retórica para chegar a segmentos da população que sentem que foram deixados para trás pelos dois maiores partidos e que se deixam, devido á sua ignorância política, encantar por discursos simplistas e chavões fáceis de fixar repetidos até à exaustão.

Como tem sido habitual ao longo de décadas as inovações e modas em sentido lato, sejam elas boas ou más, chegam com anos de atraso. O mesmo aconteceu com o populismo da extrema-direita que se pensava ser pouco ou nada representativa na nossa sociedade e que Portugal estaria a salvo, muito embora soubéssemos que andavam por aí acantoados em partidos de direita e do centro-direita considerados democráticos e que fazem parte do denominado arco da governação.

Aliás, os partidos populistas e da extrema radical de direita estiveram sempre presentes na maior parte dos países, especialmente na U.E., não se extinguiram após a derrota do nazismo e dos fascismos, apenas ficaram adormecidos durante algumas décadas vindo a ressurgir.

O fenómeno do populismo associado ao próprio conceito não é fácil de caracterizar embora vários especialistas já tenham proposto várias definições. Na perspetiva do filósofo e historiador britânico de Isaiah Berlin não há apenas um populismo, há versões do mesmo “consoante a mudança histórica que sublinha a natureza específica do desenvolvimento do populismo em países, locais e datas específicas”. Acha que uma única fórmula para cobrir todos os populismos em todo o lado não serão muito úteis.

O interessante foi que Berlin comparou ao conto da Cinderela a tentativa de definir populismo através de uma única definição. Diz que não devemos sofrer de um complexo de Cinderela. Há um sapato, para o qual deve existir um pé em algum lado. Há vários tipos de pés nos quais os sapatos “quase” se encaixam. O príncipe que anda sempre a vaguear com o sapato acredita que um dia encontrará o pé certo.  Esse será o populismo puro e a sua essência.

Para Isaiah Berlin “Todos os populismos são derivações do mesmo, desvios do mesmo e variantes do mesmo, mas algures por aí esconde-se um verdadeiro e perfeito populismo, que pode ter durado apenas seis meses, ou [ocorreu] em apenas um lugar”. Consultar BERLIN, Isaiah – «To define populism»., 1967, p. 6.

O populismo reclama ser pela afirmação dos direitos do povo face ao grupo dos interesses privilegiados, considerados habitualmente como inimigos do povo e da nação, dirige as suas críticas às deficiências da democracia representativa que diz não refletir o pensar e o querer do povo.  Veja, por exemplo, o caso do partido Chega e o género de intervenções feitas por André Ventura e os estribilhos e lugares-comuns que ele utiliza. O Chega representa a chegada do populismo da extrema-direita a Portugal.

Como chegámos até aqui?

Acima de tudo, a globalização fez com que as nossas vidas fossem de facto influenciadas por fatores que não podemos controlar. E enquanto os populistas dizem que é preciso "recuperar o controlo", os outros políticos dizem que não se pode fazer nada, "ou porque somos parte da UE ou porque a imigração vai continuar…". O resultado é que a maioria não tenta responder às necessidades e aos receios, às vezes justificáveis, das populações.

Nos estados europeus a globalização e a crise económico-financeira diminuíram o investimento, impedindo ou retardando o desenvolvimento económico agravado pela crise de 2008 e pelos efeitos da austeridade consequentes aplicados pelos governos acrescidos pelo aumento do desemprego que causaram um sentimento de insegurança. A "crise migratória" que os dirigentes europeus declararam existir no território da União Europeia ajudou ao crescimento de partidos populistas e xenófobos.

Os movimentos de imigração e de refugiados que assolaram e assolam os países da U.E. geram uma concorrência no mercado de trabalho nos países que os acolhem aproveitado como um dos argumentos da extrema-direita xenófoba que é falacioso porque aqueles vão ocupar as lacunas que os autóctones não querem ocupar assim como a escassez de investimento no comércio local que tem vindo a desaparecer e onde ninguém quer investir. Estas imigrações ocasionam graves problemas de acolhimento nos países de chegada que são aproveitados pelos populistas da extrema-direita racista e xenófoba.

Esta situação e outras, assim como as indecisões ao nível da U.E. tem sido aproveitada por alguns governos apoiados por partidos de direita ou de extrema-direita como na Hungria de Orbán, na Polónia de Jaroslaw Kaczynski, e na Áustria de Sebastian Kurz em coligação com o Partido da Liberdade da Áustria (FPö), que têm adotado políticas violadoras dos direitos fundamentais e da democracia liberal defendidos pela U.E. Em Espanha, pelos mesmos motivos e como reação à política de austeridade e contra o euro, surge o Podemos, embora sem conseguir chegar ao poder. No espaço da União Europeia foi a "crise migratória" existente que ajudou ao crescimento de partidos populistas e xenófobos como o AfD alemão.

Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional, partido da extrema-direita francesa e nacionalista radical, antes da eleição de Macron, apresentava-se como uma perigosa candidata à vitória na eleição presidencial, o que poderia colocar em perigo a sobrevivência do projeto europeu.

Quando foi colocada a Le Pen a questão sobre as razões por que os partidos que se dizem antissistema estão a obter tanto relevo na Europa resumiu o credo populista da extrema-direita na europa: «Creio que todos os povos aspiram a ser livres. Os povos dos países da União Europeia, e talvez também os americanos, terão tido durante demasiado tempo a sensação de que os líderes políticos não estão a defender os seus interesses (os do povo), mas antes, interesses especiais(?). Há uma espécie de revolta da parte do povo contra o sistema, que já não os serve mais, mas antes a si próprio». Ver aqui. É com este palavreado, a que chamam argumento, que as extremas-direita, nacionalistas, xenófobas e populistas se agarram para, habilidosamente, iludirem os insatisfeitos com as políticas praticadas em democracia que acham não ter contemplado os seus interesses.

Uma das evidências dos perigos que espreitam as democracias liberais vem dos partidos de extrema-direita é o que atualmente estão a perpetrar os governos da Hungria e da Polónia, a que se juntou depois o apoio da Eslovénia, utilizando uma força de bloqueio contra o pacote de resposta à crise aceite por todos. Consideram ser inaceitável que não possam aceder aos novos fundos europeus por discordarem da condicionalidade do critério pelo respeito ao Estado de Direito. São eles os mesmos países que propagam que se mostram receosos do regresso do “espectro do comunismo” à Europa, como se no atual contexto político isso fosse o perigo real.

Este é apenas um exemplo de como governos autocráticos de extrema-direita se dedicam por todos os meios democraticamente disponibilizados a minar os alicerces das democracias e dos perigos que a direita populista faz pairar sobre a democracia europeia. Manuel Carvalho escreveu num editorial do jornal Público que “Não se pode aceitar que a Hungria ou a Polónia beneficiem das vantagens da Europa, ao mesmo tempo que se dedicam a minar os seus alicerces”.

A mensagem nacionalista, anti-imigrante, anti étnica, racista e xenófoba, por vezes eurocética e anti União Europeia veiculada pela extrema-direita é representada em Portugal pelo partido Chega.  O populismo em Portugal ainda está no seu início, mas já está a dar os seus frutos e a “vender bem”. O perigo do populismo do Chega, e de outros partidos do mesmo, ou pior espetro, deteta-se por meio de diatribes tais como:

- Críticas isoladas e desconexas dirigidas aos políticos, aos partidos (que não seja o deles);

- Críticas aos órgãos representativos dos cidadãos indigitados através de eleições livres;

- Chamando a si a luta contra a corrupção colocando em causa setores da administração pública, organizações privadas com relevância na vida económica ou social com tentativas para descredibilizar, sem fundamentação científica, o funcionamento do sistema político (veja-se o caso de Trump nos EUA);

- Incoerência com outros valores e medidas que igualmente defende, que são um fator disruptor dos direitos fundamentais da liberdade e da igualdade e da tolerância garantes da dignidade da pessoa humana, pondo também em risco o Estado de direito que os salvaguarda.

Estes movimentos e partidos são um vírus que se está a expandir tornando-se uma ameaça e um perigo para a democracia e que vai corrompendo por forma dissimulada os seus valores e procedimentos essenciais, tanto mais perigoso se torna quando partidos democráticos para obterem ou manterem no poder os chamam para fazer acordos colocando os interesse partidários acima dos interesses democráticos do país e dos próprios cidadãos.

Sofia Lorena, num artigo publicado no jornal Público em 2018 baseado no pensamento de Daniele Albertazzi, especialista em movimentos políticos e estudioso do fenómeno populista na “Escola de Governo e Sociedade da Universidade de Birmingham”, escreveu que «Um líder populista é aquele que se vai apresentar como representante de um único povo, unido e homogéneo, que está face a uma ameaça. Esta ameaça pode ser a elite política ou algo externo. Estes líderes defendem que o seu povo está a ser roubado — dos seus valores, princípios, identidade. E em breve será demasiado tarde para recuperar o que lhes está a ser tirada».

