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A derrocada do CDS

por Manuel_AR, em 02.02.22

CDS a derrocada.png

Não sou politólogo nem especialista em análise nem em comentário político, observo e avalio o que me chega pelos órgãos de comunicação social e por via dos intérpretes partidários numa perspetiva umas vezes emotiva, outras mais racional com isenção e distanciamento, o que às vezes nem sempre é possível. As minhas interpretações não partem de investigações empíricas ou de vivências partidárias, são apenas opiniões.

O que hoje me levou a desenvolver estas minhas reflexões foi o desaparecimento do CDS do círculo da política parlamentar que, apesar de nunca ter sido eleitor e ter sido bastante crítico deste partido acho que foi uma perda para a democracia, assim como foi mau para a democracia o surgimento desse simulacro de partido que dá pelo nome de Chega e que, mesmo numa ótica de extrema-direita, é uma aberração. Com todo o respeito pelas artes circenses, este partido a fazer política é como um circo de feira das mais rascas. Mas a democracia pluralista tem destes fenómenos a que ela própria tem de dar resposta.

Centrando-me no CDS e interrogo-me sobre as causas que terão levado a que este partido tenha desaparecido do Parlamento e que, se não houver quem o “agarre”, possa estar prestes a desaparecer da democracia.

Muitos analistas já estão a dissertar sobre as causas e apontam as mais sofisticadas razões para tal causa. Eu, tenho a minha dada pela observação ao longo do tempo. Há causas uma mais remotas   e outras mais recentes, é para estas que as interpretações, várias, apontam.

Para Cecília Meireles uma das causas que levou aos danos a que o partido ficou sujeito foi ter-se virado para dentro a discutir questões ideológicas em vez de discutir os problemas do país, o que, para ela, foi uma perda de tempo. Ela sendo militante do partido sabe as causas muito melhor do que eu. Todavia, olhando ao longo de algum tempo verifico que as causas podem remontar ao tempo da PaF quando o CDS fez uma coligação como PSD e acrescido pela trocas e baldrocas do líder do CDS-PP, Paulo Portas, ao revogar o irrevogável aquando  da sua inesperada demissão de ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros abriu uma crise política em julho de 2013. Portas voltou atrás e ficou no Governo liderado pelo PSD como vice-primeiro-ministro.

Paulo Portas chegou ao Governo pela segunda vez após as legislativas de 5 de julho de 2011 após obter um dos melhores resultados para o CDS (11,7% e mais de 650 mil votos), que elegeu 24 deputados.

A gota de água para saída do líder do CDS do Governo foi na altura a escolha de Passos Coelho de Maria Luís Albuquerque para substituir Vítor Gaspar, que tinha apresentado a sua demissão. Paulo Portas queria um novo responsável na pasta das finanças.

Quatro dias após Paulo Portas ter apresentado ao então primeiro-ministro o seu pedido de demissão que seria “irrevogável” os líderes dos dois partidos que compunham a coligação chegaram a um acordo. Este incluía a manutenção de Portas no Governo, já não como ministro dos Negócios Estrangeiros, mas como vice-primeiro ministro. O irrevogável tornou-se não irrevogável.

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A ameaça de demissão por Paulo Portas provocou um mês de crise da qual o CDS não saiu ileso do episódio e teve numas sondagens o pior resultado. Nesse mesmo mês de julho, o CDS não conseguia mais do que 8,1% das intenções de voto, resultado negativo para o partido de Paulo Portas que nunca tinha registado um número tão baixo.

Após um mês de crise, provocada pela demissão de Paulo Portas do Governo, o CDS não terá saído incólume deste episódio e recebe dos portugueses o pior resultado desde o início do barómetro das sondagens.

As eleições legislativas de 2015 não deram à coligação PaF, (PSD com CDS), uma maioria absoluta e não foi mesmo conseguida com uma maioria parlamentar de direita tendo o PS e os partidos à sua esquerda conseguido a maioria de deputados. Na sequência da moção de rejeição apresentada pelo PS ao programa de governo da PaF foi aprovada, com votos a favor de todos os deputados de PS, PCP, BE, PEV e PAN (123). E votos contra de todos os deputados do PSD e do CDS (107). Não houve abstenções.

O CDS-PP liderado por Paulo Portas tinha concorrido em coligação com o PSD às legislativas de 4 de outubro de 2015, apesar da vitória, o PSD e o CDS-PP em conjunto tinham obtido 38,55% e perderam cerca de 722 mil votos relativamente às legislativas de 2011 quando concorreram separados. A coligação ficou com 104 deputados.

Em dezembro de 2015 Paulo Portas comunicou aos dirigentes partidários da comissão política do CDS que não ia recandidatar-se à liderança no próximo congresso que seria convocado em Conselho Nacional no dia 7 de janeiro de 2016.

Em janeiro de 2016 Assunção Cristas então vice-presidente do CDS-PP anunciou que seria candidata à liderança do partido no 26.º Congresso, que iria decidir a sucessão de Paulo Portas.

Assunção Cristas no XIX Governo, entre 2011 e 2013, tinha sido Ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, e entre 2013 e 2015, Ministra da Agricultura e do Mar. Assunção Cristas foi responsável pela introdução, em 2013, de uma política que facilitou a plantação de eucaliptos em Portugal, acabando com muitas das restrições existentes anteriormente relativas ao eucalipto.

Em 2012 Assunção Cristas foi mentora da Lei do Arrendamento. Como jurista sabia bem das consequências desta norma que aplicada terá causada que milhares de inquilinos serem despejados ou obrigados a abandonar as suas casas pelo excessivo aumento das rendas que alguns consideraram uma lei iníqua e cruel por colocar senhorios em total supremacia sobre os inquilinos.

CDS Cristas e Melo.png

Em dezembro de 2015 o líder do CDS-PP, Paulo Portas comunicou que não se recandidataria à liderança do partido. A 12 e 13 de março de 2016 realizou-se o 26º Congresso, em Gondomar, no qual Assunção Cristas assumiu a presidência do partido que tinha concorrido em lista única, tendo sido reeleita presidente do CDS-PP no 27.º Congresso a 10 e 11 de março de 2018.

Terá começado aqui no seguimento da  demissão  de Portas a queda do CDS que Cristas não conseguiu segurar atempadamente. Foi no entanto o início da queda do CDS já com Assunção Cristas. Paulo Portas sentiu que iria ficar agarrado ao seu “irrevogável” e terá previsto o que se iria passar com o CDS, antecipou, assim, uma saída estratégica a tempo de poder vir a ser responsabilizado pelo descalabro do partido.

Em fevereiro de 2019 Cristas apresenta uma moção de censura ao Governo e dispara contra a esquerda e contra o PSD por apoiar o PS no parlamento e vai dizendo que recebeu manifestações de apoio relativas à moção de censura que o partido apresentava ao Governo. Lembrava que foi "uma decisão tomada por unanimidade na Comissão Executiva da CDS”. Entretanto o deputado socialista Ascenso Simões sugeria que a moção de censura do CDS-PP ao Governo fora motivada pelo "fantasma" da privatização do Pavilhão Atlântico no anterior Governo (PSD-CDS), processo em que Assunção Cristas teve responsabilidades como ministra.

