Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Tempestade Perfeita

por Manuel_AR, em 17.02.22

Livro de Daniela Sampaio.png

“Tempestade Perfeita” um livro de Daniela Santiago a não perder.

A jornalista Daniela Santiago consegue ter a capacidade de observação e de saber ouvir e depois.  

Estou a reler, desta vez, alguns capítulos.

É um livro por onde desfilam algumas das personagens que descredibilizam a democracia, marcando-a pela negativa. Este livro dá a conhecer os que se aproveitam, como diz na contracapa, “das fraquezas da sociedade carente de valores, sedenta de políticos carismáticos e de justiça mais eficaz, para construir um discurso demagógico alavancado pela discórdia, pelas notícias falsas e por conspirações”. Dá-nos pistas para anteciparmos a onde nos poderão levar partidos como o “Chega” que têm ídolos e conselheiros defensores e negacionistas de ditaduras.

A alguns dará a conhecer os populistas e a ascensão das extremas-direita, e, a outros, a ficarem raivosos por se sentirem retratados.

Tenho para mim que no jornalismo a isenção é uma prática difícil. Mesmo na descrição de factos não é fácil conseguir evitar sinais de opinião favorável ou desfavorável sobre o observável.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:54

Eleições e a matemática.png

Começa a não haver paciência para a leitura de certos artigos de opinião escritos após eleições, alguns que até chegam a ser ridículos. O objetivo destas opiniões é exclusivamente a desvalorização das perdas do partido ou partidos da simpatia dos articulistas, mesmo para os que, como eu, tentam fazer um distanciamento.

Após umas eleições para a maior parte dos partidos que ficam com assento no Parlamento, é sempre a mesma coisa. Há almas que buscam e rebuscam números que justifiquem que, apesar de terem perdido ganharam, e que garantam que os que ganharam afinal perderam. Isto é, tentam o milagre de fazer ganhar quem perdeu e de fazer perder quem ganhou.

Esta neste caso João Miguel Tavares no artigo de opinião no jornal Público que não foge à regra. Recorre à matemática ao estilo do torturem os números que eles confessam e recorre à lógica da evidência que, não sendo da batata, mostra que nada acrescenta ao resultado final para resolução da equação.

São os mesmos que criticam os partidos que, frente às câmaras de TV, dizem que afinal não perderam porque ganharam aqui e ali, mas que fazem agora o mesmo pegando em frases que podemos considerar como hiperbólicas ditas no calor da vitória assim como tudo quanto é dito e escrito em tempo de noite de eleições e durante o respetivo rescaldo.

Reparem nestes parágrafos do artigo de opinião que João Miguel Tavares publica no jornal Público onde pretende rescrever os resultados eleitorais, e contrariar o óbvio, ou, talvez pretender sugerir que  se deve mudar a “contabilidade” de modo que, no futuro, seja dada a vitória aos partidos com que mais simpatiza. Veja-se este parágrafo que ele escreve:

“Há três grandes enganos sobre a noite eleitoral que convém desmontar. Engano número 1: António Costa ganhou em toda a linha. Não ganhou. O PS perdeu muitos votos para a direita, nomeadamente para Rui Rio.”. Recorre a uma demonstração aritmética por conveniência: "Ajuda muito que seja verdade, por isso...". Acrescenta que a votação no PSD subiu 120 mil votos. A votação no PS subiu 338 mil. Juntos, o Bloco, o PCP e o PAN perderam 448 mil votos, apesar do aumento da participação eleitoral…”. “… o PS teve à sua disposição 436 mil votos perdidos pela esquerda, mais uma parte significativa do crescimento na população eleitoral (imaginemos 40%, 56 mil votos). Isso dá perto de meio milhão de votos a entrar no PS pela esquerda. Mas a subida foi só de 338 mil. Logo, António Costa teve pelo menos 160 mil votos a saírem pelo centro-direita…” E por aí fora. Não vale sequer a pena perder tempo com isto, mas o que podemos deduzir daqui é onde o PS foi buscar os votos. A pergunta que podemos deixar no ar é onde foram o IL e o CHEGA buscar votos? Terá sido ao CDS e ao PSD? João Miguel que responda.

Como se isto tivesse agora importância. O PSD conseguiu mais votos? Ainda bem que goze com isso. Que o PS teve menos votos, então consolem-se com os votos que dizem o PS ter perdido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:20

A propósito de: Quem sou eu para comentar?

por Manuel_AR, em 10.12.21

Jornalismo e política.png

Quem sou eu para comentar, bem ou mal, o que doutos professores catedráticos, comentadores, experimentados políticos, conceituados jornalistas, analistas políticos (que proliferam nos canais de televisão), sindicalistas, bastonários de ordens profissionais que fazem política pró- partidária, cientistas, e muitos outros. Uns sentados nos bancos do serviço público e outros que se movem no mundo das instituições privadas onde praticam elaborações de leis e defesas de alta corrupção, mas que escrevem e proferem opiniões sobre tudo, mesmo sobre o que não dominam, nos vários órgãos de comunicação social, da imprensa à televisão.  Lançam sabedoria que o público admira e consome. Sendo, conhecidos, sobretudo, pelos seus prognóstico e oráculos, obtidos por canais privilegiados e informais de amigos do governo ou de fora dele.  Conjetura-se que transacionem informações sobre processos de investigação criminal em segredo de justiça e, como troca, entra-se no jogo do dás-me isso e eu dou-te aquilo.

Quem não têm amigos e conhecidos em postos chave há intermediações a fazerem-lhes chegar às mãos informações privilegiadas para em seguida emitirem opiniões escritas ou verbalizadas de algo que desconhecem sobre pessoas públicas que têm uma reputação a defender. É extraordinário que ninguém lhes pergunte pelas provas do que afirmam com tanta certeza, que ninguém pergunte onde estão os factos que justificam as suspeitas, enfim, que ninguém pergunte nada, apenas suspeições. É o velho aforismo da mentira tantas vezes repetida que passa a ser verdade.

Parece-me vir a propósito a forma como vejo de fora a imprensa e a televisão a formatarem e a lançarem para o público a informação editada. Por muito que se diga o contrário os media e os jornalistas são atores políticos que muitas vezes seguem subtilmente agendas partidárias ou ideológicas consequentes das especificidades editoriais.

A relação entre os órgãos de comunicação social e a política acentuou-se consideravelmente de tal forma que é impossível conceber a política sem a existência de um ambiente jornalístico, notando-se da parte dos políticos, sobretudo, quando num governo, envidarem esforços para controlar as margens de incerteza resultantes de um relacionamento dinâmico com a opinião pública. Um caso paradigmático é a falta de estratégia para controle de danos, para alguns deixado ao acaso dos acontecimentos, como aconteceu com o ministro António Cabrita.

Atualmente a ferramenta mais eficaz para comunicar com o público, ou melhor com os eleitores, é a televisão que, no entanto, é mediada/conduzida por jornalistas. Em última análise, empresas mediáticas que se orientam por valores e princípios distintos daqueles que são defendidos por poderes democraticamente eleitos, passa a haver uma tensão latente entre os media e esse tal poder político, sobretudo quando este não é da “simpatia” de algumas redações. Isto passa-se com um qualquer candidato seja ele a líder partidário, a ministro ou a primeiro-ministro de um governo quando não é o preferencial por um determinado órgão de comunicação.

O desagrado com alguns políticos e práticas políticas, com determinado governo ou com um primeiro-ministro pode manifestar-se num ataque cerrado por parte do media. É frequente a insistência diária e sistemática sobre o mesmo assunto, nomeadamente das televisões, a incidência em aspetos negativos sobre uma qualquer figura pública da política, atuação ministerial, mau funcionamento de instituições e falhas em determinada área como forma de colocar em desfavor a opinião pública considerando tal atitude como a de escrutinar o poder.

