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Inimigos da verdade (1).png

Covid, vacinas, estão diariamente na comunicação social. Outras notícias para além das relacionadas com a covid parecem ser acessórias para os cidadãos que estão confinados, centrados nas suas preocupações que a pandemia trouxe às suas vidas e que ainda lhes vai trazer no futuro.

Movimentos pela verdade, negacionistas, ocupam as redes sociais em catadupa. Uma notícia que assomou nos últimos dias na comunicação social e nas redes foi a do juiz Rui Pedro Fonseca e Castro. Este juiz esteve também entre os organizadores do protesto negacionista do fim-de-semana do dia 20/03 e que foi suspenso do Conselho Superior da Magistratura (CSM) por “contestar o estado de emergência e de incentivar publicamente ao incumprimento das regras anticovid-19”e por ter “suspendido um julgamento de um caso urgente de violência doméstica porque o procurador e o funcionário judicial recusaram tirar as máscaras na sala de audiência”.

O CSM considerou que a conduta imputada ao juiz “é suficientemente indiciada, mostra-se prejudicial e incompatível com o prestígio e a dignidade da função judicial”, instaurando-lhe, por isso, um processo disciplinar.

Também em fevereiro de 2021 a anestesiologista Maria Margarida de Oliveira, cofundadora do movimento médicos pela verdade que que em entrevistas e nas redes sociais se manifestou contra o uso de máscaras e chegou a receitar estratégias para enganar os testes à covid-19 e dicas para manipular os resultados dos testes PCR, foram consideradas um risco para a saúde pública e, que por isso, foi suspensa por seis meses pela Ordem dos Médicos.

A negação do conhecimento e desenvolvimento científico em todas as áreas que possam ter implicações na sociedade tem como missão o embrutecimento lento, mas progressivo por meio da negação da ciência de modo a tornar-se uma mais-valia para os que pretendem a implementação de autoritarismos mais ou menos violentos, ou seja, políticas e práticas fascistas. O deficiente sistema educativo ou a sua falta em algumas áreas conduz à ignorância. É uma das estratégias dos fascistas que têm como objetivos negar realidades e a levar as pessoas a acreditarem em teorias estapafúrdias.

As narrativas negacionistas e os movimentos pela verdade (ou pela mentira, digo eu), é mais uma questão semântica, usam novas formas circulação da informação para influenciar a formação de crenças em alguns setores das populações. Apresentam-se contra o sistema e apoiam-se muitas vezes nos valores mais conservadores da sociedade e, segundo alguns especialistas, estão diretamente relacionadas ao crescimento da extrema-direita em vários países.

Esta tese também é defendida por Pacheco Pereira no jornal Público de hoje quando escreve sobre a “verdade” “nome absurdo mas revelador da pretensão destes movimentos de que são detentores de algum conhecimento especial que está a ser escondido pelo poder político e pelos cientistas, que estão a usar a pandemia como pretexto para terem mais poder e para limitar as liberdades. Estão a tentar criar uma “ditadura” em nome de interesses ocultos para o vulgo, mas bem conhecidos dos “verdadeiros”, seja a conspiração judeo-maçónica, o grupo de Bilderberg, os demónios vivos de George Soros e de Bill Gates, os que estão a encher os ares de sinais 5G, ou alienígenas maléficos. Como diz um cartaz empunhado por um senhor “verdadeiro”: “Os mafiosos da farsa covid grupo Bilderberg com a loucura da nova ordem mundial seguidos pelos lacaios políticos mundiais da maçonaria e do Opus Dei. Acordem.”

Estes grupelhos, que mais parecem seitas, negam a ciência e a história que não estejam de acordo com a sua vontade e a seu bel-prazer. Negam a eficácia das vacinas, negam as mudanças climáticas e outras evidências científicas como negam a gravidade da pandemia covid-19. O historiador francês Pierre Vidal chama aos negacionistas assassinos de memórias por aproximação aos que pretendem negar factos históricos ou ainda reescrever a história, como alguns grupos como a extrema-direita e os nazis  através de escritos destinados “a um público especializado: herdeiros ou sobreviventes dos nazis ou nacionalistas de extrema direita que, na década de 1930, eram aliados dos nazis. O "revisionismo" pode aí, de acordo com o público e de acordo com os autores, assumir a forma de uma negação radical: os nazistas não mataram nenhum judeu…”.

 Até aos dias de hoje as fake news, (notícias falsas) têm tido um papel relevante para a difusão de teorias negacionistas nomeadamente, através das redes sociais como o Facebook e o Twitter, com novas formas de circulação da informação que passaram a influenciar a formação de crenças nas pessoas. As redes sociais dão a ilusão da existência duma parcial democratização pelo acesso, por parte da população, à informação e pela produção de conteúdos por meio da internet e das redes sociais, como é o exemplo deste post que acabo de colocar na rede. Há, contudo, uma falta de regulamentação que faz com que uma pessoa possa defender qualquer ideia estapafúrdia e disseminar fake news, que ganha considerável repercussão por se apoiar exatamente na reprodução de valores conservadores, ou não.

O livro “Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming” 2010, “Mercadores da Dúvida” de Naomi Oreskes e Erik Conway, que podem ver aqui no site do livro, revela as táticas de poucos e reputados cientistas que, com apoio de empresários, lóbis e políticos, para semear dúvidas e desprezar ou evitar medidas regulamentares que teriam, segundo eles na qualidade de vida. Arquitetaram um “mercado da dúvida”, fundamentalista com o objetivo de evitar qualquer regulação governamental sobre assuntos de interesses políticos e económicos obscuros. O livro mostra e auxilia a entender as campanhas difamatórias contra a ciência e os cientistas.

Os autores mostram as estratégias promovidas por parte da indústria, dos media e de alguns cientistas para negar, mitigar ou dissolver o consenso científico em torno de resultados danosos à indústria devido à relação de causalidade entre o tabaco e o cancro do pulmão ou a contribuição das indústrias de combustíveis fósseis para as mudanças climáticas.

Os chamados mercadores da dúvida são cientistas que utilizam as suas credenciais científicas para desvanecerem as diferenças entre as controvérsias científicas e as disputas de opinião na comunicação social. O primeiro capítulo daquele trabalho mostra o caso da indústria do tabaco que foi a inventora e a mais hábil praticante da estratégia de promover a dúvida quanto aos resultados da ciência. Segundo os autores nos anos 1950 estudos científicos tornaram evidente a ligação entre o fumo e o cancro. Em 1953, a American Tobacco, Benson & Hedges, Philip Morris e U.S. Tobacco contrataram uma firma de relações públicas para defender seu produto e montaram uma comissão para fornecer argumentos que desafiassem a crescente evidência científica de que fumar prejudicava a saúde. 

Estes cientistas mal-intencionados ganharam espaço na comunicação social, disseminando dúvidas e inventando debates sobre temas cientificamente consolidados. Programas de financiamento de pesquisa de empresas com somas inimagináveis, até mesmo nos dias atuais, também foram usados para estimular pesquisas que corroborassem dúvidas, incertezas e o ceticismo, promovendo uma luta velada da ciência contra a ciência. Mais recentemente temos as condutas de Trump e de Bolsonaro que têm sido amplamente divulgadas sobre temas idênticos.

Não há provas, por enquanto, de que em Portugal os negacionistas sejam financiados como o são noutros países onde há a certeza de que altos financiamentos marcam o desenvolvimento dos negacionismos.  É o caso de David Koch que, segundo The Guardian, em agosto de 2019, «foi um dos principais financiadores dos negacionistas da mudança climática, apoiando cientistas para saquear ainda mais a Terra que estava a destruir. A revelação num livro de Christopher Leonard mostra que Koch desempenhou um grande papel no financiamento da negação da mudança climática. À medida que avançamos para uma catástrofe climática que parece cada vez mais provável de acontecer nos próximos 11 anos.»  

No que se refere à covid-19, seguindo o caminho comum a outros negacionismos, os negacionistas da pandemia passaram a desqualificar e a agredir os cientistas e o discurso científico, sem terem argumentos válidos e de facto sobre as dúvidas que levantam, apresentado uma narrativa que se encaixa em valores compartilhados por determinados grupos, na sua maioria apadrinhados por algumas áreas da extrema-direita.

Num artigo de opinião no jornal Público de Maria João Marques escreveu que “As máscaras – que comprovadamente contrariam o contágio de vírus respiratórios, como se viu com a inexistência de gripe neste inverno que passou – não funcionam e são elementos de destruição populacional em massa”. Ora esta afirmação pode ser comprovada por dados publicados pela Gripnet / Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, como mostra o gráfico da época de vigilância da síndrome gripal de 2020/21 da semana 49 de 2020 à semana 20 de 2021.  Podemos verificar a coincidência do uso de máscara com a diminuição da síndrome gripal desta época, o que contraria a tese dos negacionistas e os de “qualquer coisa” pela verdade.