Nas eleições legislativas em 6 de outubro de 2019 o CDS-PP obteve um escasso resultado de 4,22%, 221.774 votos o que lhe atribuíram apenas 5 deputados comparando com 2011 quando concorreu isolado quando conseguiu 11,7% e 24 deputados, a perda foi enorme.

Confirmando esta perda, uma hora e pouco depois do fecho das urnas das eleições de outubro Cristas pediu a realização de um congresso extraordinário e disse não se iria recandidatar. Neste 28.º Congresso realizado a 26 e 27 de janeiro de 2020 Francisco Rodrigues dos Santos foi eleito para a presidência do partido.

Em outubro de 2021 durante a polémica contra o líder do CDS Rodrigues dos Santos e para a marcação dum congresso o ex-dirigente do CDS Paulo Portas afirmava que faria tudo o que pudesse para não se desfiliar do partido. Afirmou ainda que a situação era "grave" e que "o líder de um partido democrático não cancela eleições internas" referia-se a Rodrigues dos Santos.

Por razões óbvias, decorrentes do que afirmei anteriormente, a queda do CDS começou com a demissão de Paulo Portas e com Assunção Cristas a ocupar a liderança do partido. Paulo Portas terá previsto o que se iria passar e tomou a iniciativa de sair pela porta grande para não ser envolvido no desastre que antevia acontecer ao partido.

Em abril de 2019 é fundado o partido CHEGA de direita radical,  populista de direita que defende o liberalismo económico, o nacionalismo português, o conservadorismo nacional, conservadorismo social, o euroceticismo, o nativismo, é anti-imigração, anti ciganismo e o antifeminismo.

O surgimento deste partido que elegeu um deputado terá também sido uma causa próxima, senão a mais importante, da perda de votos do CDS e alguns do PSD, talvez devido à fuga para o novo partido dos que se encontravam acantonados naqueles partidos dos que com ele melhor se identificariam; o mesmo terá acontecido com a volatilidade de votos, sobretudo dos eleitores associados à incerteza e à imprevisibilidade que são mais sujeitos à manipulação e à demagogia.   

Tudo quanto se possa dizer para justificar o descalabro a que chegou o CDS nesta eleições não chega, há que investigar outras razões mais profundas e uma das possíveis respostas poderá estar não apenas no líder Francisco Rodrigues dos Santos, mas na volatibilidade do eleitorado para os novos partidos que entretanto surgiram e cuja linguagem fascizante atrai alguns e o IL cuja narrativa, embora clássica e ortodoxa de liberalismo que face à novidade terá atraído muitos jovens e gentes das classes mais altas que antes terão votado CDS ou PSD.  

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publicado às 18:54

Democracia e Perigo.png

Li um artigo de Luís Monteiro Carvalho publicado na “Rosa Mecânica” que me pareceu, embora com algum exagero é bom para nos fazer refletir sobfre a preservação da democracia com distanciamento e sem emoções à flor da pele que este momento propicía a todos os que a querem manter e defender, por isso, aqui o incluo.

 

Quando observamos a maioria das últimas sondagens, relativas às eleições legislativas do próximo domingo, 30 de janeiro, ficamos com a sensação de que o perigo bate à porta. O PSD aparece posicionado em primeiro lugar nas intenções de voto e o CHEGA destaca-se como terceira força política mais votada.

O perigo não é só relativamente ao facto de o PSD poder vir a ganhar as eleições e reverter ou desvirtuar tudo aquilo que foi possível conquistar com uma governação à esquerda durante seis anos, nomeadamente na educação, na saúde, na economia, no combate às desigualdades, no aumento do salário mínimo e das pensões, no clima e no combate à pandemia, através do apoio às pessoas, às famílias e às empresas. O perigo é, também e principalmente, o CHEGA aparecer em algumas sondagens, como terceira força política mais votada.

Sejamos realistas, se o PSD sozinho não for o mais votado – que é um cenário muito provável – Rui Rio precisará do CDS, da IL e, naturalmente, do CHEGA. Solução que para Rui Rio é preferencial, estando os partidos disponíveis para negociar em conjunto. Significa isto que corremos o perigo de acordar no dia a seguir às eleições com um futuro governo formado pela direita e pela extrema-direita. Um governo que reverterá medidas tão importantes, como é o caso da devolução de rendimentos às famílias. Corremos um risco que acabem com o Serviço Nacional de Saúde tendencialmente gratuito. Corremos o risco de haver um aumento e acentuação no que diz respeito às desigualdades socioeconómicas. Corremos o risco de haver uma reversão de direitos, liberdades e garantias que tanto nos custaram a conquistar.

Num cenário de vitória do PSD, ter o CHEGA como terceira força política mais votada, dará a André Ventura um maior poder de negociação política junto de Rui Rio, exigindo por isso ser Vice-Primeiro Ministro de Portugal e uns quantos Ministérios, como o próprio já fez questão de referir.

Corremos o risco de acordar com um novo regime, como o líder do CHEGA tanto ambiciona. Um regime idêntico ao dos tempos do Estado Novo num país “que nos tempos do passado se chamava Portugal suicidado”. Aliás, o próprio CHEGA usou já por várias vezes e tem no seu programa eleitoral o lema “Deus, Pátria e Família”, a trilogia da educação durante esse período negro da nossa história, doutrina defendida por Salazar, base do ensino escolar nos tempos da ditadura.

Corremos o risco de acordar com um futuro Governo onde há necessidade de ter, na sua formação, um partido de extrema direita, como é o caso do CHEGA. Um partido que tem constantemente posições atentatórios ao nosso Estado de Direito Democrático. Um partido saudosista, xenófobo, racista e que defende e incentiva ao ódio, à repressão e à perseguição de minorias e etnias. Recorde-se até que Rui Rio, há uns tempos, negou a existência de racismo na sociedade portuguesa.

Não podemos, nem devemos tolerar, esta normalização e transposição de barreiras que são impensáveis em pleno século XXI, considerando tudo aquilo que a história já nos mostrou.

O perigo bate à porta. Será isto que queremos deixar entrar no nosso País, nas nossas comunidades, na nossa casa?

Não deixemos cerrar as portas que abril abriu! Não deixemos que a semente de esperança, que deu origem ao cravo que em tempos foi plantado, morra!

Para isso é preciso votar. É preciso votar bem. Votar em quem defende um país melhor, mais justo, mais fraterno, mais coeso e solidário.

É preciso votar em quem pretende relançar a economia, em quem quer aumentar os salários médios e em quem combate, de forma exemplar, a pandemia.

É absolutamente essencial votar em quem defende contas públicas certas.

É preciso votar em quem defende a construção ou modernização de mais 100 unidades de cuidados de saúde primários e a construção de novas unidades hospitalares.

É preciso votar em quem tem ideias concretas para reduzir o peso da dívida pública no PIB.

É preciso votar em quem defende creches gratuitas, de forma progressiva, até 2024.