Em democracia o escrutínio do exercício político dos governos e do poder político, são uma das mais importantes e legítimas funções do jornalismo, mas a liberdade de imprensa não é um privilégio dos jornalistas, mas sim uma condição da liberdade de expressão dos cidadãos visto estes só poderem captar um conjunto muito limitado de acontecimentos.

Os jornalistas não foram eleitos nem representam oficialmente ninguém, mas têm um contrato informal com os cidadãos numa espécie de procuração que lhes confere o dever de zelar pelo cumprimento dos valores democráticos e denunciar as suas falhas, através de uma informação isenta e verdadeira. Sublinho isenta porque considero ser óbvia a verdade e a isenção no jornalismo sério.

Por vezes alguma comunicação social atua tendenciosamente através da procura e da insistência em factos marginais para desacreditar na opinião pública um cidadão ou um poder político porque pertencem a uma dada área partidária e ideológica que pretendem atacar.

Um caso evidente e atual e que tomo como exemplo do que refiro são as falhas nos serviços de saúde públicos, tema sensível na opinião pública, que têm sido são diariamente salientados durante o atual Governo mesmo durante a contingência das vagas da crise pandémicas. Os meios de comunicação não devem, nem podem, tentar omitir os problemas que se passam no SNS que acho devem ser noticiados nos limites do bom senso e do não alarmismo. Alguns dos problemas no interior dos serviços do SNS que nos chegam como telespectadores fica-se com a perceção de que são por vezes organizados para criar instabilidade sobre o sistema e as ordens dão uma ajuda, mas quando o poder pertence a uma área ideológica da sua “preferência” os mesmos media manifestam mais complacência para com os problemas detetados e dados como notícias marginais.

Vejamos o caso mais paradigmático quando, durante o Governo PSD-CDS com Passos Coelho primeiro-ministro, a esquerda o pelos cortes no SNS. Durante esse período órgãos de comunicação afetos à direita que, pressurosamente, publicam notícias, comentários e opiniões favoráveis omitindo, na altura, os reais problemas.

Situemo-nos então no caso do SNS ao tempo do Governo de Passos Coelho. Quando em janeiro de 2015 Passos justificava que a qualidade do SNS não podia ser aferida pelas falhas registadas que coincidiram com o período de crise no país e reconhecia que a pressão e o escrutínio mediático criavam muita pressão.  Sobre o agravamento nas urgências hospitalares, Passos dizia na altura que "não se confunda o que se está a passar, se passa em Portugal" com o que "se tem passado noutros países" de "uma forma anormal, desafiando a capacidade instalada e a qualidade dos profissionais".

O que se verifica hoje apesar da pressão causada no SNS pela pandemia covid-19 é que sindicatos e ordens de médicos e enfermeiros que se juntam para fazer coro nos órgãos de comunicação que diariamente e com presteza por via do SNS pretendem atacar o Governo.

Também em janeiro de 2015 durante o Governo de Passos Coelho num debate com o primeiro-ministro na Assembleia da República a dirigente Catarina Martins do BE criticava Passos por não ter apresentado "uma única medida que o Governo tenha tomado para contrariar o descalabro na saúde", recebendo apupos da bancada do PSD. Acrescentava então: "Poupou-se despesa no SNS, mas não se pouparam vidas e isso não se pode desculpar a um Governo e que "Poupou-se despesa no SNS, mas não se pouparam vidas e isso não se pode desculpar a um Governo". Foi esta a intervenção da dirigente da extrema-esquerda durante o debate quinzenal no parlamento: "Quero saber de que cortes na despesa é que se orgulha, três dias antes de ter morrido uma pessoa sem assistência no Hospital de Santa Maria, a diretora das urgências disse que não tinha meios, nós temos pessoas a morrer nas urgências sem assistência".

Com o presente Governo socialista já demissionário e na antecipação da campanha contra o PS o  sinal dado pelos órgãos de comunicação as para as criticas ao SNS, que já tinham sido iniciadas pelas ordens dos médicos e sindicatos independentes, que também fazem política partidária, foram reforçadas em junho do corrente por Passos Coelho que, segundo a TSF, numa intervenção de mais de 50 minutos, acompanhada na primeira fila pelo candidato à Câmara de Lisboa Carlos MoedasPassos Coelho apontou "um paradoxo" à esquerda no domínio da saúde em particular.

"Seria imperdoável que a esquerda, que diz ser que é uma espécie de 'alma mater' do SNS o esteja a desqualificar desta maneira e que seja a o que se chama de direita sempre a tentar salvar a situação e ver se lhe consegue dar sustentabilidade". Criticava o que o que chamou de "estatização" do SNS, que considera ter resultado na falta de atração dos profissionais e na degradação de equipamentos e serviços prestados.

Durante a apresentação do livro de um militante do PSD este afirmou que Passos nunca cortou no SNS. E janeiro de 2021 no jornal Observador o dito militante apresentou uma série de generalidades e medidas avulso como medidas tomadas por Passos Coelho para melhorar o SNS que iam da “manipulação inteligente do sistema informático” que “que pôs todos os médicos a receitaram por princípio ativo genérico”, e na poupança em exames e medicamentos sem interesse clínico efetivo, “alargou os horários dos médicos para 40 horas, aumentando assim a oferta de mais horas médicas e poupando em horas extra, que pode ler aqui, coisa que os médicos posteriormente contestaram. Recordo-me daquela altura em que os médicos de família com receio reduziam os medicamentos e os exames aos utentes ficando sem meios de diagnóstico eficazes como aconteceu comigo.

Recorde-se que em 2008, durante o Jornal Nacional da TVI, em campanha para a liderança do PSD Manuela Ferreira Leite e Passos Coelho, candidatos à liderança do PSD, declaravam-se a favor do fim do Serviço Nacional de Saúde (SNS) tendencialmente gratuito para todos, defendendo que sirva quem tem menos recursos e Passos reforçava então que "concordo com este princípio de acabar com a universalidade na área da saúde e não só". Isto era a proposta para um SNS para pobres e outro para ricos, isto é, o fim de um SNS universal.

Tenho observado ao longo dos anos que os órgãos de comunicação social serem mais condescendentes, muitas vezes por omissão, com as falhas e os erros dos governos de direita e ávidos predadores sempre ao ataque quando os governos são do Partido Socialista moldando de forma mais ou menos direta, a perceção que cada um de nós tem da realidade em que se insere. Deste modo, os jornalistas deixam de ser mediadores e transforma-se em contrapoder e em produtores de opinião pública e a perceção com que ficamos pode ser uma armadilha lixada. Ainda que os factos seguramente nos digam uma coisa, temos a capacidade de construir sólidos argumentos excecionais para sustentar o contrário, se para isso formos levados.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:27

Comentário e opinião.png

Quem sou eu para, bem ou mal, comentar o que doutos comentadores, professores catedráticos, experimentados políticos, advogados chamados para comentadores, conceituados jornalistas e muitos outros, muitos deles sentados nos bancos do serviço público que nada têm a perder.  A estes podemos juntar ainda os que se movem no mundo do privado que escrevem, opinam e publicam nos vários órgãos de comunicação social da imprensa à televisão.

Quando emito uma opinião, por muito fundamentada e acertada que seja, consegue ser, para frequentadores das redes sociais, menos credível do que as “fake news” que eles partilham e multiplicam num ápice.

Entendo que a análise política é diferente do comentário e da opinião política. Assim, uma afirmação sobre um facto pode ser comprovada como verdadeira ou falsa. Um comentário é algo que se diz ou escreve e que expressa uma opinião pessoal. Expressa sentimentos subjetivos sobre um facto ou factos, mas que não podem ser provados. As opiniões podem ser baseadas em factos e, muitas vezes pretendem aliciar outros deliberadamente para as posições de quem as emite. A análise política grosso modo aborda ou aprofunda a origem dos sistemas políticos e o modo como se desenvolvem e funcionam. Pesquisa e analisa governos, ideias políticas, políticas, e as suas tendências entre outros temas.

