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No semanário Expresso da passada semana João Vieira Pereira escreve no ponto 2 do artigo de opinião com o título de “Patinho feio” o que eu e muitos já pensámos sobre o que está a acontecer em janeiro no que se refere covid-19. Pelo que conheço das suas opiniões publicadas não me identifico ideológica e politicamente com Vieira Pereira.

Como não sou sectário aceito, sem deixar de ser crítico, as ideias e opiniões que sejam contributos para tudo quanto se achar necessário ser melhorado.

Quando comparo o primeiro-ministro António Costa com os seus congéneres e presidentes da Europa durante as conferências de imprensa para comunicar decisões que se relacionem com estados de emergência e confinamentos, parece-me estar a escutar um mestre-escola que, perante os seus alunos inquiridores, se coloca numa atitude de tudo justificar ao pormenor, em vez da assertividade e segurança que seriam de esperar ao anunciar medidas exigidas. António Costa parece estar a pedir desculpa pelas decisões que necessariamente devem ser tomadas.

A falta de rápida capacidade de resposta, as intermitências das medidas que devem ou não ser tomadas e a perceção dada à população de um certo alívio como o foi mostrado durante a época natalícia com o slogan “Vamos salvar o Natal!” tiverem consequências.

Também não sabemos se na altura fosse escolhida uma opção mais severa, observando o que os especialistas avisavam, não estariam agora a clamar e a culpabilizar os mesmos pela economia perdida durante a época natalícia.

É neste sentido que o ponto 2 do artigo de João Vieira Pereira, com o qual concordo, vem a propósito e que passo a citar:

“2 Reina a hipocrisia entre quem está surpreendido com os atuais números da pandemia. Os técnicos já tinham feito as contas, os especialistas já haviam avisado e os jornais já o tinham escrito: um Natal sem confinamento significava que “o mês de janeiro pode chegar ao fim com um acréscimo de 800 a 1500 mortes”. Não lhes ligaram. Era importante salvar o Natal. Feito! Mas com um custo inaceitável. A responsabilidade política é enorme, e essa só tem um rosto, o de António Costa. Não há outra forma de o dizer. Na Europa, enquanto muitos apertavam, nós facilitámos. A opção foi política, não foi técnica.

É provável que cheguemos ao fim deste mês com quase 3 mil mortos provocados pela pandemia, sendo que estas vítimas já estão neste momento infetadas. O crescimento dos números deixa antever um inverno negro. O vírus não usa relógio ou calendário. Não sabe se é fim de semana e se são 13h para começar a infetar. Mas sabemos que gosta de espaços fechados, de aglomerados, de reuniões familiares prolongadas, de almoços e jantares de amigos. Sabemos, mas não agimos. Preferimos apelar à responsabilidade de cada um. A tempestade foi perfeita com a liberdade do Natal, os aglomerados provocados nos espaços comerciais pelas restrições e a falsa segurança de que a vacina está aí para nos salvar. Agora vamos correr atrás do prejuízo e adotar medidas restritivas que só vão ter efeitos em fevereiro. Sim, porque janeiro já está perdido. E tudo pode ser ainda superior com os novos adiamentos de atos médicos não-covid, que se podem generalizar à medida que os hospitais atingem o seu limite. Enquanto isso, as vítimas silenciosas desta pandemia crescem todos os dias. Alguns só terão essa noção meses, anos mais tarde.”

In Semanário Expresso de 8/1/2021

 

 

 

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publicado às 17:08

Presença social na aprendizagem online

1. Confinamento e aprendizagem online a distância

por Manuel_AR, em 16.12.20

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Este tempo de covid-19 obrigou a alterações profundas nos métodos e processos de trabalhar, de ensinar e de aprender. Teletrabalho, telescola, aprendizagem online, ensino a distância e outros são conceitos que passaram a fazer parte da gíria dos mais diversos setores de atividade. Empresas e escolas depararam-se com problemas consequentes duma resolução rápida e não prevista da alteração de métodos de trabalho e de relações sociais.

O caso da educação parece ser o mais sensível e que levantou mais duvidas. Muitos consideram, e bem, que a escola são aulas presenciais e onde a socialização é enriquecida com a interação com pares e professores. Se, por um lado, esta atitude é a mais aceite em termos pedagógicos, sobretudo no que se refere a crianças que se encontram nos primeiros anos de aprendizagem, diria até ao 9º ano, em alguns casos até ao 12º., por outro lado, tem-se verificado um sentimento negativo que grande parte dos encarregados de educação, professores e alunos têm pelo ensino/aprendizagem online e a distância. O que se colocou com mais evidência foi a questão das aulas presenciais como fator imprescindível para as aprendizagens. É o fator negativo da falta de presença, ou melhor da presença social durante a aprendizagem, tema que tratarei mais adiante.

A internet fornece-nos milhares de pontos de vista, opiniões e artigos sobre as vantagens e desvantagens do ensino online, a maior parte deles escritos por quem nunca frequentou o ensino a distância e nem sequer viveu nem sabe, na prática, o que é nem como funciona essa modalidade de ensino/aprendizagem. 

Os professores que utilizem e dominem as estratégias do ensino online serão cada vez mais solicitados, quando necessário, para substituir aulas presenciais, enriquecer as aprendizagens dos seus alunos, participar num módulo ou parte de um curso da sua área de especialidade quando se encontrem distantes do local físico onde dão aulas.

Num futuro mais ou menos próximo deverão ser-lhes disponibilizadas para as suas aulas tecnologias como vídeos, apresentações e câmaras para visualizar e interagir com os alunos através videochats. Os professores irão que ter flexibilidade para se adaptarem a situações muito diferenciadas e terem sensibilidade para escolher as melhores soluções possíveis para cada momento. Apesar de algumas melhorias nos currículos dos cursos das licenciaturas de professores incluindo unidades curriculares de utilização de tecnologias o que acontece é que as licenciaturas do nosso sistema de ensino e de formação de professores estão muito direcionadas para o ensino presencial, não estando a proporcionar as necessárias competências para o ensino online numa situação de emergência como a que se viveu ainda há pouco tempo. A consequências foram as falhas e erros apontados e a rejeição por muitos da modalidade de ensino online a distância aquando do confinamento total que obrigou ao fecho das escolas e à aplicação desta modalidade em tempo record para responder à situação imediata.

A educação não se faz apenas no sentido do ensino, mas sim na simultaneidade ensino/aprendizagem para que a aprendizagem seja estimulada. Muitos professores e encarregados de educação têm uma perceção de práticas de ensino que são representações dum passado ainda recente em que um aluno deve ser um poço de receção numa ótica do magister dixit.  Preocupam-se com o tempo que os seus alunos e educandos estão frente a um computador aplicados ao estudo e à aprendizagem, mas não se preocupam com as horas que os seus educandos estão online em “outras espécies de aprendizagens” captando e assimilando subconscientemente informação que lhes vai corrompendo a personalidade, a noção de verdade e de rigor científico.

Para muitos alunos, sobretudo os adolescentes, a verdade, deixou de ser a que professores e encarregados de educação lhes conferem, passou a ser a das redes sociais que frequentam, as pessoas e “amigos” com quem interagem horas a fio nas redes e por telemóvel.

Não é raro que muitos encarregados de educação, a maior parte das vezes os pais, face a questões que os seus educandos lhes coloquem recebam respostas como “vai procurar na net” ou “vai ver ao Google”. Causa-lhes impressão a presença dos seus filhos em casa porque, muitas vezes têm que os “aturar” presencialmente, o que é para eles um incómodo, porque pensam que, para isso, é que serve a escola. Claro que os pais têm os seus trabalhos e não podem tomar contas dos filhos, mas isso leva-nos a outros problemas que não cabem neste espaço. Para muitos pais a escola deve ser o local onde deixam as crianças e os jovens adolescentes em idade escolar e onde os vão recolher quanto mais tarde melhor. Há justificações profissionais dos pais, é certo, mas isso é outra conversa.