É preciso votar num partido que pretende aprovar as alterações legislativas para a Agenda do Trabalho Digno na Assembleia da República até julho de 2022.

É preciso votar em quem defende os apoios à habitação jovem e residências para os estudantes deslocados.

É absolutamente essencial votar num partido que garante a estabilidade e o progresso social e económico das pessoas e do nosso País.

No próximo domingo, dia 30 de janeiro, vota. Vota com responsabilidade. Vota Partido Socialista, porque só assim, todas e todos juntos, seguimos e conseguimos!

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publicado às 16:05

Falou, mas agora anda calado para não se comprometer nem contradizer, daí as balelas sem interesse que tem andado por aí lançar. O cheiro a poder e a "bazuca" mandam mais do que a franqueza e a propagada honestidade que tem andado a mostrar, tipo ratoeira virtual para caçar ratos. O seus ex-inimigos, agora ditos amigos (Montenegro, Rangel e outros) esconderam as facas que traziam para lhe espetar nas costas logo que possível tendo em vista possibilidade da ida ao pote. 

O seguinte artigo do blogue Estátua de Sal desmonta as mentiras daquele Rui Rio que diz que os outros é que são mentirosos. 

Aquilo que estás a ver não é aquilo que estás a pensar

(In Estátua de Sal, 28/01/2022)

Um saudoso amigo meu, psiquiatra já falecido, costumava contar a seguinte história, exemplificativa da capacidade de mistificação dos seres humanos. O marido, por exigência inesperada, regressa a casa a meio da tarde e dá com a esposa nua, na cama com um desconhecido. Ela, ultrapassada a atrapalhação inicial, dispara-lhe com sorridente bonomia:

– Querido, aquilo que tu estás a ver não é aquilo que tu estás a pensar.

Lembrei-me desta história a propósito das repetidas negações e reinterpretações que as declarações de Rui Rio têm vindo a suscitar. Ele diz, mas não era bem isso o que queria dizer. O malvado do Costa é que “mente” sobre aquilo que ele diz.

Ele votou contra o aumento do salário mínimo, mas é mentira quando dizem que é contra.

O PSD votou contra o SNS, quer mudar o artigo da Constituição que postula que a saúde deve ser “tendencialmente gratuita”, mas é mentira quando se diz que quer pôr os portugueses a pagá-la.

Ele, Rio, disse que “há várias modalidades de prisão perpétua” no debate com o Ventura. Mas é mentira quando dizem que ele se aproximou do Ventura nesse retrocesso civilizacional que o Chega defende.

Ele acha que os maiores rendimentos devem poder optar por descontar parte do seu rendimento para planos de reforma privados, enfraquecendo a Segurança Social. Mas é mentira quando se diz que a quer privatizar.

O PSD fez um acordo de governo nos Açores com o Chega e David Justino – em entrevista à CNN -, veio dizer que não há linhas vermelhas em relação ao Chega. Mas é mentira quando António Costa diz que Rio se propõe governar com o apoio de Ventura e da extrema-direita.

Perante estes exemplos, parece que os eleitores terão que contratar um tradutor especializado para fazer a tradução e a interpretação “autêntica” da verborreia do Dr. Rui Rio. Ele não fala o português que cada um de nós – tristes almas simplórias e incultas -, fala.

Não, ele fala um português quântico e erudito em que cada frase é uma espécie de “dois em um” e significa tudo e o seu contrário. E, tanto é assim, que entre os comentadores das televisões já se disputa o primeiro lugar no concurso de melhor tradutor e intérprete da sumidade. Neste momento, lidera o Gomes Ferreira seguido de muito perto pelo Bernardo Ferrão e pelo Bogalho.  

É por isso que me quer parecer que aquilo que os comentadores de direita atribuem a Rui Rio, como sendo autenticidade e espontaneidade, não passa de falta de jeito para mentir e para a mistificação. Ele bem tenta mas acaba sempre por lhe fugir a língua para a verdade. Ao menos Passos Coelho tinha mais jeito, como se viu em 2011: depois de passar semanas a prometer convicto a descida de impostos, mal chegou ao poder produziu o maior aumento de impostos da história da democracia.

A direita sempre recorreu à mentira e às falsas promessas para se alcandorar ao poder. Mas nunca teve o topete de nos propor um aldrabão desajeitado.

Não, Dr. Rui Rio. O senhor é mesmo um pequeno ditador com tendências de extrema-direita e de solidariedades íntimas com o Dr. Ventura, de quem se prepara para colher o apoio, sem vergonha ou engulhos maiores.

E não nos queira enganar como a adúltera da história. Aquilo que o ouvimos dizer é mesmo aquilo que diz e nos leva a não querer que venha a governar este país.

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publicado às 18:34

PSD diretas-Rangel e Rio (2).png

A propósito das próximas eleições diretas no PSD a coisa está agreste. Há dois candidatos, ambos afirmam colocar à frete os interesses do país, mas, como em tudo, há sempre um mais interessado do que outros. A escolha depende dos militantes do partido que soberanamente escolher um dos candidatos. Como não sou militante a minha visão é de distanciamento e independência relativamente a cada um dos candidatos, todavia, tendo em consideração os efeitos que cada um poderá exercer no país, tal como a estabilidade política e social necessária, não nego ter inclinação por um deles.

Estamos a atravessar uma crise política forçada pelos partidos de esquerda mais radical que votaram contra o Orçamento de Estado para 2022 ao lado da direita. O intuito talvez fosse tentarem, cada um por si, recuperar eleitores perdidos que se afastaram do radicalismo desde as eleições de 2019 e, recentemente, nas autárquicas atribuindo as culpas ao Governo e a António Costa.

Os dois candidatos Paulo Rangel e Rui Rio têm visões diferentes sobre o que pretendem para o partido e para o país. Cada um dos protagonistas tem mostrado o seu estilo de estar na política e as visões para o país. Um deles tem projetos mais ou menos centrados no país, o outro em projetos mais pessoais e partidários. Paulo Rangel parece-me pertencer a este último.  

Paulo Rangel está rodeado de gente que, tal como ele, fizeram parte da entourage de Passos Coelho quando foi primeiro-ministro. Ligados à fação mais à direita do PSD que, desde Cavaco Silva, se afastaram das raízes sociais-democratas. Personagem melíflua e palavrosa e com narrativas ao mesmo tempo sedutoras e enganadoras, mas sem consistência centra-se numa oposição desprovida de projetos objetivos para o país e para as pessoas. Os apoios a Rangel vêm dos neoliberais do partido e de lóbis muito fortes de grupos e comunidades.

