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Afinal as cassetes ainda existem

por Manuel_AR, em 13.05.22

“A conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa”. (Palavras do líder do Partido Comunista da Federação Russa, numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscovo a 3 de abril de 2022)

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O grande perigo para a Europa e para o Mundo não vem da NATO, nem dos EUA, mas do presidente Vladimir Putin. A pergunta que se coloca é a de saber se a Suécia e a Finlândia teriam pedido com brevidade a entrada na NATO caso Putin não tivesse invadido a Ucrânia. Putin passou a ser um fator de instabilidade também para a União Europeia que, segundo ele, teria a pretensão de desagregar.

Agora um ditador candidato a “imperador” quer pressionar a Finlândia, país autónomo, soberano e independente, a não aderir à NATO e, por isso, ameaça tudo quanto mexe. Desde quando um país obriga outro a seguir os seus ditames com a justificação de se sentir ameaçado. Por aqui vê-se quem ameaça o Mundo e qual a sua estratégia para o enfraquecimento dos mecanismos de proteção e defesa dos países que os rodeiam.

Putin nunca viu com bons olhos que Helsínquia aderisse em 1995 e encontrasse na União Europeia o seu espaço estratégico preferencial. A questão da adesão à NATO nunca se tinha colocado apesar de ser essa a preferência de grande maioria dos finlandeses.

Vamos ver se a Turquia deixará, ou melhor, não se oporá!

Putin, em vez de fazer uma aproximação à Europa e ao ocidente optou por se dispersar com divagações pouco credíveis conforme é citado no Kremlin: "O nosso dever comum é impedir o renascimento do nazismo, (o sublinhado é meu), que trouxe tanto sofrimento aos povos de vários países. É necessário preservar e transmitir (...) a verdade sobre os acontecimentos da guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade e irmandade". Palavras vazias sem sentido e que contrariam as suas ações pois atua pior do aqueles que diz estar a combater.

No dia 8 de maio Vladimir Putin, por ocasião do 77º aniversário da “Vitória na Grande Guerra Patriótica”, enviou mensagens de congratulações para vários países onde declarava, repetindo qual cassete gravada, que "Hoje, o dever comum é evitar o renascimento do nazismo, que trouxe tanto sofrimento para as pessoas de diferentes países. É preciso preservar e passar aos descendentes a verdade sobre os acontecimentos dos anos de guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade fraterna".

Que valores são estes a que se refere vindos de quem agride, ameaça, causa sofrimento com falsas justificações através de uma retórica mentirosa como a de “impedir o renascimento do nazismo” quando os seus atos, práticas e discursos contradizem o que ele diz querer evitar?

A utilização de forma genérica, mas específica, das palavras nazismo e desnazificação aplicados ao caso da Ucrânia não surgem por acaso. Foram escolhidas porque ele sabe que a nível mundial, estas palavras estão ainda bem presentes nas memórias coletivas dos povos e têm uma carga muito negativa. Daí a insistência no apelo demagógico contra o renascimento do nazismo passando a mensagem de que ele é o libertador das nações oprimidas pelo nazismo.

Falar de desnazificação e acusar a NATO de ser a responsável pela agressão à Ucrânia é, pelo menos, risível. São estratégias de desvirtuar informação apontando a outros, erros, falhas, atitudes e intenções que não servem senão para ocultar as do agente emitente. Como em qualquer totalitarismo, na Rússia de Putin a desinformação, a mentira, a mentira por omissão e a deturpação de factos são a regras aplicadas ao povo.

Porém, podemos questionar em que diferem as atuações de Putin daqueles que ele diz querer libertar os povos.  Nazismo é um tipo de fascismo totalitário com forte natureza nacionalista, agravado por radicalismos racistas, étnicos e xenófobos. A Rússia do presidente Vladimir Putin é uma autocracia com uma forte componente totalitária que se estende à regulação de todos os aspetos da vida pública e privada da Rússia, conforme informações que vão chegando ao nosso conhecimento. A Rússia é governada, na prática, pelo poder de uma única pessoa política e de fação personalizado em Vladimir Putin cuja autoridade não tem limites. A Duma (câmara baixa da Assembleia Federal da Rússia), não passa de um conjunto de deputados que são uma espécie de “Yes men”, até mesmo o Partido Comunista da Federação Russa, de que irei escrever mais adiante.