Quando o comentário e a opinião pretendem ser preditivos e substituir-se à análise política transformam-se duma espécie de oráculos o que é frequente verificar-se nos comentários e nos frente a frente televisivos.

Considerar que face a acontecimentos presentes comparativamente com o passado colocar várias hipóteses que poderão ser confirmadas, ou infirmadas, é uma coisa, outra é, dizer-se que vai acontecer isto ou aquilo com base em circunstâncias tão fluidas como são as da política. Vejamos o seguinte exemplo: quando se afirma que a “geringonça” chegou ao fim, ou que a destruição da esquerda está à vista, ou que a direita não ganhará as próximas eleições através de informações vagas e dados insuficientes é aproxima-se de oráculos.

O prof. Fernando Rosas, pessoa por quem tenho imensa consideração enquanto intelectual de esquerda, escreveu num artigo de opinião no jornal Público a propósito do “tempo dos oráculos da desgraça” que vê numa “campanha destinada a tentar fazer as forças de esquerda pagar a ousadia de, desta vez no seu conjunto, votarem contra o Orçamento de Estado (OE). À exceção dos seus próprios argumentos e predições tudo quanto se alvitrar sobre isto do que possa acontecer à esquerda são oráculos. Considera que “há uma vaga oracular que assenta num punhado de fábulas mistificadoras” que tenta justificar.

Sobre os oráculos em geral concordo com Fernando Rosas, porque há muitos comentários e opiniões que por vezes são mais oráculos do que pontos de vista. A tentativa de desconstrução das opiniões que ele toma como fábulas mistificadoras vão no sentido de purificar os falhanços do BE devido a radicalismo e sectarismo. Note-se que o prof. Fernando Rosas foi um dos fundadores do Bloco de Esquerda.

Fernando Rosas apresenta quatro pontos, a que chama fábulas mistificadoras, que, segundo ele fundamentam a sua tese.  Razões que, na minha opinião, fogem às verdadeiras questões. Foi criada uma crise sim porque se ousou “votar contra um OE por se considerar que ele não serve os interesses do país” e sim foi uma “irresponsabilidade” apesar de haver “outras soluções constitucionalmente possíveis.” Seria que qualquer uma dessas outras soluções, dado os pressupostos do PCP, e, sobretudo, os do BE evitariam uma crise num futuro próximo?  Creio que não porque estas forças quiseram impor o seu próprio orçamento ao Governo descaracterizando o inicial.

A segunda que Fernando Rosas aponta como mistificação é uma falácia baseada numa hipotética obsessão de António Costa por uma maioria absoluta e que, por isso, desejava uma crise. Este ponto é uma possibilidade sem fundamento. O desejar-se algo não significa que esse algo aconteça, aliás há sondagens que neste momento desmentem tal argumento.  A crise foi desencadeada pelo PCP e pelo BE porque foi evidente que de facto que “o Governo “cedeu tudo o que podia ceder” para salvar o OE. Sim, tendo em vista as boas contas públicas com redução possível do défice e redução da dívida. O BE não entende isso dos mercados e das dívidas dos países, ou melhor, entende, mas como é pela revolução permanente deveria cortar-se com o Mundo. Os restantes argumentos do segundo ponto são pontos de vista subjetivos e muito discutíveis.

O terceiro ponto ou mistificação passa, segundo diz Fernando Rosas, por ser uma dramatização sobre o que perdem os funcionários públicos ou os pensionistas pela não passagem do OE ao escrever que o “Governo em funções pode e deve, mesmo sem aprovação do OE, proceder aos aumentos e atualizações anunciados para cada um destes casos”. Então, assim sendo, os OE em alguns casos são uma espécie de jogo que se faz entre partidos e que, aprovados ou não, tudo pode continuar como se nada tivesse acontecido. Parece-me uma visão um pouco enviesada.

A quarta mistificação apresentada por Fernando Rosas é quando escreve que é um oráculo feito por alguns que “faz furor no comentário político dos oráculos, é de que a esquerda que hoje não se entende não será solução para uma maioria futura”. Acrescenta ainda que este é um “argumento surpreendente, pois é a direita que parece estar triplamente descredibilizada”, e “porque é ela que se esfarela em cruentas lutas intestinas para saber quem apresenta ao ato eleitoral e que “para governar, as direitas todas juntas precisam de maioria absoluta e parecem estar longe dessa possibilidade”.

Será assim? Verdade é que a direita anda descredibilizada e em lutas intestinas e por isso não terá maioria para governar. Estes argumentos também me parecem ser oráculos. E se, entretanto, a direita se conseguir reorganizar?

O argumento que faz depender dos problemas internos nos partidos de direita e das circunstâncias políticas atuais um possível entendimento à esquerda, parece-me estar a desvalorizar qualquer hipótese de a direita vir a ter maioria. Repare-se que no caso do PSD se Paulo Rangel ganhar a liderança assumiu acordos com a Iniciativa Liberal. Por outro lado, o CDS está a ser desfalcado de militantes que, na melhor das hipóteses, irão engrossar o IL e já não incluo o Chega. O imprevisível em política acontece.

Mantendo-se os partidos à esquerda do PS, PCP e BE, irredutíveis e na negação de cedências e de acerto de alguns consensos e compromissos é também provável que, mesmo que uma maioria de esquerda saia das próximas eleições, seja mais difícil manter-se um acordo semelhante ou melhor do que a passada “geringonça”. O contrário disto será um otimismo e uma profecia de Fernando Rosas. As dificuldades que existem na direita são um argumento aceitável, contudo, quem diz que após a sua organização maioria de direita não poderá vir a ser uma possibilidade, então, lá estará a esquerda toda tramada. E a responsabilidade será então de quem?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:04

As intenções na negociação política

por Manuel_AR, em 26.10.21

Orçamento22-Esquerda (1).png

Quando não se pretende que uma negociação entre vários elementos com interesses divergentes não resulte, ou não chegue a bom termo, basta que entre os participantes seja suficiente que, pelo menos um, apresente propostas que à partida sabe que são inaceitáveis, fica o caso arrumado. Acabam-se os acordos. Esta é a estratégia.

O nome do título sugere uma intenção que pode ser um propósito com um móbil por trás das intenções manifestadas que são desconhecidos por uma das partes.

Os partidos da extrema-esquerda, etiqueta de que estes não gostam, pretendem agora justificar o injustificável e apelam às emoções de quem os ouve. Um, o PCP, baseia-se no choradinho dos salários baixos e no salário mínimo, porque sabe que é por aí que capta pessoas. Outro, o BE, pela voz da Catarina Martins, com aquela modulação na voz, mais ou menos comicieira que parece irá chorar clama e insiste para que o Governo explique porque não os aceita os pontos que tem apresentado. Então Catarina, a sua falácia parece ser de quem tem estado desatenta. Não tem ouvido que no momento há situações que não podem ser ultrapassáveis? Catarina e Jerónimo não devem estar a falar para o país, mas para dentro dos partidos de para os seus adeptos.

Quando não se pretende que uma negociação entre vários elementos com interesses divergentes não resulte, ou não chegue a bom termo, basta que entre os participantes seja suficiente que, pelo menos um, apresente propostas que à partida sabe que são inaceitáveis, fica o caso arrumado. Acabam-se os acordos. Esta é a estratégia.

