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Quem sou eu para, bem ou mal, comentar o que doutos comentadores, professores catedráticos, experimentados políticos, advogados chamados para comentadores, conceituados jornalistas e muitos outros, muitos deles sentados nos bancos do serviço público que nada têm a perder.  A estes podemos juntar ainda os que se movem no mundo do privado que escrevem, opinam e publicam nos vários órgãos de comunicação social da imprensa à televisão.

Quando emito uma opinião, por muito fundamentada e acertada que seja, consegue ser, para frequentadores das redes sociais, menos credível do que as “fake news” que eles partilham e multiplicam num ápice.

Entendo que a análise política é diferente do comentário e da opinião política. Assim, uma afirmação sobre um facto pode ser comprovada como verdadeira ou falsa. Um comentário é algo que se diz ou escreve e que expressa uma opinião pessoal. Expressa sentimentos subjetivos sobre um facto ou factos, mas que não podem ser provados. As opiniões podem ser baseadas em factos e, muitas vezes pretendem aliciar outros deliberadamente para as posições de quem as emite. A análise política grosso modo aborda ou aprofunda a origem dos sistemas políticos e o modo como se desenvolvem e funcionam. Pesquisa e analisa governos, ideias políticas, políticas, e as suas tendências entre outros temas.

Quando o comentário e a opinião pretendem ser preditivos e substituir-se à análise política transformam-se duma espécie de oráculos o que é frequente verificar-se nos comentários e nos frente a frente televisivos.

Considerar que face a acontecimentos presentes comparativamente com o passado colocar várias hipóteses que poderão ser confirmadas, ou infirmadas, é uma coisa, outra é, dizer-se que vai acontecer isto ou aquilo com base em circunstâncias tão fluidas como são as da política. Vejamos o seguinte exemplo: quando se afirma que a “geringonça” chegou ao fim, ou que a destruição da esquerda está à vista, ou que a direita não ganhará as próximas eleições através de informações vagas e dados insuficientes é aproxima-se de oráculos.

O prof. Fernando Rosas, pessoa por quem tenho imensa consideração enquanto intelectual de esquerda, escreveu num artigo de opinião no jornal Público a propósito do “tempo dos oráculos da desgraça” que vê numa “campanha destinada a tentar fazer as forças de esquerda pagar a ousadia de, desta vez no seu conjunto, votarem contra o Orçamento de Estado (OE). À exceção dos seus próprios argumentos e predições tudo quanto se alvitrar sobre isto do que possa acontecer à esquerda são oráculos. Considera que “há uma vaga oracular que assenta num punhado de fábulas mistificadoras” que tenta justificar.

Sobre os oráculos em geral concordo com Fernando Rosas, porque há muitos comentários e opiniões que por vezes são mais oráculos do que pontos de vista. A tentativa de desconstrução das opiniões que ele toma como fábulas mistificadoras vão no sentido de purificar os falhanços do BE devido a radicalismo e sectarismo. Note-se que o prof. Fernando Rosas foi um dos fundadores do Bloco de Esquerda.

Fernando Rosas apresenta quatro pontos, a que chama fábulas mistificadoras, que, segundo ele fundamentam a sua tese.  Razões que, na minha opinião, fogem às verdadeiras questões. Foi criada uma crise sim porque se ousou “votar contra um OE por se considerar que ele não serve os interesses do país” e sim foi uma “irresponsabilidade” apesar de haver “outras soluções constitucionalmente possíveis.” Seria que qualquer uma dessas outras soluções, dado os pressupostos do PCP, e, sobretudo, os do BE evitariam uma crise num futuro próximo?  Creio que não porque estas forças quiseram impor o seu próprio orçamento ao Governo descaracterizando o inicial.

A segunda que Fernando Rosas aponta como mistificação é uma falácia baseada numa hipotética obsessão de António Costa por uma maioria absoluta e que, por isso, desejava uma crise. Este ponto é uma possibilidade sem fundamento. O desejar-se algo não significa que esse algo aconteça, aliás há sondagens que neste momento desmentem tal argumento.  A crise foi desencadeada pelo PCP e pelo BE porque foi evidente que de facto que “o Governo “cedeu tudo o que podia ceder” para salvar o OE. Sim, tendo em vista as boas contas públicas com redução possível do défice e redução da dívida. O BE não entende isso dos mercados e das dívidas dos países, ou melhor, entende, mas como é pela revolução permanente deveria cortar-se com o Mundo. Os restantes argumentos do segundo ponto são pontos de vista subjetivos e muito discutíveis.

O terceiro ponto ou mistificação passa, segundo diz Fernando Rosas, por ser uma dramatização sobre o que perdem os funcionários públicos ou os pensionistas pela não passagem do OE ao escrever que o “Governo em funções pode e deve, mesmo sem aprovação do OE, proceder aos aumentos e atualizações anunciados para cada um destes casos”. Então, assim sendo, os OE em alguns casos são uma espécie de jogo que se faz entre partidos e que, aprovados ou não, tudo pode continuar como se nada tivesse acontecido. Parece-me uma visão um pouco enviesada.

A quarta mistificação apresentada por Fernando Rosas é quando escreve que é um oráculo feito por alguns que “faz furor no comentário político dos oráculos, é de que a esquerda que hoje não se entende não será solução para uma maioria futura”. Acrescenta ainda que este é um “argumento surpreendente, pois é a direita que parece estar triplamente descredibilizada”, e “porque é ela que se esfarela em cruentas lutas intestinas para saber quem apresenta ao ato eleitoral e que “para governar, as direitas todas juntas precisam de maioria absoluta e parecem estar longe dessa possibilidade”.

Será assim? Verdade é que a direita anda descredibilizada e em lutas intestinas e por isso não terá maioria para governar. Estes argumentos também me parecem ser oráculos. E se, entretanto, a direita se conseguir reorganizar?

O argumento que faz depender dos problemas internos nos partidos de direita e das circunstâncias políticas atuais um possível entendimento à esquerda, parece-me estar a desvalorizar qualquer hipótese de a direita vir a ter maioria. Repare-se que no caso do PSD se Paulo Rangel ganhar a liderança assumiu acordos com a Iniciativa Liberal. Por outro lado, o CDS está a ser desfalcado de militantes que, na melhor das hipóteses, irão engrossar o IL e já não incluo o Chega. O imprevisível em política acontece.

Mantendo-se os partidos à esquerda do PS, PCP e BE, irredutíveis e na negação de cedências e de acerto de alguns consensos e compromissos é também provável que, mesmo que uma maioria de esquerda saia das próximas eleições, seja mais difícil manter-se um acordo semelhante ou melhor do que a passada “geringonça”. O contrário disto será um otimismo e uma profecia de Fernando Rosas. As dificuldades que existem na direita são um argumento aceitável, contudo, quem diz que após a sua organização maioria de direita não poderá vir a ser uma possibilidade, então, lá estará a esquerda toda tramada. E a responsabilidade será então de quem?

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publicado às 19:04

Os extremos não são o que nós queremos

por Manuel_AR, em 21.10.21

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O PS está no seu direito de questionar se esquerda prefere novamente direita no poder. Todos nos recordamos do tempo em que o PCP e o BE Em 2011, o Bloco de Esquerda e o PCP juntaram-se à direita para ajudarem a chumbar o PEC IV de José Sócrates, independentemente de ser ou não uma má governação o facto foi que contribuíram no todo para que a direita viesse em 2011, com Passos Coelho e Paulo Portas, ocupar o poder, já lá vão exatamente 20 anos.

Quem está agora a decidir se o momento da direita se movimentar para tomar novamente o poder com ou sem Passos Coelho é o Bloco de Esquerda, mas também o PCP, cada um à sua maneira. Mas afinal o preferem estes partidos um país à esquerda ou à direita?

A possibilidade destes dois partidos poderem, caso haja eleições antecipadas, recuperar votos são tão-só ilusões ideológicas. Parece-me que o país começa a estar farto deles. O PCP tem um grande poder de mobilização, tem nas mãos os sindicatos e ainda dar o contribuo para conter movimentos inorgânicos sem lei que por aí surgem. É um partido importante para preservação da democracia.

É provável que se houver eleições antecipadas a situação atual de maioria de esquerda se mantenha mesmo com algumas perdas de votos do PCP e do BE e um PS sem maioria absoluta. Se Rui Rio se mantiver no PSD será possível um novo alinhamento parlamentar, com o PS a virar ligeiramente á direita e o PSD a virar ligeiramente à esquerda o que ajudaria à governabilidade do país. Contudo, haveria que esperar uma “retaliação” do PCP com manifestações e greves a proliferar provocando instabilidade social.

O PCP, e, sobretudo, o BE estão-se a tramar para o país, está no seu ADN o leninismo para um e o trotskismo para outro. Há palavras de ordem que eles sabem que atrai as massas: salários, direitos, menos trabalho e mais férias.