Há, ainda, uma evidência, não é de somenos importância, que é a impossibilidade imediata de milhares de alunos não possuírem tecnologias, devido a problemas financeiros e económicos dos seus encarregados de educação que não têm a capacidade de investir em tecnologias compatíveis o que gera situações de graves desigualdades sociais comparativamente a outras que têm ao seu dispor mais do que o necessário.

Devido ao confinamento começaram a proliferar na comunicação social artigos sobre as consequências do isolamento e da falta de interações social vindos de psicólogos, pediatras, psiquiatras e até de quem, até ao momento, nunca se tenha interessado e preocupado com isso.  Tiveram a oportunidade para debater o que afeta psicologicamente crianças, adolescentes e adultos devido ao teletrabalho e ao ensino a distância online. Não nego a boa intensão e a cientificidade de todos esses especialistas, mas o que acontece é haver uma intenção destrutiva e oposicionista de cariz político extremamente conservador contra quanto saia fora das suas representações, desculpem-me estar a proferir juízos de intenção, mas é o que me fica da leitura de alguns desses artigos.

As críticas feitas ao ambiente online como sendo um espaço inadequado para ensinar e aprender vêm de encarregados de educação e de muitos professores, cansados e em stress atingidos pela exaustão e por vezes pelo burnout, e também da parte de muitos alunos que, por estarem dependentes das aulas presenciais, ficam por isso dececionados com essas novas estratégias de ensino/aprendizagem. Dizem alguns sobre a experiência que viveram, que sentem a nostalgia do espaço seguro da sala de aula, que garante a aprendizagem plena, enquanto que o ensino online é um espaço precário, incompleto, provisório.

A desmotivação dos alunos no ensino presencial também tem sido objeto de discussão. Será também difícil manter a motivação no espaço virtual de salas de aula se os alunos não forem envolvidos afetivamente nos processos de participação que lhes inspire interesse e confiança. Os professores que nas suas disciplinas insistam e se limitem à transmissão de informação e de conteúdos, mesmo que bem produzidos, e não ajudem e motivem os alunos a criar o seu próprio conhecimento, incorrem no risco de os desmotivar fazendo com que a aprendizagem não passe da teoria esquecendo o binómio teoria/prática. Há, contudo, uma vantagem do ensino presencial desde que os alunos estejam atentos e motivados: obtém-se rapidamente o retorno na resolução dos problemas que acontece com a procura do diálogo e de novas estratégias pedagógicas. No online os alunos estão à distância e apenas acessíveis por e-mail que é um meio frio, ou então pelo smartphone, se não houver acesso a videoconferência a dispersão pode ser ainda maior.

O problema não está na aprendizagem através de plataformas online. O que está a revelar a experiência neste período de pandemia é que a maior parte dos professores das escolas, mergulhados que têm estado na atividade presencial, ensina através do online de forma inadequada, muito baseada nos conteúdos programáticos dependentes do professor, deixando para segundo plano o envolvimento, a participação e a criatividade dos alunos. Dar aulas não presenciais é muito mais trabalhosa que aumenta quando se pretende manter uma interação produtiva com os alunos.

O problema não está no online, está na falta de autonomia que, no ensino presencial, não foi estimulada na formação dos alunos, está na insuficiência no domínio das competências básicas (saber pesquisar, analisar, avaliar...) e está também na gestão paternalística das aulas e da forma de ensinar: tudo é dado pronto, como ementa fechada, prato feito, com pouca autonomia, participação e envolvimento dos alunos.

Mário Santos, Investigador em Inteligência Emocional e Professor na Universidade da Madeira escreveu no jornal Económico que “Temos de ter a noção de que somos seres sociais e de que necessitamos de viver em sociedade para nos encontrarmos em perfeito equilíbrio, motor, cognitivo e emocional e por isso temo que a invasão das novas tecnologias acelerada com o aparecimento do novo coronavírus seja um motor de destruição social e que nos pode destruir como sociedade e ficarmos cada vez mais robotizados nas nossas atividades, relações, expressões e colaboração interpessoal.”

Perfilho em parte este ponto de vista que devido ao atual contexto condicionado pela covid-19 faz todo o sentido, mas isso não pode ser tomado como uma fatalidade. A sociedade vai-se adaptando à evolução. Quando até ao final dos anos 70 dominavam os grandes computadores e quando nos finais da década de 70 apareceram os primeiros computadores pessoais a penetrar em ambiente de trabalho vários pensamentos de receio quanto ao futuro que as máquinas trariam à sociedade seguiam uma linha de preocupação acerca da vida em sociedade e das relações de trabalho. Entretanto, muita coisa mudou e adaptou sem alterações catastróficas. Durante a primeira década do século XXI com a tecnologia das redes sociais verificou-se que as interações sociais se tornaram mais ativas, não apenas em rede, mas também ao nível presencial que as mesmas estimularam através da potenciação de encontros.

No que se refere às faixas etária mais baixas ao nível do pré-escolar a opção por um dos elementos da dicotomia educação em ambiente presencial/educação em ambiente online poderá ser mais problemática. Noutros casos o problema parece ser menos da tecnologia utilizada e mais das metodologias pedagógico-didáticas utilizadas porque não foram devidamente testadas para grupos de grande espetro.

As tecnologias digitais associadas às telecomunicações para aprendizagem sempre com a interação como o professor podem potencializar e estruturar novas sociabilidades e, por consequência, novas aprendizagens. As que existem são apenas circunstanciais e limitadas apenas a algumas escolas onde parece estar a ser praticado como forma complementar ao ensino presencial.

Educação online pode definir-se como um conjunto de ações de ensino-aprendizagem desenvolvidos por meios como a internet onde podem coexistir a videoconferência e teleconferência e abrange cursos totalmente virtuais e exclusivamente online sem qualquer presença física e  cursos semi-presenciais (blended learning ou b-learning) em que parte é presencial com atividades complementares fora da sala de aula com apoio da internet.

A educação online utiliza-se em situações onde o presencial não possa ser opção por motivos, por exemplo, em situação de pandemia e confinamento como aquele que vivemos, numa situação em que se deva atingir um grande número de alunos em pouco tempo, ou então por opção quando a vida profissional não deixa espaço para frequentar aulas presenciais.

No ensino/aprendizagem em rede ou a distância todos os participantes são potencialmente emissores, recetores e produtores de informações, quer sobre as matérias programáticas quer sobre problemas conexos, por vezes até pessoais, e também sobre aspetos cognitivos e dificuldades pessoais. Nestas circunstâncias encontramo-nos num contexto de ecologia da informação por estarem incluídas escolhas de caminhos e participações num denso conjunto de inter-relações entre elementos participantes, práticas, valores, hábitos, crenças e tecnologias. Na ecologia da informação o foco não é a tecnologia em si, mas sim a atividade realizada por meio da tecnologia.   Há uma interdependência entre recursos tecnológicos e atividades, cada um ajustando-se e adaptando-se em relação ao outro.

A metáfora ecológica foi utilizada por (Nardi e Vicki, Information ecologies, MIT Press, 1999) que sugere várias propriedades-chave de muitos ambientes nos quais a tecnologia é usada. Uma ecologia da informação é um sistema complexo de partes e relações. Como qualquer sistema ecológico, exibe diversidade, interação e experimenta uma evolução contínua.

As escolas são ambientes intrinsecamente ricos em informações com múltiplos fluxos convergentes e sobrepostos de informações de entrada e saída. As informações são representadas num grande número de formatos, incluindo padrões de aprendizagem, currículos, planos de aula, listas de alunos, planos educacionais individuais, políticas e procedimentos, livros didáticos, recursos online e programações de aulas todos eles relacionados entre si.

