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Insiro hoje no blogue uma análise do discurso do presidente Vladimir Putin antes da invasão da Ucrânia que poderá ajudar a esclarecer pontos de vista duvidosos que circulam pelas redes sociais. Se pretender aceder ao discurso original poderá seguir este link.

Vladimir Putin justifica a invasão da Ucrânia pela necessidade de a Rússia "se proteger", parar o "genocídio" e "desnazificar" a Ucrânia. A DW analisa as alegações do Presidente da Federação Russa.

Todavia, podemos dizer que na Ucrânia, como em muitos outros países, existem pequenos grupos extremistas de direita. No entanto, segundo especialistas, eles desempenham um papel completamente insignificante na sociedade. Assim, não há razão real para falar em "desnazificação", alegação de Putin e do PCP como justificação da sua ausência na telepresença de Zelensky na Assembleia da República.

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Verificação de factos da DW - Deutsche Welle

A Deutsche Welle (DW) é a emissora internacional da Alemanha e uma das mais bem-sucedidas e relevantes media internacionais.

Tropas russas estão a bombardear cidades ucranianas e a realizar hostilidades em larga escala no território da Ucrânia. A invasão russa começou em 24 de fevereiro, pouco antes disso, o presidente russo Vladimir Putin fez um discurso aos russos, no qual salientou as razões pelas quais decidiu ordenar um ataque, que, do seu ponto de vista, é uma defesa. DW - sobre o quão objetivos são os principais argumentos dados por Putin.

As tropas da OTAN estão se aproximando das fronteiras da Rússia?

A declaração de Putin: "A aliança (...) está a expandir-se constantemente, a máquina militar está a mover-se e a aproximar-se perto das nossas fronteiras."

Verificação de factos da DW: Esta declaração é enganosa.

É verdade nesta declaração que, após o colapso da União Soviética, 14 países da Europa Oriental tornaram-se parte da Aliança do Atlântico Norte. Quatro desses países fazem fronteira com a Rússia. Em 2008, a Ucrânia também teve a perspetiva de ingressar na OTAN, mas desde então o processo correspondente foi congelado. O chanceler alemão Olaf Scholz durante a sua visita a Moscovo em meados de fevereiro ressaltou que, num futuro previsível, a admissão da Ucrânia à OTAN não está na ordem do dia.

Também é verdade que a infraestrutura logística e os locais de voo necessários para o possível reforço operacional das tropas foram preparados no território dos países membros da OTAN do Leste Europeu. No entanto, é importante notar que essas medidas foram tomadas após a anexação da Crimeia ucraniana pela Rússia em 2014, o que constitui uma violação do direito internacional, e foram uma reação a essas ações de Moscovo.

A Aliança do Atlântico Norte continua a cumprir as disposições da Lei fundadora da OTAN-Rússia de 1997, que proíbe a implantação permanente adicional de forças de combate significativas nos países que se juntarem à OTAN.

No que respeita à deterioração das relações entre a Rússia e o Ocidente, a OTAN começou a rodar batalhões de grupos de combate nos Estados Bálticos e na Polónia em 2016. No entanto, esses grupos de batalha de 5.000 soldados são muito pequenos para representar uma ameaça real à Rússia, cujas forças armadas somam cerca de 850.000 soldados ativos.

Os países membros individuais da OTAN também realizam cooperação bilateral fora da aliança. Moscovo assistiu com grande suspeita à implantação de sistemas de defesa antimísseis Aegis Ashore. Eles estão a preparar-se para serem colocados na Roménia e já foram colocados na Polónia.

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Imagem de DW
Moradores de Kiev estão a procurar proteção contra ataques de mísseis no metropolitano

Estes sistemas foram originalmente desenvolvidos para navios de guerra. Eles podem produzir mísseis de cruzeiro que podem chegar à Rússia em pouco tempo, explica Wolfgang Richter, coronel aposentado do Bundeswehr e funcionário da Fundação para a Ciência e Política (SWP), com sede em Berlim, em entrevista à DW. No entanto, segundo ele, este não é um problema insolúvel.

"Esse problema pode ser resolvido através de verificação específica. Isso significa que a Rússia pode ter a oportunidade de garantir que não haja mísseis de cruzeiro prontos para lançamento nos silos de lançamento de Aegis Ashore. Mas Moscovo rejeitou uma oferta para entrar em um diálogo de controle de armas, disse Richter. "Em vez disso, escolheu a guerra e destruiu a perspetiva de uma solução negociada."