Aproveitando a vitória pífia de Carlos Moedas em Lisboa e do slogan da campanha “tempos novos” Rangel adotou a estratégia de colagem admitindo "sintonia de pontos de vista" com Moedas sobre "tempos novos" da política. Num almoço com Paulo Rangel Moedas salientou que o almoço serviu para dar um “grande abraço” para “dar força” ao seu “amigo” Paulo Rangel na reta final da campanha interna para a liderança para o PSD. Mas, por outro lado, disse rejeitar que o encontro com Rangel pudesse ser interpretado como um apoio, afirmando que essa interpretação “é feita pelos jornalistas, analistas e comentadores”. Estranha afirmação plena de contradição. Os “tempos novos” são o regresso às políticas dos velhos tempos do para além da troica. Como Moedas ganhou tangencialmente a Câmara de Lisboa Rangel terá pensado que lhe poderia acontecer o mesmo com as legislativas caso ganhasse e viesse a ir a votos como futuro primeiro-ministro.

A propósito, vimos, na apresentação do livro da cristalizada jornalista Maria João Avillez, o atual presidente da Câmara de Lisboa e ex-ministro de Passos Coelho, Carlos Moedas, na fundação Calouste Gulbenkian salientar para os jornalistas, depois de ter assistido à apresentação do livro afirmar que não vai “tomar posição” na disputa interna do PSD, mas, ao mesmo tempo, vai dizendo que quer que haja uma “verdadeira oposição ao PS”, tal como Rangel vem salientado ao longo da sua campanha.

Também, a propósito, José Saraiva escreveu, numa entrevista feita na casa de Maria João Avillez, que “Sentados no sofá, é impossível não reparar nas dezenas de fotografias emolduradas que quase tapam os livros numa estante próxima. Uma delas, a preto e branco, destaca-se pela dimensão generosa e posição proeminente. «É o meu pai com o Salazar. E está aqui muito bem» concluiu a entrevistada.

Voltando ao candidato à liderança do PSD, Paulo Rangel, do meu ponto de vista é um ardiloso da política cuja retórica leva a confundir quem, menos atento, o escuta não se apercebendo dos argumentos demagógicos e sem provas evidentes das suas afirmações decorrentes das notícias do dia e consoante as ocasiões.

Alguns comentadores, achando-se com privilégio de oráculos, vaticinam que António Costa prefere que Paulo Rangel ganhe as eleições diretas no PSD porque isso se poderá traduzir nas eleições legislativas em votos para o PS!!?  

O candidato Rui Rio com a sua espontaneidade fala mais para o país e é por todos entendido. Tem a noção de que a probabilidade de uma maioria absoluta, mesmo com outros partidos à sua direita é quase impossível. E daí as suas propostas.

Pelo contrário de Paulo Rangel luta pelo poder e só recentemente começou a equacionar alguma abertura para viabilizar um futuro governo. Rangel quando questionado sobre cenários de governabilidade após as legislativas de 30 de janeiro rejeitou um "PSD em segundo lugar" ou ser "vice-primeiro-ministro", repetindo que vai trabalhar para liderar um PSD com "maioria estável no parlamento" sozinho ou com coligações com partidos da direita "moderados". O seu devaneio não tem limites e a sua leitura da realidade está no mundo da imaginação porque está carecida de bom senso. Afinal qual é o seu projeto para no caso de, mesmo que em coligação com outros partidos, não conseguir a tal maioria estável?

Quanto a Rui Rio tenho ainda na memória a polémica que se instalou com Pinto da Costa, senhor do Futebol Clube do Porto quando ele era então presidente da Câmara Municipal do Porto e se manteve firme no seu propósito de “reduzir a área comercial disponível para o FC Porto negociar em cerca de 75 por cento, e isto sem apresentar qualquer proposta alternativa para os dragões financiarem as obras do seu novo estádio. Isto apesar da troca da área comercial para habitacional ter um custo nove milhões de euros” circunstância que Pinto da Costa nunca lhe perdoou.

Acusado pelos radicais da ala direita do PSD de ser a muleta do PS ele responde em função do que é melhor para o país. Rui Rio não defende   um bloco central (PSD+PS) coisa hoje em dia pouco provável o que Rui Rio assume é que está disponível para viabilizar um Governo do PS.

Paulo Rangel faz a predição da instabilidade garantindo que só haverá estabilidade com maioria absoluta do PSD. A pergunta é: e se o PSD ganhar sem maioria absoluta, mesmo em coligação com partidos à sua direita, não a conseguir? E se ao recusar, como claramente afirmou, qualquer alinhamento com o partido Chega provocará nova crise política?

Os que pretendem desacreditar Rui Rio não dão crédito aos argumentos de “estabilidade”, “responsabilidade” e “sentido de Estado” que vão de encontro a muitos portugueses ao contrário do posicionamento ideologicamente marcado de Paulo Rangel que é muito mais neoliberal liberal e nunca afirmou que o PSD é um partido do centro – onde se ganham eleições – e muito menos de esquerda. O facto é que os partidos sociais-democratas na U.E. estão no grupo político mais à esquerda e ao centro (S&D) onde se inclui o PS, tal como o SPD da Alemanha, agora no governo deste país. O PSD inclui-se no grupo da direita e centro-direita (PPE). Portanto mesmo que Rui Rio anuncie que o PSP é um partido de esquerda, perde o seu tempo o esforço estará numa aproximação ao centro-esquerda que se encontra entre o centro e a esquerda no espectro ideológico.

Sejas como for não faço vaticínios, mas talvez fosse mais útil ao país uma vitória de Rui Rio nas eleições internas do PSD.

Ao acabar de escrever este texto numa sondagem da Pitagórica divulgada pela TVI, o PSD teria melhor resultado nas legislativas de janeiro se fosse o atual presidente do partido social-democrata, Rui Rio, o líder.

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publicado às 18:58

Os voláteis

por Manuel_AR, em 05.10.19

Eleitores voláteis.png


Não são apenas os indecisos que podem determinar uma campanha eleitoral. A volatilidade é outro fenómeno eleitoral que se deve ter em conta para se ganharem eleições. Mas quem são os eleitores que se encontram nesta margem?


O fenómeno da volatilidade acontece quando um indivíduo muda de opinião entre duas eleições denominada volatilidade inter-eleitoral, ou ainda, quando parte dos eleitor oscilam as suas preferências ao longo duma campanha eleitoral, também denominados flutuantes.


O ponto de vista psicossociológico assenta a volatilidade nos indivíduos com baixo nível de educação, com apatia, falta de identificação partidária e ideológica como determinantes. Há, contudo, uma outra perspetivas que identifica a instabilidade eleitoral pelo acesso esses eleitores têm no que se refere ao acesso a mais recursos informativos que incentivam a flutuação, tendo assim uma maior sofisticação política e apresentando um nível de conhecimento superior ao eleitor médio.  


Há estudos que apontam para que os eleitores voláteis apresentam um nível de educação mais elevado e pertencem a faixas etárias mais novas e demonstram uma maior instabilidade nos alinhamentos de preferências político-partidárias.


Outra perspetiva que pode estar associada à volatilidade relaciona-se com o papel dos meios de comunicação. Sobre esta questão há pontos de vista contraditórios. Verificou-se que os eleitores voláteis situavam-se num nível baixo de exposição aos meios de comunicação, mas noutros casos justificaram estas conclusões pelo facto de os meios tradicionais se focarem sobre questões conjunturais associadas a fatores de curto prazo, como os temas da campanha à transitoriedades, como escândalos, ou sondagens. Também foi verificado noutros estudo que a quantidade dos meios de comunicação utilizados durante as campanhas não tem efeito sobre a volatilidade dos eleitores.