A utilização das tecnologias da informação no ensino a distância online insere-se num contexto ecológico da informação o que significa atuar num ambiente virtual, dialogar, trocar informações e experiências, tomar decisões e produzir conhecimento. Nesta perspetiva cada um que se envolva encontra-se em ligação com todos os participantes e recursos existentes que fazem parte de uma rede de interdependência constituindo uma unidade dinâmica que se desenvolve de forma relacional e pluralista.

A potencialidade da ecologia de informação em contexto educativo reside no papel ativo dos seus participantes professores e alunos que têm acesso a informações e recursos para desenvolver atividades colaborativas, dialogar com o outro e estabelecer inter-relações.  Os intervenientes tanto podem inserir novas informações como buscar as informações que lhes são adequadas. Por outro lado, cada aluno pode estar em ligação interagindo com outros sobre as temáticas que estão a ser trabalhadas. Exemplo pode ser tudo o que o professor envia ou coloca numa plataforma e os exercícios e trabalhos que lá são colocados por cada um dos alunos para avaliação pelo professor cujo resultado receberá pelo mesmo meio. 

Muito se tem falado da socialização, cuja importância é inegável, assim como da necessidade que as pessoas têm de comunicar, sejam elas crianças, adolescentes ou adultos. Em situações de aprendizagem e aquisição de conhecimento Piaget investigou que o conhecimento é construído nas interações que se geram entre o sujeito e o meio que são dependentes um do outro por assimilação que é a incorporação de elementos do objeto conhecido às estruturas existentes e por acomodação que é a transformação dos elementos assimilados modificando os seus (os do sujeito) esquemas prévios ou criando novos esquemas ou estruturas de pensamento gerando novos significados. Penso que esta tese construtivista do conhecimento não retira validade à aprendizagem online desde que interativa, antes poderá reforçar a presencial.

Os professores pela dificuldade do novo processo que lhes foi imposta pelos condicionamentos gerados pelas circunstâncias que a pandemia lhes impôs não conseguiram encontrar num curto espaço de tempo uma metodologia adequada para os seus cursos online. A maior parte, senão todos, reproduziram condições de sala de aula convencional transferindo para o virtual as conceções pedagógicas das aulas presenciais. Colocam-se no papel de professores centralizadores que, a partir textos e atividades que organizam a matéria, reforçam o papel principal do professor.

A aprendizagem online leve colocar-se numa posição mais participativa do processo educacional estimulando a pesquisa e a interação entre pequenos grupos. Em muitas escolas já foram criadas plataformas de aprendizagem que facilitam a colocação de textos, a organização de atividades em ambiente virtual para professores e alunos sem a necessidade de muitos conhecimentos prévios de tecnologias mais sofisticadas. Estas plataformas possibilitam a combinação entre aulas de vídeo, teleconferência pela internet e atividades individuais ou em pequenos grupos antes e depois das aulas sendo parte online e parte offline.

Na fase inicial de autoaprendizagem mesmo que orientada pelo professor pode existir o perigo de dispersão em situação de procura informação ao fazer navegação aleatória executada sem a consciência do que se pesquisa e sem uma tomada de decisão sobre os caminhos a seguir derivados da arquitetura de hipertexto dos motores de busca. A navegação para selecionar informações significativas de acordo com o objetivo pretendido necessita de treino.

A aprendizagem em situação presencial tem vantagens e é imprescindível porque a nossa cultura educacional assim o impõe por motivos que se prendem com a socialização das crianças em situação escolar, mas que exigem, cada vez mais, a familiaridade com as tecnologias como fator de sobrevivência no futuro. Vê-se atualmente o que se passa devido à pandemia com as dificuldades que muitos trabalhadores sentem para se adaptarem ao teletrabalho.

 A criança desenvolve-se em contexto social, são as interações e as relações com as pessoas e com os sistemas sociais que têm um papel crucial para suas aquisições e para a construção de funções psicológicas cada vez mais sofisticadas. O mundo em que vivemos é um mundo de pessoas, coisas, lugares, ações que têm significados construídos historicamente e cuja apropriação se dá no contato social. Neste sentido, pode dizer-se que é aí que o indivíduo se constrói.

Segundo Hohmann e Weikart “As crianças procuram de forma ativa os seus pares, construindo brincadeiras lado a lado, falando (ou vocalizando), observando e interagindo com os mesmos de forma lúdica, sendo que todas estas interações vão ficando mais complexas à medida que as crianças se vão desenvolvendo cognitivamente”. Podemos acrescentar também os adultos com quem interage. Consultar (Hohmann e Weikart. Educar a criança. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian 2011).

O ensino/aprendizagem online mediada pela internet pressupõe que são alunos com idades superioras ao pré-escolar, diria mesmo, acima do 2º ciclo, pelo que exige uma dimensão social que, devido à sua própria natureza, deve ter uma correspondência ideal de modo a ter em conta a perceção do outro no ambiente virtual de aprendizagem que se designa por presença social, tal como se verificam as interações sociais em ambiente real.

Presença social é um termo da psicologia que relaciona a perceção do indivíduo com o modo como ele se sente na interação com os outros.  Nas aulas a distância online e noutras interações, como a que se realiza através das redes sociais e dos meio assíncronos como o e-mail, uma das formas de facilitar a presença social pode ser através de estratégias, tais como os emoticons ou emojis, que os intervenientes utilizam para comunicar emoções e estabelecer uma ligação interpessoal.

Em aprendizagem online a perceção que os sujeitos têm sobre o grau de proximidade estabelecida entre os vários participantes (neste caso o professor e os alunos), reflete-se na dinâmica da relação entre as pessoas em presença virtual. Nesta perspetiva, tal perceção é influenciada tanto pelos meios tecnológicos como a videoconferência, teleconferência, troca de mensagens escritas entre dois ou mais utilizadores de uma rede de computadores em tempo real (chats) que promovem a interação como pelas características pessoais de cada um dos sujeitos.

Assim, presença social é então a capacidade de os participantes numa comunidade de aprendizagem online se projetarem social e emocionalmente, como pessoas reais, isto é, o grau como um sujeito é percebido como real numa comunicação online.

Alguns estudos como os de Richardson e Zittle (Examining Social Presence in online Courses in Relation to Students' Perceived Learning and Satisfaction, 2003) observaram que a perceção de presença social está relacionada com a satisfação sentida pelos alunos em cursos online. Se experimentam uma fraca ligação entre si ou com o professor sentem-se isolados e céticos em relação à aprendizagem proporcionada e, consequentemente, revelam insatisfação. Os alunos que mostram elevados níveis de presença social, apresentam maior aprendizagem e sentem-se mais satisfeitos. Por outro lado, também demonstraram que há uma relação entre o sucesso ou fracasso individual com a amplitude com que os alunos ultrapassam o sentimento de se sentirem preteridos para se sentirem incluídos.

Inquéritos efetuados a alunos, alguns anos antes da solução apressadamente criada para remediar os efeitos do confinamento dos alunos devido à covid-9 mostraram, através de questionários e entrevistas realizadas a alunos que tinham participado neste tipo de ensino (muito antes da covid), que um dos aspetos mais importantes é o comportamento do professor ou tutor. A maior parte dos alunos referiu interação regular, a proximidade emocional, o feedback imediato e construtivo, assim como o incentivo do professor para o empenho na construção de conhecimento, como aspetos que influenciam a satisfação com o curso.

Outros pontos mencionados pelos alunos que afetam a satisfação com a aprendizagem online foram falta de tempo para completar as tarefas propostas, os relacionamentos difíceis com colegas e pouca experiência com as tecnologias da informação e comunicação. Ora, depois da experiência do confinamento forçado pela pandemia o descontentamento os alunos, pelo que se tem constado, insere-se neste último ponto.