O ataque russo é uma defesa de acordo com a Carta das Nações Unidas?

Declaração de Putin: "As circunstâncias exigem que ajamos de forma decisiva e imediata. As Repúblicas Do Povo de Donbass pediram ajuda à Rússia. A este respeito, de acordo com o artigo 51 da Parte 7 da Carta das Nações Unidas, com a aprovação do Conselho da Federação da Rússia e em prol dos tratados de amizade e assistência mútua ratificados pela Assembleia Federal em 22 de fevereiro deste ano com a República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk, decidi realizar uma operação militar especial", disse Putin no seu discurso em 24 de fevereiro.

No mesmo discurso, o presidente da Federação Russa apontou: "Nós simplesmente não ficámos com nenhuma outra oportunidade de proteger a Rússia, o nosso povo, exceto aquele que seremos forçados a usar hoje."

Verificação de factos da DW: Ambas as alegações são falsas. Não é verdade que a Rússia seja forçada a "defender-se" contra a Ucrânia, nem que possa contar com a Carta das Nações Unidas.

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Imagem de DW

A alegação faz parte de uma série de acusações de Putin de que a Ucrânia está a conduzir operações militares ofensivas e até a preparar-se para uma guerra contra a Rússia.

Pouco depois de a Rússia reconhecer o autoproclamado "DPR" e "LPR", eles recorreram a Moscovo para pedir ajuda, e Putin enviou tropas para a região ocupada por separatistas pró-russos, a que ele chamou "manutenção da paz". De facto, no entanto, foi uma continuação da ocupação assustadora da Rússia na Ucrânia que começou em 2014.

Moscovo ainda não forneceu nenhuma evidência de que a Ucrânia atacou a Rússia, não há informações independentes sobre esta questão. Nas áreas separatistas no leste da Ucrânia, pelas quais há vários anos, houve falsas ações de bandeira, ou seja, ataques que blogueiros expuseram como encenados.

"O direito à autodefesa pressupõe um ataque da outra parte. No caso da Ucrânia, esteataque da Ucrânia à Rússia não é absolutamente observado", diz Pia Fuhrhop (Pia Fuhrhop), especialista da Fundação de Ciência e Política (SWP) no campo da segurança internacional, em entrevista à DW. Furhop chama ao argumento de Putin "traiçoeiro" e explica: "Exatamente o oposto: nas últimas semanas, a Ucrânia fez de tudo para impedir que a Rússia se referisse especificamente ao direito à autodefesa".

A Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), que monitoriza a Ucrânia numa missão especial há anos, também refuta inequivocamente a alegação de Putin de que a invasão russa se enquadra no artigo 51 da Carta das Nações Unidas. O presidente da OSCE e ministro das Relações Exteriores polonês Zbigniew Rau condenou a invasão russa como uma "violação fundamental da Carta das Nações Unidas". Justificar o ataque nos termos do artigo 51º foi "lamentável e vergonhoso", ressaltou.

Por sua vez, o secretário-geral da ONU, António Guterres, falando aos repórteres, disse: "Esta guerra não faz sentido. Viola os princípios da Carta das Nações Unidas."

O artigo 51º da Carta das Nações Unidas garante aos Estados-membros da ONU o direito à "autodefesa individual ou coletiva" em caso de ataque armado. No entanto, como ressalta Marcelo Cohen, professor de direito internacional do Instituto de Pós-Graduação em Estudos Internacionais e de Desenvolvimento em Genebra, não é o caso da Rússia. "O argumento de Putin é infundado por várias razões", disse Cohen em entrevista à DW. - Primeiro, os dois territórios separatistas ("DPR" e "LPR") não são estados do ponto de vista do direito internacional. Em segundo lugar, antes da invasão da Rússia. A Ucrânia não tomou "medidas violentas" contra esses dois territórios." E, em terceiro lugar, o uso maciço da força contra instalações militares em toda a Ucrânia é desnecessário e desproporcional, enfatiza o especialista.

Sem qualquer evidência de um ataque armado pela Ucrânia, as ações da Rússia permanecem, de facto, uma guerra de agressão sem qualquer justificativa nos termos do artigo 51º.

 O "genocídio" ocorreu na Ucrânia?