Está em causa a aprovação do orçamento para 2022 e, sobre isto, escreveu ontem Manuel Carvalho no editorial do jornal Público:

“A cada orçamento constatava-se que o PS pagava o mínimo possível para poder executar o máximo possível. O preço da colaboração disparou. É no Orçamento que mais redistribui e mais agrava a despesa pública que o PCP e o Bloco mais exigem ao Governo. E, ao fazê-lo, intensificam a gravidade do dilema da governação para um patamar mais perigoso. Já não está apenas em causa a navegação à vista, a sempre eterna promessa do “virar de página da austeridade” ou um programa político excessivamente concentrado no Estado e nas suas funções públicas. O que está em causa é exactamente o equilíbrio que o Governo foi conseguindo gerir, entre o que dá e o défice, entre o que negoceia e executa. Se metade das exigências do Bloco e do PCP fossem atendidas, quem na verdade governaria eram eles e não o PS.

O que está agora em causa não é, portanto, uma natural cedência entre as partes. É o risco de, em nome da estabilidade, o país ter de pagar uma factura insustentável para o futuro. A escolha é difícil e é isso que é preocupante: entre um orçamento lunático e o risco da instabilidade política, o país ficará sempre a perder.”

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publicado às 16:09

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A questão que deve estar permanentemente no espírito de todos nós e levantar sérias preocupações, apesar disso raramente ou nunca, escrevi sobre as crises climáticas, porque são múltiplas. O tema é premente e deve ser objeto de preocupação global.

Ao refletir sobre o comportamento e atitude das sociedades face às questões da grave crise que estamos a atravessar saltei da minha atitude de cética para a de pessimista, tendo como alicerce o seguinte pressuposto: embora os políticos e líderes dos governos mundiais estejam a proclamar, tardiamente, supomos com as melhores intensões, ações no presente para se travar ou  retroceder os efeitos de catástrofe causadas pelas as alterações climáticas, não se conseguirão minimizar com rapidez suficiente os seu efeitos  o que levará séculos, senão milénios, a recuperar tudo o que foi destruído durante cerca de dois séculos.

As ações do homem sobre o ambiente, por maldade, descuido, desinteresse, estupidez e ignorância como no caso dos incêndios catastróficos desencadeados durante décadas têm sido apenas um dos grandes causadores da destruição ambiental. Os incêndios e as inundações são as catástrofes que ultimamente têm sido mais evidenciadas pelos noticiários televisivos com imagens aterradoras, mas não são apenas estes, há os que têm menos visibilidade como a emissão em massiva de gases para a atmosfera causadores do efeito estufa, a sobrepesca, as várias formas de poluição, o desmatamento, acumulação de plástico nos oceanos, etc.

Em circunstâncias como estas não há que escolher palavras, não há que ser politicamente correto, não há que evocar valores morais nem éticos para nos pronunciarmos contra atos causadores de tragédias como a extinção de espécies, a extração de recurso sem controle apenas devido à avidez do lucro imediato. Os recursos extrativos dos países são explorados até à exaustão para exportação, contribuindo para o equilíbrio das suas balanças comerciais. Os países denominados do terceiro mundo, os mais pobres, também têm contribuído em grande escala para a danificação ambiental nos seus próprios países.

Os governos de todo o mundo são responsáveis pelas decisões que não tomam ou adiam. As empresas são também responsáveis cavalgando a onda das indecisões desses governos e orientam as suas decisões para a maximização do lucro e nós, a sociedade, tem iguais responsabilidades porque não resiste ao estimulo dado pelas técnicas de publicidade das empresas que são orientadas para uma sociedade de consumo.

Uma notícia do jornal Público de 12 de agosto escrevia que “Projeto piloto que permitiu recolher, entre março de 2020 e junho de 2021, 16,2 milhões de garrafas destinadas à reciclagem” terminou, e a devolução de garrafas em 23 supermercados deixou de dar desconto pelo que as entregas caíram 70%. Face a esta notícia podemos concluir, embora apressadamente, que a sensibilização das pessoas para as questões ambientais ainda não está assumida e interiorizada se não for compensadora. No editorial no mesmo dia no mesmo jornal Manuel Carvalho escrevia: “Porque, como o mostra a história das garrafas de plástico, é uma utopia acreditar que o combate à maior ameaça dos nossos tempos se pode fazer apenas com apelos à boa vontade. Custa dizê-lo, mas a realidade é o que é”.   

Debater o tema da crise climática e da poluição ambiental exige, naturalmente, distanciamento de interesses e de pensamentos nacionalistas enraizados, de espírito científico aberto, prática que os líderes políticos de todo o mundo parecem não possuir. Ficam-se por promessas e por boas intenções. Os líderes dos países industrializados dizem que estão a fazer tudo para a reduzir as emissões de carbono e pensam que os problemas climáticos e salvar o planeta passa apenas por isso e que tudo se irá resolver através de medidas paliativas. Mas salvar o planeta passa também pelo que já atrás referi. Sofrem da espécie da síndrome do “efeito da terceira-pessoa” pela qual se acha que o que acontece é apenas aos outros. Pode também ver aqui ou aqui.

O debate sobre o aquecimento global e a crise climática extremam pontos de vista que passam pela ignorância, obscurantismo e estupidez dos negacionistas até aos do politicamente correto e das posições não consensuais sobre que se pode ou não fazer.  O meu pessimismo, tendo em consideração as vãs promessas, qualquer que seja o objetivo apontado o ano 20?? já será o ponto sem retorno.

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Documentários e reportagens sobre fenómenos extremos causados pela crise climática que passam nos canais televisivos, nomeadamente a SIC, têm mostrado o terrível estado em que já nos encontramos.

Milhares de artigos científicos, comentadores da área climática e jornalistas de vários órgãos de comunicação, fazem alertas nos media que caem em saco roto.

Os discursos dos políticos raramente abordam a crise climática e a sustentabilidade ambiental, salvo quando há eventos internacionais sobre o tema.  Quer por imposições legislativas dos governos, quer por iniciativa de empresas mais responsáveis, tomadas demora na sua aplicação, quando não adiadas mais ou menos ano, mesmo sabendo que as consequências serão cada vez mais gravosas para o ambiente à medida que o tempo passa o que está à vista de todos. Ficam-se pelas boas intensões que um dia terão de ser tomadas, mas, segundo os cientistas, o tempo urge.

Apesar das evidências da crise climática que atravessamos há ainda líderes de governos liderados por fantasistas, irresponsáveis e negacionistas que recusam olhar o problema de frente recusando-se a qualquer tomada de medidas. Estes não fazem parte da solução, são o problema.  

 O editorial de Manuel Carvalho do jornal Público de 9 de agosto alerta para o fenómeno que tem que ser encarado com urgência e responsabilidade. Afirma ele que

a resposta necessária contra a catástrofe exige dos políticos, dos gestores e de todos nós uma mudança de hábitos que pode estar para lá do que é possível. É preciso falar sem meias-palavras…”

Sublinha que as medidas a tomar irão implicar uma mudança de hábitos de consumo que poderá levar a um recuo civilizacional. Refere ainda que medidas como consumo de “menos carne, compra de menos televisões ou computadores, viajar menos”. A estes ainda podemos acrescentar trocar menos vezes de smartphone, de automóveis, de eletrodomésticos enfim, o abandono sustentável da sociedade de consumo e o regresso a uma austeridade de consumo assumida por todos. São tudo boas intensões. Intenções desajustadas à situação que esquecem que há mais vida para além da economia.

Concordo com Manuel de Carvalho quando escreve que, “uma travagem no modelo de economia e de sociedade voltado para a riqueza e o crescimento contínuo.” Pode ser uma das soluções.  Só uma mudança de atitude que tenha em vista a austeridade, a temperança, para utilizar um termo do catecismo da Igreja Católica, que louva a   virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados, usando com moderação os bens temporais como a comida, a bebida e o conforto com discrição.

A dúvida que sustenta o meu pessimismo baseia-se no pressuposto da dificuldade de mudanças de atitude e comportamentos numa sociedade de consumo como a nossa, em que o ter é mais importante do que o ser, e em que a publicidade, muitas vezes agressiva, incita ao consumo em massa e torna obsoletos objetos e bens materiais que anos após ano se vão substituindo por outros se irão alterar.

Os impressionantes progressos científicos e tecnológicos que, segundo o argumento deveriam ter sido suficientes para enfrentar a crise climática - pense em alternativas de carne, painéis solares, casas ecológicas, estes apenas dirigidos aos que têm disponibilidade financeira, não são suficientes. Quanto aos painéis solares, uma boa alternativa à produção energética, levam-me a imaginar as paisagens agora verdes e espaçosas a serem substituídas por painéis solares que se prologam em espaços espelhados até onde a vista alcança.   

Será que poderemos sair desta sucessão de acontecimentos que se repetem e colidem com obstáculos que contrariam uma desejável regeneração climática, numa espécie de círculo vicioso. Acho que não, nem numa nem em duas décadas. Alinho com o argumento do antropólogo Jason Hickel no seu último livro “Less Is More. Como o Degrowth Will Save the World ”, 2020, segundo o qual as sociedades ricas têm como objetivo fundamental o crescimento da economia cujos ganhos são imediatamente reinvestidos na mesma economia, produzindo mais bens, exigindo e arrancando cada vez maiores porções da natureza para alimentar os circuitos de extração de recursos minerais, e de produção de animais e vegetais, alguns destes últimos cultivados fora das suas regiões endémicas exaurindo as reservas aquíferas que vão contribuir para a mesma pegada ecológica, não a reduzindo, por vezes até aumentando-a.