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Negacionistas e outros “qualquer coisa” pela verdade, dizendo-se pela verdade, são os próprios inimigos da verdade.  Promovidos pelas extremas-direitas, autocráticos, fascistas e, em menor número, algumas extremas-esquerdas, tentam por todos os meios desacreditar a democracia. Usam todos os meios que ela lhes possibilita para a destruir desenvolvendo processos de desestabilização, instabilidade, seja porque meios forem, que lhes permita novamente captar o poder e tomar conta das decisões políticas para relegarem todos os direitos das Constituições democráticas conquistadas pelos povos.

O ressurgir de novos líderes populistas será uma primeira fase para o culminar das ditaduras. Os líderes populistas por serem antissistema, contra a corrupção, defensores da segurança que está em risco por todos os que são diferentes consideram-se heróis modernos e os interpretes da nação, e por isso, promovem nas populações, por meio das suas narrativas, necessidades de uma autoridade vertical que ponha cobro seja lá ao que for.

Ao acreditarem nas suas próprias mentiras e propaganda projetam em outros as suas próprias ações, isto é, a disseminação de mentiras, sendo os governos os mestres da mentira. Os negacionistas de criar inimigos e defini-los como corporizações vivas de inverdade que os ajuda a assumi-los como únicos detentores da verdade.

Enfim são os mestres do embuste.

 

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publicado às 19:28

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Começa a haver um cansaço e falta de paciência para ouvir António Costa e alguns membros do Governo. Tenho a sensação de que andam às voltas perdendo-se em pormenores perdendo a capacidade de síntese, objetividade e assertividade face às decisões a tomar, o que me leva pela primeira vez a desconfiar de que o que dizem e fazem é sem convicção gerindo as intervenções numa atitude propagandística. A comunicação tardia ao arrasto de outros países sobre a suspensão da vacina da Astrazeneca foi paradigmático.  

Em 7 de fevereiro, a África do Sul suspendeu os planos para o lançamento de 1 milhão de doses da vacina AstraZeneca. Um pequeno ensaio não conseguiu demonstrar que protegia os sul-africanos contra uma nova variante que se tornou predominante no país. Enquanto isso, a AstraZeneca da Oxford disse que estava a trabalhar numa nova versão da vacina à medida para aquela variante.

A Dinamarca, Islândia e Noruega suspenderam o uso da vacina em 11 de março por causa de preocupações sobre um possível aumento do risco de coágulos sanguíneos. A Alemanha, França, Itália e vários outros países seguiram-se logo depois suspendendo a administração da vacina devido às preocupações sobre coágulos sanguíneos nas pessoas que tomaram a vacina, no meio do que o regulador médico da União Europeia insistiu que seus benefícios superavam o risco de efeitos colaterais. Contra corrente em 13 de março o Brasil aprovou totalmente a vacina.

Ouvir o nosso primeiro-ministro dizer que a dita vacina é segura mesmo para os maiores de 65 anos e que até ele já a tomou em nada me tranquiliza. Estou-me nas tintas para que ele tenha tomado aquela vacina ou outra qualquer, o que me interessa é que não se transforme a população numa espécie de cobaia em que meia dúzia de mortes são pequeno efeitos colaterais, caso as suspeitas de morte ou outras patologias se confirmem como resultado da dita vacina.  

Gostaria de perceber porque será que tantas vozes se elevam a defender a vacina Astrazeneca, tentando fazer comparações com as contraindicações de outros medicamentos desde há muitos testados e implantados no mercado. Buscam-se estatísticas de incidências que nada têm a ver com as duma vacina que nem meia dúzia de meses tem de administração. Note-se que a empresa AstraZeneca Portugal surgiu em abril de 1999, a partir da fusão da empresa sueca Astra AB com o Zeneca Group PLC do Reino Unido e está concentrada em três áreas terapêuticas: Cardiovascular, Renal e Metabólica, Doenças Respiratórias e Oncologia.

As vacinas normalmente exigem anos de pesquisa e testes antes de chegar à fase clínica, mas em 2020 os cientistas entraram numa corrida para produzir vacinas contra o coronavírus seguras e eficazes em tempo recorde. Em 8 de dezembro, pesquisadores da Universidade de Oxford e da empresa sueco-britânica AstraZeneca publicaram o primeiro artigo científico sobre um ensaio clínico de Fase 3 de uma vacina contra o coronavírus. O ensaio demonstrou que a vacina pode proteger as pessoas da Covid-19, mas deixou muitas questões sem solução sobre os resultados, inclusivamente na administração a maiores de 65 anos. Passadas semanas já não haveria problema e dizem ter havido evidências (!!?) de que não havia contraindicações.

Apareceram algumas vozes nas televisões a “esclarecer”, em abono da vacina da Astrazeneca, alegando que todos os medicamentos têm contraindicações e apontam que, no caso desta vacina, os casos são muito raros em função das administrações efetuadas. A OMS faz coro com essas vozes. A DGS diz que não há problema, mas para os que a tomaram estarem atentos e em casos anómalos para consular um médico. Outros ainda gritam por meias palavras que não importam meia dúzia de vidas que sejam vítimas em comparação com os benefícios que pode trazer, como se fosse esta a única vacina que apareceu no mundo. Há mais do que a da Astrazeneca! Porquê a insistência nesta da Astrazeneca/Oxford?

Neste contexto fica-se com perplexidade ao ler o editorial de Manuel Carvalho no Público quando se refere às “escassas mortes que ecoaram na imprensa” criticando a atitude dos vários países que resolveram parar com a vacina da Astrazeneca até esclarecimento cabal dos casos que vieram a público, presumivelmente causados por aquela vacina. E continua: “Mesmo sabendo que a suspensão das vacinas pode revelar um saudável desejo de proteger algumas pessoas, os governos puseram de lado essa questão magna da política democrática que tem que ver com o interesse geral. Numa linguagem gélida, que a vida tantas vezes exige, concentraram-se nas escassas mortes que ecoaram na imprensa e esqueceram centenas de vidas que a vacina poderia salvar nas próximas semanas.”, e acrescenta Manuel Carvalho “Ao parar por reflexo um processo crucial para o futuro próximo, a vacinação, com base em suspeitas não comprovadas nem reconhecidas pela ciência, a Europa mostrou a flacidez do costume sempre que é preciso coragem, confiança e determinação. A menos que a ciência conteste o que sabemos hoje, não agiu para o seu bem, nem a favor da vacinação”.  Mas o que deu a esta gente? Alguém me explica?

Não se percebe então a preocupação das autoridades de saúde e do Governo em relação ao número de caso e de mortes causados pela covid-19 tomando em conta os valores atingidos. Se não, vejamos: em Portugal, segundo fonte da Johns Hopkins University e até 14 de março, o número de casos por milhão de habitantes era de 53,6 o que corresponde a 0,00530 por 100 habitantes. O número de mortes foi de 1,47 por milhão de habitantes o que corresponde a 0,000147 por 100 habitantes. Ora estes valores verificados na população em relação à covid-19 ainda estão abaixo daqueles que alguns cientistas referem sobre a baixa probabilidade de contraindicações da vacina poderem acontecer. Porquê então preocupação em relação aos números da pandemia? (Ironia). Se por um lado é devido à difusão do contágio, por outro, se se morrer devido a contraindicações da vacina já não há problema, são efeitos colaterais. Deve ser este o ponto de vista dos responsáveis.  

O regulador de medicamentos da UE disse que permanece “firmemente convencido” de que os benefícios da vacina Oxford / AstraZeneca Covid superam os riscos, mas os casos isolados de coágulos sanguíneos “são uma preocupação séria e precisam de avaliação científica séria e detalhada”. Emer Cook sugeriu em 16 de março que era possível que os riscos fossem maiores para algumas categorias de pacientes. “O que estamos entendendo é que eles podem estar associados a algumas subpopulações”. Contudo alguns especialistas também disseram que casos raros de trombose cerebral ser altamente incomum em pessoas mais jovens podem indicar uma relação causal com a injeção.

A corrida pela procura de uma vacina contra a covid-19 transformou-se numa competição para ver quem chegava primeiro ao potencial mercado que se previa ser muito lucrativo. Encontramo-nos numa economia capitalista e o meio científico e empresarial no mundo das farmacêuticas têm todo o “gosto” em entrar nesta competição. A maioria dos cientistas e investidores nos países desenvolvidos não se importa com o que está a trabalhar desde que em tal haja a possibilidade de se fazerem novas descobertas para aumentar os lucros através de um mercado promissor e lucrativo.

