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Os Cinco Sentidos

por Manuel_AR, em 21.04.21

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Imagem RTP – Cinco sentidos

Encontrei as folhas que abaixo transcrevo no meio de uns livros da minha estante. São originais inéditos que ficaram por aqui desde a altura em que Maria Isabel Moura vinha de Espinho até Lisboa para finalizar as suas escritas. Com a devida autorização da autora resolvi divulgar e tornar públicas aquelas folhas.

São cinco folhas dedicadas aos cinco sentidos, um exercício de escrita naïf pleno de criatividade expressiva. São diálogos simples, mas com uma força que revela a complexidade dos sentidos que  nos leva à imaginação do dano que nos causaria a sua perda.

Seguem-se mais quatro folhas, uma espécie de continuidade dos cinco sentidos na perspetiva duma aplicação ritualizada.

Maria Isabel Moura nasceu na Covilhã, em 1955. Cresceu e interessou-se pela leitura na aldeia dos Trinta, no distrito da Guarda, em plena Serra da Estrela. Fez os seus estudos no Colégio do Ramalhão  instalado no antigo Palácio do Ramalhão, em Sintra,  com a sua serra e neblinas,  palácio onde reis e rainhas arrastaram saias, paixões, sofrimentos, loucuras e exílios. Colaborou com Jornal do Fundão e o seu trabalho sempre foi com Matos Costa, ilustrador constante das suas obras e companheiro de vida.

Em Espinho, junto ao mar, viveu anos e anos respirando a maresia e o bulício do verão que os turistas causavam ao sossego da cidade. Frequentava Lisboa onde, com avidez, procurava a intelectualidade dos amigos. Reside atualmente em Guimarães, cidade onde continua a sonhar.  

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Da mesma autora já foram publicados os seguintes títulos:

Vinte maneiras diferentes de contar a mesma história

Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca 1998;

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Vou dar pontapés na Lua, contos infantis, Edições Afrontamento, 2004.

Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para o 3º ano de escolaridade, destinado a leitura autónoma.

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Todo o começo é involuntário, com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Editorial Teorema, 2001;

 

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OS CINCO SENTIDOS

A VISÃO

- Que cor é aquela?

- Não me lembro do nome. Não é azul… é outra coisa...

- Espera! Espera aí! Papoilas são vermelhas, malmequeres brancos e amarelos… Violeta! Aquela cor é violeta. Como as flores.

- Já pensaste como seria o mundo se a gente não visse as cores?

- Não. Nunca…

- E...

 - E é como aquelas fotografias antigas, em que é tudo castanho, não dá para ver se é Verão ou Inverno…

- Já sei! É como uma fotografia que eu vi: o vestido era de Verão, mas atrás estava uma árvore de Natal!

- Pois é isso mesmo. Tem que se ter muita atenção, adivinhar tudo…

- Que trabalheira que isso dava. . .

- Sabes, há gente assim. Até tem um nome e tudo: daltónico.

- Dal... tó… ni... co…

- Pois, é como ser cego nas cores. É tudo igual!

- E isso pega-se? Pode-se apanhar?

- Acho que não… o meu tio é...

- E tu chegas-te ao pé dele, não tens medo?

- Conheço-o desde que. nasci... até me sentava no colo dele quando era pequenino... acho que não se pega.

-  E ele faz muitas asneiras? Quero dizer, come a tarte em vez do empadão, coisas assim?

- Não!... Mas agora que falas nisso... já sei porque é que ele de vez em quando, veste esquisito. Julguei que era porque gostava. Até tem uns sapatos vermelhos!

- Uns vermelhos?!! Eu sempre quis ter uns sapatos vermelhos, mas a mãe não me deixa... E se eu lhe dizer que tenho isso, achas que ela mos dá?

- Se calhar...

- Então diz outra vez a palavra! Para eu não me esquecer.

 

O TACTO

- Eu conheço esta voz...     

- Eu também. É a do Leão.    

- O senhor Luís prendeu-o outra vez... porque será que ele

faz isso? ele é um bom cão. É bom no abraço…

- Não sei...    

- E meter as mãos com os dedos todos «abertos no pelo do

pescoço… é tão macio!   

- E esfregar a cara na parte detrás das orelhas!  

