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Afinal as cassetes ainda existem

por Manuel_AR, em 13.05.22

“A conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa”. (Palavras do líder do Partido Comunista da Federação Russa, numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscovo a 3 de abril de 2022)

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O grande perigo para a Europa e para o Mundo não vem da NATO, nem dos EUA, mas do presidente Vladimir Putin. A pergunta que se coloca é a de saber se a Suécia e a Finlândia teriam pedido com brevidade a entrada na NATO caso Putin não tivesse invadido a Ucrânia. Putin passou a ser um fator de instabilidade também para a União Europeia que, segundo ele, teria a pretensão de desagregar.

Agora um ditador candidato a “imperador” quer pressionar a Finlândia, país autónomo, soberano e independente, a não aderir à NATO e, por isso, ameaça tudo quanto mexe. Desde quando um país obriga outro a seguir os seus ditames com a justificação de se sentir ameaçado. Por aqui vê-se quem ameaça o Mundo e qual a sua estratégia para o enfraquecimento dos mecanismos de proteção e defesa dos países que os rodeiam.

Putin nunca viu com bons olhos que Helsínquia aderisse em 1995 e encontrasse na União Europeia o seu espaço estratégico preferencial. A questão da adesão à NATO nunca se tinha colocado apesar de ser essa a preferência de grande maioria dos finlandeses.

Vamos ver se a Turquia deixará, ou melhor, não se oporá!

Putin, em vez de fazer uma aproximação à Europa e ao ocidente optou por se dispersar com divagações pouco credíveis conforme é citado no Kremlin: "O nosso dever comum é impedir o renascimento do nazismo, (o sublinhado é meu), que trouxe tanto sofrimento aos povos de vários países. É necessário preservar e transmitir (...) a verdade sobre os acontecimentos da guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade e irmandade". Palavras vazias sem sentido e que contrariam as suas ações pois atua pior do aqueles que diz estar a combater.

No dia 8 de maio Vladimir Putin, por ocasião do 77º aniversário da “Vitória na Grande Guerra Patriótica”, enviou mensagens de congratulações para vários países onde declarava, repetindo qual cassete gravada, que "Hoje, o dever comum é evitar o renascimento do nazismo, que trouxe tanto sofrimento para as pessoas de diferentes países. É preciso preservar e passar aos descendentes a verdade sobre os acontecimentos dos anos de guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade fraterna".

Que valores são estes a que se refere vindos de quem agride, ameaça, causa sofrimento com falsas justificações através de uma retórica mentirosa como a de “impedir o renascimento do nazismo” quando os seus atos, práticas e discursos contradizem o que ele diz querer evitar?

A utilização de forma genérica, mas específica, das palavras nazismo e desnazificação aplicados ao caso da Ucrânia não surgem por acaso. Foram escolhidas porque ele sabe que a nível mundial, estas palavras estão ainda bem presentes nas memórias coletivas dos povos e têm uma carga muito negativa. Daí a insistência no apelo demagógico contra o renascimento do nazismo passando a mensagem de que ele é o libertador das nações oprimidas pelo nazismo.

Falar de desnazificação e acusar a NATO de ser a responsável pela agressão à Ucrânia é, pelo menos, risível. São estratégias de desvirtuar informação apontando a outros, erros, falhas, atitudes e intenções que não servem senão para ocultar as do agente emitente. Como em qualquer totalitarismo, na Rússia de Putin a desinformação, a mentira, a mentira por omissão e a deturpação de factos são a regras aplicadas ao povo.

Porém, podemos questionar em que diferem as atuações de Putin daqueles que ele diz querer libertar os povos.  Nazismo é um tipo de fascismo totalitário com forte natureza nacionalista, agravado por radicalismos racistas, étnicos e xenófobos. A Rússia do presidente Vladimir Putin é uma autocracia com uma forte componente totalitária que se estende à regulação de todos os aspetos da vida pública e privada da Rússia, conforme informações que vão chegando ao nosso conhecimento. A Rússia é governada, na prática, pelo poder de uma única pessoa política e de fação personalizado em Vladimir Putin cuja autoridade não tem limites. A Duma (câmara baixa da Assembleia Federal da Rússia), não passa de um conjunto de deputados que são uma espécie de “Yes men”, até mesmo o Partido Comunista da Federação Russa, de que irei escrever mais adiante.

Como nos regimes totalitários e no nazismo Vladimir Putin tem implementado no seu país, repressão, perseguição a opositores, censura obstinada que proíbe publicação de informação que lhe seja desfavorável tornando-a inacessível às populações, etc.. Por outro lado, Putin tem apoiado financeiramente partidos xenófobos e racistas da extrema-direita na Europa. O que é isto afinal?

Lamentável é também haver em alguns países do ocidente partidos e pessoas que, dizendo-se democratas, apoiam ditaduras e um ditador que invade um país soberano. Neste alinhamento também se encontram os que dizem estar a favor do povo e da cultura russa, o que é indubitavelmente aceitável, mas são também esses os que defendem, tipo "copy paste", o pensamento presente nos argumentos discursivos de Vladimir Putin.

Tudo isto conduz-me, mais uma vez, aos argumentos do PCP em relação à invasão da Ucrânia. Em primeiro lugar, é preciso também que se entenda o pensamento do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa que “aplaude” a decisão de Putin sobre a “intervenção militar” na Ucrânia, basta ler os discursos de Gennady Zyuganov, líder daquele partido.

Recuemos então seis anos, 2016, e recordemos o que o líder do PCP disse no discurso de abertura do XX Congresso do PCP, em Almada, acerca da União Europeia e do Euro a quem não poupou críticas por serem, segundo ele, a “fonte dos maiores males dos portugueses”. Dizia então Jerónimo de Sousa, referindo-se a um discurso feiro no Parlamento Europeu sobre o Estado da União Europeia que, segundo ele, não se tratava de "maquilhar, refundar ou democratizar" a União Europeia (UE). Nem "mudar alguma coisa para ficar tudo na mesma". Disse que os comunistas não estão aqui para isso. Querem mesmo mudar o mundo e, quanto à UE, "articular ruturas que permitam construir uma outra Europa". Isso mesmo, mudar o mundo para que lado? O que pretenderia ele dizer na altura com a construção de uma nova Europa? Seria uma espécie de premonição do que se iria passar?

Mesmo com uma pequena margem de erro é o que, atualmente, o presidente Vladimir Putin e o seu partido Rússia Unida acolitado pelo Partido Comunista da Federação Russa, têm afirmado. Cada um que tire as ilações que entender.

Recentemente as palavras de Jerónimo de Sousa também não levantam dúvidas sobre o seu alinhamento com o seu congénere da Rússia, o PCFR,  e com Putin ao considerar que não houve uma invasão nem que há uma guerra na Ucrânia causada pela Rússia, mas sim “uma operação militar” embora acrescente que o PCP “condena”.

A subtileza passa a  evidência quando se refere a “operação militar” em vez de guerra (de facto, não houve formalmente uma declaração de guerra),  mas enfileira com a retórica de Putin apesar de, como disse, ser capitalista, única verdade.

Jerónimo de Sousa, no entanto, admite, contradizendo-se, que “Há uma guerra, isso é incontornável”, e esclarece que “é claro para o PCP que estamos perante uma Rússia capitalista” da qual “o PCP claramente se demarca”, “não tendo nada a ver” com Putin. Jerónimo de Sousa é muito hábil só que, por acaso, não deve ter lido os discursos de Putin e do secretário-geral do PCFR, ou, se os leu, fez-se de esquecido.

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Vamos lá ver então se eu entendo: “não houve uma invasão”; “houve uma operação militar”; “há uma guerra e isso é incontornável”.

Analisemos então qual a aproximação das narrativas do PCP com a intervenção do líder do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, em 3 de abril de 2022 numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscou sob o tema “Temos que resistir e vencer.”, onde o líder do Partido Comunista da Federação Russa recordou a solidariedade das forças patrióticas de esquerda do mundo. A ortodoxia no seu melhor.

Gennady Zyuganov tem a certeza de que o objetivo “é derrotar o nazismo e o fascismo, caso contrário, se espalhará por toda a Europa "e muitos jovens terão que usar sobretudos". Nazismos e fascismo são palavras coincidentes nos discursos de Putin e de Zyuganov. O chefe da fação comunista afirmou ainda na Duma do Estado da Federação Russa que "Se todos nós – a Duma, o Conselho da Federação e o Conselho de Segurança – apoiamos a operação especial, devemos explicar às pessoas o que estamos a perseguir, por que é que apoiamos ativamente os que defendem fielmente o mundo russo, a nossa língua, dignidade e Donbass, e a nossa amizade com a Ucrânia."

