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In Editorial do Jornal Público 03/06/2021

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Quando o Ministério dos Negócios Estrangeiros aponta para uma medida “cuja lógica não se alcança”, não parece considerar a “lógica” das multidões desregradas que, no Porto, fizeram tábua rasa da situação de calamidade

Não serão essas imagens de baderna e irresponsabilidade as principais causas da decisão, certo. O Reino Unido prepara-se para o desconfinamento geral no dia 21, vive numa situação de incerteza no controlo da pandemia e não quer correr riscos. Em segundo lugar, depois de se pôr fora da União Europeia, o país deixou de se sentir com especiais deveres de solidariedade com os seus Estados-membros. Finalmente, sendo emissor de turistas e não receptor, o Reino Unido fica com uma tarefa fácil para restringir a lista “verde” dos destinos para onde os seus nacionais podem viajar.

Sobra, no entanto, a questão da “lógica”, o tal cerne da questão que o MNE não consegue alcançar. Aí há uma mistura de factos com invenções, que tanto podem servir para justificar a transferência de Portugal da lista verde para a âmbar como para a tornar hipócrita e delirante. Ninguém sabe onde Londres foi buscar a variante nepalesa que supostamente grassa em Portugal, e aí entramos no domínio da hipocrisia. Mas o mesmo não acontece com os outros argumentos: Portugal está hoje numa situação pior do que há três semanas – como refere o comunicado britânico, a taxa de positividade de Portugal “quase duplicou desde a última revisão”. E a imagem de controlo e segurança do país também se degradou por culpa própria.

É aqui que vale a pena questionar a declaração do MNE sobre as supostas “regras claras para a segurança dos que aqui residem ou nos visitam”. Um país que se abre a finais de futebol e acolhe sem controlar uma horda de adeptos nem exibe “regras claras” nem inspira confiança. Se o aumento de casos é um preço a pagar para salvar a economia, a decisão de acolher a final do futebol, enquanto a França ou a Alemanha impunham quarentenas aos britânicos, não só não ajudou essa estratégia como a pode comprometer. Essa exibição de negligência e descontrolo há-de ter pesado na decisão de Londres. 

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publicado às 17:33

O trio de Odemira e do sudoeste alentejano

por Manuel_AR, em 08.05.21

 

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Não, não lhes vou falar do Trio Odemirada que surgiu em 1955, primeiro a dois que depois passou a trio com a entrada de um terceiro elemento que, em 2019, celebrou os 60 anos de carreira. Vou falar de um trio, este não musical, que se instalou em Odemira em que os seus elementos são protagonistas e coniventes pelo que se passa no sudoeste alentejano.

No concelho de Odemira os referidos protagonistas dos acontecimentos chegaram à ribalta, não fosse a covid-19. Mas deixemo-nos de graças porque a coisa é agreste lá para aquelas bandas.

É um trio da irresponsabilidade, da indiferença, do deixa andar, dos culpados, como queiram.

Os elementos do trio que protagonizam a desgraça são: em primeiro lugar os empresários agroindustriais que lançam para o ar o chavão “criamos riqueza”, seja lá o que eles entendam por isso, mas apenas quando lhes convém. São áreas extensíssimas de estufas que empregam mão de obra com facilidade de adaptação, por necessidade de sobrevivência, à exploração. São os trabalhadores usados para criar riqueza, resta saber para quem, (não, não sou contra a iniciativa privada, bem pelo contrário, mas há a ética, meus senhores, a ética!);

O segundo elemento do trio são os imigrantes que trabalham naqueles empreendimentos que vivem em condições de trabalho e de habitabilidade impensáveis e desumanas na segunda década do século XXI;

O terceiro elemento do trio é o Governo e os ministérios, instituições e organismos por ele tutelados que deveriam supervisionar, dentro das suas competências, e fiscalizar os dois anteriores elementos do trio.

Não fosse a gravidade da situação causada pela covid-19 os factos relacionados com imigração ilegal, tráfego humano, escravatura versão século XXI, condições de habitabilidade indignas para seres humanos e exploração salarial que vieram para a opinião pública continuariam bem guardados no segredo das gavetas. Só agora alguma comunicação social acordou para o pesadelo comentando, relatando e produzindo peças ditas de investigação para telespectador ver e, por vezes, até confundir. Segura o tema porque também é um “postigo” de comunicação por onde possa atacar o governo socialista. Afirmar que, daqui para a frente, a imagem do Zmar ficará degradada com o anátema de um covidário, é demagógico e, no mínimo, ridículo.

Miguel Sousa Tavares, já tinha denunciado esta situação num artigo de opinião publicado no semanário Expresso em fevereiro de 2021 onde escreveu: “… E, além disso, tudo contribui para as exportações, não interessando saber também se, nos olivais do Alqueva ou nas estufas do Mira, todos os trabalhadores são estrangeiros e a maior parte das empresas também, tirando partido de infraestruturas pagas pelos contribuintes portugueses, de água subsidiada pelos contribuintes portugueses e de subsídios ao investimento com dinheiro europeu do qual parte é nossa.

Mas seria de facto curioso fazer as contas e perceber quanto do saldo final dessas exportações representam lucros que ficam cá, impostos e contribuições sociais que se pagam aqui. Para que desta agricultura industrial não fique apenas o rasto de uma situação social que nos envergonha e um desastre ambiental e paisagístico como aquele que cada vez mais vai crescendo no Alentejo.”.

E, acrescenta que: “Qualquer ministro da Agricultura responsável estaria em pânico com o que se está a passar no Alentejo com as culturas superintensivas de olival e amendoal à conta da água do Alqueva e com as estufas do Sudoeste à conta da exaurida barragem de Santa Clara…”

Para finalizar pergunto eu:

Alguém acredita que a freguesia do concelho de Odemira, em cerca sanitária nos próximos meses, será um destino turístico preferencial como é justificado pelos gerentes do resort Zmar(?) que se opuseram e opõe à requisição civil para alojamento dos trabalhadores das empresas agrícola? Eu não!

Alguém acredita que haja uma depreciação económica do resort Zmar, projeto que está à beira da falência, afastará a possibilidade de um possível investidor tal como foi dramatizado pelos ditos proprietários do Zmar? Eu não!

Alguém acreditou que a requisição civil incidiria também na imaginada ocupação das casas de férias dos proprietários? Eu, não!

Alguém acredita que os donos de restaurantes, que vivem situações seguramente muito mais dramáticas do que os donos do projeto Zmar, na prática falido, também sofreram as consequências da prioridade à saúde pública para não falar de todos os que perderam o emprego nessa área? Eu, sim!

A explosão de posições públicas dadas pela comunicação social incidiu sobre o resort Zmar mas, sobretudo, pelo regime de semiescravidão em que trabalhadores imigrantes se encontram, que foi obsequiada ao longo de anos com o silêncio sobre a vergonha da exploração de seres humanos sem que lhes seja garantido o mínimo de direitos em troca do trabalho que contribui para a nossa economia.

