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A direita destrambelhada e as tetas da vaca

por Manuel_AR, em 30.06.21

Teta da vaca-2.png

As direitas acusam o PS de estar a e a apoderar-se e a ocupar as estruturas do Estado. Mas qual é o objetivo dos partidos senão o da conquista do poder e o controle absoluto das estruturas estatais, utilizando todos os meios que a democracia lhes possibilita, para alimentar clientelas partidária?  É o jogo de sais tu para ir para lá eu. Quando a teta da vaca é só uma todos querem a sua mamada.

A covid-19 veio causar no povo uma inércia no pensamento político restringido a protestos pela falta de liberdade, de sociabilização e de diversão pelos confinamentos e restrições imposta pelo Governo por motivo de preservação de saúde pública que muitos veem como atentados às liberdades individuais e à intervenção coletiva.

Da esquerda à direita, cada um à sua maneira, por motivos diversos, têm clamado, com mais ou menos vigo,r contra o que alguns chamam atentado às liberdades. Pretendem incutir na sociedade a perceção de que a pandemia pode servir como tentativa de limitação das liberdades democráticas, insinuando até, que, à boleia da pandemia, o governo está a querer minar a democracia à semelhança de outros países, como tem perpassado pelas redes sociais o que não é  mais do que um dos disparates que se divulgam através daqueles canais vulgarmente conotados com as direita radicais.

Há um exemplo que ajuda a caraterizar muito bem o ponto de vista de alguns partidos da direita que manifestamente se mostram contra as restrições impostas devido à Covid-19 que são evidência demagógica e demonstrativa do seu desprezo pela saúde pública. Um dos exemplos é veiculado pela IL – Iniciativa Liberal num cartaz colocado em Lisboa na Alameda Afonso Henriques, (esteve lá meses e foi retirado à cerca de uma semana), na altura em que a pandemia se encontrava no seu ponto alto e a expandir-se, onde se podia ler “Libertem a Infância” e “Abram os parques infantis”.

Declarações e casos como este mostram o valor que essa agente dá à saúde colocando a população em perigo em nome de uma “liberdade” egoisticamente individual desdenhando da saúde pública e do cumprimento dos requisitos científicos e legislativos aplicáveis e pertinentemente adequados em caso de emergência pública.

Cartaz Iniciativa Liberal.png

Se a IL estivesse no poder saberíamos com que contar, teríamos a mesma política sanitária que Bolsonaro tem praticado no Brasil.

Na ótica das alianças partidos da direita que se juntem, ou façam aliança com o CHEGA de Ventura e quejandos, mostram a sofreguidão do poder e enquadram-se perfeitamente naquele provérbio popular que diz “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem tu és”.

O PSD e o CDS enquanto não decidirem deixar de fazer oposição com casos e casinhos, sem rumo e sem um projeto coerente e que sejam uma alternativa credível ao governo do PS, não abandonarem soluções que passem por alianças com a extrema-direita não se livram da fama sem obterem disso qualquer proveito.

Acordos e compromissos com a extrema-direita além de serem vulneráveis à crítica têm de mostrar que é vantajoso para ambos para não ser entendido como capitulação pela direita e centro-direita, refiro-me, claro está, à tendência que Rui Rio tem mostrado em relação ao partido CHEGA seja diretamente, seja por aproximação a candidatos que se encontram entre um e outro, coisa bastante estranha. Veja-se o caso da candidata à Câmara da Amadora Suzana Garcia pelo PSD que  aceitou o convite depois de ter andado hesitante entre os convites do CHEGA e de Rui Rio.

As direitas andam destrambelhadas, cindem-se, criam novos partidos e movimentos, militantes de partidos do centro desligam-se e criam partidos de extrema-direita, veja-se o caso de André Ventura, obra de Passos Coelho por ocasião das eleições autárquicas de 2017 em que o CDS-PP deixa cair André Ventura e o PSD lhe mantém o apoio.

As afirmações feitas por André Ventura sobre a comunidade cigana levantaram à data muita polémica que levou o dirigente do CDS, Francisco Mendes da Silva, a não ficar calado disparando na altura uma feroz crítica nas redes sociais: “Não há praticamente nada que André Ventura diga que eu não considere profundamente errado, ligeiro, fruto da ignorância e de um populismo que tanto pode ser gratuito, telegénico ou eleitoralista. Já o vi falar de tudo e mais alguma coisa, em muitos casos de assuntos que conheço técnica e/ou factualmente. Nunca desilude na impreparação e no gosto em ser o porta-estandarte das mais variadas e assustadoras turbas. Se perder, tudo bem: que nem mais um dia o meu partido fique associado a tão lamentável personagem.”, enquanto o PSD de Passos Coelho fazia orelhas moucas. Ventura foi um derrame da fervura do caldo de cultura neoliberal e de direita mais radical criada no PSD de Passos Coelho.

Em maio decorreu uma reunião/convenção de “amigos”, o Movimento Europa e Liberdade (MEL), o mesmo que é dizer convenção das direitas, que conseguiu juntar, pela primeira vez, os quatro líderes partidários do espaço não socialista, PSD, CDS, IL e CHEGA onde tentaram mostrar que há pontes de diálogo entre os vários partidos. Defendendo Rui Rio que "o PSD não é um partido de direita", reiterando o posicionamento "ao centro" que tem defendido e acrescentando que se a convenção do MEL fosse "um congresso das direitas" provavelmente "era barrado à entrada".

Nesse encontro o líder do Chega, André Ventura, foi aplaudido à entrada na sala e sentou-se junto a Passos Coelho, que o aplaudiu no final. O significado deste ato poderá ter vários sentidos. No seu discurso quando subiu ao palco disse que “Rui Rio não tem conseguido fazer o seu papel de oposição à direita e que não há possibilidade nenhuma de governo à direita sem o CHEGA”. Não se percebe que haja pontes com partidos de extrema-direita xenófoba e racista como o CHEGA.

Não é um congresso das direitas democráticas, mas elas lá estavam. Se revirmos os programas escritos, mas não publicitados de alguns dos partidos da MEL como o IL e o CHEGA podemos confirmar a sua posição no leque ideológico. O Iniciativa Liberal defende a liberalização total da economia propondo, por exemplo, no caso da educação e da saúde dois sistemas paralelos: um para os pobres, sem condições, e outro para quem possa pagar a expensas próprias as despesas de saúde ou pagar os prémios de seguro exorbitantes pedidos pelas companhias de seguros que se agravam à medida do envelhecimento dos segurados.

O programa do IL é demagógico, ambíguo e inexequível. Quando fosse aplicado, se o fosse, os que nele votaram já estariam todos mortos. Seriam votos em vão, tal a impossibilidade a curto prazo no nosso país. O programa da IL é apenas um programa de manobra de distração e para apresentar quando do pedido de legalização do partido.