Pergunto como será possível que, ao mesmo tempo que se procuram estratégias para descobrir fórmulas para a redução das emissões de carbono, preservar os ecossistemas e salvar espécies ameaçadas, defenda-se uma sociedade de consumo excessivo num suposto melhoramento das condições materiais de vida em todo o mundo?

Alguns afirmam que é tudo a penas uma questão de “vontade política”. Não me parece que seja apenas isso porque há razões psicossociais lógicas sérias para se ficar no status quo e adiar decisões drásticas mantendo a passividade quando se coloca a decisão de ter de abdicar de um bem menor no presente em favor de um bem maior no futuro, a preservação do nosso planeta. Tudo quanto possa criar entropias ao poder económico e financeiro mundial é sucessivamente adiado. São os intocáveis e, face a ameaças, clamam que as alternativas que se colocarem conduzirão ao apocalipse económico. Preferem o apocalipse climático com a destruição de bens e vidas humanas ao apocalipse económico, este que pode ter soluções várias e rápidas enquanto o climático não terá remédio conduzindo ao fim do planeta e da humanidade.

Há pouco mais de dois anos tivemos uma amostra disso quando o mundo estava numa fase decisiva para travar a tempo o agravamento da crise climática que foram as tentativas da administração dos EUA, leia-se, Trump, para desmantelar grande parte das leis de proteção ambiental e ao retirar-se do acordo climático de Paris abrindo caminho para mais acidentes industriais em larga escala e catástrofes futuras.  As consequências das políticas governamentais só se fazem sentir várias décadas depois das decisões tomadas, quando os que as protelaram ou as fizeram aplicar já estiverem fora dos governos.

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Algumas das soluções propostas são radicais e potencialmente inexequíveis. Há estudos de economistas que avançam a solução de reduzir o crescimento económico (decrescimento), como se pode verificar pelos gráficos da Our World Data. Ver gráfico anterior.

Os defensores do decrescimento argumentam que não podemos continuara a crescer sem que daí ocorra a já anunciada catástrofe climática. Mas como será isso possível quando o PIB tem tido um crescimento que apenas abrandou com a pandemia covid-19.

Podemos observar a correlação positiva entre o crescimento do PIB per capita e o aumento das emissões de CO2.

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Ao considerar-se o desempenho de uma economia em função do seu crescimento, algo acontece à medida que toda essa atividade económica se expande, é que a quantidade de energia e recursos que usamos também aumentam. Assim, a única solução é uma transformação extrema do nosso modo de vida. Por outro lado, os países mais pobres, ditos do Terceiro Mundo, precisarão de um mínimo de crescimento para elevar os seus bastante baixos padrões de vida e para alimentar a sua crescente população.

Enquanto redigia este texto li um artigo de opinião de João Miguel Tavares, com o qual muitas vezes discordo, que, oportunamente, veio em auxílio dos meus argumentos e que pode ler aqui. Escreveu JMT que:

“…. Alerto apenas para o facto de muitas discussões partirem do pressuposto de que as pessoas ainda não estão convencidas da existência do aquecimento global (por exemplo), e só por isso não agem. Infelizmente, o problema é bem mais assustador: elas estão convencidas, mas ainda não sofreram o suficiente por causa dele para justificar uma alteração drástica do seu modo de vida…”.

Pois é. É este o ponto fundamental das questões climáticas. E, mais uma vez, até lá funciona nas pessoas a síndrome da terceira-pessoa.

Nota: As minhas desculpas por algumas imperfeições do texto porque este foi escrito ao correr da pena.

 

 

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publicado às 18:45

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A subserviência perante o que é estrangeiro, sobretudo a Inglaterra, parece ser o nosso fado desde séculos. Alianças, tratados, acordos e outros que tais raramente no favoreceram dando-nos em troca migalhas quais pedintes europeus.

Quando há algo que nos desagrada que provenha da Inglaterra lá estamos nós a curtir as mágoas que nos causam as decisões vindas da grande ilha europeia. Ainda em janeiro deste ano, no auge da segunda vaga da pandemia, o Reino Unido   proibiu a entrada de pessoas e bens não essenciais oriundos de um conjunto de países do hemisfério Sul devido à nova estirpe de coronovírus detetada no Brasil. Portugal surge incluído neste grupo devido à "forte ligação" com o Brasil, o que levou o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, a considerar "absurda" e "sem lógica" a decisão do Reino Unido suspender os voos com Portugal, medida "súbita e inesperada" cujos fundamentos disse desconhecer.

Nesta declaração está claro a questão do turismo que ansiosamente o nosso Governo espera como pão para a boca. A nossa dependência do turismo inglês é crónica. Anos e anos a nossa economia vive na dependência do turismo. Anos e anos em que os governos, de direita e de centro-esquerda que se alternaram no poder não reformaram a economia para diversificar a nossa dependência externa, nomeadamente de Inglaterra e no século XXI chamada Reino Unido.

Há séculos, pelo menos desde o início do século XVIII que os tratados com a Inglaterra nos são desfavoráveis mesmo em circunstância favoráveis Portugal e a Inglaterra eram aliados na guerra da Sucessão de Espanha; mesmo quando o comércio entre ambos atingira um nível mais elevado a Inglaterra olhava para Portugal como um útil comprador para os seus têxteis. Portugal fica a olhar porque a sua política industrial na época foi um fracasso, “pisca o olho” à nossa aliada e vê nos mercados ingleses de vinho a forma de desenvolveras exportações e surge o tratado de Methuen. E, pasme-se, como este tratado veio com vantagens para a nossa aliada mais antiga. O conjunto de medidas acordadas entre ingleses e portugueses limitava gravemente a economia já que vista que não podiam diversificar a sua agricultura e estabelecer acordos comerciais com outras nações, ao passo que o consumo em grande escala do tecido inglês tornava Portugal uma das nações mais endividadas da época. Para minorar as dívidas acumuladas e a falta de dinamismo económico, Portugal aumentou a cobrança sobre o ouro extraído no Brasil. Posteriormente constatou-se que os ingleses compravam menos vinhos do que os portugueses adquiriam os tecidos britânicos. Além disso, Portugal devia dinheiro aos ingleses e tornou-se cada vez mais dependente da Inglaterra.

Pode perguntar-se o que tem isto a ver com o turismo? A nossa dependência do Reino Unido com efeitos no turismo sem contrapartidas. as receitas de turismo do Reino Unido em Portugal até outubro de 2019, antes da pandemia, de acordo com dados do Banco de Portugal, subiram 7,8% para 2.931 milhões de euros. O turismo é razão da nossa subserviência face aos Reino Unido e também da nossa sobrevivência.

No editorial do jornal Público de 30 de maio Manuel Carvalho escrevia com mostras de indignação e sobre a falta de respeito mostrado para com os portugueses pelos órgão de poder intervenientes: “Os britânicos voltaram a gozar de privilégios no Porto que se julgavam extintos há séculos. Como outrora, tiveram por estes dias direito a leis exclusivas e a estatutos de excepção. Puderam fazer o que os indígenas não podem, como reunir-se aos magotes com cerveja na mão, assistir a um jogo de futebol ao vivo, deambular em hordas pela rua e, aqui e a ali, dar largas ao mau feitio estimulado pelo álcool. Tinham prometido que nada disto aconteceria, que eles viriam e iriam numa bolha de segurança, que teriam os movimentos condicionados por “fanzones”, que haveria a garantia de que todos tinham feito testes e seriam acompanhados. Era mentira.”.

E mais adiante acrescenta: “Os jovens que jogaram a final do campeonato de râguebi acreditaram que a recusa da DGS da presença de 500 espectadores se baseava na aplicação de um critério universal, como manda o Estado de direito. Os jovens que noite sim, noite não são convidados pela polícia a desamparar os miradouros, também. Os donos dos restaurantes que correm com os clientes que se atrasam na sobremesa à hora do fecho, também. Os adeptos do futebol que sonharam com uma última jornada com duas ou três mil pessoas nos estádios, também. Quem se sujeita ao cumprimento da lei não pode aceitar que o Estado o trate como um pária no seu próprio país.”

E termina: “Mas há um equilíbrio obrigatório entre os eventuais ganhos de imagem lá fora e o insulto à dignidade dos portugueses cá dentro. Um país decente não ajusta nem suspende as regras em vigor. Nem para os adeptos do Sporting, como aconteceu no final do campeonato nacional, nem para estrangeiros.”

Parece termos voltado aos idos anos 80 quando íamos para o Algarve fugindo do calor abrasador de agosto em Lisboa para nos refrescarmos nas águas tépidas da costa algarvia.  Lá tínhamos que pagar a carestia dos cafés e dos restaurantes, baratíssimos para os ingleses veraneantes que tomavam conta do Algarve e que pensavam ser deles, e nós, na nossa terra éramos, uns pobretanas mal recebidos naqueles espaços. Nada tenho contra os ingleses nem tão pouco sentimentos xenófobos, mas a discriminação é irritante.

