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Assisti hoje ao filme Bohemian Rhapsody uma espécie de biografia síntese de Freddie Mercury vocalista dos Queen. Pela parte que me toca vi com agrado, apesar de alguma crítica mais especialista não se ter pronunciado favoravelmente.


É uma história que qualquer fã de Queen já conhece, e o problema surge em que o guião não é suficientemente profundo para escapar ao podemos essencialmente chamar duma entrada enciclopédica simplista.


O filme leva-nos do romance florescente de Freddie desde o seu romance com Mary Austin até ao sucesso da banda com várias montagens em turné pelo mundo e sobre as divergências entre Freddie e o resto da banda apresentada como inovadora.


Nas cenas finais Malek o ator torna-se perfeitamente em Freddie que nos obriga a esquecer que não estamos de facto a assistir ao espetáculo original do Live Aid.


Para Brian Truitt no NY Post, "o filme é apenas um filme de rock convencional, muito comum para um homem e uma banda que exemplificam o extraordinário". Isto é, a exploração poderia ir muito mais longe. Os elementos da banda Queen parecem ser apenas quatro caras que foram trabalhados como um qualquer filme biográfico de Hollywood.


Diz o produtor do filme Graham King “Eu sei que tem havido muita conversa sobre como o filme não é suficientemente ousado sobre a sexualidade de Freddie". "É uma versão altamente cliché de um filme sobre um astro icónico do rock com festas e drogas. Todos nós já vimos isso antes. Propus-me a fazer uma celebração de sua música e de suas vidas e agradar a todos."


O filme vale pela performance da interpretação quase colada ao Freddie original.


Vale a pena ver e recordar um pouco aquele que foi uma perda para o rock mundial.

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publicado às 22:45

Uma leitura acerca de: A Cidade de Ulisses

por Manuel_AR, em 02.01.14

 



 Se porventura tivesse dotes literários "A Cidade de Ulisses" seria o livro que eu gostaria de ter escrito tal e qual Teolinda Gersão tão excelentemente fez. O mito de Ulisses é o mote para falar de amores e desamores tendo como cenário Lisboa.


 


Teolinda oferece-nos uma histartesória de amor em que Lisboa também é protagonista. Não o li apenas como um romance mas também como uma digressão vivida através de múltiplos percursos que passam pela arte pictórica e pelas realidades urbana e histórica.


 


As metáforas e as transposições para o presente que o leitor pode, a bel-prazer, ver aplicadas ao nosso país e ao mundo são, na minha perspetiva, cinema em prosa tais as imagens nos passam na corrente de consciência. "A cidade de Ulisses" é um universo pleno de segredos, de destruições corruptas, de fachadas políticas onde o mais forte impera porque “a lei é do mais forte e de quem tem melhores armas, é, poder, dinheiro, bons conhecimentos e bons advogados disponíveis, cada um sua medida”.


 


A narrativa, traçada com uma clareza ímpar, flui como uma cascata em que o leitor, ao atravessá-la, retém o folego até descortinar do outro lado vivências que brotam e se entretecem com oportunas descrições de fragmentos históricos e geográficos de Lisboa, acompanhados por factos sociais e políticos de relevante importância que nos potenciam recuperações de memórias passadas e presentes.


 


Na literatura, como no cinema, os personagens são a vida da ação, por elas sentimos interesse, curiosidade, fascínio, carinho, desagrado, admiração, condenação, antipatia ou simpatia que, através de um processo psicológico de projeção-identificação, tornam-se parte da forma como nós nos percebemos e de como somos. É o mesmo que se sente ao ler "A cidade de Ulisses".


 


“Criar era, naturalmente, um exercício de poder. Sim, eu não abdicava desse ponto. Queria exercer poder sobre o espectador. Fasciná-lo, subjugá-lo, convencê-lo, assustá-lo, enervá-lo, provocá-lo, deleitá-lo – criar-lhe emoções e reações” expressão do pensamento do personagem, artista plástico. São também poderes os que a boa literatura exerce sobre os leitores como se comprova em "A Cidade de Ulisses" em que a autora exerce ainda um outro poder: o de nos cativar para a leitura.


 


A geografia social e urbana foi a minha primeira paixão que, apesar de a ter atraiçoado com as Ciências da Educação, nunca esqueci, mesmo durante o deleite com esta mais recente. Sendo ambas sedutoras não resisti ao encanto da primeira porque esteve presente na unidade curricular de práticas pedagógicas da história e da geografia de Portugal que, entre outras, fui chamado a lecionar em cursos superiores de educação.


 


Na cidade de Ulisses a geografia e a história recentes lá estão, basta descobri-las. Para além da ficção Teolinda dá-nos apontamentos reais de roteiros lisboetas que a vida agitada do dia-a-dia não nos deixa descortinar. É no entrosamento entre o romance, a geografia urbana e a história passada e recente que se move a ação deste seu livro. Numa aula de interdisciplinaridade entre literatura e geografia este romance é um dos poucos que poderia ser utilizado. Conceitos de geografia urbana descritiva como rua, vila, avenida, talvegue entre outros são utilizados com propriedade ao descrever percursos lisboetas. Arquiteturas, mobiliário urbano, descrição da paisagem urbana fizeram-me recordar a “Leitura da Cidade” de Kevin Lynch que nos fornece importantes elementos marcantes que possibilitam a leitura da paisagem urbana e a orientação de percursos. Diz Lynch logo no primeiro capítulo que "Todo o cidadão possui numerosas relações com algumas partes da sua cidade e a sua imagem está impregnada de memórias e significações.".


