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Os Cinco Sentidos

por Manuel_AR, em 21.04.21

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Imagem RTP – Cinco sentidos

Encontrei as folhas que abaixo transcrevo no meio de uns livros da minha estante. São originais inéditos que ficaram por aqui desde a altura em que Maria Isabel Moura vinha de Espinho até Lisboa para finalizar as suas escritas. Com a devida autorização da autora resolvi divulgar e tornar públicas aquelas folhas.

São cinco folhas dedicadas aos cinco sentidos, um exercício de escrita naïf pleno de criatividade expressiva. São diálogos simples, mas com uma força que revela a complexidade dos sentidos que  nos leva à imaginação do dano que nos causaria a sua perda.

Seguem-se mais quatro folhas, uma espécie de continuidade dos cinco sentidos na perspetiva duma aplicação ritualizada.

Maria Isabel Moura nasceu na Covilhã, em 1955. Cresceu e interessou-se pela leitura na aldeia dos Trinta, no distrito da Guarda, em plena Serra da Estrela. Fez os seus estudos no Colégio do Ramalhão  instalado no antigo Palácio do Ramalhão, em Sintra,  com a sua serra e neblinas,  palácio onde reis e rainhas arrastaram saias, paixões, sofrimentos, loucuras e exílios. Colaborou com Jornal do Fundão e o seu trabalho sempre foi com Matos Costa, ilustrador constante das suas obras e companheiro de vida.

Em Espinho, junto ao mar, viveu anos e anos respirando a maresia e o bulício do verão que os turistas causavam ao sossego da cidade. Frequentava Lisboa onde, com avidez, procurava a intelectualidade dos amigos. Reside atualmente em Guimarães, cidade onde continua a sonhar.  

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Isabel Moura (1).png

 

Da mesma autora já foram publicados os seguintes títulos:

Vinte maneiras diferentes de contar a mesma história

Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca 1998;

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Vou dar pontapés na Lua, contos infantis, Edições Afrontamento, 2004.

Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para o 3º ano de escolaridade, destinado a leitura autónoma.

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Todo o começo é involuntário, com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Editorial Teorema, 2001;

 

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OS CINCO SENTIDOS

A VISÃO

- Que cor é aquela?

- Não me lembro do nome. Não é azul… é outra coisa...

- Espera! Espera aí! Papoilas são vermelhas, malmequeres brancos e amarelos… Violeta! Aquela cor é violeta. Como as flores.

- Já pensaste como seria o mundo se a gente não visse as cores?

- Não. Nunca…

- E...

 - E é como aquelas fotografias antigas, em que é tudo castanho, não dá para ver se é Verão ou Inverno…

- Já sei! É como uma fotografia que eu vi: o vestido era de Verão, mas atrás estava uma árvore de Natal!

- Pois é isso mesmo. Tem que se ter muita atenção, adivinhar tudo…

- Que trabalheira que isso dava. . .

- Sabes, há gente assim. Até tem um nome e tudo: daltónico.

- Dal... tó… ni... co…

- Pois, é como ser cego nas cores. É tudo igual!

- E isso pega-se? Pode-se apanhar?

- Acho que não… o meu tio é...

- E tu chegas-te ao pé dele, não tens medo?

- Conheço-o desde que. nasci... até me sentava no colo dele quando era pequenino... acho que não se pega.

-  E ele faz muitas asneiras? Quero dizer, come a tarte em vez do empadão, coisas assim?

- Não!... Mas agora que falas nisso... já sei porque é que ele de vez em quando, veste esquisito. Julguei que era porque gostava. Até tem uns sapatos vermelhos!

- Uns vermelhos?!! Eu sempre quis ter uns sapatos vermelhos, mas a mãe não me deixa... E se eu lhe dizer que tenho isso, achas que ela mos dá?

- Se calhar...

- Então diz outra vez a palavra! Para eu não me esquecer.

 

O TACTO

- Eu conheço esta voz...     

- Eu também. É a do Leão.    

- O senhor Luís prendeu-o outra vez... porque será que ele

faz isso? ele é um bom cão. É bom no abraço…

- Não sei...    

- E meter as mãos com os dedos todos «abertos no pelo do

pescoço… é tão macio!   