João Miguel Tavares num artigo de opinião caracterizou melhor do que eu o sentimento da altura “Tristemente, ocupávamos mesas sem conseguir consumir com um entusiasmo comparável ao dos britânicos – e sem deixar comparáveis gratificações. Havia histórias míticas sobre jantares bem regados que acabavam com gorjetas que valiam um mês de salário. Nenhum português pós-FMI podia competir com isso. Triste consequência: éramos maltratados pelos nossos próprios compatriotas, que nos atendiam em último, nos serviam em último, e nos traziam a conta em primeiro.”.

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publicado às 12:30

Embora concordando, em parte, com o que escreve Rui Tavares no jornal Público parece-me ser um atribuito da esquerda querer sempre tudo para já. Neste caso estou com os que dizem que muito, depressa e bem não há quem! E quando se pretende transformar o país lá aparecem as manifestações contra.

 

OPINIÃO

(Rui Tavares, in jornal Público, 10/03/2021)

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E uma missão para transformar o país, porque não há?

Portugal precisa de um grande debate nacional sobre o seu modelo de desenvolvimento futuro, e precisa de várias reformas transformadoras: pelo menos no ensino, na regionalização e na administração pública, incluindo justiça.

Marcelo Rebelo de Sousa apresentou cinco missões ao país para o seu segundo mandato e eu desejo-lhe toda a sorte do mundo. Nenhuma das missões de Marcelo é insensata ou incorreta, bem pelo contrário: manter o regime democrático e com ele fazer frente “às mais graves pandemias” (incluindo, presumivelmente, a pandemia do nacional-populismo); desconfinar com sensatez; reconstruir as vidas das pessoas com crescimento, mas sobretudo com coesão, que são a terceira e quarta missão; e, finalmente, assumir que Portugal “não é uma ilha no universo” e aprofundar a nossa ação no plano da lusofonia, europeu e mundial.

Concordo com tudo, e aplaudo a passagem em que Marcelo Rebelo de Sousa apresentou a sua visão de uma democracia feita de “inclusão, tolerância, respeito por todos os portugueses”, em que ninguém seja “sacrificado ao mito do português puro”.

Infelizmente, não chega. Se as nossas missões forem só estas, corremos o risco de falhar redondamente, tal é o tamanho dos desafios que temos pela frente e o peso dos problemas que trazemos de trás. Nesta década vamos ter não só as consequências da pandemia, mas uma economia global em plena transformação e com divergências acentuadas entre a Ásia e o Ocidente, e agora também entre os EUA e a UE, se não for aprovada uma segunda bazuca. Mas teremos também a expansão da inteligência artificial, do teletrabalho, da hiperconectividade em 5G, da impressão 3D, tudo a necessitar de mais incorporação de conhecimento e tecnologia e de mais capacidade de requalificar a força de trabalho. E teremos ainda o aprofundar da crise ecológica e os seus impactos no território nacional, na vida das pessoas, na agricultura e na biodiversidade. Desafios não faltam, e a maior parte deles — como no passado a entrada na China na Organização Mundial do Comércio, o alargamento a leste e a entrada no euro, que conjuntamente nos puseram a patinar durante as duas primeiras décadas do século — nem sequer entram no debate público em Portugal. Com que recursos financiar as universidades do futuro? Com que impostos combater o predomínio dos combustíveis fósseis? Como garantir que funciona o elevador chamado Estado social?

O discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, tal como a prática governativa de António Costa, está feito de boas intenções e sentimentos no sítio certo: é de facto preciso reconstruir a vida das pessoas, e nas suas belas palavras isto “é tudo ou quase tudo: emprego, rendimentos de empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos”. Mas se é verdade que isto “é muito mais do que recuperar ou regressar a 2019”, por que não existe um diagnóstico acerca dos padecimentos do Portugal de 2019 que já então tornavam difícil que superássemos sem mais os desafios da nova década?

A verdade é esta: Portugal não chega lá com esta indefinição em torno do seu modelo de desenvolvimento, nem com metas que eram adequadas ao nosso passado recente mas que estão profundamente desajustadas do grau de exigência que temos de ter para o futuro. Não é preciso só manter, reconstruir, recuperar; é preciso entender que um Portugal que joga para o empate — apenas convergir com a média da União Europeia, sem querer tornar-se numa sociedade de vanguarda em termos económicos, ambientais e sociais — acabará a perder e, na posição periférica que temos, tornar-se insustentável.

Passam governos e doutrinas políticas e continua a não haver uma resposta satisfatória ao problema do que queremos ser na Europa e no mundo neste século XXI. A doutrina de Passos Coelho e Paulo Portas era, no seu “ir além da troika”, a de que Portugal teria de se tornar competitivo cortando nos custos do trabalho, ou seja, embaratecendo-se. A doutrina da saída do euro, que tantos defenderam há uns anos, era a mesma, apenas por outra via: desvalorizar o “novo escudo” e ser competitivo, embaratecendo-se. Ambas se esqueceram de um detalhe: as pessoas emigram. E se cortamos os salários aos portugueses, ou lhes damos um salário em moeda fraca, as pessoas — num contexto de liberdade de circulação na União Europeia — vão ganhar mais lá fora com a formação que lhes demos cá dentro.

Perante a rejeição dupla destes caminhos (da desvalorização da austeridade a da desvalorização da saída do euro) a estratégia de António Costa e de Marcelo Rebelo de Sousa tem sido navegar à vista. Não chega.

Portugal precisa de um grande debate nacional sobre o seu modelo de desenvolvimento futuro, e precisa de várias reformas transformadoras: pelo menos no ensino, na regionalização e na administração pública, incluindo justiça. E precisa de o fazer agora, que o 25 de Abril se aproxima do meio século. Mas, caramba, como a falta de ambição da nossa elite política é aflitiva.

 

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

 

Historiador; fundador do Livre

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publicado às 15:45

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Porque já várias vezes me questionei sobre os pontos incluídos nesta carta aberta resolvi divulgá-la aqui, neste blogue ,apesar de, provavelmente, muitos já tomaram dela conhecimento.

Sabemos também que comentários dos críticos a esta carta aberta tentam descredibilizá-la porque os signatários, ou porque não pertencem ao mesmo ”clube” dos críticos, ou porque pretendem, como tantas vezes é habitual, defender com mentira ou desdenho da verdade dos factos que eles próprios verificam mas negam.

A carta aberta foi publicada como artigo de opinião no jornal Público em 23 de fevereiro de 2020.

 OPINIÃO

Carta aberta às televisões generalistas nacionais

Como cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.

23 de Fevereiro de 2021, 0:30

Sabemos que há uma pandemia – e que o SARS-CoV-2, em vez de se deixar ficar a dizimar pessoas no chamado Terceiro Mundo, resolveu ser mais igualitário e fazer pesadas baixas em países menos habituados a essas crises sanitárias.

Sabemos que não há poções mágicas – as vacinas não se fazem à velocidade desejada e as farmacêuticas são poderosas entidades mercantis.

Sabemos que, mesmo cumprindo os cuidados tantas vezes repetidos – distância física, máscara a tapar boca e nariz, lavagem insistente das mãos, confinamento máximo –, qualquer um de nós, ou um dos nossos familiares e amigos, pode ser vítima da doença e que isso causa medo a todos, incluindo a jornalistas, fazedores de opinião e responsáveis de órgãos de informação.

Sabemos também que os média estão em crise, que sofrem a ameaça das redes sociais, a competição por audiências, as redações desfalcadas, os ritmos de trabalho acelerados impostos aos que nelas restam, a precariedade laboral de muitos jornalistas.

Mas mesmo sabendo tudo isto, assinalamos a excessiva duração dos telejornais, contraproducente em termos informativos. Não aceitamos o tom agressivo, quase inquisitorial, usado em algumas entrevistas, condicionando o pensamento e a respostas dos entrevistados. Não aceitamos a obsessão opinativa, destinada a condicionar a receção da notícia, em detrimento de uma saudável preocupação pedagógica de informar. E não podemos admitir o estilo acusatório com que vários jornalistas se insurgem contra governantes, cientistas e até o infatigável pessoal de saúde por, alegadamente, não terem sabido prever o imprevisível – doenças desconhecidas, mutações virais – nem antever medidas definitivas, soluções que nos permitissem, a nós, felizes desconhecedores das agruras do método científico, sair à rua sem máscara e sem medo, perspetivar o futuro.

Sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo

Mesmo sabendo a importância da informação sobre a pandemia, não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS, as pseudonotícias (que só contribuem para lançar o pânico) sobre o “caos” nos hospitais, a “catástrofe”, a “rutura” sempre anunciada, com a hipotética “escolha entre quem vive e quem morre”, a sistemática invasão dos espaços hospitalares, incluindo enfermarias, a falta de respeito pela privacidade dos doentes, a ladainha dos números de infetados e mortos que acaba por os banalizar, o tempo de antena dado a falsos especialistas, as entrevistas feitas a pessoas que nada sabem do assunto, as imagens, repetidas até à náusea, de agulhas a serem espetadas em braços, ventiladores, filas de ambulâncias, médicos, enfermeiros e auxiliares em corredores e salas de hospitais. Para não falar das mesmas imagens repetidas constantemente ao longo dos telejornais do mesmo dia ou até de vários dias, ou da omnipresença de representantes das mesmas corporações profissionais, mais interessados em promoção pessoal do que em pedagogia da pandemia.

Enfim, sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo.

Consideramos inaceitável a agenda política dos diversos canais televisivos generalistas, sobretudo no Serviço Público de Televisão.

Como cidadãs e cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.

Subscritores

Abílio Hernandez, Professor universitário; Alberto Melo, Dirigente associativo; Alfredo Caldeira, Jurista; Alice Vieira, Escritora; Ana Benavente, Professora universitária; Ana Maria Pereirinha, Tradutora; António Rodrigues, Médico; António Teodoro, Professor universitário; Avelino Rodrigues, Jornalista; Bárbara Bulhosa, Editora; Diana Andringa, Jornalista; Eduardo Paz Ferreira, Professor universitário; Elísio Estanque, Professor universitário; Fernando Mora Ramos, Encenador; Graça Aníbal, Professora; Graça Castanheira, Realizadora; Helder Mateus da Costa, Encenador; Helena Cabeçadas, Antropóloga; Helena Pato, Professora; Isabel do Carmo, Médica; J.-M. Nobre-Correia, Professor universitário; Jorge Silva Melo, Encenador; José Rebelo, Professor universitário; José Reis, Professor universitário; José Vítor Malheiros, Consultor de Comunicação de Ciência; Luís Farinha, Investigador; Luís Januário, Médico; Manuel Carvalho da Silva, Sociólogo; Manuela Vieira da Silva, Médica; Maria do Rosário Gama, Professora; Maria Emília Brederode Santos, Pedagoga; Maria Manuel Viana, Escritora; Maria Teresa Horta, Escritora; Mário de Carvalho, Escritor; Paula Coutinho, Médica intensivista; Pedro Campiche, Artista multidisciplinar; Rita Rato, Directora do Museu do Aljube; Rui Bebiano, Professor universitário; Rui Pato, Médico; São José Lapa, Actriz; Tiago Rodrigues, Encenador; Vasco Lourenço, Capitão de Abril

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

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publicado às 19:14

Heróis de ontem, de hoje e de amanhã

por Manuel_AR, em 19.02.21

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Acho um desplante quando leio ou escuto muitos dos nossos comentadores e líderes de opinião habituais que ocupam espaço na nossa comunicação social perorarem sobre casos que não viveram. Comentam e exprimem juízos sobre factos passados como se os tivessem presenciado, vivido, sentido na pele e convivido quando na época a que se referem ainda não eram nascidos ou eram crianças de tenra idade.

Dir-me-ão que isso não é impeditivo de tecer opiniões sobre temas de então porque se recorre à documentação e relatos históricos disponíveis. É certo, mas o que está em causa é a convicção com que opinam sobre factos ou acontecimentos e exprimem sentimentos como se deles tivessem sido contemporâneos.   

Uma coisa é a disponibilidade de fontes históricas que, no caso, só podem ser documentos textuais, registos sonoros e representações pictórica como fotografias e vídeos. Outra coisa são as interpretações ou reinterpretações que fazem a partir dessas fontes. Isto já não é ciência histórica, são opiniões e interpretações, mais ou menos aceites ou assentes em factos históricos em que a ideologia também está envolvida. Neste conjunto incluo editoriais como o de Ana Sá Lopes, opiniões como as de João Miguel Tavares, e de Manuel Loff como historiador que vieram a propósito da morte de Marcelino da Mata.

Marcelino da Mata foi um comando negro do Exército português que lutou ao lado das tropas portugueses durante a guerra colonial (na Guiné) e que teve homenagem de Estado que despontou logo coros de opiniões, umas criticando, outras aplaudindo, outras, ainda, julgando as escritas opiniões.

Se defender os meus pontos de vista sobre factos reportados a uma parte do passado à luz dos presentes contextos é como se escrevesse hoje a justificar e a enaltecer a importância do exemplar heroísmo de Miguel de Vasconcelos por ter representado os interesses castelhanos durante os 40 anos de dependência espanhola que terminou terminada com a Restauração da Independência conseguida pelo golpe de estado revolucionário ocorrido a 1 de dezembro de 1640 perpetrado por um grupo de conspiradores.

Se sugerisse que Miguel de Vasconcelos, na data das comemorações da efeméride, fosse recordado de forma elogiosa por ter sido “injustamente” defenestrado, a minha atitude ficaria, deste modo, ideologicamente comprometida, mesmo 381 anos depois. Tal opinião, se publicada, seria contestada por várias outras mais ou menos extremadas, porque a minha interpretação subjetiva me colocava apenas num dos lados do facto histórico. Não poderia estar simultaneamente do lado espanhol e do lado português, teria de fazer uma opção. Não poderia estar do lado dos heróis e, ao mesmo tempo, dos vilões, os outros. Para estar com ambos os lados teria, então, de apresentar argumentos válidos que sustentassem tal opção. Com o olhar do presente teria então de abraçar os heróis e os vilões numa atitude de ambiguidade ideológica. Mas em política as coisas nem sempre são brancas ou pretas, há também cinzentos.

Um dos problemas das ciências sociais ao qual a ciência histórica não escapa é a penetração ideológica subjetiva nas investigações veiculando as ideologias das práticas dominantes ou das práticas suas opositoras. Isto é, as ideologias teóricas resistem e dominam as formações científicas nas ciências sociais e às quais a história não fica imune.

Ana Sá Lopes, no editorial do jornal Público, faz uma crítica ao facto de responsáveis do Governo se colocarem numa atitude de expressão de “justo reconhecimento ao tenente-coronel Marcelino da Mata, um dos militares mais condecorados de sempre, pela dedicação e empenho depositados ao serviço do Exército português e de Portugal” com fez o ministro da Defesa Nacional.

Por sua vez o PSD entregou um voto de pesar em que enaltece “a excelsa bravura” e o “exemplar heroísmo” e o CDS pediu um dia de luto nacional.

O caso mais evidente de que tenho conhecimento que causou alguma polémica foram o editorial de Ana Sá Lopes e o artigo de opinião de João Miguel Tavares que foi contra-atacado por Manuel Loff.   Como seria de esperar seguiu-se ontem a reação de JMT.

Escrevi algumas vezes neste blogue sobre as opiniões de João Miguel Tavares, umas vezes em concordância, outras vezes totalmente em desacordo. No caso presente limito-me a um simples ‘não sei’.  Porquê desta minha atitude simplista?

A razão está em dois dos meus pontos de vista: o primeiro por me parecer que (as aparências por vezes iludem) todas aquelas manifestações de reconhecimento a Marcelino da Mata estejam numa linha de circunstância meramente política e propagandística, mais ou menos ideológica, tendo em vista uma espécie de mostra oficial do não racismo português. O segundo por ser uma forma de manifestação hipócrita de não hostilização da direita e da extrema-direita por acomodação a um passado que foi colono-ditatorial e de patriotismo oportunista que tinha em vista a manutenção das colónias perdidas pela revolução do 25 de Abril.

Estes meus pontos de vista, que valem o que cada um quiser, baseia-se no facto de as opiniões sobre o passado histórico se transformarem em tentativas de rescrita, omitindo uns factos, salientando ou construindo outros consoante satisfaça as ideologias de cada um, sejam elas de direita ou de esquerda mais ou menos radicais, sobretudo quando se referem aos 50 anos de Estado Novo, ao colonialismo e à pós-revolução de Abril de 1975 que criaram sobre os factos mitos feitos à medida. Quer nos agradem, quer não, os factos históricos não se apagam, nem se reescrevem, podemos é discordar ou concordar com as abordagens que são feitas e reinterpretá-las à luz de novas investigações e de novos documentos cientificamente validados.  

Os factos históricos são realidades objetivas, são independentes dos observadores, embora possam ser percebidos de modo diferente por cada um de nós por razões que se prendem, por vezes, com a falta de acesso a informação fidedigna e imparcial e têm de ser adequados à realidade, devendo os resultados obtidos ser verificados pelos restantes.

Tendo em conta esta perspetiva João Miguel Tavares escreve a certa altura do seu artigo que “Há uma forma particular de pobreza que afecta este país – a pobreza da nossa memória histórica, demasiado selectiva e formatada, que conduz à ignorância generalizada sempre que falamos de factos ou de pessoas que não encaixam na historiografia oficial do regime”. Ou seja, acusa o regime de seleção e formatação dos factos históricos. Não sabemos a que regime se refere? Será ao regime democrático? Será ao regime de Governo atual? E se fosse outro o partido o do Governo o regime também se comportaria da mesma forma? Ficamos sem respostas!

