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In jornal Público em 22 de abril de 2022

O actual poder na Ucrânia ilegalizou o Partido Comunista?

Volodimir Zelenskii discursou na Assembleia da República por videoconferência Rui Gaudencio

Deputados comunistas não marcaram presença durante o discurso de Zelenskii. Ilegalização de homólogos ucranianos foi uma das razões apontadas.

A frase

“O 25 de Abril permitiu a libertação de antifascistas e democratas [em Portugal]. Na Ucrânia, acontece o contrário: há um poder que avançou no sentido da ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia, que avançou para a ilegalização de um conjunto de partidos políticos no próprio país”

Paula Santos, líder parlamentar do PCP

O contexto

Paula Santos, líder parlamentar do Partido Comunista Português (PCP), falava esta quinta-feira aos jornalistas sobre o discurso do Presidente ucraniano Volodimir Zelenskii, justificando ainda a razão para os deputados comunistas não terem marcado presença no hemiciclo durante a cerimónia. Classificando a comparação feita por Zelenskii entre a luta ucraniana e o 25 de Abril, relembrou a ilegalização do Partido Comunista ucraniano e a suspensão de outros partidos políticos.

Os factos

O processo de ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia foi de iniciativa política do Governo ucraniano, que começou por fazer passar uma lei que ilegalizava a urilização de símbolos comunistas e que acabaria por culminar, em Dezembro de 2015, com a ilegalização propriamente dita decretada pelo Tribunal Administrativo de Kiev, depois de dar como provado um alegado apoio aos movimentos separatistas pró-russos na região leste do país. 

No entanto, na altura, o Governo era dirigido pelo primeiro-ministro Arsenii Iatseniuk, que governava uma coligação composta por cinco forças políticas: o bloco pró-europeu de Petro Poroshenko (Presidente na altura), a Frente Popular, o partido Pátria, o Auto-ajuda e ainda o Partido Radical.

Apesar de não ter estado directamente envolvido neste processo, Zelenskii foi responsável pela suspensão de actividade política de 11 outros partidos em Março, após a introdução da lei marcial no país. O Presidente justificou esta decisão alegando que estas forças tinham ligações directas com a Rússia e Vladimir Putin. 

Em resumo

Volodimir Zelenskii não esteve directamente ligado à ilegalização do PCU, porque nem sequer estava na política quando o processo foi desencadeado pelo Ministério do Interior da Ucrânia e que culminou na decisão judicial. O Presidente ucraniano esteve, contudo, na origem da suspensão da actividade política de mais de uma dezena de partidos, após a invasão russa da Ucrânia a 24 de Fevereiro.

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publicado às 19:01

Ucrânia e Putin-2.png

Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.

Nas últimas semanas tem-se multiplicado uma infinidade de artigo de opinião e de comentários numa dicotomia entre os que revelam claramente estar contra a invasão e os outros, os pró Putin.

Antes de continuar, e porque parece estar a haver alguma animosidade contra os russos, devo esclarecer que nada tenho contra o povo russo nem contra a sua cultura, a minha opinião é a de estar contra as políticas de um líder autocrático e oligárquico que impôs ao povo russo uma democracia(?) iliberal belicista.

Uma democracia iliberal visa um poder executivo forte, controlando e manipulando os limites das instituições garantes da democracia tais como tribunais e outras instituições democráticas do estado. Para o justificar argumentam que essas instituições, garantes dos valores democráticos e de liberdade não possuem atribuições eleitorais e, como tal, impedem a vontade da soberania do povo. Desta forma a narrativa social é construída ganhando, assim, legitimidade dentro do cenário democrático. Sobre democracia iliberal ver aqui.

Ao escrever este texto veio-me à memória “From Russia with Love” com a tradução em português “Da Rússia com Amor”, filme de espionagem lançado em 1963 que permanece relativamente fiel ao romance de Ian Fleming, escritor britânico e autor do livro com o mesmo nome.

Questionei-me sobre o porquê deste filme surgir na minha memória. A memória recente deu-me a resposta: foi o nome do comentador Alexandre Guerreio que ouvi recentemente seguir o mesmo relato da propaganda de Putin e dos seus mandatários que podem ver aqui.

Em tempos de guerra surge sempre quem se colocam de um lado, ou de outro, dos intervenientes do conflito. Foi assim também na segunda guerra mundial quando, por estranho que pareça, também houve quem estivesse do lado III Reich, no início não só os alemães.

Instalou-se com esta guerra um conjunto de gente, felizmente pouca, antiamericana e anti NATO às quais acrescentam o seu antieuropeísmo irracional. Os apoiantes desta corrente não são recentes, agitaram-se a pretexto da invasão da Ucrânia por Putin e colocam-se do lado de um Estado que agride militarmente outro povo soberano e que o massacra. Esta é a realidade e não há argumentos que o justifiquem por mais rebuscados que sejam.

Esta gente reanima ódios antigos que vêm do tempo da URSS e da Guerra Fria que agora estão a ser aproveitados para a sua ressurreição com novos contornos. Daí as teses do PCP contra os EUA, a NATO e a União Europeia em favor da defesa das posições do Kremlin.

O colapso da URSS que foi recalcado por uma espécie de catarse saiu do seu subconsciente ideológico. A retórica da paz que proclamam, com omissões de princípio, em relação à invasão da Ucrânia, vem das palavras de Jerónimo de Sousa que vinculam o PCP e está nas críticas feitas ao governo ucraniano em linha com as de Moscovo. Ao mesmo tempo que diz apoiar o apelo “à solidariedade e ajuda humanitárias às populações”, acusa a Ucrânia de dar apoio a grupos fascistas ou neonazis, alinhando com uma das narrativas usadas por Putin para justificar a invasão daquele país.

Os argumentos recorrem a históricos condenatórios de outras guerras em que intervieram outros Estados, mas cujos contornos e circunstâncias não se encaixam com as atuais. Seria bom que o PCP em vez de falar em golpes recordasse o que se passou na Ucrânia.

Sem me alargar em história porque isso compete a outros debruço-me apenas sobre alguns factos da atualidade da última década para nos situarmos.

