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A estratégia que o PCP - Partido Comunista Português tem vindo a seguir após o desaire das eleições, e, mais recentemente, com a invasão da Ucrânia está a desenvolver-se em três frentes.

A primeira frente, a mais recente, é a manutenção da culpabilização da invasão da Ucrânia pelo ocidente tratando o invadido e o ocidente como sendo os agressores. A desculpabilização do agressor é também defendida pelos que, reivindicam um pensamento alternativo, para eles indiscutível, em contraponto ao que eles denominam de pensamento único, que é contra a invasão e que é o errado. Para essa corrente, a Europa, enfeudada aos EUA e à NATO, são os geradores de uma escalada militar belicista.

Pela análise dos argumentos de Vladimir Putin e dos seus seguidores, o ocidente é o meio privilegiado da expansão dos valores negativos da cultura ocidental para a Rússia. É, pois, em nome da autodeterminação dos povos, e não apenas do povo russo, que Vladimir Putin diz prosseguir a sua política externa de forma a romper com os constrangimentos da hegemonia ocidental (ver discursos e intervenções). Ao mesmo tempo insiste em querer preservar a influência de Moscovo no “estrangeiro próximo” que se perdeu com o colapso da URSS (a retórica do PCP está próxima). Todavia a invasão da Ucrânia é demonstrativa da sua contradição por não lhe reconhecer o seu direito à autodeterminação.

A segunda frente do PCP é ideológica e processa-se no âmbito da sua política interna. No partido nada acontece por acaso. O “interior” do partido está rodeado pela discrição onde está enraizada uma ideologia dogmática com certos postulados não sujeitos a crítica e em que é o comité central que faz o ditame do posicionamento ideológico-partidário do momento que obedece a uma liturgia própria. O PCP debate-se, por isso, com o dilema de simultaneamente ter de responder à necessidade de manutenção da sua identidade, cujos valores e princípios são submetidos à ideologia internacionalista do comunismo mais ortodoxo e a vontade do eleitorado que pretende recuperar.

As narrativas produzidas pelo PCP têm vindo a competir com outros discursos existentes no espaço político. Ao longo do tempo, no que se refere a evolução discursiva, desenvolveu algumas alterações na sua terminologia linguística reprimindo algumas expressões e a aceitação de outras pela reformulação de elementos linguísticos que deixaram de ser utilizados na sua antiga formulação com a entrada e a participação do partido no diálogo político que se encetou em Portugal após o estabelecimento do regime democrático, ficando numa espécie de letargia de que tem custado a sair, mas a que parece pretender regressar.

Todavia, ao longo dos anos, ao escutar e ao ler alguns dos discursos dos líderes do PCP tenho verificado que, desde o tempo da URSS e do PCUS (Partido Comunista da União Soviética), até à atualidade, alguns dos pressupostos do PCP mantiveram-se. A NATO continua a ser uma organização agressiva, os EUA capitalistas, imperialistas e agressores e a União Europeia está ao seu mando. Deste modo, faça a Rússia  o que fizer, (leia-se antes Putin), para o PCP estará sempre certa, no pressuposto de que, todos os que considerem como inimigos os de quem sou inimigo, são meus amigos.

Apesar da confusa barracada causada por declarações por figuras do PCP, algumas delas contraditórias, sobre a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin que pode ver aqui e aqui, e em que o líder Jerónimo de Sousa tem afirmado que o PCP garante “não ter nada a ver com o governo russo” nem com Putin o certo é que, os seus militantes e adeptos ao colocarem-se do lado contrário de quem está contra Putin colocam-se, indiretamente, do lado do agressor.

No 101º aniversário do PCP Jerónimo de Sousa afirmou ser “uma calúnia” dizer que o partido apoia a invasão da Ucrânia. Apesar da tentativa de se demarcar do regime de Putin, não foi a ele quem mais atacou. Foi aos EUA que mais apontou o dedo. No mesmo comício, em março, a defesa indireta do agressor que é Vladimir Putin deu-se pelo ataque aos que ajudam o agredido, foi o Ocidente, sobretudo aos EUA, que mais responsabilizou. Narrativa que também tem passado pelas redes sociais pelos seus adeptos. Jerónimo de Sousa apontou “todo um caminho de ingerência, violência e confrontação” que diz ter começado no “golpe de Estado de 2014, promovido pelos EUA, que instaurou um poder xenófobo e belicista”, e que provocou “a recente intervenção militar da Rússia na Ucrânia e a intensificação da escalada belicista dos EUA, da NATO e da União Europeia.” Afinal o que é isto senão a lavagem da política de Putin em relação à Ucrânia? Basta agora acrescentarmos o termo “operação militar especial” que Jerónimo já utilizou para se referir à invasão da Ucrânia. A colagem torna-se ainda mais evidente quando não refere Putin como imperialista nem o coloca em causa pelo que deveria ser para o PCP a tradição leninista da autodeterminação dos povos, já que, Putin responsabiliza Lenine pela independência da Ucrânia por ser o seu "autor e criador".

Os argumentos vindos do Kremlin para a invasão da Ucrânia são apontados ao ocidente, sobretudo à U.E., EUA e NATO o que parece terem dado ao PCP um novo alento. Não é por acaso que os seus capangas ideológicos andam pelas redes sociais e blogues a apoiar indiretamente Putin criticando e colocando-se contra o ocidente. Para o PCP a U.E. e a NATO foram e são uns empecilhos ao avanço estratégico da Rússia para ocidente e um bloqueio à progressão dos desígnios de expansão do comunismo na esperança de que um dia a URSS ou algo parecido regressem.

O PCP, embora esteja contra as políticas capitalistas do Kremlin como diz, ao mesmo tempo está em consonância com a sua política externa. A ambição do Kremlin pelo controle da Europa, pelo menos dos países que pertenceram ao Pacto de Varsóvia, é a hegemonia económica e geopolítica que passa também pelo desmembramento da União Europeia e a NATO que tem sido (e sempre foi) uma pedra no sapato de Putin e que também fazem parte de uma das lutas do PCP.

A terceira frente que não é independente das duas anteriores resulta da pesada derrota nas últimas eleições legislativas que está a fazer com que o PCP regresse ao “show de rua” com reivindicações e greves, com palavras de ordem mais do desgastadas e com o costumeiro radicalismo arcaico e ortodoxo.

As palavras de ordem do PCP voltaram a ser as de um populismo de esquerda para captar as massas populares para a sua luta. Palavras de ordem, as mesmas de sempre, como “aumentar os salários”, “valorizar o trabalho”, “desenvolver o país” às quais acrescentam a inflação e o custo de vida que vieram, em boa-hora, ajudar a direita e a extrema-direita a fazer oposição, como já vimos no Parlamento o PSD a defender aumento na função pública quando anteriormente falava no peso do Estado na economia.

Aprovado o OE para 2022 que o PCP votou contra, juntamente com a direita e com a extrema-direita, pela mão dos sindicatos que controla irá tentar instalar uma instabilidade social artificial com greves, paralisações e manifestações. O seu objetivo é fazer uma oposição de ataque cerrado e de desacreditação da maioria absoluta do Governo do Partido Socialista.

As únicas propostas que o PCP apresenta para melhorar o país são o aumento das pensões, dos salários, a fixação de preços contra o grande capital. Fixação de preço que resultaria em faltas nos abastecimentos de produtos básicos essenciais para as populações, sobretudo as urbanas, em filas para a compra de produtos essenciais como se verificava na ex-URSS da chamada economia planificada do regime comunista.

A economia da URSS era tão planificada que, depois da sua dissolução as privatizações de grandes empresas foram parar à mãos de quadros, antes fiéis do PCUS-Partido Comunista da URSS e “gestores” dessas mesmas empresas do Estado, que são atualmente os grandes oligarcas da Federação Russa e cuja maioria ainda está do lado de Putin.