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Em 19 de abril já tinha afirmado algo sobre a “mentalização” pró militarista agressiva dos jovens russos ao dizer que "acreditava que nas escolas e nas universidades haveria muito trabalho para explicar a situação em que todos nós nos encontramos. Mas não vejo e não sinto isso nem nas atividades de ministros, professores, diretores de escolas ou figuras culturais", disse Gennady Zyuganov.

Zyuganov chega a lembrar as palavras do presidente Putin numa reunião com jornalistas estrangeiros em outubro de 2021 onde disse, (no contexto dos problemas socioeconómicos da humanidade que pioraram e que houve turbulências em escala global) que "O modelo existente de capitalismo na grande maioria dos países esgotou-se". Zyuganov acrescenta ainda que "Olhando para Biden, esta múmia ambulante, que ameaça todos, torna-se assustadora para a América". O líder do PCFR disse ter tirado uma conclusão ao observar que a Alemanha começou novamente a apoiar o nazismo, e a França está totalmente dançando ao som americano. O segredo foi revelado, é o ódio aos EUA. É assim que as coisas começam, agressões imaginárias, ódios, seja ao que for, como etnias, raças, nações, países que servem como bodes expiatórios para justificarem agressões e perseguições. É assim o nazismo!

Zyuganov afirmou ainda que “vamos ter de lidar com todos os desafios, porque, na sua maioria, os cidadãos do espaço pós-soviético já entenderam quem é o organizador da nova agressão. E toda a conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa. "Estamos presentes no final do conto de fadas sobre o mercado, sobre o livre comércio, sobre a liberdade de expressão", continuou o líder comunista (os sublinhados são meus). Sobre política externa da Rússia Zyuganov observou ainda a importância da interação da Rússia com a China, Índia, Vietname, Irão, Paquistão e Turquia.

Terminou prometendo que “Faremos de tudo para trazer paz à Ucrânia fraternal. Faremos tudo para desenvolver a nossa união", e que "vem uma nova etapa no processo de integração. E tenho certeza de que o Partido Comunista e as forças patrióticas de esquerda estarão na vanguarda deste trabalho, preparando-se para o centenário da formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas", concluiu o líder do Partido Comunista da Federação Russa. A mensagem de agressividade deste senhor líder de um partido que fala em paz, amizade e fraternidade está patente no seu discurso no “Dia da Vitória na Grande Guerra Patriótica”.

A razão por que inclui estas passagens do discurso de Zyuganov é por que, nas entre linhas, encontram-se pontos de vista aproximados aos de Putin que o PCP parece perfilhar fazendo-o através de narrativas travestidas que não evidenciam substância e cuja conversa é apenas o que está na superfície para convencerem e apelar a potenciais adeptos.

Mais recentemente numa intervenção num comício no dia 1º de Maio de 2022 o líder do PCFR, Gennady Zyuganov, afirmou que “agora na Ucrânia, a Rússia está a lutar principalmente por um mundo multipolar. “Estamos lutando pelo mundo russo, porque o mundo russo não está nos planos deles”.

A propaganda de Putin tem conseguido ter eficácia junto dos seus agentes e adeptos no ocidente e tem como grande aliado o Partido Comunista de Federação Russa. Comparando tantas opiniões, até da esquerda, que se indignam contra a incapacidade de alguns em condenar uma agressão imperialista assinada por um regime autocrático, verifica-se de facto quem está a fazer uma “tentativa de impor, à escala do povo, um pensamento único”, na Rússia e também aqui em Portugal.

Há pessoas que parecem ser crédulas por vontade própria que se deixam contaminar por invenções demasiado extraordinárias para que sejam autênticas veiculadas pelos canais de propaganda de Putin, tais como a da necessidade de desnazificar a Ucrânia, os laboratórios onde se preparam armas químicas na proximidade da Rússia, o genocídio dos que falam russo. O que está a acontecer é que, na minha opinião, a invasão da Ucrânia, serviu para mascarar as fraquezas internas da Rússia por ele causadas. Quem nos pode garantir que os que escrevem contra o ocidente apoiando as retóricas de Putin é que estão na posse da verdade e que todas as outras são mentiras?

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publicado às 14:23

Ou se ganha, ou se perde, e eu não quero perder o que se perde

Nem posso ouvir falar de “paz”, quando esta palavra significa apenas “rendam-se”, dêem a Putin o que ele quer para pavonear no desfile da vitória.

Foto
Churchill nas ruas bombardeadas de Londres DR

Este artigo começou por ser outra coisa, uma preocupada, urgente, incomodada reacção ao caminho perigoso que nos EUA tem levado o Partido Republicano a tornar-se um partido conservador extremista, bebendo fundo em tudo o que há de mais reaccionário, desigual, racista, antidemocrático e iliberal, subversivo da legalidade e insurreccional. A sua “modernização” é apenas a aceitação de candidatos do QAnon e outros grupos separatistas e supremacistas brancos, cada um mais reaccionário e imaginativo na conspiração do que outro. A gente pensa que eles já são isso tudo e aparece logo outro pior. Trump fê-lo e está a fazê-lo assim e os seus servos, que dependem da sua aprovação para ganhar as primárias republicanas, renovam todos os dias esse caminho antidemocrático e sem lei. E quanto ao Supremo Tribunal americano, cuja história está longe de ser famosa desde a guerra da secessão, que ele ajudou a provocar com a decisão em Dred Scott v. John F.A. Sandford, está hoje politizado pelos republicanos, que fizeram toda a série de manigâncias para garantir uma maioria de juízes, que de um modo geral mentiram sobre as suas intenções aquando das audições para a sua nomeação sobre as suas posições sobre a histórica decisão de Roe vs. Wade, que desde 1973 defende o direito das mulheres ao aborto.

Acresce que nem sequer nesta questão da Ucrânia os republicanos são mais seguros do que os democratas, um dos raros casos em que estes são mais consequentes e firmes, num Partido Democrata que consegue não ser isto em matéria nenhuma. Trump, o amigo e admirador de Putin (e provavelmente mais do que isso), e que atrasou o envio de armas para a Ucrânia, chantageando-os para arranjarem “lixo” sobre o filho de Biden, é a última pessoa em quem confiar na guerra da Ucrânia.

Ia isto tão “americano” até que escrevi a palavra Ucrânia, e deixou logo de ir por aí. É que nem posso ouvir falar de “paz”, quando esta palavra significa apenas “rendam-se”, dêem a Putin o que ele quer para pavonear no desfile da vitória. Fechem os olhos da cara para não ver a realidade brutal, que destrói, assassina, viola, mata e fere, agora mesmo na Ucrânia. É do domínio da força, da violência sem adversativa. Vem do “outro” lado, vem do inimigo. Hoje, como nos últimos dias, um civil é preso numa cidade ocupada, espancado, e encostado a uma parede ou no meio da rua, recebe um tiro de Kalashnikov no peito, e fica a morrer. Ou num apartamento de família, um míssil entra pelo prédio dentro, derruba a fachada, estilhaça os vidros, incendeia as roupas, destrói os locais das famílias, as memórias, os bairros e as suas relações. Se lá estiver gente dentro, morre ou fica com o corpo destruído.

Não, isto não se passa nos EUA, nem em bom rigor em nenhum sítio do mundo. Podemos ir à Síria, a Gaza, ao Sudão, ao Iémen, a todos os locais de guerras no mundo e nada se compara ao que acontece hoje na Ucrânia. É que não há encenação, desinformação, fake news, “nevoeiro de guerra”, nada que possa esconder, minimizar, justificar o que se passa. Abram os olhos da cara e fechem os olhos da obediência e da hipocrisia de gritar pela “paz”, porque nem sequer são os olhos da ideologia, porque aqui não há nenhuma.