Yanukovych foi presidente da Ucrânia de 25 de fevereiro de 2010 a 22 de fevereiro de 2014 que formalmente rejeitou um acordo de cooperação com a União Europeia que há muito tinha sido negociado e que poderia, no futuro, fazer passar a Ucrânia a ser um dos seus membros e integrar o bloco dos 28 países. Este mesmo presidente, na mesma altura, terá recebido uma série de empréstimos oferecidos pelo governo russo de Putin iniciando um processo de aproximação política com o Kremelin. Esta situação levou a uma série de protestos no oeste da Ucrânia denominados "Euromaidan" que já tido início em 21 de novembro de 2013. Protestos públicos que evoluíram para apelos à renúncia do presidente Viktor Yanukovych e do seu governo.

Além da questão da integração com a Europa havia ainda acusações de corrupção contra elementos do governo, pró-Rússia, que também motivou os protestos.

A análise da situação concluiu que Yanukovych estaria sob pressão direta da Rússia e que o anúncio brusco de que o acordo com a União Europeia não seria assinado por os russos de Putin ameaçarem impor sanções à Ucrânia tendo sido Yanukovych chamado de urgência para um encontro em Moscovo com o presidente Vladimir Putin.

Mas voltemos à atualidade recente. O estilo fascizante de Putin está presente na organização de um comício político disfarçado de concerto no passado 18 de março do corrente que e cujo seu discurso podemos considerar como sendo para a obtenção de apoio à guerra, de exaltação patriótica e de celebração dos feitos militares da Federação Russa na Ucrânia ao velho estilo nazi.

Do meu ponto de vista há os que dizem defender a paz e ao mesmo se colocam do lado de Putin. Esses que dizem defender a paz são os que sustentam que a culpa da guerra é de outros. Sem o dizerem claramente alinham com o pensamento do presidente Vladimir Putin que, em dezembro de 2021, lamentou o colapso da União Soviética há três décadas a que ele chamou "Rússia histórica", conforme noticiou na altura a agência Reuters.

Os comentários de Putin, em tempo divulgados pela TV do Estado Russo (RT-Russia Today), terão provavelmente alimentado ao que chamaram especulação sobre as suas intenções em política externa que os críticos internos, (não sei se hoje ainda existem), aproveitaram para o acusar de projetar a recriação da União Soviética e de contemplar um ataque à Ucrânia, ação que na altura o Kremlin de Putin considerou como sendo ousada.

 Não há dúvida de que a Rússia de Putin é uma democracia iliberal autocrática tendencialmente expansionista que parece estra a pretender provocar uma crise idêntica à que a Alemanha Nazi colocou em prática em 1938. Há mesmo quem chame a Putin czar e o compare a Stalin e a Ivan, o Terrível, quando na Polónia em 2009 falavam de Putin.

Escrevia-se então em setembro de 2009 aquando das comemorações do início da Segunda Guerra Mundial em Gdansk que “Putin passou a última década a procurar restaurar a grandeza russa, em parte através da reabilitação de Josef Stalin e a encorajar uma narrativa heroica e nacionalista dentro do país”.

Estas afirmações são preocupantes pela tentativa de recuperar um passado tenebroso utilizando táticas semelhantes através da utilização de armamento mais sofisticados e com novas estratégias.

Há um erro quando se pensa que a Rússia, em 1939, trouxe a liberdade à Europa central. Estaline atraiçoou a Polónia depois da invasão nazi invadindo-a pelo Leste. Hoje as ambições imperiais de Putin continuam a ser um perigo, como foi demostrado pela guerra contra a Geórgia em 2008.

Foi em Gdansk onde começou a invasão da Polónia pela Alemanha de Hitler.  No dia 1 de setembro de 1939 iniciou uma guerra de seis anos. A Polónia foi dividida em 1939 pelas tiranias gémeas de Hitler e Estaline e foi onde ocorreu o assassinato em massa de judeus no Holocausto nazi e terá sido o principal alvo de campanhas de propaganda concertada russa do Kremlin.

Relativamente à Ucrânia podemos supor que todas as tentativas para chegar a um acordo de paz com Putin serão do ponto de vista moral do direito internacional e do ponto de vista prático e político serão infrutíferos, prejudiciais e perigosos tal e qual o foram todas as tentativas de apaziguar as nazis realizadas entre 1934 e 1939 ao fazer vários acordos e pactos que resultaram em fracassos e não foram respeitados.

Elísio Estaque, sociólogo, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra escreveu num artigo de opinião mo jornal Publico que “O facto de a NATO ter sido criada como força de oposição à URSS num contexto de Guerra Fria, de profunda divisão ideológica no mundo ocidental (capitalismo versus socialismo), associado à imagem do exército soviético no pós-guerra, visto como força libertadora no confronto contra a Alemanha nazi, contribuiu para perpetuar a simpatia das “vanguardas” com a “pátria do socialismo” durante décadas. Desde a Revolução de Outubro, com Lenine e Trotsky, passando por Estaline, Krushtchov, Brejnev, etc, mesmo após a implosão do regime, muitos continuaram a ver no poder russo a força capaz de se opor aos EUA, o locus do poder hegemónico num mundo unipolar.

Na sua cegueira dogmática já veem nesta guerra as trombetas a anunciar o fim do capitalismo ocidental e a consequente queda do império americano.

Fazer comparações com outras ações belicistas da NATO, no passado, ou apresentar contabilidades da mortandade em várias outras latitudes que não a Europa, são de uma insensatez intolerável. Nenhuma ação bélica desta natureza pode ser relativizada, seja onde for e por quem for”.

Facciosos que pretendem desviar as atenções das responsabilidades de Putin nesta guerra insistem no que os EUA e a NATO fizeram no passado, mas omitem que o presidente russo já foi acusado de financiar vários partidos da extrema-direita na Europa; omitem ter interferido nas eleições norte-americanas, procurando beneficiar Donald Trump; omitem que Putin não esconde as suas preferências na Europa por Órban, Le Pen, Salvini, Santiago Abascal.

Há quem esteja com uma venda nos olhos espreitando por alguns orifícios causados pelo desgaste ou que não queira ver por néscia teimosia, e menos por ignorância, e que, por isso, insistem na retórica discursiva do prisioneiro inocente que se defende dizendo que foram outros que o quiseram tramar. 

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publicado às 19:14

Eleições e a matemática.png

Começa a não haver paciência para a leitura de certos artigos de opinião escritos após eleições, alguns que até chegam a ser ridículos. O objetivo destas opiniões é exclusivamente a desvalorização das perdas do partido ou partidos da simpatia dos articulistas, mesmo para os que, como eu, tentam fazer um distanciamento.

