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Que tipo de potência quer ser a Rússia?

por Manuel_AR, em 14.07.22

A gravidade dos incêndios tem feito passar para segundo plano a guerra na Ucrânia nos alinhamentos dos jornais televisivos. Ela no entanto continua presente no terreno e nos pensamentos. Recordo aqui um artigo que Teresa de Sousa escreveu em agosto de 2018, publicado no jornal Público, que se mantem atual face à vontade de Putin para reverter todo o processo que terminou com a Guerra Fria e com a União Soviética e até que ponto Donald Trump o tem ajudado.

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A Rússia é uma potência do século XX

 que ainda não se adaptou ao século XXI

Um artigo de Teresa de Sousa

In jornal Público, 19 de Agosto de 2018

O que quer e o que pode Vladimir Putin? A resposta, difícil, provoca algumas insónias aos europeus. Donald Trump não ajudou.

  1. À primeira vista, dir-se-ia que a vida tem corrido bem a Vladimir Putin. Conseguiu transformar a Rússia de potência decadente em potência “emergente”, com direito a figurar nos BRICS. Há dez anos, pelo menos, que desafia o Ocidente, infringido as leis internacionais, ignorando fronteiras e ocupando parte de dois países independentes: primeiro a Geórgia, depois a Ucrânia. Não esconde a sua política “revisionista” da ordem internacional para reconquistar as “zonas de influência” da União Soviética, perdidas depois da derrota na Guerra Fria. Encontrou recentemente no líder da única superpotência que resta uma “alma gémea”, cujo objectivo é entender-se com ele, apesar das crescentes resistências internas nos EUA. A cimeira de Helsínquia, há um mês, correu-lhe de feição, apresentando-se ao lado de um homólogo americano desejoso de agradar-lhe, ao ponto de o desresponsabilizar pela interferência, mais do que provada, nas presidenciais americanas de 2016. Fez-lhe o favor não mencionar a Ucrânia ou a Crimeia. O seu objectivo é um entendimento com o Presidente americano por cima da “cabeça” da Europa que tenta, constantemente, dividir, para recuperar a influência sobre a sua parte Leste, da qual ainda não desistiu. Conseguiu colocar um pé firme no Médio Oriente e no Mediterrâneo, graças à guerra na Síria, salvando o regime assassino de Damasco e preparando-se para ficar. Apresentou ao mundo, no Mundial de futebol, um país organizado, capaz de levar a cabo sem problemas (visíveis) nem incidentes um campeonato desta envergadura, aproveitando uma plateia de milhares de milhões de espectadores.

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Foto Thomas Peter/REUTERS

Mas a cerimónia final do Mundial, no pódio instalado no centro do relvado, onde Putin, Emmanuel Macron e Kolinda Grabar-Kitarovic recebiam os jogadores e distribuíam as medalhas, revelou uma anomalia. De um lado, um Putin rígido, apesar do sucesso; do outro, dois Presidentes eufóricos, alegres, descontraídos, capazes de tirar todo o partido da vitória da França e do honroso segundo lugar da Croácia. De repente, uma bátega de água ameaçou estragar a festa. Os guarda-costas de Putin abriram imediatamente um chapéu-de-chuva para protegê-lo, sem a mínima intenção de fazer o mesmo aos outros dois Presidentes, indiferentes à chuva e sem guarda-costas, mantendo a euforia. A imagem era forte: dois mundos muito distantes habitaram por um momento o grandioso estádio de Moscovo.

  1. A vida corre bem a Vladimir Putin? E com que consequências para o Ocidente, até agora incapaz de evitar duas invasões a países independentes na sua fronteira Leste? Um deles, aGeórgia, queria afastar-se da influência de Moscovo e aproximar-se da União Europeia e da NATO. Foi invadida em Agosto de 2008 pelas tropas russas, alegadamente para defender as minorias russas que viviam na Abkhazia e na Ossétia do Sul. Na altura, ninguém queria imaginar o cenário com que a Aliança se depararia no caso de a Geórgia ser membro da NATO. O cenário contrário também podia ser verdadeiro: se fosse, Putin teria invadido? Era este o dilema ocidental.

A Ucrânia já foi outro caso, embora com o mesmo objectivo: expandir a influência russa e testar a reacção europeia e americana. Em 2008, Putin ainda via a NATO como o verdadeiro inimigo. Em 2014, já tinha percebido que a União Europeia, apesar de desarmada, tinha um efeito de atracção praticamente irresistível. Quando, em Dezembro de 2013, o governo pró-russo de Kiev se preparava para assinar um Tratado de Associação com a União Europeia, Putin pura e simplesmente proibiu-o. Não tardaram as manifestações na Praça central de Kiev e, depois, nas outras praças e nas outras cidades do país, contra a interferência de Moscovo.