Para o mundo do trabalho na visão da IL há dois patamares de indivíduos: aqueles a que chamam empreendedores e os outros, os que ficariam submetidos às regras da oferta e procura como qualquer mercadoria. Para a IL Portugal seria um país dividido entre os ricos e os pobres. Os primeiros, os que criavam riqueza os segundo os que lhe proporcionariam a riqueza entre os quais muitos ficariam para trás.

Para a IL acabar-se-ia com o imposto progressivo e o que cada um pagaria seria os mesmos em termos percentuais fossem ricos ou pobres.

No capítulo do emprego do dito programa a contradição e a ambiguidade são patentes, basta ler o ponto introdutório:

“No mercado de trabalho, insiste-se num combate à “precariedade” muitas vezes em detrimento da criação de emprego, e consequente aumento da liberdade de escolha de ocupação. Quantos de nós, presos a um sistema criado para toda a vida – quer do lado do emprego, quer do lado das obrigações – não temos capacidade para ser livres e arriscar fazer mais, construir algo diferente. O que nos retira a mobilidade social, e a esperança de construir um futuro melhor.”.

“Estamos, num certo sentido, agrilhoados para a vida a um emprego e a pagar as contas com que o Estado está a contar.”

Pergunta-se desde quando é que alguém, no sistema liberal atual, fica agrilhoado a um emprego para toda a vida? Podemos concluir que o verdadeiro significado é a liberalização total dos contratos de trabalhos com articulações que possibilitem aos “empreendedores” quaisquer despedimentos incondicionais, ou seja a liberalização total do mercado de trabalho.

Mas há mais no local das promessas a que dão o título de “queremos” sem se perceber como serão concretizadas:

            Queremos:

“Aumentar a liberdade contratual, mantendo standards de salários… Defender um seguro mínimo universal de desemprego em substituição do atual sistema de SS – Segurança Social; baixar os encargos sociais para emprego de longa duração, tornando-o competitivo.”. Seguro mínimo universal a ser pago por quem? Pelo trabalhador, claro está!

Não se percebe o que se entende por “standards” de salários nem outros pontos do programa da IL. Seria exaustivo estar aqui a enumerar e a comentar o dito programa. Para saber mais basta consultá-lo com espírito crítico para se perceberem as armadilhas da aplicação.

As direitas acusam o PS de estar a querer dominar e a apoderar-se das estruturas do Estado, mas qual é o objetivo dos partidos, senão a conquista do poder e o controle das estruturas estatais e o controle absoluto utilizando todos os meios que a democracia lhes possibilita. É o jogo do, sais tu para ir para lá eu. Quando a teta da vaca é só uma todos querem a sua mamada.

Nota Final: A imagem reproduzida no início, podendo ter uma conotação anti partidos e antidemocrática, não foi esse o sentido que o autor lhe pretendeu dar.

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publicado às 18:04

In Editorial do Jornal Público 03/06/2021

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Quando o Ministério dos Negócios Estrangeiros aponta para uma medida “cuja lógica não se alcança”, não parece considerar a “lógica” das multidões desregradas que, no Porto, fizeram tábua rasa da situação de calamidade

Não serão essas imagens de baderna e irresponsabilidade as principais causas da decisão, certo. O Reino Unido prepara-se para o desconfinamento geral no dia 21, vive numa situação de incerteza no controlo da pandemia e não quer correr riscos. Em segundo lugar, depois de se pôr fora da União Europeia, o país deixou de se sentir com especiais deveres de solidariedade com os seus Estados-membros. Finalmente, sendo emissor de turistas e não receptor, o Reino Unido fica com uma tarefa fácil para restringir a lista “verde” dos destinos para onde os seus nacionais podem viajar.

Sobra, no entanto, a questão da “lógica”, o tal cerne da questão que o MNE não consegue alcançar. Aí há uma mistura de factos com invenções, que tanto podem servir para justificar a transferência de Portugal da lista verde para a âmbar como para a tornar hipócrita e delirante. Ninguém sabe onde Londres foi buscar a variante nepalesa que supostamente grassa em Portugal, e aí entramos no domínio da hipocrisia. Mas o mesmo não acontece com os outros argumentos: Portugal está hoje numa situação pior do que há três semanas – como refere o comunicado britânico, a taxa de positividade de Portugal “quase duplicou desde a última revisão”. E a imagem de controlo e segurança do país também se degradou por culpa própria.

É aqui que vale a pena questionar a declaração do MNE sobre as supostas “regras claras para a segurança dos que aqui residem ou nos visitam”. Um país que se abre a finais de futebol e acolhe sem controlar uma horda de adeptos nem exibe “regras claras” nem inspira confiança. Se o aumento de casos é um preço a pagar para salvar a economia, a decisão de acolher a final do futebol, enquanto a França ou a Alemanha impunham quarentenas aos britânicos, não só não ajudou essa estratégia como a pode comprometer. Essa exibição de negligência e descontrolo há-de ter pesado na decisão de Londres. 

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publicado às 17:33

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A subserviência perante o que é estrangeiro, sobretudo a Inglaterra, parece ser o nosso fado desde séculos. Alianças, tratados, acordos e outros que tais raramente no favoreceram dando-nos em troca migalhas quais pedintes europeus.

Quando há algo que nos desagrada que provenha da Inglaterra lá estamos nós a curtir as mágoas que nos causam as decisões vindas da grande ilha europeia. Ainda em janeiro deste ano, no auge da segunda vaga da pandemia, o Reino Unido   proibiu a entrada de pessoas e bens não essenciais oriundos de um conjunto de países do hemisfério Sul devido à nova estirpe de coronovírus detetada no Brasil. Portugal surge incluído neste grupo devido à "forte ligação" com o Brasil, o que levou o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, a considerar "absurda" e "sem lógica" a decisão do Reino Unido suspender os voos com Portugal, medida "súbita e inesperada" cujos fundamentos disse desconhecer.

Nesta declaração está claro a questão do turismo que ansiosamente o nosso Governo espera como pão para a boca. A nossa dependência do turismo inglês é crónica. Anos e anos a nossa economia vive na dependência do turismo. Anos e anos em que os governos, de direita e de centro-esquerda que se alternaram no poder não reformaram a economia para diversificar a nossa dependência externa, nomeadamente de Inglaterra e no século XXI chamada Reino Unido.