Após umas eleições para a maior parte dos partidos que ficam com assento no Parlamento, é sempre a mesma coisa. Há almas que buscam e rebuscam números que justifiquem que, apesar de terem perdido ganharam, e que garantam que os que ganharam afinal perderam. Isto é, tentam o milagre de fazer ganhar quem perdeu e de fazer perder quem ganhou.

Esta neste caso João Miguel Tavares no artigo de opinião no jornal Público que não foge à regra. Recorre à matemática ao estilo do torturem os números que eles confessam e recorre à lógica da evidência que, não sendo da batata, mostra que nada acrescenta ao resultado final para resolução da equação.

São os mesmos que criticam os partidos que, frente às câmaras de TV, dizem que afinal não perderam porque ganharam aqui e ali, mas que fazem agora o mesmo pegando em frases que podemos considerar como hiperbólicas ditas no calor da vitória assim como tudo quanto é dito e escrito em tempo de noite de eleições e durante o respetivo rescaldo.

Reparem nestes parágrafos do artigo de opinião que João Miguel Tavares publica no jornal Público onde pretende rescrever os resultados eleitorais, e contrariar o óbvio, ou, talvez pretender sugerir que  se deve mudar a “contabilidade” de modo que, no futuro, seja dada a vitória aos partidos com que mais simpatiza. Veja-se este parágrafo que ele escreve:

“Há três grandes enganos sobre a noite eleitoral que convém desmontar. Engano número 1: António Costa ganhou em toda a linha. Não ganhou. O PS perdeu muitos votos para a direita, nomeadamente para Rui Rio.”. Recorre a uma demonstração aritmética por conveniência: "Ajuda muito que seja verdade, por isso...". Acrescenta que a votação no PSD subiu 120 mil votos. A votação no PS subiu 338 mil. Juntos, o Bloco, o PCP e o PAN perderam 448 mil votos, apesar do aumento da participação eleitoral…”. “… o PS teve à sua disposição 436 mil votos perdidos pela esquerda, mais uma parte significativa do crescimento na população eleitoral (imaginemos 40%, 56 mil votos). Isso dá perto de meio milhão de votos a entrar no PS pela esquerda. Mas a subida foi só de 338 mil. Logo, António Costa teve pelo menos 160 mil votos a saírem pelo centro-direita…” E por aí fora. Não vale sequer a pena perder tempo com isto, mas o que podemos deduzir daqui é onde o PS foi buscar os votos. A pergunta que podemos deixar no ar é onde foram o IL e o CHEGA buscar votos? Terá sido ao CDS e ao PSD? João Miguel que responda.

Como se isto tivesse agora importância. O PSD conseguiu mais votos? Ainda bem que goze com isso. Que o PS teve menos votos, então consolem-se com os votos que dizem o PS ter perdido.

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publicado às 18:20

 

  

Será a censura que incomoda Pacheco Pereira? | Nota da Direcção | PÚBLICO

O que revelam os debates

A racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates.

José Pacheco Pereira num artigo de opinião publicado no jornal Públicode faz uma análise dos debates que, de certo modo, coincidem com os meus pontos de vista enquanto telespectador atento.

Os intervenientes nos debates partidários, assim como os comentadores que se lhes seguem, preocupam-se mais com pontos de vista efémeros do que com a verdade e a isenção, sobre assuntos muitas vezes longe das suas áreas de competência profissional. São uma espécie de relatores do que se viu, mas, de acordo com a sua idiossincrasia ideológica e partidária avaliam positivamente os intervenientes que mais dela se aproxima podendo assim influenciar o público o sentido de voto.

O que revelam os debates

(José Pacheco Pereira, in jornal Público, 08/01/2022)

A racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates.

Numa campanha eleitoral que se passa quase exclusivamente na comunicação social, os debates televisivos, mais de 30, acabam por ter mais importância do que se fossem mitigados por eventos de campanha, que a pandemia hoje não permite. (*) Já escrevi e repito, apesar da fúria de alguns jornalistas e gente de agências de comunicação que precisa de os bajular: uma campanha eleitoral totalmente dependente da comunicação social abre caminho a perversidades. Não se trata de mediação, que é suposto ser uma função fundamental da comunicação social, trata-se de opinião, de manipulação, de parti-pris, simpatias e antipatias escondidos sob a intangibilidade da condição profissional. Não é preciso ir mais longe do que a recente campanha interna no PSD em que a maioria dos jornalistas e órgãos de comunicação social fez campanha por Paulo Rangel e contra Rio. A coisa foi tão evidente que não é preciso dar exemplos, mas, se for preciso, abundam.

Os debates, quando não têm um interlocutor suplementar que interfere de forma agressiva no debate, prejudicando-o (como se passou em debates da SIC em que parecia que havia um terceiro participante na campanha), na parte em que há um genuíno frente-a-frente são reveladores e podem ter um papel na opinião traduzida no voto. Eles revelam, em primeiro lugar, as qualidades e defeitos pessoais dos antagonistas, traços de carácter por detrás da encenação, o que sabem ou não sabem, a inteligência, a capacidade de clareza, a riqueza vocabular, a cultura política ou a sua ausência, a experiência e aquilo a que os sociólogos chamam background assumptions, as ideias, preconceitos, gostos, que estão por detrás do discurso público. Nisto os debates são razoavelmente eficazes, e a logomaquia dos comentários posteriores pode ser útil na sua revelação e escrutínio.


É, no entanto, verdade que essa torrente de comentários, mesmo os melhores - porque muitos não têm pés nem cabeça e resultam em “notas” absurdas para mostrar como são originais os “professores” ou são exercícios de La Palisse –, se tornam em grande parte desnecessários porque os espectadores apreendem com facilidade este aspecto da comunicação, que é empático e por isso imediatamente transmissível. Por exemplo, a frieza de Catarina Martins e Rui Tavares, o cansaço de Jerónimo, a habilidade de Costa, os labirintos em que se enreda Rio, a agressividade monocórdica de Ventura, tudo isto se percebe de imediato, seja quais forem as simpatias que se tenha por cada um deles.