Ainda no sentido desta terceira frente e aproveitando a atual conjuntura internacional devido à invasão da Ucrânia seguida do pedido de adesão à U.E., o PCP luta com as armas desestabilizadoras que tem ao seu dispor para dar apoio, mal disfarçado, à política de Vladimir Putin. Esta posição é coerente com a nota do gabinete de imprensa do PCP de 22 de fevereiro deste ano.

Há ainda a salientar a despropositada conferência que o PCP organizou no ISCTE na passada terça-feira, em Lisboa, para analisar as “consequências do uso do euro para o país se este rumo se mantiver” e as “possibilidades para concretizar uma rutura”. Parece-me que Putin terá ficado agradecido, assim como o PCFR.

O PCP faz um balanço negativo da adesão ao euro e destes 20 anos em que a moeda esteve a circular baseia-se na perda de soberania sobre a sua política monetária, cambial e orçamental; nos períodos de recessão ou estagnação económica, tornou-se mais endividado e dependente, perdeu capacidade produtiva, e não convergiu com a média da União Europeia. “Temos o dever de perguntar: como serão os próximos 20 anos? Vamos resignar-nos a este cenário?” questiona o PCP. Os argumentos parecem ser idênticos aos da extrema-direita quando está contra a U.E.

Os comunistas realçaram na conferência, organizada pelos eurodeputados do PCP, que “A permanência no euro já é suficientemente longa para se tirar conclusões independentes das conjunturas e dos governos. Este é o tempo de recordar a propaganda e as promessas então feitas e de as conformar com os impactos reais da adesão. Mas é sobretudo o tempo de pensarmos o presente e o futuro. Este debate assume recusar inevitabilidades”.

A proposta e a estratégia do PCP ao adotar uma estratégia anacrónica para criticar a presença de Portugal no Euro vai no sentido de que Portugal fique novamente “orgulhosamente só”, tal como proferiu Salazar num discurso em 1965 quando o mundo se opunha à manutenção do colonialismo. É lamentável que após 57 anos, embora num contexto distinto, mas igualmente severo, o PCP esteja a querer encaminhar Portugal para o desastre.

A discussão veio facilitar a abertura do tema que está no alinhamento com Putin ao aperceber-se de uma Europa Unida pelo que há que estilhaçar esta perigosa união. Não nos admiremos se a extrema-direita vier também a alinhar com a ladainha comunista sobre a U.E. Temos visto nos últimos anos como a extrema-direita na Europa tem trazido para a discussão populista a verborreia contra a União Europeia.

Enquanto continua a haver países de leste, nomeadamente a Moldávia, que pretendem entrar para a U.E. e para a NATO/OTAN e para zona Euro, coisa que o presidente Vladimir Putin vê como um cerco à Rússia, e o Reino Unido acha que terá sido um erro a sua saída da U.E. o PCP continua a propor a saída de Portugal do Euro. Não é novidade, a sua coerência reside no facto de ter estado sempre contra a entrada de Portugal para a U.E. e para a zona Euro que, para aquele partido, é uma organização “defensora do grande capital”. Aliás, em 2016, o PCP defendia “derrotar a União Europeia, criar ‘outra Europa’ dos trabalhadores”. Qual? A da ex-URSS?

De facto, parece-me estranho que o PCP nas atuais circunstâncias esteja novamente a levantar a discussão e a colocar em causa o Euro e a U.E. Caso fosse desmantelada a U.E. esta ficaria dividida e a porta ficaria aberta ao imperialismo de Vladimir Putin. Neste aspeto o PCP é coerente porque sempre foi contra a U.E., mas, saído das “amarras” de compromissos de apoio parlamentar com o PS encontrou novamente o folego e a oportunidade para, ao arrepio da guerra da Ucrânia, se aproximar dos pontos de vista de Vladimir Putin cuja filosofia é contra a E.U. e contra o Euro por ver neles um empecilho apesar de a ter enfeudado ao fornecimento de gás e petróleo da Rússia.

Este debate sobre o Euro não surge por acaso e regressa com os mesmos estribilhos já bem conhecidos.

Convém também não esquecer que este espírito anti U.E. e anti NATO foi também a do anterior presidente dos EUA Donald Trump que esteve empenhado no seu enfraquecimento como realçou o Presidente francês Emmanuel Macron em 2019: “O que estamos a assistir é a morte cerebral da NATO", devido às decisões do presidente norte-americano sobre a Aliança Atlântica e também pelo comportamento do presidente turco”. A invasão russa da Ucrânia ocorreu num momento de enfraquecimento da NATO e não de um ostensivo e concreto alargamento até à fronteira russa.

O PCP sabe que a política externa de Vladimir Putin se pauta pelo confronto com os países ocidentais como se tem verificado há algum tempo. Os comunistas do PCP encontraram agora uma oportunidade de fazer eclodir uma discussão sobre o Euro porque a conjuntura da invasão da Ucrânia, a que também Jerónimo de Sousa chamou “operação militar especial”, e a que, claramente, nunca se opuseram, a não ser em falar em abstrato na paz que dizem pretender.

O presidente Vladimir Putin, para justificar os seus objetivos argumenta que se está a criar um “cerco estratégico”, o que é falso, e, de acordo com esta narrativa, traçou uma política externa que diz ser defensiva. Independentemente da avaliação que possamos fazer quanto a esta linha de argumentação, há uma verdade inequívoca: as ações de Moscovo ao longo dos últimos anos quer na Moldávia, na Geórgia, na Crimeia e agora na Ucrânia, as ações de Moscovo desfizeram dúvidas quanto à postura bélica assumida pelo presidente Putin.

 

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publicado às 16:17

Afinal as cassetes ainda existem

por Manuel_AR, em 13.05.22

“A conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa”. (Palavras do líder do Partido Comunista da Federação Russa, numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscovo a 3 de abril de 2022)

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O grande perigo para a Europa e para o Mundo não vem da NATO, nem dos EUA, mas do presidente Vladimir Putin. A pergunta que se coloca é a de saber se a Suécia e a Finlândia teriam pedido com brevidade a entrada na NATO caso Putin não tivesse invadido a Ucrânia. Putin passou a ser um fator de instabilidade também para a União Europeia que, segundo ele, teria a pretensão de desagregar.

Agora um ditador candidato a “imperador” quer pressionar a Finlândia, país autónomo, soberano e independente, a não aderir à NATO e, por isso, ameaça tudo quanto mexe. Desde quando um país obriga outro a seguir os seus ditames com a justificação de se sentir ameaçado. Por aqui vê-se quem ameaça o Mundo e qual a sua estratégia para o enfraquecimento dos mecanismos de proteção e defesa dos países que os rodeiam.

Putin nunca viu com bons olhos que Helsínquia aderisse em 1995 e encontrasse na União Europeia o seu espaço estratégico preferencial. A questão da adesão à NATO nunca se tinha colocado apesar de ser essa a preferência de grande maioria dos finlandeses.

Vamos ver se a Turquia deixará, ou melhor, não se oporá!

Putin, em vez de fazer uma aproximação à Europa e ao ocidente optou por se dispersar com divagações pouco credíveis conforme é citado no Kremlin: "O nosso dever comum é impedir o renascimento do nazismo, (o sublinhado é meu), que trouxe tanto sofrimento aos povos de vários países. É necessário preservar e transmitir (...) a verdade sobre os acontecimentos da guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade e irmandade". Palavras vazias sem sentido e que contrariam as suas ações pois atua pior do aqueles que diz estar a combater.

No dia 8 de maio Vladimir Putin, por ocasião do 77º aniversário da “Vitória na Grande Guerra Patriótica”, enviou mensagens de congratulações para vários países onde declarava, repetindo qual cassete gravada, que "Hoje, o dever comum é evitar o renascimento do nazismo, que trouxe tanto sofrimento para as pessoas de diferentes países. É preciso preservar e passar aos descendentes a verdade sobre os acontecimentos dos anos de guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade fraterna".

