Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Eleições e indecisões.png

Os comentários que se seguem aos debates é suposto serem feitos por jornalistas credenciados e cada um com a sua orientação ideológica. A meu ver tenho constatado que a isenção e a independência, sobretudo na SIC, não são os pontos fortes dos intervenientes nos paneis de comentário.

Sou dos que considero que a comunicação social deve ter um papel relevante na critica e no escrutínio público do poder e, ao mesmo tempo, ter a liberdade de expressão e de opinião que devem ser estimuladas dentro dos limites da civilidade, da educação, da tolerância e de respeito pelo caráter de cada um.

Naquele canal televisivo os comentadores Ricardo Costa, José Gomes Ferreira e Bernardo Ferrão nos seus comentários tentam fazer passar para os telespetadores uma perceção de distanciamento ideológico, mas, para quem esteja atento aos pormenores, notará que incluem cirurgicamente pequenas "alterações”, provavelmente intencionais, ao significado ou às circunstâncias de um facto que possa sugerir algo em desabono do governo socialista e de António Costa.

Com a proximidade das eleições notam-se mais estas pequenas campanhas detratoras por via de jornalistas e comentadores. São opiniões, dirão. Certo. Mas também nos comentários sobre acontecimentos da política que se relacionem com a justiça e com a economia tiram da cartola algo do passado que introduzem no confuso emaranhado das lógicas em que se embrenham fazendo campanha e oposição partidária ao abrigo de fazer jornalismo. Não admira, têm que estar sintonizados com a “voz dos donos”. É normal.

Os jornalistas também são eleitores e terão as suas simpatias ideológicas e partidárias e alguns não as escondem, pelo que tentam fazer comentários positivos aos políticos do seu círculo ideológico-partidário e negativos para outros candidatos concorrentes colocando-os nos pratos de uma balança. Comentar desfavoravelmente a prestação de um interveniente político num debate que seja da simpatia do comentador pode favorecer o seu preferido em prejuízo do adversário.

Dou um exemplo como hipótese: quem estiver a comentar um debate entre, por exemplo, a líder do BE Catarina Martins e o líder do PSD Rui Rio poderá emitir uma opinião em que a prestação do BE foi mais bem conseguida do que a do PSD evidenciando os argumentos do BE ao fazer críticas ao PS. Assim, ao concordar com a crítica feita pelo BE ao PS potencialmente posso estar a condicionar pela negativa potenciais eleitores do PS que irão para o BE já que é pouco provável que haja eleitores do BE que irão votar PSD mesmo considerando a critica feita ao PS. Mas, pelo contrário, é mais provável que estes mesmos possam votar no PSD.

Como é possível em debates como os que temos visto entrar com pormenores que podem ser tecnicamente relevantes, mas que só contribuem para ruído e compressão da mensagem. Quanto a avaliações, tenham paciência! Catem também as falhas de pormenor nas narrativas de Rui Rio.

A obtenção de mais votos e, consequentemente, de deputados é, em quaisquer eleições, o grande objetivo dos partidos. Para as eleições que se irão realizar em 30 de janeiro há um outro objetivo que se apresenta: o do BE e do PCP é retirar votos ao PS para evitar que este tenha uma maioria absoluta.  Para a direita, no caso do PSD, o objetivo é o de conseguir mais votos alguns retirados ao PS.

Para os liberais de direita e para os extremistas de direita o objetivo é arrecadar mais votos, logo conseguir mais deputados, venham eles donde vierem, para que possam exercer pressão sobre o PSD para negociações pós-eleitorais. Para os partidos à esquerda do PS, chamados de extrema-esquerda, o objetivo é a obtenção de números de votos para pressionarem o PS a uma nova negociação.

Por entre estas competições para a obtenção de votos há também obsessões. A de Rui Rio, de Catarina Martins, marioneta do ideológico trotskista Francisco Louçã, do troca-tintas de André Ventura do Chega é o reconhecimento, mas que não dizem, de que António Costa é um político inteligente e competente que receiam e, por isso, jogam tudo para afastá-lo. É a pessoa de António Costa que é o político, o primeiro-ministro, o secretário-geral do PS e o defensor da democracia e do socialismo liberal constitucional que pretendem afastar.

O BE espera que, com o afastamento de António Costa, possa surgir um novo líder do PS como Pedro Nuno dos Santos que ceda ao BE e ao PCP e constitua uma nova geringonça caso a direita ganhe sem maioria, ou o PS perca as eleições. Só uma maioria absoluta do PS poderá ter a capacidade para afastar essa possibilidade.

O que todos temem por motivos diferentes, mas sobretudo o PCP e o BE, é que o PS liderado por António Costa possa conquistar uma maioria absoluta de deputados nas próximas eleições, que lhes tiraria a possibilidade de limitar e bloquear decisões fundamentais e a continuação de uma governabilidade estável do país para quatro anos.

No campo meramente de competição, para Rui Rio, António Costa é uma obstrução na engrenagem que o poderá elevar até ao poder. Está a ficar mais claro que para Rui Rio chegar ao poder precisa dos votos que possam vir de quem votou anteriormente PS e das franjas da direita que saiam das eleições para poder contar com uma maioria parlamentar, não negando em absoluto a possibilidade de também contar com os deputados do Chega.

No momento em que escrevo uma das últimas sondagens dá uma maioria de esquerda com algumas possíveis nuances. Segundo esta sondagem feita para o jornal Público, RTP e Antena 1 o PS conseguirá obter um mínimo de 104 deputados e um máximo de 113, neste caso a três lugares da maioria absoluta no Parlamento e podendo fazer negociações parlamentares com o PAN e o Livre, como defende Rui Tavares. Mesmo no cenário dos 104 deputados continua a existir uma maioria de esquerda com o BE, CDU, Livre (elege um deputado em qualquer dos cenários) e o PAN. Assim, a direita cresce, mas não ganha. O PSD em caso algum consegue uma maioria de direita para governar – nem no cenário mais otimista, nem mesmo com quatro deputados do PAN. Se assim acontecer Rui Rio vai confrontar-se, mais uma vez, com a oposição dentro do partido.

Mais do que uma maioria do PS é mais de temer uma maioria absoluta do PSD. Rui Rio apesar de se dizer do centro facilmente irá infletir para a direita por pressão da ala mais à direita do partido. Só PS ao conseguir uma maioria confortável nas eleições se pode libertar-se do jugo do PCP e, sobretudo, do BE ao mesmo tempo que poderá também influenciar Rui Rio a manter um rumo diferente. Note-se que para o caso duma revisão constitucional serão necessários dois terços de votos dos deputados.

O que Rui Rio propõe é uma espécie de continuação do modelo social que o governo de Coelho/Portas estabeleceu de 2011 a 2015, mas numa versão mais light.

Pode ser uma versão menos radical, mas, do mesmo modo, pelo que tem vindo a reclamar de modo mais ou menos astucioso é um modelo baseado na redução de impostos às empresas, de salários, do Estado Social, da tendência para a privatização da Saúde, da Educação, Segurança Social, etc., e tudo o mais que a fação mais neoliberal do PSD irá impor a Rui Rio que irá originar o agravamento das condições económicas, financeiras e sociais que se conhecem até que, segundo o próprio, haja crescimento económico. Podemos até concordar com alguns pontos mas o modelo que apresenta pode ser ajustado à realidade portuguesa e de com uma progressão e ritmo adequados seguindo uma outra via.

Tudo isto apesar de, em termos pessoais, apreciar a atitude de Rui Rio como político franco, aberto, por vezes realista, mas outras vezes demagogo e cheio de condicionais “ses”, que capta simpatias, que pretende ser do centro e não de direita, mas lá vai piscando o olho à direita e ao votantes do centro-esquerda verdadeiro partido social-democrata que é o PS em termos de comparação europeia como o Grupo do Partido Popular Europeu a que pertence o PSD e Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Sociais Democratas Parlamento Europeu a que pertence o PS.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:18

 

  

Será a censura que incomoda Pacheco Pereira? | Nota da Direcção | PÚBLICO

O que revelam os debates

A racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates.

José Pacheco Pereira num artigo de opinião publicado no jornal Públicode faz uma análise dos debates que, de certo modo, coincidem com os meus pontos de vista enquanto telespectador atento.

Os intervenientes nos debates partidários, assim como os comentadores que se lhes seguem, preocupam-se mais com pontos de vista efémeros do que com a verdade e a isenção, sobre assuntos muitas vezes longe das suas áreas de competência profissional. São uma espécie de relatores do que se viu, mas, de acordo com a sua idiossincrasia ideológica e partidária avaliam positivamente os intervenientes que mais dela se aproxima podendo assim influenciar o público o sentido de voto.