Há algo, no que escreve Miguel Tavares, que me parece caricato quando se refere à historiografia oficial do regime ao afirmar que “Marcelino foi colocado do lado de fora da história da democracia portuguesa e, por isso, morreu sem que o seu nome e a sua vida extraordinária fossem integrados na memória colectiva.” Vamos lá a ver, além de Marcelino da Mata não houve centenas, senão milhares, de outros militares que combateram nas ex-colónias, que arriscaram a vida e que não foram condecorados nem durante, nem depois, do regime do Estado Novo e que não foram integrados na memória coletiva. O que sabe JMT da memória coletiva senão aquilo que lhe ‘enfiaram’, pela sua educação e formação, na cabeça ao longo das suas primaveras e que, suponho, racionalmente, posteriormente aceitou, acrescido pelo que leu e ouviu, ou pelo que lhe contaram sem as certezas validadas pela investigação histórica.

JMT teria dois anos quando aconteceu a Revolução do 25 de Abril de 1974 que terminou com o fim oficial do Estado Novo, data em que também se iniciou o PREC (Processos Revolucionário em Curso) que terminou mais de um ano depois com o 25 de Novembro de 1975.

Nicles, é a vivência que JMT tem dessa altura. Neste aspeto, a não ser pelo que lhe relatam nos bastidores a que tem acesso em determinadas fileiras, sabe ainda menos do que eu. O que ele, e outros, sabem é através de fontes históricas e de relatos. Está no seu direito de defender ou censurar uma época, não pode é assumir grande ciência sobre os acontecimentos do passado. Pode ainda, isso sim, fazê-lo através de outros, consoante as ideologias. Não pode é tentar ‘lavar’ ou fazer com que passos da história sejam omitidos, por muito que o deseje e tentar sugerir que outros o fazem.

Defender ou atacar Marcelino da Mata são sofismas que cada um gere conforme a sua subjetividade política e ideológica.   

A perda da memória histórica do século XX terá como causa o nulo ou pouquíssimo tempo dedicado nas escolas ao estudo na disciplina de história, sobre o Estado Novo e do pós-25 de Abril o que contribui para o esquecimento e desconhecimento dos factos histórico daquela época como sejam a ditadura, a guerra colonial, os presos políticos, os torturadores, os funcionários da polícia política, os denunciantes. Talvez, como escreveu Ana Sá Lopes, “devido à estratégia para integrar o velho regime no novo regime, o esquecimento acabou por ser a via aceitável para o convívio possível”.

À medida que os anos passam os jovens estão, e estarão se nada mudar, cada vez mais, afastados da nossa história do século XX e acham, por desconhecimento, que tudo quanto sejam assomos de regresso a regimes autoritários com persecução política e étnica pertence ao domínio da ficção e da imaginação de alguns.

Grave também é, devido às interpretações menos avisadas, aceitar uma espécie de maniqueísmo em que a realidade histórica deve ser aceite e dominada simultaneamente por duas visões antagónicas, as do bem e as do mal porque, como no dizer de Tavares, uma “sociedade adulta deveria perceber – lição essencial em tempos maniqueístas – é perfeitamente possível alguém ser herói e ser vilão”.

Não venha agora dizer que grita como no título do artigo de opinião de ontem: “Mais uma comparação com o nazismo e eu grito”. Pois pode gritar à vontade porque poderemos também ser uma sociedade adulta e comparar com outros regimes como o do estalinismo em que, segundo JMT, também deveria ser perfeitamente possível alguém ser herói e ser vilão. Sim, JMT, não podemos varrer da nossa memória coletiva o que foram aqueles dois regimes e que as suas ameaças não estão radicalmente afastadas, mesmo no nosso país.

Assim sendo, porque não sermos também solidários e aceitar os vilões que negam o holocausto, compreender os atos praticados pelas SS, soldados e altas patentes nazis através de perseguições contra os judeus e outros, na altura considerados pelo regime heróis e patriotas, mas que, com o passar do tempo, também poderiam ser louvados e condecorados por serviços prestados à Pátria.  E porque também na atualidade não se transformam facínoras da PIDE em heróis porque estavam contra os inimigos da Pátria e do Estado Novo.

Para que fique esclarecido não tenho nada a favor, nem contra Marcelino da Mata, o que entendo é que a homenagem prestada foi extemporânea e desajustada. Compreendo o seu passado, e o de muitos outros no contexto de uma guerra em que havia ordens a cumprir, a bem ou a mal.  Ou será que todos teriam de fugir para fora do país? Eu estive lá! Também sou culpado e, portanto, ser também homenageado, assim como muitos outros que lá estiveram. Não enramalhetem ou desenfeitem o desnecessário, porque a história é o que é.

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publicado às 12:06

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Estou no meu computador, olho para o relógio e saio da espécie de forma comatosa em que me encontro frente ao ecrã onde caíra depois de almoço apenas com uma interrupção para, a meio da tarde, ingerir à pressa qualquer coisa que me aguente até ao jantar.

São oito horas da tarde. Levanto-me, nervoso, ao lembrar-me de que tenho de estar frente à televisão para ver os noticiários. Como se iniciam todos à mesma hora, com pequenos minutos de diferença, pego no comando e percorro freneticamente os quatro canais para ver as aberturas.

Tudo na mesma. Na abertura dos noticiários que se prolonga por largos minutos a covid-19 continua a ser a prima-dona narcisista e caprichosa que faz exigências inauditas aos esforçados e já desgastados profissionais de saúde cujo nosso respeito, todos eles, nos merecem.

Nós, o povo, temos todo o direito de estar a par da informação, do que se passa com o triste espetáculo com que ela nos tem torturado. Aprendi ao longo da minha formação que, em comunicação, sobretudo a televisiva, as pessoas quando ficam sujeitas a uma repetição sistemática e consecutiva das mesmas ou semelhantes imagens a eficácia do impacto perde-se.  

Normalmente pensamos nas notícias que diariamente consumimos tendo em vista as informações factuais que as imagens televisivas nos transmitem e não as tendências emocionais que captamos e que nos são veiculadas pelas palavras de escolha específica do texto lido em voz-off. A narrativa das notícias e as palavras específicas selecionadas, simultaneamente com a elocução pelo jornalista, por mais objetivas que procurem ser, elas codificam uma riqueza de perceções emocionais e relacionais que a nossa atenção muitas vezes conscientemente ignora afetando a forma como entendemos os eventos descritos.

A nossa perceção da catástrofe e da dor, angústia sofrida por outros mostrada através de exposições sucessivas das mesmas imagens televisivas conduz à banalização do sofrimento. Tanto mais quanto as repetições se sucedem. O jornalismo procura sangue, quando nada há de novo e não se obtém novas imagens emitem-se até à exaustão as de dias ou de semanas anteriores e quando não se têm mais recentes coloca-se num cantinho superior do ecrã as palavras “imagens de arquivo”.

Mesmo quando sabemos que não fazemos parte do grupo, se não nos precavermos, podemos ser atingidos por essas imagens, quando nos cercam diariamente, ficando a nossa capacidade de sensibilização menorizada em relação ao sofrimento alheio banalizado pela repetição.

Sobre a extensão e o do tempo das notícias televisivas dedicadas à pandemia António Guerreiro escreveu para o jornal Público uma crónica com título de “A mentira no pequeno ecrã”. Sobre o Jornal da Noite escreve que «Não mente por dizer mentiras ou falsear imagens, não é a actual questão das fake news e da pós-verdade que aqui surge como pertinente ou a solicitar análise. Mente pelo encadeamento de palavras e de imagens, pela poluição discursiva e visual que produz, pelo tom adoptado (a dimensão prosódica do discurso, digamos assim), arrastando-nos para uma das regiões mais poluídas do planeta». E acrescenta que «Este jornalismo da mesmice — dos mesmos factos, das mesmas pessoas e do mesmo tom — que encena pela redundância uma ilusão de totalidade (e que, por isso, precisa sempre de muito tempo».

Atentemos ao facto de que há por aí negacionistas e outros que tais que contestam a existência da pandemia e a sua gravidade e manifestando-se nas redes sociais e, por enquanto, sem grande impacto público. Mentes ocas, deturpadas, a quem lavaram o cérebro, ficando destituídas de qualquer racionalidade ao que negar factos mesmo que estejam à sua frente.

Não se pode apontar o dedo à comunicação social por negacionismo, antes pelo contrário. Mas, o jornalismo televisivo está obeso de imagens que nos fornece em excesso para nos convencer da realidade pela redundância o que leva a gerar nos espectadores ansiedade e ilusão de ficção e mentira.

A mentira a que me refiro neste tipo de jornalismo não é absoluta é apenas alusiva. A mentira não é premeditada, os sujeitos recetores é que, devido ao encadeamento de palavras e de imagens e à poluição discursiva-informativa e visual produzidas arrasta-nos para colocar a questão de: será isto verdade?