Eu sempre escrevi que não era a democracia versus a autocracia que estava em causa na Ucrânia, nem disse alguma vez – e lembrei-o desde início do conflito  que o Governo ucraniano, Zelensky à frente, é flor que se cheire. Mais: tenho reservas que se abandonem os critérios de entrada para a União Europeia para a Ucrânia, asneira que já se paga caro com outros países do centro e Leste da Europa, ou noutro sentido com a Turquia, e fui, presumo, o primeiro a falar na televisão do Batalhão Azov, e dos irmãos nazis e nacionalistas extremos da Rússia e da Ucrânia, tão parecidos que eles são. Mas, chegados aqui, a invasão da Ucrânia sem qualquer provocação imediata, sem qualquer objectivo que não seja a submissão, sem qualquer respeito pelos civis, pelo direito, pelas leis da guerra (que também existem), assente numa política de força e brutalidade, ameaça a minha liberdade. Sim, a minha liberdade. E a paz sem aspas.

Claro que no modo como andam os costumes, eu digo isto porque alguém me paga para dizer, ou porque não quero perder os meus “lugares” na comunicação social, ou porque no fundo sou um “fascista” vendido ao imperialismo americano, que não percebe as razões alheias. Alheias de quem? De Putin, do “povo russo”, dos ucranianos pró-russos (que os há), dos tchetchenos, da causa anti-imperialista e antibelicista dos amigos da “paz”? É preciso ter aquilo a que os portugueses chamam “lata” para andar a dizer isto, mas há quem o faça.

Por isso, estou todos os dias mais belicista. Essa força bruta tem de ser defrontada e duvido que haja outro modo de o fazer senão com a força. E não me venham com a história do “pensamento único”, porque ao pensamento que é verdadeiramente livre e não anda a mando de ninguém basta andar a mando do bom senso para perceber com meridiana clareza o que se está a passar. Putin é um criminoso e a política da Rússia que ele conduz é um exemplo de tudo aquilo que quem ame a liberdade, a vida das pessoas comuns, e tenha uma gota que seja do shakespeariano “milk of human kindness” recusa, e sabe que com isto não é possível nem “entender”, nem pactuar a não ser por covardia, nem negociar.

Isso mesmo, nem negociar.

O autor é colunista do PÚBLICO

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publicado às 15:48

Opinião

Uma coisa é Putin, outra a Rússia

O agressor não é o povo russo, é Putin e a sua corte militar e civil, mas o agredido é o povo ucraniano, seja quem for quem o governe.

Foto A Vladimirka, de Levitan, a estrada para o exílio na Sibéria DR

Eu tenho as melhores memórias da Rússia, melhor, eu devo muito à Rússia, e por isso me repugna confundir Putin com “os russos”, como agora se faz. Mais do que essas memórias, tenho uma grande admiração pelos russos e, quanto à cultura russa, ela “fez-me”, tanto como tudo o resto.

Conheci a Rússia ainda era URSS e depois logo a seguir, nos anos conturbados de transição, e no retorno a essa maldição russa, a autocracia, a ditadura. Lembro-me de um russo, membro da Duma, provavelmente do Partido Comunista, feliz por encontrar estrangeiros, convidar-me a ir a sua casa, muito modesta, num daqueles blocos de apartamentos dos subúrbios de Moscovo, iguais aos que os mísseis russos estão a destruir em Kiev. Abria os armários onde tinha a sua reserva de comidas “especiais”, aquelas que era difícil arranjar, por exemplo, uma espécie de fiambre, e oferecia-as ao “estrangeiro” por pura generosidade, porque nada tinha a ganhar com o que estava a fazer. Falámos do Hadji Murat, de Tolstoi, que ele tinha tido de estudar na escola, uma história do “império” que muito provavelmente tínhamos “lido” de forma muito diferente.

Foto Edifícios bombardeados em Kiev ROMAN PILIPEY/EPA

Saí pela porta daqueles prédios sinistros e hoje nem me lembro do nome do homem e da família que o acompanhava, mas sei o que significou a palavra hospitalidade. Havia uma proximidade muito parecida com a nossa, sem cerimónias nem protocolos, apenas companhia e conversa, entre dois mundos que estavam bastante longe na geografia e mesmo na história. O meu, por muito mau que fosse, com 48 anos de ditadura, o dele com a tragédia dos milhões de mortos às costas, alguns da sua família. Tragédia não é uma palavra leve, mas não se conhece nada da Rússia sem a perceber. E, no entanto, eu sabia que ele era da burocracia do poder soviético em extinção, e ele que eu era do “inimigo”. Mas, como já disse várias vezes, aquele foi um período excepcional em que as coisas podiam ter evoluído de forma diferente. Ou talvez não.

A Federação Russa de Putin estava a caminho, melhor, já lá estava. Conheci oligarcas, burocratas, militares, membros do PCUS, e não era difícil perceber que, à medida que se subia na escala do poder e do dinheiro, aumentava a brutalidade, na proporção directa do sofrimento histórico do povo russo em nome do qual exerciam o poder, e com essa indiferença pela violência quando os seus interesses estavam ameaçados. Indiferença que começava nos “seus”, em nome dos quais falavam.

Mas, na conversa anódina com o meu anfitrião russo, o território comum era o muito que aprendi sobre a Rússia e que veio dos livros, essa forma de saber cada vez mais desprezada pela ignorância atrevida das redes sociais e do mundo obsessivamente presencial dos dias de hoje. Foram estas memórias e a Rússia de Pushkin, Turgueniev, Tchekov, Tolstoi, Tsvetaeva, Akhmatova, Pasternak e Soljenitsin que me ajudaram a nunca me ter enganado sobre Putin. Em 2014, escrevi a propósito da sublevação da Praça Maidan que “a questão da Ucrânia chegou aqui, porque os europeus e os americanos foram irresponsáveis e atiçaram um conflito para que não tinham saída viável, e porque Putin é perigoso e não é de agora”.

Também não me enganei sobre Putin, nem sobre a elite dirigente da Ucrânia, sobre a qual convém não ter muitas ilusões, em particular não retratando esta guerra como uma guerra entre a democracia e a ditadura, mas sim como outra coisa: uma guerra entre um agressor e um agredido. O agressor não é o povo russo, é Putin e a sua corte militar e civil, mas o agredido é o povo ucraniano, seja quem for quem o governe. Esta diferença é aquela que, não sendo feita, faz com que quem a omite fique do lado do agressor. E nesta guerra ficar do lado do agressor é espezinhar a liberdade, a soberania, o direito, a humanidade e as pessoas. Não as pessoas “especiais”, mas as pessoas comuns.

Admito que a maioria dos russos apoie esta guerra e não é apenas porque a censura de Putin evita o conhecimento do que se passa e a dura repressão impede qualquer liberdade para o protesto. Proibir e prender, agredir e matar é uma coisa que quem tem o poder na Rússia sabe muito bem fazer desde sempre, da Okrana à Cheka, ao KGB e ao SVR, dos czares, passando por Estaline, até Putin. Mas o que também faz parte dessa tragédia russa é que alguma da sua cultura esteja exactamente nos antípodas dessa violência, e que descreva melhor do que ninguém a combinação da obediência e da rebeldia, que a história com h pequeno fez ao povo russo, aos “humildes”. Nestes dias é do conto de Tolstoi Aliocha, o Pote que me lembro, descrevendo a sua morte após cair de um telhado:

Surpreso com alguma coisa, estendeu a mão e morreu.”

O autor é colunista do PÚBLICO

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publicado às 12:52

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Fico estupefacto com os argumentos dos que se dizem não alinhados com o rebanho do pensamento único, isto é, os que não pensam como eles, que não estão de acordo com os postos de vista de Putin e que não se colocam, neste caso, contra o ocidente U.E., NATO e EUA. Os seus argumentos são uma tentativa de justificarem a “boa ação” que é a invasão da Ucrânia.

São estes os que, há mais de 60 dias, surgiram nas redes sociais, em blogues, artigos de opinião na imprensa, em comentários televisivos nas horas nobres de noticiários, a atacar o ocidente para justificarem a invasão bélica de um país soberano por um ditador megalómano e provocador.

Por entre aqueles há de tudo: civis, jornalistas, professores, especialistas em política internacional, estrategos, há de tudo. Nestes também se incluem outros que são, ou já foram, generais, majores generais, coronéis no ativo, na reserva ou na reforma que peroram desde política internacional à estratégia e táticas de guerra.

As narrativas de todos eles situam-se, não no facto enquanto tal, a invasão de um país por outro que ultrapassou os limites da decência ao deitar para o lixo tudo o que são compromissos ou acordos de convivência pacifica que é suposto existirem entre países civilizados e cooperantes. Não devemos esquecer-nos que quem tenta imputar ou criticar o ocidente pelas causas da invasão da Ucrânia são os descrentes nos direitos humanos, na democracia, no direito internacional, na tolerância pela diferença, na solidariedade, no próprio direito de autodeterminação dos povos.