O que revelam os debates

(José Pacheco Pereira, in jornal Público, 08/01/2022)

A racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates.

Numa campanha eleitoral que se passa quase exclusivamente na comunicação social, os debates televisivos, mais de 30, acabam por ter mais importância do que se fossem mitigados por eventos de campanha, que a pandemia hoje não permite. (*) Já escrevi e repito, apesar da fúria de alguns jornalistas e gente de agências de comunicação que precisa de os bajular: uma campanha eleitoral totalmente dependente da comunicação social abre caminho a perversidades. Não se trata de mediação, que é suposto ser uma função fundamental da comunicação social, trata-se de opinião, de manipulação, de parti-pris, simpatias e antipatias escondidos sob a intangibilidade da condição profissional. Não é preciso ir mais longe do que a recente campanha interna no PSD em que a maioria dos jornalistas e órgãos de comunicação social fez campanha por Paulo Rangel e contra Rio. A coisa foi tão evidente que não é preciso dar exemplos, mas, se for preciso, abundam.

Os debates, quando não têm um interlocutor suplementar que interfere de forma agressiva no debate, prejudicando-o (como se passou em debates da SIC em que parecia que havia um terceiro participante na campanha), na parte em que há um genuíno frente-a-frente são reveladores e podem ter um papel na opinião traduzida no voto. Eles revelam, em primeiro lugar, as qualidades e defeitos pessoais dos antagonistas, traços de carácter por detrás da encenação, o que sabem ou não sabem, a inteligência, a capacidade de clareza, a riqueza vocabular, a cultura política ou a sua ausência, a experiência e aquilo a que os sociólogos chamam background assumptions, as ideias, preconceitos, gostos, que estão por detrás do discurso público. Nisto os debates são razoavelmente eficazes, e a logomaquia dos comentários posteriores pode ser útil na sua revelação e escrutínio.


É, no entanto, verdade que essa torrente de comentários, mesmo os melhores - porque muitos não têm pés nem cabeça e resultam em “notas” absurdas para mostrar como são originais os “professores” ou são exercícios de La Palisse –, se tornam em grande parte desnecessários porque os espectadores apreendem com facilidade este aspecto da comunicação, que é empático e por isso imediatamente transmissível. Por exemplo, a frieza de Catarina Martins e Rui Tavares, o cansaço de Jerónimo, a habilidade de Costa, os labirintos em que se enreda Rio, a agressividade monocórdica de Ventura, tudo isto se percebe de imediato, seja quais forem as simpatias que se tenha por cada um deles.

Depois, há um outro nível, que é o da racionalidade, normalmente num exercício de “revelação” do outro, em que o grande e o único exemplo foi o de Rui Tavares face a Ventura. Mas a racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates. Quando Cotrim de Figueiredo disse que o Bloco de Esquerda era o “Bloqueio de Esquerda”, designação trazida no bolso de casa, acabou por conseguir que ela fosse repetida nos títulos comunicacionais – porque era para isso que tinha sido preparada –, mas por outro lado mostrava que nada mais do que dissera valia a pena repetir.

Ventura, que foi a personagem-chave nos primeiros debates pelo estilo agressivo, pareceu dominar, mas esse aparente domínio revelou algo que lhe é prejudicial, a repetição de acusações, invectivas, afirmações de peito cheio, mas de cabeça vazia, vai perdendo eficácia à medida que os debates com ele são sempre a mesma coisa. O seu único sucesso foi com Rio, que ele enredou em directo, com todos os outros ficou a falar sozinho, sem ter nada para dizer. Também aqui o debate mais conseguido foi o de Rui Tavares.

Aquilo para que os debates pouco servem é para discutir propostas ou programas de governação, com o tempo curto de mais para pensar e discutir a sério. Numa atitude hipócrita, a comunicação social está sempre a queixar-se de que não se discutem os “problemas dos portugueses”, porém aceita um modelo que impede qualquer discussão, mas que é bastante para o espectáculo, para os truques e armadilhas preparados. A rigidez da legislação eleitoral tem também um papel, ao multiplicar de forma absurda o número de debates para assegurar artificialmente a igualdade das candidaturas.

Há também um outro aspecto que é negativo nos debates tal como estes se têm desenvolvido. A obsessão de os transformar em combates, que é comunicacionalmente mais atractivo, impede que se tracem as “linhas vermelhas” com propostas antidemocráticas que o crescendo populista está a colocar em cima da mesa. Ora o populismo é a grande novidade na vida política portuguesa.

Não adianta chamar fascista a Ventura, que não o é, mas sim um extremista de direita, que já basta como epíteto e é mais correcto, mas já se ganhava alguma coisa se ele fosse confrontado com as suas propostas antidemocráticas que ele debita como se fossem “normais”. Um exemplo é a de “cortar” os lugares de “políticos” pela metade, ou a de cortar os salários dos deputados para metade, que parecem populares, mas que são intrinsecamente antidemocráticas. Alguém lhe explica que nos milhares de lugares “políticos”, nas autarquias, por exemplo, a esmagadora maioria não são remunerados, mas o sinal de uma dedicação à causa pública, ou uma democratização da participação popular? Ou que a demagogia sobre os salários dos políticos, conduz a que haja apenas candidatos desqualificados para quem qualquer salário é bom, ou lobistas ricos com rendimentos que não precisam de ganhar um tostão para beneficiar do acesso ao poder? Ou pura e simplesmente dizer-lhe que numa democracia há o primado da lei, e que as garantias de defesa e do ónus da prova são para todos, assassinos e corruptos incluídos. E que penalizar os “crimes de colarinho branco” com o dobro das penas dos assassinos é uma perversão da justiça, por muito que os seus apoiantes salivem com os “casos” de corrupção e se revelem indiferentes aos crimes de ódio. Em tudo isto e muito mais, tem havido falta de coragem para confrontá-lo, porque estas posições só são populares quando não se combatem com a intransigência da democracia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:31

Debates com orangotangos.png

Li hoje um artigo de opinião no jornal Público que me pareceu ao mesmo tempo sério e com algum humor pesando, contudo, que há pontos com que não concordei. Mas isso é outra dança.

Permitam-me, previamente, esclarecer os leitores que não tenho quaisquer simpatias ideológicas nem com a opositora Catarina Martins, parte interveniente no debate, nem com o seu partido.

Há intervenientes nos debates que se comportam e exprimem como orangotangos. Isto é uma caricatura e não um ataque pessoal, nem ao caráter, mas à forma que essa gente utiliza nos debates. Também Trump nos debates com Biden se comportou como um orangotango, compara a autora do artigo.

Sei que muitos outros orangotangos, fiéis subservientes do orangotango mor, não concordarão comigo, mas ficamos quites, também não concordo mesmo nada com eles, se concordasse também pertenceria ao grupo dos ditos.

Há quem aprecie e valorize intervenientes nos debates políticos em que, à falta de projetos objetivos, e de argumentos credíveis e fundamentados, servem-se de grunhisses para fazer passar as suas mensagens. Mas, “Debater com demagogos populistas, sem educação, maneiras ou escrúpulos, que querem precisamente não debater, não é fácil”, tal como não seria fácil debater com um orangotango.

Posto isto incluo o artigo que fará os tais fiéis adeptos de peixeiradas vibrar de raiva e de ódio, único sentimento que lhes assiste. Mas também reconheço que no intervalo dos grunhidos alguma coisa, mas muito pouca, poderá ser percetível. Mas, enfim, há gente para gostar de tudo e, como diz o ditado cada cabeça sua sentença, e esta é a minha.

 

Quero alguém que saiba debater com o demagogo sem maneiras

(Maria João Marques, in jornal Público, 05/01/2022)

Nestas legislativas teremos pouca campanha de rua, à conta da quinta vaga de uma pandemia que anda por aí. Donde, os debates entre candidatos são úteis – essenciais mesmo – para passar mensagens, diferenciar projetos políticos, confrontar ideias, arrebatar eleitores. Porém, desta feita, temos uma novidade: o líder do Chega, repetindo a estratégia das presidenciais. A saber: estragar os debates em que participa.

Dos dois debates que vi com André Ventura, este portou-se como aquele miúdo parvo e abusador que vê um colega no recreio a desenhar e vai lá e risca a folha e o desenho todo. Há quem julgue esta estratégia vencedora. Não é. Os eleitores veem só o miúdo parvo, nenhum génio político. Tirando o pequeno nicho que se deleita com políticos comportando-se como orangotangos (sem ofensa para os orangotangos), os restantes veem à légua a fanfarronice de fazer muito barulho para, precisamente, não debater. O objetivo é pôr-se de fora e boicotar uma característica do regime que alegadamente pretendem destruir: os debates (mais ou menos esclarecedores) antes de cada eleição.