O Presidente ucraniano fugiu para Moscovo. O pretexto para a intervenção russa teve semelhanças com a Geórgia. A população de língua russa que vivia na parte Leste da Ucrânia, a velha região industrial, mais longe do sonho europeu, precisava de protecção. Seguiu-se a anexação da Crimeia, violando todos os acordos estabelecidos depois da Guerra Fria.

A base naval russa de Sebastopol, em águas quentes do Mar Negro, continuava a ser fundamental para a estratégia expansionista do Kremlin. O facto consumado desencadeou uma reacção que não estava nos cálculos do Presidente russo. Foi a única coisa que lhe correu mal. A Europa decretou sanções logo em Março de 2014, que foram sempre em crescendo.

A queda do voo MH17, com 300 passageiro a bordo, saído de Amesterdão, derrubado por um míssil de proveniência russa disparado da Ucrânia foi a gota de água que pôs fim a quaisquer hesitações europeias. Uma linha vermelha tinha sido ultrapassada. Berlim e Paris conseguiram reunir à sua volta a maioria dos parceiros europeus para organizar a reacção.

Seguiram-se as negociações dos acordos de Minsk que Putin, até hoje, não cumpriu. Os europeus mantiveram-se unidos. As sanções têm vindo a ser sistematicamente renovadas. Os “amigos” de Putin que, entretanto, ganharam terreno na Europa, não fizeram ondas. O Presidente russo não contava com a união da Europa, como não contava com uma coordenação sem falhas entre Berlim e Washington. Obama liderou a resposta. A Rússia ficou isolada internacionalmente. As sanções doem na economia. Mas têm, como sempre, um duplo efeito: alimentam o discurso nacionalista conta a agressão ocidental, ao qual os russos são ainda sensíveis. 

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Foto Rebeldes pró-russos do Leste da Ucrânia, em 2014 Marko Djurica/REUTERS

A eleição de Donald Trump acabou por ser uma inesperada prenda para Vladimir Putin. Mas realidade ainda não traduz o seu efeito. O Congresso americano decidiu há dias aplicar novas sanções no domínio da tecnologia militar, em resposta ao “caso Skripal”, do envenenamento de um ex-espião russo com o recurso a um agente químico considerado uma “arma”, em território britânico. Washington vendeu armas a Kiev. O Pentágono aumentou o financiamento da presença militar dos EUA nos Bálticos e na Polónia, em conjunto com as forças da NATO, para prevenir qualquer tentação de Moscovo.

  1. O Guardian publicava recentemente uma opinião da reputada especialista francesa da Rússia, Marie Mendras. Vale a pena olhar para o que escreveu. “A narrativa do Kremlin assenta na noção de uma Rússia ‘patriótica’ superando constantemente uma oposição minúscula, desprezada como uma “quinta coluna” criada e manipulada por forças externas”, diz a académica francesa. Para avisar: “É tentador para os observadores externos adoptar esta visão a preto e branco, na qual o líder é dominador e admirado, enquanto os que duvidam dele são uma excepção.”

Na realidade, continua Mendras, “há três Rússias”. A primeira é a de Putin, “construída sobre uma estrutura de poder oligárquica e uma massiva máquina de propaganda.” A televisão é totalmente controlada. A segunda “são os cidadãos normais, com as suas muitas facetas mas também os seus problemas comuns”. A terceira, finalmente, “são as elites profissionais e a classe média alta, que beneficiaram do boom económico dos anos 2000 e que agora têm muito a perder”.

É uma boa descrição. A esmagadora maioria dos 140 milhões de russos preocupa-se com a queda do nível de vida, a quebra de qualidade da saúde e da educação, a insegurança e a corrupção. Os protestos, diz Mendras, são frequentes. “A situação de Putin é, de facto, o problema clássico que muitos líderes autoritários enfrentam”, conclui a académica. “Precisa de exibir legitimidade popular para convencer o seu próprio círculo próximo, bem como rivais potenciais, de que é invencível e insubstituível”.

Outro dado interessante é a imigração crescente das classes profissionais, sobretudo para a Europa, ainda que sempre com vontade de regressar. Se as coisas se complicarem internamente, a tentação será de “aumentar a repressão” interna, o que apenas alimentar a resistência. “Em última análise, a demanda do poder mundial pode não ser suficiente para unificar uma sociedade fragmentada e as suas várias elites à volta de um homem forte.” É difícil de acreditar que Putin venha a optar pela outra vida possível: a liberalização do regime. 