- E esfregar a cara na parte detrás das orelhas!  

- Ah, isso não sei, nunca fiz.       

- É como quando se toca no musgo, devagarinho, com a ponta

dos dedos. Ou em veludo!     

- Eu gosto de tocar em cetim. É… é…doce! 

- A tia Clara tem uma blusa de cetim…, mas os beijos dela

picam!              

- E o tio Jaime arranha. Arranha como as árvores. 

- Porque será?      

- Acho que é porque tem muitos ossos. Acho que tem mais ossos 

que o resto das pessoas…     

- Se calhar é isso…  às vezes até tenho vontade de trepar 

por ele acima, como fazemos no castanheiro.  

- Sabes, outro dia o castanheiro quase que conseguiu abraçar-me de volta!

- E como é que ele fez isso?     

- Com a ajuda do vento. Esteve quase, quase. 

- Deve ser bom ser—se abraçado por uma árvore…   

- Pois, mas temos de lhe pedir agora, depois já não dá.   

- Porque será que quando se cresce essas coisas já não

acontecem?   acho que não se tem tempo para esperar.  

- Não sei... acho que não se tem tempo para esperar.       

 

A   AUDIÇÃO

- Que é isso?

- Isso o quê? 

- O que estás a cantar. 

- É a cantiga daquele pássaro. O preto, de bico amarelo,

aquele ali, naquele ramo.

- Não é nada! Isso é uma música do rádio!

- Não é não! Não é não. é a do passarinho.

- E os pássaros ouvem rádio?

- Não sei..., mas sei que se fosse eu a fazer as músicas do rádio as fazia assim.  

- Assim como? 

- Como nós estamos. Estendia-me no chão e ficava a ouvir.

- A ouvir os passarinhos? 

- Tudo! A ouvir o mundo. 

- Engraçado. . . aquele pardal acho que está a cantar com o teu

pássaro. 

- E o grilo com o vento. 

- E o vento com as árvores.

- Só falta pôr as palavras…, mas eu não tenho as palavras,

só a música. 

- E temos de pôr palavras redondas como o pássaro de bico

amarela, pontiagudas como o grilo, suaves como o vento...

- E tu, sabes essas palavras?

- Eu não..., mas o meu tio é poeta, ele sabe!

- E achas que ele se quer vir aqui deitar connosco?

 

O OLFACTO

  - Hummm!! Que cheirinho a violetas! Vamos procurá-las?

-  Porquê? Estamos tao bem assim…   

- Porque gosto de violetas. Quero fazer um raminho para levar para casa.

- Está bem…      

- Onde vais? O cheiro vem dali...    

- Desculpa... eu não sinto o cheiro.   

- Estás constipado?      

- Não… eu   sinto o cheiro de nada... não sei o que é isso.     

- Nada de nada?        

- Nada...         

- E quando o almoço é frango assado?   

- Já disse que não!      

 - Não te zangues. Mas que engraçado, é como se tu fosses cego do nariz!     

- Não é engraçado, não acho que seja!  

- Olha: eu vou-te ensinar os cheiros. As flores são doces, como gelados. o vinagre pica... frango assado é.… não, não sei explicar!     

- Tenta, tenta outra vez! Quero entender!  

- É muito difícil... olha, para veres como é difícil, vamos fingir que eu sou cega e explica-me as cores!

- Fácil: o vermelho é quente. O azul é suave, mesmo o azul-escuro da noite é…        

- Não sei o que é a noite.      

— Esqueci-me.… e então como é que eu explico?  

- Não sei... é muito difícil...    

- Olha, as violetas!      

- Já sei!  Vou andar com algodão no nariz para ele ficar cego também… só um bocadinho, para ver como é….          

            

O PALADAR

- Hiii!!!  Que chocolate grande tu tens aí no bolso!

- Ah, pois é! Já me tinha esquecido. Queres?

- Todo?!! Todo, todo, todo, todinho para mim?!! E tu? - Eu não quero. Eu não gosto de chocolate.

- Não gosto de chocolate, nem de bolos, nem de gelados... não gosto de coisas doces.

- Nem de gelados?