Como nos regimes totalitários e no nazismo Vladimir Putin tem implementado no seu país, repressão, perseguição a opositores, censura obstinada que proíbe publicação de informação que lhe seja desfavorável tornando-a inacessível às populações, etc.. Por outro lado, Putin tem apoiado financeiramente partidos xenófobos e racistas da extrema-direita na Europa. O que é isto afinal?

Lamentável é também haver em alguns países do ocidente partidos e pessoas que, dizendo-se democratas, apoiam ditaduras e um ditador que invade um país soberano. Neste alinhamento também se encontram os que dizem estar a favor do povo e da cultura russa, o que é indubitavelmente aceitável, mas são também esses os que defendem, tipo "copy paste", o pensamento presente nos argumentos discursivos de Vladimir Putin.

Tudo isto conduz-me, mais uma vez, aos argumentos do PCP em relação à invasão da Ucrânia. Em primeiro lugar, é preciso também que se entenda o pensamento do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa que “aplaude” a decisão de Putin sobre a “intervenção militar” na Ucrânia, basta ler os discursos de Gennady Zyuganov, líder daquele partido.

Recuemos então seis anos, 2016, e recordemos o que o líder do PCP disse no discurso de abertura do XX Congresso do PCP, em Almada, acerca da União Europeia e do Euro a quem não poupou críticas por serem, segundo ele, a “fonte dos maiores males dos portugueses”. Dizia então Jerónimo de Sousa, referindo-se a um discurso feiro no Parlamento Europeu sobre o Estado da União Europeia que, segundo ele, não se tratava de "maquilhar, refundar ou democratizar" a União Europeia (UE). Nem "mudar alguma coisa para ficar tudo na mesma". Disse que os comunistas não estão aqui para isso. Querem mesmo mudar o mundo e, quanto à UE, "articular ruturas que permitam construir uma outra Europa". Isso mesmo, mudar o mundo para que lado? O que pretenderia ele dizer na altura com a construção de uma nova Europa? Seria uma espécie de premonição do que se iria passar?

Mesmo com uma pequena margem de erro é o que, atualmente, o presidente Vladimir Putin e o seu partido Rússia Unida acolitado pelo Partido Comunista da Federação Russa, têm afirmado. Cada um que tire as ilações que entender.

Recentemente as palavras de Jerónimo de Sousa também não levantam dúvidas sobre o seu alinhamento com o seu congénere da Rússia, o PCFR,  e com Putin ao considerar que não houve uma invasão nem que há uma guerra na Ucrânia causada pela Rússia, mas sim “uma operação militar” embora acrescente que o PCP “condena”.

A subtileza passa a  evidência quando se refere a “operação militar” em vez de guerra (de facto, não houve formalmente uma declaração de guerra),  mas enfileira com a retórica de Putin apesar de, como disse, ser capitalista, única verdade.

Jerónimo de Sousa, no entanto, admite, contradizendo-se, que “Há uma guerra, isso é incontornável”, e esclarece que “é claro para o PCP que estamos perante uma Rússia capitalista” da qual “o PCP claramente se demarca”, “não tendo nada a ver” com Putin. Jerónimo de Sousa é muito hábil só que, por acaso, não deve ter lido os discursos de Putin e do secretário-geral do PCFR, ou, se os leu, fez-se de esquecido.

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Vamos lá ver então se eu entendo: “não houve uma invasão”; “houve uma operação militar”; “há uma guerra e isso é incontornável”.

Analisemos então qual a aproximação das narrativas do PCP com a intervenção do líder do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, em 3 de abril de 2022 numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscou sob o tema “Temos que resistir e vencer.”, onde o líder do Partido Comunista da Federação Russa recordou a solidariedade das forças patrióticas de esquerda do mundo. A ortodoxia no seu melhor.

Gennady Zyuganov tem a certeza de que o objetivo “é derrotar o nazismo e o fascismo, caso contrário, se espalhará por toda a Europa "e muitos jovens terão que usar sobretudos". Nazismos e fascismo são palavras coincidentes nos discursos de Putin e de Zyuganov. O chefe da fação comunista afirmou ainda na Duma do Estado da Federação Russa que "Se todos nós – a Duma, o Conselho da Federação e o Conselho de Segurança – apoiamos a operação especial, devemos explicar às pessoas o que estamos a perseguir, por que é que apoiamos ativamente os que defendem fielmente o mundo russo, a nossa língua, dignidade e Donbass, e a nossa amizade com a Ucrânia."