Vergonha é a palavra tantas vezes proferida por André Ventura do Chega mesmo a despropósito, mas que agora viria a propósito aplicá-la faz vistinhas de circunstância eleitoral, ele e outros que se lhe juntam, como o IL e o CDS. Talvez para eles a exploração de imigrantes não seja uma vergonha para o país.

A responsabilidade não é do Estado, é de quem o gere e o geriu e que não apenas do atual governo. É, sobretudo, da direita que nos governaram nas últimas décadas.  A dignidades daquelas pessoas só foi vista como um problema quando pôs em perigo a nossa saúde. Bem pode agora a direita apontar o dedo ao Governo, que a tem em parte, mas também foram cúmplices no seu tempo de governação do que se passa agora. Porque isto é apenas a ponta do iceberg que a covid-19 tornou ainda mais visível.  

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publicado às 19:27

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Penso não haver ninguém que não considere os EUA como um regime democrático, excetuando, claro está, os radicais comunistas ortodoxos. Mas vejamos os factos no que se refere a Donald Trump.

As afirmações que ele tem feito ao longo do seu mandato apontam num sentido oposto à democracia, isto é, a tomada de poder em direção a uma potencial ditadura reforçadamente autocrática por via administrativa e posteriormente criar uma dinastia colocando em altos cargos familiares próximos.

 Donald Trump não escondeu a sua estratégia. No fim de setembro, admitiu publicamente o objetivo de nomear à pressa a juíza ultraconservadora Amy Coney Barrett para o Supremo Tribunal a fim manter e reforçar a ampla maioria conservadora no tribunal para julgar eventuais questionamentos sobre o resultado da eleição.

Aliás, ele tem o objetivo ao lançar dúvidas sobre a integridade da eleição ao afirmar, sem apresentar provas, que a votação por correspondência levará a fraudes. Mas o certo é que a prática do voto por correspondência é muito comum nos EUA e foi intensificada este ano devido à pandemia. Trump não esclarece também se vai aceitar uma derrota em favor de Joe Biden, pressiona e pretende fazer uma guerra jurídica na disputa do poder.

Para ser reeleito Trump aposta no tudo ou nada colocando a democracia americana sujeita ao maior teste de stresse desde há mais de desde há 155 anos, data da guerra civil em que os sulistas participaram para lutarem a favor da manutenção da escravidão.

Penso que é consensual, de acordo com analistas políticos dos EUA, que Trump tentou enfraquecer a democracia em atos sistemáticos que ganharam mais força com a proximidade das eleições. A maneira como Trump desafia abertamente as normas democráticas não tem precedente nos EUA. Trump tem pretensões de criar uma crise institucional. Tem feito acusações de suposta fraude eleitoral, na tentativa de minar a vontade dos eleitores ao saber que as sondagens não estavam a inclinar-se para o seu lado.

Pelas informações que nos chegam pela comunicação social dos EUA a sua resposta ao coronavírus colocou em risco a saúde e o bem-estar do país. As suas mentiras tornaram-se em mentiras amplificadas pelos seus irresponsáveis adeptos nas redes sociais e que representam problemas terríveis para o país e para as pessoas que desconhecem a verdade dos factos.

A atitude de Trump tem-se refletido, não apenas na imprensa americana, mas também na estrangeira, que se resume, como citou o jornal francês Le Monde em editorial, após o primeiro debate presidencial, em “Quatre ans de trumpisme ont largement contribué à fragiliser l’une des plus grandes démocraties du monde. C’est une leçon pour toutes les autres” (Quatro anos de trumpismo contribuíram largamente para fragilizar uma das maiores democracias do mundo. É o declínio de uma das maiores democracias do mundo).

O jornal britânico Financial Times num artigo publicado com o título "Imagem democrática dos EUA está a sangrar", escreveu que a "reputação em declínio do país pode ser avaliada e medida" e que “que menos de um terço dos franceses e alemães têm uma visão favorável da América. Com 41% de vantagem, a opinião da Grã-Bretanha sobre os EUA era uma baixa recorde. O impacto de Trump é ainda mais forte. Apenas 16 por cento do mundo confia no presidente dos Estados Unidos para fazer a coisa certa, ainda menos do que os 19 por cento que pensaram isso sobre Xi Jinping da China. A alemã Angela Merkel obteve uma avaliação positiva de 76%. As pesquisas foram realizadas bem antes do debate presidencial desta semana”.

Pelo que conhecemos desde a sua posse, em janeiro de 2017, Trump tem gerido o governo como se fosse uma das suas empresas seguindo o comportamento típico dos novos líderes populistas, que não têm provocado ruturas democrática repentina, mas vão minando as instituições, agindo de maneira cada vez mais autoritária. Vejam-se os casos europeus em alguns países do leste.

Para conhecermos as atuações de Trump ao longo do seu mandato basta fazer algumas pesquisas na imprensa internacional. Um dos casos mais divulgados, em dezembro de 2019, quando foi considerado como o terceiro presidente da história americana a sofrer um processo de impeachment, ao ser acusado de abuso de poder por ter pressionado o líder da Ucrânia a investigar Biden em troca da libertação de verbas para ajuda militar e de, quando foi descoberto, ter obstruído as investigações. O governo sob a sua tutela atuou ainda para que testemunhas importantes não fossem ouvidas e, em janeiro, foi absolvido por um Senado muito polarizado pela maioria republicana que têm interesses em que ele se mantenha no poder devido a privilégios concedidos.

Segundo os artigos publicados os estragos na democracia americana foram tantos que o novo presidente terá muito trabalho ao ter que enfrentar de facto a Covid-19, a crise económica, as questões raciais, de imigração e ambientais.

Quanto à economia dos EUA Joseph Stiglitz, Prémio Nobel de Economia, escreveu um artigo em janeiro de 2020, também publicado pelo jornal Expresso onde colocava a verdade sobre a economia de Trump. Stiglitz afirmou em certa altura: “Para se obter uma boa leitura da saúde económica de um país, tem de se começar por analisar a saúde dos seus cidadãos. Se forem felizes e prósperos, serão saudáveis e viverão mais tempo. Neste aspeto, entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos estão no final da lista. A esperança de vida nos EUA, já relativamente baixa, caiu nos dois primeiros anos da presidência de Trump e, em 2017, a mortalidade na meia-idade atingiu a taxa mais elevada desde a Segunda Guerra Mundial. Isso não é uma surpresa, porque não houve nenhum presidente que se tenha esforçado tanto para garantir que mais americanos fiquem sem seguro de saúde. Milhões perderam a cobertura do seguro e a taxa de pessoas sem seguro aumentou, em apenas dois anos, de 10,9% para 13,7%.

Um dos motivos da diminuição da esperança de vida nos Estados Unidos é o que Anne Case e o economista vencedor do prémio Nobel, Angus Deaton, chamam de mortes por desespero, causadas por álcool, overdose de drogas e suicídio. Em 2017 (o ano mais recente para o qual existem dados disponíveis satisfatórios), essas mortes foram quase quatro vezes mais do que em 1999.” Pode consultar aqui o artigo.