- Não acredito!  Toda a gente gosta de gelados!   

- Só de gelado de limão.

- Puahh!! Que porcaria. Ê azedo! 

- É nada! Faz piquinhos na língua como os pickles.

- E tu gostas de pickles?!  Que horror!  

- De pickles,    de empadão de carne, de presunto, de croquetes,  

de sardinhas, de caracóis. . .   

- De caracóis?! E as pessoas comem isso?! Puahhh!! Que porcaria! castanha de chocolate! Até ao nariz!

-É… e tu estás toda castanha de chocolate! Até ao nariz! Do nariz ao umbigo!

- Minha avó diz que gostos não se discutem… nunca tinha entendido... E gostas mesmo de caracóis? 

- E tu, de chocolate?   

- Ah, ah, ah!           

- Ah, ah, ah!           

- Olha, aquela nuvem parece um gelado, um gelado de morango    coberto de natas.   

- Que nada! É um empadão de carne.   

- Um bolo de chocolate! 

- Um frango estornicado!

- Corre, vamos para casa que vai chover!

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AMORAS

- Trouxeste o teu saco?      

- Não... esqueci-me…    

- E agora? Como vamos fazer?     

- Não sei...  tens alguma ideia?     

- Eu não…           

- Podemos metê-las no chapéu!    

- E depois? quando chegarmos a casa como vai ser?

- Posso dizer que o perdi…   

- Não podes não, as mães sabem sempre que mentimos.   

- Então empresta-me o teu saco!      

- Não posso… também me esqueci    .  

- Ah, ah, ah!!          

- De que te ris?        

- Como é que tu gostas de comer amoras?  

- Pretas, pretas.  Maduras!      

- Não é isso... onde é que tu gostas de comer amoras? 

- Aqui.  Logo que as apanho.     

- Eu também... em casa parece que não sabem tao bem... parece que deixam de ser doces...

- Nem são tao sumarentas... acho que -dei iam de- ter o sol dentro...

- É por isso que me estou a rir. Acho, que sem querer, nos esquecemos de propósito...

 

AS CORES

 

 

- De todas as cores do mundo, de qual gostas mais?

- Não sei...  nunca pensei nisso...

- Então pensa.

- Agora, agorinha mesmo, é do azul... só que não sei de qual azul... Uma vez pus-me a contar quantos azuis há no céu...

- E?

- Perdi a conta. Quanto mais se olha mais azuis há.   

- Engraçado, é mesmo... acho que há infindões! É como os verdes, também nunca mais acabam.

- E tu? De que cor gostas mais?      

- Do vermelho! Tenho uma camisola vermelha de que gosto muito, mas é muito quente, só se pode usar no Inverno... 

- Eu tinha uma amarela, mas já não me serve... e a mãe não me deixa usá-la...

- Porque será que as mães nunca entendem nada? A mim nunca me deixa vestir como eu quero, tem que ser como ela gosta.   

- Porquê?

- Diz que eu não sei nada, diz que me visto a parecer um arco-íris.

- E ela não gosta do arco-íris?      

- Não sei, nunca lhe perguntei. Mas acho que não. 

- Ah, eu se pudesse, se a mãe deixasse, tinha sempre um comigo!         

- Eu também. Trazia um vestido, pintava um nas paredes do quarto...       

- Forrava os livros da escola e dava um à avó, ela veste sempre com cores tão tristes!        

 

ARCO-IRIS

 

- Olha! Olha além no céu! Um arco-íris!

- Onde? Onde? Ah! Que bonito!

- Dizem que no fim do arco-íris há um pote cheio de ouro. - Ouro, ouro, a sério? Como o dos fios?

- Sim. Mas está todo em moedas, que há um pote cheio de moedas de ouro.

- Era engraçado se nós o encontrássemos… O que é que tu fazias com um pote cheio de ouro?

- Não sei... nunca pensei nisso... acho que comprava montes e montes de chocolates.

- Gelados!

- Rebuçados!

- E podemos ir á loja com moedas de ouro?

- Não sei... acho que não. Primeiro tínhamos de ir ao Banco trocar o ouro por dinheiro de ir às compras.

- E nós, podemos ir ao Banco fazer isso?

