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Putin-Eurásia.png

Fotografia de Putin jornal Público

Eugénia Vasconcellos.jpg

Eugénia de Vasconcellos

Texto publicado no jornal Observador

06 abr 2022 

Vai para a Eurásia que te Pariu, Pá!

Dizem «as sanções não podem ser demasiado pesadas». Não podem? Somos colaboracionistas? Cada cêntimo para a Rússia em troca de petróleo, gás, carvão cheira a medo.Só o cheiro a medo autoriza massacres

A Rússia de Putin mente. Fá-lo com um objectivo claro, a manutenção e expansão do seu regime autocrático e cleptocrático e fá-lo por uma única razão: porque pode. Nós, sublinho, nós deixamos. E nós somos as democracias ocidentais, os herdeiros daqueles que as implementaram e as defenderam.

Em 2014, a Rússia invadiu a Ucrânia e ocupou a Crimeia. Negou-o. A Rússia, então, afirmou repetidamente que eram grupos rebeldes, separatistas, e não tropas russas. Publicamente, na Rússia, esta astúcia foi celebrada por muitos pois estava ao serviço de um bem maior: a preservação da sagrada nação russa e o mito da sua milenar duração contra tudo e todos. A popularidade de Putin disparou na altura, tal como agora, porque a Rússia de Putin tem um desígnio para preencher o vazio pós queda do muro de Berlim. Os vazios podem ser lugares terríveis quando não nos confrontamos com eles e com os lutos que nos propõem. O vazio da igreja e dinástico foi substituído pelo comunismo, pelo culto dos seus líderes e a construção de um inimigo congregador. Posteriormente, quando este regime caiu, nada havia para ocupar o seu lugar. Putin tem, progressivamente, oferecido isso, o que quer que isso seja, à Rússia: restabeleceu a igreja, o culto do líder, o nacionalismo, a missão. E a missão é reintegrar no corpo russo o que dele foi retirado sucessivamente, não interessa se pelos mongóis, se pela Grande Armada de Napoleão, se por Hitler ou pelos Estados Unidos ou pela União Europeia ou a Nato. Pela Tchetchénia ou pela Geórgia. Pelo povo ucraniano. Ainda que para isso seja necessário reescrever a história em ensaios onde os factos são rasurados e em discursos de hora e meia. Depois da reintegração a expansão, como claramente afirmou Medvedev, «construir uma Eurásia de Lisboa a Vladivostok». Se dúvidas houvesse. E claro, esta meta é exequível. A Hungria e a Sérvia demonstraram-no este domingo com as reeleições de Viktor Orban e Aleksandar Vucic, pró-putinistas patrocinados.

A verdade tem de ser repetida pelo menos tantas vezes quanto a mentira porque a luta é desigual: a democracia está em recessão. Mas é a democracia que permite pessoas como Alexandre Guerreiro a disseminar propaganda e desinformação russa em horário nobre, como permite a agenda woke e a extrema esquerda. Mesmo quando esta fragmenta e faz da esquerda, do centro e do centro direita, reféns. A democracia permite a esta extrema esquerda asséptica e maniqueísta apelidar todos quantos não subscrevem os itens agendados de «intolerantes, censores, irrelevantes, banais, fúteis e sem referências éticas». A democracia, pasme-se, permite que se vitimizem, triste figura, ao longo de um manifesto Pela Paz e Contra a Criminalização do Pensamento. Até permite a publicação no Expresso, tal é a criminalização.

A Rússia de Putin mente. E fá-lo com rigor propagandístico norteado pelo sempre actual Goebbels, «uma mentira dita uma vez continua a ser uma mentira, mas uma mentira mil vezes repetida torna-se uma verdade». Lavrov tem sido o discípulo incansável desta fé. A Rússia mente. Nega que invadiu a Ucrânia a 24 de Fevereiro de 2022. Nega ataques a civis. Nega a utilização de crianças como escudo. Nega a violação de mulheres e meninas. Nega as execuções sumárias. Nega os massacres hediondos de Bucha como negou os de Mariupol e Irpin como negará quaisquer outros com a vileza acrescida de culpar os ucranianos por esses crimes quando não lhes atribui encenações. Há cidades à fome e à sede e ao frio. Valas comuns. Cadáveres espalhados pelas ruas. Mutilados. Corpos profanados por minas. E o que se passa nos campos de triagem para onde os ucranianos estão a ser levados aos milhares? Famílias ucranianas resistentes nos territórios ocupados estão a ser separadas, despojadas de documentação, internadas aos milhares em campos de triagem, para serem relocalizadas na Rússia, como se não tivéssemos esse pesadelo acordado ainda com as memórias de 1939-45. As informações são da Cruz Vermelha. São relatadas por vítimas e jornalistas, as imagens são confirmadas por satélites. Nada disto é novo. Nada é feito pela primeira vez. A ONU, afirma que investigará para responsabilizar efectivamente os perpetradores. Tem de fazê-lo rigorosamente. O Tribunal Penal Internacional também. Sabemos todos: Putin é um criminoso de guerra. Há anos que o é. Em 1999 já o era. A pretexto do movimento separatista tchetcheno, ordenou uma «operação anti-terrorista» – parece familiar? A operação durou dez anos e foram massacrados milhares de civis, cidades arrasadas, uma carnificina. Ninguém o parou então nem depois na Geórgia onde usou mesma fórmula em 2008. Sanções e um ano depois, amigos como dantes. Síria. Arménia. Cazaquistão.

Nós, para continuarmos a viver em democracia, temos de a defender e isso obriga-nos a tomar uma posição.

O medo é a arma de Putin. É funcional. A economia é o nosso calcanhar de Aquiles. Ambos nos imobilizaram antes, e na situação ucraniana em 2014. Permitiram que fizéssemos de uma questão maior, uma questão regional. Mas esta guerra é nossa. É a nossa forma de vida que está em causa. As nossas liberdades. Dizem «as sanções não podem ser demasiado pesadas». Não podem? Somos colaboracionistas? Cada cêntimo entregue à Rússia em troca de petróleo, gás e carvão, cheira a medo. Só o cheiro a medo autoriza o massacre de civis, sabê-los desamparados e saber que as consequências desse acto são suportáveis e logo passam. A negação da entrada da Ucrânia na NATO cheira a medo. Não armar e equipar adequadamente a Ucrânia cheira a medo. Medinho. Miúfa. E não é o medo que nos vai defender. O medo vai abrir a estrada de Lisboa a Vladivostok.

A autora escreve segundo a antiga ortografia

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publicado às 19:43

O que terá levado ontem, 19/06, João Soares no comentário da semana com Miguel Poiares Maduro no Telejornal na RTP1, no momento da frase da semana, a fazer publicidade aos livros de um coronel reformado de quem proliferam “posts” no Facebook contra o Ocidente em relação à invasão da Ucrânia ?

Matos Gomes frase escolhida João Soares.png

A frase tirada de um contexto pode ter várias conotações a quem a lê. João Soares deu-lhe a sua.

O referido senhor coronel escreveu no Facebook em 9 de junho do corrente ano que “António Costa mente. Mente como mentem todos os líderes europeus que se atrelaram à estratégia dos EUA de separar a União Europeia da Rússia e de fazer da Rússia o seu inimigo.”

Pois é, João Soares publicitou os livros do senhor coronel acrescentando que é “um grande escritor da língua portuguesa”. O que levou João Soares a elogiar o senhor coronel anti ocidente com uma frase e o aconselhamento dos seus livros? Isso deixou-me muitas dúvidas sobre a posição de João Soares em relação â matéria da Ucrânia e da Rússia. Também já tinha ficado com algumas dúvidas quanto à posição de João Soares em relação à Ucrânia numa entrevista que ele deu em 13 de março de 2022 ao jornal Sol. Soares terá dito ser contra a guerra, mas a sua clareza foi pouco clara, desculpem a redundância. Pareceu-me haver um lado obscuro e cínico na sua posição relativamente à Ucrânia quando apresenta com elogios alguém que, logo após a invasão da Ucrânia, se mostrou contra o Ocidente, NATO, EUA e U.E.

No entanto, no meio da política do bom-senso há, por outro lado, uma situação a lidar com alguma precaução, é que, nós, enquanto país, não temos vantagens em hostilizar a Rússia apesar de estarmos ao lado da Ucrânia. Não, não é o mesmo de estar bem com Deus e com o diabo.