Que valores são estes a que se refere vindos de quem agride, ameaça, causa sofrimento com falsas justificações através de uma retórica mentirosa como a de “impedir o renascimento do nazismo” quando os seus atos, práticas e discursos contradizem o que ele diz querer evitar?

A utilização de forma genérica, mas específica, das palavras nazismo e desnazificação aplicados ao caso da Ucrânia não surgem por acaso. Foram escolhidas porque ele sabe que a nível mundial, estas palavras estão ainda bem presentes nas memórias coletivas dos povos e têm uma carga muito negativa. Daí a insistência no apelo demagógico contra o renascimento do nazismo passando a mensagem de que ele é o libertador das nações oprimidas pelo nazismo.

Falar de desnazificação e acusar a NATO de ser a responsável pela agressão à Ucrânia é, pelo menos, risível. São estratégias de desvirtuar informação apontando a outros, erros, falhas, atitudes e intenções que não servem senão para ocultar as do agente emitente. Como em qualquer totalitarismo, na Rússia de Putin a desinformação, a mentira, a mentira por omissão e a deturpação de factos são a regras aplicadas ao povo.

Porém, podemos questionar em que diferem as atuações de Putin daqueles que ele diz querer libertar os povos.  Nazismo é um tipo de fascismo totalitário com forte natureza nacionalista, agravado por radicalismos racistas, étnicos e xenófobos. A Rússia do presidente Vladimir Putin é uma autocracia com uma forte componente totalitária que se estende à regulação de todos os aspetos da vida pública e privada da Rússia, conforme informações que vão chegando ao nosso conhecimento. A Rússia é governada, na prática, pelo poder de uma única pessoa política e de fação personalizado em Vladimir Putin cuja autoridade não tem limites. A Duma (câmara baixa da Assembleia Federal da Rússia), não passa de um conjunto de deputados que são uma espécie de “Yes men”, até mesmo o Partido Comunista da Federação Russa, de que irei escrever mais adiante.

Como nos regimes totalitários e no nazismo Vladimir Putin tem implementado no seu país, repressão, perseguição a opositores, censura obstinada que proíbe publicação de informação que lhe seja desfavorável tornando-a inacessível às populações, etc.. Por outro lado, Putin tem apoiado financeiramente partidos xenófobos e racistas da extrema-direita na Europa. O que é isto afinal?

Lamentável é também haver em alguns países do ocidente partidos e pessoas que, dizendo-se democratas, apoiam ditaduras e um ditador que invade um país soberano. Neste alinhamento também se encontram os que dizem estar a favor do povo e da cultura russa, o que é indubitavelmente aceitável, mas são também esses os que defendem, tipo "copy paste", o pensamento presente nos argumentos discursivos de Vladimir Putin.

Tudo isto conduz-me, mais uma vez, aos argumentos do PCP em relação à invasão da Ucrânia. Em primeiro lugar, é preciso também que se entenda o pensamento do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa que “aplaude” a decisão de Putin sobre a “intervenção militar” na Ucrânia, basta ler os discursos de Gennady Zyuganov, líder daquele partido.

Recuemos então seis anos, 2016, e recordemos o que o líder do PCP disse no discurso de abertura do XX Congresso do PCP, em Almada, acerca da União Europeia e do Euro a quem não poupou críticas por serem, segundo ele, a “fonte dos maiores males dos portugueses”. Dizia então Jerónimo de Sousa, referindo-se a um discurso feiro no Parlamento Europeu sobre o Estado da União Europeia que, segundo ele, não se tratava de "maquilhar, refundar ou democratizar" a União Europeia (UE). Nem "mudar alguma coisa para ficar tudo na mesma". Disse que os comunistas não estão aqui para isso. Querem mesmo mudar o mundo e, quanto à UE, "articular ruturas que permitam construir uma outra Europa". Isso mesmo, mudar o mundo para que lado? O que pretenderia ele dizer na altura com a construção de uma nova Europa? Seria uma espécie de premonição do que se iria passar?

Mesmo com uma pequena margem de erro é o que, atualmente, o presidente Vladimir Putin e o seu partido Rússia Unida acolitado pelo Partido Comunista da Federação Russa, têm afirmado. Cada um que tire as ilações que entender.

Recentemente as palavras de Jerónimo de Sousa também não levantam dúvidas sobre o seu alinhamento com o seu congénere da Rússia, o PCFR,  e com Putin ao considerar que não houve uma invasão nem que há uma guerra na Ucrânia causada pela Rússia, mas sim “uma operação militar” embora acrescente que o PCP “condena”.

A subtileza passa a  evidência quando se refere a “operação militar” em vez de guerra (de facto, não houve formalmente uma declaração de guerra),  mas enfileira com a retórica de Putin apesar de, como disse, ser capitalista, única verdade.

Jerónimo de Sousa, no entanto, admite, contradizendo-se, que “Há uma guerra, isso é incontornável”, e esclarece que “é claro para o PCP que estamos perante uma Rússia capitalista” da qual “o PCP claramente se demarca”, “não tendo nada a ver” com Putin. Jerónimo de Sousa é muito hábil só que, por acaso, não deve ter lido os discursos de Putin e do secretário-geral do PCFR, ou, se os leu, fez-se de esquecido.

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Vamos lá ver então se eu entendo: “não houve uma invasão”; “houve uma operação militar”; “há uma guerra e isso é incontornável”.

Analisemos então qual a aproximação das narrativas do PCP com a intervenção do líder do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, em 3 de abril de 2022 numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscou sob o tema “Temos que resistir e vencer.”, onde o líder do Partido Comunista da Federação Russa recordou a solidariedade das forças patrióticas de esquerda do mundo. A ortodoxia no seu melhor.

Gennady Zyuganov tem a certeza de que o objetivo “é derrotar o nazismo e o fascismo, caso contrário, se espalhará por toda a Europa "e muitos jovens terão que usar sobretudos". Nazismos e fascismo são palavras coincidentes nos discursos de Putin e de Zyuganov. O chefe da fação comunista afirmou ainda na Duma do Estado da Federação Russa que "Se todos nós – a Duma, o Conselho da Federação e o Conselho de Segurança – apoiamos a operação especial, devemos explicar às pessoas o que estamos a perseguir, por que é que apoiamos ativamente os que defendem fielmente o mundo russo, a nossa língua, dignidade e Donbass, e a nossa amizade com a Ucrânia."

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Em 19 de abril já tinha afirmado algo sobre a “mentalização” pró militarista agressiva dos jovens russos ao dizer que "acreditava que nas escolas e nas universidades haveria muito trabalho para explicar a situação em que todos nós nos encontramos. Mas não vejo e não sinto isso nem nas atividades de ministros, professores, diretores de escolas ou figuras culturais", disse Gennady Zyuganov.

Zyuganov chega a lembrar as palavras do presidente Putin numa reunião com jornalistas estrangeiros em outubro de 2021 onde disse, (no contexto dos problemas socioeconómicos da humanidade que pioraram e que houve turbulências em escala global) que "O modelo existente de capitalismo na grande maioria dos países esgotou-se". Zyuganov acrescenta ainda que "Olhando para Biden, esta múmia ambulante, que ameaça todos, torna-se assustadora para a América". O líder do PCFR disse ter tirado uma conclusão ao observar que a Alemanha começou novamente a apoiar o nazismo, e a França está totalmente dançando ao som americano. O segredo foi revelado, é o ódio aos EUA. É assim que as coisas começam, agressões imaginárias, ódios, seja ao que for, como etnias, raças, nações, países que servem como bodes expiatórios para justificarem agressões e perseguições. É assim o nazismo!