- Eu punha um bigode para parecer crescido!

- E um chapéu. É melhor pôr também um chapéu.

- E um sobretudo comprido, para parecermos mais altos.

- E uns óculos de ver… e se o balcão for muito alto, como é que vamos fazer?

- Levamos um banquinho escondido debaixo do sobretudo.

- E se fossemos ver se é verdade? Vamos procurar o fim do arco-íris?

- Já não vale a pena... está a desaparecer... uma vez, faz muito tempo, vi um arco-íris a sair de uma poça de água...

- E nada, não tinha nada na poça, só lama...

- Ah! De certeza que era o começo do arco-íris, não era o fim!

 

DANÇA

- Sabes dançar?                                     

- Não, acho que não.                                

- Eu gostaria de saber. Gostava muito de saber dançar como

vimos ontem na televisão...                        

- Como o Ballet?                                    

- Sim, gostaria muito de saber dançar Ballet.       

- Eu também, às vezes acho que sim, mas depois vejo os

pássaros a dançar no céu…                          

- E as árvores? Já viste como elas bailam com o vento, em dias de tempestade?!

- E os cisnes, os cisnes no lago do senhor Antero.   

- O mar e a areia...                                

- O vento e as espigas de trigo.                    

- O rio com as pedras! Quando vejo o rio a dançar sei que nunca conseguirei...

- Mas eu gostava de tentar, eu queria aprender.    

- Achas que se aprendermos a nadar que depois é mais fácil dançar?                                              

- Talvez...   dançar na água é capaz de ser mais fácil!  

- Ou aprendermos a voar. No ar parece tão fácil!    

- Ou então...                                       

- Então o quê?                                      

- Fincarmos os pés bem fundo no chão e pedirmos ao vento para nos ensinar a bailar.                                

 

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publicado às 18:59

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O que tem ultimamente tem acontecido na política não sei. Encontro-me no meio do nada e a televisão a ele se associa deixa-me respirar. Longe do palco da política em plena beira interior onde os jornais não chegam e a televisão é a única fonte de informação. Aqui a  Internet ainda é para alguns, senão um luxo devido ao seu custo mensal, algo desnecessário e a resistência à mudança não facilita a adaptação e essa coisa das novas tecnologias que não enchem barriga.


Para a gente destes lados basta-lhes serem bombardeados diariamente com os noticiários das televisões que apenas lhes mostram as desgraças do mundo e sobre a política do país dizem apenas o mau e omitem ou tornam impercetível, para muita desta gente, o que houver de bom.


Estas gentes raramente falam de política, fogem dela como o diabo foge da cruz. População envelhecida, nascida, criada e vivida no tempo da ditadura salazarista ficaram-lhes bem vincados os receios de outrora. Todavia, a abertura das conversas em que a política aflora, vai-se timidamente mostrando. Ainda hoje, numa conversa entre vizinhas onde falavam de galinhas, flores, cultura e estado do tempo veio à baila, não sei como, a política. Falaram de Cavaco Silva não percebi sobre o quê e, no meio do diálogo, uma delas disse para a outra que o «António Costa está lá agora, mas já devia lá estar há muitos anos». Conversa terminada. Numa região cavaquista e conservadora pareceu ser uma luz no meio da escuridão. Oxalá ela não se engane, e eu também não para bem de todos.


Entretanto vim para aqui trabalhar, sim, porque aqui trabalha-se nem que seja para apanhar as folhas que o inverno deixou pelo chão e cortar as ervas que a primavera trás. Nos intervalos o sossego do espaço que nos envolve proporciona à reflexão, não apenas sobre política, embora esta esteja cada vez mais presente em todo o lado sem que nos apercebamos, mas sobre outros temas que alimentam o espírito.


Antes de vir revi algumas obras de escritores clássicos folheando aqui e ali as suas páginas motivado pela leitura do livro “A Vida Secreta dos Livros” que li recentemente. Os clássicos parecem estar na moda pois nas livrarias proliferam reedições dessas obras mergulhadas nas estantes que pareceriam esquecidas e agora tomaram novamente vida.