Há outra versão da história recente da Rússia e da culpa ocidental. George Friedman, reputado geopolítico que já dirigiu a Stratfor, dava recentemente outra visão muito mais crítica da “incompreensão” dos “liberais ocidentais” da história e da geografia do grande país de Leste. É uma visão bastante em moda em alguns meios intelectuais europeus, que vêem em Putin um notável estratego e tendem a não considerar relevante a questão da democracia.

Friedman acusa o Ocidente de um erro de raiz: “O problema é que os reformadores liberais vêem a Rússia e outros países como nações desejosas de serem como eles. É uma forma de narcisismo ocidental que conduz a uma incompreensão do mundo”. A sua frase mais reveladora: “Se Putin tivesse sido atropelado por um carro em 2000, teria sido substituído por outro Putin, com outro nome”. Tudo teria sido igual.

Os limites da tese são óbvios. Basta um exemplo dos cem que vêem ao espírito. Se Winston Churchill tivesse sido atropelado em 1940 em Picadilly Circus, a História não teria sido igual. A União Europeia foi, ela própria, a vitória dos valores políticos contra a geografia e a história. O raciocínio ocidental era mais elaborado: a ideia de que todos os povos do mundo tinham direito a viver em democracia. A polémica dura até hoje, embora cada vez mais a desfavor dos que continuam a considerar os valores ocidentais como universais. A crescente “desuniversalização dos valores e das normas das democracias ocidentais” é uma realidade, escreve Bobo Lo, do Institut Français des Relations Internationales (IFRI), de Paris. Trump deu uma forte contribuição, deixando as potências ocidentais sem um instrumento que foi estruturante da sua política externa.

  1. Também para Putin o caminho não é fácil. Alguns dados económicos ajudam a relativizar a sua força. O PIB da Rússia é inferior ao italiano, embora já tenha sido igual ao holandês. O país continua a depender de uma só fonte de riqueza: o petróleo e o gás natural. A modernização da sua economia depende do investimento estrangeiro ocidental, posto em reserva pelas sanções e pelas incertezas internacionais. Há já alguns anos, Chris Patten, último governador de Hong-Kong e actual reitor de Oxford, numa entrevista ao PÚBLICO, respondia com outra pergunta à pergunta sobre a economia russa: “Tem em casa alguma coisa a dizer made in Russia?”.

O caminho da China é oposto. E o petróleo é, cada vez menos, uma “arma”. Putin teve a vida facilitada quando o crude esteve acima dos 100 dólares por barril. Tentou a arma energética, em 2006, quando fechou a torneira do gasoduto que abastece a Ucrânia, para mostrar à Europa (sobretudo à Alemanha) o que lhe poderia acontecer num Inverno rigoroso. Desde então, os europeus trataram de diversificar as suas fontes de abastecimento. Os especialistas lembram que, sobretudo nos países do Sul, foram construídos portos para receber o gás liquefeito importado da América. Hoje, a própria Alemanha está a construir um. Trump está muito interessado no negócio. 

Amy Myers Jaffe, do Council on Foreign Relations, refere que, em Helsínquia, “Putin lembrou ao Presidente americano que ‘nenhum dos dois está interessado na queda dos preços do petróleo.’” Os EUA são hoje praticamente auto-suficientes em matéria de energia. Querem aumentar as exportações. Os gigantes russos, como a Rosneft e a Lukoil ou a Gazprom vêem-se obrigados a investir em países de grande instabilidade política como o Irão, Venezuela, Líbia ou o Iraque, correndo um risco elevado, chama à atenção a mesma analista. A realidade e sempre mais complicado do que parece. 

O que pode afinal Vladimir Putin? “Em muitos aspectos, a Rússia é uma potência do século XX a lutar por adaptar-se às realidades do século XXI”, escreve Bobo Lo. Mantém um gigantesco arsenal nuclear. Não consegue intimidar os EUA, nem sequer a China. O seu futuro não está determinado.

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publicado às 12:28

A longa guerra pelo futuro está para começar

 Editorial de Manuel Carvalho

in jornal Público, 11de Julho de 2022

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Os autocratas russos vão certamente reprimir todos os sinais de descontentamento da sua população. As democracias europeias terão outras dificuldades.

A Rússia está cada vez mais perto de conseguir os seus objectivos militares na Ucrânia. Já não está em causa a queda do Governo de Volodymyr Zelensky e a sua substituição por um executivo fantoche manipulado pelo Kremlin, como a primeira fase da “operação militar especial” indicava. Como revelou sem qualquer pudor o embaixador de Moscovo em Londres, a Rússia parece para já ficar contente com o controlo de um quinto da área actual da Ucrânia.