 

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publicado às 08:49

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Após a “bronca” do convite de Luís Filipe Vieira  para que o senhor primeiro-ministro António Costa integrasse a Comissão de Honra de candidatura à presidência do Benfica, após a retirada da dita comissão e após as vozes contrárias ao convite se terem aparentemente calado o senhor primeiro-ministro António Costa parece estar possuído de uma qualquer síndrome de incertezas quando comunica ao país medidas tomadas, a tomar, ou a não tomar, para debelar ou mitigar a crise que ataca a saúde pública no que se refere à covid-19.

Contrariamente à primeira fase da pandemia onde as medidas foram enérgicas e atempadas nas suas últimas intervenções, talvez devido ao cansaço, parece apresentar uma falta segurança quanto ao que diz no que à covid-19 se refere. Esta insegurança poderá ter como causa os contactos com entidades e especialistas que lançam para o ar pontos de vista contraditórios que me parecem ser mais opiniões do que dados científicos.

Na semana passada na conferência de imprensa, após a reunião do gabinete de emergência para a vovid-19, António Costa lança para o ar nada de novo, colocando-se numa atitude de vocês aí amanhem-se e protejam-se uns aos outros porque se a coisa agravar a responsabilidade é vossa.

"A manter-se esta tendência, chegaremos aos mil novos casos por dia. Temos de travar esta tendência. Não podemos parar o país", declarou o primeiro-ministro na conferência de imprensa. E acrescentou ainda: "Agora, não vamos poder voltar a parar o país, como aconteceu em março. Agora, o controlo da pandemia depende da responsabilidade pessoal de cada um de nós. Não podemos voltar a privar as crianças do acesso à escola, não podemos voltar a proibir as famílias de visitarem os seus entes queridos nos lares, não podemos separar as famílias no Natal como fizemos na Páscoa. Temos mesmo de travar a pandemia por nós próprios através da nossa responsabilidade pessoal".

São verdades que aparentemente parecem ser incontornáveis. A escolha é uma das três: economia, infeção covid ou morte. Claro que a economia prevalece porque sem economia a infeção covid continua e a morte surge lenta, mas inexoravelmente. A morte social pela morte da economia conduz à morte física no seu todo quando não pelo menos ao nível psicológico.

O que o primeiro-ministro disse na conferência, contrariamente ao que disse na primeira fase da pandemia, demonstrou falta de sensibilidade social para com setores mais frágeis e desresponsabilização pelo que venha a acontecer no futuro próximo, mesmo que ao Estado caiba a responsabilidade pela saúde pública.

Se no início de setembro António Costa se indignava porque o governo britânico condicionava os seus cidadãos que regressassem de Portugal a uma quarentena obrigatória agora deixou de fazer parte das suas preocupações.

Quando o resto da Europa reage a escalada de novos casos com restrições parciais devido à aceleração no ritmo de contágio está a ser evidente que na maior parte dos países europeus os Governos evitam confinamento total, mas adotam medidas focadas em regiões e sectores específicos para tentar travar número de novos casos, em Portugal parece vir a seguir-se o modelo da Suécia pela estratégia do chefe de governo António Costa. Modelo mais desumano e de despreocupação pela saúde publica e de desinteresse pelos mais idosos do país.

Se há poucas semanas os noticiários das televisões nos atulhavam e atulham nas horas de ponta com o que se passa nos lares de todo o país António Costa agora até já nem se importa com isso quando afirma que “não podemos voltar a proibir as famílias de visitarem os seus entes queridos nos lares.”. Estranha-se esta afirmação quando é sabido que o vírus é transportado para o interior dos lares por pessoas do exterior. Ou será que são produzidos pelos velhinhos que lá se encontram acamados ou não? Podemos colocar ironicamente a seguinte questão: será que transportar o coronavírus para o interior lares de idosos poderá ser bom para segurança social que, com um maior número de mortes, acaba por pagar menos reformas.

O primeiro-ministro António Costa pretende agora adotar o modelo sueco esquecendo-se de que na Suécia o comportamento social dos suecos nada tem a ver com o dos latinos a que, nós portugueses, feliz, ou infelizmente, pertencemos. Os suecos são um povo dado a poucos contactos considerados socialmente físicos de abraços e beijinhos. Dão muita importância e gostam de manter a distância do seu espaço pessoal e, como tal, gostam que não o invadam, evitam toques e contactos físicos desnecessários. Assim, para eles o combate à covid-19, é visto hoje como uma visão totalmente normal. Nós os latinos somos especialistas nos contactos físicos os suecos encantam mais pelo uso da palavra e pela maneira como expressam exteriormente emoções

O Governo sueco deixou a cargo dos cidadãos a responsabilidade pela sua saúde. Não impôs um confinamento à população, antes apelou às pessoas para que aplicassem o distanciamento social físico, comportamento que não é muito difícil de adotar num país com baixa densidade populacional e cuja cultura valoriza o individualismo e a autodisciplina e onde restaurantes, bares, ginásios, lojas e cabeleireiros mantiveram-se em atividade. Desligando-se dos problemas dos locais descurou também a situação dos locais onde se encontram os seus idosos.

A população da Suécia é de 10 milhões e 278 mil habitantes aproximadamente o mesmo número de população de Portugal 10 milhões e 286 mil habitantes, (fonte PORDATA estimativas em 2019). A Suécia apresenta hoje, 20 de setembro, um total de 88237 casos e 5865 óbitos por covid-19 contra os 68025 casos e 1899 óbitos de Portugal, números muito menores do que os da Suécia.

No início de agosto de acordo com a Bloomberg o Produto Interno Bruto (PIB) sueco foi de -8,2% no segundo trimestre numa primeira estimativa do Instituto Nacional de Estatística da Suécia. As previsões dos economistas apontavam para uma queda homóloga de 7,4%. Os dados provisórios representam o pior desempenho económico trimestral desde que há registos.

Ao contrário dos outros países nórdicos, a Suécia não impôs um bloqueio total na economia e na vida dos cidadãos, tendo apenas dado indicações gerais sobre o confinamento parcial da sociedade. Esta estratégia resultou numa das taxas de mortalidade mais elevadas de toda a Escandinávia. No entanto, a Bloomberg aponta que as novas informações indicam que, apesar da estratégia suave, o país poderá não ter conseguido manter o nível de consumo por parte dos cidadãos.

Na passada quarta-feira, o banco central sueco manteve as previsões realizadas em abril. No primeiro cenário, o produto interno bruto (PIB) poderá contrair 6,9% em 2020, antes de voltar a crescer 4,6% em 2021 e numa previsão mais negativa, prevê que o PIB poderá contrair 9,7% e a recuperação mais lenta, crescendo apenas 1,7% em 2021.

Se comparamos com as previsões em Portugal as diferenças são relativamente poucas, mesmo tendo em conta as diferenças das economias até 17 de setembro e de acordo com o Conselho de Finanças Públicas Portugal terá em 2020 uma queda no PIB de -9,3% prevendo-se que irá crescer em 2021 4,8%.