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Em 19 de abril já tinha afirmado algo sobre a “mentalização” pró militarista agressiva dos jovens russos ao dizer que "acreditava que nas escolas e nas universidades haveria muito trabalho para explicar a situação em que todos nós nos encontramos. Mas não vejo e não sinto isso nem nas atividades de ministros, professores, diretores de escolas ou figuras culturais", disse Gennady Zyuganov.

Zyuganov chega a lembrar as palavras do presidente Putin numa reunião com jornalistas estrangeiros em outubro de 2021 onde disse, (no contexto dos problemas socioeconómicos da humanidade que pioraram e que houve turbulências em escala global) que "O modelo existente de capitalismo na grande maioria dos países esgotou-se". Zyuganov acrescenta ainda que "Olhando para Biden, esta múmia ambulante, que ameaça todos, torna-se assustadora para a América". O líder do PCFR disse ter tirado uma conclusão ao observar que a Alemanha começou novamente a apoiar o nazismo, e a França está totalmente dançando ao som americano. O segredo foi revelado, é o ódio aos EUA. É assim que as coisas começam, agressões imaginárias, ódios, seja ao que for, como etnias, raças, nações, países que servem como bodes expiatórios para justificarem agressões e perseguições. É assim o nazismo!

Zyuganov afirmou ainda que “vamos ter de lidar com todos os desafios, porque, na sua maioria, os cidadãos do espaço pós-soviético já entenderam quem é o organizador da nova agressão. E toda a conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa. "Estamos presentes no final do conto de fadas sobre o mercado, sobre o livre comércio, sobre a liberdade de expressão", continuou o líder comunista (os sublinhados são meus). Sobre política externa da Rússia Zyuganov observou ainda a importância da interação da Rússia com a China, Índia, Vietname, Irão, Paquistão e Turquia.

Terminou prometendo que “Faremos de tudo para trazer paz à Ucrânia fraternal. Faremos tudo para desenvolver a nossa união", e que "vem uma nova etapa no processo de integração. E tenho certeza de que o Partido Comunista e as forças patrióticas de esquerda estarão na vanguarda deste trabalho, preparando-se para o centenário da formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas", concluiu o líder do Partido Comunista da Federação Russa. A mensagem de agressividade deste senhor líder de um partido que fala em paz, amizade e fraternidade está patente no seu discurso no “Dia da Vitória na Grande Guerra Patriótica”.

A razão por que inclui estas passagens do discurso de Zyuganov é por que, nas entre linhas, encontram-se pontos de vista aproximados aos de Putin que o PCP parece perfilhar fazendo-o através de narrativas travestidas que não evidenciam substância e cuja conversa é apenas o que está na superfície para convencerem e apelar a potenciais adeptos.

Mais recentemente numa intervenção num comício no dia 1º de Maio de 2022 o líder do PCFR, Gennady Zyuganov, afirmou que “agora na Ucrânia, a Rússia está a lutar principalmente por um mundo multipolar. “Estamos lutando pelo mundo russo, porque o mundo russo não está nos planos deles”.

A propaganda de Putin tem conseguido ter eficácia junto dos seus agentes e adeptos no ocidente e tem como grande aliado o Partido Comunista de Federação Russa. Comparando tantas opiniões, até da esquerda, que se indignam contra a incapacidade de alguns em condenar uma agressão imperialista assinada por um regime autocrático, verifica-se de facto quem está a fazer uma “tentativa de impor, à escala do povo, um pensamento único”, na Rússia e também aqui em Portugal.

Há pessoas que parecem ser crédulas por vontade própria que se deixam contaminar por invenções demasiado extraordinárias para que sejam autênticas veiculadas pelos canais de propaganda de Putin, tais como a da necessidade de desnazificar a Ucrânia, os laboratórios onde se preparam armas químicas na proximidade da Rússia, o genocídio dos que falam russo. O que está a acontecer é que, na minha opinião, a invasão da Ucrânia, serviu para mascarar as fraquezas internas da Rússia por ele causadas. Quem nos pode garantir que os que escrevem contra o ocidente apoiando as retóricas de Putin é que estão na posse da verdade e que todas as outras são mentiras?

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publicado às 14:23

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Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.