- Ah, isso não sei, nunca fiz.       

- É como quando se toca no musgo, devagarinho, com a ponta

dos dedos. Ou em veludo!     

- Eu gosto de tocar em cetim. É… é…doce! 

- A tia Clara tem uma blusa de cetim…, mas os beijos dela

picam!              

- E o tio Jaime arranha. Arranha como as árvores. 

- Porque será?      

- Acho que é porque tem muitos ossos. Acho que tem mais ossos 

que o resto das pessoas…     

- Se calhar é isso…  às vezes até tenho vontade de trepar 

por ele acima, como fazemos no castanheiro.  

- Sabes, outro dia o castanheiro quase que conseguiu abraçar-me de volta!

- E como é que ele fez isso?     

- Com a ajuda do vento. Esteve quase, quase. 

- Deve ser bom ser—se abraçado por uma árvore…   

- Pois, mas temos de lhe pedir agora, depois já não dá.   

- Porque será que quando se cresce essas coisas já não

acontecem?   acho que não se tem tempo para esperar.  

- Não sei... acho que não se tem tempo para esperar.       

 

A   AUDIÇÃO

- Que é isso?

- Isso o quê? 

- O que estás a cantar. 

- É a cantiga daquele pássaro. O preto, de bico amarelo,

aquele ali, naquele ramo.

- Não é nada! Isso é uma música do rádio!

- Não é não! Não é não. é a do passarinho.

- E os pássaros ouvem rádio?

- Não sei..., mas sei que se fosse eu a fazer as músicas do rádio as fazia assim.  

- Assim como? 

- Como nós estamos. Estendia-me no chão e ficava a ouvir.

- A ouvir os passarinhos? 

- Tudo! A ouvir o mundo. 

- Engraçado. . . aquele pardal acho que está a cantar com o teu

pássaro. 

- E o grilo com o vento. 

- E o vento com as árvores.

- Só falta pôr as palavras…, mas eu não tenho as palavras,

só a música. 

- E temos de pôr palavras redondas como o pássaro de bico

amarela, pontiagudas como o grilo, suaves como o vento...

- E tu, sabes essas palavras?

- Eu não..., mas o meu tio é poeta, ele sabe!

- E achas que ele se quer vir aqui deitar connosco?

 

O OLFACTO

  - Hummm!! Que cheirinho a violetas! Vamos procurá-las?

-  Porquê? Estamos tao bem assim…   

- Porque gosto de violetas. Quero fazer um raminho para levar para casa.

- Está bem…      

- Onde vais? O cheiro vem dali...    

- Desculpa... eu não sinto o cheiro.   

- Estás constipado?      

- Não… eu   sinto o cheiro de nada... não sei o que é isso.     

- Nada de nada?        

- Nada...         

- E quando o almoço é frango assado?   

- Já disse que não!      

 - Não te zangues. Mas que engraçado, é como se tu fosses cego do nariz!     

- Não é engraçado, não acho que seja!  

- Olha: eu vou-te ensinar os cheiros. As flores são doces, como gelados. o vinagre pica... frango assado é.… não, não sei explicar!     

- Tenta, tenta outra vez! Quero entender!  

- É muito difícil... olha, para veres como é difícil, vamos fingir que eu sou cega e explica-me as cores!

- Fácil: o vermelho é quente. O azul é suave, mesmo o azul-escuro da noite é…        

- Não sei o que é a noite.      

— Esqueci-me.… e então como é que eu explico?  

- Não sei... é muito difícil...    

- Olha, as violetas!      

- Já sei!  Vou andar com algodão no nariz para ele ficar cego também… só um bocadinho, para ver como é….          

            

O PALADAR

- Hiii!!!  Que chocolate grande tu tens aí no bolso!

- Ah, pois é! Já me tinha esquecido. Queres?

- Todo?!! Todo, todo, todo, todinho para mim?!! E tu? - Eu não quero. Eu não gosto de chocolate.

- Não gosto de chocolate, nem de bolos, nem de gelados... não gosto de coisas doces.

- Nem de gelados?

- Não acredito!  Toda a gente gosta de gelados!   

- Só de gelado de limão.

- Puahh!! Que porcaria. Ê azedo! 

- É nada! Faz piquinhos na língua como os pickles.