António Costa parece assim querer aguentar a economia mesmo que tenha de recorrer às ideias da espécie de cientista louco, Anders Tegnell, epidemiologista chefe da Agência de Saúde Pública da Suécia que tem aconselhado o governo sueco. Aliás o primeiro-ministro da Suécia foi criticado e admitiu ter havido erros. Mas disse também querer manter a sua estratégia. O epidemiologista Anders Tegnell, que desenhou a resposta da Suécia à pandemia também admitiu que morreram demasiadas pessoas e que podiam ter sido impostas mais restrições.

Por aqui também alguns jornalistas traçam opiniões favoráveis à estratégia sueca e não me parece que “a pulsão de vida, de vida em sociedade, é aquilo que, em última análise, vai conseguir a cura.”. O medo e o controle pela segurança de cada um individual e coletivamente quebram a produtividade e a insegurança por desconhecimento do que o futuro lhes reserva não faz gastar dinheiro aos cidadãos para que ajudem a funcionar a economia. Um dos maiores problemas não é a perda de consumo interno é o recuo das exportações devido ao recuo de encomendas do estrangeiro que está também a braços com um perigoso aumento de casos covid.

O que é grave é que António Costa agora pareça agora querer seguir o modelo que se reconhece estar errado por muitos elogios lhe façam em vez de adotar modelos mais originais é para isso que servem os gabinetes de crise de saúde pública em situação pandémica.

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publicado às 17:41

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Após uma primeira fase bem-sucedida, na fase atual parece-me que António Costa e o seu Governo adotaram o modelo sueco para contenção da epidemia, isto é, nada fazer, fazer pouco ou fazer de conta. Como se sabe primeiro-ministro sueco, Stefan Löfven, defendeu que o seu país escolheu a estratégia “correta” contra a pandemia, apesar de o número de mortes na Suécia ter sido muito superior ao resto dos países escandinavos.

O jornal Público de 27/08 anunciou que “A ministra do Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva, confirmou nesta quinta-feira que o Governo irá prolongar a actual situação de alerta que está no continente, com excepção da Área Metropolitana de Lisboa, que continuará em situação de contingência.” Alegou a ministra que “as novidades” surgirão a 15 de setembro, com a elevação das restrições em todo o território. A ministra justifica que viveremos por essa data “um contexto mais difícil dado o contexto internacional, mudança de rotinas e a chegada do outono”, uma vez que um pouco por toda a Europa registam-se aumentos de novos casos de infeção “e o Governo não pode ficar indiferente a esse aumento” pelo que atuará "preventivamente relativamente à mudança de contexto”.

No mesmo dia 27/08 foram também conhecidos os novos casos detetadas: 399 infeções em Portugal nas últimas 24 horas, o maior número de 402 novos casos desde 10 de julho. Dos novos casos, 186, 47% foram identificados na região de Lisboa e Vale do Tejo, No Norte há 161 novos casos, o que corresponde a 40% do total e é o valor mais elevado desde 8 de maio.

Portugal registou hoje sexta-feira 28/08 mais seis mortes e 401 casos de infeção pelo novo coronavírus, o que corresponde a um aumento de 0,7%. Este é novamente o maior número de casos diários desde 10 de julho sendo o RT de 1,00 o que significa que cada pessoa infetada infeta outra.

Contudo as notícias insistem apenas nos lares de idosos como se esses fossem os grandes transmissores da doença esquecendo que a doença vem do exterior para dentro dos lares provavelmente levada pelos assintomáticos mais jovens que, em cadeia transmitem aos seus familiares.

O Governo tem a perceção de que tudo vai piorar não apenas pelas razões que a ministra apontou e que atrás foi referido. O Governo durante o período de férias abriu quase todas as janelas para a covid-19 entrar. A partir de outubro é que vamos sentir as consequências da abertura. Emigrantes portugueses que resolveram vir a Portugal, desconhecendo se poderiam ser potenciais portadores, assim como estrangeiros, sobretudo ingleses, que têm vindo a entrar ultimamente sem qualquer controle sanitário, apesar de tudo com contentamento da indústria turística algarvia que, de facto, se encontrava e encontra numa crise sem precedentes.

Há também grupos de procedência fora da europa, países de elevado risco que para Lisboa se têm dirigido com o intuito da obtenção de nacionalidade portuguesa para posteriormente darem o salto para outros países. São grupos, normalmente mais jovens, que se juntam e convivem em ambientes pouco salubres e que se espalham por vários locais das grandes cidades, sobretudo em Lisboa, e dos quais não se tem qualquer informação.

Para muitos de nós, portugueses, o contributo será o aumento do número de infeções consequência imediata das decisões de abertura quase sem limites, sendo Lisboa o concelho com maior crescimento de casos na última semana diferença entre o n.º de casos registados até dia 17 e até dia 24 de Agosto.

O Governo em vez de ter em conta a perigosidade de férias resolve contentar a população e contribuir para o descuido. Vendo a coisa a agravar decidiu agora pelo recuo, adotando uma estratégia preventiva em relação ao combate à propagação da pandemia da covid-19 em Portugal e abandonar a estratégia de aprovar medidas reativas em função da evolução dos dados epidemiológicos. O que deveria ter sido feito prevendo e por isso antecipando o que agora faz ao arrepio do controle da situação. A mudança de tática foi previamente comunicada ao Presidente da República.

Sempre fomos um povo de acolhimento sem restrições, mas neste momento gravoso para a nossa saúde pública, um pouco de contenção talvez fosse mais inteligente.

Não venham depois argumentar que foi o começo das aulas, o regresso ao trabalho, a falta de cuidado das pessoas, etc. sim, será isto tudo agravado por todo o resto causado pela obsessão do Governo pela abertura das portas e janelas. Somos os maiores, esperemos que não venhamos a ser os piores por ultrapassarmos a gravidade do que se passa em Espanha, França, Itália. Pretendem fazer-nos acreditar que é uma segunda vaga. Não há segundas vagas, o que há é o descuidado comportamento de todos e de quem nos governa.

Para Ventura do Chega num documento que entregou hoje, sexta-feira, um projeto de resolução no parlamento para revogar a decisão do Conselho de Ministros de declarar a situação de contingência. Ventura está naquela em que MORRA QUEM MORRER, FIQUE INFETADO QUEM FICAR, QUE MORRA, PIM! QUE VIVA A ECONOMIA, PUM! Parodio claro com "O Manifesto Anti Dantas" de José de Almada Negreiros.

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publicado às 23:04

Preparar vilanagem os milhões virão aí

por Manuel_AR, em 17.06.20

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O cansaço de António Costa e o de alguns dos seus ministros e secretários de estado estão a vir à tona depois destes meses todos de Covid-19, coronavírus, Novo coronavírus SARS-CoV-2 ou lá o que é que nos tem trazido a todos numa azáfama de paciência e de receios fundados empurrando a economia para o limite de um precipício no alto duma arriba.