Nas últimas semanas tem-se multiplicado uma infinidade de artigo de opinião e de comentários numa dicotomia entre os que revelam claramente estar contra a invasão e os outros, os pró Putin.

Antes de continuar, e porque parece estar a haver alguma animosidade contra os russos, devo esclarecer que nada tenho contra o povo russo nem contra a sua cultura, a minha opinião é a de estar contra as políticas de um líder autocrático e oligárquico que impôs ao povo russo uma democracia(?) iliberal belicista.

Uma democracia iliberal visa um poder executivo forte, controlando e manipulando os limites das instituições garantes da democracia tais como tribunais e outras instituições democráticas do estado. Para o justificar argumentam que essas instituições, garantes dos valores democráticos e de liberdade não possuem atribuições eleitorais e, como tal, impedem a vontade da soberania do povo. Desta forma a narrativa social é construída ganhando, assim, legitimidade dentro do cenário democrático. Sobre democracia iliberal ver aqui.

Ao escrever este texto veio-me à memória “From Russia with Love” com a tradução em português “Da Rússia com Amor”, filme de espionagem lançado em 1963 que permanece relativamente fiel ao romance de Ian Fleming, escritor britânico e autor do livro com o mesmo nome.

Questionei-me sobre o porquê deste filme surgir na minha memória. A memória recente deu-me a resposta: foi o nome do comentador Alexandre Guerreio que ouvi recentemente seguir o mesmo relato da propaganda de Putin e dos seus mandatários que podem ver aqui.

Em tempos de guerra surge sempre quem se colocam de um lado, ou de outro, dos intervenientes do conflito. Foi assim também na segunda guerra mundial quando, por estranho que pareça, também houve quem estivesse do lado III Reich, no início não só os alemães.

Instalou-se com esta guerra um conjunto de gente, felizmente pouca, antiamericana e anti NATO às quais acrescentam o seu antieuropeísmo irracional. Os apoiantes desta corrente não são recentes, agitaram-se a pretexto da invasão da Ucrânia por Putin e colocam-se do lado de um Estado que agride militarmente outro povo soberano e que o massacra. Esta é a realidade e não há argumentos que o justifiquem por mais rebuscados que sejam.

Esta gente reanima ódios antigos que vêm do tempo da URSS e da Guerra Fria que agora estão a ser aproveitados para a sua ressurreição com novos contornos. Daí as teses do PCP contra os EUA, a NATO e a União Europeia em favor da defesa das posições do Kremlin.

O colapso da URSS que foi recalcado por uma espécie de catarse saiu do seu subconsciente ideológico. A retórica da paz que proclamam, com omissões de princípio, em relação à invasão da Ucrânia, vem das palavras de Jerónimo de Sousa que vinculam o PCP e está nas críticas feitas ao governo ucraniano em linha com as de Moscovo. Ao mesmo tempo que diz apoiar o apelo “à solidariedade e ajuda humanitárias às populações”, acusa a Ucrânia de dar apoio a grupos fascistas ou neonazis, alinhando com uma das narrativas usadas por Putin para justificar a invasão daquele país.

Os argumentos recorrem a históricos condenatórios de outras guerras em que intervieram outros Estados, mas cujos contornos e circunstâncias não se encaixam com as atuais. Seria bom que o PCP em vez de falar em golpes recordasse o que se passou na Ucrânia.

Sem me alargar em história porque isso compete a outros debruço-me apenas sobre alguns factos da atualidade da última década para nos situarmos.

Yanukovych foi presidente da Ucrânia de 25 de fevereiro de 2010 a 22 de fevereiro de 2014 que formalmente rejeitou um acordo de cooperação com a União Europeia que há muito tinha sido negociado e que poderia, no futuro, fazer passar a Ucrânia a ser um dos seus membros e integrar o bloco dos 28 países. Este mesmo presidente, na mesma altura, terá recebido uma série de empréstimos oferecidos pelo governo russo de Putin iniciando um processo de aproximação política com o Kremelin. Esta situação levou a uma série de protestos no oeste da Ucrânia denominados "Euromaidan" que já tido início em 21 de novembro de 2013. Protestos públicos que evoluíram para apelos à renúncia do presidente Viktor Yanukovych e do seu governo.

Além da questão da integração com a Europa havia ainda acusações de corrupção contra elementos do governo, pró-Rússia, que também motivou os protestos.

