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Mas a vida continua

por Manuel_AR, em 09.01.17

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Apesar da perda de personagens exemplares a vida tem que continuar. Recordo-me como se fosse hoje. Foi à cerca de quatro anos que me encontrei no El Corte Inglês, na secção de artigos para homem, frente a frente com Mário Soares. Acompanhavam-no familiares e amigos, três ao todo.


Parado, próximo ao balcão onde aguardava que a funcionária me atendesse, Mário Soares, com alguma lentidão venceu os escassos metros que me separavam dele, parou à minha frente, olhou para mim como se me conhecesse há muito, fixou-me nos olhos, estendeu-me a mão a que correspondi. Apertou-ma fortemente como se de um gesto simbólico de fraternidade se tratasse, muito comum entre pessoas que pertencem a um mesmo grupo de amigos. «Como está?» - perguntou. «Bem… muito obrigado. E o Dr. Mário Soares?». «Estou bem!». E cada um seguiu a sua vida…


Duas coisas, pelo menos, tínhamos em comum: as opções ideológicas pela liberdade democrática e a oposição combativa às políticas neoliberais de Passos Coelho.


Na altura em que a democracia ainda se encontrava em estado de consolidação, considerava Mário Soares muito encostado à direita. Mas, por outro lado, quando comparado na altura com o PPD, o Partido Socialista era o verdadeiro partido social-democrata, muito próximo da corrente dos partidos franceses e alemão.


Combatente e defensor da liberdade era na altura contestado por todas as esquerdas mais ou menos radicais, que eram várias. Ainda me recordo da célebre frase do “temos de meter o socialismo na gaveta” fortemente contestado por aquelas forças partidárias que exploraram em seu favor aquelas palavras simbólicas. Só muito mais tarde percebi quanto ele tinha razão nas opções políticas que fazia, e porque o fazia. Comecei então a admirá-lo como exemplo de um político hábil e integro que não se distanciava do país e colocava as pessoas em primeiro-lugar.


Levou com ele a satisfação da concretização da vontade que, nos últimos anos, ambicionava: a ver novamente o Partido Socialista no Governo.

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publicado às 18:13

Direita portuguesa, eis a questão

por Manuel_AR, em 29.11.13

 




Luís Rosa no editorial do Jornal i de hoje faz incursões pela direita e pela esquerda partindo da Constituição diz, vejam só, ela pretender "abrir caminho para uma sociedade socialista". Temos visto que, ao longo dos quase 40 anos de democracia, a Constituição em nada tem obstado à iniciativa privada, ao enriquecimento ilícito e lícito de alguns, ao crescimento de muitas empresas privadas portuguesas e estrangeiras[i].  


Continua dizendo que, por a "constituição não ser neutra há um preconceito cultural contra tudo o seja denominado de direita". Será que eu estou a perceber bem? Então, e nas últimas eleições, o complexo cultural contra tudo quanto seja de direita sublimou-se na atual maioria?


Leio sempre que posso, por vezes sem agrado, os editoriais do jovem Luís Rosa - comparado comigo é um jovem -, que terminou o curso na Lusófona no ano em que entrei como professor para uma das instituições de ensino superiores do grupo, (não, não passei alunos ao género do Relvas), apenas sabe do que foi a ditadura pelo que lhe dizem ou leu. Tenho a certeza de que sabe que houve durante estes 40 anos governos de direita.


Refere ainda que os últimos acontecimentos relativos às declarações de Mário Soares e da ocupação simbólica dos ministérios são "exemplos inimagináveis em democracias maduras como a inglesa ou francesa.". Diz bem, democracias maduras! Pelo menos a de Inglaterra já tem mais de quinhentos anos. Recordam-lhe estes factos a anarquia do radicalismo político da Primeira República e reforça que não se compara com a "luta política normal de um estado-membro da União Europeia". Que luta política na europa? A Europa está estabilizada com as suas direitas, não selvagens, em termos socias.


Viveu por acaso Luís Rosa numa anarquia para a comparar com as manifestações de descontentamento popular que se têm verificado. Se acha que são comparáveis então estamos mal porque o problema então apenas se resolveria com uma ditadura.


Mas o essencial é que a direita portuguesa não tem qualquer paralelo com as que lhe servem de comparação porque as direitas europeias (fora as extremas direita radicais) não sujeitam os seus povos a torturas sociais, nem colocam em segundo lugar as pessoas através de formas iníquas e critérios vincadamente ideológicos, próprios do radicalismo neoliberal como as do famigerado tempo de Thatcher.


Ainda ontem o ministro da economia Pires de Lima numa entrevista na TVI24  afirmou que a "austeridade tem sido seletiva" (nos momentos selecionados no portal da net da TVI essa afirmação não consta). Aqui está a equidade desta direita: atingir apenas alguns com a austeridade.


Esta direita portuguesa não é a direita europeia, é uma direita que se baseia, apenas e só, nos interesses dos seus clientes partidários e criar lugares na função pública para os amigos dos amigos e para os ansiosos por lugares que proliferam nas "jotas". Não tem sentido de Estado nem defende Portugal perante as interferências, ameaças e agressões verbais exógenas sobre as instituições democráticas (veja-se o caso do T.C.).


Nos países em que a direita está no poder os governos não tem procedido à destruição violenta dos seus estados sociais, salvo alguns ajustamentos necessários, nem atuam contra as Constituições, nem transformam estados em assistencialistas como esta direita tem feito e continua a fazer em Portugal.


Não defendamos o indefensável com passados recentes nem nos iludamos, a direita em Portugal nada tem a ver com a direita verdadeiramente democrática dos países europeus.


Será isto pensamento de esquerda? Se assim for então sou de esquerda.


 





[i] Veja-se o caso da Sonae por exemplo. http://www.sonae.pt/pt/sonae/historia/


 




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publicado às 19:03


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