Zyuganov afirmou ainda que “vamos ter de lidar com todos os desafios, porque, na sua maioria, os cidadãos do espaço pós-soviético já entenderam quem é o organizador da nova agressão. E toda a conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa. "Estamos presentes no final do conto de fadas sobre o mercado, sobre o livre comércio, sobre a liberdade de expressão", continuou o líder comunista (os sublinhados são meus). Sobre política externa da Rússia Zyuganov observou ainda a importância da interação da Rússia com a China, Índia, Vietname, Irão, Paquistão e Turquia.

Terminou prometendo que “Faremos de tudo para trazer paz à Ucrânia fraternal. Faremos tudo para desenvolver a nossa união", e que "vem uma nova etapa no processo de integração. E tenho certeza de que o Partido Comunista e as forças patrióticas de esquerda estarão na vanguarda deste trabalho, preparando-se para o centenário da formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas", concluiu o líder do Partido Comunista da Federação Russa. A mensagem de agressividade deste senhor líder de um partido que fala em paz, amizade e fraternidade está patente no seu discurso no “Dia da Vitória na Grande Guerra Patriótica”.

A razão por que inclui estas passagens do discurso de Zyuganov é por que, nas entre linhas, encontram-se pontos de vista aproximados aos de Putin que o PCP parece perfilhar fazendo-o através de narrativas travestidas que não evidenciam substância e cuja conversa é apenas o que está na superfície para convencerem e apelar a potenciais adeptos.

Mais recentemente numa intervenção num comício no dia 1º de Maio de 2022 o líder do PCFR, Gennady Zyuganov, afirmou que “agora na Ucrânia, a Rússia está a lutar principalmente por um mundo multipolar. “Estamos lutando pelo mundo russo, porque o mundo russo não está nos planos deles”.

A propaganda de Putin tem conseguido ter eficácia junto dos seus agentes e adeptos no ocidente e tem como grande aliado o Partido Comunista de Federação Russa. Comparando tantas opiniões, até da esquerda, que se indignam contra a incapacidade de alguns em condenar uma agressão imperialista assinada por um regime autocrático, verifica-se de facto quem está a fazer uma “tentativa de impor, à escala do povo, um pensamento único”, na Rússia e também aqui em Portugal.

Há pessoas que parecem ser crédulas por vontade própria que se deixam contaminar por invenções demasiado extraordinárias para que sejam autênticas veiculadas pelos canais de propaganda de Putin, tais como a da necessidade de desnazificar a Ucrânia, os laboratórios onde se preparam armas químicas na proximidade da Rússia, o genocídio dos que falam russo. O que está a acontecer é que, na minha opinião, a invasão da Ucrânia, serviu para mascarar as fraquezas internas da Rússia por ele causadas. Quem nos pode garantir que os que escrevem contra o ocidente apoiando as retóricas de Putin é que estão na posse da verdade e que todas as outras são mentiras?

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publicado às 14:23

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Insiro hoje no blogue uma análise do discurso do presidente Vladimir Putin antes da invasão da Ucrânia que poderá ajudar a esclarecer pontos de vista duvidosos que circulam pelas redes sociais. Se pretender aceder ao discurso original poderá seguir este link.

Vladimir Putin justifica a invasão da Ucrânia pela necessidade de a Rússia "se proteger", parar o "genocídio" e "desnazificar" a Ucrânia. A DW analisa as alegações do Presidente da Federação Russa.

Todavia, podemos dizer que na Ucrânia, como em muitos outros países, existem pequenos grupos extremistas de direita. No entanto, segundo especialistas, eles desempenham um papel completamente insignificante na sociedade. Assim, não há razão real para falar em "desnazificação", alegação de Putin e do PCP como justificação da sua ausência na telepresença de Zelensky na Assembleia da República.

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Verificação de factos da DW - Deutsche Welle

A Deutsche Welle (DW) é a emissora internacional da Alemanha e uma das mais bem-sucedidas e relevantes media internacionais.

Tropas russas estão a bombardear cidades ucranianas e a realizar hostilidades em larga escala no território da Ucrânia. A invasão russa começou em 24 de fevereiro, pouco antes disso, o presidente russo Vladimir Putin fez um discurso aos russos, no qual salientou as razões pelas quais decidiu ordenar um ataque, que, do seu ponto de vista, é uma defesa. DW - sobre o quão objetivos são os principais argumentos dados por Putin.

As tropas da OTAN estão se aproximando das fronteiras da Rússia?

A declaração de Putin: "A aliança (...) está a expandir-se constantemente, a máquina militar está a mover-se e a aproximar-se perto das nossas fronteiras."

Verificação de factos da DW: Esta declaração é enganosa.

É verdade nesta declaração que, após o colapso da União Soviética, 14 países da Europa Oriental tornaram-se parte da Aliança do Atlântico Norte. Quatro desses países fazem fronteira com a Rússia. Em 2008, a Ucrânia também teve a perspetiva de ingressar na OTAN, mas desde então o processo correspondente foi congelado. O chanceler alemão Olaf Scholz durante a sua visita a Moscovo em meados de fevereiro ressaltou que, num futuro previsível, a admissão da Ucrânia à OTAN não está na ordem do dia.

Também é verdade que a infraestrutura logística e os locais de voo necessários para o possível reforço operacional das tropas foram preparados no território dos países membros da OTAN do Leste Europeu. No entanto, é importante notar que essas medidas foram tomadas após a anexação da Crimeia ucraniana pela Rússia em 2014, o que constitui uma violação do direito internacional, e foram uma reação a essas ações de Moscovo.

A Aliança do Atlântico Norte continua a cumprir as disposições da Lei fundadora da OTAN-Rússia de 1997, que proíbe a implantação permanente adicional de forças de combate significativas nos países que se juntarem à OTAN.

No que respeita à deterioração das relações entre a Rússia e o Ocidente, a OTAN começou a rodar batalhões de grupos de combate nos Estados Bálticos e na Polónia em 2016. No entanto, esses grupos de batalha de 5.000 soldados são muito pequenos para representar uma ameaça real à Rússia, cujas forças armadas somam cerca de 850.000 soldados ativos.

Os países membros individuais da OTAN também realizam cooperação bilateral fora da aliança. Moscovo assistiu com grande suspeita à implantação de sistemas de defesa antimísseis Aegis Ashore. Eles estão a preparar-se para serem colocados na Roménia e já foram colocados na Polónia.

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Imagem de DW
Moradores de Kiev estão a procurar proteção contra ataques de mísseis no metropolitano

Estes sistemas foram originalmente desenvolvidos para navios de guerra. Eles podem produzir mísseis de cruzeiro que podem chegar à Rússia em pouco tempo, explica Wolfgang Richter, coronel aposentado do Bundeswehr e funcionário da Fundação para a Ciência e Política (SWP), com sede em Berlim, em entrevista à DW. No entanto, segundo ele, este não é um problema insolúvel.

"Esse problema pode ser resolvido através de verificação específica. Isso significa que a Rússia pode ter a oportunidade de garantir que não haja mísseis de cruzeiro prontos para lançamento nos silos de lançamento de Aegis Ashore. Mas Moscovo rejeitou uma oferta para entrar em um diálogo de controle de armas, disse Richter. "Em vez disso, escolheu a guerra e destruiu a perspetiva de uma solução negociada."

O ataque russo é uma defesa de acordo com a Carta das Nações Unidas?

Declaração de Putin: "As circunstâncias exigem que ajamos de forma decisiva e imediata. As Repúblicas Do Povo de Donbass pediram ajuda à Rússia. A este respeito, de acordo com o artigo 51 da Parte 7 da Carta das Nações Unidas, com a aprovação do Conselho da Federação da Rússia e em prol dos tratados de amizade e assistência mútua ratificados pela Assembleia Federal em 22 de fevereiro deste ano com a República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk, decidi realizar uma operação militar especial", disse Putin no seu discurso em 24 de fevereiro.