A análise da situação concluiu que Yanukovych estaria sob pressão direta da Rússia e que o anúncio brusco de que o acordo com a União Europeia não seria assinado por os russos de Putin ameaçarem impor sanções à Ucrânia tendo sido Yanukovych chamado de urgência para um encontro em Moscovo com o presidente Vladimir Putin.

Mas voltemos à atualidade recente. O estilo fascizante de Putin está presente na organização de um comício político disfarçado de concerto no passado 18 de março do corrente que e cujo seu discurso podemos considerar como sendo para a obtenção de apoio à guerra, de exaltação patriótica e de celebração dos feitos militares da Federação Russa na Ucrânia ao velho estilo nazi.

Do meu ponto de vista há os que dizem defender a paz e ao mesmo se colocam do lado de Putin. Esses que dizem defender a paz são os que sustentam que a culpa da guerra é de outros. Sem o dizerem claramente alinham com o pensamento do presidente Vladimir Putin que, em dezembro de 2021, lamentou o colapso da União Soviética há três décadas a que ele chamou "Rússia histórica", conforme noticiou na altura a agência Reuters.

Os comentários de Putin, em tempo divulgados pela TV do Estado Russo (RT-Russia Today), terão provavelmente alimentado ao que chamaram especulação sobre as suas intenções em política externa que os críticos internos, (não sei se hoje ainda existem), aproveitaram para o acusar de projetar a recriação da União Soviética e de contemplar um ataque à Ucrânia, ação que na altura o Kremlin de Putin considerou como sendo ousada.

 Não há dúvida de que a Rússia de Putin é uma democracia iliberal autocrática tendencialmente expansionista que parece estra a pretender provocar uma crise idêntica à que a Alemanha Nazi colocou em prática em 1938. Há mesmo quem chame a Putin czar e o compare a Stalin e a Ivan, o Terrível, quando na Polónia em 2009 falavam de Putin.

Escrevia-se então em setembro de 2009 aquando das comemorações do início da Segunda Guerra Mundial em Gdansk que “Putin passou a última década a procurar restaurar a grandeza russa, em parte através da reabilitação de Josef Stalin e a encorajar uma narrativa heroica e nacionalista dentro do país”.

Estas afirmações são preocupantes pela tentativa de recuperar um passado tenebroso utilizando táticas semelhantes através da utilização de armamento mais sofisticados e com novas estratégias.

Há um erro quando se pensa que a Rússia, em 1939, trouxe a liberdade à Europa central. Estaline atraiçoou a Polónia depois da invasão nazi invadindo-a pelo Leste. Hoje as ambições imperiais de Putin continuam a ser um perigo, como foi demostrado pela guerra contra a Geórgia em 2008.

Foi em Gdansk onde começou a invasão da Polónia pela Alemanha de Hitler.  No dia 1 de setembro de 1939 iniciou uma guerra de seis anos. A Polónia foi dividida em 1939 pelas tiranias gémeas de Hitler e Estaline e foi onde ocorreu o assassinato em massa de judeus no Holocausto nazi e terá sido o principal alvo de campanhas de propaganda concertada russa do Kremlin.

Relativamente à Ucrânia podemos supor que todas as tentativas para chegar a um acordo de paz com Putin serão do ponto de vista moral do direito internacional e do ponto de vista prático e político serão infrutíferos, prejudiciais e perigosos tal e qual o foram todas as tentativas de apaziguar as nazis realizadas entre 1934 e 1939 ao fazer vários acordos e pactos que resultaram em fracassos e não foram respeitados.

Elísio Estaque, sociólogo, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra escreveu num artigo de opinião mo jornal Publico que “O facto de a NATO ter sido criada como força de oposição à URSS num contexto de Guerra Fria, de profunda divisão ideológica no mundo ocidental (capitalismo versus socialismo), associado à imagem do exército soviético no pós-guerra, visto como força libertadora no confronto contra a Alemanha nazi, contribuiu para perpetuar a simpatia das “vanguardas” com a “pátria do socialismo” durante décadas. Desde a Revolução de Outubro, com Lenine e Trotsky, passando por Estaline, Krushtchov, Brejnev, etc, mesmo após a implosão do regime, muitos continuaram a ver no poder russo a força capaz de se opor aos EUA, o locus do poder hegemónico num mundo unipolar.

Na sua cegueira dogmática já veem nesta guerra as trombetas a anunciar o fim do capitalismo ocidental e a consequente queda do império americano.