Depois, há um outro nível, que é o da racionalidade, normalmente num exercício de “revelação” do outro, em que o grande e o único exemplo foi o de Rui Tavares face a Ventura. Mas a racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates. Quando Cotrim de Figueiredo disse que o Bloco de Esquerda era o “Bloqueio de Esquerda”, designação trazida no bolso de casa, acabou por conseguir que ela fosse repetida nos títulos comunicacionais – porque era para isso que tinha sido preparada –, mas por outro lado mostrava que nada mais do que dissera valia a pena repetir.

Ventura, que foi a personagem-chave nos primeiros debates pelo estilo agressivo, pareceu dominar, mas esse aparente domínio revelou algo que lhe é prejudicial, a repetição de acusações, invectivas, afirmações de peito cheio, mas de cabeça vazia, vai perdendo eficácia à medida que os debates com ele são sempre a mesma coisa. O seu único sucesso foi com Rio, que ele enredou em directo, com todos os outros ficou a falar sozinho, sem ter nada para dizer. Também aqui o debate mais conseguido foi o de Rui Tavares.

Aquilo para que os debates pouco servem é para discutir propostas ou programas de governação, com o tempo curto de mais para pensar e discutir a sério. Numa atitude hipócrita, a comunicação social está sempre a queixar-se de que não se discutem os “problemas dos portugueses”, porém aceita um modelo que impede qualquer discussão, mas que é bastante para o espectáculo, para os truques e armadilhas preparados. A rigidez da legislação eleitoral tem também um papel, ao multiplicar de forma absurda o número de debates para assegurar artificialmente a igualdade das candidaturas.

Há também um outro aspecto que é negativo nos debates tal como estes se têm desenvolvido. A obsessão de os transformar em combates, que é comunicacionalmente mais atractivo, impede que se tracem as “linhas vermelhas” com propostas antidemocráticas que o crescendo populista está a colocar em cima da mesa. Ora o populismo é a grande novidade na vida política portuguesa.

Não adianta chamar fascista a Ventura, que não o é, mas sim um extremista de direita, que já basta como epíteto e é mais correcto, mas já se ganhava alguma coisa se ele fosse confrontado com as suas propostas antidemocráticas que ele debita como se fossem “normais”. Um exemplo é a de “cortar” os lugares de “políticos” pela metade, ou a de cortar os salários dos deputados para metade, que parecem populares, mas que são intrinsecamente antidemocráticas. Alguém lhe explica que nos milhares de lugares “políticos”, nas autarquias, por exemplo, a esmagadora maioria não são remunerados, mas o sinal de uma dedicação à causa pública, ou uma democratização da participação popular? Ou que a demagogia sobre os salários dos políticos, conduz a que haja apenas candidatos desqualificados para quem qualquer salário é bom, ou lobistas ricos com rendimentos que não precisam de ganhar um tostão para beneficiar do acesso ao poder? Ou pura e simplesmente dizer-lhe que numa democracia há o primado da lei, e que as garantias de defesa e do ónus da prova são para todos, assassinos e corruptos incluídos. E que penalizar os “crimes de colarinho branco” com o dobro das penas dos assassinos é uma perversão da justiça, por muito que os seus apoiantes salivem com os “casos” de corrupção e se revelem indiferentes aos crimes de ódio. Em tudo isto e muito mais, tem havido falta de coragem para confrontá-lo, porque estas posições só são populares quando não se combatem com a intransigência da democracia.

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publicado às 18:31

Escreve hoje Pacheco Pereira no jornal Público:

"Escrever sobre impressões é arriscado e corre o risco de ser inútil ou, pior, ser uma colecção de lugares comuns. Não há nenhum medidor do “cansaço”, da “tristeza”, da “zanga” no sentido do título, a não ser estudos de opinião, sondagens, num terreno muito mais subjectivo do que objectivo. Mas há sinais. Maus sinais. Comecemos pela razão por que eu não digo que é Portugal, nem “o país”, nem “os portugueses”, o sujeito, mas sim a democracia. E aqui as coisas pioram muito, porque o estado da polis, que seria o primeiro remédio se estivéssemos a falar do país, ou o local onde em democracia se poderiam “arranjar” as coisas que estivessem estragadas, andando mal, tudo o resto tende a ser pior. Voltemos ao pathos, ao logos e ao ethos."

Pode continuar a LER AQUI.

 

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publicado às 16:37

Dois pontos do artigo de Teresa de Sousa

por Manuel_AR, em 31.05.21

Jornal Público.png

In jornal Público 29 de maio de 2021

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“A vida humana não tem prazo de validade, mas o mais indigno foram os estereótipos com que a questão foi sendo tratada, incluindo na comunicação social. Os “velhos” – quer dizer, os que têm mais de 65 ou 70 anos – foram e são olhados como equivalentes a “inúteis”. Reformados, fechados nas suas casas, tendo como única ocupação olhar para os televisores e matar o tempo que lhes sobra. Nada disto é verdadeiro. A maioria das pessoas com 65 ou mais anos tem hoje uma vida activa, que inclui, muitas vezes, um trabalho exactamente igual aos outros nos mais variados sectores. A sua vida é tão activa como a de uma pessoa de 30 ou 40 anos. Vão ao supermercado, arrumam a casa, ajudam as famílias, vão ao cinema e ao teatro, lêem livros, frequentam os restaurantes. E trabalham. Mas, nessa altura, era “prioritário” vacinar um rapaz saudável de 30 anos, professor ou bombeiro, cheio de saúde.

Como interpretar isto? Ainda tenho dificuldade em perceber, a não ser recorrendo à ironia: resolver o problema da sustentabilidade do regime de pensões.”

 

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“Só uma nota final ao cuidado dos responsáveis. Já toda a gente reparou que, nas ruas de Lisboa, há hoje dois tipos de pessoas: os portugueses, todos de máscara, e os estrangeiros quase todos sem máscara. Nem no rosto nem na mão. Talvez no bolso, não sei. Cruzo-me com imensos. Nunca vi um agente da PSP chamar a atenção para o facto. Percebo que os turistas nos fazem falta. Mas talvez fosse conveniente – no aeroporto, nos hotéis, nos restaurantes ou a própria PSP – informá-los delicadamente de que a máscara na rua continua a ser obrigatória. Quando os cientistas nos explicam todos os dias o significado das variantes e como o vírus se vai adaptando aos graus de imunidade que encontra pela frente, talvez não fosse má ideia.”