Há séculos, pelo menos desde o início do século XVIII que os tratados com a Inglaterra nos são desfavoráveis mesmo em circunstância favoráveis Portugal e a Inglaterra eram aliados na guerra da Sucessão de Espanha; mesmo quando o comércio entre ambos atingira um nível mais elevado a Inglaterra olhava para Portugal como um útil comprador para os seus têxteis. Portugal fica a olhar porque a sua política industrial na época foi um fracasso, “pisca o olho” à nossa aliada e vê nos mercados ingleses de vinho a forma de desenvolveras exportações e surge o tratado de Methuen. E, pasme-se, como este tratado veio com vantagens para a nossa aliada mais antiga. O conjunto de medidas acordadas entre ingleses e portugueses limitava gravemente a economia já que vista que não podiam diversificar a sua agricultura e estabelecer acordos comerciais com outras nações, ao passo que o consumo em grande escala do tecido inglês tornava Portugal uma das nações mais endividadas da época. Para minorar as dívidas acumuladas e a falta de dinamismo económico, Portugal aumentou a cobrança sobre o ouro extraído no Brasil. Posteriormente constatou-se que os ingleses compravam menos vinhos do que os portugueses adquiriam os tecidos britânicos. Além disso, Portugal devia dinheiro aos ingleses e tornou-se cada vez mais dependente da Inglaterra.

Pode perguntar-se o que tem isto a ver com o turismo? A nossa dependência do Reino Unido com efeitos no turismo sem contrapartidas. as receitas de turismo do Reino Unido em Portugal até outubro de 2019, antes da pandemia, de acordo com dados do Banco de Portugal, subiram 7,8% para 2.931 milhões de euros. O turismo é razão da nossa subserviência face aos Reino Unido e também da nossa sobrevivência.

No editorial do jornal Público de 30 de maio Manuel Carvalho escrevia com mostras de indignação e sobre a falta de respeito mostrado para com os portugueses pelos órgão de poder intervenientes: “Os britânicos voltaram a gozar de privilégios no Porto que se julgavam extintos há séculos. Como outrora, tiveram por estes dias direito a leis exclusivas e a estatutos de excepção. Puderam fazer o que os indígenas não podem, como reunir-se aos magotes com cerveja na mão, assistir a um jogo de futebol ao vivo, deambular em hordas pela rua e, aqui e a ali, dar largas ao mau feitio estimulado pelo álcool. Tinham prometido que nada disto aconteceria, que eles viriam e iriam numa bolha de segurança, que teriam os movimentos condicionados por “fanzones”, que haveria a garantia de que todos tinham feito testes e seriam acompanhados. Era mentira.”.

E mais adiante acrescenta: “Os jovens que jogaram a final do campeonato de râguebi acreditaram que a recusa da DGS da presença de 500 espectadores se baseava na aplicação de um critério universal, como manda o Estado de direito. Os jovens que noite sim, noite não são convidados pela polícia a desamparar os miradouros, também. Os donos dos restaurantes que correm com os clientes que se atrasam na sobremesa à hora do fecho, também. Os adeptos do futebol que sonharam com uma última jornada com duas ou três mil pessoas nos estádios, também. Quem se sujeita ao cumprimento da lei não pode aceitar que o Estado o trate como um pária no seu próprio país.”

E termina: “Mas há um equilíbrio obrigatório entre os eventuais ganhos de imagem lá fora e o insulto à dignidade dos portugueses cá dentro. Um país decente não ajusta nem suspende as regras em vigor. Nem para os adeptos do Sporting, como aconteceu no final do campeonato nacional, nem para estrangeiros.”

Parece termos voltado aos idos anos 80 quando íamos para o Algarve fugindo do calor abrasador de agosto em Lisboa para nos refrescarmos nas águas tépidas da costa algarvia.  Lá tínhamos que pagar a carestia dos cafés e dos restaurantes, baratíssimos para os ingleses veraneantes que tomavam conta do Algarve e que pensavam ser deles, e nós, na nossa terra éramos, uns pobretanas mal recebidos naqueles espaços. Nada tenho contra os ingleses nem tão pouco sentimentos xenófobos, mas a discriminação é irritante.

João Miguel Tavares num artigo de opinião caracterizou melhor do que eu o sentimento da altura “Tristemente, ocupávamos mesas sem conseguir consumir com um entusiasmo comparável ao dos britânicos – e sem deixar comparáveis gratificações. Havia histórias míticas sobre jantares bem regados que acabavam com gorjetas que valiam um mês de salário. Nenhum português pós-FMI podia competir com isso. Triste consequência: éramos maltratados pelos nossos próprios compatriotas, que nos atendiam em último, nos serviam em último, e nos traziam a conta em primeiro.”.

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publicado às 12:30

Dois pontos do artigo de Teresa de Sousa

por Manuel_AR, em 31.05.21

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In jornal Público 29 de maio de 2021

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“A vida humana não tem prazo de validade, mas o mais indigno foram os estereótipos com que a questão foi sendo tratada, incluindo na comunicação social. Os “velhos” – quer dizer, os que têm mais de 65 ou 70 anos – foram e são olhados como equivalentes a “inúteis”. Reformados, fechados nas suas casas, tendo como única ocupação olhar para os televisores e matar o tempo que lhes sobra. Nada disto é verdadeiro. A maioria das pessoas com 65 ou mais anos tem hoje uma vida activa, que inclui, muitas vezes, um trabalho exactamente igual aos outros nos mais variados sectores. A sua vida é tão activa como a de uma pessoa de 30 ou 40 anos. Vão ao supermercado, arrumam a casa, ajudam as famílias, vão ao cinema e ao teatro, lêem livros, frequentam os restaurantes. E trabalham. Mas, nessa altura, era “prioritário” vacinar um rapaz saudável de 30 anos, professor ou bombeiro, cheio de saúde.

Como interpretar isto? Ainda tenho dificuldade em perceber, a não ser recorrendo à ironia: resolver o problema da sustentabilidade do regime de pensões.”

 

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“Só uma nota final ao cuidado dos responsáveis. Já toda a gente reparou que, nas ruas de Lisboa, há hoje dois tipos de pessoas: os portugueses, todos de máscara, e os estrangeiros quase todos sem máscara. Nem no rosto nem na mão. Talvez no bolso, não sei. Cruzo-me com imensos. Nunca vi um agente da PSP chamar a atenção para o facto. Percebo que os turistas nos fazem falta. Mas talvez fosse conveniente – no aeroporto, nos hotéis, nos restaurantes ou a própria PSP – informá-los delicadamente de que a máscara na rua continua a ser obrigatória. Quando os cientistas nos explicam todos os dias o significado das variantes e como o vírus se vai adaptando aos graus de imunidade que encontra pela frente, talvez não fosse má ideia.”

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publicado às 19:24

O trio de Odemira e do sudoeste alentejano

por Manuel_AR, em 08.05.21

 

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Não, não lhes vou falar do Trio Odemirada que surgiu em 1955, primeiro a dois que depois passou a trio com a entrada de um terceiro elemento que, em 2019, celebrou os 60 anos de carreira. Vou falar de um trio, este não musical, que se instalou em Odemira em que os seus elementos são protagonistas e coniventes pelo que se passa no sudoeste alentejano.