O esforço de Mário Centeno e de todos nós foi destruído no espaço de três meses. Alguns comentadores da esquerda radical, um dos quais me escuso dizer o nome, escreve contra tudo e todos quantos têm elogiado Centeno pelo seu trabalho.  Se fossem potenciais candidatos a ministros diria que estariam no domínio da síndrome de que grande parte dos portugueses sofre: a chamada dor de cotovelo. Mas não, são apenas comentadores de política e partidários de uma esquerda que está sempre contra todos e tudo o que não provenha do seu sectário mundo político-ideológico, mesmo que, comprovadamente, seja bom e se mostre útil, eficaz, e traga riqueza que possa vir a melhorar Portugal e a vida dos portugueses. Convém aqui esclarecer que no quadro dos extremistas de direita também os há, e até piores, mas aí o que muda são as moscas e o resto. Para bom entendedor meia palavra basta!


Saiu no Expresso no dia de Santo António um artigo de Sousa Tavares muito acutilante sobre o pós Covid-19, com o qual em parte concordo,  e o que nos poderá trazer se forem cometidos os mesmos erros do passado. Refiro-me aos oportunistas e clientelistas dos costume no que se refere a verbas de milhões a fundo perdido que se esperam da União Europeia para fazer face à crise causada pela pandemia Covid-19 e às quais muitos se irão lançar como gato a bofe. Não apenas os que andam por aí, mas também novos que se estão já a perfilar e a elevar-se nos céus para vislumbrarem com olhos capciosos, quais abutres famintos, os dinheiros que hão de vir.  


O ministro da economia, Siza Vieira, numa entrevista à “Visão” refere-se ao apelo que anda a fazer às empresas: “Preparem-se, porque vão ter uma oportunidade provavelmente única na nossa História para aplicar recursos naquilo que faz falta e criar condições de crescimento, de competitividade e de produtividade para as vossas empresas.”


Se fizermos uma retrospetiva encontraremos na nossa história política governos onde houve promessas de utilização de dinheiro vindo da U.E. que viriam a incentivar a nossa economia e o nosso desenvolvimento. Entretanto no correr dos acontecimentos surgiram empresas efémeras que nasceram às centenas e que propunham para serem financiados projetos que era sabido serviam apenas para “sacar” dinheiro dos fundos europeus.


Muitos privilegiados de “famílias muito bem” criaram na altura empresas financiadas pela U.E. para darem cursos de formação nas mais variadas áreas com os dinheiros vindos de Bruxelas, muitas delas fictícias e autênticas burlas.


Muitas outras situações se verificaram. O caso da agricultura por exemplo em que dos cerca de 400 mil agricultores 220 mil receberam subsídios para não produzir. Eram agricultores que se encontravam num regime em que eram apenas obrigados a manterem-se em condições para voltarem a ter produção nos mesmo terrenos de onde arrancaram o que lá tinham, havendo outros dois mil que receberam mais 250 milhões de euros do que todos os outros juntos, tendo o país perdido entre 1999 e 2009 25% das explorações agrícolas segundo dados do Instituto Nacional de Estatística.


No passado  também houve uma universidade privada situada lá para os lados do Príncipe Real, em Lisboa, o ISCEM que foi financiada por Bruxelas e licenciado pelo Governo em 1990 que acabou por ser extinta em setembro de 2019 tendo sido um dos seus alunos o chef José Avillez.


Agora são mais milhares de milhões de que alguns oportunistas estarão à espera. Cerca de 15,5 mil milhões de euros em subvenções (distribuídas a fundo perdido) e 10,8 mil milhões de euros sob a forma de empréstimos concedidos em condições de juros muito favoráveis que pode confirmar aqui,  ao que se acrescem os milhões do Quadro Plurianual 21-27 e os que ainda restam do de 20-23. Vamos a ver senão se isto não irá ser uma espécie de “bodo aos pobres” direcionado aos mais ricos.


Em teoria à espreita também estrão o PCP e o Bloco de Esquerda cujo dinheiro quererão que seja distribuído para aumentos salariais da função pública e na admissão de pessoal para o Estado. Para eles quanto mais melhor até que em Portugal tudo seja, até a mercearia do bairro, estatizado sem qualquer critério. Padecem da síndrome da estatização de tudo quanto sejam empresas.  


Esperemos que a alcunha de despesista com que a direita denominava o Partido Socialista e que se foi esbatendo com António Costa e Mário Centeno não venha de novo à tona embriagados pelos milhões que, se espera, cheguem.


A distribuição e o seu destino sem critério e rigor de verbas que não sejam minuciosamente analisados é um perigo. Os lóbis que por aí devem andar irão pressionar no sentido de exigirem uma grossa fatia. Muitos irão sugerir, para distribuição das fatias do bolo, uma espécie de “simplex”, ou seja, o mesmo que alívio ou a eliminação da burocracia na distribuição das fatias por um Estado de clientelas e protetor dos amigos em vez do rigor e disciplina.


Que estes milhares de milhões não nos façam cair na desgraça idêntica à do passado em que alguns se aproveitaram da grande fatia do bolo em proveito próprio deixando desenvolvimento e recuperação económica de Portugal mais uma vez à míngua e a navegar à vela como no passado.

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publicado às 19:06

Medo do desconfinamento? Talvez não.

por Manuel_AR, em 20.05.20

 


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A jornalista Ana Sá Lopes Diretora Adjunta do jornal Público escreve no Editorial do dia 17 de maio que o “medo que não toldou o enorme grupo de portugueses que manteve o país a funcionar normalmente enquanto a outra parte se confinava, vai ser assassino para a economia”, devido “ao medo paralisante”.


Ao ler o artigo não posse deixar de concordar com os argumentos aduzidos, porém, apenas sustenta o sentimento de medo como principal força que leva a que muitos portugueses se deparem com reservas quanto ao desconfinamento.


Os números e os indicadores que têm saído nos últimos dias são animadores, mas ainda têm de ser lido com algum cuidado. Por outro lado, o regresso rápido pela população a um “novo normal” da vida quotidiana ainda traz algumas dúvidas quanto às boas práticas aplicadas pelas empresas que poderão, à medida que o regresso da clientela se for estabilizando ao longo do tempo, descuidar as regras de higiene que se pressupõem obrigatórias.


Para além do “medo paralisante” Ana Sá Lopes não refere, outras causas que poderão estar a dificultar a transição para a “nova normalidade” para fazer funcionar a economia e restabelecer a confiança das pessoas o que poderá levar algum tempo para que o medo se vá esbatendo.


Os portugueses não são medrosos, estão a ser precavidos e acatam na sua maioria as recomendações que diariamente lhes entrava pelos ouvidos via televisão, e ainda bem que assim é. A economia começou a derrocar, é um facto e como Ana Sá Lopes afirma “fazer compras é neste momento um desígnio nacional”, e interroga: “como o fazer se os portugueses se mantêm em modo pânico, com todos os que podem a resistir a sair dos seus casulos particulares?” e acrescenta que “Agora sabemos confinar-nos; ainda não sabemos que podemos viver normalmente.”