O que está realmente em jogo é que os litigantes não estão a falar entre eles, (refiro-me neste caso mais à veemência do BE e do PCP do que à do PS). Pelo contrário, dirigem-se principalmente a um público por cuja aprovação competem através de uma retórica construída com uma narrativa que pensam ser persuasiva, mas que se torna repetitiva, sem inovação argumentativa, enfim, aborrecida.

O BE e o PCP captam meras ocasiões oportunas para elevarem o seu prestígio aos olhos do público/potencias eleitores que são os verdadeiros destinatários da sua comunicação. Os seus discursos, e também de outros partidos, não têm servido para discutir ou tentar convencer o adversário(s) para arranjar soluções possuem mais um caráter plebiscitário à opinião pública que os possa legitimar.

Os políticos daqueles dois partidos têm a tendência para exagerarem e enfatizarem a eventuais polémicas estremando posições e pouco verosímeis. Estes tipos de atores vivem da controvérsia e do desacordo com o objetivo de obterem a atenção da opinião pública, mas também a manutenção da sua liderança dentro dos partidos e dos seus adeptos que permeiam a firmeza, mesmo que isso prejudique o país.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:27

Lideres-PS-BE-PCP (3).png

Desde que o partido Socialistas está no Governo nunca se viu um Orçamento de Estado com tão difícil negociação. O BE e o PCP jogam a cartada política mais vil: a chantagem. Outra coisa não seria de esperar se tivermos em conta que ambos têm saído prejudicados nas eleições desde que iniciaram acordos com o PS tendo sistematicamente perdidos votos entre 2015 e 2021 quer nas eleições legislativas quer nas autárquicas.

Legislativas

PCP-PEV                 BE

2011      7,91%        5,17%

 2015     8,25%        10,19%

2019      6,33%        9,26%

Autárquicas

PCP-PEV               BE

2013    11,06%      2,42%

2017    9,45%        3,29%

2021    8,21%        2,75%

Estes dois partidos lutam pela sobrevivência e o PS pela manutenção do poder e dos eleitores que, por razões várias, não lhe têm dado maioria absoluta, o que poderia contribuir para manutenção da estabilidade. Parece que, todavia, recordando ainda outras maiorias absolutas por coligação, estas de direita e de má memória, a aparada tem sido evitá-las, e as campanhas do PCP e do BE nisso têm apostado. 

Os partidos de extrema-esquerda soft como são o PCP e o BE não são muito dados a consensos, dadas as suas próprias características ideológicas receiam poderem vir a ser considerados colaboracionistas com governações a que chamam de direita que, para eles, são todos os que não sigam as regras revolucionárias e reivindicativas sejam elas leninistas ou trotskistas.

Estes dois partidos têm praticado durante as conversações do orçamento para 2022 uma espécie de hooliganismo político-partidário de origem umbilical disfarçados de lutarem pelos interesses do povo e dos trabalhadores, centrando-se em princípios que, para eles, dizem serem irredutíveis. Utilizam todos os meios de pressão muitas vezes associando-se a coligações negativas com as direitas mesmo que estas sejam prejudiciais ao país. Os princípios irredutíveis são os que atraem as massas trabalhadoras das classes mais baixas como salários, regalias e menos horas de trabalho, sem medirem as consequências que daí advêm para todos. Tudo o resto são alvos a abater.

É certo que os acordos não são fáceis e exigem sacrifícios de todas as partes. Quando se pretende avançar é preciso estar disposto a isso e estar na disposição de abandonar transitória e temporariamente algo que seja valioso. Parece-me que o Governo do Partido Socialista o tem feito até demais. 

A valorização das pessoas, dos partidos e dos sindicatos não deve ser apenas pelos seus ideais, mas sim, e também, pelos seus compromissos, isto é, aquilo que estão dispostos a aceitar como suficiente como segunda melhor opção em benefício de todos. Parece-me que o sectarismo dos partidos PCP e, sobretudo, do BE levam apenas às pretensões para benefício de alguns em prejuízo do todo.

As estratégias de partidos de esquerda como aqueles que refiro são as de poderem num futuro próximos em comícios e campanhas reivindicarem, cada um por seu lado, e cada um para si, os êxitos conseguidos se forem aprovados a que chamarão vitórias.  

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:03

O retorno dos coelhos

por Manuel_AR, em 09.10.21

Antonio Costa.png

Retorno Passos Coelho.png

O eterno retorno era uma doutrina dos estoicos retomada, em particular pelo filósofo alemão, Nietzsche segundo a qual há um eterno recomeço, isto é, uma série de acontecimentos idênticos aos precedentes. O estoicismo foi criado por Zenão de Cício, na cidade de Atenas, cerca de 300 a.C.. Os estoicos defendem a austeridade na virtude, o desprezo por todos os tipos de sentimentos externos, como a paixão e os desejos extremos e foi recuperado pelo cristianismo que afirmava e afirma que só "através da aceitação do destino e da renúncia às paixões, pelo que o homem deverá destacar-se pela indiferença face à dor e pela firmeza de ânimo perante os males e as agruras da vida”. Enfim, mais ou menos a apologia da austeridade aos níveis das agruras pessoais e bens materiais.

Não vou aqui dissertar sobre temas filosóficos, mas isto vem a propósito do que tem vindo a ser noticiado e comentado após a calma das emoções geradas pelos resultados das eleições autárquica. Interpretações que têm emanado dos comentadores políticos e fazedores de opinião, quais oráculos do tipo Pítias, sobre o futuro político, quer em relação ao partido dito perdedor, quer em relação ao partido dito ganhador oriundos da comunicação social.

Com é sabido, Carlos Moedas ganhou Lisboa, mas teve ao seu lado durante a campanha elementos que estiveram também em tempo ao lado de Passos Coelho. Moedas foi, e ainda é, um animado adepto saudosista das políticas de Passos, assim como os que o ajudaram na campanha como é o caso de Sofia Galvão, Miguel Morgado, João Marques de Almeida, António Leitão Amaro não são dedicados "passistas”.

Moedas integrou o XIX Governo Constitucional e que fez parte do Executivo durante a maior parte do seu período de vigência. Era considerado o braço-direito do anterior primeiro-ministro, facto que o colocou em destaque nas relações entre o governo português e os responsáveis da troika. Mais recentemente, a 30 de julho, Carlos Moedas, numa entrevista ao semanário NOVO, afirmou que “gostava de ver outra vez Passos Coelho num lugar de destaque". Segundo o semanário a frase é suficientemente ampla para nela caberem várias hipóteses, mas a “admiração” é indisfarçável.

Este enquadramento serve como justificação para o título do artigo e para alerta de que o retorno da direita passista ao poder pode vir a ser mais real do que virtual, caso Rui Rio não se candidate novamente à liderança do PSD ou se se candidatar não ganhar. Se assim for é certo que o poder do PSD fica novamente na mão dos neoliberais de Passos Coelho numa campanha a fazerem-se passar por sociais-democratas. Aliás, hoje o semanário Expresso publica um artigo de opinião do senhor de má memória que dá pelo nome de Cavaco Silva que o comprova: Cavaco diz que Governo de Costa “não foi capaz” de aproveitar as condições herdadas de Passos, (!?) e critica também os adversários do Governo, denunciando uma “oposição política débil e sem rumo, desprovida de uma estratégia consistente”.

Cavaco.png

Começo por mencionar as minhas impressões sobre os comentários que se teceram e tecem em catadupa nos órgãos de comunicação social sobre o primeiro-ministro António Costa, o Governo, o PSD e Rui Rio durante a campanha eleitoral para as autárquicas e após as eleições.

António Costa desde que esteve na presidência portuguesa do Conselho da União Europeia e, tendo em conta as notícias que, entretanto, foram surgindo nos órgãos de comunicação e a que alguns socialistas chamam casos e casinhos, fica-se com a ideia de que o Governo, e sobretudo alguns ministros, entraram em roda livre, mesmo depois de junho quando do seu regresso. A coisa que já vinha de antes parece que piorou. Os casos que iam surgindo como sendo de casos e casinhos sucederam outros que o são de facto. Não é certo que algumas perdas nas autárquicas não tenham contribuído também para esses factos.