No concelho de Odemira os referidos protagonistas dos acontecimentos chegaram à ribalta, não fosse a covid-19. Mas deixemo-nos de graças porque a coisa é agreste lá para aquelas bandas.

É um trio da irresponsabilidade, da indiferença, do deixa andar, dos culpados, como queiram.

Os elementos do trio que protagonizam a desgraça são: em primeiro lugar os empresários agroindustriais que lançam para o ar o chavão “criamos riqueza”, seja lá o que eles entendam por isso, mas apenas quando lhes convém. São áreas extensíssimas de estufas que empregam mão de obra com facilidade de adaptação, por necessidade de sobrevivência, à exploração. São os trabalhadores usados para criar riqueza, resta saber para quem, (não, não sou contra a iniciativa privada, bem pelo contrário, mas há a ética, meus senhores, a ética!);

O segundo elemento do trio são os imigrantes que trabalham naqueles empreendimentos que vivem em condições de trabalho e de habitabilidade impensáveis e desumanas na segunda década do século XXI;

O terceiro elemento do trio é o Governo e os ministérios, instituições e organismos por ele tutelados que deveriam supervisionar, dentro das suas competências, e fiscalizar os dois anteriores elementos do trio.

Não fosse a gravidade da situação causada pela covid-19 os factos relacionados com imigração ilegal, tráfego humano, escravatura versão século XXI, condições de habitabilidade indignas para seres humanos e exploração salarial que vieram para a opinião pública continuariam bem guardados no segredo das gavetas. Só agora alguma comunicação social acordou para o pesadelo comentando, relatando e produzindo peças ditas de investigação para telespectador ver e, por vezes, até confundir. Segura o tema porque também é um “postigo” de comunicação por onde possa atacar o governo socialista. Afirmar que, daqui para a frente, a imagem do Zmar ficará degradada com o anátema de um covidário, é demagógico e, no mínimo, ridículo.

Miguel Sousa Tavares, já tinha denunciado esta situação num artigo de opinião publicado no semanário Expresso em fevereiro de 2021 onde escreveu: “… E, além disso, tudo contribui para as exportações, não interessando saber também se, nos olivais do Alqueva ou nas estufas do Mira, todos os trabalhadores são estrangeiros e a maior parte das empresas também, tirando partido de infraestruturas pagas pelos contribuintes portugueses, de água subsidiada pelos contribuintes portugueses e de subsídios ao investimento com dinheiro europeu do qual parte é nossa.

Mas seria de facto curioso fazer as contas e perceber quanto do saldo final dessas exportações representam lucros que ficam cá, impostos e contribuições sociais que se pagam aqui. Para que desta agricultura industrial não fique apenas o rasto de uma situação social que nos envergonha e um desastre ambiental e paisagístico como aquele que cada vez mais vai crescendo no Alentejo.”.

E, acrescenta que: “Qualquer ministro da Agricultura responsável estaria em pânico com o que se está a passar no Alentejo com as culturas superintensivas de olival e amendoal à conta da água do Alqueva e com as estufas do Sudoeste à conta da exaurida barragem de Santa Clara…”

Para finalizar pergunto eu:

Alguém acredita que a freguesia do concelho de Odemira, em cerca sanitária nos próximos meses, será um destino turístico preferencial como é justificado pelos gerentes do resort Zmar(?) que se opuseram e opõe à requisição civil para alojamento dos trabalhadores das empresas agrícola? Eu não!

Alguém acredita que haja uma depreciação económica do resort Zmar, projeto que está à beira da falência, afastará a possibilidade de um possível investidor tal como foi dramatizado pelos ditos proprietários do Zmar? Eu não!

Alguém acreditou que a requisição civil incidiria também na imaginada ocupação das casas de férias dos proprietários? Eu, não!

Alguém acredita que os donos de restaurantes, que vivem situações seguramente muito mais dramáticas do que os donos do projeto Zmar, na prática falido, também sofreram as consequências da prioridade à saúde pública para não falar de todos os que perderam o emprego nessa área? Eu, sim!

A explosão de posições públicas dadas pela comunicação social incidiu sobre o resort Zmar mas, sobretudo, pelo regime de semiescravidão em que trabalhadores imigrantes se encontram, que foi obsequiada ao longo de anos com o silêncio sobre a vergonha da exploração de seres humanos sem que lhes seja garantido o mínimo de direitos em troca do trabalho que contribui para a nossa economia.

Vergonha é a palavra tantas vezes proferida por André Ventura do Chega mesmo a despropósito, mas que agora viria a propósito aplicá-la faz vistinhas de circunstância eleitoral, ele e outros que se lhe juntam, como o IL e o CDS. Talvez para eles a exploração de imigrantes não seja uma vergonha para o país.

A responsabilidade não é do Estado, é de quem o gere e o geriu e que não apenas do atual governo. É, sobretudo, da direita que nos governaram nas últimas décadas.  A dignidades daquelas pessoas só foi vista como um problema quando pôs em perigo a nossa saúde. Bem pode agora a direita apontar o dedo ao Governo, que a tem em parte, mas também foram cúmplices no seu tempo de governação do que se passa agora. Porque isto é apenas a ponta do iceberg que a covid-19 tornou ainda mais visível.  

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publicado às 19:27

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Covid, vacinas, estão diariamente na comunicação social. Outras notícias para além das relacionadas com a covid parecem ser acessórias para os cidadãos que estão confinados, centrados nas suas preocupações que a pandemia trouxe às suas vidas e que ainda lhes vai trazer no futuro.

Movimentos pela verdade, negacionistas, ocupam as redes sociais em catadupa. Uma notícia que assomou nos últimos dias na comunicação social e nas redes foi a do juiz Rui Pedro Fonseca e Castro. Este juiz esteve também entre os organizadores do protesto negacionista do fim-de-semana do dia 20/03 e que foi suspenso do Conselho Superior da Magistratura (CSM) por “contestar o estado de emergência e de incentivar publicamente ao incumprimento das regras anticovid-19”e por ter “suspendido um julgamento de um caso urgente de violência doméstica porque o procurador e o funcionário judicial recusaram tirar as máscaras na sala de audiência”.

O CSM considerou que a conduta imputada ao juiz “é suficientemente indiciada, mostra-se prejudicial e incompatível com o prestígio e a dignidade da função judicial”, instaurando-lhe, por isso, um processo disciplinar.

Também em fevereiro de 2021 a anestesiologista Maria Margarida de Oliveira, cofundadora do movimento médicos pela verdade que que em entrevistas e nas redes sociais se manifestou contra o uso de máscaras e chegou a receitar estratégias para enganar os testes à covid-19 e dicas para manipular os resultados dos testes PCR, foram consideradas um risco para a saúde pública e, que por isso, foi suspensa por seis meses pela Ordem dos Médicos.