Deparei-me então com uma descrição sobre como Júlio Verne, um dos escritores de antecipação científica, escreveu alguns dos seus livros. Quando adolescente li algumas das suas obras duas delas adaptadas ao cinema como, por exemplo, as “Vinte mil léguas submarinas” e “A volta ao Mundo em oitenta dias”. Mas há uma obra pouco divulgada publicada anos após a sua morte, “Paris no Século XX”. Este livro encontra-se esgotado em Portugal tendo apenas conseguindo uma edição em francês na Amazone.


Por achar de relevante importância porque muitos anos antes faz uma previsão do futuro como seria de facto uma cidade como Paris, e do mundo dito civilizado. Transcrevo uma pequena passagem, traduzida do original francês, daquele livro em que Júlio Verne faz uma descrição do futuro feito por um personagem como se vivenciasse antecipadamente um presente visto do tempo em que em o romance foi escrito, o futuro em 1960.


“O que diria um dos nossos antepassados por ver essas avenidas iluminadas com um brilho comparável ao do sol, esses mil carros que circulam sem fazer ruído por sobre as ruas de asfalto, as ricas lojas como palácios, onde a luz se espalha em brancas irradiações, essas vias de comunicação amplas como praças, essas praças vastas como planícies, esses hotéis imensos onde se alojam sumptuosamente vinte mil viajantes, esses viadutos tão leves; essas compridas galerias elegantes, essas pontes que cruzam de uma rua para outra, e enfim, esses comboios reluzentes que parecem navegar no ar a uma velocidade fantástica… Ter-se-ia surpreendido muito, sem dúvida; mas os homens de 1960 já não admiram estas maravilhas; desfrutam delas tranquilamente, sem por isso serem mais felizes, pois na sua atitude apressada, o seu caminhar ansioso, o seu espírito americano, sente-se que o demónio do dinheiro os move sem descanso nem piedade.”


(Hachette le cherche midi éditeur 1863, pág. 21).

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publicado às 17:10

Estórias sobre estórias e romances

por Manuel_AR, em 04.04.17

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Terminei hoje o último livro que tinha ainda para ler “A vida Secreta dos Livros”. É um livro que parece ser de ficção, mas que foi escrito com base em pesquisas efetuadas pelo autor, de seu nome Santiago Posteguillo que recebeu já vários galardões.


O livro tem vários capítulos cada um deles dedicado a um autor ou a uma obra das mais conhecidas ao longo do tempo, desde o Hamlet até à autora de Harry Potter.


Livro agradável, de fácil leitura, construído sob a forma de narrativas independentes que respondem a perguntas como, por exemplo, quem escreveu de facto as obras de Shakespeare, o que está por detrás de génese das aventuras de Harry Potter e o êxito da sua autora, entre muitas outras. É um livro que consegue retratar-nos sem falsas narrativas o que está por detrás dos livros da literatura universal. São enigmas e segredos sobre personagens e obras da como escreveu o jornal La Vanguardia. É, portanto, um livro divertido que a mesmo tempo é um contributo para nossa cultura literária.


 


Manuel Rodrigues | Abril 3, 2017 8:59

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publicado às 09:02

Ricos e pobres.png


 


Não sei se por ter sido influenciado pelo que se passou este último fim de semana na Grécia veio-me à memória o escritor Honoré Balzac que, redutoramente, tem sido conhecido como um escritor de costumes da burguesia francesa do século XIX. Foi a partir de algumas das personagens daquele escritor que surgiu designação do termo "balzaquianas".


Os seus romances caracterizam a organização social e económica duma sociedade corrompida pelo dinheiro. Os seus escritos e romances que criticavam no século XIX uma sociedade cujos valores políticos e sociais se degradavam, continuam atuais no século XXI. "O Pai Goriot" escrito em 1835 é bem prova disso ao revelar o pensamento social de uma época.


Balzac é uma fonte de informação para conhecer como era a economia na sua época com a exatidão dos números do quadro social que desenha, nomeadamente no que se refere à estrutura dos rendimentos e dos patrimónios em vigor em França no século XIX.