Chegado até aqui penso que António Costa deve começar a ter algum cuidado e prestar mais atenção e observar mais tudo quanto o rodeia. Ouvir neste caso não significa executar o que outros acham que deveria fazer, mas descobrir estratégias para o futuro próximo. Analisemos agora, com algum cuidado, os mais recentes comentários sobre António Costa e o seu Governo e também os comentários sobre a sucessão, ou não, de Rui Rio no PSD levantados após as eleições autárquicas. 

Quanto a António Costa e sem qualquer ordem cronológica detenho-me em algumas das afirmações que são sistematicamente repetidas nos comentários mais ou menos proféticos como a insistência na fragilidade do Governo após as eleições; remodelação do governo a ser feita após aprovação do orçamento (a única que poderá ter algum fundamento); perda de autoridade do primeiro-ministro; fadiga em relação ao Governo; o Governo está muito mais fraco após as eleições; a inversão da tendência política em Portugal; a semana tal foi um desastre para o Governo.

A somar a estes sinais amargos, as semanas a seguir às autárquicas foram um desastre para o Governo. Pedro Nuno Santos verbalizou — da forma mais bruta possível — tudo o que o opõe ao ministro das Finanças, a quem culpa pelo afastamento do presidente da CP. O descontentamento com João Leão será alargado a outros ministérios, como escreve o Expresso, mas a declaração do ministro das infraestruturas abriu a caixa de Pandora. Dificilmente os dois poderão coexistir num próximo Governo e vai ser interessante ver como se desfaz este novelo. Para somar à semana desgraçada, o ministro da Defesa decidiu aproveitar politicamente o fim do mandato do vice-almirante, louvado quase unanimemente pelo sucesso das vacinas, para despachar o Chefe de Estado-Maior da Armada e colocar Gouveia e Melo no posto.

Daqui as primeiras mexidas consequentes saídas da primeira reunião da direção socialista neste sábado que elegeu os dirigentes que integrarão a comissão política, o secretariado e a comissão permanente do PS

Quanto ao PSD e a Rui Rio parecer ser evidente a exploração jornalística de um dito “combate” dentro do PSD, que é o de “se concentrar naquele que é o combate maior que terá pela frente, que é o de se constituir como verdadeira alternativa ao Governo do Partido Socialista” como afirmou numa entrevista de Montenegro falando das rivalidades internas no partido, afastando-se estrategicamente dessas guerras. Faz-se de bom da fita, por agora, para depois atacar os despojos. Rio não está em condições de ser "alternativa sólida" ao PS. Acrescentou ainda que não pretende pôr-se já a caminho porque acha que o PSD ainda não está na hora de ganhar eleições e porque não acredita que o PSD sendo com Rui Rio ou sendo com Paulo Rangel não tem tempo de recuperar e renascer das perdas eleitorais.

Infeliz, à sua maneira, também está o PSD. A vitória de Lisboa e de Coimbra e o aumento total de câmaras deram a Rui Rio um sopro de vida, mas o combate interno intensifica-se — enquanto o PS sonha que Rio se mantenha no cargo. Com o PSD em convulsão, se Paulo Rangel conseguir ganhar as diretas a situação política muda: o curriculum de Rangel faz prever um PSD mais combativo, numa altura em que o PS ainda se encontra no cimo da colina, mas vai escorregando.

A proposição de que basta repetir uma mentira para que ela se torne verdade, uma das regras básicas da propaganda política, pode aplicar-se também num propósito de formulações hipotéticas, opiniões e suposições que sucessivamente se repetem mesmo que não sejam mentiras. Se se repetir uma ideia que não sendo mentira pode ser potencialmente uma verdade, ou seja, algo não verificado ainda, a sua repetição passada pelos “fazedores” da opinião pública pode ser vista como sendo uma verdade, embora não o seja ainda. É a chamada a ilusão da verdade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:28

Iniciativa Liberal e Aladino.png


A disparatada afirmação do deputado do IL, João Cotrim de Figueiredo, não merecia sequer tantas linhas e espaço no jornal, nem o trabalho da jornalista, nem, tão pouco, os “posts” nos comentários.


Ler alguns comentários sobre artigos de opinião nos jornais online, salvo raríssimas exceções, é o mesmo que ler colunas escritas em jornais humorísticos. Ler esses comentários é, por vezes, um passatempo. Exemplos do jornal Público, é o que hoje apresento, sabendo-se de antemão que também poderiam ser de outros jornais.


Antes de avançar com esse caso concreto devo informar que podem também incluir nesse rol o presente texto. Sobre ele haverá, com certeza, alguns leitores, ou melhor, muitos, que também o acharão digno de gozo e que o considerem um chorrilho de disparates. Se assim for ainda bem, é porque foi lido.


A democracia é assim mesmo porque dá lugar a poder haver várias opiniões, contrastantes, idiotas, disparatadas, sem nexo, imbuídas de fação, recalcitrantes, ocas, sectárias, incompreensíveis, desajustadas, reativas, reacionárias, de propensão totalitarista, racista, etc., etc. e a maior parte delas são provocadas por emoções à flor da pele. Algumas são manipulações intencionais impulsionadas por facciosismo. Outras há que tentam mostrar erudição na matéria lançam-se em explicações e apontam formas de se fazer, algumas sem fundamento e exequibilidade prática para o caso em questão.


Sim, podem incluir também este mesmo texto numa dessas categorias.


Caberá a cada um a seleção e a avaliação. Mas a prática da Internet que muitos creem ser o paraíso da liberdade de expressão, sofre de fragilidade democrática identificada através de muitos dos conteúdos publicados que propagam informação falsa e intencionalmente deturpada, incitam à violência e fomentam a radicalização cujos publicadores consideram ser a liberdade de expressão, porque, para esses, a é a oportunidade de se fazerem ouvir e a ter acesso a todos os conteúdos, incluindo os falsos. Para alguns a sua verdade é a única, é a verdade e a razão absolutas.  


Continuando. Vem tudo isto propósito das mentecaptas palavras pronunciadas na intervenção no Parlamento por esse estreante e debutante deputado do Partido Iniciativa Liberal (será PIL ou apenas IL?) ao dizer que “O PS sabe que mantendo um país amorfo e resignado tem um grupo de pobres, desesperados e dependentes do Estado que lhe irão dar o voto. A pobreza de muitos é o que segura o PS ao poder.” E de seguida que o PS só “existe para estar no poder, nunca irá resolver o problema da pobreza”, pois são os pobres que permitem ao PS “manter-se lá”.


Antes de mais gostaríamos de saber qual é para o deputado e para o IL o conceito de pobre e qual a demonstração da afirmação que fez. Para um raciocínio ser correto as premissas devem ser verdadeiras e devem ser primeiras, ou seja, não têm necessidade de serem demonstradas, é o silogismo científico.


O conceito de pobre reduz-de, para o senhor deputado, apenas aos que ele diz votam no PS?


Se formos pela lógica e fazendo humor poderemos construir silogismos deste tipo:


Eu votei no PS, 


Segundo o IL os que votaram no PS são pobres e desesperados,


Logo eu sou pobre e desesperado.


Mais um:


A pobreza de muitos segura o PS ao poder,


Eu sou pobre,


Logo seguro o PS ao poder.


 


Senhor deputado do PIL, por favor, não goze com o povo!