A estes acrescenta-se também a da competição política pelo desenvolvimento e distribuição da vacina.  A vacina da Astrazeneca foi desenvolvida em laboratório pela Oxford University do Reino Unido. A rapidez com que aquela vacina foi produzida e testada e aplicada no U.K. levam-me a encarar outro ponto de vista: será que não estará Boris Johnson a pretender provar à U.E. que passa bem sem ela após o Brexit e daí a corrida para cortar a meta da produção e vacinação da maior parte da sua população, ao mesmo tempo que pode colocá-la no mercado numa espécie de louca corrida para provar que o barco dele navega muito melhor do que os dos seus competidores mais diretos?

 

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publicado às 16:01

Vários países suspenderam a vacina da Astrazeneca, mas a União Europeia que tem vindo a meter água neste aspeto diz que não há problema e que  "os benefícios da utilização da vacina contra a COVID-19 da AstraZeneca mantêm-se superiores"  ao risco  (mais morte, menos morte, para eles é o menos, digo eu). Portugal, como sempre, o maior exemplo, está também a borrifar-se para todos e continua também em frente. É como de costume, fazem porcaria e depois vêm as desculpas esfarrapadas, as justificações incongruentes... 

O artigo de ontem, 11 de março 2021, no jornal Público que transcrevo abaixo, mas que também podem ler diretamente aqui é elucidativo. 

Vários países suspenderam vacina da AstraZeneca para investigar casos de coágulos sanguíneos

Agência Europeia do Medicamento, alertada por casos na Áustria, que incluem um óbito, diz não ter detectado nada de errado no lote de vacinas enviado para 17 países, no qual não se inclui Portugal, e que se mantém o benefício da toma da vacina.

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A formação de coágulos sanguíneos não está listada entre os efeitos adversos desta vacina LUSA/LUONG THAI LINH

Dinamarca, Noruega, Estónia, Lituânia, Letónia e Luxemburgo suspenderam temporariamente a administração da vacina contra a covid-19 da AstraZeneca, depois de terem surgido casos de formação de coágulos sanguíneos em pessoas vacinadas na Dinamarca, para estudar o que se passou. A Dinamarca recebeu o mesmo lote de vacinas que a Áustria, onde também foram registados dois casos de formação de coágulos sanguíneos, um dos quais resultou em morte.

No entanto, a Agência Europeia do Medicamento (EMA) analisou o lote em causa, que foi enviado para 17 países (Portugal não) e disse, em comunicado, “não existir actualmente qualquer indicação que a vacinação tenha causado estas condições, que não estão listadas como efeitos secundários desta vacina”.

“Os resultados preliminares sugerem não existir uma relação causal entre a administração desta vacina e estes eventos. Neste sentido, os benefícios da utilização da vacina contra a COVID-19 da AstraZeneca mantêm-se superiores ao risco, não havendo qualquer alteração às recomendações sobre a sua utilização”, diz por sua vez o Infarmed - Autoridade Nacional do Medicamento numa curta nota no seu site, onde remete para uma actualização da nota da EMA, que sublinha os benefícios de tomar a vacina continuam a ultrapassar os eventuais riscos.

O lote ABV5300 contém um milhão de doses e foi enviado para a Áustria, Bulgária, Chipre, Dinamarca, Estónia, França, Grécia, Islândia, Irlanda, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Polónia, Espanha e Suécia, diz o comunicado da EMA. A Noruega anunciou a suspensão, segundo a Reuters, apesar de não ter recebido este lote.

“Embora um defeito que afecte a sua qualidade seja considerado improvável nesta fase, isso está a ser investigado” pelo Comité de Avaliação de Risco e Farmacovigilância da EMA. “Estão a ser investigados os casos relatados bem como outros eventos tromboembólicos, e outras condições relacionadas, que foram relatadas após a vacinação”, diz a EMA.

Segundo a agência reguladora europeia, o número de alertas por formação de coágulos sanguíneos em pessoas que tomaram a vacina da AstraZeneca não é mais elevado do que o verificado na população em geral, em condições normais: 22 casos entre as três milhões de pessoas que tomaram esta vacina até 9 de Março.

A Dinamarca não revelou quantos casos de formação de coágulos sanguíneos foram reportados, mas a Áustria deixou de usar este lote de doses da AstraZeneca enquanto está a investigar uma morte devido a problemas de coagulação e um caso de doença por embolismo pulmonar após a vacinação, relata a agência Reuters. A morte terá sido de uma enfermeira de 49 anos que sucumbiu a “sérios problemas de coagulação” poucos dias depois de ter recebido a vacina diz a agência Lusa.

Quatro outros países europeus, Estónia, Lituânia, Letónia e Luxemburgo, suspenderam também a vacinação com doses do mesmo lote, avança a EMA.

Na Dinamarca, a administração da vacina da AstraZeneca foi suspensa durante 14 dias. “É muito importante frisar que não desistimos de usar a vacina da AstraZeneca, fizemos uma pausa”, disse o director da Autoridade de Saúde dinamarquesa, Soren Brostrom, numa declaração citada pela Reuters.

A AstraZeneca garante que todos os lotes da sua vacina são submetidos a um rigoroso controlo de qualidade e “que não foram detectados efeitos adversos graves associados com a vacina”. Garantiu ainda que está em contacto com as autoridades austríacas e a colaborar com a investigação.

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publicado às 15:22

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Porque já várias vezes me questionei sobre os pontos incluídos nesta carta aberta resolvi divulgá-la aqui, neste blogue ,apesar de, provavelmente, muitos já tomaram dela conhecimento.

Sabemos também que comentários dos críticos a esta carta aberta tentam descredibilizá-la porque os signatários, ou porque não pertencem ao mesmo ”clube” dos críticos, ou porque pretendem, como tantas vezes é habitual, defender com mentira ou desdenho da verdade dos factos que eles próprios verificam mas negam.

A carta aberta foi publicada como artigo de opinião no jornal Público em 23 de fevereiro de 2020.

 OPINIÃO

Carta aberta às televisões generalistas nacionais

Como cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.

23 de Fevereiro de 2021, 0:30

Sabemos que há uma pandemia – e que o SARS-CoV-2, em vez de se deixar ficar a dizimar pessoas no chamado Terceiro Mundo, resolveu ser mais igualitário e fazer pesadas baixas em países menos habituados a essas crises sanitárias.

Sabemos que não há poções mágicas – as vacinas não se fazem à velocidade desejada e as farmacêuticas são poderosas entidades mercantis.

Sabemos que, mesmo cumprindo os cuidados tantas vezes repetidos – distância física, máscara a tapar boca e nariz, lavagem insistente das mãos, confinamento máximo –, qualquer um de nós, ou um dos nossos familiares e amigos, pode ser vítima da doença e que isso causa medo a todos, incluindo a jornalistas, fazedores de opinião e responsáveis de órgãos de informação.

Sabemos também que os média estão em crise, que sofrem a ameaça das redes sociais, a competição por audiências, as redações desfalcadas, os ritmos de trabalho acelerados impostos aos que nelas restam, a precariedade laboral de muitos jornalistas.

Mas mesmo sabendo tudo isto, assinalamos a excessiva duração dos telejornais, contraproducente em termos informativos. Não aceitamos o tom agressivo, quase inquisitorial, usado em algumas entrevistas, condicionando o pensamento e a respostas dos entrevistados. Não aceitamos a obsessão opinativa, destinada a condicionar a receção da notícia, em detrimento de uma saudável preocupação pedagógica de informar. E não podemos admitir o estilo acusatório com que vários jornalistas se insurgem contra governantes, cientistas e até o infatigável pessoal de saúde por, alegadamente, não terem sabido prever o imprevisível – doenças desconhecidas, mutações virais – nem antever medidas definitivas, soluções que nos permitissem, a nós, felizes desconhecedores das agruras do método científico, sair à rua sem máscara e sem medo, perspetivar o futuro.

Sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo

Mesmo sabendo a importância da informação sobre a pandemia, não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS, as pseudonotícias (que só contribuem para lançar o pânico) sobre o “caos” nos hospitais, a “catástrofe”, a “rutura” sempre anunciada, com a hipotética “escolha entre quem vive e quem morre”, a sistemática invasão dos espaços hospitalares, incluindo enfermarias, a falta de respeito pela privacidade dos doentes, a ladainha dos números de infetados e mortos que acaba por os banalizar, o tempo de antena dado a falsos especialistas, as entrevistas feitas a pessoas que nada sabem do assunto, as imagens, repetidas até à náusea, de agulhas a serem espetadas em braços, ventiladores, filas de ambulâncias, médicos, enfermeiros e auxiliares em corredores e salas de hospitais. Para não falar das mesmas imagens repetidas constantemente ao longo dos telejornais do mesmo dia ou até de vários dias, ou da omnipresença de representantes das mesmas corporações profissionais, mais interessados em promoção pessoal do que em pedagogia da pandemia.