Fazer comparações com outras ações belicistas da NATO, no passado, ou apresentar contabilidades da mortandade em várias outras latitudes que não a Europa, são de uma insensatez intolerável. Nenhuma ação bélica desta natureza pode ser relativizada, seja onde for e por quem for”.

Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.

Há quem esteja com uma venda nos olhos espreitando por alguns orifícios causados pelo desgaste ou que não queira ver por néscia teimosia, e menos por ignorância, e que, por isso, insistem na retórica discursiva do prisioneiro inocente que se defende dizendo que foram outros que o quiseram tramar. 

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publicado às 19:14

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Consideram-se deuses na terra, abençoados por Deus ou, ainda, profetas conduzidos por Deus para salvarem o povo. Donald Trump insere-se ele próprio neste perfil para poder iludir o povo dos Estados Unidos da América e os evangélicos dão-lhe também uma mãozinha.

Numa peça de reportagem televisiva após ele ter saído do hospital onde presumivelmente terá estado ou ainda está com a covid-19 ouve-se alguém, uma voz de homem a gritar vivas a Tump e a dizer “eu dava a vida por este homem!”. A onde chegou o povo e o desespero que leva os homens a acreditar em algo tão abjeto.  

A presidência de Donald Trump nos Estados Unidos da América tem sido, e ainda é, um pesadelo para a maioria real dos cidadãos americanos. Foi, de certo modo, um choque social explorado para obter vantagens sobre uma população desorientada pelos discursos populistas de quem escolheram para os liderar.

Em livros, documentários, artigos de opinião, notícias factuais e reportagens de investigação podem observar-se várias tendências como imposição de marcas, ascendência e influência de grandes fortunas sobre o sistema político e imposição global do neoliberalismo servindo-se do racismo e do espetro do medo do “outro”, causador da insegurança.

Trump é uma espécie

 

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publicado às 19:28

Sacudir a água do capote

por Manuel_AR, em 12.07.13


 


O Sr. Presidente da República criou uma autêntica balbúrdia com a sua comunicação ao país. Foi evidente a sua desresponsabilização do problema político que ele, indiretamente, ajudou a criar, apoiando um Governo cheio de lacunas e contradições. O que está e causa é ele próprio e não o país. A imagem dele acima de tudo.


Mas o mais grave é que, agora, pretende que os partidos intercalares do poder, (detesto arco da governação), por artes mágicas se juntem e encontrem uma alternativa talvez, no pensamento dele, uma espécie de “União Nacional” que agora designa por salvação nacional. Compreende-se, à medida que envelhecemos, e ele conta 73 anos, devido a problemas da memória de curto prazo começamos a virar-nos para o passado. Isto é, a partir dos 40 anos de vida começamos a esquecer-nos de ocorrências do presente mais recente, mas o que se refere ao passado longínquo volta a estar mais presente.


O Presidente da República esqueceu-se de que o Governo que tanto têm apoiado tem progressivamente vindo a cair na desgraça. Disto Passo Coelho, Miguel Relvas e também Vítor Gaspar são os grandes responsáveis. Não tanto pela austeridade, contra a qual a maior parte do portugueses tem vindo a reclamar, mas que aceitavam se fossem mobilizados com discursos de coesão e não de divisão.


Aqueles referidos senhores resolveram entrar por um processo divisionista, como já várias vezes tenho escrito, lançaram jovens contra cidadãos com emprego, acusaram os que o tinham como estando numa zona de conforto, lançaram jovens contra velhos, setor privado contra setor público, alimentaram rivalidades dentro do próprio setor público, criticaram os jovens porque não emigravam, desdenharam as organizações profissionais aceitando-os apenas, e quando, iam de encontro aos seus objetivos perversos e toda uma sucessão de material verbal de idêntico valor. Linguajar como este, como a já tão falada “peste grisalha”, entre outros disparates ofensivos sobre cidadãos. Não é de admirar que toda esta panóplia emergisse da ala mais neoliberal, com laivos nazificantes, que se infiltraram no PSD.


Vem agora o Presidentes da República sacudir a água do capote e pedir aos partidos para se entenderem, querendo envolver o PS, marginalizando outros partidos. Só se o PS estiver com instintos suicidas!