A alegação de Putin: o objetivo da chamada "operação especial" da Rússia na Ucrânia é "proteger as pessoas que foram submetidas a bullying e genocídio pelo regime de Kiev por oito anos".

Verificação de factos da DW: Isso não é verdade.

O termo "genocídio", segundo a Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, adotada pela Assembleia Geral da ONU em 1948, significa "atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso como tal".

Não há relatos de tais massacres direcionados de civis na Ucrânia, embora todas as vítimas civis do conflito tenham sido cuidadosamente documentadas por observadores internacionais desde 2014. Nos relatórios regulares da missão de monitoramento da OSCE, que tem viajado em ambos os lados da linha de contato no leste da Ucrânia desde 2014 – também com o consentimento da Rússia – não há evidências de morte sistemática de civis. As baixas civis do conflito são consideradas pelos observadores como resultado dos combates ou das suas consequências.

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos em 2021, um total de cerca de 3.000 civis morreram na zona de combate no leste da Ucrânia.

A Missão observadora da OSCE regista todos os mortos e feridos nos seus relatórios diários. O maior número de civis foi morto na primeira fase do conflito em 2014-2015. Desde 2016, o número de vítimas vem diminuindo constantemente. O último relatório de resumo disponível da missão de observação de 2020 registou as mortes de 161 civis entre 1º de janeiro de 2017 e meados de setembro de 2020 – com um número aproximadamente igual de vítimas de ambos os lados. A causa predominante da morte foi bombardeios de artilharia, seguidos de minas terrestres e explosões de munição.

"A maioria das vítimas - 81 mortos e 231 feridos - foram causadas por minas, artilharia não detonada e outros explosivos. Civis foram mortos ou feridos em várias circunstâncias, incluindo enquanto trabalhavam nos campos, pescando ou caminhando", diz o relatório de setembro de 2020 da Missão Especial de Monitoramento da OSCE. Pia Furhop, da Fundação Ciência e Política, chama às acusações de Putin de genocídio de "absolutamente infundadas".

Na sua opinião, o presidente russo não se importa com os factos: "No sistema autoritário, que hoje é a Rússia, os media de investigação não têm oportunidade para verificar isso de forma alguma. A este respeito, basta que ele Putin justifique a guerra sem uma base factual", disse Furhop.

 É necessário "desnazificar" a Ucrânia?

Afirmação de Putin: para evitar o suposto bullying e o suposto "genocídio", a Rússia precisa fazer esforços para "desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia".

Verificação de factos da DW: Esta declaração não é verdadeira.

A declaração de Putin é uma narrativa de propaganda que ele vem repetindo há muito tempo e que não tem base de facto. Para implementar os seus planos na Ucrânia, Putin usa o conceito histórico de "desnazificação". Descreve as políticas dos países vitoriosos em relação à Alemanha nazi após a Segunda Guerra Mundial. O objetivo desta medida, então, era libertar o país da influência dos nazis e remover as pessoas que apoiaram este curso dos seus postos.

É errado comparar isso com a situação na Ucrânia, ressalta Andreas Umland, analista do Centro de Estudos da Europa Oriental de Estocolmo (SCEEUS), em entrevista à DW. "Falar de nazismo na Ucrânia é absolutamente inapropriado", disse ele. "O presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky é um judeu de língua russa que na última eleição presidencial com uma grande vantagem contornou o candidato ucraniano sem raízes judaicas."

De acordo com Andreas Umland, existem de facto grupos de ultradireita na Ucrânia. No entanto, seu impacto é relativamente pequeno se compararmos a situação na Ucrânia com a situação de alguns outros países europeus, diz ele. "Nas últimas eleições parlamentares em 2019 na Ucrânia os partidos ultradireita e radicais saíram como uma frente unida, e essa frente unida ganhou um total de 2,15% dos votos", lembra o especialista.

Por sua vez, Ulrich Schmid, professor no estudo da cultura e da sociedade russa na Universidade de St. Gallen, na Suíça, chama às palavras de Putin sobre a necessidade de "desnazificar a Ucrânia" como uma "insinuação descarada". Schmid está envolvido em pesquisas no campo do nacionalismo na Europa Oriental. "De facto, durante os protestos euromaidano em 2013 e 2014, havia grupos separados de extrema-direita. No entanto, hoje eles desempenham um papel secundário no país", disse Schmid em entrevista à DW. "Existem esses grupos, mas há pelo menos tantos grupos de extrema-direita na própria Rússia quanto existem na Ucrânia", acrescenta.

