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O trio de Odemira e do sudoeste alentejano

por Manuel_AR, em 08.05.21

 

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Não, não lhes vou falar do Trio Odemirada que surgiu em 1955, primeiro a dois que depois passou a trio com a entrada de um terceiro elemento que, em 2019, celebrou os 60 anos de carreira. Vou falar de um trio, este não musical, que se instalou em Odemira em que os seus elementos são protagonistas e coniventes pelo que se passa no sudoeste alentejano.

No concelho de Odemira os referidos protagonistas dos acontecimentos chegaram à ribalta, não fosse a covid-19. Mas deixemo-nos de graças porque a coisa é agreste lá para aquelas bandas.

É um trio da irresponsabilidade, da indiferença, do deixa andar, dos culpados, como queiram.

Os elementos do trio que protagonizam a desgraça são: em primeiro lugar os empresários agroindustriais que lançam para o ar o chavão “criamos riqueza”, seja lá o que eles entendam por isso, mas apenas quando lhes convém. São áreas extensíssimas de estufas que empregam mão de obra com facilidade de adaptação, por necessidade de sobrevivência, à exploração. São os trabalhadores usados para criar riqueza, resta saber para quem, (não, não sou contra a iniciativa privada, bem pelo contrário, mas há a ética, meus senhores, a ética!);

O segundo elemento do trio são os imigrantes que trabalham naqueles empreendimentos que vivem em condições de trabalho e de habitabilidade impensáveis e desumanas na segunda década do século XXI;

O terceiro elemento do trio é o Governo e os ministérios, instituições e organismos por ele tutelados que deveriam supervisionar, dentro das suas competências, e fiscalizar os dois anteriores elementos do trio.

Não fosse a gravidade da situação causada pela covid-19 os factos relacionados com imigração ilegal, tráfego humano, escravatura versão século XXI, condições de habitabilidade indignas para seres humanos e exploração salarial que vieram para a opinião pública continuariam bem guardados no segredo das gavetas. Só agora alguma comunicação social acordou para o pesadelo comentando, relatando e produzindo peças ditas de investigação para telespectador ver e, por vezes, até confundir. Segura o tema porque também é um “postigo” de comunicação por onde possa atacar o governo socialista. Afirmar que, daqui para a frente, a imagem do Zmar ficará degradada com o anátema de um covidário, é demagógico e, no mínimo, ridículo.

Miguel Sousa Tavares, já tinha denunciado esta situação num artigo de opinião publicado no semanário Expresso em fevereiro de 2021 onde escreveu: “… E, além disso, tudo contribui para as exportações, não interessando saber também se, nos olivais do Alqueva ou nas estufas do Mira, todos os trabalhadores são estrangeiros e a maior parte das empresas também, tirando partido de infraestruturas pagas pelos contribuintes portugueses, de água subsidiada pelos contribuintes portugueses e de subsídios ao investimento com dinheiro europeu do qual parte é nossa.

Mas seria de facto curioso fazer as contas e perceber quanto do saldo final dessas exportações representam lucros que ficam cá, impostos e contribuições sociais que se pagam aqui. Para que desta agricultura industrial não fique apenas o rasto de uma situação social que nos envergonha e um desastre ambiental e paisagístico como aquele que cada vez mais vai crescendo no Alentejo.”.

E, acrescenta que: “Qualquer ministro da Agricultura responsável estaria em pânico com o que se está a passar no Alentejo com as culturas superintensivas de olival e amendoal à conta da água do Alqueva e com as estufas do Sudoeste à conta da exaurida barragem de Santa Clara…”

Para finalizar pergunto eu:

Alguém acredita que a freguesia do concelho de Odemira, em cerca sanitária nos próximos meses, será um destino turístico preferencial como é justificado pelos gerentes do resort Zmar(?) que se opuseram e opõe à requisição civil para alojamento dos trabalhadores das empresas agrícola? Eu não!

Alguém acredita que haja uma depreciação económica do resort Zmar, projeto que está à beira da falência, afastará a possibilidade de um possível investidor tal como foi dramatizado pelos ditos proprietários do Zmar? Eu não!

Alguém acreditou que a requisição civil incidiria também na imaginada ocupação das casas de férias dos proprietários? Eu, não!

Alguém acredita que os donos de restaurantes, que vivem situações seguramente muito mais dramáticas do que os donos do projeto Zmar, na prática falido, também sofreram as consequências da prioridade à saúde pública para não falar de todos os que perderam o emprego nessa área? Eu, sim!

A explosão de posições públicas dadas pela comunicação social incidiu sobre o resort Zmar mas, sobretudo, pelo regime de semiescravidão em que trabalhadores imigrantes se encontram, que foi obsequiada ao longo de anos com o silêncio sobre a vergonha da exploração de seres humanos sem que lhes seja garantido o mínimo de direitos em troca do trabalho que contribui para a nossa economia.

Vergonha é a palavra tantas vezes proferida por André Ventura do Chega mesmo a despropósito, mas que agora viria a propósito aplicá-la faz vistinhas de circunstância eleitoral, ele e outros que se lhe juntam, como o IL e o CDS. Talvez para eles a exploração de imigrantes não seja uma vergonha para o país.

A responsabilidade não é do Estado, é de quem o gere e o geriu e que não apenas do atual governo. É, sobretudo, da direita que nos governaram nas últimas décadas.  A dignidades daquelas pessoas só foi vista como um problema quando pôs em perigo a nossa saúde. Bem pode agora a direita apontar o dedo ao Governo, que a tem em parte, mas também foram cúmplices no seu tempo de governação do que se passa agora. Porque isto é apenas a ponta do iceberg que a covid-19 tornou ainda mais visível.  

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publicado às 19:27


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