É fácil defender que os povos europeus perderam o controlo das suas vidas porque há anos que a Liga Norte italiana de Salvini, partido de extrema-direita, dizia que "temos de ser donos e senhores da nossa própria terra". André Ventura chegou a dizer em agosto de 2020 que “Eu e Salvini, de mãos dadas, é um sinal para o futuro de Portugal e Itália”.

Para os populistas há sempre bodes expiatórios que são os causadores da desgraça do povo, na Alemanha nazi eram os judeus, noutros países são os muçulmanos, em Portugal, por enquanto, são os ciganos e em alguns casos os negros e outras etnias, os políticos e os partidos são extensão da corrupção.

Os populistas atacam a lentidão da democracia representativa e liberal e "apresentam-se sempre como defensores do tal povo homogéneo contra outros — os imigrantes, as etnias, as pessoas que seguem uma religião minoritária ou que não se encaixam por algum motivo", diz Albertazzi.

 

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publicado às 18:52

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Há indivíduos que se dizem apartidários mas que, na eventualidade de um partido fascista de extrema-direita tomar o poder, estariam nas suas fileiras pagos pelo regime para trucidar quem fosse pela democracia ou fizesse oposição à ditadura que se instalasse.

São sempre os mesmo do costume. Os mesmos não, são outros, mas a porcaria é a mesma, que aproveita o descontentamento de alguns. As palavras de ordem destes megalomaníacos da politiquice apartidária que afirmam não ter partido e que agem por conta própria, mas militam em partidos cujo objetivos já se conhecessem…

Há ambições para tudo e há que começar por algum lado e este a que me refiro é ambicioso e, confessa que  acha mesmo um "ultraje" a forma como os portugueses estão a ser tratados por este Governo e não esconde estar "profundamente indignado" com o que tem assistido (tem a ver com as medidas de emergência tomadas pelo Governo). Este possesso não vê o que se está a passar por toda a Europa devido à covid-19 metendo a cabeça na areia para depois a levantar para tecer uma verborreia sobre o caso em Portugal.

Objetivos: nenhuns, apenas protestar. Protesta e diz que quer manter os protestos fora da esfera partidária é uma questão estratégica. Diz ser contra os políticos, mas afirma ser militante do Chega. Como muitos outros que por aí andam diz que agiu sozinho e que as “sociedades estão fartas dos partidos”. Atente-se bem nesta frase. Não são as pessoas que estão fartas de partidos, são as sociedades. Abrangeu as sociedades no seu todo e generalizou.  Todas estão fartas de partidos. O que podemos inferir daqui?

Os partidos são parte integrante das democracias, não há democracias sem partidos, logo, ele, o dito jovem, defende ditaduras para as sociedades, logo, para Portugal também. Mas se o inflamado jovem militante de um partido diz estar farto de partidos e de políticos então o que está a fazer no partido onde milita? Será que apenas o partido dele é que tem validade e do qual não nos devemos fartar? Estranho pensamento este que garante que agiu sozinho e que "despiu a camisola" para avançar com esta causa. Qual causa? A dele ou a do partido dele?

São meninos como este que, para justificarem o seu desinteresse seguem este que por acaso, (só por caso), é do Chega e está solidário com os empresários e trabalhadores da restauração porque tem um primo que tem um hotel, e que “sozinho” "despiu a camisola" e organizou uma manifestação “apartidária”. São indivíduos como este, os do costume, os necrófagos das democracias. São indivíduos e jovens como este que, na eventualidade de um partido fascista ou de extrema-direita tomasse o poder estariam de imediato nas suas fileiras, pagos pelo regime, para trucidar quem fosse pela democracia ou fizesse oposição à ditadura que se instalasse.

E cá estou eu a fazer futurologia. Caso se concretizasse, o que ele, o jovem, tanto anseia, será deixar de haver partidos, e dar lugar à política que ele diz não querer e vai fazendo críticas aos media: "abaixo os jornalistas" e de seguida surgem os primeiros pedidos de demissão, que arrancam pela ministra da Saúde, logo a seguir vem a diretora geral e, no final é a vez de "Governo para a rua" e de "António Costa, demissão, demissão". Se os seus pedidos fossem concretizados que é que ele proporia para um governo, visto que as pessoas estão fartas de políticos e de partidos?

Segundo o Expresso “Há ainda uma confusão no ar sobre o objetivo do protesto e os jornalistas perguntam qual a relação desta manifestação com a que, mais abaixo no Rossio, reúne responsáveis da restauração, hotelaria, turismo e cultura. José Maria chega e vai direto ao assunto. "Não tenho nada a ver com a “restauração”. Tenho um primo que tem um hotel, mais nada", diz ao Expresso. "Estou aqui porque estou chocado com o que se está a passar".”

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publicado às 19:36


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