Grupos militantes ucranianos de direita que lutam contra separatistas no leste da Ucrânia, como o Regimento Azov, foram criticados. O Regimento Azov foi fundado por um grupo de ultradireita, mas em 2014 foi incluído nas tropas internas do Ministério dos Assuntos Internos da Ucrânia, aponta a Guarda Nacional, Umland. Depois disso, houve uma separação do movimento radical e do regimento. Este último ainda usa símbolos radicais de direita, mas não pode mais ser classificado como extremista de direita. Durante os cursos de treinamento para militares, soldados que compartilham ideologia extremista de direita foram notados, mas foram identificados, e isso causou um escândalo, observa Umland.

Resumindo, podemos dizer que na Ucrânia, como em muitos outros países, existem pequenos grupos extremistas de direita. No entanto, segundo especialistas, eles desempenham um papel completamente insignificante na sociedade. Assim, não há razão real para falar em "desnazificação".

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publicado às 17:17

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Centremo-nos primeiro no mais recente percurso político da Ucrânia e nas suas tensões com a Rússia que começaram em 2019 com a onda conservadora nas urnas para a presidência em que Zelensky ganhou com 73% dos votos a Poroshenko que concorria à reeleição. Poroshenko, admitiu na altura a derrota após a publicação das primeiras contagens dizendo que não deixaria a política. Zelensky aproveitou a sua popularidade em alta, prometeu reformas no sistema político, dissolveu o parlamento e anunciou a convocação de eleições legislativas.

Ao apresentar um plano de governo levou para a discussão pública as críticas feitas na televisão aos "oligarcas" da política ucraniana e defendeu a entrada da Ucrânia para a União Europeia e para a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN) que era a questão central e levou ao atual conflito com a Rússia.

Nos dias que se seguiram à invasão muitos que apoiam a agressão bélica utilizaram uma linguagem com uma gíria cujo objetivo é o de confundir as opiniões públicas seguindo o Presidente Vladimir Putin que também tem recorrido a esse processo de utilizar as palavras nacionalistas, neonazistas, libertação do país da extrema direita, limpeza étnica, etc., quando se refere à Ucrânia.

Acusam Zelensky de fomentar o crescimento do neonazismo e da conivência com o grupo neonazi Batalhão de Azov. Este grupo de milícias foi criado em 2014 para conter separatistas russos nas regiões de Donetsk e Lugansk, tendo sido esta milícia de extrema-direita incorporada em 2015 no exército ucraniano que os pró-russos dizem ainda hoje perdura. É por isso que Putin fala em "desnazificação" para justificar as suas metas no avanço militar de ocupação da Ucrânia. Mas essa situação é interna e compete ao povo desse país soberano pressionar o governo se, para tal, quiser resolver o problema.

Mas nesta equação entrou uma nova variável já conhecida que é Donald Trump. No primeiro ano de presidência, Zelensky esteve na base de uma "trapalhada" de Donald Trump que quase levou o então presidente norte-americano a um processo para impeachment. Em 2019, ano de eleições na UJcrânia, Donald Trump ligou para Zelensky a pedir para que o filho de Joe Biden, seu adversário na corrida à eleição, fosse investigado e que na altura fazia parte do conselho de administração numa empresa ucraniana de gás natural. Trump foi então apanhado num telefonema a reter a ajuda militar à Ucrânia, já em curso, dizendo que ("Gostaria que você nos fizesse um favor, no entanto") dizia, em troca de Zelensky comprometer Biden, rival de Trump às eleições. Trump "poluiu a Ucrânia com sua  negociação política" como se pode ler num artigo na revista The Atlantic. Foi acusado de tentar recrutar poder estrangeiro para interferir a seu favor na disputa eleitoral. Trump chegou a ter a interrupção do mandato aprovada pela Câmara, mas foi barrada pelo Senado americano.

Centremo-nos agora em segundo lugar sobre o que se observa nas redes sociais, em artigos de opinião, comentadores, comentários na comunicação social, comunicados de partidos.