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publicado às 17:19

Ucrânia e PCP.png

Antes de começar compete-me esclarecer que não sou anticomunista, embora com divergências ideológicas, e que tenho respeito por um partido que sempre lutou contra o fascismo e que, em Portugal, faz parte da democracia. Contudo, isto não me impede de discordar de muitos dos pontos de vista do PCP, quer quanto à política interna quer quanto às suas opções em política externa. O PCP apesar de várias críticas que lhe possam fazer, algumas com razão, é um partido necessário à democracia por ser um agregador de vontades e ideias de muitos trabalhadores e reformados e que é o oposto dos movimentos inorgânicos, formados com interesses pouco claros, que têm surgido à revelia das instituições e organizações sindicais que fazem parte de uma democracia.

Assim, feito o esclarecimento, farei as críticas que bem entender segundo o meu ponto de vista, mesmo que sujeito a insultos vindos dos que dizem não seguir o “pensamento único”, como critica o secretário-geral do PCP quanto aos “proclamados valores ocidentais”, que hostilizam e ‘queimam’ na praça pública quem se atreva a ir ao arrepio da cartilha ditada e imposta pelas autoridades do pensamento único”.

Fico, no entanto, com uma dúvida: quem afinal quer impor um pensamento único ao pretender esconder as evidências de uma invasão a que chamam eufemisticamente “intervenção militar especial” para não mencionarem a palavra guerra ou invasão?

É que, de acordo com especialistas de direito internacional, que eu não sou, uma intervenção militar refere-se à utilização das forças militares para controlo de alguma situação que seria de responsabilidade de outra autoridade ou força e que deve obrigatoriamente ser temporária e com uma área de atuação bem definida. Guerra é quando um país que tem a sua soberania (povo, governo e território) é atacado.

Penso que fica claro qual a posição veiculada pelo PCP pelas palavras da deputada Paula Santos líder do grupo parlamentar. Contudo, as notícias dos acontecimentos em que estão em causa a identificação refugiados ucranianos pela Câmara de Setúbal por uma associação russa levou-me a associações do PCP com o seu congénere representado na Duma, o Parlamento da Rússia.

As declarações do PCP sobre a invasão indignaram pessoas e todos os partidos com assento no Parlamento. Pontos de vista ambíguos, disfarçados de pedidos de paz e contra a guerra de forma genérica e plenas de vazio nos vários contextos do discurso dos comunistas. Acusam o invadido e quem o apoia de incentivarem à guerra e o invasor de ser um capitalista, mas que, apesar disso, é discretamente travestido de herói libertador (palavras são minha) da Ucrânia nazi, fascista, xenófoba apoiada pelo imperialismo do ocidente. Estas afirmações podem ser revistas em qualquer dos principais órgãos de comunicação. “O PCP não vai participar na sessão solene na Assembleia da República com a presença do Presidente da Ucrânia, na quinta-feira, por videoconferência, por considerar que Volodimyr Zelensky "personifica um poder xenófobo e belicista".

A ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia teve outro desenvolvimento que não o dado por Paula Santos. Quem assistiu às declarações dos partidos após a cerimónia, a líder parlamentar do PCP ao falar sobre o discurso do Presidente ucraniano Volodimir Zelensky, ao justificar a posição do seu partido de não ter marcado presença no Parlamento foi em primeiro lugar a de terem classificado como insultuosa a comparação feita por Zelensky entre a luta ucraniana e o 25 de Abril e a segundo lugar supostamente decorrente da primeira era justificada pela ilegalização do Partido Comunista ucraniano e com a suspensão de outros partidos políticos.

"O PCP não participará numa sessão da Assembleia da República concebida para dar palco à instigação da escalada da guerra, contrária à construção do caminho para a paz, com a participação de alguém como Volodimir Zelensky, que personifica um poder xenófobo e belicista, rodeado e sustentado por forças de cariz fascista e neonazi, incluindo de caráter paramilitar, de que o chamado Batalhão Azov é exemplo", sustentou a líder parlamentar comunista, Paula Santos, em conferência de imprensa, no parlamento.

Esclareçamos então a veracidade dos factos daquelas afirmações e sem tentativas de alterações e reescritas da história. Segundo refere o jornal Público de 22 de abril à data dos factos referidos, Volodimir Zelensky ainda não tinha iniciado a sua carreira política e, por isso, não teve qualquer influência direta na ilegalização, nem de qualquer força política que integrou nestes últimos três anos. Volodimir Zelensky só foi eleito chefe de Estado em abril de 2019, com o partido político “O Servo do Povo”.

Zelensky não esteve diretamente envolvido neste processo e foi responsável pela suspensão de atividade política de 11 outros partidos em março, após a introdução da lei marcial no país. Zelensky justificou esta decisão alegando que estas forças tinham ligações diretas com a Rússia e Vladimir Putin. Portanto, a deturpação de factos pelo PCP é evidente. Então, a ser como dizem, todos os países que apoiam a Ucrânia seriam considerados como xenófobos, fascistas, neonazis, e outros malévolos epítetos.

Em março Jerónimo de Sousa disse que "A opção de classe do PCP é oposta à das forças políticas que governam a Rússia capitalista e dos seus grupos económicos.”. Mas, também disse que “o PCP opõe-se à estratégia de escalada armamentista e da dominação imperialista que os Estados Unidos há muito puseram em marcha". Quer dizer, os Estados Unidos são imperialistas, coisa que, para o PCP, a Rússia (leia-se Putin) não o é. Por consequência, para o PCP, terá sido o ocidente unido que desempenhou o papel de grande causador que pôs em marcha a invasão da Ucrânia.

Putin é anti União Europeia e um dos seus intentos será o de acabar com ela o que não é novidade porque o ex Presidente dos EUA Donald Trump estava alinhado pelo mesmo projeto.

Em março 2018 escreveu João Marques Almeida no jornal ECO: “O regime russo tem uma ambição política: destruir a União Europeia” e apresentava dois argumentos para relativizar os que negam mesmo a existência de uma ameaça russa.

Neste mesmo artigo Marques Almeida escreveu ainda em 2018 data em que Trump estava no mandato que “Putin mantém a velha estratégia soviética de tentar dividir a Europa dos Estados Unidos. A natureza ideológica da União Soviética e o anti-comunismo estrutural do sistema político norte americano impediram os objectivos soviéticos. Mas hoje, na Casa Branca, encontra-se um Presidente demasiado ambíguo em relação a Moscovo. Ninguém conhece bem a natureza da relação entre Trump e Putin, ou sobre os negócios que terão feito no passado, mas os sinais são preocupantes. Com Trump, há o risco de os Estados Unidos deixarem de liderar a Aliança Atlântica contra a Rússia”.

Cada um que tire as ilações que entender.

 

Nota: As citações estão conforme o Acordo Ortográfico utilizado pela fonte.

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publicado às 17:05

Opinião

Uma coisa é Putin, outra a Rússia

O agressor não é o povo russo, é Putin e a sua corte militar e civil, mas o agredido é o povo ucraniano, seja quem for quem o governe.

Foto A Vladimirka, de Levitan, a estrada para o exílio na Sibéria DR

Eu tenho as melhores memórias da Rússia, melhor, eu devo muito à Rússia, e por isso me repugna confundir Putin com “os russos”, como agora se faz. Mais do que essas memórias, tenho uma grande admiração pelos russos e, quanto à cultura russa, ela “fez-me”, tanto como tudo o resto.

Conheci a Rússia ainda era URSS e depois logo a seguir, nos anos conturbados de transição, e no retorno a essa maldição russa, a autocracia, a ditadura. Lembro-me de um russo, membro da Duma, provavelmente do Partido Comunista, feliz por encontrar estrangeiros, convidar-me a ir a sua casa, muito modesta, num daqueles blocos de apartamentos dos subúrbios de Moscovo, iguais aos que os mísseis russos estão a destruir em Kiev. Abria os armários onde tinha a sua reserva de comidas “especiais”, aquelas que era difícil arranjar, por exemplo, uma espécie de fiambre, e oferecia-as ao “estrangeiro” por pura generosidade, porque nada tinha a ganhar com o que estava a fazer. Falámos do Hadji Murat, de Tolstoi, que ele tinha tido de estudar na escola, uma história do “império” que muito provavelmente tínhamos “lido” de forma muito diferente.