A negação do conhecimento e desenvolvimento científico em todas as áreas que possam ter implicações na sociedade tem como missão o embrutecimento lento, mas progressivo por meio da negação da ciência de modo a tornar-se uma mais-valia para os que pretendem a implementação de autoritarismos mais ou menos violentos, ou seja, políticas e práticas fascistas. O deficiente sistema educativo ou a sua falta em algumas áreas conduz à ignorância. É uma das estratégias dos fascistas que têm como objetivos negar realidades e a levar as pessoas a acreditarem em teorias estapafúrdias.

As narrativas negacionistas e os movimentos pela verdade (ou pela mentira, digo eu), é mais uma questão semântica, usam novas formas circulação da informação para influenciar a formação de crenças em alguns setores das populações. Apresentam-se contra o sistema e apoiam-se muitas vezes nos valores mais conservadores da sociedade e, segundo alguns especialistas, estão diretamente relacionadas ao crescimento da extrema-direita em vários países.

Esta tese também é defendida por Pacheco Pereira no jornal Público de hoje quando escreve sobre a “verdade” “nome absurdo mas revelador da pretensão destes movimentos de que são detentores de algum conhecimento especial que está a ser escondido pelo poder político e pelos cientistas, que estão a usar a pandemia como pretexto para terem mais poder e para limitar as liberdades. Estão a tentar criar uma “ditadura” em nome de interesses ocultos para o vulgo, mas bem conhecidos dos “verdadeiros”, seja a conspiração judeo-maçónica, o grupo de Bilderberg, os demónios vivos de George Soros e de Bill Gates, os que estão a encher os ares de sinais 5G, ou alienígenas maléficos. Como diz um cartaz empunhado por um senhor “verdadeiro”: “Os mafiosos da farsa covid grupo Bilderberg com a loucura da nova ordem mundial seguidos pelos lacaios políticos mundiais da maçonaria e do Opus Dei. Acordem.”

Estes grupelhos, que mais parecem seitas, negam a ciência e a história que não estejam de acordo com a sua vontade e a seu bel-prazer. Negam a eficácia das vacinas, negam as mudanças climáticas e outras evidências científicas como negam a gravidade da pandemia covid-19. O historiador francês Pierre Vidal chama aos negacionistas assassinos de memórias por aproximação aos que pretendem negar factos históricos ou ainda reescrever a história, como alguns grupos como a extrema-direita e os nazis  através de escritos destinados “a um público especializado: herdeiros ou sobreviventes dos nazis ou nacionalistas de extrema direita que, na década de 1930, eram aliados dos nazis. O "revisionismo" pode aí, de acordo com o público e de acordo com os autores, assumir a forma de uma negação radical: os nazistas não mataram nenhum judeu…”.

 Até aos dias de hoje as fake news, (notícias falsas) têm tido um papel relevante para a difusão de teorias negacionistas nomeadamente, através das redes sociais como o Facebook e o Twitter, com novas formas de circulação da informação que passaram a influenciar a formação de crenças nas pessoas. As redes sociais dão a ilusão da existência duma parcial democratização pelo acesso, por parte da população, à informação e pela produção de conteúdos por meio da internet e das redes sociais, como é o exemplo deste post que acabo de colocar na rede. Há, contudo, uma falta de regulamentação que faz com que uma pessoa possa defender qualquer ideia estapafúrdia e disseminar fake news, que ganha considerável repercussão por se apoiar exatamente na reprodução de valores conservadores, ou não.

O livro “Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming” 2010, “Mercadores da Dúvida” de Naomi Oreskes e Erik Conway, que podem ver aqui no site do livro, revela as táticas de poucos e reputados cientistas que, com apoio de empresários, lóbis e políticos, para semear dúvidas e desprezar ou evitar medidas regulamentares que teriam, segundo eles na qualidade de vida. Arquitetaram um “mercado da dúvida”, fundamentalista com o objetivo de evitar qualquer regulação governamental sobre assuntos de interesses políticos e económicos obscuros. O livro mostra e auxilia a entender as campanhas difamatórias contra a ciência e os cientistas.

Os autores mostram as estratégias promovidas por parte da indústria, dos media e de alguns cientistas para negar, mitigar ou dissolver o consenso científico em torno de resultados danosos à indústria devido à relação de causalidade entre o tabaco e o cancro do pulmão ou a contribuição das indústrias de combustíveis fósseis para as mudanças climáticas.

Os chamados mercadores da dúvida são cientistas que utilizam as suas credenciais científicas para desvanecerem as diferenças entre as controvérsias científicas e as disputas de opinião na comunicação social. O primeiro capítulo daquele trabalho mostra o caso da indústria do tabaco que foi a inventora e a mais hábil praticante da estratégia de promover a dúvida quanto aos resultados da ciência. Segundo os autores nos anos 1950 estudos científicos tornaram evidente a ligação entre o fumo e o cancro. Em 1953, a American Tobacco, Benson & Hedges, Philip Morris e U.S. Tobacco contrataram uma firma de relações públicas para defender seu produto e montaram uma comissão para fornecer argumentos que desafiassem a crescente evidência científica de que fumar prejudicava a saúde. 

Estes cientistas mal-intencionados ganharam espaço na comunicação social, disseminando dúvidas e inventando debates sobre temas cientificamente consolidados. Programas de financiamento de pesquisa de empresas com somas inimagináveis, até mesmo nos dias atuais, também foram usados para estimular pesquisas que corroborassem dúvidas, incertezas e o ceticismo, promovendo uma luta velada da ciência contra a ciência. Mais recentemente temos as condutas de Trump e de Bolsonaro que têm sido amplamente divulgadas sobre temas idênticos.

Não há provas, por enquanto, de que em Portugal os negacionistas sejam financiados como o são noutros países onde há a certeza de que altos financiamentos marcam o desenvolvimento dos negacionismos.  É o caso de David Koch que, segundo The Guardian, em agosto de 2019, «foi um dos principais financiadores dos negacionistas da mudança climática, apoiando cientistas para saquear ainda mais a Terra que estava a destruir. A revelação num livro de Christopher Leonard mostra que Koch desempenhou um grande papel no financiamento da negação da mudança climática. À medida que avançamos para uma catástrofe climática que parece cada vez mais provável de acontecer nos próximos 11 anos.»  

No que se refere à covid-19, seguindo o caminho comum a outros negacionismos, os negacionistas da pandemia passaram a desqualificar e a agredir os cientistas e o discurso científico, sem terem argumentos válidos e de facto sobre as dúvidas que levantam, apresentado uma narrativa que se encaixa em valores compartilhados por determinados grupos, na sua maioria apadrinhados por algumas áreas da extrema-direita.