Os eleitores flutuantes dependem mais do nível de conhecimento do que das características sociodemográficas ou de interesse pela política. A avaliação do desempenho do governo reflete uma componente conjuntural e de protesto que leva os eleitores a mudar o sentido do voto entre eleições sucessivas. Isto é, quanto mais positiva é a avaliação do desempenho do governo, maior a tendência para manter o sentido de voto, e reciprocamente.


Os que decidem na proximidade do dia das eleições são também os mais propensos a oscilar nas suas escolhas eleitorais. Ao nível das atitudes os voláteis estão associados com uma identificação partidária mais fraca e um menor interesse pela política.


As escolhas eleitorais baseiam-se num processo cognitivo que parte das predisposições políticas, as quais são atualizadas com novas informações que emergem durante a campanha eleitoral ou durante a legislatura.


O chamado efeito líder não é de somenos importante na escolha para a decisão de votar. É frequente a imagem dos líderes ter uma grande visibilidade e ter espaço privilegiado na opinião pública e nos media durante as campanhas eleitorais e no período inter-eleitoral.


O marketing político tem feito por evidenciar a importância da “personalização” da política dos candidatos para avaliação pelos eleitores que passaram a ser considerados como consumidores de imagem. Ainda há quem vote pela imagem dos candidatos e não pela eficácia governativa durante os mandatos.


A individualização, ou melhor, a fulanização da política e o aumento da mediatização sobre ela pode levar a que o efeito líder possa ser um fator conjuntural importante isto porque os líderes representam a face humana dos partidos. Não é por acaso que as características pessoais são informações fáceis de recolher e de utilizar pelos órgãos de comunicação para construir ou destruir avaliações positivas ou negativas sobre posições dos candidatos e dos partidos em função das preferências e orientações ideológicas daqueles órgãos.


 

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publicado às 18:56

O diabo das promessas

por Manuel_AR, em 27.07.15

 


Promessas_2.pngPromessas de Passos.png

Quatro anos de Passos Coelho e do seu governo provocaram nos portugueses divisões e feridas sociais que irão levar muito tempo a sarar e a esquecer.


Diz ele que não lhe interessam as eleições e que, por isso, irá continuar a seguir o mesmo caminho seguido até aqui mas, ao mesmo tempo, vai abrindo aqui e ali “os cordões à bolsa” distribuindo umas benesses que, caso ganhe as eleições, irá recuperar à custa de alguns e a qualquer preço. Os discursos laudatórios ao fim da crise e ao crescimento anémico e vão ter custos agravados ao chegarem ao poder. Serve para obter o poder a qualquer custo.


Não haverá ninguém que não ache positivo a redução ou a eliminação da sobretaxa do IRS, lá para 2016 se a receita fiscal aumentar conforme preveem, (espécie de cenoura para enganar os potenciais votantes que o ajudem a manter-se no poder). É mais uma das artimanhas, mas, entre linhas também vão dizendo que, se a receita fiscal diminuir, este imposto da sobretaxa do IRS pode voltar a subir.


Não é preciso lançar cartas do Tarot para se adivinhar o que vai acontecer caso a coligação, apoiada por Cavaco Silva, ganhe as eleições para justificar recuos no processo de austeridade que, dizem, ter abrandado ou terminado: o perdão ou a reestruturação da dívida grega, uma crise financeira de última hora, a dificuldade do cumprimento das metas do défice por causa das pensões em pagamento, os custos salariais com a educação pública, ou qualquer outra desculpa que não será difícil encontrar no atual contexto europeu, serão o motivo para retirar o que andam por aí a distribuir voltando às mesmas políticas que os moveram até aqui e, se possível, procederem ao seu agravamento.   


Passos Coelho, diz por aí, querer travar um combate sem tréguas às desigualdades sociais e à pobreza, fala em promessas e esperança de prosperidade coisa que esqueceu durante quatro anos escudando-se com o programa imposto no memorando da troika, mas lá ia dizendo que o seu programa era o mesmo e que tencionava ir mais além.


Entre confiar em Passos Coelho e no se acólito Presidente Cavaco mais vale confiar no diabo que, de acordo com a mitologia judaico-cristã, é falso, tentador e perfilha a traição e a arte da manipulação. 


Não podemos esperar da coligação PSD/CDS qualquer mudança de rumo a não ser a continuação da mesma política social, económica e fiscal com que governou até aqui, e o mesmo pensamento político sobre a sociedade.


Passos Coelho entrou para a política pela mão da JSD não por convicção pelos ideais da social-democracia mas por interesse, assim como tantos outros que lá se encontram. Não é por isso difícil perceber a distorção que o partido de que é líder tenha vindo a degenerar e a esquecer as suas raízes.     


Seguir as políticas ditadas pela Alemanha e a dos seus aliados do norte desdenhando o povo do seu país para se mostrar um fiel e bem comportado bom aluno dos “mestres” da destruição duma Europa que se quer mais unida, é outro dos pressupostos convictos de Passos Coelho, talvez como forma de se perfilar para voos mais altos no domínio dos lugares europeus porque, se assim não for não terá emprego. Quem não o conhecer então que se atreva a comprá-lo.

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publicado às 22:52

O astucioso

por Manuel_AR, em 30.06.15

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Cá estaremos para ver, mas não sei se ainda é possível haver portugueses que, não sendo ferranhos doentios do PSD/CDS, ainda acreditem nas patranhas que nos andam para aí a impingir.


Mas quem pode acreditar neste senhor primeiro-ministro Passos Coelho que, mês sim, mês não, diz uma coisa e depois o seu contrário de forma camuflada. Agora está a mudar o discurso mas continua a dizer que "os sacrifícios feitos pelos portugueses, nos últimos quatro anos, estão a dar resultados e serão fundamentais para um futuro economicamente e socialmente estável". Com que resultados? Parece que, no dizer do primeiro-ministro, já não é necessária mais austeridade. Em em menos de um mês tudo mudou e diz agora que já “não há necessidade de comprometer mais recursos do país e afetar mais contribuições e impostos dos portugueses para fazer aquilo que conseguimos fazer e resolver com menos recursos”, e diz isto não apenas por ter havido necessidade, mas também por convicção. O ter feito o que fez por forte convicção é uma das únicas verdades, ser neoliberal por convicção e de do ir para além da troika.


É preciso ter descaramento e, digo mais, atrevimento, para poder concluir que “Ao longo destes anos temos procurado trazer as necessidades de financiamento do Estado para um valor que seja comportável ao bolso dos portugueses, sem pôr em causa a realização dos objetivos e uma política económica e social ajustada às necessidades do país”. Outras verdades do que fez por convicção de ajustamento às necessidades do país, são o desemprego que voltou a aumentar, cortes nos salários e pensões, aumentos de impostos, caos no Serviço Nacional de Saúde, aumento da pobreza e lançamento de famílias para a ajuda social, destruição das classes médias.