Foto Edifícios bombardeados em Kiev ROMAN PILIPEY/EPA

Saí pela porta daqueles prédios sinistros e hoje nem me lembro do nome do homem e da família que o acompanhava, mas sei o que significou a palavra hospitalidade. Havia uma proximidade muito parecida com a nossa, sem cerimónias nem protocolos, apenas companhia e conversa, entre dois mundos que estavam bastante longe na geografia e mesmo na história. O meu, por muito mau que fosse, com 48 anos de ditadura, o dele com a tragédia dos milhões de mortos às costas, alguns da sua família. Tragédia não é uma palavra leve, mas não se conhece nada da Rússia sem a perceber. E, no entanto, eu sabia que ele era da burocracia do poder soviético em extinção, e ele que eu era do “inimigo”. Mas, como já disse várias vezes, aquele foi um período excepcional em que as coisas podiam ter evoluído de forma diferente. Ou talvez não.

A Federação Russa de Putin estava a caminho, melhor, já lá estava. Conheci oligarcas, burocratas, militares, membros do PCUS, e não era difícil perceber que, à medida que se subia na escala do poder e do dinheiro, aumentava a brutalidade, na proporção directa do sofrimento histórico do povo russo em nome do qual exerciam o poder, e com essa indiferença pela violência quando os seus interesses estavam ameaçados. Indiferença que começava nos “seus”, em nome dos quais falavam.

Mas, na conversa anódina com o meu anfitrião russo, o território comum era o muito que aprendi sobre a Rússia e que veio dos livros, essa forma de saber cada vez mais desprezada pela ignorância atrevida das redes sociais e do mundo obsessivamente presencial dos dias de hoje. Foram estas memórias e a Rússia de Pushkin, Turgueniev, Tchekov, Tolstoi, Tsvetaeva, Akhmatova, Pasternak e Soljenitsin que me ajudaram a nunca me ter enganado sobre Putin. Em 2014, escrevi a propósito da sublevação da Praça Maidan que “a questão da Ucrânia chegou aqui, porque os europeus e os americanos foram irresponsáveis e atiçaram um conflito para que não tinham saída viável, e porque Putin é perigoso e não é de agora”.

Também não me enganei sobre Putin, nem sobre a elite dirigente da Ucrânia, sobre a qual convém não ter muitas ilusões, em particular não retratando esta guerra como uma guerra entre a democracia e a ditadura, mas sim como outra coisa: uma guerra entre um agressor e um agredido. O agressor não é o povo russo, é Putin e a sua corte militar e civil, mas o agredido é o povo ucraniano, seja quem for quem o governe. Esta diferença é aquela que, não sendo feita, faz com que quem a omite fique do lado do agressor. E nesta guerra ficar do lado do agressor é espezinhar a liberdade, a soberania, o direito, a humanidade e as pessoas. Não as pessoas “especiais”, mas as pessoas comuns.

Admito que a maioria dos russos apoie esta guerra e não é apenas porque a censura de Putin evita o conhecimento do que se passa e a dura repressão impede qualquer liberdade para o protesto. Proibir e prender, agredir e matar é uma coisa que quem tem o poder na Rússia sabe muito bem fazer desde sempre, da Okrana à Cheka, ao KGB e ao SVR, dos czares, passando por Estaline, até Putin. Mas o que também faz parte dessa tragédia russa é que alguma da sua cultura esteja exactamente nos antípodas dessa violência, e que descreva melhor do que ninguém a combinação da obediência e da rebeldia, que a história com h pequeno fez ao povo russo, aos “humildes”. Nestes dias é do conto de Tolstoi Aliocha, o Pote que me lembro, descrevendo a sua morte após cair de um telhado:

Surpreso com alguma coisa, estendeu a mão e morreu.”

O autor é colunista do PÚBLICO

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publicado às 12:52

Ucrania-Putin Imperador.png

Fico estupefacto com os argumentos dos que se dizem não alinhados com o rebanho do pensamento único, isto é, os que não pensam como eles, que não estão de acordo com os postos de vista de Putin e que não se colocam, neste caso, contra o ocidente U.E., NATO e EUA. Os seus argumentos são uma tentativa de justificarem a “boa ação” que é a invasão da Ucrânia.

São estes os que, há mais de 60 dias, surgiram nas redes sociais, em blogues, artigos de opinião na imprensa, em comentários televisivos nas horas nobres de noticiários, a atacar o ocidente para justificarem a invasão bélica de um país soberano por um ditador megalómano e provocador.

Por entre aqueles há de tudo: civis, jornalistas, professores, especialistas em política internacional, estrategos, há de tudo. Nestes também se incluem outros que são, ou já foram, generais, majores generais, coronéis no ativo, na reserva ou na reforma que peroram desde política internacional à estratégia e táticas de guerra.

As narrativas de todos eles situam-se, não no facto enquanto tal, a invasão de um país por outro que ultrapassou os limites da decência ao deitar para o lixo tudo o que são compromissos ou acordos de convivência pacifica que é suposto existirem entre países civilizados e cooperantes. Não devemos esquecer-nos que quem tenta imputar ou criticar o ocidente pelas causas da invasão da Ucrânia são os descrentes nos direitos humanos, na democracia, no direito internacional, na tolerância pela diferença, na solidariedade, no próprio direito de autodeterminação dos povos.

Em vez de se centrarem sobre a invasão, utilizam subterfúgios para esconderem uma, pelos menos aparente, simpatia pelo invasor, enquanto ao mesmo tempo se preocupam em negá-la afirmando que até são pela paz, opõem-se ao militarismo, ao armamento e pedem negociações para paz. Tudo isto em abstrato. Limitam-se a estar contra a tudo quanto venha do ocidente, U.E. e EUA. Consciente ou inconscientemente colocam-se do lado do invasor e contra os que o defendam ou ajudam o invadido. Nada contra o invasor.

Alguns sugerem apelos ao bom senso para que o invadido se renda vindo de militares, ex-militares de tendências russófilas (leia-se putinófilas). São titulados como comentadores com que alguns canais de televisão nos presenteiam.

O invadido, como para Putin e para os que o apoiam, é mostrado como a ultradireita, os nazis, os mercenários que cometem genocídio, etc. Como justificação recordam e apresentam-nos passados trágicos, quiçá também cruéis, para justificarem no presente barbaridades e crueldades dos invasores. Colocar o problema ao inverso que é o de ser o invadido que provoca genocídios. Fracos argumentos os desta gente que os mesmos paranoicos que chamam a quem está em desacordo com eles de pertencerem à manada e que clara e razoavelmente estão consonantes com o pensamento do ocidente.

Os “putinófilos” mostram a sua incapacidade de condenar uma invasão vinda de um regime autocrático que, quer se queira, ou quer não, é, na verdadeira acessão da palavra imperialista. Imperialistas não são apenas os EUA, o próprio autocrata russo já se referiu ao Imperio Russo, sendo mencionado por alguns como um nacionalista que poderá levá-lo até onde lhe permitirem a reconstituição das fronteiras desse império. Todavia, Vladimir Putin nega estas especulações sobre as tentativas de restaurar o Império Russo. Mas sabemos como ele também negou, dias antes, a invasão da Ucrânia.

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publicado às 19:02

Por favor não desculpem o agressor!

por Manuel_AR, em 23.04.22

OPINIÃO

PCP: ocultar que há um agredido e um agressor

José Pacheco Pereira

In jornal Público, 23/04/2022

Jornal Público.png

Quem justifica, legitima, favorece, protege o PCP com o seu discurso contorcido sobre a guerra? Os russos. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

Falar em guerra sem nomear o agredido e o agressor, e tirar daí consequências, é colocar-se do lado do agressor. Quem beneficia na apresentação neutral da “guerra”? O agressor. Quem beneficia numa defesa da “paz” que trata os beligerantes como iguais? O agressor. Quem fala em detalhe dos males de “uns” (os ucranianos) e genericamente e sem pormenores dos males dos “outros” (os russos) não está do lado da “paz”, mas da guerra. Quem justifica, legitima, favorece, protege o PCP com o seu discurso contorcido sobre a guerra? Os russos. Toda a gente percebe, a começar por muitos eleitores, simpatizantes e militantes do PCP, por isso é que esta situação é devastadora para o PCP. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

O problema do PCP não é um remake do caso da Checoslováquia, como por aí se diz. Na invasão da Checoslováquia, havia de um lado a URSS e do outro um processo que os soviéticos consideravam ser de subversão do socialismo e do campo socialista. O PCP podia entender que devia estar de um “lado” contra o outro, porque um dos lados lhe era próximo ideológica e politicamente. Onde é que há hoje algo de remotamente parecido com “o lado” da URSS?