"O pai Goriot", desnuda uma sociedade fascinada por poder e dinheiro, binómio que atropela ilusões e destrói famílias. Pode ver-se isso, nomeadamente na passagem da narrativa em que o personagem Vautrin alerta o jovem de Direito, Rastignac, para o combate societal afirmando que a honestidade não serve para nada, que a corrupção domina, e que apenas dois tipos humanos podem esperar vencê-lo. Diz ele em determinada altura "É preciso penetrar nessa massa humana, como um projétil de canhão, ou insinuar-se no meio dela como uma peste. A honestidade não serve para nada. Todos se curvam ao poder do génio; odeiam-no, tratam de caluniá-lo, porque ele recebe sem partilhar; mas curvam-se, se ele persiste. Numa palavra, adoram-no de joelhos quando não o podem enterrar na lama. A corrupção representa uma força, porque o talento é raro. Assim, como a corrupção é a alma da mediocridade que abunda, você sentirá a sua picada por toda parte.".


Isto não é mais do que uma introdução à atual problemática das desigualdades que se pode traduzir nas seguintes dimensões: desigualdades nos rendimentos do trabalho, desigualdade da propriedade do capital e dos rendimentos por eles gerados (sem o consequente reinvestimento na economia) e o elo de ligação entre estas duas dimensões.


Naquela época, mesmo em Portugal, os estudos e o trabalho não permitiam alcançar o mesmo desafogo que era assegurado pela herança e pelos rendimentos do património, daí a frase que ainda hoje se diz que fulano de tal "tem berço e que aqueloutro "não tem berço". Hoje em dia o problema já não se coloca da mesma forma mas as desigualdades entre capital e trabalho aumentam e agravam-se dia a dia.


O que vigora em Portugal e noutros países para o alcance fascinante do dinheiro são os compadrios, a corrupção, os favores, os serviços prestados a troco de muitos milhões, e até por menos, a fuga aos impostos pela alta finança, ligações entre o poder políticos e o poder económico e financeiro que, muitas das vezes, se sobrepõem aos interesses do próprio Estado, tentativas de pedido de proteção de privados a altas figuras da hierarquia do Estado, a subserviência com que alguns sobrepõem interesses alheios aos povos que governam, agredindo-os por interesses pessoais, justiça que é madrasta para alguns mas mãe protetora para outros, etc..  


Provar o que digo? Quem o quiser confirmar basta consultar os jornais de uma ou duas décadas porque nós por aqui podemos considerar que estamos no domínio dos romances de ficção e em estado de negação.

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publicado às 22:37

Uma leitura acerca de: A Cidade de Ulisses

por Manuel_AR, em 02.01.14

 



 Se porventura tivesse dotes literários "A Cidade de Ulisses" seria o livro que eu gostaria de ter escrito tal e qual Teolinda Gersão tão excelentemente fez. O mito de Ulisses é o mote para falar de amores e desamores tendo como cenário Lisboa.


 


Teolinda oferece-nos uma histartesória de amor em que Lisboa também é protagonista. Não o li apenas como um romance mas também como uma digressão vivida através de múltiplos percursos que passam pela arte pictórica e pelas realidades urbana e histórica.


 


As metáforas e as transposições para o presente que o leitor pode, a bel-prazer, ver aplicadas ao nosso país e ao mundo são, na minha perspetiva, cinema em prosa tais as imagens nos passam na corrente de consciência. "A cidade de Ulisses" é um universo pleno de segredos, de destruições corruptas, de fachadas políticas onde o mais forte impera porque “a lei é do mais forte e de quem tem melhores armas, é, poder, dinheiro, bons conhecimentos e bons advogados disponíveis, cada um sua medida”.


 


A narrativa, traçada com uma clareza ímpar, flui como uma cascata em que o leitor, ao atravessá-la, retém o folego até descortinar do outro lado vivências que brotam e se entretecem com oportunas descrições de fragmentos históricos e geográficos de Lisboa, acompanhados por factos sociais e políticos de relevante importância que nos potenciam recuperações de memórias passadas e presentes.


 


Na literatura, como no cinema, os personagens são a vida da ação, por elas sentimos interesse, curiosidade, fascínio, carinho, desagrado, admiração, condenação, antipatia ou simpatia que, através de um processo psicológico de projeção-identificação, tornam-se parte da forma como nós nos percebemos e de como somos. É o mesmo que se sente ao ler "A cidade de Ulisses".