O que está em causa é o controlo do Donbass, a zona mais rica em matérias-primas, na produção industrial e na agricultura, e um corredor junto ao mar Negro que garante a continuidade territorial da Rússia até à Crimeia. Mas não é de afastar a possibilidade de Moscovo levar as suas conquistas até ao Dniepre, como aconteceu quando o país foi partilhado com a Áustria-Hungria, até ao final da I Guerra Mundial.

Se a Ucrânia for amputada de uma parte substancial dos seus territórios históricos, a Europa estará condenada a viver uma longa era de Guerra Fria. A ocupação jamais será aceite por Kiev, pela União Europeia e, em geral, pela NATO. As sanções vão perdurar, a militarização da fronteira Leste da Europa será acelerada e a Rússia tenderá a cortar os abastecimentos de energia ao Ocidente.

Como nos anos duros do pós-guerra, a ameaça russa tenderá a reforçar o projecto europeu. Mas, sejamos realistas, a eventualidade de o conflito actual se perpetuar num jogo de nervos não augura nada de bom. O que acontecer nos próximos meses, principalmente no Inverno, permitirá antecipar com maior nitidez os desafios com os quais a Europa terá de lidar.

Se os custos das sanções e o corte nos abastecimentos de gás à Europa vão agravar as debilidades económicas da Rússia e submeter a sua população a maiores privações, sabemos também que os europeus terão de sofrer um agravamento das suas condições de bem-estar. As restrições no consumo de gás vão gerar dificuldades numa população habituada a enfrentar as agruras do Inverno com a energia vinda da Rússia. E os impactes na economia de países como a Alemanha, onde o gás é essencial para a produção industrial, estão ainda por avaliar.

É neste confronto que residem todas as incertezas. Os autocratas russos vão certamente reprimir todos os sinais de descontentamento da sua população. As democracias europeias terão outras dificuldades. Uma crise económica longa e o agravamento das condições de vida são ameaças capazes de estimular soluções autoritárias e extremistas. A guerra pode ficar em suspenso na Ucrânia, mas as suas consequências imprevisíveis serão determinantes para o futuro próximo.

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publicado às 09:40

Editorial

Publicado no jornal Público

27 de Junho de 2022

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Manuel Carvalho

Os novos sinais de perigo que chegam da Ucrânia

O tirano que é capaz de bombardear civis ou que encolhe os ombros perante a ameaça de uma impensável crise alimentar mundial não pensa nem actua num quadro mental em que entra a razão, a emoção ou a humanidade.

A brutalidade da invasão da Rússia continua a exigir mais do que a destruição de cidades. A satisfação dos tiranos do Kremlin não se garante com os combates na frente, o cerco dos inimigos, o bombardeamento táctico ou estratégico de alvos militares. Precisa do terror para se alimentar. Precisa de bombardear centros comerciais povoados por gente normal para mostrar músculo e manter a Ucrânia e o mundo sob ameaça. Se uma potência média resiste desde Fevereiro aos ataques do gigante, a sua punição e a dos que a apoiam têm de se pagar com a barbárie.

Nos últimos dias confirmaram-se as piores expectativas. A mão imperialista que domina o Kremlin e subjuga a Rússia não se contenta apenas com a conquista e a anexação do Donbass. As suas forças militares estão exangues, o seu papel na alta finança mundial está esgotado, mas enquanto houver gás, armas, propaganda e intimidação, Putin não vai parar. Pode haver fome generalizada nos países mais pobres, a Ucrânia pode ficar ainda mais devastada, o isolamento da Rússia no continente onde gosta de ser potência há 300 anos pode adensar-se, mas neste cenário de horrores só parece sobrar a fuga para a frente.

Faz por isso todo o sentido que a NATO e as democracias ocidentais se preparem para o pior. Que agravem as sanções, que reforcem a ajuda à Ucrânia, que tratem de aumentar a sua capacidade de resposta militar rápida para 300 mil homens. O tirano que é capaz de bombardear civis ou que encolhe os ombros perante a ameaça de uma impensável crise alimentar mundial não pensa nem actua num quadro mental em que entra a razão, a emoção ou a humanidade.

A Rússia é hoje muito mais do que nos primeiros dias do conflito uma ameaça para a Europa. A firmeza da resposta ocidental surpreendeu e irritou a fera. O Donbass já não basta. Os receios do envio de tropas para Kaliningrado ou para a fronteira entre a Lituânia e a Bielorrússia ganham consistência. Zelensky quer acabar a guerra até ao final do ano, mas nada nos garante que a Rússia, movida pelo superávite do gás e do petróleo, esteja disposta a aceitar uma meia vitória ou uma meia derrota. A megalomania é uma marca dos déspotas.