Tudo isto nos conduz ao tema que abordei, há algum tempo, durante a fase preparatória e exploratória para doutoramento em ensino/aprendizagem online cujo problemática se relaciona com a questão da presença social a que poderão aceder a uma versão resumida aqui: Presença Social Virtual-versão publicada 2020.pdf

 

 

 

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publicado às 17:16

É tudo uma questão de opção

por Manuel_AR, em 21.10.20

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Em democracia e em situação de gravidade como aquela de pandemia em que vivemos que coloca em perigo a saúde e a vida de pessoas e quando é necessário tomar medidas mais drásticas de proteção da população surgem por aí uns nervositos com traumas, sabe-se lá de quê, ou porquê, a berrar em público: “Ai que Deus, ai que Deus, estão a querer limitar-nos as liberdades democráticas e a impor-nos regras de comportamento social! Vem aí o autoritarismo! Esses querem a desbunda mesmo que perigando a sua saúde e a de outros que os rodeiam mesmo sabendo que podem propagar surtos de infeção.

Ele são contra as máscaras, ele são contra a redução de grupos, eles são contra o fecho de bares e discotecas a partir de certas horas, (faltam-lhes os copos e shots), ele são contra a redução pessoas por grupo, eles são, enfim, eles são contra tudo quanto possa limitar os perigos de contágio alegando a liberdade democrática, que duvido saibam o que seja, o atentado das liberdades individuais, (reparem que utilizo o plural). Não mais do que alegações para se mantenha a continuidade do descomedimento ainda que, temporariamente, limitado.

Para os apoiar vêm uns senhores através da imprensa e do acesso que têm aos canais televisivos adornar argumentos baseados na constitucionalidade que não são mais do que retóricas para distração da perigosa realidade que vivemos, enquanto países como a França e  na Bélgica, Reino Unido, Irlanda, entre outros já as tomaram, como por exemplo o recolher obrigatório. Situações graves requerem situações drásticas embora se deva ter também em vista a mitigação de custos para a economia e o emprego.

Não sei se alguém já se deixa convencer pelas balelas proclamadas por essas almas que, em manobras de fachada se dizem ávidas das liberdades e de que a democracia pode estar em perigo.  Alguém se deixará convencer de que com o no nosso atual regime democrático e passado o perigo da pandemia as limitações continuarão a manter-se? Simplesmente ridículo! Essas almas que tanto se proclamam contra as medidas excecionais devem estar a pensar em alguns partidos que por aí andam, de quem são possivelmente simpatizantes, e que à primeira oportunidade, se deixarmos que a tenham para aceder ao poder, a limitam sem que para isso seja necessária qualquer pandemia. Para esses que estão preocupadíssimos com algumas restrições necessárias para salvaguarda da saúde pública e numa opção de escolha façamos a seguinte pergunta de retórica. Se estivesse em perigo a vossa vida devido a doença altamente contagiosa que os conduziria à morte o que escolheriam? Manterem-se expostos à doença mortal ou uma liberdade especificamente limitada, controlada e temporária para ajudar a combater a sua propagação.

Já sabemos a fuga à resposta: isso não tem nada a ver. Tem a ver porque é esse o caso e os números mostram esse mesmo risco que, podendo não ser mortal pode deixar, senão perdas de memória, dificuldades de linguagem e complicações psicomotoras. Problemas ainda por compreender perante a complexidade de um vírus que pode afetar a recuperação de, pelo menos, 20% dos pacientes  tais como “perda de memória, dificuldades de linguagem e problemas psicomotores, as alterações cognitivas ainda por explicar na covid-19”, de acordo com artigo investigação muito recente, 18 de outubro,  que pode consultar na fonte da informação ou aqui.

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publicado às 14:25

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Andamos todos às escuras em relação aos dados que nos são fornecidos sobre a evolução da covid-19. Com isso o Governo talvez pretenda ocultar o que se passa na realidade. Se no início da pandemia acreditávamos na informação nos eram diariamente comunicados através do boletim diário da DGS e transmitido na hora nobre dos jornais televisivos hoje nem por isso, apresentam-nos dados gerais em valores absolutos e ficando sem se saber a informação ao nível desagregado.

As conferências de imprensa diárias da DGS parcialmente divulgadas pelos canais televisivos passaram a ser uma seringação sem qualquer interesse diariamente repetitivos até à exaustão e pouco esclarecedoras. Para “encher pneus” gasta-se tempo a informar sobre os lares como se fosse ali que o problema da covid-19 se concentrasse e lá fossem originados os surtos. Mais parecem manobras de diversão para distrair do que na realidade se passa no país sobre o surto pandémico.

Não pretendo com isto dizer que não se dê importância aos lares de idosos, é de facto importante e os problemas que varrem essas instituições devem ser resolvidos. Mas não é de lá que saem os problemas, o vírus não se gera nos lares, é transportado de fora para dentro provocando surtos epidémicos nos que não têm nem tiveram qualquer intervenção no caso. Após a entrada nesses locais por transmissores é evidente que também saem posteriormente para o exterior.

A população anda mal informada faltam dados importantes que não são divulgados por interesses de pura política. A não divulgação de dados desagregados ao nível da freguesia é justificada porque leva a estigmas entre as populações. Há neste argumento algo de hipocrisia. Parece que é preferível deixar a população circular em roda livre por locais com um grau elevado de potencial contaminação do que fazer alertas nessas freguesias e nas que se encontram à sua periferia. A informação não seria isso uma forma, também ela pedagógica, de levar as pessoas dessas freguesias incluindo nas periféricas a adotarem comportamentos que não sejam de risco e a protegerem-se quando para ali se deslocavam ou, inversamente, as que delas saiam. A demarcação era feita pela precaução dos  próprios cidadãos ao circularem nesses locais e não por confinamento parcial imposto.

Vejamos então alguns dos dados que a DGS não divulga. Não estão disponíveis o número diário de surtos ativos e a sua localização, assim como os dados sobre os principais locais onde o contágio está a ocorrer, dados que serviriam para alertar e tranquilizar a população. A identificação de setores profissionais onde a transmissão ocorra com mais frequência. O número de óbitos por concelho não é conhecido sabendo.se apenas por grandes regiões ao nível da ARS. Por exemplo a Região de Lisboa e Vale do Tejo (RLVT) é composta por cinco NUTS III (Sub-Regiões: Grande Lisboa, Península de Setúbal, Médio Tejo, Oeste e Lezíria do Tejo), 51 concelhos e 526 freguesias, ficando sem se saber o que se passa em cada uma das sub-regiões.

Será que é suficiente a justificação já anteriormente referida de evitar a estigmatização de locais para não haver um confinamento parcial? Há que ponderar se o que é mais importante conter a pandemia e evitar infeções sucessivas por desconhecimento de localizações de contactos ou o perigo de uma hipotética marginalização devido ao conhecimento de locais centros de surto pandémico. Se a questão do confinamento de freguesias ou bairros é, ou não, constitucional é uma coisa, outra é o que se faz para evitar a difusão por contágio de uma epidemia como a covid-19.

A difusão por contágio apenas será controlada se cada um de nós estiver com menos pessoas por dia e socializar mais à distância.

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publicado às 09:35

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A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente.


Albert Einstein


Vivemos dependentes da inexorabilidade do tempo. Ao longo de décadas impõem-nos o ritmo alucinante do quotidiano. No exato momento em que escrevo estas linhas, o tempo deixou de ser presente, pertence já ao passado. O que escrevo projetam-se para um futuro mais ou menos próximo até que eu, ou algo, as destrua, sem o que será mais uma pegada digital.


Toda a interação humana ocorre num determinado espaço e tem uma duração específica de tempo. O conceito de tempo faz parte do homem, mas para Kant, filósofo do século XVIII, o tempo não é um conceito é uma intuição, é uma forma a priori da sensibilidade, juntamente com o espaço. O tempo é uma intuição pura a priori no plano da sensibilidade, é uma noção objetiva de observação e não é extraído da experiência e é prévio a qualquer experiência.


Esse conhecimento denomina-se a priori e distingue-se do empírico, cuja origem é a posteriori, ou seja, baseado na experiência. Todavia, alguns conhecimentos vindos da experiência já são conhecidos a priori, porque não são extraídos desta, mas sim de uma regra geral, que foi de início buscado na experiência, assim Kant nomeia os juízos a priori puros, aqueles que são independentes de qualquer experiência, como o de tempo.