Agora que o PSD e o CDS, (este por arrasto), não sabem o que hão-de fazer, quer o Sr. Presidente de alguns portugueses, que outros venham ajudar a resolver os problemas que ele e os seus partidos criaram. Depois estamos mesmo a ver o que poderá vir a acontecer. Se correr mal, vocês também lá estiveram. Se correr bem, o que é duvidoso, fomos nós que conseguimos.


Presidentes assim há só há este e mais nenhum!

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publicado às 19:10

Geronto-nazismo

por Manuel_AR, em 24.05.13

 



A intolerância, a perseguição e a discriminação de quaisquer grupos específicos seja por motivos rácicos, políticos ou outros entram no campo da ideologia neonazi. A estes movimentos neonazis são atribuídos crimes que, em certos casos, se podem classificar como genocídios. Apenas como curiosidade veja-se apenas um pequenino extrato da doutrina nazi: “… algumas culturas… eram vistas como parasitária ( Subhumans ), principalmente judeus, mas também ciganos, homossexuais, deficientes e os chamados antissociais, os quais foram considerados lebensunwertes Leben (indignos da Vida), devido à sua deficiência percebida e inferioridade.” A isto faltaria, talvez, acrescentar os idosos.


 


Há um aumento generalizado da extrema-direita na Europa ao qual as notícias em Portugal não têm dado muita relevância a não ser por altura de eleições ou quando há sondagens em alguns países europeus como, por exemplo, em França com o crescimento do partido Frente Nacional da extrema-direita. Nem sempre alguma direita radical estará conotada com os movimentos neonazismo mas, na sua maior parte, muitos destes grupos formados essencialmente por jovens têm vindo a infiltrar-se naqueles partidos mais à direita. 


 


Uma eurodeputada holandesa do grupo dos Socialistas e Democratas afirmou à Euronews que “Estes grupos antigamente marginais estão a crescer cada vez mais. O que é assustador é o facto de os partidos de direita se apropriam desse discurso e o colocam em prática”.


 


Em Portugal, nos últimos meses, o Governos e os seus apoiantes têm fomentado uma animosidade relativamente ao vasto grupo de idosos reformados e pensionistas. As abordagens neonazis podem começar, por exemplo, com afirmações como as do deputado do PSD, Carlos Peixoto, (para quem não o conhecer basta clicar no nome), ao dizer ou escrever que: “A nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha." E acabou assim: "Se assim não for, envelhecemos e apodrecemos com o País.". É este o pensamento de um deputado do PSD. Digam-me se isto tem ou não contornos de um neonazismo que, com mais propriedade, qualifico com um novo léxico: geronto-nazismo.


 


A exaustão pela asfixia financeira dos idosos, obrigados a descontar, enquanto no ativo, durante dezenas de anos para terem direito a uma reforma proporcional aos seus rendimentos, não se verifica somente pela obrigação de descontos para o IRS (coisa nunca vista em nenhum país), taxas especiais de solidariedade (inversão dos fatores!), cortes nas reformas e outras que seguirão, levando ao empobrecimento progressivo. Acresce a tudo isto o aumento do IMI, das rendas de casa, da eletricidade, do gás, da água, dos transportes, dos bens de primeira necessidade que, para quem defende tudo isto, acham que são supérfluos, mesmo a alimentação. Até parece que se pretende que este grupo social já não precise de se alimentar convenientemente para morrem mais rápido. É este o pensamento de quem nos está a governar e que, por lapso, muitos colocaram no poder porque fizeram crer que iriam salvar os portugueses, sabe-se lá de quê, e cada vez mais os afundam sem retorno.


 


Pretendem os que nos governaram e governam, assim como certo capital financeiro, colocar a culpa do infortúnio da situação portuguesa sobre os reformados, isentando-se das causas que nos conduziram a esta situação.   


 


São jovens (pelos quais tenho e sempre tive muita estima visto que também sou pai e professor) são agora a classe suprema e especial que se deve sobrepor a tudo e que se incentivam a culpabilizar os mais velhos por serem os causadores do desemprego dos jovens, entre outro disparates, como em tempo disse um senhor que, bem-vinda a hora, já saiu do Governo, para provocar divisões e rutura na coesão social.


 


Os senhores que defendem aquele tipo de ideias, não vão com certeza encontrar a fonte da eterna juventude, mas saberão na altura, quando chegar a vez deles, tomar medidas para se protegerem.