No entorpecimento que o tempo começa a causar, convém estar atento. Vivemos o momento mais dramático da história europeia desde a Segunda Guerra, e o cenário pode piorar. A unidade da Europa e da NATO e a certeza moral de que o Kremlin de hoje é uma ameaça à paz e à democracia são dos poucos trunfos de que dispomos para manter o optimismo.

 

 

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publicado às 16:21

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A necessidade de protagonismo é uma praga que, cada vez mais, atinge e se estende a vários grupos sociais e a pessoas da política e fora dela. Utilizam todos os meios convencionais que têm ao dispor para alcançar esse objetivo e, falhado esses, são as redes sociais o seu meio preferencial.


A política não tem sido parca a esse fenómeno, nomeadamente os populistas de extrema-direita e também, em menor escala, a extrema-esquerda, cada um à sua maneira, que têm começado a ter cada vez mais protagonismo. Será este um dos males trazido pela exigência com que os mentores da mais e melhor democracia nos têm invadido como se a que temos já não chegasse? Os resultados, mascarados com a mais democracia, começam a ser visíveis na Europa e no resto do mundo.


 A temperatura das manifestações sociais espontâneas ou manipuladas por vários grupos extremistas tem subido em vários locais do mundo prevendo-se temperaturas muito mais extremas provindas de fenómenos políticos atípicos.


Justificadas por várias causas, quer remotas, quer próximas, com diferentes virulências e motivações específicas, estão a verificar-se conturbações e crispações sociais em várias nações. No Líbano, no Iraque, em Hong Kong, em Paris, Londres Barcelona entre outras. A estas vieram acrescentar-se recentemente e agora com mais vigor as lutas em prol do ambiente.


Todos parecem estar empenhados, negros, brancos, várias etnias e religiões, árabes, asiáticos, homens, mulheres ou crianças. Nesses países as palavras de ordem são semelhantes. Seja em castelhano, inglês, árabe ou qualquer outra língua, é surpreendente a semelhança dos cartazes e das palavras de ordem.


Nenhum dos protestos pode ser reduzido a uma só questão nomeadamente a económica. Muitos dos protestos desencadeados por indivíduos ou grupos que se distinguem pela violência e pelo alimentar do medo nas populações a forma de serem ouvidos e colocados nas primeiras páginas do jornais e aberturas da informação televisiva. E os noticiários televisivos dão-lhes cobertura e relevância porque o medo e a violência compram audiências.


As consequências destes movimentos inorgânicos ou organizados, alguns pouco democráticos demonstrado pelas suas atuações violentas, são a satisfação das exigências e a cedências às suas reivindicações feitas pelos governos. Mas, mesmo com a satisfação das exigências esses movimentos continuam com os protestos.


O que aparentemente desencadeia as manifestações com consequente violência desenfreada nas ruas é normalmente a pretexto de alguma coisa de concreto, como por exemplo a lei da extradição num território (p.e. Hong Kong), o aumento de preços dos combustíveis num lado, o custo de vida no outro, as prisões ditas políticas aqui, as desigualdades ali. São algo de concreto, mas são motivos que apenas servem para disfarçar outras realidades ainda ocultas, disseminadas, mas em estado mais do que embrionário prontas a emergir em qualquer momento. Os geradores destes embriões, os que os alimentam, não se conhecem exatamente quem são, mas andam por aí dispersos.


Todas estas manifestações já são mais do que isso, são insurreições, são o caldo de cultura virulenta que pode conduzir aos populismos e totalitarismos, soluções que muitos acham que poderão resolver o objeto do descontentamento.      


Coincidência, ou não, o crescendo da turbulência que já tinha sido semeada agravou-se com a política de desorientação, desvario e confusão resultante da eleição de Donald Trump nos EUA.


 A direita, e sobretudo a extrema-direita, mais do que a esquerda, têm nas redes sociais uma rede de gente cuja missão é a desinformação, a difusão de propaganda e notícias falsas de forma a descredibilizarem, as instituições democráticas e os políticos. Utilizam as liberdades democráticas para promover a erosão da confiança nas autoridades, encorajar a militância que nutra a raiva contra o sistema político através de publicações sobre assuntos como a raça, imigração, género, convocações de manifestações inorgânicas, etc. São uma espécie de departamentos idênticos aos que engendravam desinformação e conspirações no tempo do estalinismo soviético e do nazismo, mas que utilizam agora as redes sociais e a Internet como veículos de difusão. 

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publicado às 19:17


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