No mesmo discurso, o presidente da Federação Russa apontou: "Nós simplesmente não ficámos com nenhuma outra oportunidade de proteger a Rússia, o nosso povo, exceto aquele que seremos forçados a usar hoje."

Verificação de factos da DW: Ambas as alegações são falsas. Não é verdade que a Rússia seja forçada a "defender-se" contra a Ucrânia, nem que possa contar com a Carta das Nações Unidas.

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Imagem de DW

A alegação faz parte de uma série de acusações de Putin de que a Ucrânia está a conduzir operações militares ofensivas e até a preparar-se para uma guerra contra a Rússia.

Pouco depois de a Rússia reconhecer o autoproclamado "DPR" e "LPR", eles recorreram a Moscovo para pedir ajuda, e Putin enviou tropas para a região ocupada por separatistas pró-russos, a que ele chamou "manutenção da paz". De facto, no entanto, foi uma continuação da ocupação assustadora da Rússia na Ucrânia que começou em 2014.

Moscovo ainda não forneceu nenhuma evidência de que a Ucrânia atacou a Rússia, não há informações independentes sobre esta questão. Nas áreas separatistas no leste da Ucrânia, pelas quais há vários anos, houve falsas ações de bandeira, ou seja, ataques que blogueiros expuseram como encenados.

"O direito à autodefesa pressupõe um ataque da outra parte. No caso da Ucrânia, esteataque da Ucrânia à Rússia não é absolutamente observado", diz Pia Fuhrhop (Pia Fuhrhop), especialista da Fundação de Ciência e Política (SWP) no campo da segurança internacional, em entrevista à DW. Furhop chama ao argumento de Putin "traiçoeiro" e explica: "Exatamente o oposto: nas últimas semanas, a Ucrânia fez de tudo para impedir que a Rússia se referisse especificamente ao direito à autodefesa".

A Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), que monitoriza a Ucrânia numa missão especial há anos, também refuta inequivocamente a alegação de Putin de que a invasão russa se enquadra no artigo 51 da Carta das Nações Unidas. O presidente da OSCE e ministro das Relações Exteriores polonês Zbigniew Rau condenou a invasão russa como uma "violação fundamental da Carta das Nações Unidas". Justificar o ataque nos termos do artigo 51º foi "lamentável e vergonhoso", ressaltou.

Por sua vez, o secretário-geral da ONU, António Guterres, falando aos repórteres, disse: "Esta guerra não faz sentido. Viola os princípios da Carta das Nações Unidas."

O artigo 51º da Carta das Nações Unidas garante aos Estados-membros da ONU o direito à "autodefesa individual ou coletiva" em caso de ataque armado. No entanto, como ressalta Marcelo Cohen, professor de direito internacional do Instituto de Pós-Graduação em Estudos Internacionais e de Desenvolvimento em Genebra, não é o caso da Rússia. "O argumento de Putin é infundado por várias razões", disse Cohen em entrevista à DW. - Primeiro, os dois territórios separatistas ("DPR" e "LPR") não são estados do ponto de vista do direito internacional. Em segundo lugar, antes da invasão da Rússia. A Ucrânia não tomou "medidas violentas" contra esses dois territórios." E, em terceiro lugar, o uso maciço da força contra instalações militares em toda a Ucrânia é desnecessário e desproporcional, enfatiza o especialista.

Sem qualquer evidência de um ataque armado pela Ucrânia, as ações da Rússia permanecem, de facto, uma guerra de agressão sem qualquer justificativa nos termos do artigo 51º.

 O "genocídio" ocorreu na Ucrânia?

A alegação de Putin: o objetivo da chamada "operação especial" da Rússia na Ucrânia é "proteger as pessoas que foram submetidas a bullying e genocídio pelo regime de Kiev por oito anos".

Verificação de factos da DW: Isso não é verdade.

O termo "genocídio", segundo a Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, adotada pela Assembleia Geral da ONU em 1948, significa "atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso como tal".

Não há relatos de tais massacres direcionados de civis na Ucrânia, embora todas as vítimas civis do conflito tenham sido cuidadosamente documentadas por observadores internacionais desde 2014. Nos relatórios regulares da missão de monitoramento da OSCE, que tem viajado em ambos os lados da linha de contato no leste da Ucrânia desde 2014 – também com o consentimento da Rússia – não há evidências de morte sistemática de civis. As baixas civis do conflito são consideradas pelos observadores como resultado dos combates ou das suas consequências.

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos em 2021, um total de cerca de 3.000 civis morreram na zona de combate no leste da Ucrânia.

A Missão observadora da OSCE regista todos os mortos e feridos nos seus relatórios diários. O maior número de civis foi morto na primeira fase do conflito em 2014-2015. Desde 2016, o número de vítimas vem diminuindo constantemente. O último relatório de resumo disponível da missão de observação de 2020 registou as mortes de 161 civis entre 1º de janeiro de 2017 e meados de setembro de 2020 – com um número aproximadamente igual de vítimas de ambos os lados. A causa predominante da morte foi bombardeios de artilharia, seguidos de minas terrestres e explosões de munição.

"A maioria das vítimas - 81 mortos e 231 feridos - foram causadas por minas, artilharia não detonada e outros explosivos. Civis foram mortos ou feridos em várias circunstâncias, incluindo enquanto trabalhavam nos campos, pescando ou caminhando", diz o relatório de setembro de 2020 da Missão Especial de Monitoramento da OSCE. Pia Furhop, da Fundação Ciência e Política, chama às acusações de Putin de genocídio de "absolutamente infundadas".

Na sua opinião, o presidente russo não se importa com os factos: "No sistema autoritário, que hoje é a Rússia, os media de investigação não têm oportunidade para verificar isso de forma alguma. A este respeito, basta que ele Putin justifique a guerra sem uma base factual", disse Furhop.

 É necessário "desnazificar" a Ucrânia?

Afirmação de Putin: para evitar o suposto bullying e o suposto "genocídio", a Rússia precisa fazer esforços para "desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia".

Verificação de factos da DW: Esta declaração não é verdadeira.

A declaração de Putin é uma narrativa de propaganda que ele vem repetindo há muito tempo e que não tem base de facto. Para implementar os seus planos na Ucrânia, Putin usa o conceito histórico de "desnazificação". Descreve as políticas dos países vitoriosos em relação à Alemanha nazi após a Segunda Guerra Mundial. O objetivo desta medida, então, era libertar o país da influência dos nazis e remover as pessoas que apoiaram este curso dos seus postos.

É errado comparar isso com a situação na Ucrânia, ressalta Andreas Umland, analista do Centro de Estudos da Europa Oriental de Estocolmo (SCEEUS), em entrevista à DW. "Falar de nazismo na Ucrânia é absolutamente inapropriado", disse ele. "O presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky é um judeu de língua russa que na última eleição presidencial com uma grande vantagem contornou o candidato ucraniano sem raízes judaicas."

De acordo com Andreas Umland, existem de facto grupos de ultradireita na Ucrânia. No entanto, seu impacto é relativamente pequeno se compararmos a situação na Ucrânia com a situação de alguns outros países europeus, diz ele. "Nas últimas eleições parlamentares em 2019 na Ucrânia os partidos ultradireita e radicais saíram como uma frente unida, e essa frente unida ganhou um total de 2,15% dos votos", lembra o especialista.

Por sua vez, Ulrich Schmid, professor no estudo da cultura e da sociedade russa na Universidade de St. Gallen, na Suíça, chama às palavras de Putin sobre a necessidade de "desnazificar a Ucrânia" como uma "insinuação descarada". Schmid está envolvido em pesquisas no campo do nacionalismo na Europa Oriental. "De facto, durante os protestos euromaidano em 2013 e 2014, havia grupos separados de extrema-direita. No entanto, hoje eles desempenham um papel secundário no país", disse Schmid em entrevista à DW. "Existem esses grupos, mas há pelo menos tantos grupos de extrema-direita na própria Rússia quanto existem na Ucrânia", acrescenta.