 


Paulo Vaz, protagonista do romance, descreve que em Lisboa “…era fácil embrulhar-se no traçado irregular das ruas, que se interrompiam, cruzavam, mudavam de direção inesperadamente, ou não iam ter a lugar nenhum, acabavam num impasse”. “A única certeza, na cidade velha, era que, descendo sempre, se acabaria por chegar à Baixa e ao rio, quaisquer que fossem os acidentes de percurso.”. Lisboa não é assim nada comparável com a estrutura urbana, quase toda ortogonal, de uma cidade como Nova Iorque onde tantas são as avenidas imensas que se entrecruzam perpendicularmente com monotonia e os edifícios nos esmagam, não fosse o pulsar das gentes e do trânsito insuportável num constante corrupio.


 


"Portugal – O Mediterrâneo e o Atlântico" de Orlando Ribeiro, livro de geografia descritivo da paisagem física e humana de Portugal, publicado pela primeira vez em 1945, desatualizado no que à geografia humana diz respeito, mas pleno de atualidade na descrição da paisagem física, surgiram imediatamente no meu pensamento quando, já nas últimas páginas de "A Cidade de Ulisses", li que “Lisboa é uma cidade atlântica, mas de configuração mediterrânica: numa enseada que lhe oferece um abrigo natural e junto a uma colina, como em Atenas a acrópole.”.


 


Outra passagem recordou-me as férias passadas na Rinchoa com os seus pinhais, hoje destruídos e ocupados por blocos de cimento de habitações dormitório, quando nos finais dos anos quarenta princípios de cinquenta do século passado se gozavam nos arredores de Lisboa. Sempre que por ali passo recordo-me dos pastéis de massa tenra que a minha tia fazia e que eu devorava uns após outros seguindo de corrida para um baloiço improvisado no pinhal das traseiras da casa alugada à época.


 


O caminho traçado pela prosa de Teolinda em "A Cidade de Ulisses" contemplou-me com uma digressão rica em recordações, vivências e reflexões políticas e sociais que virão sempre à memória.


 

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publicado às 19:05

Portugal Manual de Instruções, de Ricardo Costa,  é um livro de fácil leitura, bem escrito ao bom  estilo jornalístico que apresenta uma visão interpretativa séria, com algum esforço de isenção, mas, por vezes, pretensiosamente independente.


A clareza da linguagem oferece-nos um conjunto de factos relativos ao passado recente e ao presente da política portuguesa mesmo para aqueles que não gostam da complexidade da análise e do debate político feita apenas para alguns.


 



 


Apesar de se intitular um liberal, as suas convicções ideológicas e políticas não obstaram críticas à atual governação que confronta com a realidade portuguesa que se vive.


No essencial  não é um livro polémico mas, no que se refere aos passados governos de José Sócrates, desculpabiliza de algum modo a estratégia seguida pelo PSD para a tomada do poder, ao afirmar que o PEC IV ( e outros que se seguiriam, digo eu) não   iria resolver qualquer problema inclusive a vinda da troika. Poderia ter sido uma espécie de programa cautelar sem a austeridade violenta de um programa de ajustamento que Passos Coelho tanto ambicionava. Não se pode afirmar que o PEC IV não resultaria sem se ter em conta o estilo do antigo primeiro-ministro e as suas relações com o exterior no sentido de abertura de uma solução. Houve de facto um ataque ao poder desencadeado pelo atual primeiro-ministro e pelo PSD, apoiados pela esquerda radical, e isso pode ter sido o início da explosiva crise social e económica que estamos a viver.


As PPP's são um tema que diz servirem apenas "como armas de arremesso político" em vez de ser analisadas como "exemplos de erros políticos". São todos culpados, uns mais do que outros e há PPP's boas e outras más. Por seu lado, Cavaco Silva e o caso BPN e SLN são tratados com luvas brancas.


Ricardo Costa tece criticas sem exceção aos anteriores e atual governo, apontando no sentido de que as reformas estruturais tinham que ser tomadas e deverão continuar a ser tomadas, não esclarecendo como e quais, se bem que não seja esse o objetivo do livro. Não tece acusações é certo, mas vai apontando responsabilidades mais dirigidas ao passado, manifestando opinião favorável ao presente porque, para ele, nada vai ficar como dantes.


Para o autor a esquerda como alternativa ao poder não existe porque não se une, pelo que resta apenas a viabilidade  dum pacto entre PSD e PS. Nas entrelinhas podemos ler a forma como ele qualifica de AD a coligação PSD-CDS, como já houve no passado, e uma potencial aliança PS-PSD de bloco central, que também já houve no passado. Afinal parece que há sempre situações em que se pode voltar atrás!


Quem leia este livro não espere que tudo lhe irá agradar, quer sejam de direita quer sejam de esquerda.  Há que saber fazer as leituras convenientes sem quaisquer sectarismos político e ou partidário. Do meu ponto de vista não há independência absoluta no jornalismo e na interpretação dos factos políticos. Quem escreve sobre política acaba sempre por se denunciar mesmo que faça um esforço para ficar partidariamente equidistante. O tempo do todos e apenas a "Bem da Nação" já lá vai, para alguns com grande desgosto.


De qualquer modo é um livro com atualidade política cuja leitura não se deve fazer esperar.

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publicado às 17:49


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