O PCP diz que o lado” ucraniano é péssimo, mas diz também que não se identifica com o outro” lado com Putin. Se é assim, porque não trata os dois lados” da mesma maneira e se põe à margem? Se o conflito é entre a NATO e o regime de Putin, que é para todos os efeitos igualmente maléfico, por que razão o PCP acaba encostado a um dos lados, sempre pronto para o justificar pela equivalência? Por que razão, entre aquilo que considera o militarismo da NATO e a “violação do direito internacional” por Putin (um gigantesco eufemismo), entre o lado agressivo da NATO e o autocrata belicista, o PCP sente-se mais confortável com o segundo, que protege até pela terminologia cautelosa e moderada com que o trata? Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

Foto
Nem a Polónia, em 1939, nem a Ucrânia, em 2022, eram democracias perfeitas, mas havia um agressor e um agredido DR

Não adianta vir com a história de que a “guerra” começou em 2014, porque esta de que estamos a ser testemunho começou em 2022. E, em 2022, não há um único factor que justifique a invasão da Ucrânia, não há motivo forte, nenhuma provocação, nenhum acto novo de envolvimento da NATO, nenhuma colocação de tropas americanas na fronteira, nenhum exercício militar conjunto, nenhuma manobra daquelas que se usam para preparar uma invasão. Nem pouco nem muito, não há mesmo. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

Vamos admitir que o que Putin diz é verdadeiro (quase nada é…) e que a Ucrânia é governada por nazis (falso, embora haja demasiados nazis na Ucrânia como na Rússia, e na Europa, os que Putin financia), que são corruptos (verdade, como na Rússia os amigos de Putin), que reprimem o russo e a cultura russa no Donbass (em parte verdade), que perseguem os partidos pró-russos (idem), que assassinaram muitos ucranianos pró-russos (os números são fantasiosos, mas havia uma guerra de fronteiras em curso com a intervenção da Rússia), que querem entrar para a NATO (querer, querem, só que a NATO não os aceitou), e que desde 2014 existe uma guerra escondida naquela parte do mundo (que, se houvesse, seria conforme o direito internacional, depois da anexação da Crimeia e do apoio às milícias pró-russas no Donbass). Pelo contrário, os países ocidentais da agressiva NATO engoliram a conquista territorial russa da Crimeia com o rabo entre as pernas. Nem disso Putin se pode queixar. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

Mesmo que se admita tudo isto (insisto que não é verdade a maioria das coisas), que o PCP repete numa lógica que só serve para a legitimação da invasão, o que é que aconteceu de muito grave em 2022 que levou Putin a preparar, negar e depois começar uma invasão maciça da Ucrânia? Nada. É uma pura agressão, uma pura guerra de grande escala que inclui desde início a ameaça do nuclear, o ataque a civis (incontroverso em geral, mesmo que nalguns casos possa haver montagens), e o PCP vem agora falar com neutralidade de uma “guerra” com dois lados igualmente culpados, um muito mais do que outro, o do agredido. Tretas. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

A atitude do PCP não afecta apenas o PCP, afecta a saúde da democracia muito para além do partido. Permitiu à direita radical encontrar um adversário a jeito e o que deseja é a ilegalização do PCP. Não o diz, por falta de coragem, mas é o que está lá. E o PCP, enfraquecendo-se por culpa própria, fez um enorme favor à direita radical, e não é pelo encolhimento do voto dos comunistas, mas pelo enfraquecimento do movimento sindical em particular.

Pode-se afirmar que a CGTP segue a estratégia do PCP, politiza as lutas a favor da ideologia e política do PCP, tem uma visão marxista da sociedade e da “luta de classes”, pode-se dizer isto tudo, até porque é verdade. Mas com a crescente indiferença, para não lhe chamar outra coisa, dos partidos sociais-democratas, PS e PSD, sobre os direitos dos trabalhadores, um operário ameaçado de um despedimento colectivo predador, um empregado de supermercado obrigado a condições de trabalho degradantes que o Estado não controla como deve, uma trabalhadora vítima de assédio, sem meios nem recursos para ir a um advogado, todos os que são explorados por salários de miséria (sim, isto existe) e querem reivindicar os seus direitos e a dignidade do trabalho, todos eles precisam de uma força que encontravam num já muito debilitado movimento sindical e sem o qual não há democracia. O PCP, para além de se ter perdido a si mesmo, acabou por fazer, nas suas palavras, o maior frete possível ao “patronato”. Façam-nos justiça de perceber que nós percebemos.

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publicado às 17:21

In jornal Público em 22 de abril de 2022

O actual poder na Ucrânia ilegalizou o Partido Comunista?

Volodimir Zelenskii discursou na Assembleia da República por videoconferência Rui Gaudencio

Deputados comunistas não marcaram presença durante o discurso de Zelenskii. Ilegalização de homólogos ucranianos foi uma das razões apontadas.

A frase

“O 25 de Abril permitiu a libertação de antifascistas e democratas [em Portugal]. Na Ucrânia, acontece o contrário: há um poder que avançou no sentido da ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia, que avançou para a ilegalização de um conjunto de partidos políticos no próprio país”

Paula Santos, líder parlamentar do PCP

O contexto

Paula Santos, líder parlamentar do Partido Comunista Português (PCP), falava esta quinta-feira aos jornalistas sobre o discurso do Presidente ucraniano Volodimir Zelenskii, justificando ainda a razão para os deputados comunistas não terem marcado presença no hemiciclo durante a cerimónia. Classificando a comparação feita por Zelenskii entre a luta ucraniana e o 25 de Abril, relembrou a ilegalização do Partido Comunista ucraniano e a suspensão de outros partidos políticos.

Os factos

O processo de ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia foi de iniciativa política do Governo ucraniano, que começou por fazer passar uma lei que ilegalizava a urilização de símbolos comunistas e que acabaria por culminar, em Dezembro de 2015, com a ilegalização propriamente dita decretada pelo Tribunal Administrativo de Kiev, depois de dar como provado um alegado apoio aos movimentos separatistas pró-russos na região leste do país. 

No entanto, na altura, o Governo era dirigido pelo primeiro-ministro Arsenii Iatseniuk, que governava uma coligação composta por cinco forças políticas: o bloco pró-europeu de Petro Poroshenko (Presidente na altura), a Frente Popular, o partido Pátria, o Auto-ajuda e ainda o Partido Radical.

Apesar de não ter estado directamente envolvido neste processo, Zelenskii foi responsável pela suspensão de actividade política de 11 outros partidos em Março, após a introdução da lei marcial no país. O Presidente justificou esta decisão alegando que estas forças tinham ligações directas com a Rússia e Vladimir Putin. 

Em resumo

Volodimir Zelenskii não esteve directamente ligado à ilegalização do PCU, porque nem sequer estava na política quando o processo foi desencadeado pelo Ministério do Interior da Ucrânia e que culminou na decisão judicial. O Presidente ucraniano esteve, contudo, na origem da suspensão da actividade política de mais de uma dezena de partidos, após a invasão russa da Ucrânia a 24 de Fevereiro.

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publicado às 19:01

Mentiras do PCP

por Manuel_AR, em 22.04.22

In Polígrafo em 22 de abril de 2022

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A ausência do PCP na sessão no Parlamento destinada a apoiar Volodymyr Zelensky - convidando-o a discursar – foi explicada pela líder parlamentar do PCP, Paula Santos, na quarta-feira, com este argumento: “Volodymyr Zelensky personifica um poder xenófobo e belicista, rodeado e sustentado por forças de cariz fascista e neonazi, incluindo de carácter para-militar, de que o chamado Batalhão Azov é exemplo."

O Polígrafo olhou para os argumentos do PCP e verificou um a um.

1.

O que está em causa: Desde que Zelensky é presidente, foi iniciado algum conflito militar, interno ou externo, pela Ucrânia enquanto Estado (com exceção da defesa à agressão russa, desde 24 de fevereiro deste ano)?

A análise: Volodymyr Zelensky foi eleito a 21 de abril de 2019. Todos os conflitos armados – civis e militares - anteriores a 2022 que tiveram ou têm a Ucrânia como palco iniciaram-se na primeira metade da década: Euromaidan (2013/2014); Donbass (2014). Também a crise na Crimeia – com a perda do território, mas sem confronto militar, apesar do posicionamento de tropas russas – é dessa época (2014).

No discurso de posse, a 20 de maio, Zelensky afirmou que o cessar fogo no Donbass era uma prioridade.

Avaliação do Polígrafo: Falso

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2.

O que está em causa: No mandado de Zelensky, desde 2019, houve alguma medida segregadora em relação à presença ou direito à cidadania de algum povo ou etnia ou a proibição do uso da língua russa?