Filósofos de várias correntes do pensamento refletiram sobre a questão do tempo mostrando que ele indica o caminho do homem, e das sociedades como entidades coletivas do passado que foi presente, do presente que deixa de o ser quando passa a futuro que é uma continuação do presente.


Cada um de nós desde criança teve e tem o seu espaço vivido que se prolonga, alarga, estabiliza e adensa de experiências múltiplas que se quebram por descontinuidades. A primeira descontinuidade, a mais relevante, marca a passagem da adolescência ao universo dos adultos que por norma acontece através da dupla experiência do casamento e do primeiro trabalho. Esta sequência que no passado parecia imutável foi quebrada no presente pelo ritmo frenético das sociedades com a permanência na casa dos seus progenitores prolongada no tempo pela difícil procura de trabalho que abre novas relações sociais e cria rigorosas obrigações, mas que escasseia e sem remunerações que permitam uma independência para constituição de família.


O espaço vivido da idade adulta tem de se integrar num espaço ordenado que por ser cada vez mais social deixa de ser apenas pessoal e passa a alinhar com obrigações de outras pessoas e dos próximos é um problema da liberdade individual que se coloca em termos de espaço físico. Pessoas e coisas movem-se através do espaço num determinado tempo. O espaço virtual da World Wide Web com as redes sociais quebraram as barreiras do espaço físico vivido nas sociedades muito urbanizadas alcançando contactos com pessoas distantes de outros espaços e sociedades. 


A Internet veio encurtar o tempo de interações com outras pessoas independentemente do espaço e da distância em que se encontram e também alterar a perceção do tempo pela comunicação é imediata.


Ao longo da sua vida o homem alcança espaços diferentes ao ritmo do tempo e da escala das distâncias. A não ser o espaço da divisão do apartamento onde vive, cujas paredes pode alcançar apenas com o estender dos braços, o resto da casa, o bairro, o centro da cidade, a região, o resto do mundo são articulados com o quotidiano, o semanal, o mensal, o excecional, respetivamente.  


O registo da passagem do tempo é feito pela escrita através dos livros e também pelos arquivos virtuais da tecnologia digital que oferece a possibilidade de conhecer o que se passa e se passou com as pessoas, a natureza e a sociedade que servem para compreendermos a sequência dos acontecimentos. São registos de escrita sequencial, ou fragmentada pela hipertexto quando em ambiente digital, da sucessão dos acontecimentos. Todavia há uma diferença entre o que se lê e que foi registado e o que é percebido por quem lê o registo escrito; a visão do quadro descrito muda de pessoas para pessoa.  A escrita aprisionou o tempo para, ao saber o que aconteceu no passado e com os olhos no presente, tentar hipoteticamente prever “o depois”, o futuro.


O que hoje se ensina no mundo com os esquemas curriculares, obrigatoriamente lecionados nas escolas, já não será o que no futuro aqueles que se formaram irão encontrar e em que terão de atuar e intervir. Isto é tão evidente que a evolução se faz em tempo cada vez mais acelerado, exatamente o contrário do tempo demorado em que necessariamente se traduz a tentativa de integração social pela longa disciplina escolar.


O tempo condiciona em cada momento a informação que nos chega pelos meios de comunicação social. O que é verdade hoje pode não sê-lo amanhã e que deixa de ser presente passando a pertencer ao passado pelo que, no presente, podemos desmentir verdades que já o foram no passado.


 O jornalista, o cronista, o analista, o ensaísta e o cientista vivem o presente e servem-se do passado para explicar o presente, fazem prognósticos sobre o futuro, mas, quando leio o que escreveram ou disseram já é do passado.


O processo de registar o que se passa no tempo envolvendo simultaneamente os sentidos da audição e da visão, o audiovisual (os outros sentidos são acionados pela imaginação), é a televisão e o seu registo em videotape. Através deste meio o fator tempo entre um facto e o conhecimento público foi eliminado pelas reportagens em direto, gerando reações imediatas, muitas vezes emocionais. Muito tempo depois do facto acontecido, e conhecido pelo público, o registo em filmes ou videotapes possibilita reviver o acontecimento registado no passado. É o tempo aprisionado. Pela leitura temos de fazer um esforço para criar um quadro mental para reconstituição do facto, com o audiovisual temos o registo total. Revemos os acontecimentos e tomamos consciência como se estivéssemos presentes e dá-nos a sensação de sermos participantes do acontecimento. A televisão introduziu um elemento na noção de tempo. O tempo não pode ser parado daí o haver um histórico do passado o que a televisão possibilitou é registar o que acontece de maneira a poder repetidos como se fosse o original.


A televisão vista de forma global levanta-nos outro problema: a identidade nacional dos países. Os canais emissores estrangeiros transmitidos e controlados pelos grandes centros podem atingir os menos influentes e poderosos que começam a moldar a reação pública de acordo com os interesses de quem transmite, o que facilita que um grupo humano, em contacto contínuo com outro grupo humano de cultura diferente, adote os valores e práticas culturais desse outro grupo. O peso do que é enviado pelos canais transmissores à escala planetária atinge todos os países e Portugal não escapa a essa espécie de aculturação a distância.


Entre as várias questões que se levantam colocam-se duas que me parecem importantes e para as quais se procuram respostas: qual impacto da invasão pelos meios de comunicação televisivos e internet? O que acontecerá ou (o que está a acontecer) à identidade nacional face à massiva divulgação de hábitos, crenças, conhecimentos e orientação política vinda do exterior num contexto do interesse nacional dos produtores e emissores de conteúdos?


A assimilação pelas novas gerações de novos hábitos, modas e inovações que se desvia das culturas autóctones é facilitada por via da televisão e da internet e ainda pela facilidade de deslocação a outros países devida aos baixos custos de viagens aéreas low cost e a programas do tipo Erasmus.


O conceito de geração é mais amplo do que o conceito de idade e está estritamente associado


a influências de normas, fruto dos diversos papéis sociais exercidos ao longo da história. A noção clássica de geração fazia referência ao conjunto de pessoas que, por terem nascido no mesmo período histórico, receberam ensinamentos e estímulos culturais e sociais similares e, por conseguinte, têm gostos, comportamentos e interesses em comum. Isto é, definia-se geração como sendo o grupo de indivíduos que sucederam aos seus pais.


Nos últimos 50 anos assistimos a uma aceleração temporal quanto ao modo de fazer as coisas e aos modos de produção com o desenvolvimento das tecnologias que se marcaram sucessivamente no tempo. O intervalo entre uma geração e outra ficou mais curto. Hoje, já se pode falar em uma nova geração a cada dez anos. Os jovens que nasceram cercados pela internet e ligados o tempo inteiro cresceram. Eles têm entre 18 e 34 anos e são o futuro. Isso significa que mais pessoas com visões “diferentes” estão a conviver na escola e no mercado de trabalho.


As gerações não se avaliam apenas por cortes demográficos num determinado tempo. Envolvem segmentos sociais em que estão envolvidas relações familiares, relações entre amigos e colegas de trabalho, entre vizinhos, entre grupos de desporto, artes, cultura etc. Implicam estilos de vida, modos de ser, saber e fazer, valores, ideias, padrões de comportamento, graus de absorção científica e tecnológica.


As duas gerações anteriores cresceram num tempo histórico em que foram agentes ativos e conscientes da construção e consolidação da liberdade e da democracia. As gerações atuais são preponderantemente passivas e pouco ou nada contribuem para a identidade nacional que deve ser uma obrigação moral de todas as gerações e não estão a ser preparadas para serem a solução para os problemas que terão de resolver num futuro que está colado ao presente. Manifestam-se e reivindicam sem apresentarem soluções concretas, pedem às gerações anteriores que os geraram e que hoje os governam e nos governam que resolvam os problemas, mas não se envolvem, preferem que outros o façam. Pretendem liberdade plena sem responsabilidade.