Em vez de se centrarem sobre a invasão, utilizam subterfúgios para esconderem uma, pelos menos aparente, simpatia pelo invasor, enquanto ao mesmo tempo se preocupam em negá-la afirmando que até são pela paz, opõem-se ao militarismo, ao armamento e pedem negociações para paz. Tudo isto em abstrato. Limitam-se a estar contra a tudo quanto venha do ocidente, U.E. e EUA. Consciente ou inconscientemente colocam-se do lado do invasor e contra os que o defendam ou ajudam o invadido. Nada contra o invasor.

Alguns sugerem apelos ao bom senso para que o invadido se renda vindo de militares, ex-militares de tendências russófilas (leia-se putinófilas). São titulados como comentadores com que alguns canais de televisão nos presenteiam.

O invadido, como para Putin e para os que o apoiam, é mostrado como a ultradireita, os nazis, os mercenários que cometem genocídio, etc. Como justificação recordam e apresentam-nos passados trágicos, quiçá também cruéis, para justificarem no presente barbaridades e crueldades dos invasores. Colocar o problema ao inverso que é o de ser o invadido que provoca genocídios. Fracos argumentos os desta gente que os mesmos paranoicos que chamam a quem está em desacordo com eles de pertencerem à manada e que clara e razoavelmente estão consonantes com o pensamento do ocidente.

Os “putinófilos” mostram a sua incapacidade de condenar uma invasão vinda de um regime autocrático que, quer se queira, ou quer não, é, na verdadeira acessão da palavra imperialista. Imperialistas não são apenas os EUA, o próprio autocrata russo já se referiu ao Imperio Russo, sendo mencionado por alguns como um nacionalista que poderá levá-lo até onde lhe permitirem a reconstituição das fronteiras desse império. Todavia, Vladimir Putin nega estas especulações sobre as tentativas de restaurar o Império Russo. Mas sabemos como ele também negou, dias antes, a invasão da Ucrânia.

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publicado às 19:02

Opinião

O “fetiche” de Jerónimo de Sousa

Há um discurso oficial e há outro mais soft para o comentariado nacional? Não é Paula Santos que tem que se vir explicar sobre a Ucrânia pela enésima vez. É Jerónimo de Sousa.

Jerónimo de Sousa irritou-se (caso inédito) com os jornalistas por lhe perguntarem na Avenida da Liberdade, no final do desfile do 25 de Abril, por que razão não usava a expressão “invasão” quando se referia à situação de guerra na Ucrânia. O problema aqui, veja-se, residia nas perguntas dos jornalistas que, segundo o secretário-geral do PCP, eram absurdas.

Absurdo é o facto de o PCP ter duas caras nesta questão da guerra na Europa. No recente debate sobre o Orçamento do Estado para 2022, a 26 de Abril, o deputado comunista Bruno Dias admitia que se estava perante uma invasão: “Nem a guerra na Ucrânia começou a 24 de Fevereiro, já durava há oito anos, nem os problemas de que estamos a falar começaram com a invasão da Ucrânia em Fevereiro”. Na comunicação social, instados a comentar o caso, vários dirigentes também o fizeram na mesma linha, como António Filipe, na CNN em Março, altura em que ainda era vice-presidente do Parlamento (“há uma invasão que todos condenamos”) ou João Ferreira, ex-candidato presidencial, na SICN, que declarou que o PCP faz uma “condenação clara e inequívoca da violação da integridade territorial da Ucrânia, o uso da força, e que a invasão da Ucrânia é, à luz do direito internacional, inaceitável e merece condenação”.

Jerónimo de Sousa tem deixado o odioso da questão com a líder parlamentar do PCP, Paula Santos, que deu conferências de imprensa para anunciar que os deputados do PCP iriam faltar à sessão plenária em que o Presidente da Ucrânia ia ser ouvido via video-conferência (levando até um puxão de orelhas público do presidente da Assembleia da República que ficou a saber pelos media) e para comentar, mal terminou, o discurso de Zelenskii que fizeram questão de não ouvir in loco no hemiciclo.

Se pesquisarmos no site do PCP, em lado nenhum aparece a expressão “invasão da Ucrânia” a propósito do que se passou a partir de 24 de Fevereiro. E no célebre comício do PCP no Campo Pequeno em que Jerónimo de Sousa foi efusivamente aplaudido, alguém se recorda das exactas palavras do líder?

Pois bem. Há um discurso oficial e há outro mais soft para o comentariado nacional? Não é Paula Santos que tem que vir explicar-se sobre a Ucrânia pela enésima vez. É Jerónimo de Sousa. Portanto, que se faça a pergunta novamente. Pode ser que para a próxima o secretário-geral do PCP tenha uma resposta mais bem preparada.

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publicado às 16:43

Por favor não desculpem o agressor!

por Manuel_AR, em 23.04.22

OPINIÃO

PCP: ocultar que há um agredido e um agressor

José Pacheco Pereira

In jornal Público, 23/04/2022

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Quem justifica, legitima, favorece, protege o PCP com o seu discurso contorcido sobre a guerra? Os russos. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

Falar em guerra sem nomear o agredido e o agressor, e tirar daí consequências, é colocar-se do lado do agressor. Quem beneficia na apresentação neutral da “guerra”? O agressor. Quem beneficia numa defesa da “paz” que trata os beligerantes como iguais? O agressor. Quem fala em detalhe dos males de “uns” (os ucranianos) e genericamente e sem pormenores dos males dos “outros” (os russos) não está do lado da “paz”, mas da guerra. Quem justifica, legitima, favorece, protege o PCP com o seu discurso contorcido sobre a guerra? Os russos. Toda a gente percebe, a começar por muitos eleitores, simpatizantes e militantes do PCP, por isso é que esta situação é devastadora para o PCP. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

O problema do PCP não é um remake do caso da Checoslováquia, como por aí se diz. Na invasão da Checoslováquia, havia de um lado a URSS e do outro um processo que os soviéticos consideravam ser de subversão do socialismo e do campo socialista. O PCP podia entender que devia estar de um “lado” contra o outro, porque um dos lados lhe era próximo ideológica e politicamente. Onde é que há hoje algo de remotamente parecido com “o lado” da URSS?

O PCP diz que o lado” ucraniano é péssimo, mas diz também que não se identifica com o outro” lado com Putin. Se é assim, porque não trata os dois lados” da mesma maneira e se põe à margem? Se o conflito é entre a NATO e o regime de Putin, que é para todos os efeitos igualmente maléfico, por que razão o PCP acaba encostado a um dos lados, sempre pronto para o justificar pela equivalência? Por que razão, entre aquilo que considera o militarismo da NATO e a “violação do direito internacional” por Putin (um gigantesco eufemismo), entre o lado agressivo da NATO e o autocrata belicista, o PCP sente-se mais confortável com o segundo, que protege até pela terminologia cautelosa e moderada com que o trata? Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

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Nem a Polónia, em 1939, nem a Ucrânia, em 2022, eram democracias perfeitas, mas havia um agressor e um agredido DR

Não adianta vir com a história de que a “guerra” começou em 2014, porque esta de que estamos a ser testemunho começou em 2022. E, em 2022, não há um único factor que justifique a invasão da Ucrânia, não há motivo forte, nenhuma provocação, nenhum acto novo de envolvimento da NATO, nenhuma colocação de tropas americanas na fronteira, nenhum exercício militar conjunto, nenhuma manobra daquelas que se usam para preparar uma invasão. Nem pouco nem muito, não há mesmo. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

Vamos admitir que o que Putin diz é verdadeiro (quase nada é…) e que a Ucrânia é governada por nazis (falso, embora haja demasiados nazis na Ucrânia como na Rússia, e na Europa, os que Putin financia), que são corruptos (verdade, como na Rússia os amigos de Putin), que reprimem o russo e a cultura russa no Donbass (em parte verdade), que perseguem os partidos pró-russos (idem), que assassinaram muitos ucranianos pró-russos (os números são fantasiosos, mas havia uma guerra de fronteiras em curso com a intervenção da Rússia), que querem entrar para a NATO (querer, querem, só que a NATO não os aceitou), e que desde 2014 existe uma guerra escondida naquela parte do mundo (que, se houvesse, seria conforme o direito internacional, depois da anexação da Crimeia e do apoio às milícias pró-russas no Donbass). Pelo contrário, os países ocidentais da agressiva NATO engoliram a conquista territorial russa da Crimeia com o rabo entre as pernas. Nem disso Putin se pode queixar. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