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publicado às 19:24

Populismo3.png

Em Portugal sempre existiu populismo, embora contido, nos vários partidos, sobretudo em tempo de campanha eleitoral. Nessa altura regressam à tona  partidos mais radicais que, não tendo programa exequível, tentam demonstrar contradições do sistema e procuram a explorara a distinção entre dois grupos antagónicos: um, virtuoso e maioritário, o povo, que todos exaltam e outro que diz defender procurando ganhar vantagens com o apelo a reivindicações ou preconceitos amplamente disseminados entre a população utilizando as redes sociais.

Nessas alturas os dirigentes partidários apelam às emoções, o que é legítimo, porque a política também é feita de emoções, todos os políticos tentam utilizar uma linguagem emocional e tentam apresentar propostas que agradem aos eleitores.

Por outro lado, o desinteresse pela política por parte dos cidadãos, porque acham que a discussão política é para meia dúzia de iluminados dos partidos que lutam entre si para chegar ao poder, é um outro fator explicativo.

Quais as implicações de aceitar de forma cega tudo o que se diz e escreve nos órgãos de comunicação clássicos e, sobretudo, nas redes sociais e quais as consequências dessa aceitação devido ao desvario das populações que o reproduzem acriticamente de forma viral? 

Governantes de países passaram a utilizar a tecnologia das redes sociais para comunicar com as pessoas e que por serem governantes o que eles dizem são aceites pelos seus apoiantes como verdades e opiniões a serem aceites ou desmentidas transformando verdade em mentiras e mentiras em verdades. Mentiras e informações falsas colocadas nas redes sociais até mesmo em conferências de imprensa ditas por responsáveis máximos da política dos países são por muitos tomadas como verdades, o caso do Presidente Trump nos EUA é um caso de estudo.

Em Portugal passou a estar também na moda dirigentes partidários e responsáveis do Governo comunicarem através das redes sociais. Os partidos da extrema-direita são prolíferos na propagação do populismo e das suas mais absurdas teses.

Após as eleições nos Açores o acordo com o Chega gerou polémica que emergiu na comunicação social e nas redes sociais que deu, e ainda está a dar, para todos os gostos. Numa primeira análise o PSD caiu, por vontade própria, na armadilha de se apoiar num partido populista como o Chega dando-lhe o protagonismo que até então lhe tinha faltado para além das caóticas intervenções de André Ventura na AR. Não é por acaso que os populistas utilizam uma retórica para chegar a segmentos da população que sentem que foram deixados para trás pelos dois maiores partidos e que se deixam, devido á sua ignorância política, encantar por discursos simplistas e chavões fáceis de fixar repetidos até à exaustão.

Como tem sido habitual ao longo de décadas as inovações e modas em sentido lato, sejam elas boas ou más, chegam com anos de atraso. O mesmo aconteceu com o populismo da extrema-direita que se pensava ser pouco ou nada representativa na nossa sociedade e que Portugal estaria a salvo, muito embora soubéssemos que andavam por aí acantoados em partidos de direita e do centro-direita considerados democráticos e que fazem parte do denominado arco da governação.

Aliás, os partidos populistas e da extrema radical de direita estiveram sempre presentes na maior parte dos países, especialmente na U.E., não se extinguiram após a derrota do nazismo e dos fascismos, apenas ficaram adormecidos durante algumas décadas vindo a ressurgir.

O fenómeno do populismo associado ao próprio conceito não é fácil de caracterizar embora vários especialistas já tenham proposto várias definições. Na perspetiva do filósofo e historiador britânico de Isaiah Berlin não há apenas um populismo, há versões do mesmo “consoante a mudança histórica que sublinha a natureza específica do desenvolvimento do populismo em países, locais e datas específicas”. Acha que uma única fórmula para cobrir todos os populismos em todo o lado não serão muito úteis.

O interessante foi que Berlin comparou ao conto da Cinderela a tentativa de definir populismo através de uma única definição. Diz que não devemos sofrer de um complexo de Cinderela. Há um sapato, para o qual deve existir um pé em algum lado. Há vários tipos de pés nos quais os sapatos “quase” se encaixam. O príncipe que anda sempre a vaguear com o sapato acredita que um dia encontrará o pé certo.  Esse será o populismo puro e a sua essência.

Para Isaiah Berlin “Todos os populismos são derivações do mesmo, desvios do mesmo e variantes do mesmo, mas algures por aí esconde-se um verdadeiro e perfeito populismo, que pode ter durado apenas seis meses, ou [ocorreu] em apenas um lugar”. Consultar BERLIN, Isaiah – «To define populism»., 1967, p. 6.

O populismo reclama ser pela afirmação dos direitos do povo face ao grupo dos interesses privilegiados, considerados habitualmente como inimigos do povo e da nação, dirige as suas críticas às deficiências da democracia representativa que diz não refletir o pensar e o querer do povo.  Veja, por exemplo, o caso do partido Chega e o género de intervenções feitas por André Ventura e os estribilhos e lugares-comuns que ele utiliza. O Chega representa a chegada do populismo da extrema-direita a Portugal.

Como chegámos até aqui?

Acima de tudo, a globalização fez com que as nossas vidas fossem de facto influenciadas por fatores que não podemos controlar. E enquanto os populistas dizem que é preciso "recuperar o controlo", os outros políticos dizem que não se pode fazer nada, "ou porque somos parte da UE ou porque a imigração vai continuar…". O resultado é que a maioria não tenta responder às necessidades e aos receios, às vezes justificáveis, das populações.

Nos estados europeus a globalização e a crise económico-financeira diminuíram o investimento, impedindo ou retardando o desenvolvimento económico agravado pela crise de 2008 e pelos efeitos da austeridade consequentes aplicados pelos governos acrescidos pelo aumento do desemprego que causaram um sentimento de insegurança. A "crise migratória" que os dirigentes europeus declararam existir no território da União Europeia ajudou ao crescimento de partidos populistas e xenófobos.

Os movimentos de imigração e de refugiados que assolaram e assolam os países da U.E. geram uma concorrência no mercado de trabalho nos países que os acolhem aproveitado como um dos argumentos da extrema-direita xenófoba que é falacioso porque aqueles vão ocupar as lacunas que os autóctones não querem ocupar assim como a escassez de investimento no comércio local que tem vindo a desaparecer e onde ninguém quer investir. Estas imigrações ocasionam graves problemas de acolhimento nos países de chegada que são aproveitados pelos populistas da extrema-direita racista e xenófoba.

