Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Afinal de que lado estão eles?

por Manuel_AR, em 05.09.22

Ucrânia-militares comentadores (2).png

Há uma diferença entre o comentário e a análise política dizem alguns e de certo modo estou de acordo com eles. Esclareçamos primeiramente os conceitos. Comentário político significa uma transmissão de natureza política que é projetado para promover uma discussão pública de questões políticas e pode incluir debates políticos entre pontos de vista diferentes, ou entre indivíduos com opiniões opostas, comentários de notícias, debates, etc.

A análise política é o estudo e investigação levado a cabo por cientistas políticos. A análise política pressupõe-se ser o trabalho de cientistas políticos que ‎‎estudam a origem dos sistemas políticos e como eles se desenvolvem e operam‎‎. Pesquisam e analisam governos, ideias políticas, políticas por eles desenvolvidas, tendências políticas e relações exteriores.‎

Há autores que considerem que a análise política tem três objetivos principais: conhecer o que há de importante na política, isto é, o que influencia ou determina os resultados dos acontecimentos; conhecer a diferença que os resultados políticos produzem nas nossas necessidades, tanto individual como coletivas; conhecer o que é real ou verdadeiro submetendo sistematicamente à verificação os nossos palpites, impressões, crenças populares, até mesmo rumores. Assim, uma análise política visa responder a perguntas sobre um determinado processo político, evento, assim como prever desenvolvimentos futuros.

Após a invasão da Ucrânia os canais de notícias das televisões chamaram oficiais de altas patentes das forças armadas para comentarem a invasão da Ucrânia levada a cabo por Putin. Logo aos primeiros comentários, reporto-me a março do anoa em curso, quem estivesse atento conotaria as intervenções daqueles comentadores como tomando posições pró-russas, diria antes, pro-Putin o que levou muitos a denominá-los “putinistas”.

Estes senhores generais cujos nomes não avanço aqui, mas que se sabe quem são, acham-se credenciados por terem estado destacados em missões especiais onde desempenharam funções, fosse lá onde fosse, que em nada abonam em prol das suas análises políticas porque cada contexto político e geoestratégico tem as suas especificidades. Não há situações comparáveis e esta da invasão da Ucrânia pela Rússia é, por si mesma, muito específica.

Estes senhores generais e coronéis que mais parecem ser agentes do Kremlin alinhados contra o ocidente numa atitude de apoio a Putin. Os pontos de vista deles são idênticos a outros da mesma estirpe que proliferam pelas redes sociais que dizem aos que estão contra a invasão de fazerem parte do “rebanho”.

Face às críticas que dispararam dos mais diversos setores respondem os referidos militares (na reserva?) dizendo que fazem comentários “neutrais” refugiando-se no que eles chamam doutrina militar e geoestratégica. Afirmam não querer diabolizar nenhuma das partes, mas, para quem os ouve, as suas intervenções não correspondem ao que afirmam. Banalizar um mal é um risco seja de que protagonista for, mas nos seus comentários não é mais do que banalizar o mal da guerra colocando Zelensky que, segundo eles, como o grande causador dos males da guerra.

Recuperando algumas das suas afirmações podemos avaliar de que lado eles se encontram e que, por vezes, mais parecem ser agentes infiltrados a mando de Putin mostrando compreensão das razões pelas quais Putin invadiu a Ucrânia.

Um deles afirmou num órgão de comunicação social que “o Presidente russo foi encurralado” pela NATO ao mesmo tempo que não aborda nem justifica fugindo à questão da anexação da Crimeia. Outro disse que a Rússia não ia “permitir a chacina da população ucraniana russa” em Luhansk e Donetsk, e qualificava a parte ucraniana como uma “ameaça”.