- E tu gostas de pickles?!  Que horror!  

- De pickles,    de empadão de carne, de presunto, de croquetes,  

de sardinhas, de caracóis. . .   

- De caracóis?! E as pessoas comem isso?! Puahhh!! Que porcaria! castanha de chocolate! Até ao nariz!

-É… e tu estás toda castanha de chocolate! Até ao nariz! Do nariz ao umbigo!

- Minha avó diz que gostos não se discutem… nunca tinha entendido... E gostas mesmo de caracóis? 

- E tu, de chocolate?   

- Ah, ah, ah!           

- Ah, ah, ah!           

- Olha, aquela nuvem parece um gelado, um gelado de morango    coberto de natas.   

- Que nada! É um empadão de carne.   

- Um bolo de chocolate! 

- Um frango estornicado!

- Corre, vamos para casa que vai chover!

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AMORAS

- Trouxeste o teu saco?      

- Não... esqueci-me…    

- E agora? Como vamos fazer?     

- Não sei...  tens alguma ideia?     

- Eu não…           

- Podemos metê-las no chapéu!    

- E depois? quando chegarmos a casa como vai ser?

- Posso dizer que o perdi…   

- Não podes não, as mães sabem sempre que mentimos.   

- Então empresta-me o teu saco!      

- Não posso… também me esqueci    .  

- Ah, ah, ah!!          

- De que te ris?        

- Como é que tu gostas de comer amoras?  

- Pretas, pretas.  Maduras!      

- Não é isso... onde é que tu gostas de comer amoras? 

- Aqui.  Logo que as apanho.     

- Eu também... em casa parece que não sabem tao bem... parece que deixam de ser doces...

- Nem são tao sumarentas... acho que -dei iam de- ter o sol dentro...

- É por isso que me estou a rir. Acho, que sem querer, nos esquecemos de propósito...

 

AS CORES

 

 

- De todas as cores do mundo, de qual gostas mais?

- Não sei...  nunca pensei nisso...

- Então pensa.

- Agora, agorinha mesmo, é do azul... só que não sei de qual azul... Uma vez pus-me a contar quantos azuis há no céu...

- E?

- Perdi a conta. Quanto mais se olha mais azuis há.   

- Engraçado, é mesmo... acho que há infindões! É como os verdes, também nunca mais acabam.

- E tu? De que cor gostas mais?      

- Do vermelho! Tenho uma camisola vermelha de que gosto muito, mas é muito quente, só se pode usar no Inverno... 

- Eu tinha uma amarela, mas já não me serve... e a mãe não me deixa usá-la...

- Porque será que as mães nunca entendem nada? A mim nunca me deixa vestir como eu quero, tem que ser como ela gosta.   

- Porquê?

- Diz que eu não sei nada, diz que me visto a parecer um arco-íris.

- E ela não gosta do arco-íris?      

- Não sei, nunca lhe perguntei. Mas acho que não. 

- Ah, eu se pudesse, se a mãe deixasse, tinha sempre um comigo!         

- Eu também. Trazia um vestido, pintava um nas paredes do quarto...       

- Forrava os livros da escola e dava um à avó, ela veste sempre com cores tão tristes!        

 

ARCO-IRIS

 

- Olha! Olha além no céu! Um arco-íris!

- Onde? Onde? Ah! Que bonito!

- Dizem que no fim do arco-íris há um pote cheio de ouro. - Ouro, ouro, a sério? Como o dos fios?

- Sim. Mas está todo em moedas, que há um pote cheio de moedas de ouro.

- Era engraçado se nós o encontrássemos… O que é que tu fazias com um pote cheio de ouro?

- Não sei... nunca pensei nisso... acho que comprava montes e montes de chocolates.

- Gelados!

- Rebuçados!

- E podemos ir á loja com moedas de ouro?

- Não sei... acho que não. Primeiro tínhamos de ir ao Banco trocar o ouro por dinheiro de ir às compras.

- E nós, podemos ir ao Banco fazer isso?

- Eu punha um bigode para parecer crescido!

- E um chapéu. É melhor pôr também um chapéu.

- E um sobretudo comprido, para parecermos mais altos.

- E uns óculos de ver… e se o balcão for muito alto, como é que vamos fazer?