A análise: Não houve nenhuma lei aprovada nem a evidência de prática reiterada discriminatória relativamente a algum povo ou etnia. 

No que concerne o idioma russo, a 25 de abril de 2019, quatro dias depois da eleição de Zelensky (mas ainda sem este ter tomado posse), o parlamento ucraniano (órgão de soberania autónomo) aprovou uma lei que obrigavao uso do idioma ucraniano na administração pública e ao seu reforço nos órgãos de comunicação social.

A iniciativa legislativa foi elogiada pelo então ainda presidente ucraniano, Poroshenko, que acabara de perder as eleições presidenciais. Zelensky dissolveu o Parlamento logo no discurso da sua investidura, menos de um mês depois da aprovação desta lei.

Recorde-se que na Ucrânia, os idiomas ucraniano e russo eram ambos de uso generalizado. Zelensky, por exemplo, falava primacialmente russo.

Avaliação do Polígrafo: Falso

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3.

O que está em causa: O Batalhão Azov foi criado ou institucionalizado durante o mandato de Zelensky?

A análise: Este batalhão tem, de facto, a sua matriz em movimentos neonazis e supremacistas brancos, desde logo indiciada pelo símbolo que adotou.

Contudo, foi criado em 2014 – para combater as forças pró-russas no conflito no Donbass – e integrado na Guarda Nacional Ucraniana no final de 2014, mais de quatro anos e meio antes de Zelensky chegar à política e ao topo da hierarquia de Estado.

São imputadas a este grupo várias atrocidades nessa guerra civil que decorre na parte leste do país. Atualmente, é uma das forças militares que constitui o bloco militar ucraniano que combate as tropas russas, tentando travar o avanço dos invasores no território da Ucrânia, embora minoritária no relativamente ao contingente global de soldados e milicianos.

Avaliação do Polígrafo: Falso

 

Não se confirmam, assim, as imputações de um poder “xenófobo e belicista, rodeado e sustentado por forças de cariz fascista e neonazi” que o PCP faz ao atual presidente eleito da Ucrânia.

Zelensky herdou o conflito militar no Donbass (existente desde 2014), bem como, nesse contexto, a participação do lado ucraniano (contra os separatistas pró-russos) de um grupo que, de facto, é formado por vários elementos de extrema-direita e até nazis (Batalhão Azov), mas que é minoritário no quadro da Guarda Nacional Ucraniana. Politicamente, Zelensky não beneficiou do apoio da extrema-direita na sua eleição, em 2019.

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publicado às 18:29

Ucrânia e Putin-8.png

Quem tiver paciência para ler na íntegra os discursos do Presidente Vladimir Putin antes e depois do 24 de fevereiro, data triste marcada pela invasão da Ucrânia pelas suas forças, encontrará nos artigos e opiniões escritos pelos que se dizem não pertencer ao “pensamento único do rebanho” muitas semelhanças, algumas passagens parecem ser frases transcritas sobre as causas da invasão fazendo parecer que são o ocidente, a OTAN, os EUA e a U.E. os grandes responsáveis por tal ato alinhando com as teses de Moscovo e, claro, como a da Embaixada Russa em Portugal.

Parecem querer deixar claro que as vítimas só merecem solidariedade quando são perfeitas, daí as acusarem de erros e outras culpas. Para esses se não há vítimas perfeitas, não há solidariedade para com eles nunca. É uma nova moral, a deles, que nos querem quase impor.

Elencam os defeitos ucranianos merecedores do inferno, por não serem os meninos bem-comportados que deviam ser. Se os ucranianos não são isentos de quaisquer culpas e serem por eles vistos como inocentes, então, não se pode reclamar dos alegados injustos e perversos crimes de guerra russos cuja responsabilidade não é dos russos, mas do seu chefe máximo Putin. Para esta gente as vítimas só merecem solidariedade se forem univocamente perfeitas e, como não há vítimas perfeitas, então não são nunca merecedoras de solidariedade.

Cito abaixo, com realce, algumas das citações dos argumentos do discurso de Putin publicado por alguns órgãos de comunicação russos a 24 de fevereiro de 2022 titulado com “O discurso do Presidente à nação em conexão com a situação no Donbass”.

Putin: Assim, começarei com o facto de que a Ucrânia moderna foi inteiramente criada pela Rússia, mais precisamente, bolchevique, a Rússia comunista. Este processo começou quase imediatamente após a revolução de 1917.

Putin parece prender ser o interprete único da história russa. A Ucrânia não deixou de ser um país por ter sido anexado durante a Revolução Soviética:

A Ucrânia não deixou de ser um país por ter sido anexado durante a Revolução Soviética, como também o foram outros países depois da II Guerra que ficaram sob a alçada da ex-URSS.

Putin omite factos históricos ao referir-se apenas à Ucrânia moderna. Mas um país, não é por isso que deixa de ser soberano e de existir historicamente. A Rússia moderna também foi criada pelos mesmos e não foi por isso que deixa de ser um país independente e soberano!

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Putin: sem qualquer autorização do Conselho de Segurança da ONU, …eles (o ocidente) conduziram uma sangrenta operação militar contra Belgrado, usaram aviação, mísseis bem no coração da Europa.

Os factos:

A operação militar foi decidida após o fracasso das negociações para terminar o conflito no Kosovo entre os separatistas armados albaneses do Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) e as forças sérvias comandadas pelo líder nacionalista Slobodan Milosevic.

A intervenção da NATO, com o objetivo de evitar uma limpeza étnica e crimes de guerra como os sucedidos em Srebrenica ou no cerco a Sarajevo, não teve a aprovação do Conselho de segurança da ONU após veto da Rússia e da China (entre os membros permanentes).

Em resultado dos bombardeamentos, a Jugoslávia retirou-se do Kosovo, que se tornou num país de facto, apesar de não ser reconhecido por um número suficiente de países. É no Kosovo que os EUA têm a maior base militar fora do país.

Slobodan Milosevic acabou por se demitir em 2000 face a manifestações e no ano seguinte foi preso e levado para Haia, onde o Tribunal Penal Internacional para a Ex-Jugoslávia o acusou de crimes de guerra e contra a humanidade. A sua morte por ataque cardíaco, em 2006, impediu o desfecho do caso.

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Putin: …Temos que lembrar esses factos, porque alguns colegas ocidentais não gostam de recordar esses eventos, e quando falamos sobre isso, eles preferem apontar não para as normas do direito internacional, mas para as circunstâncias que eles interpretam como bem entenderem.

Antes da invasão da Ucrânia terá Putin, olhado para as normas do direito internacional? Este argumento é também utilizado pelos que se colocam ao lado de Putin, ao recorrer ao”mau comportamento” do ocidente para justificar a agressão. Parece que, neste caso, quem coloca de lado todas as normas e pratica crimes de guerra como os que se têm visto pelos órgãos de comunicação é o próprio Putin com a invasão após a data do discurso.   

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Continua o discurso:

Putin: Depois foi a vez do Iraque, Líbia, Síria. O uso ilegítimo da força militar contra a Líbia, a perversão de todas as decisões do Conselho de Segurança da ONU sobre a questão líbia levou à destruição completa do Estado, ao fato de que surgiu um enorme foco de terrorismo internacional, ao fato de que o país mergulhou em uma catástrofe humanitária, no abismo da guerra civil de longo prazo que ainda não cessou. A tragédia à qual centenas de milhares e milhões de pessoas estavam condenadas, não só na Líbia, mas em toda esta região, deu origem a um êxodo migratório em massa do norte da África e do Oriente Médio para a Europa.

Foi preparado um destino semelhante para a Síria. As ações militares da coligação ocidental no território deste país sem o consentimento do governo sírio e a sanção do Conselho de Segurança da ONU nada mais são do que agressão, intervenção.

Em 2015, as Forças Armadas foram usadas para colocar uma barreira confiável à penetração de terroristas da Síria na Rússia. Não tínhamos outra maneira de nos proteger.

Os factos:

Os factos foram intencionalmente distorcidos no discurso para que Putin tivesse argumentos para uma despropositada comparação com a invasão que lançou sobre a Ucrânia, esquecendo a sua intervenção na Síria para a apoiar o ditador Assad.

Uma coligação liderada pelos EUA também realizou ataques aéreos e mandou forças especiais para a Síria a partir de 2014 para ajudar uma aliança de milícias curdas, árabes, assírias e turcas chamada de Forças Democráticas Sírias, as FDS, que antes estava dominando pelo Estado Islâmico. As (FDS) defendem um governo secular, democrático e federalista em território sírio.