Outro ainda, usou (nos três canais de televisão) argumentos idênticos aos russos agressores, tais como “a preocupação dos russos em não causar baixas civis”, (tendo-se verificado o contrário), ao que acrescentava a desvalorização da coluna militar russa na altura paralisada perto de Kiev. Não se ficando por aqui, no dia seguinte à invasão, garantiu que os russos já estavam em Kiev e que Volodymyr Zelensky tinha fugido para Lviv, na zona ocidental. Numa entrevista e com grande desplanto um deles para se defender das críticas diz que “Não são posições pró-russas, são neutrais” e acrescenta que “Ninguém defende o Putin. É geoestratégia, é power politics”, explica com um argumento técnico. Este argumento técnico parece ser aproveitado por ele porque significa que a política de Putin é baseada principalmente no uso do poder como força militar e económica e força coercitiva e não em preceitos éticos.

Um dos militares refugia-se no argumento de que “Temos de nos meter nos sapatos deles e perceber como eles nos olham, e procurar uma solução inteligente”, para o fim do conflito, “onde ninguém perca a face”. Parece-me que para este senhor major-general temos de ficar do lado do invasor por ser uma solução inteligente.  Será assim a estratégia quando se trata de uma guerra de estratégia invasiva devermos apoiar o invasor para o percebermos? Eu, cá por mim, não percebo.

Não são comentadores, são analistas e não têm bolas de cristal, diz um deles, mas, por outro, um afirma que tem obrigação de “perceber estas operações e o patamar político”.  Conforme os conceitos de comentário e análise política que apresento no início do artigo torna-se evidente que não fazem análise política, mas uma aproximação a comentários opinativos com uma forte opção aparentemente ideológica no sentido de compreensão para com uma das partes do conflito, a de Putin.

Ucrânia-militares comentadores2.png

Estas análises(?) parecem ter estado a causar algum desagrado entre muitos que os ouvem que tem levado a publicações em redes sociais como o de um antigo inspetor dos serviços secretos de informações que escreveu em março no Facebook, umas semanas após a invasão da Ucrânia, como podem confirmar abaixo. Por ter julgado como insidiosos os ponto de vista de um dos comentadores militares ao considerar que a NATO tem “vindo a cercar a Rússia”, e, por isso, dirigiu o seu texto a “antiamericanos”, afirmando ainda que que “sob a capa de pensadores não são mais do que vozes recrutadas por esta Rússia, autocrática”. Por outras palavras também já exprimi este tipo de pensamento no blogue “apropositodetudo”.

Sobre estes comentadores militares, outro militar, antigo coronel dos comandos, também escreveu no Facebook sobre um “kamarada general potamófilo” que “vai à televisão, na pose de grande especialista”.

Um professor do ISCTE, citando uma entrevista do general, chegou a afirmar no Twitter que “tem estado tão consistentemente errado face à invasão russa da Ucrânia” o general que negou que alguma vez acontecesse o que, acabava por ser um bom indicador do que vai provavelmente acontecer – o contrário do que ele diz. Apresenta um exemplo que é uma afirmação e o título da entrevista ao DN: “As sanções prometidas à Rússia não amedrontam os seus dirigentes. E, citando o general: “Os russos pretendem apoderar-se da Ucrânia intacta. Com o menor dano possível”, horas depois o exército de Putin bombardeia a maior central nuclear da Europa.”, como escreveu o referido professor.

Ucrânia-militares comentadores3.png

Eu e muitas pessoas têm tentado explicações para as posições destes militares. Se no debruçarmos sobre as posições de alguma extrema-esquerda, nomeadamente as do PCP, podemos verificar a aproximação. Devem ser militares supostamente pertencentes à ala esquerda militar, como são, por exemplo, as do coronel Matos Costa conforme podemos verificar nos posts que escreve no Facebook.

Outras fontes explicam também a posição destes generais por alegadamente pertencerem à ala esquerda militar por alguns argumentos não serem muito diferentes dos do PCP, nomeadamente os que têm a ver com a expansão da NATO e dos ”nazis” nas repúblicas separatistas.