Ocorrem-lhes momentaneamente ímpetos súbitos de indignação sobre algo traduzidos em movimentos de massas que esmorecem ao fim de algum tempo. Manifestações que servem para desencadear movimentos de rua temporários e curtos onde se extravasam emoções. Quando não são construídos movimentos com base sólida e ações concretas e objetivas resultam numa mão cheia de nada. As forças políticas e os seus aliados que reagem às reivindicações têm uma capacidade imediata de reação com mais poder de dissuasão, quando não abafar e levar ao esquecimento, mesmo que temporário, e à exaustão qualquer ação reivindicativa.  


Apresento um exemplo sobre as questões ambientais que foi o caso de Greta Thunberg cujo movimento parece ter adormecido limitando-se de momento a dar pequenos apontamentos de entrevistas como a que em junho de 2020 a deu à BBC sobre o movimento "Black Lives Matter aquando da manifestação anti racista devido à morte de George Floyd. Greta disse nessa entrevista que “não será um plano de recuperação ambiental que resolverá, por si só, todos os problemas, sendo necessário os decisores dedicarem à pandemia e aos problemas sociais a mesma atenção que vêm dando às alterações climáticas.”


Mais uma vez entra em jogo a questão do tempo presente e futuro traduzidos em espera para tomadas de decisão. Uma espécie de paragem do tempo, como se isso fosse possível! Para mim é uma questão de crença que, com a quebra drástica da economia e do crescimento provocados pela covid-19, mais uma vez os problemas ambientais e sociais vão ser enviados num saco para a arrecadação das prioridades.


Há problemas no nosso país para os quais que nos governa fecha os olhos esperando que o tempo passe mantendo-se sem que qualquer intervenção. No dia 13/07/2020 o Jornal das 8 da TVI passou uma pequena peça que deixou no ar algo que parece ser muito grave que as autoridades admitem e até apoiam, ao qual ainda não foi objeto de investigação.


A peça com o título “Estufas esgotam recursos hídricos da Costa Vicentinatrata do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e da Costa Vicentina que está a comemorar 32 anos e onde, longe vão os tempos, as paisagens eram naturais e hectares de plástico não manchavam toda a zona que se quer natural.


Os jovens vivem num presente constante, ininterrupto, sem futuro, pensando que vivem um presente que se traduz numa espécie de eterna juventude. Desdenham o passado, não se dando conta da velocidade a que a sociedade, movida apenas pelo lucro e pela imagem virtual dada pelas redes sociais, acentuando individualismos. Submetem-se às importações que lhes impõem todos os meios de comunicação social induzindo-lhes, valores, atitudes e modos de viver. É a utilização do veículo juventude como meio de aculturação.


Os conflitos de gerações dão-se entre os seus progenitores, o passado, e eles, o presente que eles vivem e que outros lhes “vendem”. A complementaridade de gerações quando de dá é apenas para a necessária sobrevivência do jovem. Atualmente à medida que o tempo avança regista-se uma clara e acentuada antecipação do choque geracional que sempre existiu embora a ritmo mais lento, mas agora em idades cada vez mais jovens.


Este é o tempo da pandemia da Covid-19. O presente cria-nos uma permanente ansiedade, mas também uma mera sensação de esperança no futuro quando conhecemos a informação do passado quanto ao número de infetados se juntam ao número dos anteriores infetados e óbitos. Haver recuperados é bom, mas o seu número não nos protege. Os recuperados que foram infetados com Covid-19 no passado continuam a pensar no futuro segundo, minuto, hora, dia, em que poderão voltar a ficar infetados porque não há evidência científica disponível à data, para confirmar se as pessoas infetadas com o SARS-CoV-2 desenvolvem imunidade protetora.


As investigações do presente são contraditórias e desatualizam-se no tempo em menos de vinte e quatro horas em alguns casos. Fazem-se outras que ficarão de imediato também desatualizadas.


O espaço pessoal é o espaço físico que os indivíduos mantêm entre si e os outros e varia entre a distância íntima para relações estreitas, a distância para encontros formais e a distância pública quando se enfrenta uma audiência. O tempo da Covid-19 é o tempo do espaço social restringido a que chamam distância social. Quando se sai à rua ou nos deslocamos a qualquer lugar o que importa é acautelar o futuro, o futuro imediato, não o presente, o nosso e de outros familiares ou não.


Os jovens são desafiantes do perigo e juntam-se em perigosos delírios gregários violando as regras de distanciamento social verificado pelos jovens mais velhos que parecem apresentar uma maior tendência a correr riscos e sentem que não vale a pena seguir as diretrizes.


É impressionante o quanto os(as) adolescentes mais velhos(as) se destacam em termos de violação das regras de distanciamento social com atitude extremamente negativas para, numa atitude distópica extremamente negativas criticarem a ordem social e/ou a política existente.


A necessidade de gregarismo dos jovens levanta dúvidas se expressa uma tendência natural, que os leva a desafiar as imposições necessárias para contenção da pandemia ou se será função de contingências adaptativas em face de situações de insegurança e decorrentes de ansiedades,  de motivações pessoais, egoísticas ou ainda e motivações sociais e altruísticas?


A mentalização dos jovens para os problemas da vida adulta começa mais cedo, e cada vez mais cedo. Pretendem que as suas reivindicações de emancipação sejam agora e já, no presente e para o futuro, sem regresso. O tempo leva-nos também à questão de qual o tempo da maturidade necessária para a emancipação. O presente dos jovens é o imediatismo.


Recordo-me de, quando ainda na universidade, e muitos também ainda se lembram do tempo em que os professores assistentes eram considerados jovens quando a maior parte deles ainda não tinham chegado aos 30 anos de idade; hoje os estudantes já não os consideram jovens e tendem a incluí-los no outro grupo, o dos não jovens.


Há políticos que quando no poder por questões de angariação de apoios tendem a virar as gerações umas contra as outras com ideias simplistas incutindo a ideia de que uma geração beneficia de um bem-estar económico à custa das outras. São os que acicatam os do presente e os do futuro contra os do passado. Afinal os do presente que conseguiram os privilégios que os do passado conquistaram para eles e que no presente pertencem ao grupo de privilegiados falhados que nasceram na abundância, que sempre viveram em liberdade e que dizem nada terem a ver com as gerações anteriores, os do passado. Há uma espécie de consciência de grupo nos jovens das sucessivas gerações que sugerem a ideia de um corte com o passado, mas que continuam a viver no seio desse passado do qual se querem afastar. Ouçam este podcast da Antena 3 “Pão para Malucos”.  


A invenção de léxicos ressonantes com que alguns pretendem representar a evocação de uma geração que terá na mão o futuro do mundo são verdadeiros truísmos. É o caso do neologismo millenials com que pretendem designar a geração que terá na mão a gestão e a governação do mundo. É óbvio que na linha do tempo e devido à finitude do ser humano todas as gerações terão, algum dia, o futuro do mundo nas mãos, seja a geração do milénio ou qualquer outra que se lhe siga.


Para os da nova geração de 2001 a 2020 a geração dos anos 1981 a 2000, os tais, millenials já são velhos, pertencem ao passado. Os millenials começam já a ficar ‘velhos’ e a ser suplantados por uma nova geração nascida após 1996 que é problemática pelas suas conceções de vida que lhes foram induzidas e pelas distorções de perceção que geram.


Bourdieu, sociólogo francês, disse em 1983 que é uma manipulação utilizar o termo juventude para falar de jovens como se fossem uma unidade social, um grupo constituído, dotado de interesses comuns e relacionar esses interesses a uma idade biologicamente defina. No entanto, a questão central é a de explorar não apenas as possíveis ou relativas similaridades entre jovens ou grupos sociais de jovens em termos de situações, expectativas, aspirações, consumos culturais, mas também as diferenças sociais que entre eles existem decorrentes ou não das classe sociais das famílias a que pertencem. Os jovens não se englobam e agrupam numa mesma geração ou grupo não podem englobar-se numa mesma geração (num mesmo grupo) e que apesar de contemporâneos e terem a mesma idade e de serem portadores do sentimento comum de se encontrarem em presença de outras gerações na sociedade identificam-se a si mesmos como pertencendo, por exemplo, a classes sociais, grupos ideológicos ou grupos profissionais diferentes.