O Presidente russo, Vladimir Putin em 2015 mobilizou as suas tropas para ajudar Bashar al-Assad na guerra civil na Síria que já leva mais de uma década. Em 2016 a zona oriental de Alepo era conquistada pelo regime às forças da oposição, com a ajuda da força aérea da Rússia, que reduziu praticamente a ruínas uma das cidades mais antigas do mundo.

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Putin: Após o colapso da URSS, a redivisão do mundo realmente começou, e as normas do direito internacional que se tinham desenvolvido naquela época – e a chave, as básicas foram adotadas no final da Segunda Guerra Mundial e consolidaram em grande parte seus resultados – começaram a interferir com aqueles que se declararam vencedores na Guerra Fria.

O saudosismo:

Putin mostra-se saudosista e elogia indiretamente o passado ao tempo da URSS para imputar ao ocidente a culpa de todos os males que inclusivamente levaram ao fim da Guerra Fria.

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Putin: … a invasão do Iraque também sem qualquer fundamento legal. Como pretexto, eles escolheram as supostas informações confiáveis disponíveis para os Estados Unidos sobre a presença de armas de destruição em massa no Iraque. Como prova disso, publicamente, diante dos olhos de todo o mundo, o Secretário de Estado dos EUA sacudiu algum tipo de tubo de ensaio com pó branco, assegurando a todos que esta é a arma química que está sendo desenvolvida no Iraque. E então descobriu-se que tudo isso era uma fraude, um blefe: não há armas químicas no Iraque. Incrivelmente, surpreendentemente, o fato permanece. Havia mentiras no mais alto nível estadual e da alta tribuna da ONU. E como resultado, enormes baixas, destruição, uma incrível onda de terrorismo.

Confundir e misturar factos são argumentos ineptos:

As fraquezas e estratégias errada da política externa dos EUA e de países que o coadjuvaram na invasão do Iraque foi uma espécie de retaliação ao terrorismo do 11 de setembro de 2000 muito mal escolhida, mas não se tratou de uma ocupação territorial e à luz da mora não pode justificar um caso de invasão como aquele que Putin cometeu.

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Putin: Apesar de tudo, em dezembro de 2021, tentámos mais uma vez chegar a um acordo com os Estados Unidos e seus aliados sobre os princípios de garantir a segurança na Europa e sobre a não expansão da OTAN. Tudo em vão. A posição dos EUA não está mudando. Eles não consideram necessário negociar com a Rússia sobre esta questão-chave para nós, perseguindo seus objetivos, negligenciando nossos interesses.

 

A tese da liberdade de escolha:

A que interesses é que Putin se refere? Voltar a fazer sucumbir os países quer estiverem sob o domínio da Ex-URSS? É que Putin ainda não conseguiu digerir a sua frustração de que países que eram satélites da URSS após a libertação da sua esfera estejam a optar por aderir à União Europeia e pedirem a sua entrada para a OTAN. Países livres e soberanos têm o direito de optar pela sua entrada nas organizações que entenderem e, se isso, acontece talvez seja porque estejam receosos da uma agressão por parte de Moscovo/Putin e que lhes acontecesse como está a gora a acontecer à Ucrânia.

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Putin: Quanto à esfera militar, a Rússia moderna, mesmo após o colapso da URSS e a perda de uma parte significativa de seu potencial, é hoje uma das potências nucleares mais poderosas do mundo e, além disso, tem certas vantagens numa série de novos tipos de armas. A este respeito, ninguém deve ter dúvidas de que um ataque direto ao nosso país levará à derrota e terríveis consequências para qualquer potencial agressor.

………………………………..

A expansão da infraestrutura da Aliança do Atlântico Norte, o início do desenvolvimento militar dos territórios da Ucrânia são inaceitáveis para nós. Certamente não é sobre a própria OTAN – é apenas um instrumento da política externa dos EUA. O problema é que nos territórios adjacentes a nós – notei, em nossos próprios territórios históricos – está sendo criado um hostil "anti-Rússia", que é colocado sob controle externo total, intensamente estabelecido pelas forças armadas dos países da OTAN e bombeado com as armas mais modernas.

Para os Estados Unidos e os seus aliados, esta é a chamada política de conter a Rússia, dividendos geopolíticos óbvios. E para o nosso país, é, em última análise, uma questão de vida ou morte, uma questão do nosso futuro histórico como povo. E isso não é um exagero – é. Esta é uma ameaça real não só aos nossos interesses, mas à própria existência do nosso Estado, à sua soberania. Esta é a linha vermelha que tem sido repetidamente falada. Eles atravessaram.

 

A omissão dos falsos pacifistas:

Putin pontua sobre uma possível justificação para iniciar uma invasão seja onde for por motivos de defesa e clama ao povo pelo orgulho nacional na sua defesa preparando a população para potenciais ataques sobre os que ele chama agressores.

Putin contradiz todos quantos criticam e assinalam o ocidente como um conjunto de países belicistas que tem enormes custo financeiros com inclusão nos orçamentos dos países enormes verbas destinados ao armamento. Putin é claro no que diz respeito ao armamento e ao investimento nas suas forças armadas considerando a Rússia como “uma das potências nucleares mais poderosas do mundo. A todos quanto sejam contra os EUA e os seus aliados Putin agradece a ajuda e é um estímulo para futuras pretensões expansionistas.

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Putin: Vemos que as forças que realizaram um golpe de Estado na Ucrânia em 2014 tomaram o poder e estão segurando-o com a ajuda, de facto, de procedimentos eleitorais decorativos, finalmente abandonaram a solução pacífica do conflito. Durante oito anos, fizemos todo o possível para resolver a situação por meios pacíficos e políticos. Tudo em vão.

A falsa desculpa:

A atuações do Kremlin como se passa na Bielorrússia onde está há anos um ditador títere de Moscovo, e na própria Rússia onde a oposição é esfrangalhada e depois perseguida por Putin, tal qual hoje a censura férrea está em circulação em toda a Rússia. Fazem censura ao que se passa na Ucrânia e proíbem a liberdade de expressão sobre a guerra. Então não é uma intervenção militar especial?

 

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Putin: Claro, eles também irão para a Crimeia, assim como em Donbass, com guerra, a fim de matar, como punidores de gangues de nacionalistas ucranianos, cúmplices de Hitler durante a Grande Guerra Patriótica, mataram pessoas indefesas. Eles também declaram abertamente que reivindicam uma série de outros territórios russos.

…………………………..

Todo o curso dos acontecimentos e a análise das informações recebidas mostram que o confronto da Rússia com essas forças é inevitável. É só uma questão de tempo: eles se preparam, esperam por uma hora conveniente. Agora eles também afirmam possuir armas nucleares. Não permitiremos que isso aconteça.

As mentiras desmontadas pelos factos:

A justificação para a invasão era que, o inimigo, a Ucrânia, seria um potencial invasor e que, como tal, para o evitar deveria ser primeiro invadido. Apenas e porque havia “análise das informações recebidas”.  Também para Hitler o inimigo eram os judeus e a Polónia e que, por isso, a invadiu. Curiosa esta narrativa. Como Putin, no seu discurso antes da invasão, preparava os russos para o apoio das suas teses conotando e chamando aos ucranianos nacionalistas, nazis e neonazis e até cúmplices de Hitler. Vemos agora, trinta e quatro dias, após a invasão da Ucrânia quem é criminoso de guerra! 

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Putin: … a Rússia após o colapso da URSS aceitou novas realidades geopolíticas. Respeitamos e continuaremos a tratar todos os países recém-formados no espaço pós-soviético da mesma forma.

… a Rússia não pode se sentir segura, desenvolver, existir com uma ameaça constante emanando do território da Ucrânia moderna.

… decidi realizar uma operação militar especial. O seu objetivo é proteger as pessoas que foram submetidas ao bullying e ao genocídio pelo regime de Kiev por oito anos. E para isso, lutaremos pela desmilitarização e desnazificação da Ucrânia, bem como trazendo à justiça àqueles que cometeram numerosos crimes sangrentos contra civis, incluindo cidadãos da Federação Russa.

Ao mesmo tempo, nossos planos não incluem a ocupação de territórios ucranianos. Não vamos impor nada a ninguém à força.