Esta situação e outras, assim como as indecisões ao nível da U.E. tem sido aproveitada por alguns governos apoiados por partidos de direita ou de extrema-direita como na Hungria de Orbán, na Polónia de Jaroslaw Kaczynski, e na Áustria de Sebastian Kurz em coligação com o Partido da Liberdade da Áustria (FPö), que têm adotado políticas violadoras dos direitos fundamentais e da democracia liberal defendidos pela U.E. Em Espanha, pelos mesmos motivos e como reação à política de austeridade e contra o euro, surge o Podemos, embora sem conseguir chegar ao poder. No espaço da União Europeia foi a "crise migratória" existente que ajudou ao crescimento de partidos populistas e xenófobos como o AfD alemão.

Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional, partido da extrema-direita francesa e nacionalista radical, antes da eleição de Macron, apresentava-se como uma perigosa candidata à vitória na eleição presidencial, o que poderia colocar em perigo a sobrevivência do projeto europeu.

Quando foi colocada a Le Pen a questão sobre as razões por que os partidos que se dizem antissistema estão a obter tanto relevo na Europa resumiu o credo populista da extrema-direita na europa: «Creio que todos os povos aspiram a ser livres. Os povos dos países da União Europeia, e talvez também os americanos, terão tido durante demasiado tempo a sensação de que os líderes políticos não estão a defender os seus interesses (os do povo), mas antes, interesses especiais(?). Há uma espécie de revolta da parte do povo contra o sistema, que já não os serve mais, mas antes a si próprio». Ver aqui. É com este palavreado, a que chamam argumento, que as extremas-direita, nacionalistas, xenófobas e populistas se agarram para, habilidosamente, iludirem os insatisfeitos com as políticas praticadas em democracia que acham não ter contemplado os seus interesses.

Uma das evidências dos perigos que espreitam as democracias liberais vem dos partidos de extrema-direita é o que atualmente estão a perpetrar os governos da Hungria e da Polónia, a que se juntou depois o apoio da Eslovénia, utilizando uma força de bloqueio contra o pacote de resposta à crise aceite por todos. Consideram ser inaceitável que não possam aceder aos novos fundos europeus por discordarem da condicionalidade do critério pelo respeito ao Estado de Direito. São eles os mesmos países que propagam que se mostram receosos do regresso do “espectro do comunismo” à Europa, como se no atual contexto político isso fosse o perigo real.

Este é apenas um exemplo de como governos autocráticos de extrema-direita se dedicam por todos os meios democraticamente disponibilizados a minar os alicerces das democracias e dos perigos que a direita populista faz pairar sobre a democracia europeia. Manuel Carvalho escreveu num editorial do jornal Público que “Não se pode aceitar que a Hungria ou a Polónia beneficiem das vantagens da Europa, ao mesmo tempo que se dedicam a minar os seus alicerces”.

A mensagem nacionalista, anti-imigrante, anti étnica, racista e xenófoba, por vezes eurocética e anti União Europeia veiculada pela extrema-direita é representada em Portugal pelo partido Chega.  O populismo em Portugal ainda está no seu início, mas já está a dar os seus frutos e a “vender bem”. O perigo do populismo do Chega, e de outros partidos do mesmo, ou pior espetro, deteta-se por meio de diatribes tais como:

- Críticas isoladas e desconexas dirigidas aos políticos, aos partidos (que não seja o deles);

- Críticas aos órgãos representativos dos cidadãos indigitados através de eleições livres;

- Chamando a si a luta contra a corrupção colocando em causa setores da administração pública, organizações privadas com relevância na vida económica ou social com tentativas para descredibilizar, sem fundamentação científica, o funcionamento do sistema político (veja-se o caso de Trump nos EUA);

- Incoerência com outros valores e medidas que igualmente defende, que são um fator disruptor dos direitos fundamentais da liberdade e da igualdade e da tolerância garantes da dignidade da pessoa humana, pondo também em risco o Estado de direito que os salvaguarda.

Estes movimentos e partidos são um vírus que se está a expandir tornando-se uma ameaça e um perigo para a democracia e que vai corrompendo por forma dissimulada os seus valores e procedimentos essenciais, tanto mais perigoso se torna quando partidos democráticos para obterem ou manterem no poder os chamam para fazer acordos colocando os interesse partidários acima dos interesses democráticos do país e dos próprios cidadãos.

Sofia Lorena, num artigo publicado no jornal Público em 2018 baseado no pensamento de Daniele Albertazzi, especialista em movimentos políticos e estudioso do fenómeno populista na “Escola de Governo e Sociedade da Universidade de Birmingham”, escreveu que «Um líder populista é aquele que se vai apresentar como representante de um único povo, unido e homogéneo, que está face a uma ameaça. Esta ameaça pode ser a elite política ou algo externo. Estes líderes defendem que o seu povo está a ser roubado — dos seus valores, princípios, identidade. E em breve será demasiado tarde para recuperar o que lhes está a ser tirada».

É fácil defender que os povos europeus perderam o controlo das suas vidas porque há anos que a Liga Norte italiana de Salvini, partido de extrema-direita, dizia que "temos de ser donos e senhores da nossa própria terra". André Ventura chegou a dizer em agosto de 2020 que “Eu e Salvini, de mãos dadas, é um sinal para o futuro de Portugal e Itália”.

Para os populistas há sempre bodes expiatórios que são os causadores da desgraça do povo, na Alemanha nazi eram os judeus, noutros países são os muçulmanos, em Portugal, por enquanto, são os ciganos e em alguns casos os negros e outras etnias, os políticos e os partidos são extensão da corrupção.

Os populistas atacam a lentidão da democracia representativa e liberal e "apresentam-se sempre como defensores do tal povo homogéneo contra outros — os imigrantes, as etnias, as pessoas que seguem uma religião minoritária ou que não se encaixam por algum motivo", diz Albertazzi.

 

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publicado às 18:52

Festa do Avante-2.png

Há alguns artigos de opinião escritos por profissionais jornalistas que são para mim de difícil compreensão. Goste-se ou não do que escrevem, concordemos, ou não, cada um pode escrever o que quiser sobre o que quiser e não os podemos criticar por isso.