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Fonte: Purdue University Global


Especialistas das áreas de antropologia e sociologia tentam identificar seis gerações apesar de alguns perigos e equívocos devido a generalizações devido a diferenças que pendentem do universo de estudo: a Maior Geração, Geração Silenciosa, Baby Boomers, Geração X, Geração Y e Geração Z. Cada geração possui seu próprio conjunto exclusivo de características e normas. Por exemplo, a Maior Geração (nascida em 1901-1924) é conhecida por seu patriotismo, trabalhadores esforçados e lealdade às instituições. Os millenials (nascidos em 1980-2000) são caracterizados por sua dependência de tecnologia, distanciamento das instituições tradicionais, otimismo e mente aberta. Não é de admirar que muitas pessoas de diferentes gerações tenham dificuldade em se entender.


Começa a manifestar-se agora uma outra geração progressista destinada a salvar o planeta do apocalipse ecológico e da ganância capitalista, algo que as velhas gerações anteriores não quiseram fazer, ou então não souberam fazer. Mas não se muda o mundo à espera de que surjam ideias novas que o venham a transformar, venham elas de que geração vierem. Ou elas surgem com as gerações que temos no presente para preparar o futuro ou, então, quando a tal geração millenials e seus descendentes nos governarem deixar-se-ão minar como os seus antecessores ou então já estaremos todos mortos se a mudança verificar.


Se olharmos para o passado vemos que a anterior geração possibilitou a democracia terminou com totalitarismos em muitos países. Mas, se olharmos para as últimas 3 décadas (com um decréscimo apenas em 2009 devido à crise financeira) essa mesma geração que governou o Mundo contribuiu para a pobreza generalizada, para o enriquecimento de uns poucos que possuem a maior parte da riqueza global e para o neoliberalismo desregrado como modelo económico que causou a maior crise financeira e económica do século XXI.


As gerações que serão responsáveis por decisões no futuro estão a ser educadas para desdenhar o coletivo e a centrarem-se no interesse particular e individual para uma competição sem limite.


É intuitivo que o passado influencia o futuro e marca as diferenças entre gerações por taxas de mudança acelerada na sociedade, contrariamente aos desenvolvimentos lentos na sociedade do passado em que diferenças entre gerações não eram exacerbadamente relevantes.


Os avanços tecnológicos e sociais que ocorreram a partir de meados do século XX e durante o século XXI o estilo de vida de indivíduos com uma geração de diferença é drasticamente diferente um do outro e a taxa de mudança acelerou a limites tais que conduziram também a elevadas taxas de stress e de burnout.


Não se pretende uma guerra entre gerações, pretende-se complementaridade, mas para isso há que a juventude, adolescentes incluídos, percebam os momentos em que deve haver limites nas atitudes que os amarrarão e marcarão durante toda a sua vida. O hiato de geração refere-se a diferenças de ações, crenças, interesses, experiências de vida, visões do mundo e opiniões que marcam cada uma das diferentes gerações. Então, o que causa essas diferenças?  Há eventos históricos significativos que moldaram e moldarão no tempo cada geração.

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publicado às 17:59

Despreocupação, desvairo ou deslumbre?

por Manuel_AR, em 23.06.20

Coronavirus_Lisboa.png


À custa disso estamos a abrir demasiado as “portas” e o perigo é estarmos a traçar o caminho para que Portugal venha a ser considerado um Corredor do Covid-19.


Portugal pode ser excluído da lista de países considerados seguros pelo Reino Unido. Segundo o The Times, a lista inclui países como França, Espanha, Grécia, Itália e Turquia, mas Portugal é objeto de um “debate intenso” devido ao recente surto no Algarve.


O que se tem vindo a passar na RLVT - Região de Lisboa e Vale do Tejo após o alívio do confinamento especialmente no concelho de Lisboa tem colocado em causa as medidas que foram tomadas inicialmente no ataque à Covid-19 e cujo poder, através do primeiro-ministro António Costa, tanto elogiou o povo português pelo seu comportamento durante o confinamento.


Como a economia não pode parar durante tanto tempo, e bem, após ter terminado o confinamento parece ter-se entrado numa desbunda a que chamam as medidas para entrada numa nova realidade em que as medidas tomadas são plenas de contradições.


Ontem no Jornal da Oito da TVI foi entrevistado o presidente da Câmara de Lisboa Fernando Medina sobre as diversas questões relacionadas com o aumento de infetados pelo Covid-19 na Região de Lisboa e Vale do Tejo e no concelho de Lisboa. Medina teve um desempenho inseguro e pouco convincente nos seus argumentos sobre o controle da epidemia e sobre a vinda da “Champions League”. Sobre este último o argumento de Medina foi o de Portugal e Lisboa passarem a ser conhecidos no estrangeiro. Resta-lhe perguntar à custa de quê?


Foi ainda infeliz ao comentar o pedido de cerca para Lisboa dizendo que “Salvador Malheiro estava com saudades de ir à televisão”. Salvador Malheiro até pode ter exagerado, mas o argumento de Medina foi fraco. O líder do PSD, Rui Rio, veio criticar as palavras do presidente da Câmara de Lisboa. Em causa está o desafio lançado pelo autarca de Ovar, que defendeu a criação de uma cerca sanitária na Área Metropolitana de Lisboa para conter a propagação do vírus.


A realização da final da Champions League em Lisboa, onde nos últimos tempos surgiram vários surtos de  Covid-19, está a causar polémica. No entender do primeiro-ministro, Portugal foi o escolhido entre outros para a realização do evento por ser seguro. Eu tenho outra leitura, Portugal foi escolhido porque outros países o terão rejeitado e porque Portugal abrindo as portas sem controlo e a quem quiser entrar e sem quaisquer medidas de segurança à entrada seria fácil calcular que Portugal iria receber o evento de braços abertos.


António Costa acrescentou que o evento "é também um prémio merecido aos profissionais de saúde", que demonstraram que Portugal tem um Serviço Nacional de Saúde (SNS) "robusto para responder a qualquer eventualidade". Esta frase caiu como uma afronta em alguns profissionais de saúde.


Todos sabemos, pelo menos os mais conscientes do problema que não estão em causa liberdades democráticas como muitos e muitas comentadoras a que se associam comentadores de traseira nas redes sociais nos querem fazer acreditar. O problema real está na economia e concretamente no turismo que se esvaiu. À custa disso estamos a abrir demasiado as “portas” e o perigo é estarmos a traçar o caminho para que Portugal venha a ser considerado um Corredor do Covid-19. Será possível que apenas a freguesia de Santa Clara seja a única que fica em situação de calamidade por ser limítrofe de outras fora do concelho de Lisboa? Será garantido que não haja freguesia no centro de Lisboa que não representem situações de risco até devido a agrupamentos de imigrantes ou refugiados que habitam em grupos que estão sem controle sanitário?


A quantidade de novos casos na região de Lisboa e Vale do Tejo, que há várias semanas é o "motor" da pandemia no país, preocupa as autoridades. A anunciada reunião de ontem da ministra da Saúde, Marta Temido, com António Costa, autarcas e com o presidente da Área Metropolitana de Lisboa foi mais um paliativo para mitigar a crise do aumento dos contágios nos concelhos da Região de Lisboa e Vale do Tejo.


Para ajudarem a desdramatizar e a tornear a questão os noticiários televisivos centram-se, mais uma vez, nos lares de idosos como se o real problema da expansão da pandemia estivesse aí. A pedagogia deve ser dirigida aos potenciais transmissores que são os dos grupos etários mais jovens como se mostra no gráfico seguinte.