- Levamos um banquinho escondido debaixo do sobretudo.

- E se fossemos ver se é verdade? Vamos procurar o fim do arco-íris?

- Já não vale a pena... está a desaparecer... uma vez, faz muito tempo, vi um arco-íris a sair de uma poça de água...

- E nada, não tinha nada na poça, só lama...

- Ah! De certeza que era o começo do arco-íris, não era o fim!

 

DANÇA

- Sabes dançar?                                     

- Não, acho que não.                                

- Eu gostaria de saber. Gostava muito de saber dançar como

vimos ontem na televisão...                        

- Como o Ballet?                                    

- Sim, gostaria muito de saber dançar Ballet.       

- Eu também, às vezes acho que sim, mas depois vejo os

pássaros a dançar no céu…                          

- E as árvores? Já viste como elas bailam com o vento, em dias de tempestade?!

- E os cisnes, os cisnes no lago do senhor Antero.   

- O mar e a areia...                                

- O vento e as espigas de trigo.                    

- O rio com as pedras! Quando vejo o rio a dançar sei que nunca conseguirei...

- Mas eu gostava de tentar, eu queria aprender.    

- Achas que se aprendermos a nadar que depois é mais fácil dançar?                                              

- Talvez...   dançar na água é capaz de ser mais fácil!  

- Ou aprendermos a voar. No ar parece tão fácil!    

- Ou então...                                       

- Então o quê?                                      

- Fincarmos os pés bem fundo no chão e pedirmos ao vento para nos ensinar a bailar.                                

 

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publicado às 18:59

A leitura do momento

por Manuel_AR, em 14.04.17

 


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Regressei do Portugal da Beira Interior para fugir das festas da época pascal na chamada província.  A Páscoa não é para mim. Fora das grande cidades vive-se intensamente esta época, mais do que o Natal que é o símbolo do nascimento. Na época da Páscoa são demasiados os rituais religiosos que estão ligados ao renascer da natureza com a chegada da primavera. Esta sim, é a ressurreição da vida que se faz notar por todo o lado de norte a sul se Portugal que o citadino não capta no meio da confusão do transito e das compras para a Páscoa.


É também um boa altura para iniciar leituras assim selecionei um livro cujo lançamento aconteceu este mês. História e jornalismo podem complementar-se quando este nos trás para o presente factos dum passado mais ou menos recente. São, todavia, relatos diferentes da história. O jornalismo recupera testemunhos e documentos, ajuda a recuperar a memória do povo, que tem tendência para o esquecimento, dá uma visão aos mais jovens do passado que não experienciaram. O livro “Quando Portugal Ardeu” de Miguel Carvalho que agora comecei a ler foi com base em testemunhos e documentos inéditos e não é de história é jornalismo como diz o autor.

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publicado às 17:55

Estórias sobre estórias e romances

por Manuel_AR, em 04.04.17

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Terminei hoje o último livro que tinha ainda para ler “A vida Secreta dos Livros”. É um livro que parece ser de ficção, mas que foi escrito com base em pesquisas efetuadas pelo autor, de seu nome Santiago Posteguillo que recebeu já vários galardões.


O livro tem vários capítulos cada um deles dedicado a um autor ou a uma obra das mais conhecidas ao longo do tempo, desde o Hamlet até à autora de Harry Potter.


Livro agradável, de fácil leitura, construído sob a forma de narrativas independentes que respondem a perguntas como, por exemplo, quem escreveu de facto as obras de Shakespeare, o que está por detrás de génese das aventuras de Harry Potter e o êxito da sua autora, entre muitas outras. É um livro que consegue retratar-nos sem falsas narrativas o que está por detrás dos livros da literatura universal. São enigmas e segredos sobre personagens e obras da como escreveu o jornal La Vanguardia. É, portanto, um livro divertido que a mesmo tempo é um contributo para nossa cultura literária.


 


Manuel Rodrigues | Abril 3, 2017 8:59

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publicado às 09:02

Portugal Manual de Instruções, de Ricardo Costa,  é um livro de fácil leitura, bem escrito ao bom  estilo jornalístico que apresenta uma visão interpretativa séria, com algum esforço de isenção, mas, por vezes, pretensiosamente independente.