Enfim, sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo.

Consideramos inaceitável a agenda política dos diversos canais televisivos generalistas, sobretudo no Serviço Público de Televisão.

Como cidadãs e cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.

Subscritores

Abílio Hernandez, Professor universitário; Alberto Melo, Dirigente associativo; Alfredo Caldeira, Jurista; Alice Vieira, Escritora; Ana Benavente, Professora universitária; Ana Maria Pereirinha, Tradutora; António Rodrigues, Médico; António Teodoro, Professor universitário; Avelino Rodrigues, Jornalista; Bárbara Bulhosa, Editora; Diana Andringa, Jornalista; Eduardo Paz Ferreira, Professor universitário; Elísio Estanque, Professor universitário; Fernando Mora Ramos, Encenador; Graça Aníbal, Professora; Graça Castanheira, Realizadora; Helder Mateus da Costa, Encenador; Helena Cabeçadas, Antropóloga; Helena Pato, Professora; Isabel do Carmo, Médica; J.-M. Nobre-Correia, Professor universitário; Jorge Silva Melo, Encenador; José Rebelo, Professor universitário; José Reis, Professor universitário; José Vítor Malheiros, Consultor de Comunicação de Ciência; Luís Farinha, Investigador; Luís Januário, Médico; Manuel Carvalho da Silva, Sociólogo; Manuela Vieira da Silva, Médica; Maria do Rosário Gama, Professora; Maria Emília Brederode Santos, Pedagoga; Maria Manuel Viana, Escritora; Maria Teresa Horta, Escritora; Mário de Carvalho, Escritor; Paula Coutinho, Médica intensivista; Pedro Campiche, Artista multidisciplinar; Rita Rato, Directora do Museu do Aljube; Rui Bebiano, Professor universitário; Rui Pato, Médico; São José Lapa, Actriz; Tiago Rodrigues, Encenador; Vasco Lourenço, Capitão de Abril

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

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publicado às 19:14

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Recolhi um comentário a um texto de César Príncipe publicado em 07/02/2021 no blogue Estátua de Sal que a achei ser de atualidade, revolta e de cariz arrojado. É um grito que o seu autor soltou contra o que muito se vê e ouve por aí. Por isso aqui vai, tal e qual foi escrito, com os erros ortográficos, abreviaturas e outros que tais que também fazem parte da afoiteza e ao qual mudei apenas o tamanho da letra que podem ler aqui.

 

 

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publicado às 17:14

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Estou no meu computador, olho para o relógio e saio da espécie de forma comatosa em que me encontro frente ao ecrã onde caíra depois de almoço apenas com uma interrupção para, a meio da tarde, ingerir à pressa qualquer coisa que me aguente até ao jantar.

São oito horas da tarde. Levanto-me, nervoso, ao lembrar-me de que tenho de estar frente à televisão para ver os noticiários. Como se iniciam todos à mesma hora, com pequenos minutos de diferença, pego no comando e percorro freneticamente os quatro canais para ver as aberturas.

Tudo na mesma. Na abertura dos noticiários que se prolonga por largos minutos a covid-19 continua a ser a prima-dona narcisista e caprichosa que faz exigências inauditas aos esforçados e já desgastados profissionais de saúde cujo nosso respeito, todos eles, nos merecem.

Nós, o povo, temos todo o direito de estar a par da informação, do que se passa com o triste espetáculo com que ela nos tem torturado. Aprendi ao longo da minha formação que, em comunicação, sobretudo a televisiva, as pessoas quando ficam sujeitas a uma repetição sistemática e consecutiva das mesmas ou semelhantes imagens a eficácia do impacto perde-se.  

Normalmente pensamos nas notícias que diariamente consumimos tendo em vista as informações factuais que as imagens televisivas nos transmitem e não as tendências emocionais que captamos e que nos são veiculadas pelas palavras de escolha específica do texto lido em voz-off. A narrativa das notícias e as palavras específicas selecionadas, simultaneamente com a elocução pelo jornalista, por mais objetivas que procurem ser, elas codificam uma riqueza de perceções emocionais e relacionais que a nossa atenção muitas vezes conscientemente ignora afetando a forma como entendemos os eventos descritos.

A nossa perceção da catástrofe e da dor, angústia sofrida por outros mostrada através de exposições sucessivas das mesmas imagens televisivas conduz à banalização do sofrimento. Tanto mais quanto as repetições se sucedem. O jornalismo procura sangue, quando nada há de novo e não se obtém novas imagens emitem-se até à exaustão as de dias ou de semanas anteriores e quando não se têm mais recentes coloca-se num cantinho superior do ecrã as palavras “imagens de arquivo”.

Mesmo quando sabemos que não fazemos parte do grupo, se não nos precavermos, podemos ser atingidos por essas imagens, quando nos cercam diariamente, ficando a nossa capacidade de sensibilização menorizada em relação ao sofrimento alheio banalizado pela repetição.

Sobre a extensão e o do tempo das notícias televisivas dedicadas à pandemia António Guerreiro escreveu para o jornal Público uma crónica com título de “A mentira no pequeno ecrã”. Sobre o Jornal da Noite escreve que «Não mente por dizer mentiras ou falsear imagens, não é a actual questão das fake news e da pós-verdade que aqui surge como pertinente ou a solicitar análise. Mente pelo encadeamento de palavras e de imagens, pela poluição discursiva e visual que produz, pelo tom adoptado (a dimensão prosódica do discurso, digamos assim), arrastando-nos para uma das regiões mais poluídas do planeta». E acrescenta que «Este jornalismo da mesmice — dos mesmos factos, das mesmas pessoas e do mesmo tom — que encena pela redundância uma ilusão de totalidade (e que, por isso, precisa sempre de muito tempo».

Atentemos ao facto de que há por aí negacionistas e outros que tais que contestam a existência da pandemia e a sua gravidade e manifestando-se nas redes sociais e, por enquanto, sem grande impacto público. Mentes ocas, deturpadas, a quem lavaram o cérebro, ficando destituídas de qualquer racionalidade ao que negar factos mesmo que estejam à sua frente.

Não se pode apontar o dedo à comunicação social por negacionismo, antes pelo contrário. Mas, o jornalismo televisivo está obeso de imagens que nos fornece em excesso para nos convencer da realidade pela redundância o que leva a gerar nos espectadores ansiedade e ilusão de ficção e mentira.

A mentira a que me refiro neste tipo de jornalismo não é absoluta é apenas alusiva. A mentira não é premeditada, os sujeitos recetores é que, devido ao encadeamento de palavras e de imagens e à poluição discursiva-informativa e visual produzidas arrasta-nos para colocar a questão de: será isto verdade?

É o caso das imagens relacionadas com a covid-19 que mostram exaustivamente os mesmos grupos etários, nos hospitais, nas ambulâncias, nas macas, nos lares, nas vacinações. Os velhos são as estrelas covid. Não nos admiremos, portanto, que para além dos negacionistas, pessoas bem-intencionadas comecem a duvidar da gravidade da situação que nos aflige e que a generalidade da população está a pagar bem caro com os sucessivos confinamentos devido ao desrespeito de outros que supõem não ter nada a ver com eles, mas sim com os velhos, para o que ajuda o guião do alinhamento que ordena por prioridades as notícias do dia.

Vejo diariamente os noticiários televisivo das 20h, faço zapping entre os três canais generalistas os e observo a overdose de notícias e reportagens sobre a covid-19 em quantidade e em tempo de duração e é óbvio a certeza de as ter já visto por serem iguais às dos dias e semanas anteriores, com pouquíssimas diferenças, muitas delas recolhidas das já emitidas fazendo novas edições e montagens.

Deste cabaz não escapam os jornalistas de serviço às notícias que se distinguem pela mímica da representação. Salvam-se os do canal SIC. José Rodrigues dos Santos da RTP1, é o que mais me irrita pela sua atuação. Não gosto quando em televisão me apontam o dedo e quando, ao lerem notícias, pelo tom e pelas atitudes de pantomina que adotam para salientar pontos da elocução consoante sejam ou não do seu agrado.  Esta é a minha perceção.

Tudo isto nos remete para a dúvida em sentido figurado e de sentimento individual sobre o que nos impingem nos ecrãs, dada a repetição exaustiva das peças jornalísticas e da expressão facial e até corporal que alguns dos pivots fazem parecendo mais momos do que jornalistas.