Coronavirus_Gráfico grupo etário.png


O que se verifica é que a taxa de 4% de letalidade global por Covid-19 e de 17% acima dos 70 anos como afirmou a ministra da Saúde em conferência de imprensa. Está bem e então!? O que acontece é que são eles, os mais jovens, quem contagia os mais velhos e de outras idades mais novas com quem contactam.

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publicado às 18:18


Deixar a bonacheirice de vez




(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 06/06/2020)




Clara Ferreira Alves



Em Portugal, nação valente e imortal, morre-se clandestinamente. O Presidente e o primeiro-ministro andam por aí em concertos, almoços e praias como se nada se tivesse passado, no torvelinho de regras de desconfinamento que obedecem a conveniências económicas e a contraditórias indicações da nova autoridade sobre as nossas vidas, a DGS. Posso ir ao Campo Pequeno, não posso ir à praia nem ao ginásio. Para as vítimas de covid, nem uma palavra pública e sonante.


Nem um ramo de flores. Como sempre, envergonhado, horrorizado pela sua condição de pobreza ou de doença, ou das duas, o país fez de conta que nada se tinha passado. Há enterros de covid clandestinos, morreu de quê, ninguém sabe, e pessoas que estiveram doentes e fingem que nunca estiveram doentes. Psicologicamente, os danos permanecem invisíveis e confinados, dentro das famílias. O atavismo faz de nós sobreviventes medrosos e clandestinos. Ninguém conhece ninguém que tenha morrido de covid, não vá dar-se o caso de sermos confundidos com putativos portadores do vírus. Teve uma pneumonia, não era covid, era outra coisa. Em Portugal, tudo é sempre outra coisa.


Ao contrário de países onde os mortos tiveram um rosto e um nome, aqui tornaram-se o que só acontece aos outros. Uma psicóloga veio dizer que era melhor assim, para não traumatizar. Os ricos têm horror de dizer que apanharam, exceto se tiver sido “na neve”, chique, e os pobres têm horror de perder qualquer coisinha. Incluindo o emprego ou o subsídio. Quanto aos trabalhadores da saúde, não sabemos quem teve e não teve. Nem quantos, nem onde, muito menos porquê.


Há uma razão atávica para isto, classista e estratificada na consciência coletiva, que aprecia a clandestinidade como um serviço público, assim tendo sobrevivido ao apagão da História secular e a uma ditadura, e uma razão turística para isto. Quanto menos se souber sobre o covid em Portugal, melhor. Por mais que este período aconselhasse recolhimento intelectual e pensativo sobre o futuro, sobre o clima, o ambiente, o modelo, a infraestrutura, o uso dos fundos europeus, sobre a educação e a saúde públicas, a agricultura intensiva e os usos e abusos da mão de obra imigrante, sobre as terras, as águas e o ar, sobre os meios de transporte, o que vai acontecer é o que costuma acontecer. Lisboa como a grande estalajadeira da Europa e do mundo, e Portugal como lar de terceira idade para pensionistas ricos.


O Presidente veio anunciar uma “boa notícia” lá para agosto, quando estivermos entretidos na fila do semáforo para a praia. Champions, um campeonato de futebol, pode vir cá parar. Estamos salvos. O país da Web Summit e das magnas reuniões e cimeiras, do turismo religioso e laico, o país dos estádios e recintos, marcha em frente com glória. Venham os turistas, infetados ou não porque o aeroporto vai abrir sem restrições, venham todos, somos o país covid free. Os mortos não falam. Há para aí uns surtos, em regiões sem interesse para o turismo, nos subúrbios de Lisboa e nos meios de operários e imigrantes. Estamos salvos.


A qualidade do ar em Lisboa, cidade verde, não esqueçamos, que nunca foi boa conforme atestam os medidores mundiais, em breve vai voltar a ser péssima e altamente poluída porque os carros regressam em força, e as horas de ponta também. Se pensam que meia dúzia de pistas de bicicletas vão mudar isto, pensem duas vezes. Com o desespero acrescido da paragem forçada, vamos ter o abandono de todas as regras e o salve-se quem puder. Mais alojamento local, mais barato, mais turismo, mais barato, mais voos, mais carros, mais poluição. As lojas grandes não podem abrir, dentro dos aviões voa-se lado a lado. E os turistas vão desembarcar, claro. Covid free, não esqueçam. O que são mil e tal mortos? A Grécia, menos mortos e infetados, acolheu já um avião do Qatar (a Qatar Airways nunca parou e o hub de Doha também não, sendo agora o único hub ativo da Ásia) com 12 pessoas com covid lá dentro. E recuou. Imaginem o movimento entre Portugal e o Brasil. Ou Espanha. Não interessa, covid free, enfiem-se dentro dos carros porque os transportes públicos são perigosos, e venham trabalhar. Em agosto, podemos ter Champions. E estamos em saldos.


O turismo vai ser repensado? Não. Podemos continuar a depender do turismo low cost e que consome escassos recursos naturais? Não. É assim a vida, a nossa vocação não é inventar, é servir.


Depois de tantos meses de sacrifícios e privações, regressar à normalidade significa o quê? Regressar à normal normalidade de ver Lisboa histórica convertida num parque temático onde não existia uma casa para arrendar e os alojamentos locais se tornaram, com a famosa hospitalidade, o único modelo de negócio? Ouvir as rodinhas no empedrado, esbarrar nos tuk tuks e ouvir os aviões aterrar e descolar da Portela de dois em dois minutos? Abrir as portas de par em par a todos os estrangeiros que queiram fugir de países infetados? A Tailândia, que depende mais do turismo do que nós, não abrirá à Europa e aos Estados Unidos antes do último trimestre, para acautelar novos surtos, e nós falamos de estabelecer corredores bilaterais com o infetadíssimo Reino Unido, que ultrapassou os 50 mil mortos. Aproveitando o facto de a Espanha exigir quarentena e que baixe o britânico número de mortos e infetados. Corredores bilaterais significam apenas que os ingleses desembarcam quando e como querem em Portugal, sem serem maçados pela vigilância. E nós desembarcaremos no Reino Unido? Não, obrigado, podem ficar com as praias. Ninguém por aqui passa férias em Margate ou Blackpool. E, se vier o ‘Brexit’, cada vez mais hard devido à incompetência épica de Boris e amigos, abriremos corredores nos aeroportos, para não serem maçados com a fila dos não europeus. Lá para o sr. D. Fradique é o que quiser. É este o interesse da pátria. Temos o Algarve à disposição de Vexas. E damos a água para o golfe.


Apreciar-se-ia um plano económico de um Governo que respeitasse o ambiente, diversificasse do turismo para outras formas de criação de riqueza e de investimento, pusesse um travão no desenvolvimentismo sem regras e sem gosto, preservasse regiões do Norte e do Alentejo (o Algarve perdeu-se), cuidasse do interior e das zonas costeiras, diminuísse a selvajaria imobiliária e especulativa das capitais e dos capitais e pensasse, por uma vez, não nos estrangeiros mas nos portugueses. Nos que pagam impostos e não nos que não pagam impostos. Usando os fundos europeus não para meia dúzia de compinchas do crony capitalism, ou para empresas e empreendimentos fictícios, para enriquecimento sem causa e para obscuros negócios escorados na banca e aconchegados nos escritórios da advocacia milionária.



Deixemos de vender o país a retalho a quem quer comprar, a angolanos e chineses, e de vender os esmaltes e joias. Portugal tem uma nova geração qualificada e empreendedora que não obedece às regras do passado e ousa arriscar. Está na altura de deixarmos de exportar os cérebros e empreendedores que educámos e qualificámos, os verdadeiros champions, e importarmos turistas baratos e capitalistas infames. De deixarmos de vez a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros e irremediavelmente estraga toda a disciplina e toda a ordem.



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