Claro que a estratégia não é nova, nem foi inventada por Ventura, político que de resto não tem muita criatividade própria e vai buscar quer o conteúdo quer a forma aos seus superiores – copia o já desaparecido Trump e defende obedientemente o que lhe mandam os seus financiadores. Trump, no primeiro debate com Biden para as presidenciais de 2020, também transformou o exercício numa gritaria a que a comentadora Dana Bash famosamente chamou shitshow. Nessa altura também houve quem garantisse que os urros de Trump ganharam a um aparentemente frágil Biden. Não percebem que estes produtos políticos como Trump e Ventura se derrotam a si próprios nos debates (e na política em geral).

Em todo o caso, se Ventura e Trump se arrumam a si próprios pelo nojo e desprezo que geram na maioria, o certo é que os parceiros de debate também ficam com o desenho todo riscado. Foi o que aconteceu a Catarina Martins e a Rui Rio. Em ambos, quem determinou os temas dos debates foi Ventura – ao lançar as suas atoardas, dislates, mentiras, ataques pessoais (estes só para Catarina Martins, que é mulher, e os homens como Ventura sentem-se importantes quando atacam mulheres; já com Rio, o desejado futuro chefe, convinha não atacar pessoalmente; e os homens como Ventura também usualmente têm medo de atacar outros homens). As duas contrapartes aceitaram passivamente responder a tudo o que Ventura lançava para o debate, por mais alucinado que fosse. Ao invés de debates, tivemos uma espécie de entrevistas hostis de Ventura aos seus oponentes. Foi penoso.

Catarina Martins lá marcou o seu ponto aqui e ali. Falou da ambiguidade do Chega nos “vistos gold” e offshores. Lembrou que a maioria dos que recebem apoios sociais são mulheres pobres e crianças; e reputou de “cruel” a atuação do Chega nos Açores ao cortar estas ajudas. Se esteve bem em não descer ao nível subterrâneo de Ventura, é incompreensível não ter ripostado (perante as várias acusações de ter faltado a votações) que Ventura está no pódio dos deputados faltosos. Foi insuportável como permitiu ser interrompida constantemente, em pose de carneiro sacrificial, ao invés de lhe dirigir um imperioso “não me interrompa”. Tendo em conta o fenómeno estudado de mulheres permanentemente interrompidas em reuniões (e debates), é intolerável ver tal coisa replicada sem resposta na televisão. A moderadora (e bem) repreendeu Ventura, mas Catarina Martins perdeu a oportunidade de dar uma de Kamala Harris com o seu “I’m speaking” quando Mike Pence a interrompia no debate dos vice-presidentes.

Rui Rio foi ainda mais surpreendente. Se rejeitou acordos e coligações, deu o exemplo do errático Chega nos Açores, mencionou que votar no Chega em vez de no PSD era ajudar à vitória do PS, no resto do tempo foi outro cordeirinho respondendo àquilo que Ventura exigia. E assim tivemos um líder da oposição, candidato a primeiro-ministro, com possibilidades de ganhar as eleições, falando de temas inúteis como a diminuição do número de deputados (temos um número de deputados perfeitamente adequado ao tamanho da população comparativamente às outras democracias europeias) ou indo mesmo, todo contente, para assuntos perigosos como os abusos dos apoios sociais (isto vindo do partido que votou para criar apoios sociais para acudir a vários grupos afetados pela pandemia, numa coligação negativa contra o Governo) ou prisão perpétua.

Das duas, uma. Ou Rui Rio estava com grande vontade de irritar o eleitorado centrista que lhe pode ganhar as legislativas, tudo para ir buscar meia dúzia de votos aos simpatizantes da extrema-direita; ou está bastante confundido, julgando que os problemas mais importantes do país são a quantidade de deputados, a inexistência de prisão perpétua, os abusos das migalhas do RSI e quejandos. Incompreensível como Rio, lá pelo meio do debate, não disse que julgava mais útil debater economia, alterações climáticas (dois temas que lhe são caros), como remendar o SNS, aplicação dos fundos de recuperação pós-covid, enfim, os assuntos que de facto têm influência na vida das pessoas. Para explicar as suas ideias. E para evidenciar que nestas áreas Ventura fica sem ter que dizer.

Nenhum atirou a Ventura que discussões securitárias são pouco relevantes num dos países mais seguros do mundo. Que a corrupção não se combate com medidas histriónicas de faz de conta como a duplicação do tempo das penas – porque o problema não é a duração destas mas praticamente não existirem acusações nem condenações por corrupção (seja qual for a pena). As campanhas milionárias onde o Chega desbarata dinheiro como se não houvesse amanhã. Um largo etc. Não. Passou sem escrutínio.

Debater com demagogos populistas, sem educação, maneiras ou escrúpulos, que querem precisamente não debater, não é fácil. Concedo. De todo o modo, os que debatem com Ventura ou se preparam para não deixar a conversa enredar-se nos temas de estimação do Chega, e atacam as muitas fragilidades de Ventura, ou mais vale seguirem o exemplo do PCP. Ventura é um político risível, cheio de vulnerabilidades a que se pode atirar, o único talento que tem é para a histeria, foi ao tapete em vários debates nas presidenciais. O problema nem é Ventura ganhar votos com os debates, que não ganha. Mas os outros perderem eleitores à conta da falta de habilidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:01

A direita destrambelhada e as tetas da vaca

por Manuel_AR, em 30.06.21

Teta da vaca-2.png

As direitas acusam o PS de estar a e a apoderar-se e a ocupar as estruturas do Estado. Mas qual é o objetivo dos partidos senão o da conquista do poder e o controle absoluto das estruturas estatais, utilizando todos os meios que a democracia lhes possibilita, para alimentar clientelas partidária?  É o jogo de sais tu para ir para lá eu. Quando a teta da vaca é só uma todos querem a sua mamada.

A covid-19 veio causar no povo uma inércia no pensamento político restringido a protestos pela falta de liberdade, de sociabilização e de diversão pelos confinamentos e restrições imposta pelo Governo por motivo de preservação de saúde pública que muitos veem como atentados às liberdades individuais e à intervenção coletiva.

Da esquerda à direita, cada um à sua maneira, por motivos diversos, têm clamado, com mais ou menos vigo,r contra o que alguns chamam atentado às liberdades. Pretendem incutir na sociedade a perceção de que a pandemia pode servir como tentativa de limitação das liberdades democráticas, insinuando até, que, à boleia da pandemia, o governo está a querer minar a democracia à semelhança de outros países, como tem perpassado pelas redes sociais o que não é  mais do que um dos disparates que se divulgam através daqueles canais vulgarmente conotados com as direita radicais.

Há um exemplo que ajuda a caraterizar muito bem o ponto de vista de alguns partidos da direita que manifestamente se mostram contra as restrições impostas devido à Covid-19 que são evidência demagógica e demonstrativa do seu desprezo pela saúde pública. Um dos exemplos é veiculado pela IL – Iniciativa Liberal num cartaz colocado em Lisboa na Alameda Afonso Henriques, (esteve lá meses e foi retirado à cerca de uma semana), na altura em que a pandemia se encontrava no seu ponto alto e a expandir-se, onde se podia ler “Libertem a Infância” e “Abram os parques infantis”.

Declarações e casos como este mostram o valor que essa agente dá à saúde colocando a população em perigo em nome de uma “liberdade” egoisticamente individual desdenhando da saúde pública e do cumprimento dos requisitos científicos e legislativos aplicáveis e pertinentemente adequados em caso de emergência pública.

Cartaz Iniciativa Liberal.png

Se a IL estivesse no poder saberíamos com que contar, teríamos a mesma política sanitária que Bolsonaro tem praticado no Brasil.

Na ótica das alianças partidos da direita que se juntem, ou façam aliança com o CHEGA de Ventura e quejandos, mostram a sofreguidão do poder e enquadram-se perfeitamente naquele provérbio popular que diz “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem tu és”.

O PSD e o CDS enquanto não decidirem deixar de fazer oposição com casos e casinhos, sem rumo e sem um projeto coerente e que sejam uma alternativa credível ao governo do PS, não abandonarem soluções que passem por alianças com a extrema-direita não se livram da fama sem obterem disso qualquer proveito.