Começo com a perturbante reação do PCP que teima em defender um regime que é criminoso à luz do direito internacional. O PCP agarra-se ao passado soviético mantendo uma linha de defesa de Moscovo disfarçada de rejeição do capitalismo de Putin ao mesmo tempo que culpabiliza o capitalismo dos EUA e a NATO pela invasão da Ucrânia. Não se aperceber que a Rússia já não é aquilo que formou o seu ideário, mas que é um projeto de poder de um homem que alimenta e subsidia muitos partidos da extrema-direita europeia ao mesmo tempo que se queixa da extrema-direita na Ucrânia.

Por seu lado o Bloco de Esquerda anda numa roda-viva para ver se consegue distanciar-se das posições do PCP numa dança intermitente que ora critica, ora desvaloriza, ou, a dizer, como ontem aconteceu, que “O Bloco de Esquerda defende que é dever das autoridades portuguesas identificar e investigar os oligarcas russos” e a deputada Mariana Mortágua sublinha que os interesses económicos não podem sobrepor-se às sanções contra Vladimir Putin. Mas, sobre a votação do empréstimo financeiro à Ucrânia, a deputada do Bloco de Esquerda diz que acusar o partido de votar contra é querer confundir o debate”.

Nas redes sociais parece-me que ser-se contracorrente às evidências começa a dar jeito para os que desejam feedbacks a todos o custo aos seus posts e opiniões publicadas na imprensa.

Ser polémico está na moda, “vende”. Falem mal de mim ou sobre mim, mas é preciso que falem. Alguns colocam-se em pontos de vista que tentam contrariar factos e evidências recorrendo aos mais artificiosos argumentos, virando do avesso a realidade dos factos, buscando no passado longínquo as causas para justificar hoje a agressão de Putin contribuindo, assim, para a lavagem da sua imagem. Justificar a agressão à Ucrânia comparando-a com outros casos que se verificaram no passado e noutros contextos parece-me caricato. Também neste domínio há negacionistas da realidade de facto, como os há nas mais absurdas situações e circunstâncias.

Pensamentos apressados que sugerem tomadas de decisões, em momentos de emoção e nervosismo, como apelar à provocação ao adversário, à confrontação e à guerra têm o risco de agravar conflitos em vez de os acalmarem. Recorro a uma frase da radical Ana Gomes, senhora que se candidatou a Presidente da República, que afirmou na SIC Notícias “Para que serve a NATO se não consegue travar massacres contra populações na Europa?” e acrescenta que a zona de exclusão aérea no país invadido pela Rússia “tem de estar em cima da mesa”, mesmo que Vladimir Putin considere isso um ato de guerra. Entrámos na zona da paranoia.

Pensarmos que conhecemos bem e confiamos no adversário que se tem pela frente é no mínimo ingenuidade. Putin não é de confiança recorde-se quando disse que o ocidente estava em histeria quando Biden apontava uma data para a invasão da Ucrânia. Muitos gozaram com a data marcada para início da guerra. Passados dias deu-se a invasão.

Putin deve estar com problemas internos e, por isso, a censura que instituiu na Rússia passou a ser obrigatória e foi agravada.  A censura é necessária como fator para a formação e consolidação do "putinismo”. Putin tem plena consciência da importante função destinada à censura. É a guerra da informação e da contra informação, da opinião e da contraopinião que se agudizam em tempos de guerra.  O controlo da informação e a censura desde sempre desempenharam um papel fundamental na formação e para a consolidação dos estados totalitários.

Putin pretende mostrar que só existe politicamente o que o público sabe que existe. Daí as mentiras, os cortes e as inversões dos factos à boa maneira estalinista. Serve-se da guerra para controlar ainda mais o espaço da informação e bloquear os principais meios de comunicação independentes que possam gerar movimentos que, normalmente, levam a grandes protestos.‎

Seis dias depois das tropas russas atacarem a Ucrânia, a Rússia (leia-se Putin) bloqueou a Dozhd TV e a Ekho Moskvy por supostamente espalharem, segundo ele, "informações deliberadamente falsas" sobre a invasão da Ucrânia por Moscovo tendo ficado indisponíveis na Rússia logo após o anúncio.