A clareza da linguagem oferece-nos um conjunto de factos relativos ao passado recente e ao presente da política portuguesa mesmo para aqueles que não gostam da complexidade da análise e do debate político feita apenas para alguns.


 



 


Apesar de se intitular um liberal, as suas convicções ideológicas e políticas não obstaram críticas à atual governação que confronta com a realidade portuguesa que se vive.


No essencial  não é um livro polémico mas, no que se refere aos passados governos de José Sócrates, desculpabiliza de algum modo a estratégia seguida pelo PSD para a tomada do poder, ao afirmar que o PEC IV ( e outros que se seguiriam, digo eu) não   iria resolver qualquer problema inclusive a vinda da troika. Poderia ter sido uma espécie de programa cautelar sem a austeridade violenta de um programa de ajustamento que Passos Coelho tanto ambicionava. Não se pode afirmar que o PEC IV não resultaria sem se ter em conta o estilo do antigo primeiro-ministro e as suas relações com o exterior no sentido de abertura de uma solução. Houve de facto um ataque ao poder desencadeado pelo atual primeiro-ministro e pelo PSD, apoiados pela esquerda radical, e isso pode ter sido o início da explosiva crise social e económica que estamos a viver.


As PPP's são um tema que diz servirem apenas "como armas de arremesso político" em vez de ser analisadas como "exemplos de erros políticos". São todos culpados, uns mais do que outros e há PPP's boas e outras más. Por seu lado, Cavaco Silva e o caso BPN e SLN são tratados com luvas brancas.


Ricardo Costa tece criticas sem exceção aos anteriores e atual governo, apontando no sentido de que as reformas estruturais tinham que ser tomadas e deverão continuar a ser tomadas, não esclarecendo como e quais, se bem que não seja esse o objetivo do livro. Não tece acusações é certo, mas vai apontando responsabilidades mais dirigidas ao passado, manifestando opinião favorável ao presente porque, para ele, nada vai ficar como dantes.


Para o autor a esquerda como alternativa ao poder não existe porque não se une, pelo que resta apenas a viabilidade  dum pacto entre PSD e PS. Nas entrelinhas podemos ler a forma como ele qualifica de AD a coligação PSD-CDS, como já houve no passado, e uma potencial aliança PS-PSD de bloco central, que também já houve no passado. Afinal parece que há sempre situações em que se pode voltar atrás!


Quem leia este livro não espere que tudo lhe irá agradar, quer sejam de direita quer sejam de esquerda.  Há que saber fazer as leituras convenientes sem quaisquer sectarismos político e ou partidário. Do meu ponto de vista não há independência absoluta no jornalismo e na interpretação dos factos políticos. Quem escreve sobre política acaba sempre por se denunciar mesmo que faça um esforço para ficar partidariamente equidistante. O tempo do todos e apenas a "Bem da Nação" já lá vai, para alguns com grande desgosto.


De qualquer modo é um livro com atualidade política cuja leitura não se deve fazer esperar.

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publicado às 17:49


 


Nem tudo é mau neste Portugal triste e desiludido com tudo o que se vê, ouve e lê nos órgãos de comunicação social que, presumivelmente, Miguel Relvas pretende pressionar e chantagear como recentemente tem vindo a público, à boa semelhança de José Sócrates como na altura se dizia. É no domínio da leitura que acaba de sair um livro que é uma lufada de ar fresco no comentário político independente e sem papas na língua. “A historia não acaba assim” de Miguel Sousa Tavares, edição do Clube de Autor, é uma série de textos inteligentes, não comprometidos com nada nem com ninguém, com uma escrita racional e lúcida.


Alguns dos textos da obra não agradarão a todos, como alguns também a mim não me agradaram mais por uma questão de interpretação dos factos do que pela opinião em si mesma. Talvez não agrade a muitos porque, apesar de independentes, alguns textos poderão ir contra opções ideológicas adquiridas que, muitas vezes, funcionam mais como princípios clubísticos.  


Quer se goste ou não é uma leitura obrigatória a fazer porque nem só aquilo de que gostamos é com certeza o mais certo. Quando gostamos aceitamos quase sempre tudo o que lemos, vemos e ouvimos. É necessário conhecer outros pontos de vista mesmo quando não gostamos ou deles discordamos.

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publicado às 12:51


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