Ora, dizendo-se o IL liberal a cem por cento, e diz apoiar a meritocracia e o acesso de todos ao empreendedorismo e supostamente à riqueza acessível a todos pela redução do peso do Estado, dos impostos, etc.., estamos a ver que, quando e se o PIL for governo, os pobres, os votantes no PS passarão a ser ricos, deixarão de ser desesperados e passarão a ser votantes no PIL.


Quem ler o programa do IL, pleno de demagogia, pode encontrar um conjunto de intenções e desejos. Tal como no conto de Aladino e a Lâmpada Mágica das “Mil e uma Noites” que, ao esfregar a lâmpada, são satisfeitos assim também o PIL (Partido Iniciativa Liberal) fará tudo acontecer. Isto é, tudo quanto lá se escreve vai no sentido de reduzir ou até eliminar a pobreza e dar a possibilidade a todos sermos todos ricos através da iniciativa e da meritocracia. O que não diz é como tencionam acabar com os pobres que, segundo eles, votam todos no PS.


É sobre este último ponto que a conceituada e experiente jornalista do jornal Público Bárbara Reis escreveu um artigo de opinião sobre as afirmações antes citadas de João Cotrim de Figueiredo, líder e único parlamentar do PIL que podem ler aqui. Na minha opinião a disparatada afirmação do dito deputado, não merecia sequer tantas linhas e espaço do jornal nem o trabalho da jornalista.


Foram escritos vários comentários críticos ao artigo de opinião de Bárbara Reis, poucos elogiando, outros atacando. Para quem tiver tempo e paciência para ler transcrevo-os a seguir na íntegra, sem qualquer alteração, mesmo a ortográfica, apenas os nomes dos que os publicaram foram omitidos.



  • 11.2019 00:53


As contas que foram feitas no final são completamente ridiculas e com o objectivo de atirar areia para os olhos dos leitores. O que interessaria saber seria como cada categoria profissional vota (e isto assumindo assim de repente que há categorias profissionais com mais pobres vs ricos). Interessava sim saber da categoria do operariado qual a percentagem que votou PS vs a percentagem que votou PS na categoria de empresários. Nem sequer sabemos a percentagem global de cada categoria no total da população, como podemos sequer fazer as contas de que percentagem votou no partido..enfim..isto é só para enganar quem quer ser enganado..



  • 11.2019 04:21


Não defendendo em circunstância nenhuma a retórica da IL, devo dizer que o que também não cola é a forma falaciosa como a autora tenta desmontar este discurso. Se o deputado da IL falou em "pobres" a autora não pode decidir comparar este termo com o esquema de classes de Daniel Oesch que não se refere a pobres, nem ricos, mas a categorias profissionais. Sabia que um arquitecto, professor, enfermeiro, e tantas outras profissões incluídas tradicionalmente no universo dos "não-pobres" chega a ganhar menos à hora que uma empregada doméstica ou um operário? Posto isto é lamentável que a autora tenha falhado redondamente a linha de raciocínio, sem confrontar quaisquer factos pertinentes, contribuindo apenas para mais desinformação.



  • 11.2019 21:17


Tanto trabalho a ler relatórios para fugir a uma evidência. Basta ver como e a quem são distribuídas as benesses em épocas eleitorais para saber onde estão os votantes que pesa



  • 11.2019 21:13


Tanto trabalho a ler relatórios para fugir a uma evidência. Basta ver como e onde são distribuídas as benesses em épocas eleitorais para ver que votos têm peso nos resultados eleitorais



  • 11.2019 19:34


Provavelmente o que Cotrim quis dizer a Costa foi semelhante ao que Palme disse a Otelo, quando este lhe disse que o 25 abril tinha sido feito para acabar com os ricos. Olof Palme respondeu que na Suécia estavam mais preocupados em acabar com a pobreza e os pobres. Se Costa fosse o alvo da pergunta de Palme, provavelmente responderia que Portugal cresce acima da média europeia. Ao que o culto e desconfiado Palme, depois de consultar uns números, perguntaria talvez porque razão o nosso país cai nos últimos 4 anos no rendimento per capita, descendo uma posição todos os anos e estando já em antepenúltimo lugar... não sei que resposta daria Costa/Otelo a Cotrim/Palme... A chatice são os números :-/



  • 11.2019 20:39


parece-me sensato iniciar-mos uma sessão conjunta de telepatia para apurarmos com precisão o que vai na tola sizuda do Cotrim....hemmm!??



  • 11.2019 19:34


Provavelmente o que Cotrim quis dizer a Costa foi semelhante ao que Palme disse a Otelo, quando este lhe disse que o 25 abril tinha sido feito para acabar com os ricos. Olof Palme respondeu que na Suécia estavam mais preocupados em acabar com a pobreza e os pobres. Se Costa fosse o alvo da pergunta de Palme, provavelmente responderia que Portugal cresce acima da média europeia. Ao que o culto e desconfiado Palme, depois de consultar uns números, perguntaria talvez porque razão o nosso país cai nos últimos 4 anos no rendimento per capita, descendo uma posição todos os anos e estando já em antepenúltimo lugar... não sei que resposta daria Costa/Otelo a Cotrim/Palme... A chatice são os números :-/



  • 11.2019 18:47


Senhora jornalista Bárbara Reis, como se atreve a escrever dois artigos a malhar no IL! Muito grato lhe ficaria, a auscultação dos tais cientistas, relativamente à caracterização dos pobres deste país. Pense nisto: temos pobres em Portugal, que só o são, porque vivem neste país socialista. É inadmissível que uma pessoa que trabalha oito e mais horas diárias, viva pobremente.



  • 11.2019 17:06


Esses Pobres são Incultos se soubessem Votar levavam o Cartão Vermelho



  • 11.2019 20:09


são os chamados pobres de espirito. desde que elegeram o illuminati Socrates que acredito no infindável bom senso do povo. outros portentos tb foram escolhidos, como Cavaco. mas é o povo quem mais ordena...isto é...45 % do povo porque os restantes 55% gostam tanto do actual sistema q nem sequer votam.



  • 11.2019 16:26


O Sr Figueiredo prestou homenagem à imbecilidade. Não é coisa pouca.



  • 11.2019 16:14


...o populismo combate-se com factos e argumentos sustentados neles...BR, como sempre muito lúcida, é um gosto lê-la.



  • 11.2019 16:10


Muito bem, Bárbara. Apenas gostaria que o sr. João Cotrim, nos falasse do milagre liberal no Chile, como exemplo de criação de uma sociedade sem pobres.



  • 11.2019 20:31


a Michele Bachelet é uma perigosa neo-liberal. é tão nice saltar uma geração ou duas.



  • 11.2019 20:56


O Chile foi transformado num "paraíso" neoliberal durante a ditadura de Pinochet. Foi tudo privatizado: educação, saúde, segurança social, tendo os trabalhadores perdido ficado sem quaisquer proteções laborais. Michele Bachelet não mudou nada. Foi totalmente conivente com o sistema instalado. Os chilenos estão fartos do seu "paraíso".



  • 11.2019 21:17


olhe que não, olhe que não!! quando o preço de cobre aumentou nos por volta de 2008, Michellet investiu os fundos dai resultantes de forma muito sensata: primeiro, criou um fundo almofada que permitiu ao Chile escapar á crise financeira global de 2008 e, além disso, investiu fortemente em pensões para os idosos, programas de assistencia social e um pacote de medidas para estimular o crescimento econóomico. ela reduziu o desemprego e a pobreza e melhorou dramaticamente a educação infantil. é por estas e outras razões que foi fenomenalmente popular... não diga mentiras. vários esquerdistas europeus elogiaram-na.



  • 11.2019 15:54


Vê-se que a Iniciativa Liberal já incomoda o PSV (Pinho, Sócrates e Vara) bem como a CS que os apoia, patrocina e catapulta.