‎‎A Echo of Moscow, uma estação de notícias russa independente que transmite desde 1991, anunciou que encerraria na quinta-feira depois de se recusar a cumprir as regras de censura exigida em reportagens sobre a guerra na Ucrânia sendo obrigada a utilizar apenas fontes militares oficiais do Kremlin.‎ Outra estação foi a TV Rain, a principal emissora de televisão independente do país que encerrou temporariamente também na quinta-feira as suas transmissões em desacordo com regras semelhantes.‎

Nos jornais russos, talvez a maior parte, os artigos publicados são um vómito de inverdades de propaganda. E só acredita neles quem quiser acreditar. Como não vivenciamos os momentos "in loco" podemos ser tentados a acreditar que a comunicação do ocidente é que está errada e que a verdade, a dele (a de Putin), é que está certa. Foi assim no passado com Hitler, com Estaline e também o foi com Salazar aqui, no nosso canto junto ao mar.

Não se compreende porque um grupo de pessoas, felizmente pequeno, se tenha colocado do lado de Putin contra a Ucrânia apenas com o argumento de serem contra a NATO, os U.E. e os EUA. Dizem que são pela paz, mas não dizem em que termos. Falam em negociação, mas que negociação? O que pretendem será a capitulação incondicional da Ucrânia, país soberano, para que fique na órbitra da Rússia de Putin? Será a dissolução da NATO deixando Putin livrfe para o controle total da Europa? Se assim não é então que manifestem sobre qual será para eles a alternativa para a paz.

 

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publicado às 18:27

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Na guerra da informação, das opiniões, comentários e outras emotivas representações escritas começam a desabrochar na imprensa, nos blogs, nas redes sociais. A dicotomia “putinsófilos” e “ucranisófilos” juntam-se, por um lado os pró NATO, EUA e U.E. e, por outro, os do anti NATO, EUA e U.E. E assim se vai lançando a confusão no espírito das massas, nome dileto que líderes bolcheviques como Lenin davam ao povo.

Depois do primeiro impacto devido à surpresa comentadores, desenhadores de opiniões, jornalista e especialistas em política internacional que a tudo estão atentos e que de tudo sabem recuperaram da surpresa e, cá vai disto, lançam artigos desde os mais curtos aos mais extensos, recorrem à história que escrevem à sua maneira com propaganda contra a NATO, a União Europeia, o regime ucraniano que dizem sustentado por esquadrões da morte nazis saudosos de Hitler. Seguem a nomenclatura lexical de Putin desculpabilizando-o. Muito deles com afinidades com as extremas-esquerdas que, dizendo-se contra o capital e o imperialismo ocidental, apoiam o capitalismo-imperialista-autocrático de Putin e que nada tem a ver com o povo russo.  Para estes senhores parece que, quem estiver a apoiar a Ucrânia são uma cambada de nazis.

Ser-se anticapitalista e anti-imperialista e, ao mesmo tempo, defender outro tipo de capitalismo e de imperialismo como o de Putin, apenas, porque ideologicamente se é contra organizações e uniões que apenas servem para defesa de países que se sentem ameaçados por outros imperialismos, isso é prevenção contra-ataques de outros. São pelo regresso de uma nova e mais complicada guerra fria que ninguém quer. Defendem a paz sem entenderem a incoerência porque, ao mesmo tempo parecem estar do lado do que recorrem à guerra para ocupação do povo da Ucrânia personalizados pelo tirano Putin. Esses bem podem cantar hinos à paz que ninguém os ouve porque a alternativa que eles apoiam é a guerra. Ainda há muitos que preferem a guerra, que nunca viveram, na expectativa de que Putin possa eliminar o eixo do mal a que chamam NATO, EUA e a União Europeia.

Será o capitalismo russo de esquerda? O PCP parece achar que sim, embora no seu comunicado tente enganar o povo, assim como Putin tem feito com as suas intervenções. Segundo se pode ler num comunicado do PCP “a Rússia é um país capitalista, o seu posicionamento é determinado no essencial pelos interesses das suas elites e dos detentores dos seus grupos económicos”, mas apesar disso o PCP defende que a Rússia não é um agressor, mas uma vítima para a qual não é aceitável que um inimigo “esteja acampado nas suas fronteiras” que faz “um cerco militar por via de um ainda maior alargamento da NATO”. Já que o PCP gosta tanto do passado o que dizia na altura quanto ao Pacto de Varsóvia, uma aliança militar firmada entre os países comunistas do leste europeu ocupados (Hungria, Roménia, Alemanha Oriental, Albânia, Bulgária, Checoslováquia e Polónia) com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Aliás o PCP deve estar no mesmo registo de “Os países ocidentais que tentam implementar sanções contra a Rússia são um "império de mentiras", disse o presidente Vladimir Putin numa reunião dedicada à crise económica na Rússia segundo o PRAVDA.