 


“Criar era, naturalmente, um exercício de poder. Sim, eu não abdicava desse ponto. Queria exercer poder sobre o espectador. Fasciná-lo, subjugá-lo, convencê-lo, assustá-lo, enervá-lo, provocá-lo, deleitá-lo – criar-lhe emoções e reações” expressão do pensamento do personagem, artista plástico. São também poderes os que a boa literatura exerce sobre os leitores como se comprova em "A Cidade de Ulisses" em que a autora exerce ainda um outro poder: o de nos cativar para a leitura.


 


A geografia social e urbana foi a minha primeira paixão que, apesar de a ter atraiçoado com as Ciências da Educação, nunca esqueci, mesmo durante o deleite com esta mais recente. Sendo ambas sedutoras não resisti ao encanto da primeira porque esteve presente na unidade curricular de práticas pedagógicas da história e da geografia de Portugal que, entre outras, fui chamado a lecionar em cursos superiores de educação.


 


Na cidade de Ulisses a geografia e a história recentes lá estão, basta descobri-las. Para além da ficção Teolinda dá-nos apontamentos reais de roteiros lisboetas que a vida agitada do dia-a-dia não nos deixa descortinar. É no entrosamento entre o romance, a geografia urbana e a história passada e recente que se move a ação deste seu livro. Numa aula de interdisciplinaridade entre literatura e geografia este romance é um dos poucos que poderia ser utilizado. Conceitos de geografia urbana descritiva como rua, vila, avenida, talvegue entre outros são utilizados com propriedade ao descrever percursos lisboetas. Arquiteturas, mobiliário urbano, descrição da paisagem urbana fizeram-me recordar a “Leitura da Cidade” de Kevin Lynch que nos fornece importantes elementos marcantes que possibilitam a leitura da paisagem urbana e a orientação de percursos. Diz Lynch logo no primeiro capítulo que "Todo o cidadão possui numerosas relações com algumas partes da sua cidade e a sua imagem está impregnada de memórias e significações.".


 


Paulo Vaz, protagonista do romance, descreve que em Lisboa “…era fácil embrulhar-se no traçado irregular das ruas, que se interrompiam, cruzavam, mudavam de direção inesperadamente, ou não iam ter a lugar nenhum, acabavam num impasse”. “A única certeza, na cidade velha, era que, descendo sempre, se acabaria por chegar à Baixa e ao rio, quaisquer que fossem os acidentes de percurso.”. Lisboa não é assim nada comparável com a estrutura urbana, quase toda ortogonal, de uma cidade como Nova Iorque onde tantas são as avenidas imensas que se entrecruzam perpendicularmente com monotonia e os edifícios nos esmagam, não fosse o pulsar das gentes e do trânsito insuportável num constante corrupio.


 


"Portugal – O Mediterrâneo e o Atlântico" de Orlando Ribeiro, livro de geografia descritivo da paisagem física e humana de Portugal, publicado pela primeira vez em 1945, desatualizado no que à geografia humana diz respeito, mas pleno de atualidade na descrição da paisagem física, surgiram imediatamente no meu pensamento quando, já nas últimas páginas de "A Cidade de Ulisses", li que “Lisboa é uma cidade atlântica, mas de configuração mediterrânica: numa enseada que lhe oferece um abrigo natural e junto a uma colina, como em Atenas a acrópole.”.


 


Outra passagem recordou-me as férias passadas na Rinchoa com os seus pinhais, hoje destruídos e ocupados por blocos de cimento de habitações dormitório, quando nos finais dos anos quarenta princípios de cinquenta do século passado se gozavam nos arredores de Lisboa. Sempre que por ali passo recordo-me dos pastéis de massa tenra que a minha tia fazia e que eu devorava uns após outros seguindo de corrida para um baloiço improvisado no pinhal das traseiras da casa alugada à época.


 


O caminho traçado pela prosa de Teolinda em "A Cidade de Ulisses" contemplou-me com uma digressão rica em recordações, vivências e reflexões políticas e sociais que virão sempre à memória.


 

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publicado às 19:05


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