  • 11.2019 15:49


Tenho a dizer que foi graças a alguns artigos da Bárbara Reis que votei IL. De facto, pode -se escolher algo com dois raciocínios: “se uma pessoa daquelas gosta , deve ser bom”. Ou: “se uma pessoa daquelas detesta, deve ser bom”. Percebida a minha situação, imagino que esta sua persistência já tenha arregimentando mais uns quantos potenciais votantes. Continue o bom trabalho.



  • 11.2019 15:38


De facto o PS não é o partido dos pobres, é o partido dos penduras. Pendura, em ciência politica, é aquele que, pobre ou rico, viva à custa dos outros.



  • 11.2019 17:28 Para a mentira ser segura ... tem que ter qualquer coisa de verdade


Nem mais.



  • 11.2019 15:22


Pobres? O socialismo nao acabou com a pobreza em Portugal? Ou quer é acabar com a riqueza?



  • 11.2019 14:56


Na politica não interessa a verdade mas sim o que se diz e o momento.O novel deputado da IL já aprendeu, depressa, a cartilha. O importante é dizer qualquer coisa para as TVs...



  • 11.2019 13:59


O PS não é o partido dos pobres, de facto. É principalmente o partido dos funcionários públicos e daqueles (em número muito maior) cujos rendimentos vêm directa ou indirectamente do Estado. Isto é um problema para a democracia, porque o PS é dominante na máquina do Estado, que deve supostamente ser imparcial. Quando o PS consegue dominar também a banca e a imprensa, como nos anos Sócrates, adquire um poder sinistro e praticamente sem controlo. [Escrevi este comentário há quatro horas, seria o segundo do dia por acaso, mas ainda não apareceu aqui, embora apareça no meu perfil. Um mistério.]



  • 11.2019 14:55


Fake News



  • 11.2019 12:27


Obrigada senhora jornalista por repor a verdade. Uns apresentam factos, outros frases bombásticas que no incêndio que agora se vive nos média e redes sociais até colam. Aliás a Iniciativa Lacoste deve grande parte da sua votação a esse tipo de frases feitas e em cartazes de puro marketing.



  • 11.2019 14:11


Aplaudo o escrutínio mas receio detentores da verdade.



  • 11.2019 11:31


Tenho um amigo que baralha qualquer análise sobre a propensão do voto. É Monárquico e leva um modo de vida aristocrático, veste-se a rigor para as refeições servidas em baixela de porcelana e copos de cristal por uma empregada e depois vota no Partido Comunista. Também conheço alguns pobres, Investigadores com grande capital social porque são Doutorados e estão no desemprego ou na precariedade e esses não votaram PS.



  • 11.2019 13:21


Não há ciência do particular...



  • 11.2019 11:15


Pessoalmente, acho que os pobres em Portugal não existem como suporte de qualquer dos partidos que têm estado no governo (PS e PSD). São, antes, uma consequência natural do tipo de governação imposta a esses governos por força da adesão à UE. Quando se sabe que a economia é mantida praticamente em "crescimento zero" propositadamente, com todas as consequências que daí derivam, então a pobreza em Portugal é um claro efeito secundário das políticas implementadas. Agora, se esse efeito secundário (pobreza) é aproveitado para beneficiar alguém, julgo que esse alguém poderia ser mais facilmente um qualquer partido de esquerda, mais defensor dos pobres.



  • 11.2019 11:08


Obrigado Barbara Reis, eu como votante na IL, venho agradecer-lhe a escalpelização - em sentido positivo - que em dois artigos dedicou á IL. A minha opção de voto na IL, identifica-se com os principios da valorização competitiva - quem organiza e controla eficientemente a sua actividade economica, perspetivando o lucro (não conheço empresas privadas que sobrevivam com prejuízos), adoptando uma politica de valorização dos seus colaboradores e remunerando em função da riqueza criada, pois hoje só sobrevivem empresas que tenham estes principios. Foi este tipo de exigencia que encontro no discurso da IL, o seu programa não sendo um primor nas referencias á organização da sociedade, tem bons principios e concerteza será melhorado pois reonheço-lhes capacidades para corrigir o que promova injust



  • 11.2019 15:20


Não conhece empresas privadas que sobrevivam com prejuízos?!... Ah, ah, ah! Boa piada! Basta olhar para as empresas que controlam os meios de comunicação social. E sabe, não sabe, porque não fecham mesmo a acumular prejuízos?... E também deve saber que a situação estaria ainda pior se não houvesse umas "empresas amigas" que lhes compram publicidade inútil. Tanta "ingenuidade"...



  • 11.2019 10:50


Não cola? Vamos então ao que este jornal publicou em 7 Outubro 2019: "Quem vota em quem? Breve análise ao perfil dos concelhos onde os partidos se destacam" 1. PS mais forte nos concelhos com menor poder de compra Os concelhos onde o PS obteve resultados mais altos registam um poder de compra inferior à média nacional, com um ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem de 950 euros (inferior ao valor médio registado no país, de 1108,56 euros). Têm também mais trabalhadores da administração local do que a média (por cada 1000 habitantes há 13,21 funcionários das câmaras ou juntas de freguesia, enquanto a média nacional é de 11,62 funcionários por cada 1000 habitantes). E ainda um número mais elevado de escolas, embora a escolaridade esteja abaixo da média." A realidade é esta



  • 11.2019 14:18


Mas hoje estava com vontade de mandar palminhas ao PS



  • 11.2019 10:46


E o argumento de que o Bloco central se alimenta da máquina do estado ?? Acho que isso já cola melhor !!



  • 11.2019 10:45


Então somos um país de eleitores filantropos! Obrigado pela revelação



  • 11.2019 10:39


O enviesamento do artigo demonstra-se na falaciosa pretensa aposta nos ricos para haver mais pobres quando a ideia é transformar os pobres em ricos, como dizia Lucas Pires e como demonstram os factos nos países que os emigrantes económicos pobres preferem como destino, sinal inequívoco do que realmente cola. Talvez estes últimos, pelo muito que sofreram nas suas controladas terras de origem, sejam mais listos a compreender os mecanismos da perpetuação da pobreza (dependência do estado e não do indivíduo) do que muitos jornalistas e investigadores.



  • 11.2019 10:22


Sendo benevolente, os "iluminados" da Iniciativa Liberal vivem num mundo completamente imaginado por eles, uma espécie de bolha de gente que nunca teve algum contacto de facto com a realidade em toda a sua extensão. Sendo mais realista, os "iluminados" da Iniciativa Liberal sabem que mantendo o país extremamente desigual, cultivando uma pequena minoria de bolsos cheios, enquanto o resto chafurda na miséria, irão ter o apoio dessa minoria. E aqui apoio não siginifica apenas votos, mas antes de mais lum lugar na teia de relações onde essa minoria se apoia.



  • 11.2019 09:46


Muito bem. Excelente trabalho jornalístico num espaço de opinião, que mostra que é possível sustentar opiniões com factos, sem achismos, “parece que” e pré-conceitos. Receio é que com a qualidade dos novos partidos que entraram no parlamento o Publico tenha de contratar uma equipa só para verificar as tolices que dali virão...


01.11.2019 10:50



  1. PS mais forte nos concelhos com menor poder de compra Os concelhos onde o PS obteve resultados mais altos registam um poder de compra inferior à média nacional, com um ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem de 950 euros (inferior ao valor médio registado no país, de 1108,56 euros). Têm também mais trabalhadores da administração local do que a média (por cada 1000 habitantes há 13,21 funcionários das câmaras ou juntas de freguesia, enquanto a média nacional é de 11,62 funcionários por cada 1000 habitantes). E ainda um número mais elevado de escolas, embora a escolaridade esteja abaixo da média. Jornal Público, 7 Outubro 2019


 



  • 11.2019 09:28


Excelente, Barbara. O jornalismo faz-se com fontes e conteúdos.