Também noutra altura João Miguel Tavares escreveu no mesmo diário em 9 de abril um artigo de opinião cujo título vem a agora a propósito, “Meter as pessoas dentro de casa foi fácil. E tirá-las?”.


A reanimação do comércio local não depende apenas de um “monstro que revela ser de mais difícil combate do que a covid-19” que é o medo. O consumo que contraiu de forma avassaladora em todos as atividades com exceção dos artigos de primeira necessidade como a alimentação.  


Para além do medo podem ser avançadas outras explicações ainda mais fortes se atentarmos nos problemas que a covid-19 nos impôs com a consequência do confinamento obrigatório e com o estado de emergência.


Podemos avançar algumas com base na observação diária de factos e nas vastas opiniões publicadas. Comecemos pelos mais idosos referindo-me aos que se encontram na reforma e cuja mobilidade e vontade anímica os levam a sair e a consumir, não apenas nas idas aos supermercados para suprirem bens de primeira necessidade, mas também noutros produtos para as suas casas, para ofertas e na substituição de peças de vestuário que, agora, com o regresso do tempo quente se torna necessário. Para retração desta vasta camada da população a comunicação social que contribuiu para lançar o pânico incidindo diariamente sobre o perigo a que estariam sujeitos se fossem contaminados, sobre as mortes que os atingiam pela sua vulnerabilidade, aos jovens que por eles poderiam ser contaminados e os velhos poderiam contaminar os jovens, as peças, às vezes chocantes,  que passavam dias seguidos nos noticiários televisivos e na imprensa. Não havia que esconder a verdade, mas as insistências e os comentários à margem levaram ao levantamento de guardas defensivas.


Segue-se a perda da capacidade financeira de quem, devido ao lay off simplificado, deixou de receber parte do seu salário com a consequente necessidade da contenção de despesas.


Outra explicação poderá ser a perda de emprego e mesmo a quebra de rendimentos dos próprios empresários que, devido à falta de clientes, puseram em causa a sua viabilidade e outras que já se encontravam nesta situação que enviaram para o fundo de desemprego. Acrescente-se os trabalhadores que, devido à incerteza quanto a novo emprego, se viram compelidos a mitigar em termos reais o seu poder de compra acrescido de consequências psicológicas de outros.


A insegurança quanto ao que o futuro próximo lhes possa reservar poderá determinar muitas famílias a evitar despesas que não sejam absolutamente necessárias. A saída para férias que não se fará é também um outro fator de retração ao consumo com prejuízos para o turismo interno pela desconfiança em relação aos alojamentos hoteleiros, pensões, casas alugadas à época e alojamentos locais quanto à eficácia e cumprimento da higienização.


Apesar da alteração das medidas excecionais para a continuidade da abertura mencionados no decreto-lei n.º 22/2020 publicado no Diário da República n.º 95-A/2020, Série I de sábado, dia 16 de maio, a abertura de fronteiras pode ser uma condicionante à confiança necessária nos alojamentos, mesmo que no decreto-lei se indique que as medidas vão estar em avaliação permanente, face ao calendário de desconfinamento  e à retoma da atividade económica.


O Governo tem atuado por fazes, e bem, para estimular a economia mediante avaliação dos momentos. Na população mais do que o medo é a desconfiança e a incerteza que só lentamente se irão gradualmente dissipando.

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publicado às 15:44

Que se morra então, PIM!

por Manuel_AR, em 16.04.20

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Sem economia morremos todos, sem pessoas morre a economia. A economia tem de funcionar sem desvalorizar a saúde pública. Pessoas aflitas, ansiosas, sem saúde e assustadas não reanimam a economia, afundam-na.


Por isso, é estranho que um diretor dum jornal online de tendência neoliberalista diga a seguinte frase: “Antes morrer livre do que viver escravo da Covid”. Não ouvi o que ele disse, nem me interessou, apenas me centrei no título como mote para o texto que hoje escrevo.


A frase fora de um contexto pode levar a várias interpretações. A minha é a de que ele não estará contra o distanciamento social, mas contra o confinamento e encerramento obrigatório das atividades e funções que fazem mover a economia. A decisão do confinamento obrigatório teve dois motivos bem explícitos: preservar dentro das limitações existentes a saúde pública e salvaguardar a população duma potencial catástrofe sanitária.


Na circunstância da pandemia Covid confrontam-se pontos de vista antagónicos, os que reverenciam Trump e Bolsonaro e os seus pontos de vista orientados para a política do laissez-faire aplicada à saúde pública com despreocupação, desvalorização e de não interferir na grave situação e que à vista do mundo são como ditadores de extrema-direita sustentados por regimes democráticos legitimado por eleições que os levaram a ocupar o poder, e os que como na Europa que, nem sempre em consonância, apoiam uma contenção e o confinamento como soluções minimizadoras, mas mais ou menos severas. Trump hoje mesmo invocou poder “total” para desautorizar governadores e agora ameaça suspender o Senado. Que dizem agora os adoradores de Trump?


Coloca-se para aqueles uma solução única: deixar que o vírus prolifere e se propague de forma irreversível para salvar a economia (talvez a dos grandes interesses) e que morram pessoas. Nesta solução encontrar-se-á possivelmente o autor da dita frase que opta por desejar para ele a morte, (será que, como ele, nós todos deveríamos dar o exemplo?). A economia acima de tudo e de todos, mesmo condenando a população à doença, à contaminação e até à morte. Podem ter a certeza de que, se tal acontecer, não serão apenas os idosos a ir, a coisa será bem mais grave.


A guerra das interpretações dos números oficiais e oficiosos surgem pela boca de muitos ditos líderes que, rodeados por interesseiros otimistas empedernido, tentam demonstrar à população de que tudo não passa de um exagero, muitas vezes forjados pelos seus adversários políticos e de comércio global. Outros chegam ainda ao ponto de considerar na estatística dos recuperados os que morreram do Covid-19 como o fez o presidente do Chile, Sebastian Piñera que revelou que o país está a contar as vítimas mortais provocadas pela covid-19 como "recuperados" porque “deixaram de poder contagiar a restante população”.


A pergunta que requer resposta é: estará a economia acima da vida?


A resposta ao autor da frase, pois então, será que MORRA O DANTAS, MORRA! PIM – alusão ao texto de Almada Negreiros no Manifesto Anti-Dantas.


Que seja então o autor da frase a morrer, como diz preferir, para salvar a economia como Jesus Cristo salvou a Humanidade com a sua morte.


Nota: O autor deste texto não deseja a morte de ninguém, nem tão-pouco a do dito diretor, trata-se apenas de uma ironia que veicula um significado contrário daquele que deriva da interpretação literal do enunciado.

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publicado às 17:00

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Dediquei-me ultimamente a ler os programas (diria antes propagandas eleitorais) de dois partidos que vão ter assento na Assembleia da República, o Chega e o Iniciativa Liberal. Não admira que alguém que tivesse lido com atenção o programa do Iniciativa Liberal tenha colocado aí o seu voto, tal é aliciante devido à sua característica de rol de ofertas para proporcionar a venda do produto qual página de folheto de supermercado.