Acordos e compromissos com a extrema-direita além de serem vulneráveis à crítica têm de mostrar que é vantajoso para ambos para não ser entendido como capitulação pela direita e centro-direita, refiro-me, claro está, à tendência que Rui Rio tem mostrado em relação ao partido CHEGA seja diretamente, seja por aproximação a candidatos que se encontram entre um e outro, coisa bastante estranha. Veja-se o caso da candidata à Câmara da Amadora Suzana Garcia pelo PSD que  aceitou o convite depois de ter andado hesitante entre os convites do CHEGA e de Rui Rio.

As direitas andam destrambelhadas, cindem-se, criam novos partidos e movimentos, militantes de partidos do centro desligam-se e criam partidos de extrema-direita, veja-se o caso de André Ventura, obra de Passos Coelho por ocasião das eleições autárquicas de 2017 em que o CDS-PP deixa cair André Ventura e o PSD lhe mantém o apoio.

As afirmações feitas por André Ventura sobre a comunidade cigana levantaram à data muita polémica que levou o dirigente do CDS, Francisco Mendes da Silva, a não ficar calado disparando na altura uma feroz crítica nas redes sociais: “Não há praticamente nada que André Ventura diga que eu não considere profundamente errado, ligeiro, fruto da ignorância e de um populismo que tanto pode ser gratuito, telegénico ou eleitoralista. Já o vi falar de tudo e mais alguma coisa, em muitos casos de assuntos que conheço técnica e/ou factualmente. Nunca desilude na impreparação e no gosto em ser o porta-estandarte das mais variadas e assustadoras turbas. Se perder, tudo bem: que nem mais um dia o meu partido fique associado a tão lamentável personagem.”, enquanto o PSD de Passos Coelho fazia orelhas moucas. Ventura foi um derrame da fervura do caldo de cultura neoliberal e de direita mais radical criada no PSD de Passos Coelho.

Em maio decorreu uma reunião/convenção de “amigos”, o Movimento Europa e Liberdade (MEL), o mesmo que é dizer convenção das direitas, que conseguiu juntar, pela primeira vez, os quatro líderes partidários do espaço não socialista, PSD, CDS, IL e CHEGA onde tentaram mostrar que há pontes de diálogo entre os vários partidos. Defendendo Rui Rio que "o PSD não é um partido de direita", reiterando o posicionamento "ao centro" que tem defendido e acrescentando que se a convenção do MEL fosse "um congresso das direitas" provavelmente "era barrado à entrada".

Nesse encontro o líder do Chega, André Ventura, foi aplaudido à entrada na sala e sentou-se junto a Passos Coelho, que o aplaudiu no final. O significado deste ato poderá ter vários sentidos. No seu discurso quando subiu ao palco disse que “Rui Rio não tem conseguido fazer o seu papel de oposição à direita e que não há possibilidade nenhuma de governo à direita sem o CHEGA”. Não se percebe que haja pontes com partidos de extrema-direita xenófoba e racista como o CHEGA.

Não é um congresso das direitas democráticas, mas elas lá estavam. Se revirmos os programas escritos, mas não publicitados de alguns dos partidos da MEL como o IL e o CHEGA podemos confirmar a sua posição no leque ideológico. O Iniciativa Liberal defende a liberalização total da economia propondo, por exemplo, no caso da educação e da saúde dois sistemas paralelos: um para os pobres, sem condições, e outro para quem possa pagar a expensas próprias as despesas de saúde ou pagar os prémios de seguro exorbitantes pedidos pelas companhias de seguros que se agravam à medida do envelhecimento dos segurados.

O programa do IL é demagógico, ambíguo e inexequível. Quando fosse aplicado, se o fosse, os que nele votaram já estariam todos mortos. Seriam votos em vão, tal a impossibilidade a curto prazo no nosso país. O programa da IL é apenas um programa de manobra de distração e para apresentar quando do pedido de legalização do partido.

Para o mundo do trabalho na visão da IL há dois patamares de indivíduos: aqueles a que chamam empreendedores e os outros, os que ficariam submetidos às regras da oferta e procura como qualquer mercadoria. Para a IL Portugal seria um país dividido entre os ricos e os pobres. Os primeiros, os que criavam riqueza os segundo os que lhe proporcionariam a riqueza entre os quais muitos ficariam para trás.

Para a IL acabar-se-ia com o imposto progressivo e o que cada um pagaria seria os mesmos em termos percentuais fossem ricos ou pobres.

No capítulo do emprego do dito programa a contradição e a ambiguidade são patentes, basta ler o ponto introdutório:

“No mercado de trabalho, insiste-se num combate à “precariedade” muitas vezes em detrimento da criação de emprego, e consequente aumento da liberdade de escolha de ocupação. Quantos de nós, presos a um sistema criado para toda a vida – quer do lado do emprego, quer do lado das obrigações – não temos capacidade para ser livres e arriscar fazer mais, construir algo diferente. O que nos retira a mobilidade social, e a esperança de construir um futuro melhor.”.

“Estamos, num certo sentido, agrilhoados para a vida a um emprego e a pagar as contas com que o Estado está a contar.”

Pergunta-se desde quando é que alguém, no sistema liberal atual, fica agrilhoado a um emprego para toda a vida? Podemos concluir que o verdadeiro significado é a liberalização total dos contratos de trabalhos com articulações que possibilitem aos “empreendedores” quaisquer despedimentos incondicionais, ou seja a liberalização total do mercado de trabalho.

Mas há mais no local das promessas a que dão o título de “queremos” sem se perceber como serão concretizadas:

            Queremos:

“Aumentar a liberdade contratual, mantendo standards de salários… Defender um seguro mínimo universal de desemprego em substituição do atual sistema de SS – Segurança Social; baixar os encargos sociais para emprego de longa duração, tornando-o competitivo.”. Seguro mínimo universal a ser pago por quem? Pelo trabalhador, claro está!

Não se percebe o que se entende por “standards” de salários nem outros pontos do programa da IL. Seria exaustivo estar aqui a enumerar e a comentar o dito programa. Para saber mais basta consultá-lo com espírito crítico para se perceberem as armadilhas da aplicação.

As direitas acusam o PS de estar a querer dominar e a apoderar-se das estruturas do Estado, mas qual é o objetivo dos partidos, senão a conquista do poder e o controle das estruturas estatais e o controle absoluto utilizando todos os meios que a democracia lhes possibilita. É o jogo do, sais tu para ir para lá eu. Quando a teta da vaca é só uma todos querem a sua mamada.

Nota Final: A imagem reproduzida no início, podendo ter uma conotação anti partidos e antidemocrática, não foi esse o sentido que o autor lhe pretendeu dar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:04

Populismo3.png

Em Portugal sempre existiu populismo, embora contido, nos vários partidos, sobretudo em tempo de campanha eleitoral. Nessa altura regressam à tona  partidos mais radicais que, não tendo programa exequível, tentam demonstrar contradições do sistema e procuram a explorara a distinção entre dois grupos antagónicos: um, virtuoso e maioritário, o povo, que todos exaltam e outro que diz defender procurando ganhar vantagens com o apelo a reivindicações ou preconceitos amplamente disseminados entre a população utilizando as redes sociais.

Nessas alturas os dirigentes partidários apelam às emoções, o que é legítimo, porque a política também é feita de emoções, todos os políticos tentam utilizar uma linguagem emocional e tentam apresentar propostas que agradem aos eleitores.

Por outro lado, o desinteresse pela política por parte dos cidadãos, porque acham que a discussão política é para meia dúzia de iluminados dos partidos que lutam entre si para chegar ao poder, é um outro fator explicativo.

Quais as implicações de aceitar de forma cega tudo o que se diz e escreve nos órgãos de comunicação clássicos e, sobretudo, nas redes sociais e quais as consequências dessa aceitação devido ao desvario das populações que o reproduzem acriticamente de forma viral? 

Governantes de países passaram a utilizar a tecnologia das redes sociais para comunicar com as pessoas e que por serem governantes o que eles dizem são aceites pelos seus apoiantes como verdades e opiniões a serem aceites ou desmentidas transformando verdade em mentiras e mentiras em verdades. Mentiras e informações falsas colocadas nas redes sociais até mesmo em conferências de imprensa ditas por responsáveis máximos da política dos países são por muitos tomadas como verdades, o caso do Presidente Trump nos EUA é um caso de estudo.

Em Portugal passou a estar também na moda dirigentes partidários e responsáveis do Governo comunicarem através das redes sociais. Os partidos da extrema-direita são prolíferos na propagação do populismo e das suas mais absurdas teses.