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publicado às 16:31

Novamente o fecho das escolas e o ensino a distância

Presença social um elemento importante para a aprendizagem?

por Manuel_AR, em 21.01.21

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Com o fecho das escolas volta a estar novamente em questão o ensino a distância e o presencial. Pareceu-me oportuno recordar um texto que escrevi, há relativamente pouco tempo, e que podem ler aqui ou aqui

 

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publicado às 12:07

António Costa mestre-escola (2).png

No semanário Expresso da passada semana João Vieira Pereira escreve no ponto 2 do artigo de opinião com o título de “Patinho feio” o que eu e muitos já pensámos sobre o que está a acontecer em janeiro no que se refere covid-19. Pelo que conheço das suas opiniões publicadas não me identifico ideológica e politicamente com Vieira Pereira.

Como não sou sectário aceito, sem deixar de ser crítico, as ideias e opiniões que sejam contributos para tudo quanto se achar necessário ser melhorado.

Quando comparo o primeiro-ministro António Costa com os seus congéneres e presidentes da Europa durante as conferências de imprensa para comunicar decisões que se relacionem com estados de emergência e confinamentos, parece-me estar a escutar um mestre-escola que, perante os seus alunos inquiridores, se coloca numa atitude de tudo justificar ao pormenor, em vez da assertividade e segurança que seriam de esperar ao anunciar medidas exigidas. António Costa parece estar a pedir desculpa pelas decisões que necessariamente devem ser tomadas.

A falta de rápida capacidade de resposta, as intermitências das medidas que devem ou não ser tomadas e a perceção dada à população de um certo alívio como o foi mostrado durante a época natalícia com o slogan “Vamos salvar o Natal!” tiverem consequências.

Também não sabemos se na altura fosse escolhida uma opção mais severa, observando o que os especialistas avisavam, não estariam agora a clamar e a culpabilizar os mesmos pela economia perdida durante a época natalícia.

É neste sentido que o ponto 2 do artigo de João Vieira Pereira, com o qual concordo, vem a propósito e que passo a citar:

“2 Reina a hipocrisia entre quem está surpreendido com os atuais números da pandemia. Os técnicos já tinham feito as contas, os especialistas já haviam avisado e os jornais já o tinham escrito: um Natal sem confinamento significava que “o mês de janeiro pode chegar ao fim com um acréscimo de 800 a 1500 mortes”. Não lhes ligaram. Era importante salvar o Natal. Feito! Mas com um custo inaceitável. A responsabilidade política é enorme, e essa só tem um rosto, o de António Costa. Não há outra forma de o dizer. Na Europa, enquanto muitos apertavam, nós facilitámos. A opção foi política, não foi técnica.

É provável que cheguemos ao fim deste mês com quase 3 mil mortos provocados pela pandemia, sendo que estas vítimas já estão neste momento infetadas. O crescimento dos números deixa antever um inverno negro. O vírus não usa relógio ou calendário. Não sabe se é fim de semana e se são 13h para começar a infetar. Mas sabemos que gosta de espaços fechados, de aglomerados, de reuniões familiares prolongadas, de almoços e jantares de amigos. Sabemos, mas não agimos. Preferimos apelar à responsabilidade de cada um. A tempestade foi perfeita com a liberdade do Natal, os aglomerados provocados nos espaços comerciais pelas restrições e a falsa segurança de que a vacina está aí para nos salvar. Agora vamos correr atrás do prejuízo e adotar medidas restritivas que só vão ter efeitos em fevereiro. Sim, porque janeiro já está perdido. E tudo pode ser ainda superior com os novos adiamentos de atos médicos não-covid, que se podem generalizar à medida que os hospitais atingem o seu limite. Enquanto isso, as vítimas silenciosas desta pandemia crescem todos os dias. Alguns só terão essa noção meses, anos mais tarde.”

In Semanário Expresso de 8/1/2021

 

 

 

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publicado às 17:08

Presença social na aprendizagem online

1. Confinamento e aprendizagem online a distância

por Manuel_AR, em 16.12.20

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Este tempo de covid-19 obrigou a alterações profundas nos métodos e processos de trabalhar, de ensinar e de aprender. Teletrabalho, telescola, aprendizagem online, ensino a distância e outros são conceitos que passaram a fazer parte da gíria dos mais diversos setores de atividade. Empresas e escolas depararam-se com problemas consequentes duma resolução rápida e não prevista da alteração de métodos de trabalho e de relações sociais.

O caso da educação parece ser o mais sensível e que levantou mais duvidas. Muitos consideram, e bem, que a escola são aulas presenciais e onde a socialização é enriquecida com a interação com pares e professores. Se, por um lado, esta atitude é a mais aceite em termos pedagógicos, sobretudo no que se refere a crianças que se encontram nos primeiros anos de aprendizagem, diria até ao 9º ano, em alguns casos até ao 12º., por outro lado, tem-se verificado um sentimento negativo que grande parte dos encarregados de educação, professores e alunos têm pelo ensino/aprendizagem online e a distância. O que se colocou com mais evidência foi a questão das aulas presenciais como fator imprescindível para as aprendizagens. É o fator negativo da falta de presença, ou melhor da presença social durante a aprendizagem, tema que tratarei mais adiante.

A internet fornece-nos milhares de pontos de vista, opiniões e artigos sobre as vantagens e desvantagens do ensino online, a maior parte deles escritos por quem nunca frequentou o ensino a distância e nem sequer viveu nem sabe, na prática, o que é nem como funciona essa modalidade de ensino/aprendizagem. 

Os professores que utilizem e dominem as estratégias do ensino online serão cada vez mais solicitados, quando necessário, para substituir aulas presenciais, enriquecer as aprendizagens dos seus alunos, participar num módulo ou parte de um curso da sua área de especialidade quando se encontrem distantes do local físico onde dão aulas.

Num futuro mais ou menos próximo deverão ser-lhes disponibilizadas para as suas aulas tecnologias como vídeos, apresentações e câmaras para visualizar e interagir com os alunos através videochats. Os professores irão que ter flexibilidade para se adaptarem a situações muito diferenciadas e terem sensibilidade para escolher as melhores soluções possíveis para cada momento. Apesar de algumas melhorias nos currículos dos cursos das licenciaturas de professores incluindo unidades curriculares de utilização de tecnologias o que acontece é que as licenciaturas do nosso sistema de ensino e de formação de professores estão muito direcionadas para o ensino presencial, não estando a proporcionar as necessárias competências para o ensino online numa situação de emergência como a que se viveu ainda há pouco tempo. A consequências foram as falhas e erros apontados e a rejeição por muitos da modalidade de ensino online a distância aquando do confinamento total que obrigou ao fecho das escolas e à aplicação desta modalidade em tempo record para responder à situação imediata.

A educação não se faz apenas no sentido do ensino, mas sim na simultaneidade ensino/aprendizagem para que a aprendizagem seja estimulada. Muitos professores e encarregados de educação têm uma perceção de práticas de ensino que são representações dum passado ainda recente em que um aluno deve ser um poço de receção numa ótica do magister dixit.  Preocupam-se com o tempo que os seus alunos e educandos estão frente a um computador aplicados ao estudo e à aprendizagem, mas não se preocupam com as horas que os seus educandos estão online em “outras espécies de aprendizagens” captando e assimilando subconscientemente informação que lhes vai corrompendo a personalidade, a noção de verdade e de rigor científico.

Para muitos alunos, sobretudo os adolescentes, a verdade, deixou de ser a que professores e encarregados de educação lhes conferem, passou a ser a das redes sociais que frequentam, as pessoas e “amigos” com quem interagem horas a fio nas redes e por telemóvel.

Não é raro que muitos encarregados de educação, a maior parte das vezes os pais, face a questões que os seus educandos lhes coloquem recebam respostas como “vai procurar na net” ou “vai ver ao Google”. Causa-lhes impressão a presença dos seus filhos em casa porque, muitas vezes têm que os “aturar” presencialmente, o que é para eles um incómodo, porque pensam que, para isso, é que serve a escola. Claro que os pais têm os seus trabalhos e não podem tomar contas dos filhos, mas isso leva-nos a outros problemas que não cabem neste espaço. Para muitos pais a escola deve ser o local onde deixam as crianças e os jovens adolescentes em idade escolar e onde os vão recolher quanto mais tarde melhor. Há justificações profissionais dos pais, é certo, mas isso é outra conversa.

Há, ainda, uma evidência, não é de somenos importância, que é a impossibilidade imediata de milhares de alunos não possuírem tecnologias, devido a problemas financeiros e económicos dos seus encarregados de educação que não têm a capacidade de investir em tecnologias compatíveis o que gera situações de graves desigualdades sociais comparativamente a outras que têm ao seu dispor mais do que o necessário.