Não sei se por lapso ou por convicção que Passos Coelho utiliza agora uma linguagem próxima do tipo dum Syriza travestido, ou será do Bloco de Esquerda, quando diz que há necessidade de que Portugal saia de uma “ditadura financeira”. Não sabíamos que afinal existia na Europa uma ditadura financeira. Será que talvez queira captar voto ao BE.


Mas há mais novidades sobre este país maravilhoso, ou a minha leitura está errada e está a referir-se a um outro país quando o primeiro-ministro afirma que os níveis do défice no início da legislatura, eram “sobrecarga para todos os contribuintes”. E eu que julgava que a sobrecarga para os contribuintes tinha sido o "enorme aumento de impostos" e os cortes que fizeram.


Melhor ainda são as previsões do défice, diz, vão ser abaixo dos 3%, e se for de 2,7% "há reservas para passar por este maior período de perturbação dos mercados financeiros e temos o suficiente para esperar que uma resposta mais robusta possa vir a acontecer, em defesa da própria zona euro, se isso for necessário”. Força Portugal valentão, com Passos Coelho na carruagem, vais no bom caminho e vais salvar a Europa da crise do euro. Mas… e a dívida de 132% do PIB como é que a vai pagar? E onde está o dinheiro para pagar aos credores e os juros altíssimos que por aí poderão vir?


Como frequentemente me engano e tenho sempre muitas dúvidas pode ser por isso que a minha leitura esteja errada. Mas á uma coisa em que de certo não me engano é que se esta coligação PAF (PSD/CDS) com Passos Coelho vier por mero acaso ganhar as eleições legislativas, todo es te discurso de otimismo de país maravilha vai mudar radicalmente ou, não tenha ele já dito ainda não há três meses que a austeridade é para continuar e que vai haver mais cortes.


Quem ainda for crente nas palavras e promessas encantatórias e aceitar de mão beijada que lhes possam fazer sentir do medo da mudança então são livres de decidir e bem podem esperar pelo melhor que da parte dele não virá. Em política há muitas maneiras de mentir e Passos Coelho ficou vacinado da mentiras e promessas que o levaram ao poder agora, faz o mesmo utilizando outra estratégia.


Cá estaremos para ver.

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publicado às 23:54

Libertai Barrabás

por Manuel_AR, em 25.06.15


O que se vem passando neste país nos últimos quatro anos, os acontecimentos dos últimos seis meses, nomeadamente na Grécia, e as sondagens que por aí se divulgam fizeram-me recordar uma passagem do Novo Testamento que passo a resumir.


Na antiga Judeia por ocasião da festa Pilatos o governador romano na região costumava conceder a liberdade a um prisioneiro à escolha do povo. Nessa altura havia um afamado criminoso e assaltante chamado Barrabás que tinha sido preso por causa de uma insurreição desencadeada na cidade, e por homicídio.


Jesus Cristo na altura era invejado e punha em causa o poder dos sacerdotes do templo e a organização social que então se vivia sob o poder romano que ocupava a cidade, isto é, Jesus apresentava outras alternativas para a época que tinha por base a construção de uma sociedade mais humanizada.


Então chegada a altura da condenação Pilatos perguntou à multidão que se encontrava reunido e perguntou: "Qual quereis que seja libertado: Barrabás ou Jesus Cristo?".


Os sumos-sacerdotes receosos da perda do poder e aqueles que pretendiam que nada fosse alterado naquela sociedade persuadiram a multidão a pedir que soltassem Barrabás e a exigir a morte de Jesus. Então Pilatos inquiriu: "Qual dos dois quereis que vos solte?". A populaça respondeu: "Barrabás, Barrabás!". "Que hei de fazer, então, de Jesus?". "Seja crucificado!".


Esta história bíblica é bem demostrativa do comportamento das populações quando condicionadas e alimentadas por ideias que lhes são induzidas previamente.  


As sondagens eleitorais têm vindo a demonstrar o medo e o receio de alternativas diferentes das que lhe impuseram durante anos. Pensamento típico do português que acha que mais vale ficar neste cantinho do que mudar para outro que pode ainda ser pior. Não pondera se pode ser melhor, mas aceita logo de imediato que pode pior. A quem pode interessar este tipo de atitude?


É a consequência da ordem lógica das coisas criada pelos princípios da política salazarista que tem persistido que é bem explorada por uma direita que gostava que tudo continuasse na mesma ainda que sob a capa duma democracia onde se pode dizer e a escrever umas coisas, a que chamam liberdade de expressão, e a eleições de quatro em quatro anos e, se possível, apenas em partidos a que chamam do arco da governação.  


O que faria a União Europeia se houvesse outros Syrizas a ganhar eleições? Tudo mudaria. É mais por isso que a UE pretende servir-se do exemplo da Grécia para evitar que volte a acontecer o mesmo noutro qualquer país. Esta é democracia da europa do euro.


Rejeitar partidos eleitos pelos povos impondo uma falsa democracia de com regimes de partidos únicos.


Jesus Cristo colocou em causa a sociedade da época e apresentava uma alternativa humanista, por isso, a populaça gritava "Barrabás, libertem Barrabás e crucifiquem Jesus" num ímpeto de vingança e com o medo da mudança.

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publicado às 20:14

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Tinha em cima da minha secretária um livro que relata factos da política de meados do século XX. Resolvi folheá-lo e ler alguns extratos. Lá descobri algumas frases de reuniões, instruções e discursos pronunciadas por líderes da altura que inseri no final deste texto. Aquelas frases exprimiam um certo tipo de pensamento político de apelo à violência física e à dignidade das pessoas.


Para melhor se perceber a influência e a relação entre o que se diz em política e a formação de certos valores sociais partamos da seguinte suposição:


Numa aula de política eu dizia frente a jovens universitários o seguinte:


- Vocês não conseguem um emprego porque os vossos pais e outras pessoas estão instalados e a ocupar postos de trabalho que poderiam ser vossos.


Que valores pessoais, morais e sociais estaria eu a passar a esses jovens?


Estaria a disformar as suas mentes passando-lhes valores anti família e antissociais e ao mesmo tempo a contribuir para estimular uma “revolta” psicológica contra a família e outros setores da sociedade, podendo posteriormente a provocar clivagens sociais. Na prática estaria a estimular comportamentos de estigmatização dos seus progenitores por serem os responsáveis por não terem trabalho.


Voltemos novamente à questão da deturpação de valores que eu estava a transmitir aos jovens que tinha na aula à minha frente. Com uma atitude doutoral, convincente e de aparente credibilidade acrescentava sem qualquer outra explicação:


- Vocês, jovens, quando chegar a vez da vossa reforma, a pensão que irão receber será muito mais baixa porque os vossos avós, e pais se for esse o caso, estão hoje a receber pensões a mais do que aquela que deviam e não aceitam que sejam reduzidas para que no futuro vocês possam receber mais.