Após as eleições nos Açores o acordo com o Chega gerou polémica que emergiu na comunicação social e nas redes sociais que deu, e ainda está a dar, para todos os gostos. Numa primeira análise o PSD caiu, por vontade própria, na armadilha de se apoiar num partido populista como o Chega dando-lhe o protagonismo que até então lhe tinha faltado para além das caóticas intervenções de André Ventura na AR. Não é por acaso que os populistas utilizam uma retórica para chegar a segmentos da população que sentem que foram deixados para trás pelos dois maiores partidos e que se deixam, devido á sua ignorância política, encantar por discursos simplistas e chavões fáceis de fixar repetidos até à exaustão.

Como tem sido habitual ao longo de décadas as inovações e modas em sentido lato, sejam elas boas ou más, chegam com anos de atraso. O mesmo aconteceu com o populismo da extrema-direita que se pensava ser pouco ou nada representativa na nossa sociedade e que Portugal estaria a salvo, muito embora soubéssemos que andavam por aí acantoados em partidos de direita e do centro-direita considerados democráticos e que fazem parte do denominado arco da governação.

Aliás, os partidos populistas e da extrema radical de direita estiveram sempre presentes na maior parte dos países, especialmente na U.E., não se extinguiram após a derrota do nazismo e dos fascismos, apenas ficaram adormecidos durante algumas décadas vindo a ressurgir.

O fenómeno do populismo associado ao próprio conceito não é fácil de caracterizar embora vários especialistas já tenham proposto várias definições. Na perspetiva do filósofo e historiador britânico de Isaiah Berlin não há apenas um populismo, há versões do mesmo “consoante a mudança histórica que sublinha a natureza específica do desenvolvimento do populismo em países, locais e datas específicas”. Acha que uma única fórmula para cobrir todos os populismos em todo o lado não serão muito úteis.

O interessante foi que Berlin comparou ao conto da Cinderela a tentativa de definir populismo através de uma única definição. Diz que não devemos sofrer de um complexo de Cinderela. Há um sapato, para o qual deve existir um pé em algum lado. Há vários tipos de pés nos quais os sapatos “quase” se encaixam. O príncipe que anda sempre a vaguear com o sapato acredita que um dia encontrará o pé certo.  Esse será o populismo puro e a sua essência.

Para Isaiah Berlin “Todos os populismos são derivações do mesmo, desvios do mesmo e variantes do mesmo, mas algures por aí esconde-se um verdadeiro e perfeito populismo, que pode ter durado apenas seis meses, ou [ocorreu] em apenas um lugar”. Consultar BERLIN, Isaiah – «To define populism»., 1967, p. 6.

O populismo reclama ser pela afirmação dos direitos do povo face ao grupo dos interesses privilegiados, considerados habitualmente como inimigos do povo e da nação, dirige as suas críticas às deficiências da democracia representativa que diz não refletir o pensar e o querer do povo.  Veja, por exemplo, o caso do partido Chega e o género de intervenções feitas por André Ventura e os estribilhos e lugares-comuns que ele utiliza. O Chega representa a chegada do populismo da extrema-direita a Portugal.

Como chegámos até aqui?

Acima de tudo, a globalização fez com que as nossas vidas fossem de facto influenciadas por fatores que não podemos controlar. E enquanto os populistas dizem que é preciso "recuperar o controlo", os outros políticos dizem que não se pode fazer nada, "ou porque somos parte da UE ou porque a imigração vai continuar…". O resultado é que a maioria não tenta responder às necessidades e aos receios, às vezes justificáveis, das populações.

Nos estados europeus a globalização e a crise económico-financeira diminuíram o investimento, impedindo ou retardando o desenvolvimento económico agravado pela crise de 2008 e pelos efeitos da austeridade consequentes aplicados pelos governos acrescidos pelo aumento do desemprego que causaram um sentimento de insegurança. A "crise migratória" que os dirigentes europeus declararam existir no território da União Europeia ajudou ao crescimento de partidos populistas e xenófobos.

Os movimentos de imigração e de refugiados que assolaram e assolam os países da U.E. geram uma concorrência no mercado de trabalho nos países que os acolhem aproveitado como um dos argumentos da extrema-direita xenófoba que é falacioso porque aqueles vão ocupar as lacunas que os autóctones não querem ocupar assim como a escassez de investimento no comércio local que tem vindo a desaparecer e onde ninguém quer investir. Estas imigrações ocasionam graves problemas de acolhimento nos países de chegada que são aproveitados pelos populistas da extrema-direita racista e xenófoba.

Esta situação e outras, assim como as indecisões ao nível da U.E. tem sido aproveitada por alguns governos apoiados por partidos de direita ou de extrema-direita como na Hungria de Orbán, na Polónia de Jaroslaw Kaczynski, e na Áustria de Sebastian Kurz em coligação com o Partido da Liberdade da Áustria (FPö), que têm adotado políticas violadoras dos direitos fundamentais e da democracia liberal defendidos pela U.E. Em Espanha, pelos mesmos motivos e como reação à política de austeridade e contra o euro, surge o Podemos, embora sem conseguir chegar ao poder. No espaço da União Europeia foi a "crise migratória" existente que ajudou ao crescimento de partidos populistas e xenófobos como o AfD alemão.

Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional, partido da extrema-direita francesa e nacionalista radical, antes da eleição de Macron, apresentava-se como uma perigosa candidata à vitória na eleição presidencial, o que poderia colocar em perigo a sobrevivência do projeto europeu.

Quando foi colocada a Le Pen a questão sobre as razões por que os partidos que se dizem antissistema estão a obter tanto relevo na Europa resumiu o credo populista da extrema-direita na europa: «Creio que todos os povos aspiram a ser livres. Os povos dos países da União Europeia, e talvez também os americanos, terão tido durante demasiado tempo a sensação de que os líderes políticos não estão a defender os seus interesses (os do povo), mas antes, interesses especiais(?). Há uma espécie de revolta da parte do povo contra o sistema, que já não os serve mais, mas antes a si próprio». Ver aqui. É com este palavreado, a que chamam argumento, que as extremas-direita, nacionalistas, xenófobas e populistas se agarram para, habilidosamente, iludirem os insatisfeitos com as políticas praticadas em democracia que acham não ter contemplado os seus interesses.

Uma das evidências dos perigos que espreitam as democracias liberais vem dos partidos de extrema-direita é o que atualmente estão a perpetrar os governos da Hungria e da Polónia, a que se juntou depois o apoio da Eslovénia, utilizando uma força de bloqueio contra o pacote de resposta à crise aceite por todos. Consideram ser inaceitável que não possam aceder aos novos fundos europeus por discordarem da condicionalidade do critério pelo respeito ao Estado de Direito. São eles os mesmos países que propagam que se mostram receosos do regresso do “espectro do comunismo” à Europa, como se no atual contexto político isso fosse o perigo real.

Este é apenas um exemplo de como governos autocráticos de extrema-direita se dedicam por todos os meios democraticamente disponibilizados a minar os alicerces das democracias e dos perigos que a direita populista faz pairar sobre a democracia europeia. Manuel Carvalho escreveu num editorial do jornal Público que “Não se pode aceitar que a Hungria ou a Polónia beneficiem das vantagens da Europa, ao mesmo tempo que se dedicam a minar os seus alicerces”.

A mensagem nacionalista, anti-imigrante, anti étnica, racista e xenófoba, por vezes eurocética e anti União Europeia veiculada pela extrema-direita é representada em Portugal pelo partido Chega.  O populismo em Portugal ainda está no seu início, mas já está a dar os seus frutos e a “vender bem”. O perigo do populismo do Chega, e de outros partidos do mesmo, ou pior espetro, deteta-se por meio de diatribes tais como:

- Críticas isoladas e desconexas dirigidas aos políticos, aos partidos (que não seja o deles);

- Críticas aos órgãos representativos dos cidadãos indigitados através de eleições livres;

- Chamando a si a luta contra a corrupção colocando em causa setores da administração pública, organizações privadas com relevância na vida económica ou social com tentativas para descredibilizar, sem fundamentação científica, o funcionamento do sistema político (veja-se o caso de Trump nos EUA);

- Incoerência com outros valores e medidas que igualmente defende, que são um fator disruptor dos direitos fundamentais da liberdade e da igualdade e da tolerância garantes da dignidade da pessoa humana, pondo também em risco o Estado de direito que os salvaguarda.

Estes movimentos e partidos são um vírus que se está a expandir tornando-se uma ameaça e um perigo para a democracia e que vai corrompendo por forma dissimulada os seus valores e procedimentos essenciais, tanto mais perigoso se torna quando partidos democráticos para obterem ou manterem no poder os chamam para fazer acordos colocando os interesse partidários acima dos interesses democráticos do país e dos próprios cidadãos.