Devido ao confinamento começaram a proliferar na comunicação social artigos sobre as consequências do isolamento e da falta de interações social vindos de psicólogos, pediatras, psiquiatras e até de quem, até ao momento, nunca se tenha interessado e preocupado com isso.  Tiveram a oportunidade para debater o que afeta psicologicamente crianças, adolescentes e adultos devido ao teletrabalho e ao ensino a distância online. Não nego a boa intensão e a cientificidade de todos esses especialistas, mas o que acontece é haver uma intenção destrutiva e oposicionista de cariz político extremamente conservador contra quanto saia fora das suas representações, desculpem-me estar a proferir juízos de intenção, mas é o que me fica da leitura de alguns desses artigos.

As críticas feitas ao ambiente online como sendo um espaço inadequado para ensinar e aprender vêm de encarregados de educação e de muitos professores, cansados e em stress atingidos pela exaustão e por vezes pelo burnout, e também da parte de muitos alunos que, por estarem dependentes das aulas presenciais, ficam por isso dececionados com essas novas estratégias de ensino/aprendizagem. Dizem alguns sobre a experiência que viveram, que sentem a nostalgia do espaço seguro da sala de aula, que garante a aprendizagem plena, enquanto que o ensino online é um espaço precário, incompleto, provisório.

A desmotivação dos alunos no ensino presencial também tem sido objeto de discussão. Será também difícil manter a motivação no espaço virtual de salas de aula se os alunos não forem envolvidos afetivamente nos processos de participação que lhes inspire interesse e confiança. Os professores que nas suas disciplinas insistam e se limitem à transmissão de informação e de conteúdos, mesmo que bem produzidos, e não ajudem e motivem os alunos a criar o seu próprio conhecimento, incorrem no risco de os desmotivar fazendo com que a aprendizagem não passe da teoria esquecendo o binómio teoria/prática. Há, contudo, uma vantagem do ensino presencial desde que os alunos estejam atentos e motivados: obtém-se rapidamente o retorno na resolução dos problemas que acontece com a procura do diálogo e de novas estratégias pedagógicas. No online os alunos estão à distância e apenas acessíveis por e-mail que é um meio frio, ou então pelo smartphone, se não houver acesso a videoconferência a dispersão pode ser ainda maior.

O problema não está na aprendizagem através de plataformas online. O que está a revelar a experiência neste período de pandemia é que a maior parte dos professores das escolas, mergulhados que têm estado na atividade presencial, ensina através do online de forma inadequada, muito baseada nos conteúdos programáticos dependentes do professor, deixando para segundo plano o envolvimento, a participação e a criatividade dos alunos. Dar aulas não presenciais é muito mais trabalhosa que aumenta quando se pretende manter uma interação produtiva com os alunos.

O problema não está no online, está na falta de autonomia que, no ensino presencial, não foi estimulada na formação dos alunos, está na insuficiência no domínio das competências básicas (saber pesquisar, analisar, avaliar...) e está também na gestão paternalística das aulas e da forma de ensinar: tudo é dado pronto, como ementa fechada, prato feito, com pouca autonomia, participação e envolvimento dos alunos.

Mário Santos, Investigador em Inteligência Emocional e Professor na Universidade da Madeira escreveu no jornal Económico que “Temos de ter a noção de que somos seres sociais e de que necessitamos de viver em sociedade para nos encontrarmos em perfeito equilíbrio, motor, cognitivo e emocional e por isso temo que a invasão das novas tecnologias acelerada com o aparecimento do novo coronavírus seja um motor de destruição social e que nos pode destruir como sociedade e ficarmos cada vez mais robotizados nas nossas atividades, relações, expressões e colaboração interpessoal.”

Perfilho em parte este ponto de vista que devido ao atual contexto condicionado pela covid-19 faz todo o sentido, mas isso não pode ser tomado como uma fatalidade. A sociedade vai-se adaptando à evolução. Quando até ao final dos anos 70 dominavam os grandes computadores e quando nos finais da década de 70 apareceram os primeiros computadores pessoais a penetrar em ambiente de trabalho vários pensamentos de receio quanto ao futuro que as máquinas trariam à sociedade seguiam uma linha de preocupação acerca da vida em sociedade e das relações de trabalho. Entretanto, muita coisa mudou e adaptou sem alterações catastróficas. Durante a primeira década do século XXI com a tecnologia das redes sociais verificou-se que as interações sociais se tornaram mais ativas, não apenas em rede, mas também ao nível presencial que as mesmas estimularam através da potenciação de encontros.

No que se refere às faixas etária mais baixas ao nível do pré-escolar a opção por um dos elementos da dicotomia educação em ambiente presencial/educação em ambiente online poderá ser mais problemática. Noutros casos o problema parece ser menos da tecnologia utilizada e mais das metodologias pedagógico-didáticas utilizadas porque não foram devidamente testadas para grupos de grande espetro.

As tecnologias digitais associadas às telecomunicações para aprendizagem sempre com a interação como o professor podem potencializar e estruturar novas sociabilidades e, por consequência, novas aprendizagens. As que existem são apenas circunstanciais e limitadas apenas a algumas escolas onde parece estar a ser praticado como forma complementar ao ensino presencial.

Educação online pode definir-se como um conjunto de ações de ensino-aprendizagem desenvolvidos por meios como a internet onde podem coexistir a videoconferência e teleconferência e abrange cursos totalmente virtuais e exclusivamente online sem qualquer presença física e  cursos semi-presenciais (blended learning ou b-learning) em que parte é presencial com atividades complementares fora da sala de aula com apoio da internet.

A educação online utiliza-se em situações onde o presencial não possa ser opção por motivos, por exemplo, em situação de pandemia e confinamento como aquele que vivemos, numa situação em que se deva atingir um grande número de alunos em pouco tempo, ou então por opção quando a vida profissional não deixa espaço para frequentar aulas presenciais.

No ensino/aprendizagem em rede ou a distância todos os participantes são potencialmente emissores, recetores e produtores de informações, quer sobre as matérias programáticas quer sobre problemas conexos, por vezes até pessoais, e também sobre aspetos cognitivos e dificuldades pessoais. Nestas circunstâncias encontramo-nos num contexto de ecologia da informação por estarem incluídas escolhas de caminhos e participações num denso conjunto de inter-relações entre elementos participantes, práticas, valores, hábitos, crenças e tecnologias. Na ecologia da informação o foco não é a tecnologia em si, mas sim a atividade realizada por meio da tecnologia.   Há uma interdependência entre recursos tecnológicos e atividades, cada um ajustando-se e adaptando-se em relação ao outro.

A metáfora ecológica foi utilizada por (Nardi e Vicki, Information ecologies, MIT Press, 1999) que sugere várias propriedades-chave de muitos ambientes nos quais a tecnologia é usada. Uma ecologia da informação é um sistema complexo de partes e relações. Como qualquer sistema ecológico, exibe diversidade, interação e experimenta uma evolução contínua.

As escolas são ambientes intrinsecamente ricos em informações com múltiplos fluxos convergentes e sobrepostos de informações de entrada e saída. As informações são representadas num grande número de formatos, incluindo padrões de aprendizagem, currículos, planos de aula, listas de alunos, planos educacionais individuais, políticas e procedimentos, livros didáticos, recursos online e programações de aulas todos eles relacionados entre si.

A utilização das tecnologias da informação no ensino a distância online insere-se num contexto ecológico da informação o que significa atuar num ambiente virtual, dialogar, trocar informações e experiências, tomar decisões e produzir conhecimento. Nesta perspetiva cada um que se envolva encontra-se em ligação com todos os participantes e recursos existentes que fazem parte de uma rede de interdependência constituindo uma unidade dinâmica que se desenvolve de forma relacional e pluralista.

A potencialidade da ecologia de informação em contexto educativo reside no papel ativo dos seus participantes professores e alunos que têm acesso a informações e recursos para desenvolver atividades colaborativas, dialogar com o outro e estabelecer inter-relações.  Os intervenientes tanto podem inserir novas informações como buscar as informações que lhes são adequadas. Por outro lado, cada aluno pode estar em ligação interagindo com outros sobre as temáticas que estão a ser trabalhadas. Exemplo pode ser tudo o que o professor envia ou coloca numa plataforma e os exercícios e trabalhos que lá são colocados por cada um dos alunos para avaliação pelo professor cujo resultado receberá pelo mesmo meio. 

Muito se tem falado da socialização, cuja importância é inegável, assim como da necessidade que as pessoas têm de comunicar, sejam elas crianças, adolescentes ou adultos. Em situações de aprendizagem e aquisição de conhecimento Piaget investigou que o conhecimento é construído nas interações que se geram entre o sujeito e o meio que são dependentes um do outro por assimilação que é a incorporação de elementos do objeto conhecido às estruturas existentes e por acomodação que é a transformação dos elementos assimilados modificando os seus (os do sujeito) esquemas prévios ou criando novos esquemas ou estruturas de pensamento gerando novos significados. Penso que esta tese construtivista do conhecimento não retira validade à aprendizagem online desde que interativa, antes poderá reforçar a presencial.