Grupos militantes ucranianos de direita que lutam contra separatistas no leste da Ucrânia, como o Regimento Azov, foram criticados. O Regimento Azov foi fundado por um grupo de ultradireita, mas em 2014 foi incluído nas tropas internas do Ministério dos Assuntos Internos da Ucrânia, aponta a Guarda Nacional, Umland. Depois disso, houve uma separação do movimento radical e do regimento. Este último ainda usa símbolos radicais de direita, mas não pode mais ser classificado como extremista de direita. Durante os cursos de treinamento para militares, soldados que compartilham ideologia extremista de direita foram notados, mas foram identificados, e isso causou um escândalo, observa Umland.

Resumindo, podemos dizer que na Ucrânia, como em muitos outros países, existem pequenos grupos extremistas de direita. No entanto, segundo especialistas, eles desempenham um papel completamente insignificante na sociedade. Assim, não há razão real para falar em "desnazificação".

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publicado às 17:17

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A “pax romana” foi um período que se situou entre 27 a.C. e 180 d.C. que garantiu naquela época histórica estabilidade e tranquilidade. Também nós, na Europa, atravessámos uma pax europeia até à invasão da Ucrânia confrontando-nos agora com uma guerra perto de nós. Paz que do meu ponto de vista está longe de ser conseguida por teimosia de um invasor que parece pretender substituir a liberdade que tem sido o atributo da democracia europeia por outro tipo de ordem iliberal não democrática.

Parece que Lavrov, ministro dos negócios estrangeiros da Rússia, foi à China e fez declarações em que anunciou uma "nova ordem mundial, multipolar, justa e democrática" acrescentando que “a situação internacional ficará muito mais clara, e que nós, juntamente com vocês e com os nossos apoiantes, caminharemos para uma ordem mundial multipolar, justa e democrática”, o sublinhado é meu. A que justiça e democracia se refere? A hipocrisia do Governo russo não tem limites quando menciona a palavra democracia, palavra que para ele não tem qualquer valor.

Os apoiantes desta tese também os há por cá que aproveitam a invasão da Ucrânia como pretexto para criticar fortemente o ocidente, nomeadamente a NATO, os EUA e a U.E., pelas mais diversas razões. Estes centram-se apenas no princípio da responsabilidade da guerra justa que exige que se examine de quem é a responsabilidade na guerra, olhando apenas para o lado do agressor desvalorizando o ato ilícito da invasão contribuindo para satisfação do invasor Putin que, sendo contrário ao sociocentrismo, está a olhar o mundo duma perspetiva estreita e egocêntrica não se terá apercebido que a Rússia pode sobreviver sem Putin, mas duvida-se que Putin possa sobreviver sem a Rússia.

O presidente autocrata Vladimir Putin não está a colocar as necessidades e as preocupações do povo russo à frente dos seus próprios interesses. O anti sociocentrismo de Putin parece estar a ser agravado por uma esquizofrenia política com uma patologia que se manifesta por uma rutura de contacto com o mundo exterior, por isso a informação sobre a invasão da Ucrânia estar a ser condicionada e censurada, tal como a proibição do direito à manifestação, impensável num regime democrático.

Numa conferência de imprensa, em 2017, Vladimir Putin terá respondendo a uma pergunta sobre um artigo publicado no Washington Post no qual se escrevia que, numa reunião do Salão Oval com diplomatas russos, Donald Trump lhes passou certas informações confidenciais sobre o ISIS, (Islamic State of Iraq and Syria),  deu como resposta que o ocidente estava a desenvolver uma "esquizofrenia política".

Recorde-se que poucos dias antes da data trágica da invasão, quando Biden dizia que Putin iria invadir a Ucrânia, este dizia que o ocidente estava a entrar em histeria. Afinal não era histeria, eram certezas.

Após meses de ter negado que tinha intenção de atacar a Ucrânia, Vladimir Putin invadiu o território duma democracia europeia por ar, terra e mar a que chama uma operação militar especial, palavras também utilizadas em artigos por quem se coloca contra o ocidente para justificar a invasão como um senhor coronel Matos Gomes que escreve textos sobre agressões passadas do chamado ocidente noutros contextos geográficos o que nos leva a deduzir que se estará a colocar do lado oposto.

Afirmou Matos Gomes em 24 de fevereiro que "Não se trata de uma invasão. Penso que a Rússia e Putin falou e apresentou os objetivos claramente no discurso. O que a Rússia pretende é que a Ucrânia seja desmilitarizada e não seja uma base de ataque à Rússia. E isto ele disse-o muito claramente". Se isto não é defender a invasão perpetrada por Putin então o que é? Pelas imagens que nos chegam diariamente podemos ver que, afinal, se trata de uma invasão, de uma guerra.  

Perguntava-se no início qual era o objetivo do presidente russo ao invadir a Ucrânia. A justificação dada era o avanço da NATO para o Leste Europeu para cercar a Rússia.

Face à intransigência de um adversário que se tornou hostil e traiçoeiro que se ergue a agredir outro povo a resposta do ocidente foi tentar encurralar Putin, o que significa encurralar também o povo russo, embora se considere pouco sensata a estratégia que poderá brigar Putin, que não quer perder a face perante os russos, a ficar sem margem de manobra. 

Decorridas duas semanas de guerra, o presidente ucraniano propunha negociações e que deixava cair a adesão da Ucrânia à NATO. Afinal, não era apenas aquela a exigência que Putin pretendia. Ainda há dias Zelensky cedeu na proposta de neutralização para chegar a um acordo de paz. Quem não quer a paz?

O que fazer então quando Putin ultrapassou todas as linhas vermelhas que o colocam em direção à meta dos criminosos de guerra. Terá sido a aproximação da NATO que terá levado, segundo ele, à “operação militar”. Mas há outra, que Putin não revela, essa de ordem interna.

Desde 2017 que Putin se confronta com problemas internos na Rússia que terão começado a surgir apesar de ter ganho(?) as eleições presidenciais de 2018. Enfrentou, e estará ainda a enfrentar, situações difíceis devido às consequências das suas políticas quer externas, quer internas. O vazio da política interna está a ser substituído pela ilusão de sucesso internacional, criado e mantido com a ajuda da propaganda mais descarada da história da Rússia moderna, nem sei se Estaline e os anos seguintes da URSS o terão conseguido tão eficazmente, quer pela repressão quer pela censura. Também é certo que tecnologias como as de hoje para essa propaganda não existiam.

Na Rússia de Putin a Internet no seu todo ainda não foi proibida, mas canais de informações mesmo os alternativos como as redes sociais já foram condicionados à população através de todos os filtros disponíveis pelo governo para evitar a corrosão lenta dos chavões propagandísticos.

Contrariamente ao resto do mundo, a população russa não tem, na sua grande maioria, conhecimento do que se passa no país vizinho. Vladimir Putin proibiu a comunicação social da Rússia de usar as expressões "guerra" ou "invasão" e enganou os russos ao dizer que estavam a ser realizadas "operações militares especiais" na Ucrânia. As redes sociais também começam a ficar cada vez mais limitadas e as publicações censuradas, mas na quinta-feira, 11 de março à noite, a televisão estatal russa, o canal “Rússia 1” que é uma das emissoras estatais mais vistas no país e uma das que tem seguido as diretivas autoritárias do Kremlin, leia-se de Putin, quanto à situação da Ucrânia, consentiu numa provocação ao transmitir em direto em horário nobre a opinião de um comentador que criticou a ofensiva russa recusando-se a apoiar a narrativa das televisões encomendada pelo Governo russo.

Semyond Bagdasarov, um famoso académico e deputado russo, aproveitou a sua presença no programa 'An Evening with Vladimir Soloviev', “Uma noite com Vladimir Soloviev (um homem referido como forte defensor de Putin e um crítico franco da independência da Ucrânia e propagandista-chefe) para pedir ao presidente russo que ponha fim ao ataque, deixando ainda o alerta de que os aliados da Rússia, como a China e a Índia, podiam acabar por virar as costas a Moscovo.