Nas redes sociais chegaram a ligar o major-general ao Valdai Club, um Clube de Discussão fundado em 2004 cujo potencial intelectual é altamente considerado na Rússia e no exterior. Muitos representantes da comunidade académica internacional de vários países participaram das suas atividades, que incluíam professores das principais universidades do mundo. Somente nos últimos anos, as conferências do Clube tiveram a participação de muitos líderes políticos, especialistas, figuras públicas e figuras culturais da Rússia e de outros países. Em 21 de junho de 2018 o secretário-geral da ONU António Guterres terá participado num evento do mesmo grupo, dedicado às tendências atuais das relações internacionais. Funciona como “clube intelectual da discussão que Putin leva em conta”, e que tem a participação de intelectuais estrangeiros “poucos ouvidos nos seus países”

Ana Gomes ex-deputada europeia acrescentava críticas mais radicais às posições daqueles militares ao escrever no Twitter.

Ucrânia-militares comentadores4.png

Um dos generais disse que vê o acontecimento de forma neutral e que ser neutral não é ser pró-russo usando os já gastos argumentos do passado sobre as ditas invasões feitas pelos EUA, como no Iraque, na Jugoslávia ou na Líbia, e acrescentava que nenhum destes países representava uma ameaça aos EUA, como a Ucrânia representa para a Rússia. Podemos perguntar no caso da Ucrânia que tipo de ameaça e quem ameaçava quem, e quem invadiu quem? Um dos militares, um coronel que escreve no Facebook, chegou a sugerir a rendição dos ucranianos.

Há os que consideram que estes militares não conseguem ultrapassar a visão extremamente pessoal de Putin, que acha que a Ucrânia não deve existir.

A 14 de fevereiro um dos generais disse numa rádio que o aparelho militar e de segurança da Ucrânia era dominado por forças de extrema-direita, nacionalistas radicais, que querem fazer um ajuste de contas com a população russa ucraniana. Narrativa muito próxima, senão uma reprodução de palavras tiradas dos discursos de Putin antes da invasão. A isto acrescentava as preocupações de segurança da Rússia, sem apresentar provas, que conduziria à guerra. Acrescentou ainda a “teimosia em não se considerarem as preocupações de segurança da Rússia”, resta sabermos onde estavam os antecedentes que conduziriam objetivamente à segurança da Rússia. Onde encontram antecedentes de que a NATO poderia invadir a Rússia mesmo que, como ele disse na altura, a NATO tenha pisado o que chamou a linha vermelha devido à possibilidade de adesão da Ucrânia. Então, segundo este raciocínio, Putin poderia ter começado outra guerra para invadir países da ex-URSS que, entretanto, entraram para a NATO.

O antiamericanismo e a rejeição dos valores democráticos liberais do ocidente revelam-se claramente em frases como: “Quando digo que os EUA têm um projeto de hegemonia global liberal, são os americanos que o dizem” e que “as pessoas acham que isto é ser pró-russo? Limito-me a regurgitar as teorias americanas”. Será que Putin quer substituir-se aos EUA e ter o seu próprio projeto global iliberal? Será o liberalismo algo a rejeitar e adotar o modelo global pró-totalitário e autocrático de Putin?

Um dos generais apresenta uma teoria da conspiração sobre a Ucrânia e, para isso, recua a 2004 e a 2014 para fazer valer os seus argumentos e, com uma visão distorcida, afirma que andaram a interferir na Ucrânia.

Sobre a Ucrânia, um major-general, para meu espanto, afirmou que em 2014 houve “um golpe de estado promovido pelos americanos, que instalaram um grupo de revanchistas, nazis, que iniciaram uma política xenófoba dos diferentes grupos étnicos” e que “os EUA andaram a interferir na Ucrânia de forma assertiva desde 2004 e que a revolução de 2014 foram eles que a fizeram.