Os professores pela dificuldade do novo processo que lhes foi imposta pelos condicionamentos gerados pelas circunstâncias que a pandemia lhes impôs não conseguiram encontrar num curto espaço de tempo uma metodologia adequada para os seus cursos online. A maior parte, senão todos, reproduziram condições de sala de aula convencional transferindo para o virtual as conceções pedagógicas das aulas presenciais. Colocam-se no papel de professores centralizadores que, a partir textos e atividades que organizam a matéria, reforçam o papel principal do professor.

A aprendizagem online leve colocar-se numa posição mais participativa do processo educacional estimulando a pesquisa e a interação entre pequenos grupos. Em muitas escolas já foram criadas plataformas de aprendizagem que facilitam a colocação de textos, a organização de atividades em ambiente virtual para professores e alunos sem a necessidade de muitos conhecimentos prévios de tecnologias mais sofisticadas. Estas plataformas possibilitam a combinação entre aulas de vídeo, teleconferência pela internet e atividades individuais ou em pequenos grupos antes e depois das aulas sendo parte online e parte offline.

Na fase inicial de autoaprendizagem mesmo que orientada pelo professor pode existir o perigo de dispersão em situação de procura informação ao fazer navegação aleatória executada sem a consciência do que se pesquisa e sem uma tomada de decisão sobre os caminhos a seguir derivados da arquitetura de hipertexto dos motores de busca. A navegação para selecionar informações significativas de acordo com o objetivo pretendido necessita de treino.

A aprendizagem em situação presencial tem vantagens e é imprescindível porque a nossa cultura educacional assim o impõe por motivos que se prendem com a socialização das crianças em situação escolar, mas que exigem, cada vez mais, a familiaridade com as tecnologias como fator de sobrevivência no futuro. Vê-se atualmente o que se passa devido à pandemia com as dificuldades que muitos trabalhadores sentem para se adaptarem ao teletrabalho.

 A criança desenvolve-se em contexto social, são as interações e as relações com as pessoas e com os sistemas sociais que têm um papel crucial para suas aquisições e para a construção de funções psicológicas cada vez mais sofisticadas. O mundo em que vivemos é um mundo de pessoas, coisas, lugares, ações que têm significados construídos historicamente e cuja apropriação se dá no contato social. Neste sentido, pode dizer-se que é aí que o indivíduo se constrói.

Segundo Hohmann e Weikart “As crianças procuram de forma ativa os seus pares, construindo brincadeiras lado a lado, falando (ou vocalizando), observando e interagindo com os mesmos de forma lúdica, sendo que todas estas interações vão ficando mais complexas à medida que as crianças se vão desenvolvendo cognitivamente”. Podemos acrescentar também os adultos com quem interage. Consultar (Hohmann e Weikart. Educar a criança. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian 2011).

O ensino/aprendizagem online mediada pela internet pressupõe que são alunos com idades superioras ao pré-escolar, diria mesmo, acima do 2º ciclo, pelo que exige uma dimensão social que, devido à sua própria natureza, deve ter uma correspondência ideal de modo a ter em conta a perceção do outro no ambiente virtual de aprendizagem que se designa por presença social, tal como se verificam as interações sociais em ambiente real.

Presença social é um termo da psicologia que relaciona a perceção do indivíduo com o modo como ele se sente na interação com os outros.  Nas aulas a distância online e noutras interações, como a que se realiza através das redes sociais e dos meio assíncronos como o e-mail, uma das formas de facilitar a presença social pode ser através de estratégias, tais como os emoticons ou emojis, que os intervenientes utilizam para comunicar emoções e estabelecer uma ligação interpessoal.

Em aprendizagem online a perceção que os sujeitos têm sobre o grau de proximidade estabelecida entre os vários participantes (neste caso o professor e os alunos), reflete-se na dinâmica da relação entre as pessoas em presença virtual. Nesta perspetiva, tal perceção é influenciada tanto pelos meios tecnológicos como a videoconferência, teleconferência, troca de mensagens escritas entre dois ou mais utilizadores de uma rede de computadores em tempo real (chats) que promovem a interação como pelas características pessoais de cada um dos sujeitos.

Assim, presença social é então a capacidade de os participantes numa comunidade de aprendizagem online se projetarem social e emocionalmente, como pessoas reais, isto é, o grau como um sujeito é percebido como real numa comunicação online.

Alguns estudos como os de Richardson e Zittle (Examining Social Presence in online Courses in Relation to Students' Perceived Learning and Satisfaction, 2003) observaram que a perceção de presença social está relacionada com a satisfação sentida pelos alunos em cursos online. Se experimentam uma fraca ligação entre si ou com o professor sentem-se isolados e céticos em relação à aprendizagem proporcionada e, consequentemente, revelam insatisfação. Os alunos que mostram elevados níveis de presença social, apresentam maior aprendizagem e sentem-se mais satisfeitos. Por outro lado, também demonstraram que há uma relação entre o sucesso ou fracasso individual com a amplitude com que os alunos ultrapassam o sentimento de se sentirem preteridos para se sentirem incluídos.

Inquéritos efetuados a alunos, alguns anos antes da solução apressadamente criada para remediar os efeitos do confinamento dos alunos devido à covid-9 mostraram, através de questionários e entrevistas realizadas a alunos que tinham participado neste tipo de ensino (muito antes da covid), que um dos aspetos mais importantes é o comportamento do professor ou tutor. A maior parte dos alunos referiu interação regular, a proximidade emocional, o feedback imediato e construtivo, assim como o incentivo do professor para o empenho na construção de conhecimento, como aspetos que influenciam a satisfação com o curso.

Outros pontos mencionados pelos alunos que afetam a satisfação com a aprendizagem online foram falta de tempo para completar as tarefas propostas, os relacionamentos difíceis com colegas e pouca experiência com as tecnologias da informação e comunicação. Ora, depois da experiência do confinamento forçado pela pandemia o descontentamento os alunos, pelo que se tem constado, insere-se neste último ponto.

Tudo isto nos conduz ao tema que abordei, há algum tempo, durante a fase preparatória e exploratória para doutoramento em ensino/aprendizagem online cujo problemática se relaciona com a questão da presença social a que poderão aceder a uma versão resumida aqui: Presença Social Virtual-versão publicada 2020.pdf

 

 

 

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publicado às 17:16

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O que vou escrever não foi movido pela inveja porque nada tenho a invejar a Cristina Ferreira, não sou da profissão, nem que o fosse, não  pertenço ao seu grupo de amizades, não a conheço pessoalmente o que dela sei é somente e apenas pelos programas que ela protagoniza e o que a comunicação social vai dizendo sobre o que se passa nos bastidores dos canais onde trabalhou ou trabalha.

Pacheco Pereira pessoa que considero ser séria como escritor e que também admiro pelo seu estilo de comentário de opinião escreveu no jornal Público um artigo em defesa de Cristina Ferreira. Em epígrafe escreve “O ódio dos covardes que anda por aí” e “Sim, este elogio da denúncia de Cristina Ferreira é para vosso escarmento, vosso opróbrio, vosso desluzimento, vossa vergonha e, se tiverem de ir ao dicionário para perceber algumas palavras, ao menos ganha-se alguma coisa.”

Concordo com Pacheco Pereira unicamente enquanto elogio da denúncia que Cristina Ferreira faz no seu livro do esterco de comentários por alguma gente que se movimenta pelas redes sociais. Devemos, todavia, separar algumas águas quando se trata de pessoas a que se resolveu chamar figuras públicas, que, por princípio, têm mais visibilidade através dos canais televisivos porque a carência de protagonismo que é o seu alimento poderá conduzi-las aos mais variados e falsos altruísmos que, apesar de tudo não deixam de ser altruísmos quando praticados.

Pacheco Pereira elogia Cristina pelo seu livro porque também se indigna, com plena razão e direito, com os discursos de ódio, grosseria, de ameaças, de violência que passam impunemente pela rede sociais

O título deste meu texto “Oportunismo com oportunidade” vem mesmo a propósito e vem a propósito da publicação do livro “Pra Cima de Puta” da autoria de Cristina Ferreira, (tê-lo-á escrito?), editado em novembro de 2020 pela Contraponto Editores. A esta publicação seguiu-se, quase de imediato, a petição contra o cyberbullying para levar à Assembleia da República o que ao mesmo tempo veio servir de marketing para a promoção do livro e, sobretudo, da sua autora. Parece-me ser uma motivação exclusivamente pessoal, mas que pretende transvasar para a generalidade. Enfim, coincidências! O título do livro é sugestivo e pode levar muita gente não apenas as que frequentam as redes sociais a comprá-lo, e é isso que interessa.