Por seu lado Karen Georgievich Shakhnazarov, realizadora russa Karen Bagdasarov pediu ao líder russo para acabar com o ataque, enquanto tentou quebrar a narrativa do Kremlin de que está conduzindo uma "operação especial" limitada na região de Donbass, fazendo referência aos ataques à capital de Kiev.

No dia 4 de março a decisão do governo russo de bloquear oficialmente o acesso ao Facebook relativamente à invasão por Moscovo/Putin da vizinha Ucrânia provocou uma reação do Presidente para os assuntos Globais da Meta que escreveu no Twitte: "Em breve, milhões de russos encontrar-se-ão isolados de informações confiáveis, privados das de se ligar com a família e amigos e silenciados de falar". Continuaremos a fazer tudo o que pudermos para restaurar os nossos serviços para que permaneçam disponíveis e para que as pessoas se expressem com segurança e se organizem para a ação."

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Os males causados pela diminuição do rendimento das famílias, agravados pelas medidas severas das sanções económico e financeiras, aumentam a crescente desconfiança pública nas autoridades, no descontentamento público gerado por um governo ineficiente, com a corrupção e cleptocracia que o sistema permite ou aprova e com o aventureirismo geopolítico com enormes custos como o demonstram especialista em política russa.  

O Presidente Putin encontra-se num beco político sem saída, enquanto o povo se encontra numa crise existencial que lhe está a ser induzida pela propaganda que afirma que o ocidente quer destruir a Rússia.

Biden e Putin parecem ter entrado numa esquizofrenia que se manifesta pelas emoções que os levam a utilizar, sobretudo o primeiro, com uma verbosidade de palavras de baixa política com as adjetivações que faz a Putin com que lhe poderão ser aplicadas, mas que envergonham qualquer diplomacia. A esquizofrenia de Putin é mais sofisticada, aproxima-se da metafísica ao pretender transcender a própria realidade sem o conseguir levando o povo russo a pensar se a Rússia não estará, de facto, a atravessar uma crise existencial que o ocidente lhe estará a causar.

Vladimir Putin ficou subitamente nervoso com o facto de poder vir a ser o arquiteto que, devido à invasão da Ucrânia, conduziu a Rússia para uma crise económica e financeira sem precedentes pelas sanções do ocidente, porque sabe que isso tem como ricochete poder voltar o povo contra ele.

Com a informação disponível, credível, fiável e isenta de facciosismos sobre o que na realidade se passa na Rússia é ao pouco ou nada. Isto devido a que os jornalistas não podem trabalhar no país a não ser clandestinamente, enquanto no ocidente, onde há liberdade jornalística e onde se exerce livremente essa liberdade de expressão.

Apesar do senhor que manda no Kremlin lutar para esconder a realidade da guerra no ocidente textos e mais textos são publicados e republicados em blogs e redes sociais e explanações históricas de ditos especialistas em política internacional e geoestratégica de esforçam por atacar/condenar os EUA, a NATO, e a EU, como se fossem estes os agressores, defendendo a paz, tornando claro que são contra a guerra, mas, ao mesmo tempo, justificam os pontos de vista de Putin.

Alguns pretendem desacreditar a informação chamando pensamento único aos que não alinham em argumentos de crítica aos países do ocidente que pretendem que sejam os causadores da invasão da Ucrânia por Putin designando, como ele, “intervenção militar pacífica” ou “intervenção militar especial”. Pretendem assim justificar o mal que é a guerra na Ucrânia com o mal causado e apoiado por outros (os EUA) noutros contextos diferentes.

Para os das esquerdas radicais, anti ocidente, anti NATO e para os discretos apoiantes de Putin que se dizem defensores da paz é difícil reconhecer que os interesses de cada uns dos lados, Ucrânia e Rússia, devem ser tidos em conta. Mas, pelo que se depreende das opiniões que escrevem e das publicações de textos oriundas de fontes alinhadas pelo mesmo tom parece que, pelo contrário, são a favor do estabelecimento de linhas vermelhas inamovíveis que sejam contra os valores morais, princípios da democracia e regras internacionais que devem ser respeitadas e inegociáveis.

Porém, há também grandes organizações como o banco HSBC que alinham, talvez por interesses financeiros estar nas boas graças de Putin e da sua propaganda. Segundo o Financial Times, o HSBC também suaviza o tom com o qual se refere à guerra na Ucrânia, retirando dos seus relatórios referências à palavra "guerra", noticia o "Financial Times", alterando a palavra "guerra" para expressões mais suaves, como por exemplo "conflito". Alinha assim com o Kremlin que desde o primeiro dia chama à invasão da Ucrânia uma "operação militar especial".

Nesta altura atacar o ocidente e ao mesmo tempo fazer pedidos de paz é, quer se queira ou não, estar do lado do presidente Vladimir Putin o que se evidencia, como anteriormente referi, em textos publicados a quem a eles recorre para reforço dos seus argumentos. Um dos casos foi o recurso a um artigo de opinião escrito por  Mário Soares em maio de 2015 na Revista Visão quando criticou a aproximação da NATO para Leste com a adesão de países como a Polónia entre outros. Interpretação abusiva do que ele escreveu que era mais um alerta para o ocidente. Mário Soares tinha razão. A aproximação da NATO para leste foi uma consequência do desmantelamento da URSS e a libertação dos países de leste do jugo comunista. Foi nesta sequência que alguns desses países pediram a adesão à E.U. e a pretensão de entrarem para a NATO. Esta pretensão talvez fosse devido à insegurança que teriam em relação a possíveis agressões do Kremlin para recuperarem a sua antiga jurisdição sobre esses países. Mas, Mário Soares também escreveu que “Vladimir Putin é um homem perigoso. Ou, como dizem os brasileiros, um homem astuto, perigoso e imprevisível”. Apesar deste evidente ponto de vista o autor, enquanto Primeiro-Ministro e enquanto Presidente da República, nunca colocou em questão a retirada de Portugal daquela aliança militar intergovernamental.

Aqueles que falam da desmilitarização do ocidente, de paz e do aumento das verbas e de gastos com a defesa no orçamento da U.E. esquecem-se, ou omitem, nos seus relatos que a Rússia é considerada pela maioria dos analistas como a segunda maior potência militar do mundo e com grandes investimentos nas forças de guerra e que agora se encontra em grande vantagem e, por isso, lançou-se numa operação invasiva de um país soberano.

O semanário Expresso de 9 de março de 2022, recordava o que Pulido Valente escreveu a criticar a forma como a Europa se foi desarmando, e alertava para os riscos de “a Inglaterra gastar em defesa menos de 2% do PIB, num momento em que Putin embarcou numa política claramente agressiva e revanchista”.

Face a tudo isto deveria então o ocidente, nomeadamente a E.U., desproteger-se? Não. Mas foi o que aconteceu e parece que para alguns radicais de esquerda que assim deveria continuar.

A invasão da Ucrânia não terá sido uma surpresa visto que a presidência dos EUA, em 22 de novembro de 2021, segundo o “site” francês “Meta-Defense”, previu uma ofensiva na Ucrânia pela Rússia no inverno, a ocorrer em janeiro e ou fevereiro. Publicava na altura que “O objetivo previsto seria a criação de um corredor que permitisse ligar a Crimeia à Rússia por via terrestre, provavelmente até a foz do Dnieper e a cidade de Zaporizhia, também um importante centro industrial em termos de aeronáutica civil e militar, mas também a cidade portuária de Mariopol, crítica em termos de infraestrutura. Além de ligar a Crimeia, isso permitiria a Moscovo transformar o Mar de Azov num mar “interior”, inteiramente limitado pela costa russa”.