Num artigo de opinião no jornal Público de Maria João Marques escreveu que “As máscaras – que comprovadamente contrariam o contágio de vírus respiratórios, como se viu com a inexistência de gripe neste inverno que passou – não funcionam e são elementos de destruição populacional em massa”. Ora esta afirmação pode ser comprovada por dados publicados pela Gripnet / Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, como mostra o gráfico da época de vigilância da síndrome gripal de 2020/21 da semana 49 de 2020 à semana 20 de 2021.  Podemos verificar a coincidência do uso de máscara com a diminuição da síndrome gripal desta época, o que contraria a tese dos negacionistas e os de “qualquer coisa” pela verdade.

Gripe evolução.png

Negacionistas e outros “qualquer coisa” pela verdade, dizendo-se pela verdade, são os próprios inimigos da verdade.  Promovidos pelas extremas-direitas, autocráticos, fascistas e, em menor número, algumas extremas-esquerdas, tentam por todos os meios desacreditar a democracia. Usam todos os meios que ela lhes possibilita para a destruir desenvolvendo processos de desestabilização, instabilidade, seja porque meios forem, que lhes permita novamente captar o poder e tomar conta das decisões políticas para relegarem todos os direitos das Constituições democráticas conquistadas pelos povos.

O ressurgir de novos líderes populistas será uma primeira fase para o culminar das ditaduras. Os líderes populistas por serem antissistema, contra a corrupção, defensores da segurança que está em risco por todos os que são diferentes consideram-se heróis modernos e os interpretes da nação, e por isso, promovem nas populações, por meio das suas narrativas, necessidades de uma autoridade vertical que ponha cobro seja lá ao que for.

Ao acreditarem nas suas próprias mentiras e propaganda projetam em outros as suas próprias ações, isto é, a disseminação de mentiras, sendo os governos os mestres da mentira. Os negacionistas de criar inimigos e defini-los como corporizações vivas de inverdade que os ajuda a assumi-los como únicos detentores da verdade.

Enfim são os mestres do embuste.

 

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publicado às 19:28

Covid-vacina.png

Começa a haver um cansaço e falta de paciência para ouvir António Costa e alguns membros do Governo. Tenho a sensação de que andam às voltas perdendo-se em pormenores perdendo a capacidade de síntese, objetividade e assertividade face às decisões a tomar, o que me leva pela primeira vez a desconfiar de que o que dizem e fazem é sem convicção gerindo as intervenções numa atitude propagandística. A comunicação tardia ao arrasto de outros países sobre a suspensão da vacina da Astrazeneca foi paradigmático.  

Em 7 de fevereiro, a África do Sul suspendeu os planos para o lançamento de 1 milhão de doses da vacina AstraZeneca. Um pequeno ensaio não conseguiu demonstrar que protegia os sul-africanos contra uma nova variante que se tornou predominante no país. Enquanto isso, a AstraZeneca da Oxford disse que estava a trabalhar numa nova versão da vacina à medida para aquela variante.

A Dinamarca, Islândia e Noruega suspenderam o uso da vacina em 11 de março por causa de preocupações sobre um possível aumento do risco de coágulos sanguíneos. A Alemanha, França, Itália e vários outros países seguiram-se logo depois suspendendo a administração da vacina devido às preocupações sobre coágulos sanguíneos nas pessoas que tomaram a vacina, no meio do que o regulador médico da União Europeia insistiu que seus benefícios superavam o risco de efeitos colaterais. Contra corrente em 13 de março o Brasil aprovou totalmente a vacina.

Ouvir o nosso primeiro-ministro dizer que a dita vacina é segura mesmo para os maiores de 65 anos e que até ele já a tomou em nada me tranquiliza. Estou-me nas tintas para que ele tenha tomado aquela vacina ou outra qualquer, o que me interessa é que não se transforme a população numa espécie de cobaia em que meia dúzia de mortes são pequeno efeitos colaterais, caso as suspeitas de morte ou outras patologias se confirmem como resultado da dita vacina.  

Gostaria de perceber porque será que tantas vozes se elevam a defender a vacina Astrazeneca, tentando fazer comparações com as contraindicações de outros medicamentos desde há muitos testados e implantados no mercado. Buscam-se estatísticas de incidências que nada têm a ver com as duma vacina que nem meia dúzia de meses tem de administração. Note-se que a empresa AstraZeneca Portugal surgiu em abril de 1999, a partir da fusão da empresa sueca Astra AB com o Zeneca Group PLC do Reino Unido e está concentrada em três áreas terapêuticas: Cardiovascular, Renal e Metabólica, Doenças Respiratórias e Oncologia.

As vacinas normalmente exigem anos de pesquisa e testes antes de chegar à fase clínica, mas em 2020 os cientistas entraram numa corrida para produzir vacinas contra o coronavírus seguras e eficazes em tempo recorde. Em 8 de dezembro, pesquisadores da Universidade de Oxford e da empresa sueco-britânica AstraZeneca publicaram o primeiro artigo científico sobre um ensaio clínico de Fase 3 de uma vacina contra o coronavírus. O ensaio demonstrou que a vacina pode proteger as pessoas da Covid-19, mas deixou muitas questões sem solução sobre os resultados, inclusivamente na administração a maiores de 65 anos. Passadas semanas já não haveria problema e dizem ter havido evidências (!!?) de que não havia contraindicações.

Apareceram algumas vozes nas televisões a “esclarecer”, em abono da vacina da Astrazeneca, alegando que todos os medicamentos têm contraindicações e apontam que, no caso desta vacina, os casos são muito raros em função das administrações efetuadas. A OMS faz coro com essas vozes. A DGS diz que não há problema, mas para os que a tomaram estarem atentos e em casos anómalos para consular um médico. Outros ainda gritam por meias palavras que não importam meia dúzia de vidas que sejam vítimas em comparação com os benefícios que pode trazer, como se fosse esta a única vacina que apareceu no mundo. Há mais do que a da Astrazeneca! Porquê a insistência nesta da Astrazeneca/Oxford?

Neste contexto fica-se com perplexidade ao ler o editorial de Manuel Carvalho no Público quando se refere às “escassas mortes que ecoaram na imprensa” criticando a atitude dos vários países que resolveram parar com a vacina da Astrazeneca até esclarecimento cabal dos casos que vieram a público, presumivelmente causados por aquela vacina. E continua: “Mesmo sabendo que a suspensão das vacinas pode revelar um saudável desejo de proteger algumas pessoas, os governos puseram de lado essa questão magna da política democrática que tem que ver com o interesse geral. Numa linguagem gélida, que a vida tantas vezes exige, concentraram-se nas escassas mortes que ecoaram na imprensa e esqueceram centenas de vidas que a vacina poderia salvar nas próximas semanas.”, e acrescenta Manuel Carvalho “Ao parar por reflexo um processo crucial para o futuro próximo, a vacinação, com base em suspeitas não comprovadas nem reconhecidas pela ciência, a Europa mostrou a flacidez do costume sempre que é preciso coragem, confiança e determinação. A menos que a ciência conteste o que sabemos hoje, não agiu para o seu bem, nem a favor da vacinação”.  Mas o que deu a esta gente? Alguém me explica?