Estes senhores militares que se dizem isentos, mas que se colocam do lado do invasor, para segundo eles o compreenderem parece que têm a memória avariada, e que, para além disso, intencionalmente, deturpem acontecimentos que contradizem as suas teses ou então andam a estudar pelos compêndios de história oficiais e obrigatórios propositadamente produzidos pelo sistema educativo da Rússia de Putin, o que é contraditório com a neutralidade que dizem ter. Claro que há informações e opiniões que desinformam e deturpam os acontecimentos divulgados por elementos que se encontram espalhados por todo o lado e que estão enfeudados ao Kremelin talvez por motivações ideológicas. Eles sabem bem que os meses de protesto na Ucrânia iniciaram-se com a oposição ao movimento do presidente Viktor Yanukovych que pretendia aumentar os laços de ligação com a Rússia.

Todavia o general não tem apontado críticas à invasão da Crimeia, nem aos nacionalistas russos do Donbas nem ao facto de os ucranianos terem preferido a esfera europeia em vez da influência russa em 2014.

O que se passou foi que Yanukovych não defendia a entrada do país para a U.E e pretendia que a Ucrânia viesse a ser um país debaixo do jugo da Rússia não tendo conseguido os seus intentos. Então, na altura, fugiu para a Rússia.  Deixou a capital e foi para Kharkiv dizendo que seu carro foi alvejado quando deixou Kiev, e, através da Crimeia dirigiu-se para o exílio no sul da Rússia. ‎Assim começou a "Revolução da Dignidade" da Ucrânia.

Em 2014 houve eleições livres após a revolução ucraniana de 2014. Poroshenko venceu as eleições com 54,7% dos votos, o suficiente para vencer na primeira volta. A concorrente mais próxima foi Yulia Tymoshenko que obteve 12,81% dos votos tendo a  participação eleitoral de mais de 60%, excluindo as regiões que não estavam sob controle do governo.

Em 2019 na segunda volta realizada entre o então presidente Petro Poroshenko  e Volodymyr Zelensky tendo este vencido as eleições com 73,22% dos votos, enquanto o presidente em exercício na altura, Petro Poroshenko, obteve apenas 24,45% dos votos.

Os senhores comentadores a que me refiro pretendem levar ao engano e omitir a quem os escuta que não é o ocidente que interfere. A interferência russa na eleição faz parte dos esforços do regime do presidente Vladimir Putin para impedir o direito soberano e a determinação da Ucrânia de permanecer independente e escolher o seu próprio futuro e da sua orientação de política externa. Com desinformação e a propaganda russas que tem como auxiliares estes senhores militares que se intitula de analistas procuraram desacreditar tudo sobre a Ucrânia seguindo o manual e a semântica de Putin que pretende enquadrar a Ucrânia como um Estado fracassado dirigido por fascistas e simpatizantes neonazis.

Este mesmo senhor major-general puxa dos galões da sua sabedoria devida a funções de diretor da cooperação regional da NATO, a reuniões com um general posteriormente chefe das Forças Armadas russas e ainda diretor da Divisão de Cooperação e Segurança Regional na qualidade de responsável pelo planeamento estratégico da cooperação militar da NATO com a Rússia, Ucrânia e Geórgia. Talvez, por isso, daí venha a sua posição pró-Putin.

Muito mais haveria para escrever sobre estes senhores que em entrevistas têm tentado “limpar-se dos ataques que sucessivamente lhes são dirigidos e confrontado com falsidade de factos como já aconteceu na intervenção de um deles na TVI ou na CNN Portugal.

Enfim, diz um deles “somos ‘putinistas’ só porque discordarmos do discurso oficial, de que era preciso diabolizar o Putin”. Mas afinal o discurso deles é mesmo o apoiar o pensamento de Putin nem que seja pela deturpação da verdade de factos. Pergunto: serão estes uma amostra do pensamento das nossas forças armadas?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:42

Coitadinho do PCP que tem sido uma vítima

por Manuel_AR, em 28.07.22

PCP uma vítima (3).png

A ERC - Entidade Reguladora para a Comunicação repreende a SIC, qual menina malcomportada, porque o menino PCP fez queixinha e disse que aquela menina o tratou mal. Fez o papel de donzela ofendida. O PCP quer tentar demonstrar que anda a ser perseguido, o que é no mínimo patético para não dizer caricato.