Imaginemos agora que entre esses alunos estivesse um Bart Simpson, o personagem do filme de animação “Os Simpsons”. O mais provável seria que ele batesse palmas e soltasse alegremente vivas. Com certeza haveria outros que, como a sua irmã Lisa Simpson, mais esperta, atenta, informada e refletida, em cuja educação lhes foram incutidos outros valores, não teriam concordado com nada do que eu tinha dito e, se pelo menos não me apupassem seria por respeito ou por pressão psicológica do grupo.


As mensagens que são passadas em política, podem vir a refletir-se na construção dum pensamento ao nível dos valores, da ética, da moral social e da filosofia de vida.


Face ao que Passos Coelho e alguns elementos do seu Governo e de partido têm dito por aí colocam-se então algumas questões que não são de somenos importância e merecem ser exigida uma resposta.


Que ideologia, que atitudes na política estão a pretender seguir ao proporem-se quebrar com toda uma cultura de solidariedade e de coesão social que são raízes na nossa cultura ao mesmo tempo que acicatam rivalidades inter-geracionais?


Que objetivos encobertos terão em mente que os conduzem a produzir tais afirmações tentando destruir valores consagrados em qualquer democracia da civilização ocidental?


Afirmam, e insistem, com grande aparato comunicacional que tudo está a melhorar, desde o crescimento da economia à diminuição do desemprego, da diminuição da dívida ao aumento do consumo, e que vivemos num Portugal em vias de ser uma maravilha e que todos os problemas têm sido resolvidos. O primeiro-ministro chegou a dizer para quem o quis ouvir que "Portugal é comparável às nações de maior prosperidade no mundo". Ao mesmo tempo fazem passar mensagens nas quais fazem subentender que não há solução senão banir, marginalizar e a excluir do tal apregoado crescimento um setor da sociedade que dizem ser causador de todos os males.


Apesar do atual contexto político não apresentar semelhança com aquela época que referi anteriormente levaram-me a fazer algumas conotações devidamente ajustadas à realidade portuguesa dos últimos quatro anos. Nenhuma das frases foi proferida em Portugal e, em regimes democráticos, hoje em dia, seriam impossíveis de ser pronunciadas, a não ser por movimentos radicais e extremistas que existem por esse mundo fora.


Contudo há mensagens subtilmente passadas em certas intervenções políticas que evidenciam determinadas atitudes e valores que perfilhadas cuja génese pode ser rebuscada no substrato das citações que selecionei.


Assim, através dum pequeno exercício intelectual que teve como base o que foi dito e feito por políticos em pleno exercício de funções durante estes últimos quatro anos de Governo, e após uma análise das citações, arrisquei fazer algumas conotações que, no domínio do simbólico, podem ser reveladoras de atitudes político-ideológicas semelhantes ao nível do subconsciente.


O conteúdo das frases citadas abaixo basta pode ser atualizado e transformado num discurso atual dissimuladamente democrático. Algumas são plenas de segregacionismo, defensoras da exclusão e de clivagens sociais conducentes à desvalorização e à quebra da coesão social.


As associações podem parecer exageradas e despropositadas mas deve ter-se em conta que o tempo político em que as frases originais foram proferidas foi outro, e que, posteriormente, muitas das ideias políticas foram-se alterando, subtilmente adequando e os seus discursos dissimulados. Ao longo da história da primeira metade do século passado alguns líderes ocuparam o poder que lhe foi dado pelo povo, graças às mensagens que transmitiram através dos seus discursos empolgantes que começaram primeiro por ser ideias plenas de promessas e glórias nacionais mas rapidamente e em crescendo, foram-se transformando em apelos intoleráveis.


Veja-se então as ditas associações a partir das frases citadas:  



  • “…Vamos agora enfrentar a tarefa de repartir o nosso bolo segundo as nossas necessidades, de modo a podermos: em primeiro lugar, dominá-lo; em segundo lugar administrá-lo; e em terceiro lugar, explorá-lo.”


Comentário:


Esta frase nunca foi proferida nem escrita pelos nossos políticos mas podemos supor o bolo como sendo um Orçamento de Estado que poderá ser será elaborado de modo a que haja transferências de uns setores para outros que deles beneficiarão. Normalmente os que são beneficiados são sempre aqueles que utilizarão os impostos pagos por todos para benefício de apenas alguns e prejuízo de muitos, que se manterão ou serão lançados para a retaguarda da sociedade. Isto porque a distribuição da maior parte dos recursos, nomeadamente os financeiros que, sendo escassos, privilegia cada vez mais através do processo de transferência outros setores já de si privilegiados. Quer dizer, estão a ser retiradas efetuadas da classe média e baixa para as camadas sociais mais ricas, não só através do Orçamento de Estado mas também por outras vias.


Alguns casos exemplificativos:


O desemprego dos dois membros de um casal, ou de apenas um deles, gera uma perda de rendimentos que os torna incapazes de manter os compromissos que tinham assumido. A compra duma habitação, concretizada no pressuposto de manterem ao longo da vida alguma estabilidade financeira que lhes possibilitava cumprir os seus compromissos, numa situação de desemprego viram-se repentinamente sem recursos para garantir o compromisso contraído com a aquisição da habitação. O não cumprimento da obrigação tem como consequência a entrega da casa. Esta é então adquirida a pronto por quem tem recursos financeiros enriquecendo o seu património. Poderão alguns dizer que em vez de se comprar uma habitação teria sido preferível alugá-la. O problema mantinha-se mas doutra forma, o rendimento dessa família ou pessoa singular, nas mesmas circunstâncias anteriores, continuava a não ser suficiente para assumir o compromisso do pagamento da renda.


Numa situação de desemprego ou de corte nos rendimentos (corte salarial por ex.) mesmo tendo habitação própria e sem qualquer dívida o aumento do valor do IMI pode ser tão elevado que possa ser incomportável o seu pagamento pelo que pode haver o perigo da perda da habitação em caso de incumprimento. O mesmo se passa com outros setores da sociedade, sejam eles reformados, aposentados ou pensionistas que, vendo-se privados de parte de rendimentos devido a cortes vêm-se obrigados a desfazer-se do seu património que passa para mãos oportunistas.


São apenas alguns exemplos de situações de pessoas, descritos com linguagem simples e não codificada que é utilizada por aí com o objetivo de evitar a sua compreensão por parte da população que vive num país onde lhe dizem que está tudo muito melhor e a correr como previsto. Será que um país existe sem as pessoas?



  • “As ações contra nós apresentam algumas vantagens: permitem exterminar quem quer que se nos oponha”.


Comentário:


Manifestações de protesto, greves, oposição popular e de trabalhadores a decisões tomadas pelo poder foram enfraquecendo. A retirada de regalias e direitos, cortes de salários e pensões, contribuíram para que quaisquer atividades reivindicativas da população fossem neutralizadas quer pela incapacidade anímica e física, (os idosos em estado de aposentação ou reforma, não têm capacidade reivindicativa nem lóbis), quer por incapacidade financeira, quer ainda por receio do risco de perda do posto de trabalho.