Mesmo que se admita tudo isto (insisto que não é verdade a maioria das coisas), que o PCP repete numa lógica que só serve para a legitimação da invasão, o que é que aconteceu de muito grave em 2022 que levou Putin a preparar, negar e depois começar uma invasão maciça da Ucrânia? Nada. É uma pura agressão, uma pura guerra de grande escala que inclui desde início a ameaça do nuclear, o ataque a civis (incontroverso em geral, mesmo que nalguns casos possa haver montagens), e o PCP vem agora falar com neutralidade de uma “guerra” com dois lados igualmente culpados, um muito mais do que outro, o do agredido. Tretas. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

A atitude do PCP não afecta apenas o PCP, afecta a saúde da democracia muito para além do partido. Permitiu à direita radical encontrar um adversário a jeito e o que deseja é a ilegalização do PCP. Não o diz, por falta de coragem, mas é o que está lá. E o PCP, enfraquecendo-se por culpa própria, fez um enorme favor à direita radical, e não é pelo encolhimento do voto dos comunistas, mas pelo enfraquecimento do movimento sindical em particular.

Pode-se afirmar que a CGTP segue a estratégia do PCP, politiza as lutas a favor da ideologia e política do PCP, tem uma visão marxista da sociedade e da “luta de classes”, pode-se dizer isto tudo, até porque é verdade. Mas com a crescente indiferença, para não lhe chamar outra coisa, dos partidos sociais-democratas, PS e PSD, sobre os direitos dos trabalhadores, um operário ameaçado de um despedimento colectivo predador, um empregado de supermercado obrigado a condições de trabalho degradantes que o Estado não controla como deve, uma trabalhadora vítima de assédio, sem meios nem recursos para ir a um advogado, todos os que são explorados por salários de miséria (sim, isto existe) e querem reivindicar os seus direitos e a dignidade do trabalho, todos eles precisam de uma força que encontravam num já muito debilitado movimento sindical e sem o qual não há democracia. O PCP, para além de se ter perdido a si mesmo, acabou por fazer, nas suas palavras, o maior frete possível ao “patronato”. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

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publicado às 17:21

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Depois do dia 24 de fevereiro de 2022 um frémito de indignação percorreu o país de norte a sul que se consubstanciou nas redes sociais e na comunicação social numa espécie de libertação dum sono ou na indiferença.

Cabeças que se prezavam de ser friamente raciocinadoras também despertaram da letargia. Para grande surpresa minha fiquei a saber que essas cabeças pensantes, algumas deles dizendo ter lido uma “porrada” de livros, não sabemos escritos por quem, tinham uma reserva de força capaz de querer impor, sem resistências, pensavam, um pensamento político único sobre as circunstâncias que naquela data ocorreram e manifestam contra a maioria que achou, e acha, ser vil a invasão da Ucrânia, sem aviso, pelo senhor Vladimir Putin. Uma ilusão agradável para alguns uma desilusão para outros.

Poucos dias bastaram para evidenciar que não haveria uma força donde pudesse vir um movimento indubitável e unívoco anti invasão. A invasão do dia 24 de um país que alguns nem sequer saberiam onde ficava não foi abalo suficiente para libertar mentes empedernidas pelo ódio que fez saltar o fogo das suas entranhas contra todos quantos alinhavam em favor de quem se opôs à invasão e à decisão de Putin e lhe fazia frente e alinhavam com o chamado ocidente, EUA, NATO, e E.U.

Estendiam um véu translucidamente púdico sobre o agressor para lhe disfarçar discretamente com falsas e injustificáveis conveniências políticas e ideológicas os perigos humanitários que estavam a acontecer patenteados pela agressão. Lançaram-se e lançam-se à defesa e ao disfarce de um mal manifestamente certo. Defender ou justificar a realidade de uma agressão à soberania de um país com alusões a males praticados no passado por outros é um “crime” de lesa racionalidade e de facciosismo ideológico. Refugiam-se em afirmações com a liberdade de expressão de pensamento, única racionalidade que os assiste. São uma espécie de ideólogos isolados vaidosos do seu isolamento e da sua independência e isenção(?) em relação aos que designam por rebanho.

Acham-se com a superioridade intelectual que as suas ideias lhe dão, ou lhes parecem dar, mas pouco respeitadores, parece, do regime onde vivem optando pela defesa do totalitarismo em confrontação com países democráticos. Há uma obsessão alucinante para com o objetivo dos EUA, dizendo que após o fim da URSS querem dominar a Eurásia, alargar a NATO e a União Europeia, “neutralizar” a Rússia, etc., e outros disparates. Os discursos de Vladimir Putin não se afastam muito disto. Omitem que os antigos países de leste após a queda da URSS aderiram voluntariamente à NATO e à U.E., ninguém os invadiu para lhes impor fosse o que fosse.

Este “clube”, espécie de associação dos amigos de Putin que existia pelo território da ideologia antidemocracia parece ter-se fortalecido após a invasão da Ucrânia. A ele aderiram alguns intelectuais das letras e das ciências famosos pelas suas ideias democrática parecem agora ser famosos pelas suas ideias próximas de um autoritarismo terrorista. A sumula dos seus escritos, embora sem o referirem explicitamente, parecem estar do lado da tirania e não da liberdade.

De resto a atividade narrativa desse clube, para além de núcleo de propaganda, trata mais de estimular o ódio ao ocidente e de ajudar a fortalecer a legitimação de poderes autocratas invasores de países soberanos, que nem os ideais liberais e neoliberais aceitam, do que apelar à fraternidade humana. Espécie de “clube” de ideólogos isolados e vaidosos do seu isolamento, sobretudo vaidosos do que eles chamam da sua independência e “isenção” que as suas ideias lhes parecem dar. O sentido do “clube” é, ainda, tentar mostrar que os objetivos do Presidente russo, Vladimir Putin na Ucrânia são “nobres” e que a invasão lançada sobre o país vizinho era “inevitável”.

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publicado às 17:54

Assumam que querem a vitória da Rússia

por Manuel_AR, em 09.04.22

Opinião

Sejam adultos, assumam que querem a vitória da Rússia

Neste cenário, em que só é possível a paz dos cemitérios, qualquer pessoa que partilhe o quadro de valores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos sente um dever moral de apelar a que se continue a ajudar a resistência ucraniana.


Não há nada mais perigoso do que uma opção política baseada apenas em princípios éticos, a não ser uma opção política baseada em tudo menos em princípios éticos. Uma decisão bem-intencionada pode ser contraproducente: pode ela própria ser nefasta para os valores que deseja promover, se não tiver em atenção os limites que a infinita complexidade do mundo impõe aos nossos sentimentos de dever. Mas uma decisão que não siga uma qualquer bússola de valores, seja por niilismo, oportunismo ou embaraço em enfrentar o substrato moral das alternativas, é logo à partida uma decisão inaceitável. A amoralidade é pior do que a temeridade.

Os últimos dias provocaram duas mudanças dramáticas na discussão. Em primeiro lugar, deixou de fazer sentido a ideia de que a Rússia sairá inevitavelmente vencedora da invasão. O falhanço da conquista da capital mostra que, para além da capacidade admirável de resistir ao agressor, a Ucrânia pode mesmo derrotá-lo. Em segundo lugar, os destroços materiais e humanos mostraram o verdadeiro significado de uma ocupação russa, além de que as subsequentes mentiras de Moscovo revelaram o valor real da palavra de Putin. Como é que, perante isto, se negoceia um acordo de paz com cedências territoriais?

Neste cenário, em que só é possível a paz dos cemitérios, qualquer pessoa que partilhe o quadro de valores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos sente um dever moral de apelar a que se continue a ajudar a resistência ucraniana. O Ocidente tem de redobrar o seu apoio, para evitar a rendição. Com mais pressão diplomática, certamente, mas também com mais armas, mais apoio logístico e humanitário, e mais sanções económicas.