Sofia Lorena, num artigo publicado no jornal Público em 2018 baseado no pensamento de Daniele Albertazzi, especialista em movimentos políticos e estudioso do fenómeno populista na “Escola de Governo e Sociedade da Universidade de Birmingham”, escreveu que «Um líder populista é aquele que se vai apresentar como representante de um único povo, unido e homogéneo, que está face a uma ameaça. Esta ameaça pode ser a elite política ou algo externo. Estes líderes defendem que o seu povo está a ser roubado — dos seus valores, princípios, identidade. E em breve será demasiado tarde para recuperar o que lhes está a ser tirada».

É fácil defender que os povos europeus perderam o controlo das suas vidas porque há anos que a Liga Norte italiana de Salvini, partido de extrema-direita, dizia que "temos de ser donos e senhores da nossa própria terra". André Ventura chegou a dizer em agosto de 2020 que “Eu e Salvini, de mãos dadas, é um sinal para o futuro de Portugal e Itália”.

Para os populistas há sempre bodes expiatórios que são os causadores da desgraça do povo, na Alemanha nazi eram os judeus, noutros países são os muçulmanos, em Portugal, por enquanto, são os ciganos e em alguns casos os negros e outras etnias, os políticos e os partidos são extensão da corrupção.

Os populistas atacam a lentidão da democracia representativa e liberal e "apresentam-se sempre como defensores do tal povo homogéneo contra outros — os imigrantes, as etnias, as pessoas que seguem uma religião minoritária ou que não se encaixam por algum motivo", diz Albertazzi.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:52

Fascismo.png

Há indivíduos que se dizem apartidários mas que, na eventualidade de um partido fascista de extrema-direita tomar o poder, estariam nas suas fileiras pagos pelo regime para trucidar quem fosse pela democracia ou fizesse oposição à ditadura que se instalasse.

São sempre os mesmo do costume. Os mesmos não, são outros, mas a porcaria é a mesma, que aproveita o descontentamento de alguns. As palavras de ordem destes megalomaníacos da politiquice apartidária que afirmam não ter partido e que agem por conta própria, mas militam em partidos cujo objetivos já se conhecessem…

Há ambições para tudo e há que começar por algum lado e este a que me refiro é ambicioso e, confessa que  acha mesmo um "ultraje" a forma como os portugueses estão a ser tratados por este Governo e não esconde estar "profundamente indignado" com o que tem assistido (tem a ver com as medidas de emergência tomadas pelo Governo). Este possesso não vê o que se está a passar por toda a Europa devido à covid-19 metendo a cabeça na areia para depois a levantar para tecer uma verborreia sobre o caso em Portugal.

Objetivos: nenhuns, apenas protestar. Protesta e diz que quer manter os protestos fora da esfera partidária é uma questão estratégica. Diz ser contra os políticos, mas afirma ser militante do Chega. Como muitos outros que por aí andam diz que agiu sozinho e que as “sociedades estão fartas dos partidos”. Atente-se bem nesta frase. Não são as pessoas que estão fartas de partidos, são as sociedades. Abrangeu as sociedades no seu todo e generalizou.  Todas estão fartas de partidos. O que podemos inferir daqui?

Os partidos são parte integrante das democracias, não há democracias sem partidos, logo, ele, o dito jovem, defende ditaduras para as sociedades, logo, para Portugal também. Mas se o inflamado jovem militante de um partido diz estar farto de partidos e de políticos então o que está a fazer no partido onde milita? Será que apenas o partido dele é que tem validade e do qual não nos devemos fartar? Estranho pensamento este que garante que agiu sozinho e que "despiu a camisola" para avançar com esta causa. Qual causa? A dele ou a do partido dele?

São meninos como este que, para justificarem o seu desinteresse seguem este que por acaso, (só por caso), é do Chega e está solidário com os empresários e trabalhadores da restauração porque tem um primo que tem um hotel, e que “sozinho” "despiu a camisola" e organizou uma manifestação “apartidária”. São indivíduos como este, os do costume, os necrófagos das democracias. São indivíduos e jovens como este que, na eventualidade de um partido fascista ou de extrema-direita tomasse o poder estariam de imediato nas suas fileiras, pagos pelo regime, para trucidar quem fosse pela democracia ou fizesse oposição à ditadura que se instalasse.

E cá estou eu a fazer futurologia. Caso se concretizasse, o que ele, o jovem, tanto anseia, será deixar de haver partidos, e dar lugar à política que ele diz não querer e vai fazendo críticas aos media: "abaixo os jornalistas" e de seguida surgem os primeiros pedidos de demissão, que arrancam pela ministra da Saúde, logo a seguir vem a diretora geral e, no final é a vez de "Governo para a rua" e de "António Costa, demissão, demissão". Se os seus pedidos fossem concretizados que é que ele proporia para um governo, visto que as pessoas estão fartas de políticos e de partidos?

Segundo o Expresso “Há ainda uma confusão no ar sobre o objetivo do protesto e os jornalistas perguntam qual a relação desta manifestação com a que, mais abaixo no Rossio, reúne responsáveis da restauração, hotelaria, turismo e cultura. José Maria chega e vai direto ao assunto. "Não tenho nada a ver com a “restauração”. Tenho um primo que tem um hotel, mais nada", diz ao Expresso. "Estou aqui porque estou chocado com o que se está a passar".”

Ver mais

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:36

Consensos ou não eis a questão

por Manuel_AR, em 31.10.20

Consensos-Orçamento de Estado 2021.png

Uma democracia não é um regime de acordos é conseguir conviver em condições de profundo desacordo, mas os desacordos por vezes são mais conservadores do que os acordos daí que a posição do BE seja estranha.

O orçamento para 2021 foi aprovado apenas pela maioria relativa do Partido Socialista já que os partidos PSD, Chega, Iniciativa Liberal e o Bloco de Esquerda votaram contra e a abstenção de duas deputadas não elegíveis e do PCP. Quanto a isto nada de novo, todos já sabemos.

Levanta-se aqui a questão dos consensos em democracia tão necessários nesta fase que atravessamos devido à covid-19, mas que falharam porque alguns olham para a sua capelinha para obtenção de ganhos, leia-se votos.

Quando há maioria absoluta quem decide é apenas um partido, com uma maioria relativa todos os partidos têm voz, mas é uma estrutura frágil daqui a importância de negociações e de consensos.

O que aconteceu com o orçamento para 2021 foi um autêntico conluio não formalizado entre os vários partidos para conseguirem, como num leilão, as melhores vantagens dum eleitorado neste momento mais preocupado com a pandemia do que com as birrinhas partidárias.

Fazer política em tempos normais não é o mesmo nos tempos em que se exigem consensos mínimos quando tem de se enfrentar uma crise pandémica profunda, complexa e com consequências difíceis de antecipar.

Os tempos são muito exigentes e de respostas várias e variadas quando não se pode chegar nem dar respostas simultâneas com a mesma intensidade orçamental. Os tempos recomendam diálogo e capacidade para se fazerem concessões e não de entrar em guerrilhas e discordâncias movidas com o intuito de mostrar presença e força ao seu eleitorado.

Antes da aprovação do OE21 e de acordo com uma sondagem recente, da Aximage para o JN e para a TSF, 60% dos portugueses eram da opinião que o PCP e o Bloco de Esquerda deveriam viabilizar o Orçamento do Estado para 2021.  Entre os eleitores do BE 68% pensam o mesmo e apenas 15% defenderam o chumbo e 20% não têm ou não quiseram dar opinião bem como 61% dos comunistas e 67% dos inquiridos rejeitam uma demissão do Governo. Isto poderá vir a ter no futuro custos eleitorais para o BE.

Há incapacidade de aceitar, sobretudo para o BE, que não existe apenas uma verdade e uma forma de fazer as coisas. Este é o momento para aliviar a crispação e a tensão num contexto em que as pessoas exigem que os políticos se ponham de acordo para darem resposta aos seus problemas cujas propostas não podem ser de tal modo inexequíveis que possam vir a transformar um doente num morto.

Apesar de se ouvir dizer muitas vezes nos meios mais populares que os partidos não se entendem é preciso dizer que uma democracia não é um regime de acordos é conseguir conviver em condições de profundo desacordo. Devemos também dizer que os desacordos por vezes são mais conservadores do que os acordos daí que no que se refere ao orçamento já aprovado a posição do BE foi estranha. Ser fiel aos próprios princípios é notável, mas ao defendê-los sem flexibilidade condena-se à estagnação.