Quando se trata de opiniões cujo tema venha em defesa de circunstâncias justificada por argumentos que, apesar de serem aceites como válidos, possam delinear em prejuízo da comunidade, pondo-a em perigo, parece-me inaceitável. Alguns dos argumentos são falaciosos e desajustados por comparações feitas entre diferentes realidades com características específicas. Comparar praias cheias em espaços largamente abertos e sem barreiras, que não sejam as barreiras de contacto social físico, onde pequenos grupos se dispersam, com eventos políticos, religiosos ou culturais de dezenas de milhar de pessoas realizados mesmo que em espaços restritos embora amplos e heterógenos, onde a tendência é o agrupamento inevitável, parece-me absurdo.  Quem leu o artigo de Henrique Raposo publicado no Expresso diário de 10 do corrente “Avante!: dez razões para a festa avançar” fica com essa impressão, e eu fiquei.

O artigo escrito pelo “liberal” de iniciativa, é ele que se define politicamente, não sou eu. Conforme com as suas próprias palavras: “Até vos digo uma coisa: se não tivesse a Iniciativa Liberal no boletim de voto, votaria PCP nas próximas eleições.”

Vemos que, de facto, o liberalismo, defende uma liberdade pela rebeldia, como escreve Henrique Raposo: “É urgente reforçar o lado da rebeldia e da liberdade numa sociedade tão paralisada, tão medrosa, tão obediente”. O que ele omite é que, na realidade, após instalada a rebeldia para reforço da liberdade, o novo Estado daí saído reforçaria de imediato a sua autoridade para depois exercer a repressão contra outra rebeldia instalada.  Nesse novo mundo da Liberdade neoliberal seria acionada para alcançar um “sol na terra”, nome com que em tempo o falecido Álvaro Cunhal designou a URSS em determinada altura, mas agora com sinal contrário.

Em tempos graves de epidemia quando na Europa se voltam a tomar medidas mais drástica para defesa da saúde pública o artigo está impregnado de inconsciência e desprezo pela saúde do próximo. Mais parecem argumentos de Trump e Bolsonaro, mas com mais sofisticadas palavras.

Henrique Raposo coloca a tónica sobretudo nos aspetos da economia ao longo de dez razões em que algumas mais me parecem ser conotadas com: morram muitos, adoeçam milhares, propague-se a doença, mas deixem-nos fazer o que quisermos para que tudo continue como foi no passado recente. Tudo ao molho e fez em Deus. É fazer saltar o simbólico Laissez-faire do liberalismo económico fundamentalista, na sua versão mais pura de capitalismo, para o Laissez-faire, Laissez-passer na saúde pública.

Henrique Raposo defende que a Festas do “Avante!” assim como qualquer outro evento cultural, desportivo e musical deveriam passar a deixar de ter quaisquer restrições. Leitura minha errada? Talvez, mas quem lê o artigo e não esteja na cabeça do autor é o que presume.

Há alguns, muitos, que não puderam, nem podem ficar em casa confinados (#ficaremcasa segundo o autor para seguir a moda do hashtag) porque têm de trabalhar. É certo. Entretanto ao ler o artigo uma dúvida me assaltou: será que Raposo não esteve confinado no acolhimento do seu lar escrevendo os seus artigos em segurança enquanto outros tiveram de sair de casa para os poder publicar, tratar da edição e fazer a impressão do jornal para onde escreve?

 Os argumentos utilizados pela direita radical liberal são argumentos semelhantes aos de alguma esquerda radical como o são, nesta matéria, alguns dos publicados por Raquel Varela que tive oportunidade de ler no seu blog durante março e abril. Defendem o mesmo contra as medidas de exceção, mas de sinal ideológico contrário. Aqui os extremos também se tocam.

Quando os da Iniciativa Liberal falam em Liberdade confundem o conceito para baralhar quem os escuta. O liberalismo económico sempre utilizou o conceito de liberdade absoluta para os da alta finança e, para outros, liberdade, mas pouca. Para isso, e se tal for necessário, coarta todas as outras liberdades e direitos. Os únicos direitos que defendem são a liberdade e o direito à obtenção de riqueza por qualquer meio, sem regulação, e o direito e a liberdade para a manutenção da pobreza e da liberalização do mercado de trabalho sem quaisquer restrições, porque deles depende a sua sobrevivência.  

Os neoliberais, ou aqueles que se intitulam de liberais, que nos seus discursos demagógicos e populistas usam a palavra liberdade e combatem a instituição do Estado democrático, porque querem que gaste pouco e cobre pouco, ou seja, que tenha pouco poder. Estes senhores ou não entenderam o que é o liberalismo e como temos de proteger as liberdades individuais no séc. XXI, combatendo os seus verdadeiros inimigos; ou só querem iludir as pessoas porque têm como cúmplices aquela pequena minoria que está a acumular todo o poder económico e financeiro para beneficiarem com o definhamento dos Estados democráticos.

Nas democracias liberais o Estado não é visto como um inimigo, é um catalisador e um regulador das liberdades individuais, isto é, de uma boa distribuição dessas liberdades por todos.

João Miguel Tavares, sendo de direita, também não entende a realização da Festa do “Avante!”  neste momento o que o leva a comentar no jornal Público: “Em bom rigor, até podemos dizer que esta Festa do Avante! é uma iniciativa antissistema; uma rebeldia contra a ditadura do medo na era covid. Infelizmente para o PCP, só mesmo os seus militantes e alguma direita (ler, por exemplo, o texto de Henrique Raposo no Expresso: “Avante! dez razões para a festa avançar”) é que conseguem ver a coisa dessa forma. O português comum olha para aquilo com o ar de que os comunistas se acham mais do que os outros e reclamam privilégios que estão vedados ao comum dos mortais. E assim, para o PCP ganhar mais umas massas, o Chega vai ganhar mais alguns votos. É um mau negócio.”

O autor Henrique Raposo é um dos que diz ser liberal que vem em defesa do PCP e da sua festa, que passou a ser, por conveniência, um evento político. Os liberais que apregoam serem contra o Estado social e são pela baixa de impostos e contra toda a espécie de estatização em nome dos sistemas financeiros e os outros que defendem o contrário em nome da justiça social. Vamos lá entender esta gente dos liberais. Há um motivo: atacar utilizando a pandemia o PS e o Governo.   

Enfim, os argumentos de alguma direita radical mais parecem estar a fazer oposição ao governo e às medidas que têm sido adotadas para combate e minimização da covid-19 e são os mesmo que defendem a total liberdade em tempo de pandemia e que, caso esta ficasse sem controle, atacariam o poder por este não ter tomado medidas. Conhecemos muito bem o jogo.