A perda de alguns países chamados do Leste após a queda do regime soviético está atravessada na garganta de Putin e de alguns partidos comunistas. Esses países passaram a ser livres e, como tal, puderam fazer as suas opções de aderiram á U.E e à NATO, até como defesa para sua própria sobrevivência enquanto países e nações.

Putin com a sua ânsia de poder absoluto que carateriza os ditadores, não terá percebido que teria mais a ganhar negociando antes da guerra. Como ele já houve outros que também quiseram ser donos da Europa e do Mundo, mas acabaram por finar.

Numa entrevista ao “Politico” Fiona Hill, uma das mais claras especialistas russas, que estudou Putin ao longo de vários anos trabalhou com administrações republicanas e democratas afirmou que “Putin esteve nos arquivos do Kremlin durante a Covid a olhar para mapas e tratados antigos e todas as diferentes fronteiras que a Rússia teve ao longo dos séculos. Ele disse, repetidamente, que as fronteiras russas e europeias mudaram muitas vezes. E nos seus discursos, ele foi verificar vários ex-líderes russos e soviéticos, assim como Lenin e dos comunistas, porque na sua opinião eles romperam com o império russo, perderam terras russas na revolução, e sim, Estaline trouxe de volta alguns deles novamente para o grupo como os Estados Bálticos e algumas das terras da Ucrânia que haviam sido divididas durante a Segunda Guerra Mundial, mas que foram novamente perdidos com a dissolução da URSS. A opinião de Putin é que as fronteiras mudam, e assim as fronteiras do antigo império russo ainda estão em jogo para Moscou dominar agora.”

A questão que se coloca é a de saber se alguma vez se esperaria que países da NATO fossem alguma vez atacar a Rússia? O que está em causa é o ocidente poder defender-se do imperialismo expansionista russo, ou melhor, de Putin, porque o povo não entra nessas aventuras. 

As intenções expansionistas de Putin estão claras.  Segundo a Rus-News de 1 de março de 2022 o presidente Vladimir Putin disse em 5 de dezembro do ano passado que “Nas próximas décadas, a Rússia crescerá, é claro, com o Ártico e os territórios do Norte, são coisas completamente óbvias” o que incluía a exploração mineira. O anúncio foi feito durante uma reunião com voluntários e finalistas do concurso “Voluntário da Rússia”. Salientou ainda que mais de 70% do território da Rússia está localizado nas latitudes do Norte e tudo o que acontece no Norte é de "interesse e valor especial". “Nem estou a falar o desenvolvimento da Rota do Mar do Norte”, acrescentou. O Norte para Putin é indefinido pode ir até ao norte da Finlândia. O desenvolvimento nessa direção, segundo o presidente, é o futuro da Rússia em termos de extração de recursos naturais para o país. Só não ouve e não percebe quem não quer.

Parece não haver dúvidas de que Putin está a ser apoiado por grupos de extrema-direita

Putin não tem aliados só à esquerda. Na Europa, há partidos que podem ter recebido financiamento por investidores russos ligados a Putin. Marine Le Pen, líder da Frente Nacional francesa da extrema-direita francesa foi recebida pelo Presidente russo Vladimir Putin, encorajando a sua candidatura às presidenciais para a primeira volta a 23 de Abril de 2017. É acusada de ter recebido fundos de um banco russo para financiar a sua campanha eleitoral.

Matteo Salvini, líder da Lega, partido italiano de extrema-direita, é também apoiante de Putin, surgindo numa ocasião com uma t-shirt vestida que ilustrava a cara do Presidente russo. O mais recente é o do aliado nos tempos é Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, que se reuniu com Putin no mês passado, em Moscovo, e que não condenou, tanto quanto se saiba, as ações do presidente russo face à Ucrânia.