 

A pergunta que merece resposta

Se os planos não incluem a ocupação de territórios ucranianos e de não impor nada a ninguém, a pergunta que se coloca é então o que foi que aconteceu nos últimos 39 dias e o que continua a acontecer?  Será que tudo quanto se vêm em todos os canais informativos de todo o mundo, com exceção da Rússia, é tudo ficção, mentira e propaganda do ocidente? Só os apoiantes do Kremlin é que acreditarão nisso refugiando-se do que no passado o ocidente também fez.

 

Putin: No centro de nossa política está a liberdade, a liberdade de escolha para todos determinarem independentemente seu futuro e o futuro de seus filhos. E consideramos importante que esse direito – o direito de escolha – possa ser usado por todos os povos que vivem no território da Ucrânia de hoje, por todos que o querem.

 

Salvadores há muitos.

Mais uma vez a deturpação das realidades Putin quer mostrar-se ao povo russo como o grande salvador da humanidade e, neste caso, da Ucrânia. Falar em liberdade quando no seu país ela está condicionada ou não existe, falar no direito de escolha quando quer impor a sua escolha a outros. Um país soberano, seja ele o que for tem o direito de escolher o que regime que quiser, não necessita de salvadores que os ocupem.

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Ecos da história.

Desde o início de março de 2014, manifestações de grupos pró-russos e anti governo ocorreram nos oblasts de Donetsk e Luhansk, que integram a região da Bacia do Rio Donets, na sequência da Revolução ucraniana de 2014 e do movimento Euromaidan. Esse conflito armado ocorreu em parte do território ucraniano que foi objeto de diversos protestos pró-russos em todo sul e leste da Ucrânia. Trata-se de um conflito armado entre as forças separatistas das autodeclaradas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk e o governo ucraniano.[43][44] Os separatistas são amplamente liderados por cidadãos russos.[45] Os paramilitares voluntários russos são relatados por compor entre 10% e mais de 50% dos combatentes.

Após o colapso da União Soviética em 1991, a Ucrânia firmou-se como uma nação independente. Contudo, no Leste, especialmente em Donetsk e Luhansk (na região da Bacia do Donets (Donbas), as minorias russas começaram a reinvindicar mais autonomia política, algo a que o governo central em Kiev resistia. No final da década de 2000, o governo ucraniano passou a buscar uma maior aproximação com a Europa Ocidental, algo que a Rússia via com maus olhos. Em 2013, em meio a uma crise económica, o presidente Víktor Yanukóvytch rejeitou um acordo com a União Europeia e iniciou uma reaproximação com o governo russo. A população ucraniana, principalmente aquelas concentradas nas grandes cidades do Oeste, iniciaram-se enormes protestos (conhecidos como Euromaidan) e forçaram o presidente Yanukóvytch a renunciar em fevereiro de 2014. Aproveitando-se do caos político que se seguiu na Ucrânia, a Rússia anexou, em março, a região da Crimeia.

 

Em síntese: E mais não digo. Se não existissem estes pretextos Vladimir Putin recorreria a outros para justificar a invasão que há muito terá premeditado. O tempo oportuno foi este após a saída de Merkel da cena política e a presidência dos EUA ter mudado de Trump para Biden.

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publicado às 15:55

Ucrânia e Putin-7.png

Insiro hoje no blogue uma análise do discurso do presidente Vladimir Putin antes da invasão da Ucrânia que poderá ajudar a esclarecer pontos de vista duvidosos que circulam pelas redes sociais. Se pretender aceder ao discurso original poderá seguir este link.

Vladimir Putin justifica a invasão da Ucrânia pela necessidade de a Rússia "se proteger", parar o "genocídio" e "desnazificar" a Ucrânia. A DW analisa as alegações do Presidente da Federação Russa.

Todavia, podemos dizer que na Ucrânia, como em muitos outros países, existem pequenos grupos extremistas de direita. No entanto, segundo especialistas, eles desempenham um papel completamente insignificante na sociedade. Assim, não há razão real para falar em "desnazificação", alegação de Putin e do PCP como justificação da sua ausência na telepresença de Zelensky na Assembleia da República.

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Verificação de factos da DW - Deutsche Welle

A Deutsche Welle (DW) é a emissora internacional da Alemanha e uma das mais bem-sucedidas e relevantes media internacionais.

Tropas russas estão a bombardear cidades ucranianas e a realizar hostilidades em larga escala no território da Ucrânia. A invasão russa começou em 24 de fevereiro, pouco antes disso, o presidente russo Vladimir Putin fez um discurso aos russos, no qual salientou as razões pelas quais decidiu ordenar um ataque, que, do seu ponto de vista, é uma defesa. DW - sobre o quão objetivos são os principais argumentos dados por Putin.

As tropas da OTAN estão se aproximando das fronteiras da Rússia?

A declaração de Putin: "A aliança (...) está a expandir-se constantemente, a máquina militar está a mover-se e a aproximar-se perto das nossas fronteiras."

Verificação de factos da DW: Esta declaração é enganosa.

É verdade nesta declaração que, após o colapso da União Soviética, 14 países da Europa Oriental tornaram-se parte da Aliança do Atlântico Norte. Quatro desses países fazem fronteira com a Rússia. Em 2008, a Ucrânia também teve a perspetiva de ingressar na OTAN, mas desde então o processo correspondente foi congelado. O chanceler alemão Olaf Scholz durante a sua visita a Moscovo em meados de fevereiro ressaltou que, num futuro previsível, a admissão da Ucrânia à OTAN não está na ordem do dia.

Também é verdade que a infraestrutura logística e os locais de voo necessários para o possível reforço operacional das tropas foram preparados no território dos países membros da OTAN do Leste Europeu. No entanto, é importante notar que essas medidas foram tomadas após a anexação da Crimeia ucraniana pela Rússia em 2014, o que constitui uma violação do direito internacional, e foram uma reação a essas ações de Moscovo.

A Aliança do Atlântico Norte continua a cumprir as disposições da Lei fundadora da OTAN-Rússia de 1997, que proíbe a implantação permanente adicional de forças de combate significativas nos países que se juntarem à OTAN.

No que respeita à deterioração das relações entre a Rússia e o Ocidente, a OTAN começou a rodar batalhões de grupos de combate nos Estados Bálticos e na Polónia em 2016. No entanto, esses grupos de batalha de 5.000 soldados são muito pequenos para representar uma ameaça real à Rússia, cujas forças armadas somam cerca de 850.000 soldados ativos.

Os países membros individuais da OTAN também realizam cooperação bilateral fora da aliança. Moscovo assistiu com grande suspeita à implantação de sistemas de defesa antimísseis Aegis Ashore. Eles estão a preparar-se para serem colocados na Roménia e já foram colocados na Polónia.

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Imagem de DW
Moradores de Kiev estão a procurar proteção contra ataques de mísseis no metropolitano

Estes sistemas foram originalmente desenvolvidos para navios de guerra. Eles podem produzir mísseis de cruzeiro que podem chegar à Rússia em pouco tempo, explica Wolfgang Richter, coronel aposentado do Bundeswehr e funcionário da Fundação para a Ciência e Política (SWP), com sede em Berlim, em entrevista à DW. No entanto, segundo ele, este não é um problema insolúvel.

"Esse problema pode ser resolvido através de verificação específica. Isso significa que a Rússia pode ter a oportunidade de garantir que não haja mísseis de cruzeiro prontos para lançamento nos silos de lançamento de Aegis Ashore. Mas Moscovo rejeitou uma oferta para entrar em um diálogo de controle de armas, disse Richter. "Em vez disso, escolheu a guerra e destruiu a perspetiva de uma solução negociada."

O ataque russo é uma defesa de acordo com a Carta das Nações Unidas?

Declaração de Putin: "As circunstâncias exigem que ajamos de forma decisiva e imediata. As Repúblicas Do Povo de Donbass pediram ajuda à Rússia. A este respeito, de acordo com o artigo 51 da Parte 7 da Carta das Nações Unidas, com a aprovação do Conselho da Federação da Rússia e em prol dos tratados de amizade e assistência mútua ratificados pela Assembleia Federal em 22 de fevereiro deste ano com a República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk, decidi realizar uma operação militar especial", disse Putin no seu discurso em 24 de fevereiro.

No mesmo discurso, o presidente da Federação Russa apontou: "Nós simplesmente não ficámos com nenhuma outra oportunidade de proteger a Rússia, o nosso povo, exceto aquele que seremos forçados a usar hoje."

Verificação de factos da DW: Ambas as alegações são falsas. Não é verdade que a Rússia seja forçada a "defender-se" contra a Ucrânia, nem que possa contar com a Carta das Nações Unidas.