Não se percebe então a preocupação das autoridades de saúde e do Governo em relação ao número de caso e de mortes causados pela covid-19 tomando em conta os valores atingidos. Se não, vejamos: em Portugal, segundo fonte da Johns Hopkins University e até 14 de março, o número de casos por milhão de habitantes era de 53,6 o que corresponde a 0,00530 por 100 habitantes. O número de mortes foi de 1,47 por milhão de habitantes o que corresponde a 0,000147 por 100 habitantes. Ora estes valores verificados na população em relação à covid-19 ainda estão abaixo daqueles que alguns cientistas referem sobre a baixa probabilidade de contraindicações da vacina poderem acontecer. Porquê então preocupação em relação aos números da pandemia? (Ironia). Se por um lado é devido à difusão do contágio, por outro, se se morrer devido a contraindicações da vacina já não há problema, são efeitos colaterais. Deve ser este o ponto de vista dos responsáveis.  

O regulador de medicamentos da UE disse que permanece “firmemente convencido” de que os benefícios da vacina Oxford / AstraZeneca Covid superam os riscos, mas os casos isolados de coágulos sanguíneos “são uma preocupação séria e precisam de avaliação científica séria e detalhada”. Emer Cook sugeriu em 16 de março que era possível que os riscos fossem maiores para algumas categorias de pacientes. “O que estamos entendendo é que eles podem estar associados a algumas subpopulações”. Contudo alguns especialistas também disseram que casos raros de trombose cerebral ser altamente incomum em pessoas mais jovens podem indicar uma relação causal com a injeção.

A corrida pela procura de uma vacina contra a covid-19 transformou-se numa competição para ver quem chegava primeiro ao potencial mercado que se previa ser muito lucrativo. Encontramo-nos numa economia capitalista e o meio científico e empresarial no mundo das farmacêuticas têm todo o “gosto” em entrar nesta competição. A maioria dos cientistas e investidores nos países desenvolvidos não se importa com o que está a trabalhar desde que em tal haja a possibilidade de se fazerem novas descobertas para aumentar os lucros através de um mercado promissor e lucrativo.

A estes acrescenta-se também a da competição política pelo desenvolvimento e distribuição da vacina.  A vacina da Astrazeneca foi desenvolvida em laboratório pela Oxford University do Reino Unido. A rapidez com que aquela vacina foi produzida e testada e aplicada no U.K. levam-me a encarar outro ponto de vista: será que não estará Boris Johnson a pretender provar à U.E. que passa bem sem ela após o Brexit e daí a corrida para cortar a meta da produção e vacinação da maior parte da sua população, ao mesmo tempo que pode colocá-la no mercado numa espécie de louca corrida para provar que o barco dele navega muito melhor do que os dos seus competidores mais diretos?

 

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publicado às 16:01

Vários países suspenderam a vacina da Astrazeneca, mas a União Europeia que tem vindo a meter água neste aspeto diz que não há problema e que  "os benefícios da utilização da vacina contra a COVID-19 da AstraZeneca mantêm-se superiores"  ao risco  (mais morte, menos morte, para eles é o menos, digo eu). Portugal, como sempre, o maior exemplo, está também a borrifar-se para todos e continua também em frente. É como de costume, fazem porcaria e depois vêm as desculpas esfarrapadas, as justificações incongruentes... 

O artigo de ontem, 11 de março 2021, no jornal Público que transcrevo abaixo, mas que também podem ler diretamente aqui é elucidativo. 

Vários países suspenderam vacina da AstraZeneca para investigar casos de coágulos sanguíneos

Agência Europeia do Medicamento, alertada por casos na Áustria, que incluem um óbito, diz não ter detectado nada de errado no lote de vacinas enviado para 17 países, no qual não se inclui Portugal, e que se mantém o benefício da toma da vacina.

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A formação de coágulos sanguíneos não está listada entre os efeitos adversos desta vacina LUSA/LUONG THAI LINH

Dinamarca, Noruega, Estónia, Lituânia, Letónia e Luxemburgo suspenderam temporariamente a administração da vacina contra a covid-19 da AstraZeneca, depois de terem surgido casos de formação de coágulos sanguíneos em pessoas vacinadas na Dinamarca, para estudar o que se passou. A Dinamarca recebeu o mesmo lote de vacinas que a Áustria, onde também foram registados dois casos de formação de coágulos sanguíneos, um dos quais resultou em morte.

No entanto, a Agência Europeia do Medicamento (EMA) analisou o lote em causa, que foi enviado para 17 países (Portugal não) e disse, em comunicado, “não existir actualmente qualquer indicação que a vacinação tenha causado estas condições, que não estão listadas como efeitos secundários desta vacina”.

“Os resultados preliminares sugerem não existir uma relação causal entre a administração desta vacina e estes eventos. Neste sentido, os benefícios da utilização da vacina contra a COVID-19 da AstraZeneca mantêm-se superiores ao risco, não havendo qualquer alteração às recomendações sobre a sua utilização”, diz por sua vez o Infarmed - Autoridade Nacional do Medicamento numa curta nota no seu site, onde remete para uma actualização da nota da EMA, que sublinha os benefícios de tomar a vacina continuam a ultrapassar os eventuais riscos.

O lote ABV5300 contém um milhão de doses e foi enviado para a Áustria, Bulgária, Chipre, Dinamarca, Estónia, França, Grécia, Islândia, Irlanda, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Polónia, Espanha e Suécia, diz o comunicado da EMA. A Noruega anunciou a suspensão, segundo a Reuters, apesar de não ter recebido este lote.

“Embora um defeito que afecte a sua qualidade seja considerado improvável nesta fase, isso está a ser investigado” pelo Comité de Avaliação de Risco e Farmacovigilância da EMA. “Estão a ser investigados os casos relatados bem como outros eventos tromboembólicos, e outras condições relacionadas, que foram relatadas após a vacinação”, diz a EMA.

Segundo a agência reguladora europeia, o número de alertas por formação de coágulos sanguíneos em pessoas que tomaram a vacina da AstraZeneca não é mais elevado do que o verificado na população em geral, em condições normais: 22 casos entre as três milhões de pessoas que tomaram esta vacina até 9 de Março.

A Dinamarca não revelou quantos casos de formação de coágulos sanguíneos foram reportados, mas a Áustria deixou de usar este lote de doses da AstraZeneca enquanto está a investigar uma morte devido a problemas de coagulação e um caso de doença por embolismo pulmonar após a vacinação, relata a agência Reuters. A morte terá sido de uma enfermeira de 49 anos que sucumbiu a “sérios problemas de coagulação” poucos dias depois de ter recebido a vacina diz a agência Lusa.