Este programa no contexto ideológico em que ele se insere conduziu-me a refletir sobre o problema da pobreza, as diversas discussões que se têm abordado e sobre as explicações sociológicas da mesma. Mas antes vejam este video.


 


Há autores que identificam, quer o percurso do neoliberalismo, quer o do liberalismo económico, como uma grave ameaça à democracia e à liberdade política, assim como o comunismo revolucionário defendido pelo marxismo-leninismo que conduziria ao totalitarismo são contrárias às propostas levantadas pelo socialismo liberal ou liberalismo social.


O socialismo liberal democrático inclui princípios liberais e democráticos sem pretender suprimir a economia de mercado nem o capitalismo em favor de uma economia estatizada.  O Estado liberal difere do Estado social liberal de Direito. O primeiro visa sobretudo garantir a liberdade e a propriedade privada e o segundo pelo contrário é mais abrangente porque, para além de defender a propriedade privada e a economia de mercado é complementado com uma economia mista, a propriedade pública e a propriedade privada dos bens de capital e intervém também na vida económica, nomeadamente ma segurança social. Isto é, não deixa o cidadão à sua sorte tal como faz o liberalismo radical e tal como pretendem o partido Iniciativa Liberal e o Chega.


Para os radicais do liberalismo toda atividade do Estado, quer política, quer económica, deve ter como objetivo criar uma situação que possibilite aos cidadãos desenvolverem as suas qualidades como pessoas, cabendo aos indivíduos, singularmente impotentes, buscar solidariamente em conjunto este fim comum.


As diferenças apontadas conduzem-nos á questão da riqueza e da pobreza que se refletem de forma diferente em cada uma das matrizes ideológicas de cada um deles.


Vejamos então as duas visões:


Liberalismo radical 

Socialismo liberal democrático



Teoria da culpabilização da vítima.



Os pobres são responsáveis pela sua própria pobreza. É transmitida entre gerações porque os jovens desde cedo não têm razões para aspirar a mais.
• Existe uma cultura de pobreza entre os pobres. Resultado da atmosfera social e cultural onde as crianças são socializadas.


 



Teoria da culpabilização do sistema.



A pobreza é produzida e reproduzida pelas forças estruturais da sociedade.
• Cultura da dependência. Os pobres dependem da segurança social.
• Ênfase nos processos socias que produzem condições de pobreza.
• Grandes dificuldades de superação.
Fatores que moldam a forma como os recursos são distribuídos:


Classe
Género
Etnia
Posição ocupacional
Escolaridade


Geram cultura de dependência


Pobreza e subclasse geram desvantagens


• Múltiplas privações
• Baixas qualificações escolares
• Baixos padrões de saúde
• Elevados níveis de vitimização criminal


Reduzem as hipóteses de integração social, política e económica.



 


O neoliberalismo - a ideologia económica dominante desde os anos 80 - tende a defender uma abordagem de mercado livre para a formulação das suas políticas: promovendo medidas como privatização, cortes nos gastos públicos e desregulamentação. Geralmente é contra o setor público e acredita que o setor privado deve desempenhar um papel maior na economia e que o mérito e o empreendedorismo são a única via.


No entanto, "Em vez de gerar crescimento, algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, comprometendo a expansão durável", afirmam os economistas do FMI num relatório que redigiram em 2016.


O partido Iniciativa Liberal insere-se precisamente no âmbito das ideologias radicais do liberalismo populista, pior ainda do que o neoliberalismo, o que confina com a tese e de Hall (2017) por estar longe de excluir pontos de vista autoritários e conservadores que legitimam a desigualdade económica para garantir a estabilidade social. A ideologia neoliberal promove a indiferença para com a situação dos mais desfavorecidos - as "rainhas de bem-estar" [1] na frase memorável de Reagan - tanto quanto a ideologia socialmente conservadora promove a indiferença à situação das minorias raciais e étnicas.


Pela pior das razões, o neoliberalismo é uma ideologia que culpabiliza a vítima, neste caso os mais desfavorecidos e os pobres como sendo os responsáveis pela sua própria pobreza e, ao fazê-lo, isenta instituições e pactos sociais, económicos e político do capitalismo. Isto é, não se opõe a seguir pontos de vista autoritários que uma sociedsde socialmente conservadora.


É uma ideologia, por excelência, justificadora do sistema. George Monbiot,  um colunista do jornal The Guardian e autor de “Feral, The Age of Consent and Out of the Wreckage: a New Politics for an Age of Crisis” (Selvagem, A Idade do Consentimento e Fora dos Destroços: uma Nova Política para uma Era de Crise) escreveu em 2016: "os ricos persuadem-nos de que adquiriram a sua riqueza por mérito, ignorando as vantagens — como  a educação,  herança e  classe — que podem ter ajudado a fixá-la. Os pobres começam a culpar-se pelos seus fracassos, mesmo quando podem fazer pouco para mudar as suas circunstâncias."


No site da Presidência Marcelo Rebelo de Sousa afirma que é necessário combater a pobreza “caso a caso, pessoa a pessoa”, como “um fenómeno mais global, de múltiplas causas, e abordagem transversal” e “com estratégia, juntando meios públicos e privados, experiência social e solidária, inspirando cidadãos para a causa de um Portugal mais justo e coeso”.


“Há tanta gente que mesmo trabalhando não consegue sair de uma situação de pobreza, percebemos o longo caminho que ainda temos para percorrer. E são mais de 10% os que não conseguem sair da pobreza apesar de estarem no mercado de trabalho” escreve Filipe Soares num artigo de opinião no jornal Público.


Foi a crise política que resultou do neoliberalismo que causou a crise económica e financeira de 2008.  À medida que o controle e a regulação pelo estado são reduzidos, a nossa capacidade de mudar o curso das nossas vidas através da votação também se contrai conduzindo um grande número de pessoas a desinteressar-se da política levando à abstenção ou na votação em partidos populistas.


Pode ler também:


Bárbara Reis, “Os novos liberais só têm ideias velhas”.


Pedro Miguel Cardoso, “A pobreza da riqueza”.


[1] Linda Taylor foi uma criminosa mais conhecida por uma fraude de bem-estar em larga escala e ficou conhecida como a rainha do bem - estar durante a eleição presidencial dos Estados Unidos, em 1976. Taylor era uma mulher branca que costumava fazer passar-se por diferentes raças, com diferentes pseudónimos e idades, a fim de aumentar sua atividade fraudulenta nos sistemas de assistência social de vários estados no EUA

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publicado às 18:53

Endividamento e o medo do passado

por Manuel_AR, em 15.06.19

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Para a direita e para os comentadores neoliberais que a apoiam a vinda do diabo é desejada em pleno. Todos sabemos porquê e para quê!


As eleições para as legislativas aproximam-se com tal rapidez que nem nos apercebemos devido às tarefas diárias e preocupações do trabalho que nos absorvem o tempo, mas a pré-campanha iniciou-se logo após as europeias. Os media, especialmente as televisões, já nos dão sinais disso.