Ainda assim, há muitas pessoas que continuam a querer contaminar a discussão com o nevoeiro de uma complexidade que não existe. Escrevem crónicas e manifestos extraordinários, a denunciar o belicismo de Zelenskii, a defender que não se forneçam mais armas à Ucrânia, a lamentar que “pensar” seja “difícil”, a acusar os outros de serem levados pelo sensacionalismo e o sentimentalismo, e a pedir mais jornalismo do que propaganda (o que, aliás, é desde logo um insulto aos jornalistas que atestam as atrocidades russas nos órgãos que publicam esses textos).

O que convinha, para benefício do debate numa sociedade adulta, é que fossem totalmente claros e consequentes com o que defendem. Sendo que o que defendem, como é ostensivo, é a vitória da Rússia. Só isso explica que, em face da evidência da barbárie, continuem a desviar a conversa. Muitos dos autores daqueles textos passaram os últimos anos a alinhar com a política externa de Putin. Quer em geral, quando defendem o direito da Rússia à sua zona de influência, num mundo “multipolar” contrário à ordem liberal euro-americana, quer em particular no tema da Ucrânia, no qual estiveram sempre, sempre, sempre do lado das posições de Moscovo. Viveram bem com o governo fantoche de Ianukovitch, opuseram-se ao movimento pró-europeu e pró-democrático de Maidan, apoiaram a anexação da Crimeia, acusaram Zelenskii de ser infantil, populista e neonazi. Quando chegam a este ponto e propõem coisas como o fim do fornecimento de armas defensivas à resistência, querem o quê? Querem evidentemente a rendição da Ucrânia e a vitória da Rússia.

Deixemo-nos, nós próprios, de rodeios: o problema destas pessoas não é a dificuldade de pensar; é a dificuldade de assumirem o que verdadeiramente pensam.

O autor é colunista do PÚBLICO

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publicado às 19:00

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Na segunda-feira 4 de abril as forças ucranianas continuaram, aparentemente, a derrotar os invasores russos, apesar de no domingo 3 de abril de 2022 um artigo de Sergeytsev publicado pelos media oficiais russos afetos ao regime de Putin alega que o “ukronazismo”, neologismo utilizado pelos fanáticos de Putin, é uma ameaça mais considerável para o mundo do que o Partido Nazista de Hitler e pedindo uma completa tomada russa do território e da cultura ucraniana. Refere-se ainda a Bandera um nacionalista ucraniano que liderou um movimento de guerrilha nas décadas de 1930 a 1950 pela independência da Ucrânia cujas ideias eram controversas. Faleceu em 1959.

A estratégia comunicacional do Presidente Vladimir Putin é a de recuperar ideologia nazi de Hitler, ainda presentes nas populações, de modo a promover um efeito de revolta acusando os ucranianos de nazis para que se revoltem contra o povo ucraniano e mostrando Putin como o grande opositor ao nazismo. Isto é, sendo ele mesmo uma espécie de nazi travestido de democrata.

O artigo que transcrevo na íntegra tem apenas pequenos ajustamentos ao português, revela o pensamento assustador de Putin e é manifestamente de incitamento à guerra e à violência contra o povo ucraniano e não só, o que foi explícito na prática pelas ações criminosas do exército ocupante que está patente em frases como estas:

“No entanto, além do topo, uma parte significativa da massa popular, que são nazis passivos, cúmplices do nazismo, também é culpada”.

“… mas incluindo e acima de tudo o totalitarismo ocidental, programas impostos de degradação civilizacional e desintegração, mecanismos de subordinação à superpotência do Ocidente e ESTADOS UNIDOS.”

“… A Rússia fez todo o possível para salvar o Ocidente no século XX. Implementou o principal projeto ocidental, uma alternativa ao capitalismo, que derrotou os estados-nação, o projeto socialista e vermelho.”

“O último ato de altruísmo russo foi a mão estendida da amizade russa, para a qual a Rússia recebeu um golpe monstruoso da década de 1990.” O autor refere-se aqui ao colapso da URSS.

O que a Rússia deve fazer com a Ucrânia

O artigo da autoria de Timofey Sergeytsev foi publicado num media da Rússia às 08:00 de 03.04.2022 (atualizado: 19:36 05.04.2022).

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Timofey Sergeytsev

Em abril do ano passado, escrevi sobre a inevitabilidade da desnazificação da Ucrânia. Não precisamos de uma Ucrânia nazista, baseada em Bandera, inimiga da Rússia e um instrumento do Ocidente para destruir a Rússia. Hoje, a questão da desnazificação mudou-se para o plano prático.

A desnazificação é necessária quando uma parte significativa do povo - provavelmente a maioria - foi absorvida e atraída para a política pelo regime nazista. Ou seja, quando a hipótese de "o povo é bom – o governo é ruim" não funciona. O reconhecimento desse fato é a base da política de desnazificação, de todas as suas atividades, e o fato em si é o seu tema.

A Ucrânia está nessa situação. O facto de o eleitor ucraniano ter votado pela "paz de Poroshenko" e pelo "mundo de Zelensky" não deve ser enganoso – os ucranianos ficaram bastante satisfeitos com o caminho mais curto para a paz através da blitzkrieg, que os dois últimos presidentes ucranianos sugeriram de forma transparente quando foram eleitos. É esse método de "apaziguamento" dos antifascistas internos – através do terror total – que tem sido usado em Odessa, Kharkiv, Dnepropetrovsk, Mariupol, outras cidades russas. E isso serviu muito bem ao ucraniano na rua. A desnazificação é um conjunto de medidas contra a massa “nazizada” da população, que tecnicamente não pode ser punida diretamente como criminosos de guerra.

Os nazis, que pegaram em armas, devem ser destruídos o máximo possível no campo de batalha. Nenhuma distinção significativa deve ser feita entre ESTEIRA e os chamados Natsbats, bem como a defesa territorial que se juntou a esses dois tipos de formações militares. Todos eles estão igualmente envolvidos em extrema crueldade contra a população civil, são igualmente culpados do genocídio do povo russo, e não cumprem as leis e os costumes da guerra. Criminosos de guerra e nazis ativos devem ser punidos de forma aproximadamente e demonstrativa. A eliminação total deve ser realizada. Todas as organizações que se associaram à prática do nazismo foram liquidadas e banidas. No entanto, além do topo, uma parte significativa da massa popular, que são nazis passivos, cúmplices do nazismo, também é culpada. Eles apoiaram e satisfizeram o governo nazista. Uma punição justa dessa parcela da população só é possível como um porte dos inevitáveis fardos de uma guerra justa contra o sistema nazista, conduzida com o maior cuidado e cautela possível em relação aos civis. A desnazificação adicional dessa massa da população consiste na reeducação, que é alcançada pela repressão ideológica (supressão) das atitudes nazistas e da censura estrita: não apenas na esfera política, mas necessariamente também no âmbito da cultura e da educação. Foi através da cultura e da educação que uma profunda nazificação em massa da população foi preparada e implementada, reforçada pela promessa de dividendos da vitória do regime nazista sobre Rússia, propaganda nazista, violência interna e terror, bem como uma guerra de oito anos com as pessoas que se rebelaram contra o nazismo ucraniano Donbass.

A desnazificação só pode ser realizada pelo vencedor, o que implica (1) o seu controle incondicional sobre o processo de desnazificação e (2) o poder de garantir tal controle. A este respeito, um país desnazificado não pode ser soberano. O Estado desnazificante, a Rússia, não pode proceder a partir de uma abordagem liberal para a desnazificação. A ideologia do denazificador não pode ser contestada pelo culpado submetido à desnazificação. O reconhecimento da Rússia da necessidade de desnazificar a Ucrânia significa o reconhecimento da impossibilidade do cenário da Crimeia para a Ucrânia como um todo. No entanto, esse cenário era impossível em 2014 e no rebelde Donbass. Apenas oito anos de resistência à violência nazista e ao terror levaram à coesão interna e a uma recusa em massa consciente e inequívoca de manter qualquer unidade e conexão com a Ucrânia, que se definiu como uma sociedade nazista.

O tempo de desnazificação não pode de forma alguma ser inferior a uma geração, que deve nascer, crescer e atingir a maturidade nas condições de desnazificação. A Nazificação da Ucrânia durou mais de 30 anos, começando pelo menos em 1989, quando o nacionalismo ucraniano recebeu formas legais e legítimas de expressão política e liderou o movimento pela "independência", correndo em direção ao nazismo.