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Imagem de DW

A alegação faz parte de uma série de acusações de Putin de que a Ucrânia está a conduzir operações militares ofensivas e até a preparar-se para uma guerra contra a Rússia.

Pouco depois de a Rússia reconhecer o autoproclamado "DPR" e "LPR", eles recorreram a Moscovo para pedir ajuda, e Putin enviou tropas para a região ocupada por separatistas pró-russos, a que ele chamou "manutenção da paz". De facto, no entanto, foi uma continuação da ocupação assustadora da Rússia na Ucrânia que começou em 2014.

Moscovo ainda não forneceu nenhuma evidência de que a Ucrânia atacou a Rússia, não há informações independentes sobre esta questão. Nas áreas separatistas no leste da Ucrânia, pelas quais há vários anos, houve falsas ações de bandeira, ou seja, ataques que blogueiros expuseram como encenados.

"O direito à autodefesa pressupõe um ataque da outra parte. No caso da Ucrânia, esteataque da Ucrânia à Rússia não é absolutamente observado", diz Pia Fuhrhop (Pia Fuhrhop), especialista da Fundação de Ciência e Política (SWP) no campo da segurança internacional, em entrevista à DW. Furhop chama ao argumento de Putin "traiçoeiro" e explica: "Exatamente o oposto: nas últimas semanas, a Ucrânia fez de tudo para impedir que a Rússia se referisse especificamente ao direito à autodefesa".

A Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), que monitoriza a Ucrânia numa missão especial há anos, também refuta inequivocamente a alegação de Putin de que a invasão russa se enquadra no artigo 51 da Carta das Nações Unidas. O presidente da OSCE e ministro das Relações Exteriores polonês Zbigniew Rau condenou a invasão russa como uma "violação fundamental da Carta das Nações Unidas". Justificar o ataque nos termos do artigo 51º foi "lamentável e vergonhoso", ressaltou.

Por sua vez, o secretário-geral da ONU, António Guterres, falando aos repórteres, disse: "Esta guerra não faz sentido. Viola os princípios da Carta das Nações Unidas."

O artigo 51º da Carta das Nações Unidas garante aos Estados-membros da ONU o direito à "autodefesa individual ou coletiva" em caso de ataque armado. No entanto, como ressalta Marcelo Cohen, professor de direito internacional do Instituto de Pós-Graduação em Estudos Internacionais e de Desenvolvimento em Genebra, não é o caso da Rússia. "O argumento de Putin é infundado por várias razões", disse Cohen em entrevista à DW. - Primeiro, os dois territórios separatistas ("DPR" e "LPR") não são estados do ponto de vista do direito internacional. Em segundo lugar, antes da invasão da Rússia. A Ucrânia não tomou "medidas violentas" contra esses dois territórios." E, em terceiro lugar, o uso maciço da força contra instalações militares em toda a Ucrânia é desnecessário e desproporcional, enfatiza o especialista.

Sem qualquer evidência de um ataque armado pela Ucrânia, as ações da Rússia permanecem, de facto, uma guerra de agressão sem qualquer justificativa nos termos do artigo 51º.

 O "genocídio" ocorreu na Ucrânia?

A alegação de Putin: o objetivo da chamada "operação especial" da Rússia na Ucrânia é "proteger as pessoas que foram submetidas a bullying e genocídio pelo regime de Kiev por oito anos".

Verificação de factos da DW: Isso não é verdade.

O termo "genocídio", segundo a Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, adotada pela Assembleia Geral da ONU em 1948, significa "atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso como tal".

Não há relatos de tais massacres direcionados de civis na Ucrânia, embora todas as vítimas civis do conflito tenham sido cuidadosamente documentadas por observadores internacionais desde 2014. Nos relatórios regulares da missão de monitoramento da OSCE, que tem viajado em ambos os lados da linha de contato no leste da Ucrânia desde 2014 – também com o consentimento da Rússia – não há evidências de morte sistemática de civis. As baixas civis do conflito são consideradas pelos observadores como resultado dos combates ou das suas consequências.

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos em 2021, um total de cerca de 3.000 civis morreram na zona de combate no leste da Ucrânia.

A Missão observadora da OSCE regista todos os mortos e feridos nos seus relatórios diários. O maior número de civis foi morto na primeira fase do conflito em 2014-2015. Desde 2016, o número de vítimas vem diminuindo constantemente. O último relatório de resumo disponível da missão de observação de 2020 registou as mortes de 161 civis entre 1º de janeiro de 2017 e meados de setembro de 2020 – com um número aproximadamente igual de vítimas de ambos os lados. A causa predominante da morte foi bombardeios de artilharia, seguidos de minas terrestres e explosões de munição.

"A maioria das vítimas - 81 mortos e 231 feridos - foram causadas por minas, artilharia não detonada e outros explosivos. Civis foram mortos ou feridos em várias circunstâncias, incluindo enquanto trabalhavam nos campos, pescando ou caminhando", diz o relatório de setembro de 2020 da Missão Especial de Monitoramento da OSCE. Pia Furhop, da Fundação Ciência e Política, chama às acusações de Putin de genocídio de "absolutamente infundadas".

Na sua opinião, o presidente russo não se importa com os factos: "No sistema autoritário, que hoje é a Rússia, os media de investigação não têm oportunidade para verificar isso de forma alguma. A este respeito, basta que ele Putin justifique a guerra sem uma base factual", disse Furhop.

 É necessário "desnazificar" a Ucrânia?

Afirmação de Putin: para evitar o suposto bullying e o suposto "genocídio", a Rússia precisa fazer esforços para "desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia".

Verificação de factos da DW: Esta declaração não é verdadeira.

A declaração de Putin é uma narrativa de propaganda que ele vem repetindo há muito tempo e que não tem base de facto. Para implementar os seus planos na Ucrânia, Putin usa o conceito histórico de "desnazificação". Descreve as políticas dos países vitoriosos em relação à Alemanha nazi após a Segunda Guerra Mundial. O objetivo desta medida, então, era libertar o país da influência dos nazis e remover as pessoas que apoiaram este curso dos seus postos.

É errado comparar isso com a situação na Ucrânia, ressalta Andreas Umland, analista do Centro de Estudos da Europa Oriental de Estocolmo (SCEEUS), em entrevista à DW. "Falar de nazismo na Ucrânia é absolutamente inapropriado", disse ele. "O presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky é um judeu de língua russa que na última eleição presidencial com uma grande vantagem contornou o candidato ucraniano sem raízes judaicas."

De acordo com Andreas Umland, existem de facto grupos de ultradireita na Ucrânia. No entanto, seu impacto é relativamente pequeno se compararmos a situação na Ucrânia com a situação de alguns outros países europeus, diz ele. "Nas últimas eleições parlamentares em 2019 na Ucrânia os partidos ultradireita e radicais saíram como uma frente unida, e essa frente unida ganhou um total de 2,15% dos votos", lembra o especialista.

Por sua vez, Ulrich Schmid, professor no estudo da cultura e da sociedade russa na Universidade de St. Gallen, na Suíça, chama às palavras de Putin sobre a necessidade de "desnazificar a Ucrânia" como uma "insinuação descarada". Schmid está envolvido em pesquisas no campo do nacionalismo na Europa Oriental. "De facto, durante os protestos euromaidano em 2013 e 2014, havia grupos separados de extrema-direita. No entanto, hoje eles desempenham um papel secundário no país", disse Schmid em entrevista à DW. "Existem esses grupos, mas há pelo menos tantos grupos de extrema-direita na própria Rússia quanto existem na Ucrânia", acrescenta.

Grupos militantes ucranianos de direita que lutam contra separatistas no leste da Ucrânia, como o Regimento Azov, foram criticados. O Regimento Azov foi fundado por um grupo de ultradireita, mas em 2014 foi incluído nas tropas internas do Ministério dos Assuntos Internos da Ucrânia, aponta a Guarda Nacional, Umland. Depois disso, houve uma separação do movimento radical e do regimento. Este último ainda usa símbolos radicais de direita, mas não pode mais ser classificado como extremista de direita. Durante os cursos de treinamento para militares, soldados que compartilham ideologia extremista de direita foram notados, mas foram identificados, e isso causou um escândalo, observa Umland.

Resumindo, podemos dizer que na Ucrânia, como em muitos outros países, existem pequenos grupos extremistas de direita. No entanto, segundo especialistas, eles desempenham um papel completamente insignificante na sociedade. Assim, não há razão real para falar em "desnazificação".

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publicado às 17:17


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