A estratégia de envolvimento dos canais com a oposição de direita ao Governo denuncia-se de forma não claramente expressa durante o período dos jornais televisivos, mas evidencia-se através de pormenores identificáveis pela argúcia de quem os vê e ouve.


Repare-se que tudo quanto possa ser negativo que seja da responsabilidade do governo e possa ser utilizado é trazido à tona nos noticiários sendo editados e inseridos durante as peças televisivas por associações mesmo quando não seja um facto essencial para aquele noticiário.


Repare-se ainda que, apesar dos problemas que os há decerto e sempre haverá, à falta de melhor vão recuperar peças do passado já mais do que vistas. A pretexto de uma notícia recorre-se à memória jornalística para fazer recordar aos espectadores, talvez por conveniência, aspetos dos mais negativos que já foram noticiados e repesados no passado, mas que se trazem novamente para o presente.


É o recurso à estratégia da memória continuada do que é negativo e possa ter impacto como forma de induzir os espetadores a reconsiderações de opinião negativa sobre algo que possa ter sido, no presente e no passado, a governação socialista.


Os erros e as falhas no presente ou no passado, especialmente neste, em relação à direita e aos seus atores são, a maior parte das vezes, omitidas ou passadas sem ênfase.


Veja-se o caso dos incêndios de Pedrogão em 2017 dos quais, constantemente, e a pretextos vários, são feitas retrospetivas e mesmo quando não os haja, criam-se investigações várias, ditas jornalísticas, acerca do tema ou de outros. Podem alguns questionar se se deve passar um apagador pelas tragédias e fazê-las esquecer. Não advogo isso por ser uma espécie de censura à informação e, por isso, a resposta é, claramente, não. O que está em causa é a intensão e a oportunidade escolhidas à medida do momento. Veremos que, até às eleições legislativas, o tema dos incêndios e das pessoas por eles lesadas serão um dos temas, entre outros, a serem emocionalmente explorado pelas televisões.


Os temas a explorar serão os que sendo pontuais e apesar de se encontrarem em fase de resolução, como o de alguns organismos ligados à saúde e a pretexto vários a ordem dos médicos e dos enfermeiros e também sindicatos ditos “independentes” alinham-se e ajudam a direita a fazer oposição ao Governo à falta de propostas concretas para apresentar. Os transportes coletivos são outro dos temas preferidos assim como o funcionamento de alguns serviços públicos, Outros surgem agora ainda ligados à calamidade dos incêndios, como o caso do SIRESP que a direita clamava que não funcionou por culpa do Governo e neste caso já não se olha para o passado do governo anterior quando também existia o SIRESP e houve gravíssimos incêndios com morte de bombeiros. Agora que o SIRESP passou para as mãos do Estado essa mesma direita inventa um negócio da china e quer saber como foi. E se fosse com eles?


A direita continua a fazer uma oposição de casos para mostrar trabalho, mas quanto às suas propostas e programa a cumprir caso venham a ser governo continuamos sem nada conhecer.


As opiniões de comentadores e de jornalistas especializados em áreas económicas escolhidos entre os conotados com a direita é outra das estratégias. Com base em factos verídicos e apresentando-se com uma postura que dê credibilidade frente às câmaras da televisão apresentam dados de fontes fidedignas entremeando opinião pessoal que altera o sentido e o objeto do facto no meio das suas análises.


Ainda não há muitos dias vimos e ouvimos na RTP1 a jornalista de economia Helena Garrido comentar, a partir do Boletim Económico de junho de 2019 do Banco de Portugal na parte que se refere ao comércio externo (exportações e as importações) cujo saldo tem vindo a ter tendência negativa e sobre risco da diminuição das exportações e do aumento das importações face ao aumento do consumo interno o que pode perigar o aumento da dívida.


O que diz o relatório do Banco de Portugal (o sublinhado é da minha autoria para salientar o importante):


“À semelhança do observado em 2018, ao longo do horizonte de projeção o contributo da procura interna para o crescimento do PIB será superior ao contributo das exportações. Este padrão de crescimento traduz-se num saldo negativo da balança de bens e serviços a partir de 2019, após um período relativamente longo de saldos positivos. Esta evolução exige uma atenção particular, uma vez que o endividamento externo da economia portuguesa permanece num nível elevado e constitui uma das suas principais vulnerabilidades latentes”. “Neste quadro, torna-se crucial que sejam criadas condições para um aumento do potencial de crescimento da economia portuguesa, em particular tendo em conta os riscos colocados pelos elevados níveis de endividamento e os desafios associados à evolução demográfica, aos baixos níveis de capital por trabalhador e de qualificação da mão-de-obra e às debilidades no funcionamento de mercados, que conduziram a afetações ineficientes de recursos no passado.


Tendo em conta o relatório do BP e tudo aquilo que os números das estatísticas permitem Helena Garrido, selecionou a partir do relatório de 58 páginas aquilo que achou importantes, e que o é de facto (ver sublinhados). Contudo, já parece estar a faltar à isenção e distanciamento partidário quando ameaça no meio da sua análise com o “medo de se repetir o passado”, com referência implícita  ao período de Sócrates que nos levou em 2011 ao colapso económico e financeiro.  Quem a ouviu falar mais pareceu um discurso colado ao de Passos Coelho do passado sobre os portugueses viverem acima das suas possibilidades.


A dita jornalista utiliza a sua credibilidade, se é que a tem de facto, para induzir medos, atualmente infundados, a partir de uma situação idêntica à que se verificou no passado. Na minha opinião Helena Garrido, enquanto jornalista, faz de auxiliar da direita na oposição ao governo utilizando a sua posição mediática privilegiada. Uma coisa é fazer, na sua perspetiva, comentário e análise, outra é fazer analogias com verdades do passado que não colam com a verdade da realidade presente. Isto é como divulgar uma “fake opinion” pronunciada com base em “true news” fazendo vir ao de cima emoções primárias das pessoas como as do medo, neste caso, com base no passado.


As “fake opinions” formulam de imediato juízos, opinam com dureza a partir de dados falsos, ou até de dados verdadeiros conotam com outros pela distorção e não costumam estar abertas ao contraditório.


Quem emite aquele tipo de opiniões vale-se da desinformação popular generalizada o que o torna, à luz de quem o escuta, mais convicto, fechado à possibilidade de ser contraditado sobre a forma como emitiu a opinião e avesso aos que veem a realidade de outro modo.


É certo que começa a subir o endividamento externo, graças ao consumo privado e ao endividamento das empresas, especialmente das famílias pela excessiva facilidade com que acedem ao crédito ao consumo. Temos de evitar a todos o custo que possamos voltar ao passado, mas não é utilizando a estratégia dos medos primários com objetivos e interesses político-partidários que se faz pedagogia.


Para a direita e para os comentadores neoliberais que a apoiam a vinda do diabo é desejada em pleno. Todos sabemos porquê e para quê!

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publicado às 22:58


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