A peculiaridade da Ucrânia nazificada moderna é a amorfo e a ambivalência, que tornam possível disfarçar o nazismo como um desejo de "independência" e um caminho "europeu" (ocidental, pró-americano) de "desenvolvimento" (na realidade - à degradação), para afirmar que na Ucrânia "não há nazismo, apenas excessos isolados privados". Afinal, não há nenhum partido nazista principal, nem Führer, nenhuma lei racial de pleno direito (apenas uma versão truncada deles na forma de repressões contra a língua russa). Como resultado, não houve oposição e resistência ao regime.

No entanto, tudo isso não faz do nazismo ucraniano uma "versão leve" do nazismo dos tempos alemães da primeira metade do século XX. Pelo contrário, uma vez que o nazismo ucraniano está livre de tais estruturas e restrições de "gênero" (político e tecnológico em essência), ele desdobra-se livremente como a base fundamental de todo o nazismo – como europeu e, na forma mais desenvolvida, o racismo americano. Portanto, a desnazificação não pode ser realizada em um compromisso, com base em uma fórmula como "OTAN "Não, a UE sim." O próprio coletivo Ocidente é o designer, fonte e patrocinador do nazismo ucraniano, enquanto os quadros de Bandera Ocidental e a sua "memória histórica" são apenas uma das ferramentas para a Nazificação da Ucrânia. O ukronazismo carrega nada menos do que uma ameaça maior ao mundo e à Rússia do que o nazismo alemão de origem de Hitler.

O nome "Ucrânia" aparentemente não pode ser mantido como um título de qualquer entidade estatal totalmente desnazificada no território libertado do regime nazi. As repúblicas do povo recém-criadas no espaço livre do nazismo devem e crescerão a partir da prática de autogoverno económico e segurança social, restauração e modernização dos sistemas de suporte à vida da população.

Sua aspiração política não pode de facto ser neutra – a redenção da culpa perante a Rússia por tratá-la como inimiga só pode ser realizada em confiar na Rússia nos processos de restauração, reavivamento e desenvolvimento. Nenhum "Plano Marshall" para esses territórios deve ser permitido. Não pode haver "neutralidade" no sentido ideológico e prático compatível com a desnazificação. O pessoal e as organizações, que são um instrumento de desnazificação nas novas repúblicas desnazificadas, não podem deixar de contar com a força direta e o apoio organizacional da Rússia.

A desnazificação inevitavelmente também será a desinrainização – uma rejeição da inflação artificial em larga escala do componente étnico da autoidentificação da população dos territórios históricos de Malorossiya e Novorossiya, que foi iniciada pelas autoridades soviéticas. Sendo um instrumento de superpotência comunista, após a sua queda, o etnocentrismo artificial não permaneceu abandonado. Ele passou nesta capacidade oficial sob o comando de outra superpotência (poder em pé sobre estados) - a superpotência do Ocidente. Deve ser devolvido aos limites naturais e privado de funcionalidade política.

Ao contrário, digamos, Geórgia e países Báltico. A Ucrânia, como a história mostrou, é impossível como um Estado-nação, e as tentativas de "construir" um naturalmente levam ao nazismo. O ukrainismo é uma construção artificial anti-russa que não tem seu próprio conteúdo civilizacional, um elemento subordinado de uma civilização alienígena e alienígena. A desbanderização por si só não será suficiente para a desnazificação – o elemento Bandera é apenas um intérprete e uma tela, um disfarce para o projeto europeu da Ucrânia nazi, de modo que a desnazificação da Ucrânia é também a sua inevitável deseuropeização.

A elite bandera deve ser liquidada, a sua reeducação é impossível. O "pântano" social, que o apoiou ativamente e passivamente pela ação e inação, deve sobreviver às dificuldades da guerra e assimilar a experiência como lição histórica e redenção de sua culpa. Aqueles que não apoiaram o regime nazi, sofreram com ele e a guerra em Donbass desencadeada por ele, deve ser consolidada e organizada, deve tornar-se o apoio do novo governo, no seu vertical e horizontal. A experiência histórica mostra que as tragédias e dramas de tempos de guerra beneficiam os povos que são seduzidos e levados pelo papel do inimigo da Rússia.

A desnazificação como objetivo de uma operação militar especial no âmbito desta operação é entendida como uma vitória militar sobre o regime de Kiev, a libertação de territórios de partidários armados da Nazificação, a eliminação de nazi irreconciliáveis, a captura de criminosos de guerra, bem como a criação de condições sistémicas para a subsequente desnazificação dos tempos de paz.

Este último, por sua vez, deve começar com a organização de órgãos locais de autogoverno, milícia e defesa, purificados de elementos nazistas, o lançamento com base nos processos constituintes da fundação de um novo estado republicano, a integração deste estado em estreita cooperação com o departamento russo para a desnazificação da Ucrânia (recém-criada ou refeita, digamos, de Rossru dotnichestvo), com a adoção sob controle russo do quadro regulatório republicano (legislação). sobre a desnazificação, definindo os limites e o quadro para a aplicação direta da lei russa e da jurisdição russa no território libertado no campo da desnazificação, a criação de um tribunal para crimes contra a humanidade na antiga Ucrânia. A este respeito, a Rússia deve agir como guardiã dos julgamentos de Nuremberg.

Tudo isso significa que, para alcançar os objetivos de desnazificação, é necessário apoiar a população, mudar para o lado da Rússia após a libertação do terror, violência e pressão ideológica do regime de Kiev, após a retirada do isolamento da informação. É claro que levará algum tempo para que as pessoas se recuperem do choque das operações militares, para se convencerem das intenções de longo prazo da Rússia – de que "elas não serão abandonadas".

É impossível prever com antecedência em que territórios, tal massa da população constituirá uma maioria extremamente necessária. É improvável que a "Província Católica" (Ucrânia Ocidental, composta por cinco regiões) se torne parte dos territórios pró-Russos. A linha de alienação, no entanto, será encontrada empiricamente. Manterá uma Ucrânia hostil à Rússia, mas à força neutra e desmilitarizada com o nazismo banido por motivos formais. Os que odeiam a Rússia irão para lá. A garantia da preservação deste Ucrânia residual em um Estado neutro deve ser a ameaça de continuação imediata da operação militar em caso de descumprimento dos requisitos listados. Isso pode exigir uma presença militar russa permanente em seu território. Da linha de alienação até a fronteira russa será o território de potencial integração à civilização russa, antifascista em sua natureza interna.

A operação para desnazificar a Ucrânia, que começou com a fase militar, seguirá em tempos de paz a mesma lógica de estágios da operação militar. Em cada um deles, será necessário alcançar mudanças irreversíveis, que serão os resultados da etapa correspondente. Neste caso, as etapas iniciais necessárias de desnazificação podem ser determinadas da seguinte forma:

  • liquidação de formações nazis armadas (que são entendidas como quaisquer formações armadas da Ucrânia, incluindo as Forças Armadas da Ucrânia), bem como as forças militares, informações, infraestrutura educacional que garante sua atividade;
  • a formação dos órgãos autogovernados e da milícia (defesa e lei e ordem) dos territórios libertados, protegendo a população do terror de grupos nazistas subterrâneos;
  • instalação do espaço de informação russo;
  • o confisco de materiais educativos e a proibição de programas educacionais em todos os níveis contendo ideologias nazistas;
  • ações investigativas em massa para estabelecer responsabilidade pessoal por crimes de guerra, crimes contra a humanidade, a disseminação da ideologia nazis e apoio ao regime nazista;
  • Ilustração e a publicação dos nomes dos cúmplices do regime nazi, o seu envolvimento no trabalho forçado para restaurar a infraestrutura destruída como punição para as atividades nazistas (dentre aqueles que não estarão sujeitos à pena de morte ou prisão);
  • a adoção a nível local, sob a supervisão da Rússia, dos atos normativos primários de desnazificação "a partir de baixo", a proibição de todos os tipos e formas de reavivamento da ideologia nazista;
  • estabelecimento de memoriais, placas memoriais, monumentos às vítimas do nazismo ucraniano, perpetuação da memória dos heróis da luta contra ele;
  • a inclusão de um conjunto de normas antifascistas e desnazificação nas constituições das novas repúblicas do povo;
  • estabelecimento de órgãos permanentes de desnazificação por um período de 25 anos.

A Rússia não terá aliados para a desnazificação da Ucrânia. Porque este é um assunto puramente russo. E também porque não apenas a versão de Bandera da Ucrânia nazi será erradicada, mas incluindo e acima de tudo o totalitarismo ocidental, programas impostos de degradação civilizacional e desintegração, mecanismos de subordinação à superpotência do Ocidente e ESTADOS UNIDOS.