Quatro outros países europeus, Estónia, Lituânia, Letónia e Luxemburgo, suspenderam também a vacinação com doses do mesmo lote, avança a EMA.

Na Dinamarca, a administração da vacina da AstraZeneca foi suspensa durante 14 dias. “É muito importante frisar que não desistimos de usar a vacina da AstraZeneca, fizemos uma pausa”, disse o director da Autoridade de Saúde dinamarquesa, Soren Brostrom, numa declaração citada pela Reuters.

A AstraZeneca garante que todos os lotes da sua vacina são submetidos a um rigoroso controlo de qualidade e “que não foram detectados efeitos adversos graves associados com a vacina”. Garantiu ainda que está em contacto com as autoridades austríacas e a colaborar com a investigação.

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publicado às 15:22

Televisões generalistas-Carta aberta.png

Porque já várias vezes me questionei sobre os pontos incluídos nesta carta aberta resolvi divulgá-la aqui, neste blogue ,apesar de, provavelmente, muitos já tomaram dela conhecimento.

Sabemos também que comentários dos críticos a esta carta aberta tentam descredibilizá-la porque os signatários, ou porque não pertencem ao mesmo ”clube” dos críticos, ou porque pretendem, como tantas vezes é habitual, defender com mentira ou desdenho da verdade dos factos que eles próprios verificam mas negam.

A carta aberta foi publicada como artigo de opinião no jornal Público em 23 de fevereiro de 2020.

 OPINIÃO

Carta aberta às televisões generalistas nacionais

Como cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.

23 de Fevereiro de 2021, 0:30

Sabemos que há uma pandemia – e que o SARS-CoV-2, em vez de se deixar ficar a dizimar pessoas no chamado Terceiro Mundo, resolveu ser mais igualitário e fazer pesadas baixas em países menos habituados a essas crises sanitárias.

Sabemos que não há poções mágicas – as vacinas não se fazem à velocidade desejada e as farmacêuticas são poderosas entidades mercantis.

Sabemos que, mesmo cumprindo os cuidados tantas vezes repetidos – distância física, máscara a tapar boca e nariz, lavagem insistente das mãos, confinamento máximo –, qualquer um de nós, ou um dos nossos familiares e amigos, pode ser vítima da doença e que isso causa medo a todos, incluindo a jornalistas, fazedores de opinião e responsáveis de órgãos de informação.

Sabemos também que os média estão em crise, que sofrem a ameaça das redes sociais, a competição por audiências, as redações desfalcadas, os ritmos de trabalho acelerados impostos aos que nelas restam, a precariedade laboral de muitos jornalistas.

Mas mesmo sabendo tudo isto, assinalamos a excessiva duração dos telejornais, contraproducente em termos informativos. Não aceitamos o tom agressivo, quase inquisitorial, usado em algumas entrevistas, condicionando o pensamento e a respostas dos entrevistados. Não aceitamos a obsessão opinativa, destinada a condicionar a receção da notícia, em detrimento de uma saudável preocupação pedagógica de informar. E não podemos admitir o estilo acusatório com que vários jornalistas se insurgem contra governantes, cientistas e até o infatigável pessoal de saúde por, alegadamente, não terem sabido prever o imprevisível – doenças desconhecidas, mutações virais – nem antever medidas definitivas, soluções que nos permitissem, a nós, felizes desconhecedores das agruras do método científico, sair à rua sem máscara e sem medo, perspetivar o futuro.

Sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo

Mesmo sabendo a importância da informação sobre a pandemia, não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS, as pseudonotícias (que só contribuem para lançar o pânico) sobre o “caos” nos hospitais, a “catástrofe”, a “rutura” sempre anunciada, com a hipotética “escolha entre quem vive e quem morre”, a sistemática invasão dos espaços hospitalares, incluindo enfermarias, a falta de respeito pela privacidade dos doentes, a ladainha dos números de infetados e mortos que acaba por os banalizar, o tempo de antena dado a falsos especialistas, as entrevistas feitas a pessoas que nada sabem do assunto, as imagens, repetidas até à náusea, de agulhas a serem espetadas em braços, ventiladores, filas de ambulâncias, médicos, enfermeiros e auxiliares em corredores e salas de hospitais. Para não falar das mesmas imagens repetidas constantemente ao longo dos telejornais do mesmo dia ou até de vários dias, ou da omnipresença de representantes das mesmas corporações profissionais, mais interessados em promoção pessoal do que em pedagogia da pandemia.

Enfim, sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo.

Consideramos inaceitável a agenda política dos diversos canais televisivos generalistas, sobretudo no Serviço Público de Televisão.

Como cidadãs e cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.

Subscritores

Abílio Hernandez, Professor universitário; Alberto Melo, Dirigente associativo; Alfredo Caldeira, Jurista; Alice Vieira, Escritora; Ana Benavente, Professora universitária; Ana Maria Pereirinha, Tradutora; António Rodrigues, Médico; António Teodoro, Professor universitário; Avelino Rodrigues, Jornalista; Bárbara Bulhosa, Editora; Diana Andringa, Jornalista; Eduardo Paz Ferreira, Professor universitário; Elísio Estanque, Professor universitário; Fernando Mora Ramos, Encenador; Graça Aníbal, Professora; Graça Castanheira, Realizadora; Helder Mateus da Costa, Encenador; Helena Cabeçadas, Antropóloga; Helena Pato, Professora; Isabel do Carmo, Médica; J.-M. Nobre-Correia, Professor universitário; Jorge Silva Melo, Encenador; José Rebelo, Professor universitário; José Reis, Professor universitário; José Vítor Malheiros, Consultor de Comunicação de Ciência; Luís Farinha, Investigador; Luís Januário, Médico; Manuel Carvalho da Silva, Sociólogo; Manuela Vieira da Silva, Médica; Maria do Rosário Gama, Professora; Maria Emília Brederode Santos, Pedagoga; Maria Manuel Viana, Escritora; Maria Teresa Horta, Escritora; Mário de Carvalho, Escritor; Paula Coutinho, Médica intensivista; Pedro Campiche, Artista multidisciplinar; Rita Rato, Directora do Museu do Aljube; Rui Bebiano, Professor universitário; Rui Pato, Médico; São José Lapa, Actriz; Tiago Rodrigues, Encenador; Vasco Lourenço, Capitão de Abril

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

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publicado às 19:14

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Recolhi um comentário a um texto de César Príncipe publicado em 07/02/2021 no blogue Estátua de Sal que a achei ser de atualidade, revolta e de cariz arrojado. É um grito que o seu autor soltou contra o que muito se vê e ouve por aí. Por isso aqui vai, tal e qual foi escrito, com os erros ortográficos, abreviaturas e outros que tais que também fazem parte da afoiteza e ao qual mudei apenas o tamanho da letra que podem ler aqui.

 

 

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publicado às 17:14


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