É o caso das imagens relacionadas com a covid-19 que mostram exaustivamente os mesmos grupos etários, nos hospitais, nas ambulâncias, nas macas, nos lares, nas vacinações. Os velhos são as estrelas covid. Não nos admiremos, portanto, que para além dos negacionistas, pessoas bem-intencionadas comecem a duvidar da gravidade da situação que nos aflige e que a generalidade da população está a pagar bem caro com os sucessivos confinamentos devido ao desrespeito de outros que supõem não ter nada a ver com eles, mas sim com os velhos, para o que ajuda o guião do alinhamento que ordena por prioridades as notícias do dia.

Vejo diariamente os noticiários televisivo das 20h, faço zapping entre os três canais generalistas os e observo a overdose de notícias e reportagens sobre a covid-19 em quantidade e em tempo de duração e é óbvio a certeza de as ter já visto por serem iguais às dos dias e semanas anteriores, com pouquíssimas diferenças, muitas delas recolhidas das já emitidas fazendo novas edições e montagens.

Deste cabaz não escapam os jornalistas de serviço às notícias que se distinguem pela mímica da representação. Salvam-se os do canal SIC. José Rodrigues dos Santos da RTP1, é o que mais me irrita pela sua atuação. Não gosto quando em televisão me apontam o dedo e quando, ao lerem notícias, pelo tom e pelas atitudes de pantomina que adotam para salientar pontos da elocução consoante sejam ou não do seu agrado.  Esta é a minha perceção.

Tudo isto nos remete para a dúvida em sentido figurado e de sentimento individual sobre o que nos impingem nos ecrãs, dada a repetição exaustiva das peças jornalísticas e da expressão facial e até corporal que alguns dos pivots fazem parecendo mais momos do que jornalistas.

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publicado às 16:31

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Esta semana foi publicado no jornal Público um artigo de João Ferrão que, embora de opinião, apresenta um cunho científico. Conheço o autor desde os meus tempos da faculdade quando frequentava o curso de Geografia Humana, variante de Planeamento Regional e Local.


João Ferrão, na altura assistente de Professor Jorge Gaspar, foi meu professor nas aulas práticas da cadeira de Geografia Humana do primeiro ano. Na altura era ele um jovem professor quando eu, na mesma altura mais entradote, frequentava as suas aulas com interesse e aplicação, apesar das minhas curtas permanências na faculdade a que me obrigava o meu trabalho como responsável pelo departamento de informática de uma empresa.


Para além de Jorge Gaspar, diretor do curso, João Ferrão foi um dos professores que mais me marcou positivamente pois foi um marco na minha vida universitária que me indicou e abriu pistas para o futuro no âmbito do interesse pela pesquiza geográfica. Doutorado pela Universidade de Lisboa em Geografia Humana e investigador do Instituto de Ciências Sociais com uma personalidade ímpar quer como pessoas quer como investigador levou-me a acompanhar por fora o seu percurso profissional e académico tendo algumas vezes assistido às suas intervenções públicas uma delas quando era Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades entre 2005 e 2009.


Dado o seu saber, não apenas no domínio da geografia humana e ordenamento do território, considerei o artigo publicado como uma peça com o interesse e a importância merecedor de divulgação e por isso incluo no meu blog de vulgares opiniões, uma peça que merece se lidas e analisada.


A geografia da covid-19: algumas precisões


(João Ferrão, in Público, 16/04/2020)


É, sem dúvida, importante divulgar informação regionalizada e apontar potenciais causas para os resultados diferenciados observados nas diversas regiões. Mas convém enquadrar estes resultados numa visão mais ampla, quer do ponto de vista conceptual, quer no que se refere ao conhecimento do território de Portugal continental.


Todos os dias, ao final da manhã, numa conferência de imprensa da responsabilidade do Ministério da Saúde, são apresentados e comentados os resultados apurados na meia-noite anterior sobre o avanço da covid-19 em Portugal. A informação disponibilizada inclui dados por áreas de intervenção das administrações regionais de saúde – Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve –, o que é positivo porque permite perceber que a incidência desta pandemia, como a de qualquer outra doença infecciosa, não é geograficamente homogénea. Quando jornalistas questionam a diretora-geral da Saúde sobre as razões dessas diferenças regionais, é respondido, e bem, que apenas estudos aprofundados poderão dar uma resposta segura à pergunta colocada. Mas ainda assim são enunciados três fatores explicativos principais: estrutura etária, densidade demográfica e total de lares de idosos existentes.


É, sem dúvida, importante divulgar informação regionalizada e apontar potenciais causas para os resultados diferenciados observados nas diversas regiões. Mas convém enquadrar estes resultados numa visão mais ampla, quer do ponto de vista conceptual, quer no que se refere ao conhecimento do território de Portugal continental.


A primeira distinção a fazer é entre exposição, suscetibilidade e vulnerabilidade. Sendo a origem do coronavírus externa ao país, o conceito de exposição define-se, numa primeira fase, em função do grau de abertura de cada território ao exterior. Por exemplo, as áreas metropolitanas, as regiões exportadoras, as regiões com dinâmicas transfronteiriças mais intensas ou as áreas que mantêm uma circulação regular de pessoas com comunidades emigrantes (neste caso, da Europa) estão mais expostas à possibilidade de importação de vírus. Mas as características de cada um desses tipos de territórios são diferenciadas sob muitos pontos de vista, das características sociodemográficas e habitacionais das populações que aí residem à dotação de serviços de saúde. Assim, podemos imaginar duas áreas com idêntico grau de exposição a focos externos da pandemia mas que, tendo suscetibilidades diferenciadas, revelam níveis de vulnerabilidade distintos.


No sentido oposto, e apesar de as pessoas com mais de 70 anos corresponderem a um grupo de risco reconhecido pela OMS e confirmado pelos resultados de países onde a pandemia se fez sentir mais cedo e também em Portugal, uma região com uma estrutura demográfica muito envelhecida (portanto, potencialmente muito suscetível), mas pouco exposta ao exterior (internacional e mesmo nacional), pode revelar-se pouco vulnerável. Em suma, a vulnerabilidade de cada região – neste caso, medida através da incidência de casos de infeção e da sua gravidade – são o resultado do jogo de duas componentes – exposição e suscetibilidade – que pode variar ao longo do ciclo epidemiológico, sobretudo à medida que a exposição externa vai sendo mais controlada (encerramento seletivo de fronteiras, cancelamento de voos, etc.).


Esta última observação permite realçar uma outra distinção: numa segunda fase da pandemia, a exposição passa a definir-se sobretudo em função de focos internos através de dois tipos de difusão, uma por contiguidade física e outra por interação funcional. A primeira ocorre a partir da expansão em mancha de óleo dos focos preexistentes em direção a áreas e concelhos vizinhos, baseada em movimentos pendulares casa-trabalho, cadeias de abastecimento, enfim, todo o leque de interações físicas que famílias, empresas e outras entidades com uma localização relativa próxima mantêm entre si. É o que sucede, por exemplo, nas áreas metropolitanas ou nas áreas de industrialização rural dispersa. A segunda, difusão por interação funcional, envolve as cidades de média dimensão (em geral, capitais de distrito). Estas aglomerações urbanas, pelo tipo de serviços especializados que possuem (universidades e politécnicos, hospitais regionais, equipamentos públicos de nível supramunicipal, etc.) e pelos grupos sociais que aí residem (com maior mobilidade), mantêm uma relação significativa quer com as áreas mais expostas internacionalmente (e que estiveram na primeira linha da importação de casos infetados), quer com concelhos das áreas rurais.


À luz deste enquadramento, é agora mais fácil reinterpretar quer as diferenças regionais, quer a pertinência dos três fatores explicativos acima invocados: estrutura etária, densidade demográfica e total de lares de idosos existentes.


Os dados disponíveis, apesar de todas as dúvidas que suscitam no que se refere à sua efetiva cobertura e fiabilidade, permitem identificar quatro questões relevantes.


Em primeiro lugar, não são as regiões ou concelhos com uma estrutura demográfica mais envelhecida que revelam um maior número de infetados, tanto em valor absoluto como relativo. Pelo contrário, a haver uma relação generalizada (o que merece sempre a maior prudência) ela aponta para que seja nas áreas com uma estrutura etária mais jovem que, muitas vezes, se verifica uma maior incidência da covid-19. Ou seja, o grupo etário com mais de 70 anos é efetivamente um grupo de risco, mas uma área com uma população muito envelhecida não é necessariamente uma área de risco.


Em segundo lugar, a densidade populacional, por si só, não se associa de forma relevante com o grau de incidência da covid-19. Áreas com densidades demográficas muito distintas podem ter taxas de incidência relativamente semelhantes e superiores à média. Simetricamente, áreas com densidades idênticas podem revelar uma presença muito diversificada de habitantes infetados. De facto, sob a designação genérica “densidade demográfica” escondem-se dois aspetos distintos: grau de urbanização e tipo de povoamento. Claro que nas cidades, grandes e médias, a densidade demográfica é maior e, por isso e sobretudo pelo seu modo de funcionamento enquanto espaços de estudo, trabalho, consumo e lazer, a interação pessoal, direta e indireta, é mais intensa. A difusão comunitária, quer por transmissão direta, quer através do uso de superfícies comuns, tende, pois, a ser mais elevada do que a média. Mas o tipo de povoamento também é relevante. Em áreas de povoamento difuso e de pequena propriedade, onde se misturam num mesmo território funções residenciais e atividades agrícolas e industriais, os contactos sociais são igualmente densos. Pelo contrário, em áreas com povoamento concentrado, caracterizado por povoações relativamente isoladas e maioritariamente habitadas por idosos com fraca mobilidade, o potencial de difusão comunitária é muito menor. Ou seja, a densidade demográfica apenas possui poder explicativo nos casos extremos (cidades ou territórios com um elevado grau de despovoamento), pelo que, por si só, esconde mais do que esclarece.