 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:05

Aquecimento político.png


A necessidade de protagonismo é uma praga que, cada vez mais, atinge e se estende a vários grupos sociais e a pessoas da política e fora dela. Utilizam todos os meios convencionais que têm ao dispor para alcançar esse objetivo e, falhado esses, são as redes sociais o seu meio preferencial.


A política não tem sido parca a esse fenómeno, nomeadamente os populistas de extrema-direita e também, em menor escala, a extrema-esquerda, cada um à sua maneira, que têm começado a ter cada vez mais protagonismo. Será este um dos males trazido pela exigência com que os mentores da mais e melhor democracia nos têm invadido como se a que temos já não chegasse? Os resultados, mascarados com a mais democracia, começam a ser visíveis na Europa e no resto do mundo.


 A temperatura das manifestações sociais espontâneas ou manipuladas por vários grupos extremistas tem subido em vários locais do mundo prevendo-se temperaturas muito mais extremas provindas de fenómenos políticos atípicos.


Justificadas por várias causas, quer remotas, quer próximas, com diferentes virulências e motivações específicas, estão a verificar-se conturbações e crispações sociais em várias nações. No Líbano, no Iraque, em Hong Kong, em Paris, Londres Barcelona entre outras. A estas vieram acrescentar-se recentemente e agora com mais vigor as lutas em prol do ambiente.


Todos parecem estar empenhados, negros, brancos, várias etnias e religiões, árabes, asiáticos, homens, mulheres ou crianças. Nesses países as palavras de ordem são semelhantes. Seja em castelhano, inglês, árabe ou qualquer outra língua, é surpreendente a semelhança dos cartazes e das palavras de ordem.


Nenhum dos protestos pode ser reduzido a uma só questão nomeadamente a económica. Muitos dos protestos desencadeados por indivíduos ou grupos que se distinguem pela violência e pelo alimentar do medo nas populações a forma de serem ouvidos e colocados nas primeiras páginas do jornais e aberturas da informação televisiva. E os noticiários televisivos dão-lhes cobertura e relevância porque o medo e a violência compram audiências.


As consequências destes movimentos inorgânicos ou organizados, alguns pouco democráticos demonstrado pelas suas atuações violentas, são a satisfação das exigências e a cedências às suas reivindicações feitas pelos governos. Mas, mesmo com a satisfação das exigências esses movimentos continuam com os protestos.


O que aparentemente desencadeia as manifestações com consequente violência desenfreada nas ruas é normalmente a pretexto de alguma coisa de concreto, como por exemplo a lei da extradição num território (p.e. Hong Kong), o aumento de preços dos combustíveis num lado, o custo de vida no outro, as prisões ditas políticas aqui, as desigualdades ali. São algo de concreto, mas são motivos que apenas servem para disfarçar outras realidades ainda ocultas, disseminadas, mas em estado mais do que embrionário prontas a emergir em qualquer momento. Os geradores destes embriões, os que os alimentam, não se conhecem exatamente quem são, mas andam por aí dispersos.


Todas estas manifestações já são mais do que isso, são insurreições, são o caldo de cultura virulenta que pode conduzir aos populismos e totalitarismos, soluções que muitos acham que poderão resolver o objeto do descontentamento.      


Coincidência, ou não, o crescendo da turbulência que já tinha sido semeada agravou-se com a política de desorientação, desvario e confusão resultante da eleição de Donald Trump nos EUA.


 A direita, e sobretudo a extrema-direita, mais do que a esquerda, têm nas redes sociais uma rede de gente cuja missão é a desinformação, a difusão de propaganda e notícias falsas de forma a descredibilizarem, as instituições democráticas e os políticos. Utilizam as liberdades democráticas para promover a erosão da confiança nas autoridades, encorajar a militância que nutra a raiva contra o sistema político através de publicações sobre assuntos como a raça, imigração, género, convocações de manifestações inorgânicas, etc. São uma espécie de departamentos idênticos aos que engendravam desinformação e conspirações no tempo do estalinismo soviético e do nazismo, mas que utilizam agora as redes sociais e a Internet como veículos de difusão. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:17

Os voláteis

por Manuel_AR, em 05.10.19

Eleitores voláteis.png


Não são apenas os indecisos que podem determinar uma campanha eleitoral. A volatilidade é outro fenómeno eleitoral que se deve ter em conta para se ganharem eleições. Mas quem são os eleitores que se encontram nesta margem?


O fenómeno da volatilidade acontece quando um indivíduo muda de opinião entre duas eleições denominada volatilidade inter-eleitoral, ou ainda, quando parte dos eleitor oscilam as suas preferências ao longo duma campanha eleitoral, também denominados flutuantes.


O ponto de vista psicossociológico assenta a volatilidade nos indivíduos com baixo nível de educação, com apatia, falta de identificação partidária e ideológica como determinantes. Há, contudo, uma outra perspetivas que identifica a instabilidade eleitoral pelo acesso esses eleitores têm no que se refere ao acesso a mais recursos informativos que incentivam a flutuação, tendo assim uma maior sofisticação política e apresentando um nível de conhecimento superior ao eleitor médio.  


Há estudos que apontam para que os eleitores voláteis apresentam um nível de educação mais elevado e pertencem a faixas etárias mais novas e demonstram uma maior instabilidade nos alinhamentos de preferências político-partidárias.


Outra perspetiva que pode estar associada à volatilidade relaciona-se com o papel dos meios de comunicação. Sobre esta questão há pontos de vista contraditórios. Verificou-se que os eleitores voláteis situavam-se num nível baixo de exposição aos meios de comunicação, mas noutros casos justificaram estas conclusões pelo facto de os meios tradicionais se focarem sobre questões conjunturais associadas a fatores de curto prazo, como os temas da campanha à transitoriedades, como escândalos, ou sondagens. Também foi verificado noutros estudo que a quantidade dos meios de comunicação utilizados durante as campanhas não tem efeito sobre a volatilidade dos eleitores.


Os eleitores flutuantes dependem mais do nível de conhecimento do que das características sociodemográficas ou de interesse pela política. A avaliação do desempenho do governo reflete uma componente conjuntural e de protesto que leva os eleitores a mudar o sentido do voto entre eleições sucessivas. Isto é, quanto mais positiva é a avaliação do desempenho do governo, maior a tendência para manter o sentido de voto, e reciprocamente.


Os que decidem na proximidade do dia das eleições são também os mais propensos a oscilar nas suas escolhas eleitorais. Ao nível das atitudes os voláteis estão associados com uma identificação partidária mais fraca e um menor interesse pela política.


As escolhas eleitorais baseiam-se num processo cognitivo que parte das predisposições políticas, as quais são atualizadas com novas informações que emergem durante a campanha eleitoral ou durante a legislatura.


O chamado efeito líder não é de somenos importante na escolha para a decisão de votar. É frequente a imagem dos líderes ter uma grande visibilidade e ter espaço privilegiado na opinião pública e nos media durante as campanhas eleitorais e no período inter-eleitoral.


O marketing político tem feito por evidenciar a importância da “personalização” da política dos candidatos para avaliação pelos eleitores que passaram a ser considerados como consumidores de imagem. Ainda há quem vote pela imagem dos candidatos e não pela eficácia governativa durante os mandatos.


A individualização, ou melhor, a fulanização da política e o aumento da mediatização sobre ela pode levar a que o efeito líder possa ser um fator conjuntural importante isto porque os líderes representam a face humana dos partidos. Não é por acaso que as características pessoais são informações fáceis de recolher e de utilizar pelos órgãos de comunicação para construir ou destruir avaliações positivas ou negativas sobre posições dos candidatos e dos partidos em função das preferências e orientações ideológicas daqueles órgãos.


 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:56


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.