Apesar do senhor que manda no Kremlin lutar para esconder a realidade da guerra no ocidente textos e mais textos são publicados e republicados em blogs e redes sociais e explanações históricas de ditos especialistas em política internacional e geoestratégica de esforçam por atacar/condenar os EUA, a NATO, e a EU, como se fossem estes os agressores, defendendo a paz, tornando claro que são contra a guerra, mas, ao mesmo tempo, justificam os pontos de vista de Putin.

Estranhamente são também os que debatem e se empenham na busca do que se fez de mau no passado para justificarem que se faz de mau no presente. São os mesmo que pedem a desmilitarização do ocidente (porta escancarada para a entrada de Putin até ao ponto da possibilidade da sua ambição) e que exigem negociações diplomáticas para se chegar à paz. O ponto que não esclarecem é como isso será possível com o cinismo de quem diz que quer negociar e ao mesmo tempo diz não estar disponível para quaisquer negociações que não seja a capitulação do invadido com condições impostas pelo invasor, como tem vindo a ficar demonstrado.

Penso que esta retórica dos que se mostram contra os aliados ocidentais e que tão insistentemente invocam negociações para a paz não são mais do que fait divers para dissimularem o seu alinhamento com os senhores do Kremlin, a quem chamam capitalistas, ao mesmo tempo que se distanciam dos outros que são o rebanho aos que se afastam dos pontos de vista deles.

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publicado às 18:37

A Europa deve afinar os seus objetivos

por Manuel_AR, em 29.03.22

O risco de uma terceira guerra mundial deixou de estar no âmbito do impossível. A Rússia está agora a realizar ataques a poucos quilómetros das fronteiras da NATO e, dada a imprevisibilidade de Putin, não podemos descartar a possibilidade de um confronto direto entre a Rússia e a Aliança. Isso levantaria a possibilidade quase inimaginável de um conflito nuclear, que os nossos líderes têm o dever de evitar.

Como a Rússia e a Europa fazem parte de uma massa de terra ininterrupta, a estabilidade na ponta do continente é fundamental para a paz regional. Mas as barreiras diplomáticas entre a Rússia e a NATO estão a multiplicar-se. Raramente as organizações internacionais do pós-Segunda Guerra Mundial estiveram tão ausentes, ou mesmo impotentes, perante o conflito. Mesmo a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, criada com o objetivo de garantir a estabilidade entre a Rússia, Estados Unidos e Europa, está a mostrar-se inadequada para o desafio atual.

A União Europeia respondeu com firmeza à agressão da Rússia, demonstrando a sua unidade ao impor severas sanções financeiras e económicas. Mas a guerra na Ucrânia mostrou que a Europa não está suficientemente preparada para enfrentar os seus desafios mais imediatos. A UE deve agora concentrar-se em quatro prioridades.

Em primeiro lugar, a UE deve expandir as suas capacidades de segurança e defesa, e a "Bússola Estratégica" que está a ser elaborada deve servir para orientar a política neste domínio. Embora a Europa claramente deva investir nas suas capacidades militares, isso significa não apenas gastar mais dinheiro, mas também empreender tais esforços como europeus e não como Estados individuais. De acordo com a Agência Europeia de Defesa, os Estados-membros da UE gastam um total de cerca de 200 mil milhões de euros anualmente em defesa, mais do que a Índia, Rússia e Reino Unido juntos. A tarefa agora é melhorar a eficiência em vez de simplesmente aumentar os gastos militares ao nível nacional. E isso requer a adoção de uma visão europeia no planeamento militar nacional.

Em segundo lugar, a UE deve repensar a sua dependência energética da Rússia. A Europa depende do gás russo há muito tempo e pode ter de pagar um preço por fechar a torneira, como a Alemanha começou a fazer ao suspender o gasoduto Nord Stream 2. Como diz Nathalie Tocci, do Istituto Affari Internazionali, nenhum cálculo económico deve superar o que é necessário para a unidade europeia.
Em terceiro lugar, a Europa deve desenvolver uma política comum de migração com uma divisão geográfica de responsabilidade para aceitar refugiados das nossas respectivas vizinhanças a leste ou a sul. A partir de 2015, a então chanceler alemã Angela Merkel aceitou unilateralmente centenas de milhares de refugiados sírios, enquanto o resto da Europa olhava para o outro lado. Hoje, os Estados-membros da UE devem mostrar uma vontade comum de ajudar aqueles que fogem da guerra.

O êxodo de dois milhões de ucranianos para a Polónia desde o início da guerra destacou as incongruências da política de migração europeia. A solidariedade da Europa com os refugiados ucranianos é um gesto positivo que mostrou o melhor aos nossos cidadãos; mas deve também fazer-nos refletir sobre a nossa atitude muito menos acolhedora em relação aos refugiados de outras partes do mundo.

Por último, a Europa deve ajudar a mitigar os efeitos da guerra na segurança alimentar global. Como a Ucrânia e a Rússia juntas fornecem 19% da cevada do mundo, 14% do trigo e 4% do milho, o conflito também está a afetar muitas outras economias. Por exemplo, o Quénia, com uma população aproximadamente do mesmo tamanho da Ucrânia, obtém metade das suas importações de trigo da Rússia e da Ucrânia. Com 276 milhões de pessoas em todo o mundo sofrendo de fome severa, as regiões mais pobres, em particular, sofrerão como resultado do atual conflito.

À medida que a UE aborda estas prioridades imediatas, a missão fundadora da União de construir a paz e prevenir a guerra deve permanecer no seu cerne. Um mundo que ainda sofre com a pandemia da covid-19 e suas consequências, e atualmente parece incapaz de reverter as consequências das alterações climáticas, não pode dar-se ao luxo de um conflito deste tipo.

A Europa deve, portanto, usar os meios à sua disposição, incluindo sanções, para tentar mudar o comportamento de Putin. Acima de tudo, deve desempenhar um papel fundamental para evitar que as hostilidades na Ucrânia se transformem numa guerra entre as grandes potências.

O papel da China, que supostamente está a considerar vender armas à Rússia para ajudar no esforço de guerra de Putin, provavelmente será crucial para evitar um conflito global. O encontro mais recente entre Putin e o presidente chinês Xi Jinping, na véspera dos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano em Pequim, parecia sugerir uma quase aliança entre as duas potências.

Muitos traçaram paralelos com a visita do presidente dos EUA, Richard Nixon, à China em 1972, que anunciou uma reaproximação sino-americana destinada a combater a ameaça representada pela União Soviética. Mas enquanto a China pode ser tentada a formar uma aliança com a Rússia, uma guerra mundial não seria adequada para Xi, e tornar-se parte de tal conflito ainda menos.

Impedir que uma aliança China-Rússia se enraíze é fundamental para preservar o atual equilíbrio nas relações internacionais. A Europa pode e deve instar a China a desempenhar um papel na procura de um fim negociado para o conflito na Ucrânia. Para esse fim, é vital que os EUA, a UE e a NATO não sejam vistos como fracos e divididos na política interna ou externa.

Apesar da tragédia da guerra na Ucrânia, sinto-me orgulhoso do que a Europa fez nas últimas semanas. As respostas em Bruxelas, Paris, Berlim, Varsóvia e Madrid foram unânimes: a agressão de Putin não deve ficar impune. Uma UE mais assertiva e decisiva deve refletir não apenas a ressonância entre os governos nacionais, mas também a consciência dos cidadãos de que a sua segurança, interesses e princípios estão a ser ameaçados. Só com esta mentalidade a Europa realizará os seus objetivos.


Javier Solana, ex-alto representante da UE para as Relações Externas e Política de Segurança, secretário-geral da NATO e ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha, é presidente do EsadeGeo - Centro para a Economia Global e Geopolítica e membro ilustre da Brookings Institution.

© Project Syndicate, 2022.


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publicado às 18:35


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