A fim de realizar o plano de desnazificação da Ucrânia para a vida da própria Rússia, ele terá que finalmente de se separar com ilusões pró-européias e pró-ocidentais, para se realizar como a última instância de proteção e preservação desses valores históricos Europa (Velho Mundo), que o merece e que o Ocidente acabou por abandonar, perdendo a luta por si mesmo. Esta luta continuou ao longo do século XX e foi expressa na guerra mundial e na Revolução Russa, inextricavelmente ligadas umas às outras.

A Rússia fez todo o possível para salvar o Ocidente no século XX. Implementou o principal projeto ocidental, uma alternativa ao capitalismo, que derrotou os estados-nação, o projeto socialista e vermelho. Esmagou o nazismo alemão, um produto monstruoso da crise da civilização ocidental. O último ato de altruísmo russo foi a mão estendida da amizade russa, para a qual a Rússia recebeu um golpe monstruoso da década de 1990.

Tudo o que a Rússia fez pelo Ocidente, fez às suas próprias custas, fazendo os maiores sacrifícios. O Ocidente finalmente rejeitou todos esses sacrifícios, desvalorizou a contribuição da Rússia para a resolução da crise ocidental, e decidiu vingar-se da Rússia pela ajuda que forneceu sem egoísmo. Então a Rússia seguirá o seu próprio caminho, não se preocupando com o destino do Ocidente, contando com outra parte de seu legado – liderança no processo global de descolonização.

Como parte desse processo, a Rússia tem um alto potencial de parceria e relações aliadas com países que o Ocidente oprimiu há séculos e que não vão colocar em seu jugo novamente. Sem sacrifício e luta russas, esses países não teriam sido libertados. A desnazificação da Ucrânia é, ao mesmo tempo, a sua descolonização, que a população da Ucrânia terá que entender à medida que começa a se libertar da droga, tentação e dependência da chamada escolha europeia.

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publicado às 19:09

A Europa deve afinar os seus objetivos

por Manuel_AR, em 29.03.22

O risco de uma terceira guerra mundial deixou de estar no âmbito do impossível. A Rússia está agora a realizar ataques a poucos quilómetros das fronteiras da NATO e, dada a imprevisibilidade de Putin, não podemos descartar a possibilidade de um confronto direto entre a Rússia e a Aliança. Isso levantaria a possibilidade quase inimaginável de um conflito nuclear, que os nossos líderes têm o dever de evitar.

Como a Rússia e a Europa fazem parte de uma massa de terra ininterrupta, a estabilidade na ponta do continente é fundamental para a paz regional. Mas as barreiras diplomáticas entre a Rússia e a NATO estão a multiplicar-se. Raramente as organizações internacionais do pós-Segunda Guerra Mundial estiveram tão ausentes, ou mesmo impotentes, perante o conflito. Mesmo a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, criada com o objetivo de garantir a estabilidade entre a Rússia, Estados Unidos e Europa, está a mostrar-se inadequada para o desafio atual.

A União Europeia respondeu com firmeza à agressão da Rússia, demonstrando a sua unidade ao impor severas sanções financeiras e económicas. Mas a guerra na Ucrânia mostrou que a Europa não está suficientemente preparada para enfrentar os seus desafios mais imediatos. A UE deve agora concentrar-se em quatro prioridades.

Em primeiro lugar, a UE deve expandir as suas capacidades de segurança e defesa, e a "Bússola Estratégica" que está a ser elaborada deve servir para orientar a política neste domínio. Embora a Europa claramente deva investir nas suas capacidades militares, isso significa não apenas gastar mais dinheiro, mas também empreender tais esforços como europeus e não como Estados individuais. De acordo com a Agência Europeia de Defesa, os Estados-membros da UE gastam um total de cerca de 200 mil milhões de euros anualmente em defesa, mais do que a Índia, Rússia e Reino Unido juntos. A tarefa agora é melhorar a eficiência em vez de simplesmente aumentar os gastos militares ao nível nacional. E isso requer a adoção de uma visão europeia no planeamento militar nacional.

Em segundo lugar, a UE deve repensar a sua dependência energética da Rússia. A Europa depende do gás russo há muito tempo e pode ter de pagar um preço por fechar a torneira, como a Alemanha começou a fazer ao suspender o gasoduto Nord Stream 2. Como diz Nathalie Tocci, do Istituto Affari Internazionali, nenhum cálculo económico deve superar o que é necessário para a unidade europeia.
Em terceiro lugar, a Europa deve desenvolver uma política comum de migração com uma divisão geográfica de responsabilidade para aceitar refugiados das nossas respectivas vizinhanças a leste ou a sul. A partir de 2015, a então chanceler alemã Angela Merkel aceitou unilateralmente centenas de milhares de refugiados sírios, enquanto o resto da Europa olhava para o outro lado. Hoje, os Estados-membros da UE devem mostrar uma vontade comum de ajudar aqueles que fogem da guerra.

O êxodo de dois milhões de ucranianos para a Polónia desde o início da guerra destacou as incongruências da política de migração europeia. A solidariedade da Europa com os refugiados ucranianos é um gesto positivo que mostrou o melhor aos nossos cidadãos; mas deve também fazer-nos refletir sobre a nossa atitude muito menos acolhedora em relação aos refugiados de outras partes do mundo.

Por último, a Europa deve ajudar a mitigar os efeitos da guerra na segurança alimentar global. Como a Ucrânia e a Rússia juntas fornecem 19% da cevada do mundo, 14% do trigo e 4% do milho, o conflito também está a afetar muitas outras economias. Por exemplo, o Quénia, com uma população aproximadamente do mesmo tamanho da Ucrânia, obtém metade das suas importações de trigo da Rússia e da Ucrânia. Com 276 milhões de pessoas em todo o mundo sofrendo de fome severa, as regiões mais pobres, em particular, sofrerão como resultado do atual conflito.

À medida que a UE aborda estas prioridades imediatas, a missão fundadora da União de construir a paz e prevenir a guerra deve permanecer no seu cerne. Um mundo que ainda sofre com a pandemia da covid-19 e suas consequências, e atualmente parece incapaz de reverter as consequências das alterações climáticas, não pode dar-se ao luxo de um conflito deste tipo.

A Europa deve, portanto, usar os meios à sua disposição, incluindo sanções, para tentar mudar o comportamento de Putin. Acima de tudo, deve desempenhar um papel fundamental para evitar que as hostilidades na Ucrânia se transformem numa guerra entre as grandes potências.

O papel da China, que supostamente está a considerar vender armas à Rússia para ajudar no esforço de guerra de Putin, provavelmente será crucial para evitar um conflito global. O encontro mais recente entre Putin e o presidente chinês Xi Jinping, na véspera dos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano em Pequim, parecia sugerir uma quase aliança entre as duas potências.

Muitos traçaram paralelos com a visita do presidente dos EUA, Richard Nixon, à China em 1972, que anunciou uma reaproximação sino-americana destinada a combater a ameaça representada pela União Soviética. Mas enquanto a China pode ser tentada a formar uma aliança com a Rússia, uma guerra mundial não seria adequada para Xi, e tornar-se parte de tal conflito ainda menos.

Impedir que uma aliança China-Rússia se enraíze é fundamental para preservar o atual equilíbrio nas relações internacionais. A Europa pode e deve instar a China a desempenhar um papel na procura de um fim negociado para o conflito na Ucrânia. Para esse fim, é vital que os EUA, a UE e a NATO não sejam vistos como fracos e divididos na política interna ou externa.

Apesar da tragédia da guerra na Ucrânia, sinto-me orgulhoso do que a Europa fez nas últimas semanas. As respostas em Bruxelas, Paris, Berlim, Varsóvia e Madrid foram unânimes: a agressão de Putin não deve ficar impune. Uma UE mais assertiva e decisiva deve refletir não apenas a ressonância entre os governos nacionais, mas também a consciência dos cidadãos de que a sua segurança, interesses e princípios estão a ser ameaçados. Só com esta mentalidade a Europa realizará os seus objetivos.


Javier Solana, ex-alto representante da UE para as Relações Externas e Política de Segurança, secretário-geral da NATO e ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha, é presidente do EsadeGeo - Centro para a Economia Global e Geopolítica e membro ilustre da Brookings Institution.

© Project Syndicate, 2022.


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publicado às 18:35


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