Os desacordos têm um prestígio relativo e exagerado. Radicalizar as posições é o procedimento a que mais se recorre para dar nas vistas, é um combate pelo protagonismo e pela visibilidade, é um recurso que é muito caro aos populistas, sobretudo os da extrema-direita. Veja-se quem está sempre em descordo com tudo no nosso Parlamento com a justificação de não pertencer ao sistema, mas faz os possíveis para fazer parte dele concorrendo por lugares que dele são parte integrante.  

Numa ocasião como esta que atravessamos estar contra é uma prática menos imaginativa do que chegar a um acordo. A discordância no caso do BE pareceu ser dirigida a um público por quem compete ao nível eleitoral e por ser a ocasião para falar apenas para eles e não para o seu interlocutor que é o Governo e para o bem do país.  

Os partidos mais radicais vivem da controvérsia e do desacordo porque dessa forma obtêm a atenção da opinião pública e publicada e também para o interior do próprio grupo, que premeia intransigências, a vitimização e a firmeza.

Parece que a dificuldade de chegar a um acordo proveio do facto de que qualquer acordo implica cedências e em algumas circunstâncias exige também o sacrifício de algum tipo de princípio e requer que se compreenda que existe uma grande diferença entre conseguir uma aspiração e decidir entre alternativas possíveis o que em política qualquer delas não está isenta de inconvenientes.

Nem sempre é possível fazermos tudo aquilo a que nos propusemos quer ao nível pessoal ou coletivo do que está em primeiro lugar da listas das nossas prioridades e as circunstâncias obrigam a que nos tenhamos de contentar com menos e até por vezes com muito menos, mas o espírito de fação que é intrínseco nos partidos mais radicais termina em polarização e tanto mais quanto há eleições a aproximarem-se convertendo a política numa campanha permanente.

O debate político entre o BE e o Governo, na primeira fase de aprovação do orçamento, fechou a porta ao consenso devido aos sonhadores populistas da extrema-esquerda que parecem desconhecer que a política é levada a cabo numa enorme quantidade de condicionantes que acham devem levantar voo sem quaisquer limitações.

O OE21 tendo sido aprovado na generalidade com algumas alterações devidas a negociações e consensos terá a seguir a discussão na especialidade que se prevê seja algo surrealista. Se não houver consensos à esquerda que tenham uma visão racional para o país em lugar de visões umbilicais partidárias as propostas e a miscelânea de pedidos de alteração vindas dos partidos serão tantas e tais que o orçamento final será uma amálgama impossível de gerir que nos pode levar novamente ao caos político e financeiro. Se assim for não apontem depois o dedo à direita e à extrema-direita. Os únicos culpados serão os parceiros de negociação que desertarem e que não se livrarão do cadafalso eleitoral.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:59

covid19-António Costa.png

As voltas e baldrocas que o Governo, leia-se DGS e o primeiro-ministro António Costa já deram em relação aos comportamentos que os portugueses devem ter para debelar a pandemia local quase que dariam um dicionário das alternativas do que se não deve fazer para controlar os surtos da covid-19.

O que se diz hoje já não se diz amanhã. O que se disse ontem e o que se dirá depois de amanhã já não serve. O que se disse e fez hoje era o que se deveria ter dito e feito tempos antes. Reconhecem-se as dificuldades do que é gerir uma crise como esta que atravessamos, mas há que ter uma certa cautela nas comunicações que são feitas aos país sobretudo as de António Costa que, juntamente com a DGS, parecem estar a correr atrás dos prejuízo por não terem jogado na antecipação para os conter e controlar.

Esta desorientação mostra algum descontrole que parece ser devido ao cansaço e à saturação que esta crise está a causar-nos a todos e também ao Governo. Este terá forçosamente de encarar as medidas com soluções bem pensadas e quando as comunicar ao país deverão ter a assertividade necessária para sejam acatadas por todos, senão pela maioria.

A gestão de riscos e de crise em questões de saúde pública em tempos de incerteza não pode cingir-se a comunicados mais ou menos de aproximação ao que deve ser feito. Controlar riscos sob diversas formas, gestão, análise, avaliação, mitigação ou tratamento, entre outras que não me ocorrem de momento. Por isso é necessária uma governação adequada de modo a que   o principal objetivo da gestão de riscos é manter um plano estratégico inicial, estimulando um comportamento dinâmico de acordo com evolução dos acontecimentos de modo a que as ações sejam tomadas de imediato conforme as alterações de potenciais cenários.

Por vezes um pouco de autoritarismo não coloca em causa a democracia, mas António Costa receia que o tomem como autoritário. Não podemos confundir autoritarismo com o exercício normal da autoridade democrática do Governo.

Depois há aquela situação caricata de António Costa vir falar da obrigatoriedade da aplicação Stayaway Covid que gerou uma polémica desnecessária porque de facto para que serve concretamente se não estiverem registados os códigos não identificáveis de quem foi rastreado?

O que já deveria ter sido feito era campanhas de sensibilização. Agora virão uma série de medidas, quiçá atarantadas para limitar os danos. Depois temos uns politicamente viciados e desorientados que acham que vão perder as liberdades democráticas perante a pandemia e a obrigatoriedade da utilização de máscaras e de redução de grupos em festanças mais ou menos copofónicas. Fazem bem. Mas o problema é que vida há só mesmo a de cada um... Pessoas como eu ficaremos a assistir aqueles que ficarão contaminados por acharem que tal só acontece aos outros, são os que são afetados pela síndrome do efeito da terceira pessoa. A vida e o instinto de sobrevivência devem e podem ser compatíveis com a privacidade, com o Estado de direito e a democracia. Autoritarismo em democracia, em contextos de perigosidade de vida e de salvaguarda de saúde pública, da vida coletiva e da economia, não são incompatíveis.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:02

"O problema é que gente como Nuno Melo, e muita direita, acha que bater no André Ventura é uma expressão do “marxismo cultural” e só não se apercebe de como está a dignificar o exercício, porque precisa de um papão com um nome ilustre para glorificar a vaidade própria. Não é muito edificante ser vítima da sua ignorância, mas já é outra coisa ser vítima de uma universal conspiração marxista que, vinda das trevas do comunismo, os persegue pelas ruas de Bruxelas."


Artigo de Pacheco Pereira  In Público em 16/05/2020


Às vezes nem vale a pena bater no ceguinho, porque para bater em ceguinhos em Portugal arranja-se sempre uma multidão. De preferência quando o ceguinho já está mesmo ceguinho, porque mesmo só com um olho, o estilo reverencial abunda e o país é muito pequeno para haver independência crítica. E então se for anónima a pancada, os praticantes são mais que muitos.





Mas a ignorância atrevida, essa, sim, merece azorrague, até porque nos dias de hoje, de pensamento mais do que exíguo, a coisa tende a pegar-se pelas “redes sociais”, o adubo ideal da ignorância. Temos de suportar duas pandemias, a da ignorância e a do vírus. Convenhamos que é demais. Nestas alturas, tenho um surto de pedantismo incontrolável. Bom, não sei bem se a classificação de pedantismo é a melhor, mas que por lá anda, tenho a certeza.


Vem isto a propósito do actual uso e abuso da expressão “marxismo cultural”, muito comum hoje à direita mas também usada muitas vezes erradamente à esquerda, que, na sua globalidade, é cada vez menos marxista, mas ainda não deu por ela. Porém, o uso à direita é uma espécie de vilipêndio e insulto e, em muitos comentadores de direita, é comum para caracterizar uma espécie de polvo omnipresente, que lhes rouba as artes, as letras, o jornalismo, algumas universidades, as ciências sociais, a comunicação social, a educação e o ensino, e os obriga a refugiar-se nos espaços “livres” dos colégios da Opus Dei, no Observador, nos blogues de direita, na Universidade Católica, nos lobbies ideológicos empresariais com acesso à comunicação, nalgumas fundações, nalguns articulistas, na imprensa económica, etc. Para bunker contra o “marxismo cultural” já parece muito espaçoso, mas eles acham-no apertadinho.