Veja-se este caso verídico passado nos anos oitenta quando a democracia estava em fase de consolidação e ainda havia alguma instabilidade política. Numa empresa privada onde na altura era eu diretor dum departamento que reportava à administração. Um dos meus colegas, também diretor de outro setor, quando tinha algum trabalhador que se lhe dirigia ao gabinete para fazer quaisquer pedido de aumentos salarial ou outra reivindicação qualquer, recostava-para trás na sua cadeira, abria calmamente uma das gavetas da secretária, retirava dentro dela um conjunto de papéis olhava para o funcionário e dizia: “olhe isto são tudo pedidos de emprego para lugares como o seu, portanto já sabe, faça o que entender.”.



  • “Deve fazer-se todo o possível por promover a difusão do terror, que é o único meio de eliminar na população a vontade de resistir”.


Comentário:


Na estratégia utilizada amiúde em situação de maior crise de oposição a medidas impopulares o terror é substituído pelo medo que se transmite à população para a amedrontar. Todos nos recordamos a proveniência de palavras e pequenas frases como estas: “cuidado com os mercados”, “podemos perder a credibilidade”, “podemos a ter que voltar a ter outro resgate”, “não há dinheiro para pagar salários e pensões”, “aqueles são os mesmos que nos conduziram à vinda da troika”, “as propostas deles são para voltarmos ao despesismo”, ”cuidado que eles são a instabilidade”, "a troika pode voltar", etc., etc., etc..


Um à parte:


Ainda hoje, domingo 7 de junho, Paulo Portas aplicou a estratégia do medo quando  durante uma intervenção no encerramento do IX Congresso Regional do CDS-PP/Açores, na Madalena, ilha do Pico disse que Portugal arrisca voltar à bancarrota com o PS.


Há ou não alinhamento com o que acabei de escrever?


 



  • “…A piedade e a brandura são sinais de fraqueza e constituem um perigo evidente.”


Comentário:


As associações que podemos fazer são várias mas há uma que se adequa perfeitamente e que se resume apenas em algumas palavras.


Apesar dos vários escândalos como as listas Vip, "os submarinos", o caso das declarações e das dívidas de Passos Coelho à Segurança Social, o caso da justiça com o Citius, os vistos Gold, as "swapps", entre outros, não houve quaisquer responsabilizações políticas nem o Governo tirou delas quaisquer ilações. Apenas se tentava responsabilizar e culpabilizar os funcionários de base do processo.


Em todos os casos Passo Coelho e o seu Governo seguiu o princípio de que a brandura, podendo ser substituída aqui por cedência, é sinal de fraqueza e constitui um perigo evidente para a credibilidade do Governo, para o seu enfraquecimento e de seguida para a perda do poder. Neste caso não procedeu a quaisquer demissões, nem ele próprio apresentou a sua, porque isso seria sinal de fraqueza e resolveu aplicar a isso tudo o princípio da impunidade.



  • “Só poderão receber a quantidade de alimentos que a restante população puder dispensar, e em caso algum mais alimentos do que os indispensáveis para assegurar a sobrevivência.”.”Estas rações devem continuar a ser ministradas até poderem entrar em vigor medidas mais intensivas…”.


Comentário:


Esta citação é uma das mais radicais em termos sociais. É um despacho de natureza política e social que coloca alguns setores da sociedade dependentes daquilo que outros não necessitem, neste caso alimentos de que precisem apenas, e só, para se manter a sua sobrevivência até novas mediadas mais radicais serem tomadas. As tais “rações que devem a ser ministradas até poderem entrar em vigor medidas mais intensivas”, no contexto e no tempo em que elas foram produzidas não fariam hoje sentido.


Claro que em Portugal não foi feito nem emitida qualquer legislação ou despacho neste sentido, nem tal, em democracia seria tolerável. Todavia há outras formas mais habilidosas e menos evidentes de o fazer. Exemplo? Destruição progressiva do Estado Social é uma delas, cortes de pensões, cortes nos salários, cortes nos subsídios de desemprego e de outra natureza destinados à manutenção da dignidade pessoa e social, desemprego forçado, etc., são medidas restritivas.


No Portugal atual as medidas intensivas são de outro molde e mais suaves mas que, no nosso contexto político e social, são evidentes com a subida da abertura de cantinas sociais em flecha, aumento do apoio financeiro que o Estado tem que dar a instituições privadas de solidariedade social, bancos alimentares, todos eles que têm tido cada vez mais procura.


Quer se queira, quer não, hoje em dia estas medidas são intensivas. A mais radical, e talvez já pensada por alguns de certas áreas políticas, mas sem coragem sequer para as propor seria a eliminação de todos e quaisquer apoios sociais de vez, o que não seria praticável porque isso a manifestações populares de revolta que levariam à tomada de medidas que podem ser sintetizadas na seguinte citação:



  • “Devem esforçar-se por manter a ordem não mediante pedidos de reforço, mas sim mediante o emprego dos métodos draconianos mais apropriados”


Quem estiver para isso que tire as suas próprias conclusões.


Se elas forem concordantes com o que se tem passado nestes últimos quatro anos de Governo então espere pela sua vez.


E por aqui me fico.


 


Referências:


Gibert, Martin. 2015, A Segunda Guerra Mundial, Vol. 3, Lisboa, Publicações D. Quixote/Jornal Expresso.

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publicado às 20:06

A cenoura e as eleições

por Manuel_AR, em 18.12.14

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O desespero pela previsível perda das eleições legislativas leva Passos Coelho a fazer intervenções caricatas. Num jantar conferência no concelho de Leiria em mais uma iniciativa eleitoralista, questionado por um presente sobre o reajustamento do Estado, Passos adiantou uma frase excecional dizendo que "O Estado emagreceu e emagreceu consideravelmente em múltiplos aspetos, mas precisa ainda de emagrecer um bocadinho mais, embora agora de uma forma mais inteligente". Isto quer dizer que, segundo Passos Coelho, até hoje o emagrecimento do Estado foi feito de forma menos inteligente, mas que a partir de agora é que vai ser feito de forma mais inteligente.


O Governo em funções encontra-se mais preocupado com ações e tomadas de decisão eleitoralistas do que em resolver problemas do país.


Tendo em vista as eleições Passos Coelho, pavoneando-se por todo o lado, tenta mostrar, sem o conseguir, que é um primeiro-ministro humanista dum país em crescimento e sem problemas. Ele ainda não se convenceu que estamos fartos dele e de o ver e ouvir nos ecrãs das televisões.


Continua a fazer dos portugueses parvos e alarves e mostra-o fazendo com que o seu Governo volte atrás com decisões tomadas anteriormente. Veja-se o caso do corte nas horas extraordinárias, tão combatidos pelos sindicatos e em que o Governo recua numa medida que era então justificada como sendo boa para o emprego e para a competitividade das empresas. Claro que, como seria de esperar, os representantes das entidades patronais reagiram negativamente à medida. Não está em causa a medida não ser boa, mas o de ser mais uma cenoura que o Governo acena aos trabalhadores para obter mais uns votinhos levando-os a pensar que foi em defesa dos seus interesses que a medida foi tomada. Ilusionismo eleitoral!


O Governo que segue que se amanhe.

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publicado às 11:57


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