O PCP e os seus dirigentes entraram em delírio e vitimizam-se. Coitadinho do PCP fez queixinha porque a cobertura noticiosa do comício do 101.º aniversário no Campo Pequeno em março teve um “registo opinativo, que desvaloriza e ridiculariza a posição” do partido, o que contrariou o rigor informativo e a isenção a que a SIC está obrigada por lei, escreveu na altura a ERC.

O que a voz off ao dar notícia do acontecimento disse foi que “Aos 101 anos, o PCP já tem idade suficiente para dizer sempre a mesma coisa”. Eu, que desde o 25 de Abril e no tempo de líder Álvaro Cunhal tenho ouvido sempre o PCP reproduzir sempre a mesma cassete, com mais ou menos variantes consoante os momentos.

Para melhor compreender o que desvairou o PCP reproduzo o que o jornal Público publicou sobre o que foi afirmado no comício: “o PCP não apoia a guerra” e que “não tem nada a ver com o Governo russo e o seu Presidente”. Acrescenta a notícia citando a voz off que “… isso não significa que o partido apoie Zelensky, antes o critica, e afirmou ainda que Jerónimo de Sousa “repete a cartilha” quando fala da responsabilidade dos Estados Unidos na promoção da guerra. “E assim se chega aos 101 anos”, remata a voz off.

A ERC parece ter entrado no jogo do PCP pois que no comunicado diz que embora realce que não se exige que as notícias “sejam um relato neutro e acrítico dos factos noticiados” e que podem integrar uma “componente analítica e interpretativa”, considera que os comentários feitos na peça não são uma interpretação, mas uma opinião que “desvaloriza e ridiculariza a posição do PCP” assente numa “avaliação pessoal e preconcebida do jornalista”. Coitadinho do PCP!

Por fim o segundo o mesmo diário o PCP congratulou-se com a decisão da ERC e aproveitou para lamentar que este não seja um caso isolado, antes um “exemplo de práticas recorrentes de manipulação e deturpação deliberadas das posições” do partido “particularmente presentes” no grupo Impresa, nomeadamente nas coberturas eleitorais. Mas o partido também considera “incompreensível que não sejam retiradas quaisquer consequências” da decisão do regulador, que se limita a “instar” a SIC a cumprir a lei. Mais, uma vez coitadinho do PCP que é uma vítima de uma empresa de comunicação.

Quem costuma ouvir os porta-voz e os dirigentes do PCP pode confirmar que, quer nos comícios, quer ao falar aos órgãos de comunicação, são, de facto, uma espécie de cassetes repetitivas.

Sobre a questão da Ucrânia o PCP bem pode gritar e dizer em abstrato que é contra a guerra e pela paz, (era mais o que faltava dizer o contrário), e que não tem nada a ver com o Governo russo e com o seu Presidente, ao mesmo tempo que responsabiliza os EUA pela guerra.

O PCP nunca afirmou claramente que rejeita a invasão da Ucrânia pela Rússia. Limita-se a falar, tal como o Kremlin, na operação especial, agora já mudou um pouco este discurso. De facto, não houve formalmente uma declaração de guerra, mas houve, objetivamente, uma invasão para ocupação de território de outro país. Se alguém leu ou ouviu alguma declaração de rejeição clara e concreta da invasão da Ucrânia por parte da Rússia de Putin agradeço que me informe quando e onde! Pode ser falha minha.

O PCP bem pode dizer que nada tem a ver com o Governo russo nem com Putin, mas deve saber muito bem que o Partido Comunista da Federação Russa, o PCFR, apoia Putin na questão da Ucrânia.

Tudo isto sobre a queixinha do PCP à ERC é uma espécie de faz de conta para enganar incautos que também serviu para mobilizar e motivar as suas hostes internas que devem andar um pouco desmobilizadas e tristonhas. Voltou a salientar que se houver algum militante ou simpatizante do PCP que leia este “post” e que ache que o partido oficialmente condena a invasão da Ucrânia pelo Presidente da Rússia que o escreva claramente nos comentários.