Em terceiro lugar, a questão dos lares de idosos. A um nível micro, e correspondendo estes equipamentos a uma concentração de idosos, eles são, naturalmente, locais de risco. Mas os casos mais graves podem ocorrer em contextos territoriais muito distintos, e resultam de uma conjugação de fatores internos e externos a cada um dos lares. Parece difícil aceitar a hipótese – mas apenas estudos aprofundados o poderão confirmar ou infirmar – de que existe uma relação entre o total de lares de idosos e o grau de incidência de infetados e mortos ao nível regional.


Dizer que a região Norte tem valores mais elevados porque “por acaso” alguém veio infetado de uma feira no Piemonte, a região italiana com maior incidência da covid-19, é não entender que estes vários Nortes conciliam, ainda que em graus diferenciados, uma forte exposição externa e uma suscetibilidade local elevada


Finalmente, os mapas por concelho disponibilizados diariamente pela DGS, independentemente das limitações que poderão ter como atrás se salientou, aconselham alguma prudência quando se comparam dados de diferentes regiões. Sobretudo nas que têm uma configuração transversal ao país – as regiões Norte e Centro –, as diferenciações internas são tão significativas que dificilmente tem sentido falar das regiões como um todo. Deste ponto de vista, a região Norte é particularmente interessante, já que os resultados globalmente elevados apenas são compreensíveis se considerarmos que existem vários Nortes particularmente expostos e suscetíveis: a área metropolitana, com as suas franjas suburbanas mais pobres; as áreas de industrialização difusa, sobretudo do Vale do Ave; as cidades médias (Viana do Castelo, Braga, Guimarães, Vila Real, Bragança); os concelhos junto à Galiza, o troço da fronteira luso-espanhola com uma dinâmica transfronteiriça mais intensa; e Trás-os-Montes, com uma forte relação com comunidades emigrantes de vários países europeus (desde o regresso de portugueses despedidos recentemente ao vaivém de trabalhadores da construção civil). Dizer que a região Norte tem valores mais elevados porque “por acaso” alguém veio infetado de uma feira no Piemonte, a região italiana com maior incidência da covid-19, é não entender que estes vários Nortes conciliam, ainda que em graus diferenciados, uma forte exposição externa e uma suscetibilidade local elevada, ou seja, um significativo potencial de vulnerabilidade em relação a esta ou a qualquer outra doença infecciosa. Os mapas por concelho diariamente disponibilizados pela DGS mostram ainda que, no caso da região Centro, o contraste entre os municípios do litoral e do interior é tão acentuado que os totais regionais têm um valor igualmente enganador.


Será, então, que não vale a pena dar atenção aos valores regionais e municipais diariamente divulgados pela DGS sobre a evolução da covid-19? Muito pelo contrário. Pelo que revelam e pelas dúvidas e questões que suscitam, esses dados abrem mais uma janela de observação para conhecermos e compreendermos melhor não só a pandemia, mas o próprio país na sua diversidade territorial. Dados fiáveis ao nível municipal e estudos aprofundados baseados em evidência empírica permitirão no futuro conhecer as várias geografias da exposição, suscetibilidade e vulnerabilidade a doenças infecciosas, replicando os avanços científicos alcançados na última década no domínio das alterações climáticas e seus impactos.


O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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publicado às 18:37

André Ventura descobriu a stand-up comedy

por Manuel_AR, em 02.03.20

(Bárbara Reis, in Público, 28/02/2020)


Ventura JPúblico.pngA maioria dos antigos combatentes, como a maioria dos portugueses, não precisa de acção social. Ventura sabe que falar dos 370 mil ex-combatentes que recebem apoios à sua pensão não faz ninguém rir nem lhe dá votos.


No domingo, em Viseu, o deputado André Ventura divertiu uma audiência de apoiantes em registo de stand-up comedy. Fiquei espantada, ainda não tinha visto o novo estilo.


Desconheço se foi uma performance única ou se vai ser o tom da campanha para as presidenciais — este sábado, em Portalegre, Ventura oficializa a candidatura a Belém. É provável que o deputado o adopte. O estilo é eficaz: durante 50 minutos a audiência riu à gargalhada.


Olhando para a sala, os apoiantes do jantar de Viseu parecem encaixar na categoria de “politizados, cépticos e urbanos” que, segundo o cientista político Pedro Magalhães, caracteriza os eleitores que votaram no Chega em 2019 e que têm intenção de votar no futuro.


O conteúdo do “discurso” de Viseu foi 100% político e ligado à actualidade — só acha graça às piadas quem vê notícias políticas. O humor é destemido e selvagem. Quatro excertos:


— “O Parlamento é uma palhaçada tal o ano inteiro que percebemos porque é que não funciona no Carnaval: quando chega ao Carnaval é tempo de parar.”


— “No debate sobre a eutanásia, quando estava o ouvir aquele tipo dos Verdes, que ninguém sabe quem é, e ele tinha 28 minutos… eu próprio tentei pedir a eutanásia: já não dava para mais!”


— “Este é um país que… nem a Venezuela seria assim. Os bolivarianos devem ver isto na televisão e pensar: ‘Que nunca sejamos como Portugal’. No Senegal, se alguém estiver a ver televisão, deve dizer: ‘Deus nos livre um dia ser como Portugal’. No Mali, em Omã, se calhar até na Síria, devem dizer: ‘Que nos aconteça tudo, ‘estado islâmico’, terrorismo, mas nunca, por amor de Deus, ser como Portugal!”


— “Viram o Marcelo Rebelo de Sousa dizer: ‘Temos de ter cuidado com o populismo’? Não quero dar exemplos desagradáveis, mas é a mesma coisa que um pedófilo dizer: ‘Cuidado com estas redes internacionais que andam a raptar crianças’.”


No meio de risos, palmas e frases como “não podemos continuar com a mexicanização de Portugal”, Ventura fez o seu exercício favorito: encher o debate público de nuvens e ampliar a excepção de modo a parecer a regra. O prémio vai para a frase: “Não podemos ter presos a receber subvenções e ex-combatentes do Ultramar que não recebem um centavo.”


Achei curiosa a preocupação do deputado do Chega. Em Janeiro e Fevereiro, Ventura não achou prioritário participar nos debates parlamentares sobre a defesa e os antigos combatentes da guerra colonial. Esteve ausente na discussão na especialidade do Orçamento do Estado de 2020 para a Defesa Nacional (22 de Janeiro) e esteve ausente na reunião plenária de discussão da proposta de Lei do Governo para o Estatuto do Antigo Combatente e dos projectos do PSD e do BE (14 de Fevereiro). Em ambas, teria direito a falar.


Na discussão sobre o Estatuto do Antigo Combatente falaram todos os partidos e dois deputados únicos (João Cotrim Figueiredo, da Iniciativa Liberal, e Joacine Katar Moreira, ex-Livre). A única excepção foi Ventura.


No site do Parlamento, está registado que o deputado do Chega apresentou uma “falta justificada”, cujo motivo foi “trabalho político”. A sua assessora Patrícia Martins Carvalho explicou por email que o deputado “estava em viagem para os Açores”. Qual o programa oficial da viagem? “Não teve propriamente um programa oficial. Houve reuniões com vista às eleições regionais e ao estabelecimento do partido no arquipélago.” Quanto à reunião de Janeiro, está apenas registada a falta, para já não justificada, mas a assessora não prestou esclarecimentos.


O que se disse nessa reunião é inútil para os comícios de stand-up de André Ventura: foi criada uma secretaria de Estado dedicada aos antigos combatentes; foi submetida ao Parlamento uma nova proposta de Estatuto do Antigo Combatente; o orçamento da Acção Social Complementar sobe 55% (de 5,5 milhões de euros para 8,5 milhões).


Há ex-combatentes que “não recebem um centavo” como diz Ventura? É possível. A maioria dos antigos combatentes, como a maioria dos portugueses, não precisa de acção social. Nos registos do Estado, há 372 mil antigos combatentes que recebem 48,2 milhões de euros em três subsídios: Acréscimo Vitalício de Pensão (51 mil pessoas), Suplemento Especial de Pensão (320 mil) e Complemento Especial de Pensão (1772 pessoas), um total de 372.858 antigos combatentes.


Mas não teria a mínima graça dizer em Viseu que há 370 mil ex-combatentes que recebem apoios às suas pensões. Até parecia que os nossos impostos, afinal, servem para alguma coisa. Dizer isso não faz rir e não dá votos.

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publicado às 11:10


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