As audiências dos programas por ela geridos, e alguns também apresentados, estão em baixa,  pelo que todo este movimento marketing à volta de Cristina possa vir a exercer uma espécie de alavancagem para os seus programas televisivos na TVI que  tem vindo a ter maus resultados devido à sua interferência e que, por isso, encontra-se fragilizada segundo consta nos bastidores da estação televisiva.

Os seus sorrisos para as câmaras e a aparente simpatia, que seduzem muitos espectadores, não são mais do que mera representação porque, dizem, ao vivo e em trabalho de bastidores é do piorio gritando e insultando os seus colaboradores.  

O livro, ao transcrever comentários a ela dirigidos e por ela transcritos para o seu livro poderá ser uma forma de Cristina Ferreira se vitimizar perante o público. Transformar ameaças e crises numa boa oportunidade de negócio é atributo de empreendedorismo e praticado em algumas empresas, e Cristina é uma empresa. É isso que Cristina Ferreira tenta fazer.

As ameaças que advêm da utilização imprópria das redes sociais não é de hoje, embora se tenha agravado, vem desde o seu lançamento. Ameaças, ciberbullying, notícias falsas, difamação, falsidades, maledicências, maldade, machismo, mulheres que rebaixam mulheres e outros impropérios idênticos, para tal a imaginação não falta têm sido várias vezes denunciados e objeto de debate. Esta situação tem vindo a gravar-se e o exemplo é encorajado por alguns altos responsáveis de alguns países bem conhecidos de muitos.

Não é de hoje que as redes sociais têm sido utilizadas para fazer ataques pessoais em que as emoções, boas ou más, extravasam o limite do possível. O tema ciberbullying não é novo e tem sido debatido internacionalmente, nomeadamente na União Europeia cujo Parlamento tem abordado. Tentar resolver ou mitigar o problema dos conteúdos nocivos ou ilegais online e, ao mesmo tempo, proteger a liberdade de expressão é uma das questões fundamentais que os eurodeputados querem abordar assim como a da proteção dos utilizadores contra aquele tipo de conteúdos.

A legislação sobre a informação que circula pelas redes sociais vai apresentar até final do ano uma nova legislação (‘Digital Services Act’ – Lei de Serviços Digitais) para regulamentar melhor os gigantes tecnológicos, em termos de gestão de dados, desinformação e discurso do ódio, em particular.

A Comissão Europeia está a trabalhar numa legislação para garantir que os conteúdos ilegais sejam retirados com as salvaguardas necessárias para proteger a liberdade de expressão porque o ódio não conhece fronteiras. A União Europeia tem, desde 2016, um código de conduta contra o discurso do ódio, de base voluntária, que foi assinado pelos grupos e redes sociais Facebook, Microsoft, Twitter, Youtube, Instagram, Snapchat, Dailymotion, Jeuxvideo.com e Tiktok.

Na Internet e nas redes sociais há gente infame ou que sofre de alguma psicose que difama e se alimenta destilando ódio, agredindo com facilidade e sem pudor pessoas que consideraram tomar como alvo, quer sejam políticos, quer sejam outros que se expões publicamente e Cristina Ferreira é uma dessas muitas pessoas que se expõe assumida e publicamente nas redes sociais.

Fico perplexo quando famílias e muita outra gente que, mesmo não sendo figuras públicas, se expõem através de imagens em família estimulando até os filhos a promoverem-se através de fotografia nas redes sociais. Assusta-me perceber que isso acontece sem qualquer controlo e autocrítica e que depois de serem alvos lamentam-se e julgam-se agredidos.

Não sei se o que mais preocupa Cristina se será sentir-se “Pra cima de Puta” ou se é sentir que está abaixo de puta nas redes sociais. Não percebo a metáfora, mas eis que descobri uma interpretação. Ao escrever aqui abaixo de puta, pensei que teria sido original, mas não fui porque há quem já utilizasse o termo no mesmo contexto que passo a citar e que também podem ler aqui:

 “I. Que Cristina Ferreira use a expressão como título de um livro seu, eis uma escolha inevitavelmente curiosa, tendo em conta que a autora quer evitar qualquer arbitrariedade metaforizante, esclarecendo que se trata de uma "provocação", no sentido em que o seu objetivo primordial é uma "chamada de atenção". Atenção para quê? Para uma "análise sociológica" das "agressões" nas "redes sociais" — a começar por aquelas a que ela tem sido sujeita, incluindo a classificação "pra cima de puta". 

III. Somos todos pavlovianos, eis a questão. Por um lado, Cristina Ferreira é uma personalidade pública do espaço televisivo, em grande parte apoiada nas chamadas redes sociais, o que ajudará a explicar o seu natural interesse pela sociologia. Identidade, sistema moral e estratégia empresarial, tudo nela existe arquitetado e exponenciado através de tais circuitos. Por outro lado, pressente agora que a utopia "social" que tão empenhadamente tem protagonizado pode ser uma ilusão cruel, convocando os seus seguidores "para percebermos que mulheres e homens atacam ferozmente".

Cristina é em grande parte apoiada nas chamadas redes sociais, mas desconhecem tudo quanto faz a não ser os risos e sorrisos para as câmaras, mas, do que tem vindo a público (consultar revista Sábado de 25 de novembro), é sintoma nítido de megalomania egocentrismo.

Pegar no que lhe chamam nas redes sociais, convencida, traidora, vergonhosa, manipuladora, exibicionista, gananciosa e tentar colocá-los como vantagem para si própria é o objetivo de Cristina para se vitimizar. A vitimização por vezes dá resultados face à queda das audiências.

Quem frequenta redes sociais como o Instagram pode confirmar que Cristina se expõe a tudo quanto sejam abutres do cyberbullyng e ela sabe disso porque não é nem parva, nem estúpida.

O discurso de ódio algumas vezes tem motivações induzidas por quem é o alvo movidas por comportamentos, atitudes, opções partidárias e ideológicas e que se revelam em ataques de todas as espécies que servem aos seus autores de escape que a liberdade de expressão das redes sociais proporciona.

O que me parece estranho é que Cristina Ferreira só agora tenha descoberto os ataques verbais de que tem sido alvo ache também agora que vem em auxílio de outros estão a ser alvos da mesma situação. Estranho é ainda que só ao fim alguns anos venha a insurgir-se contra as injurias, e muitas outras formas de ódio de que tem sido vítima através do cyberbullying e se atribua a si própria a grande defensora de todos e todas que dele têm sido vítimas quando o tema na sua generalidade tem sido abordado não raras vezes.

Há pelas redes sociais milhares de figura públicas, ou não, que são insultadas, enxovalhadas e vilipendiadas que não se queixam e que, com elevação moral não dão resposta a essas provocações que circula nas redes sociais, em vez de se focarem e darem valor a essa gente abjeta que se embrenha no anonimato. Todavia não são apenas insultos há também manifestações de indignação.

Há os que se põem a jeito e Cristina põe-se demais a jeito. O que dizer de quem publica vídeos e fotografias no seu Instagram fotografias com um seu protegido por ela relançado passeando-se num iate apresentando a ideia de alguma cumplicidade entre ambos para alimentar a imprensa. “Na montra do Instagram apresenta sorrisos e uma vida despreocupada financeiramente que contradiz o que se passa nos bastidores. Quem tem contacto com ela na estação descrevem a tensão que se vive na estação. Em público Cristina disfarça a desolação com as derrotas e não baixa a guarda… As fúrias são à porta fechada, fora dali…” Ler aqui.

A megalomania e declarações de “eu é que mando”, “eu é que escolhi” é uma necessidade de transmitir para se auto compensar revelam um egocentrismo patológico. Aquando da XXIV cerimónia dos Globos de Ouro da SIC recorde-se o seu discurso que recebeu críticas vindas de vários setores: "Cristina, a rainha da humildade"; "Presunção e água benta..."; "Que convencida e arrogante", foram alguns dos comentários ao discurso da apresentadora, que ganhou o prémio 'Personalidade do Ano' na área do Entretenimento.

Num fragmento do discurso que não está descontextualizado afirmava que "Eu dizia não quero, isto não faz sentido nenhum, estou lá a apresentar e depois vou lá receber o prémio... e depois percebi que quero. E quero, porque é justo", afirmou, como autoelogio e arrogância que lhe é habitual.

Ser figura pública e ambicionar por visibilidade e protagonismo para benefício próprio tem, e sempre teve os seus riscos, mesmo antes das redes sociais. Publicações como tabloides e revistas cor de rosa e outras lançavam para o público, amores, casamentos, escândalos e outros “tesourinhos” sobre vedetas ou personalidades mais conhecidas.

Portanto, não nos admiremos, Cristina Ferreira não é a vacina que vai salvar o “mundo” do discurso de ódios nas redes sociais.

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publicado às 18:26


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