PÚBLICO -
Foto


“A Parábola dos Cegos”, Pieter Bruegel, O Velho (1568) DR



O que é essencial na interpretação do marxismo é que a seta do poder, que explica a sociedade, a cultura, a economia, a cultura, se faz a partir “de baixo”, das relações de produção, do modo de produção, das classes dominantes a cada momento da história, e que nesse terreno é a luta de classes que define essa outra seta que é o sentido da história. Como Lenine e Trotsky disseram de forma mais bruta, de um lado está o “caixote do lixo da história” e do outro o futuro, a base da teleologia marxista. E embora haja “acção recíproca” entre a superestrutura e a infra-estrutura, ela faz-se sempre a partir da “determinação” da infra-estrutura. Esta interpretação de Marx é a essência da sua teoria, e mesmo quando, nas escassas páginas que escreveu sobre a “cultura”, Shakespeare, em particular, admitiu uma “autonomia relativa da cultura”, nunca admitiu que essa autonomia fosse absoluta. Ou seja, na interpretação marxista, nunca o “marxismo cultural”, seja lá o que isso for, podia ser dominante numa sociedade capitalista, e isto é o bê-á-bá da coisa. Nem Lenine, nem Rosa Luxemburgo, nem Gramsci, nem Lukács, se afastaram deste ponto essencial. Eu não sou guardião da ortodoxia de Marx, mas sei o que ele disse e o que ele não disse e não participo neste abastardamento das ideias pelas palavras e pela propaganda



E, mesmo aceitando-se a ambiguidade da expressão, seria um absurdo dizer que qualquer forma de “marxismo cultural” tem hoje “supremacia” na sociedade portuguesa. É verdade que há muita força da esquerda e do esquerdismo (que não é a mesma coisa) em determinados sectores da “superestrutura”, nas artes, nas letras, em certa comunicação social, mas acrescente-se duas coisas: primeiro, a maioria dessa esquerda e desse esquerdismo não é marxista; segundo, já teve mais força do que hoje tem e, mesmo a que subsiste, está cada vez mais acantonada. Por exemplo, nos anos da troika, muito do discurso público em matérias de sociedade e economia era “neoliberal” (não gosto desta designação, mas vai por facilidade), e uma das grandes vitórias ideológicas da direita foi conseguir interiorizá-lo de forma “dominante”. Devo dizer que eu troco todo o esquerdismo cultural no teatro pela reversão dessa invasão inconsciente de muitas cabeças pela TINA.


Eu não sou guardião da ortodoxia de Marx, mas sei o que ele disse e o que ele não disse e não participo neste abastardamento das ideias pelas palavras e pela propaganda. O problema é que gente como Nuno Melo, e muita direita, acha que bater no André Ventura é uma expressão do “marxismo cultural” e só não se apercebe de como está a dignificar o exercício, porque precisa de um papão com um nome ilustre para glorificar a vaidade própria. Não é muito edificante ser vítima da sua ignorância, mas já é outra coisa ser vítima de uma universal conspiração marxista que, vinda das trevas do comunismo, os persegue pelas ruas de Bruxelas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:55

Orçamento de Estado e os caminhos do Chega

por Manuel_AR, em 21.11.19

Caminhos do Chega.png


Ouvindo os primeiros debates no Parlamento com o primeiro-ministro ficámos a saber pouco, mas o suficiente para considerarmos que algo começa mal. Da parte da oposição de direita, para além do tema da educação relacionado com a retenção de alunos no terceiro ciclo  a que chamaram passagens administrativas, pouco ou nada se tirou como útil das intervenções.


Lamentavelmente, os partidos mais à esquerda para mostrarem serviço ao povo pressionam e criticam tudo o que lhes possa trazer dividendo político e pretendem que tudo seja conseguido a muito curto prazo sabendo que não pode ser possível senão em tempo mais alargado.


O Governo precisa de aprovar o Orçamento de Estado para 2020 e, com uma maioria relativa, é pouco provável que o consiga sem a “companhia” de outros parceiros, os da esquerda.


Segundo o Diário de Notícias Rui Rio, presidente do PSD afirmou há dias "não ter dotes de bruxo" para definir a posição do partido em relação ao Orçamento do Estado para 2020, mas anteviu que será "muito difícil" que coincida com as linhas mestras dos sociais-democratas.


O que poderá ser considerado mais grave é que esse extremista André Ventura do partido Chega está a querer aproximar-se do PSD de Rui Rio para propostas sobre o orçamento para 2020.  


Talvez poucos saibam que Rui Rio e André Ventura estiveram reunidos na quarta-feira na Assembleia da República. Segundo o semanário Expresso o líder do Chega! pediu para falar com o líder do PSD, e Rio não se fez difícil - recebeu-o no seu gabinete no dia do primeiro debate quinzenal da legislatura. Falaram sobretudo do Orçamento do Estado e de eventuais pontos de convergência no que toca a propostas orçamentais para dinamizar a economia. Não fecharam nenhum compromisso, mas mantiveram a porta aberta a novas conversas.


Recordemos que André Ventura foi do PSD no tempo de Passos Coelho primeiro-ministro e aquando das eleições autárquicas era candidato a vereador à Câmara de Loures tendo feito declarações xenófobas consideradas graves sem que Passos, na altura, lhe tivesse retirado a candidatura ao contrário do CDS.


André Ventura está desesperadamente a pretender colar-se ao seu anterior partido, histórico da democracia, para tentar lavar a sua face como partido xenófobo, racista e de extrema-direita que o é de facto.


Ventura lá foi dizendo que “há abertura para falarmos”, acrescentando: “Tenho muitos amigos no Grupo Parlamentar do PSD.” Já da parte de Rui Rio parece ter sido afastada qualquer hipótese de uma estratégia conjunta entre ambos os líderes. “Faz parte do jogo democrático” receber outros líderes partidários, disse fonte oficial do PSD.


Esperemos que Rui Rio não caia nessa armadilha. Todavia não deixa de ser expectável que qualquer um dos outros candidatos à liderança do PSD, se ganharem a eleições diretas no PSD, possa não rejeitar acordo com aquele partido.


Para o PS a coisa não está promissora no que se refere a cedências aos partidos à sua esquerda. Há algo de preocupante em afirmações de António Costa no que diz respeito a taxas e impostos. Em resposta à pergunta do deputado do Chega sobre se o primeiro-ministro estava em condições de garantir que não aumentaria impostos diretos ou indiretos, nomeadamente dos combustíveis, António Costa respondeu que não garantia nada, justificando que estamos numa altura em que devido a questões climáticas se tomem medida que venham a estimular o consumo dos combustíveis fósseis.


Foi uma boa desculpa que dá jeito para abrir portas ao aumento dos impostos sobre os combustíveis. Há, contudo, uma situação complexa já que não se vislumbra como, sem soluções alternativas e sustentáveis, sem colocar em causa a economia. Os combustíveis fósseis são ainda a principal fonte de energia que contribui ainda para a mobilidade no contexto da economia. Pelas palavras do primeiro-ministro podemos prever, desde já, que irá haver uma subida do imposto sobre os combustíveis.


Concordo em que os salários, e as pensões, não apenas os da função pública, são muito baixos e necessitam de revisão, mas a função pública com os seus sindicatos absorvedores de recurso financeiros do Estado pelas reivindicações salariais e outras regalias deixam o setor privado em nítido prejuízo, por mais que os sindicalistas façam soar o contrário através dos ventos da comunicação social.


Costumam apontar-se, e com razão, os cortes nos salários, nas pensões e nos direitos do trabalho feitos pelo Governo PSD-CDS no tempo de Passos Coelho. Esse tempo já lá vai, e ainda bem, tendo sido a reposição, ainda que parcial, feita pelo anterior Governo com o apoio Parlamentar da extrema-esquerda a que chamaram geringonça. Há, contudo, uma comparação que podemos fazer: o governo PSD-CDS cortava, o anterior governo repôs e o atual poderá ainda vir a repor pouco mais, mas também poderá vir a retirar através de taxas e impostos para sustentar as reivindicações salariais exigidas pelos sindicatos da função pública e outros que trabalham para o Estado, enquanto há serviços públicos essenciais como a saúde e a educação que se encontram à míngua com falta de recursos humanos e materiais.


Agora são as polícias com reivindicações não menos justas, mas também a quererem tudo já.


Todos temos direito e gostaríamos de ter salários e pensões elevados e é aí que os partidos radicais de esquerda investem sabendo de antemão que dá popularidade. Não é por acaso que esses partidos espalham cartazes onde pretendem fazer passar a mensagem de que os aumentos salariais, ordenados mínimos e pensões são da sua autoria e concretização.


É por demais sabido que quando há aumentos na função pública se verifica o consequente aumento dos bens de consumo necessários no dia a dia.    


Se fossem aceites todos os pedidos o país voltaria a colapsar levando-o novamente ao incumprimento financeiro com a consequente bancarrota é isso que a direita pretende porque sabe que a levaria novamente ao poder só ou aliada a outros que com populismos e propostas irrealistas conseguiram penetrar através das portas da democracia na Assembleia de República.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:52


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.