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publicado às 16:52

Que se morra então, PIM!

por Manuel_AR, em 16.04.20

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Sem economia morremos todos, sem pessoas morre a economia. A economia tem de funcionar sem desvalorizar a saúde pública. Pessoas aflitas, ansiosas, sem saúde e assustadas não reanimam a economia, afundam-na.


Por isso, é estranho que um diretor dum jornal online de tendência neoliberalista diga a seguinte frase: “Antes morrer livre do que viver escravo da Covid”. Não ouvi o que ele disse, nem me interessou, apenas me centrei no título como mote para o texto que hoje escrevo.


A frase fora de um contexto pode levar a várias interpretações. A minha é a de que ele não estará contra o distanciamento social, mas contra o confinamento e encerramento obrigatório das atividades e funções que fazem mover a economia. A decisão do confinamento obrigatório teve dois motivos bem explícitos: preservar dentro das limitações existentes a saúde pública e salvaguardar a população duma potencial catástrofe sanitária.


Na circunstância da pandemia Covid confrontam-se pontos de vista antagónicos, os que reverenciam Trump e Bolsonaro e os seus pontos de vista orientados para a política do laissez-faire aplicada à saúde pública com despreocupação, desvalorização e de não interferir na grave situação e que à vista do mundo são como ditadores de extrema-direita sustentados por regimes democráticos legitimado por eleições que os levaram a ocupar o poder, e os que como na Europa que, nem sempre em consonância, apoiam uma contenção e o confinamento como soluções minimizadoras, mas mais ou menos severas. Trump hoje mesmo invocou poder “total” para desautorizar governadores e agora ameaça suspender o Senado. Que dizem agora os adoradores de Trump?


Coloca-se para aqueles uma solução única: deixar que o vírus prolifere e se propague de forma irreversível para salvar a economia (talvez a dos grandes interesses) e que morram pessoas. Nesta solução encontrar-se-á possivelmente o autor da dita frase que opta por desejar para ele a morte, (será que, como ele, nós todos deveríamos dar o exemplo?). A economia acima de tudo e de todos, mesmo condenando a população à doença, à contaminação e até à morte. Podem ter a certeza de que, se tal acontecer, não serão apenas os idosos a ir, a coisa será bem mais grave.


A guerra das interpretações dos números oficiais e oficiosos surgem pela boca de muitos ditos líderes que, rodeados por interesseiros otimistas empedernido, tentam demonstrar à população de que tudo não passa de um exagero, muitas vezes forjados pelos seus adversários políticos e de comércio global. Outros chegam ainda ao ponto de considerar na estatística dos recuperados os que morreram do Covid-19 como o fez o presidente do Chile, Sebastian Piñera que revelou que o país está a contar as vítimas mortais provocadas pela covid-19 como "recuperados" porque “deixaram de poder contagiar a restante população”.


A pergunta que requer resposta é: estará a economia acima da vida?


A resposta ao autor da frase, pois então, será que MORRA O DANTAS, MORRA! PIM – alusão ao texto de Almada Negreiros no Manifesto Anti-Dantas.


Que seja então o autor da frase a morrer, como diz preferir, para salvar a economia como Jesus Cristo salvou a Humanidade com a sua morte.


Nota: O autor deste texto não deseja a morte de ninguém, nem tão-pouco a do dito diretor, trata-se apenas de uma ironia que veicula um significado contrário daquele que deriva da interpretação literal do enunciado.

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publicado às 17:00

Botão da sabedoria

por Manuel_AR, em 02.04.20

Paulo Portas botão da sabedoria.png


Oscar Wilde escreveu que um cínico é um homem que sabe o preço de tudo, mas o valor de nada. Um cínico segundo os dicionários é alguém que age com sarcasmo. A ideologia trocou-se pelo cinismo e a desconfiança que alastraram especialmente sobre a política e os que na política se aproveitam de tudo, para si próprios. Veja-se o nível da corrupção que grassa em todo o mundo onde uns poucos aproveitam a política para “comer” à vontade o que quiserem. Há outros que anseiam por protagonismo e que, quando deixam de o ter por que já não têm a visibilidade num partido político, tendo-o feito talvez por motivos estratégicos, conseguem um “tacho” num qualquer canal de televisão que lhes dá a visibilidade e o protagonismo de que tanto necessitam para estimular o seu ego e também como estratégia para mais altas  e futuras  possíveis acometidas no mundo da política.


A propósito de cinismo recordei-me neste momento dos comentários do antigo líder do CDS, Paulo Portas, que arranjou um lugar cativo no jornal da 8 da TVI onde comenta tudo e mais alguma coisa, é uma espécie de homem


do Renascimento, qual Leonardo da Vinci, que tudo sabia e tudo conhecia. O Paulo Portas é tudo, é matemático, epidemiologista, especialista em saúde pública, estatístico, economista, cientista…, enfim, é um sábio homem que tudo sabe, tudo conhece e tudo crítica sempre com os olhos virados para o umbigo da sua visão ideológica. 


Mas, o que mais me impressiona é forma e a frequência com que olha para a câmara com aquele olhar e sorriso que nos faz percebê-lo como um trocista cínico como que a dizer que estou a rir-me para ti, mas estou a tramar-te. Ó dr. Paulo Portas, desculpe lá, mas é isto o que me parece. Apesar de não pertencer à sua banda ideológica nem partidária eu apreciava mais as anáforas que utilizava nos debates quando o senhor estava no Parlamento, mais do que aprecio ouvi-lo comentar todo o universo do saber na comunicação social.


Há ainda os tais das opiniões publicadas como a de João Miguel Tavares que exigem uma data ao fundo do túnel como se os governantes tivessem uma bola de cristal e antecipassem uma data para o fim da epidemia, mesmo que estimada. Uma data estimada, qualquer que fosse, teria duas consequências: uma, seria a possibilidade de a luz não se vislumbrar e adiar novamente a data do regresso dessa luz; quando novamente se vislumbrasse voltar a dizer nova data e assim sucessivamente. Se essa data fosse fixada e a pandemia não abrandasse iria decerto haver um agravamento e então a luz seria extinta, sabe-se lá até quando. Mas claro, isto de ser contra ou a favor das datas para se verem as luzes é uma forma de fazer oposição aos governos quando não pertençam à nossa área de preferência ideológica.

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publicado às 15:25


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