 


A tudo isto resta apenas acrescentar o que alguns poderão estar a pensar: Temos que arranjar para os velhos uma solução final, natural e subtil, através da exaustão por asfixia financeira até à morte, porque não polui o ambiente.

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publicado às 22:23

A política dos bodes expiatórios

por Manuel_AR, em 17.04.13


 


De acordo com a religião judaica um “bode expiatório” era um animal que, depois de um ritual religioso, era abandonado à sua sorte na natureza selvagem levando os pecados da humanidade. Para o cristianismo o bode expiatório foi Jesus Cristo que expiou os pecados da humanidade sacrificando-se, pela morte, para a salvar dos pecados.


Em sentido figurado, que é aquele a que nos iremos referir, um “bode expiatório” é alguém ou um grupo que é escolhido, por vezes sem qualquer critério, para levar com as culpas de calamidades ou acontecimentos negativos sobre os quais não teve influência ou esta é reduzida.


A procura de um bodes expiatórios é um ato propagandístico e irracional que atribui a uma pessoa, grupo ou instituição, a responsabilidade de problemas que por eles não foram criados. A procura de bodes expiatórios faz parte de propagandas políticas cujo caso mais evidente que é conhecido se deu no tempo do nazismo em que os judeus eram considerados os responsáveis pelos problemas económicos e desintegração do sistema político na Alemanha.


Tudo isto vem a propósito porque os nossos atores políticos, mais concretamente os que se encontram atualmente no Governo e os seus apoiantes são useiros e vezeiros em procurar bodes expiatórios para os seus falhanços e, quando os encontram repetem-no até à exaustão.


O primeiro é o refúgio no passado desculpando-se com a herança da dívida e do défice do governo anterior. Embora haja razões para tal foi o PSD que derrubou o Governo de Sócrates, assumindo a responsabilidade de “salvar o país” e retirá-lo da crise.


O segundo, foi atribuir a responsabilidade da crise aos portugueses que se endividaram e gastaram acima das suas possibilidades.


A Constituição da República é outro bodes expiatórios que é um obstáculo ao desenvolvimento económico e não deixava que as reformas estruturais, diga-se cortes, fossem feitos.


Vieram depois os funcionários públicos, os reformados e os pensionistas como bodes expiatórios. Baseados em dados de origem e cálculo duvidoso são culpados da crise devido a auferirem rendimentos elevados (?) e que, por isso, havia que serem objeto de cortes de rendimentos para reduzir a despesa do Estado e o défice. O bode expiatório função pública que, para o Governo como causadora do aumento de impostos foi ainda utilizado para lançar trabalhadores portugueses do privado contra os do público.


Com o orçamento de 2012 foi o Tribunal Constitucional o bode expiatório das derrapagens no mesmo ano apesar de, relativamente aos pontos do orçamento considerados inconstitucionais, o TC possibilitasse que se mantivessem os cortes naquele ano.


A moção de censura do Partido Socialista foi também um potencial bode expiatório para justificarem a perda de credibilidade dos mercados e das avaliações da “troika” que eventualmente se verificasse.


Mais recentemente, e mais uma vez, o bodes expiatórios foi o Tribunal Constitucional por ter considerado a inconstitucionalidade de alguns dos pontos do orçamento de 2013. Repare-se que deveria ser obrigação do Governo saber à partida o que poderia ou não ser inconstitucional no orçamento. Quando não se sabe pergunta-se! Mas é mais fácil culpabilização de outros para se justificarem os falhanços das políticas aplicadas.


Mais recentemente foram os bancos, nomeadamente a Caixa Geral dos Depósitos que já foi objeto de ameaças, os bodes expiatórios por não financiarem a economia, o que já foi desmentido. Não há falta de financiamento, há é falta de investimento.


Sistematicamente, este Governo usa e abusa de bodes expiatórios para desculpar as suas incompetências e incapacidades na resolução de problemas que herdou porque quis ao derrubar o seu antecessor e, para além disso, criou outros e agravando tudo o que dizia tencionar melhorar.


Quando não conseguem arranjar bodes expiatórios apontam-se fantasmas para atemorizar. Um dos muitos fantasmas que agora acena-se com um segundo resgate e, consequente, mais austeridade. Podemos não estar longe disso, mas, se tal acontecer, a responsabilidade é apenas de Passos Coelho e do seu Governo que não conseguiram como prometeram, minimizar os efeitos do défice e crise.

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publicado às 22:00


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