Todavia, Europa alguns partidos da mesma extrema-direita ficaram numa situação desconfortável pelo ataque de Vladimir Putin à Ucrânia. A líder do RN - Rassemblement National, antiga FN - Front National (Frente Nacional), e Matteo Salvini, da Liga de direita da Itália, que passaram anos a divulgar a sua afinidade com o presidente russo, aceitando empréstimos russos à medida que a Rússia reunia tropas ao redor das fronteiras da Ucrânia, alguns desses amigos de Putin minimizaram a ameaça ou acusaram o Ocidente de aumentar as tensões. Ainda outros como o Presidente da República Checa, o primeiro-ministro da Hungria, quando Putin declarou guerra à Ucrânia e mísseis balísticos caíram sobre alvos ucranianos, essa atitude tornou-se mais difícil o que levou muitos a recuar a sua simpatia e apressaram-se com declarações a condenar o ataque.

As dúvidas se é que as havia no apoio e simpatias das extremas direitas por Putin e pela invasão da Ucrânia foi dissipada. “A imagem de "homem forte" do presidente russo e o desdém pelos liberais transformaram-no num herói para os nacionalistas brancos”, escreve Sergio Olmos no The Guardian em 5 de março de 2022.

Num evento nacionalista realizado na semana passada na Florida, EUA, um organizador e líder supremacista branco pediu “uma salva de palmas para a Rússia", no meio de um rugido de aplausos para o presidente russo, poucos dias depois de este invadir a Ucrânia e muitos participantes responderam gritando: "Putin! Putin!".

A WABE uma estação de televisão pública de Atlanta na Georgia no dia 1 de março de 2022 pode ler-se que líderes republicanos no Congresso estão divididos sobre o que fazer com a deputada Marjorie Taylor Greene depois desta congressista ter discursado num evento de fim de semana organizado por um nacionalista branco em que se dizia maravilhada com a invasão da Rússia à Ucrânia enquanto a multidão eclodiu em cânticos de "Putin!”

A guerra na Ucrânia expôs a afinidade da extrema-direita americana com Putin. Como também já escrevi no anterior blogue, aquela afinidade é complicada e mostra a dificuldade que os líderes republicanos têm para combater a tendência do partido em direção ao autoritarismo ao estilo de Trump em abraçar o extremismo de direita.

A esperança do ocidente, Europa e EUA, de que após a queda do regime soviético e do muro de Berlim tudo iria ser um mar de rosas foi um erro tremendo. A desmilitarização do ocidente leia-se U.E. foi um erro de cálculo e de estratégia de que Putin, após ter tomado o poder, veio a aproveitar-se. O autoritarismo e as ambições imperialistas de Putin surgidas após a queda do regime soviético podem agravar-se. 

Putin com o êxito da tomada da Ucrânia que irá ser seguido pela substituição de um governo fantoche a soldo de Moscovo, não irá parar. Países que saíram do domínio soviético e que aderiram á U.E. estarão na mira de um autocrata com a paranoia do poder e da riqueza.

O ceticismo deve ser nestas alturas a atitude mais sensata. O comentário político nos órgãos de comunicação, podem não ser absolutamente credíveis porque há muitos comentadores políticos e personagens muito conhecidas que publicam na Internet informações que não são propriamente mentiras, mas imprecisas, e cabe a quem as lê abordar cada mensagem com cuidado.

Recorre à evocação da história e a outros contextos para justificar a ação de Putin de hoje de invadir a Ucrânia, ou apara atacar os imperialistas do ocidente, os EUA, a NATO e a U.E. Num desvario sectário alegam com o belicismo do ocidente justificações para de agressões e da guerra desde tudo seja contra o ocidente. Recorrem a outros conflitos descontextualizados para o justificarem. Nãoo compreendo estes pontos de vista.

Na verdade, o Partido Comunista Português (PCP) à semelhança de Putin ainda não conseguiu ultrapassar, e acho que jamais ultrapassará, o trauma do fim da União Soviética e vai morrer com esse pesar. Por outro lado, já alguém do PCP, há muito tempo, classificou a Coreia do Norte como uma democracia. Também sabemos que Hitler e Estaline fizeram um pacto por via do qual invadiram e dividiram entre eles países como a Polónia. Mas os tempos passaram, a História condenou essas atitudes e hoje as atitudes das nações e dos povos são outras, mas neste outro contexto surgiu, qual reencarnação, um novo apocalíptico que pretende restaurar os velhos tempos da guerra. Apesar disso, alguns como o PCP, nada mudaram e, mesmo às portas da morte, dá-nos este espetáculo.

 

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publicado às 19:21


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