Se partidos da extrema-direita lhe apanham o jeito, aliás parece que já o apanharam, como se viu na peixeirada que fizeram na Assembleia da República aquando da discussão do Estado da Nação e que ameaçaram fazer queixinha ao Presidente da República. Ou será que o PCP os quer imitar?

Por favor, senhores do PCP, não façam por perder a dignidade que sempre tiveram e que o povo português sempre respeitou, mesmo os que, racionalmente, não concordam com as suas posições políticas e ideológicas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:18

Opinião pública e sondagens.png

A formação e alteração de opiniões é feito através de mecanismos sociais e psicológicos por intermédio dos órgãos de comunicação social, também conhecidos por media, é raro provocarem mudanças de opinião. Há para alguns autores (Klapper) há um conjunto de mecanismos de formação de opinião que tende para a consolidação das opiniões preexistentes do público do que para a mudança de opinião. Estes mecanismos raramente atuam o que explica o facto de mudança de opiniões e de “conversão” a opiniões contrárias, isto é, mudanças de convicções, temporárias ou não, nos acontecimentos na área política. Estas mudanças de opinião parecem ser menores sobretudo nas passagens de uma opinião políticas ou partidária para outra sobre determinados fenómenos em que os media podem ter uma influência direta.

O recetor interpreta e adapta a mensagem ao seu contexto subjetivo, conhecimento e motivações, mas investigações têm demonstrado que a ação dos media na formação das opiniões de pessoas que não têm conhecimento ou motivações sobre um determinado assunto constataram que, sobretudo a televisão, afetava as ideias das pessoas sem conhecimentos prévios sobre um determinado assunto ou facto, mas não o das pessoas mais ou menos esclarecidas.

As possibilidades de condicionamento pelos media, se forem mobilizados por governos totalitários, como o de Vladimir Putin, por exemplo e, muitas vezes as mudanças que se vão alternando referem-se aos frustrados do sistema.

Condicionar sondagens para o lado que se pretende segue um processo muito simples que se relaciona com mudanças de opinião. Primeiramente começa-se pelos meios de comunicação social, televisão, imprensa e pelos seus colaboradores que fazem comentários e publicam opiniões. Para começar selecionam-se evidências negativas que possam ter impacto na opinião pública ainda que as mesmas sejam pontuais e suscetíveis de correção ou melhoria.

Responsabilizam-se pelas evidências ministérios ou pessoas e figuras do governo potencialmente envolvidas que possam ser menos gratas à oposição e aos media para serem sistematicamente criticados. Ao mesmo tempo convocam-se outros atores desejosos de protagonismo que comentem e façam oposição sobre o mesmo fazendo crer às audiências que não estão a fazer política e que são isentos.

Dá-se visibilidade a alguns protagonistas que passam desempenhar funções sindicais ou outras (ex. ordem dos médicos) e se mostram frente a manifestações anti ministros ou elementos do governo.

Diariamente repete-se a mesma matéria até à exaustão com algumas variantes de ocasião. Interrompendo-se sempre surjam outras notícias alarmantes que se sobreponham e as façam passar para segundo ou terceiro lugar no alinhamento noticioso até à recuperação do anterior tema logo que possível ou necessário. Por exemplo, durante os incêndios as referências à urgências de obstetrícia deixaram de estra em primeiro plano. Aparentemente parece que a matéria anterior deixou de ser importante. Logo após voltarão ao mesmo.

Fazem-se repetições exaustivas e desgastantes para os intervenientes e personalidades visadas. Uma ou duas semanas depois encomendam-se sondagens. Alguém tem dúvidas dos resultados? Convidam-se personalidades para entrevista nas televisões que possam ajudar a induzir as suas opiniões no público.

Está iniciado um processo de indução à opinião pública para os fins pretendidos: mostrar que o partido do governo está em queda e desgastado e que a oposição está em alta.

Estamos em democracia, não há dúvida, mas estes métodos são utilizados também em regimes totalitários. Numa democracia são aceites estes métodos desde que não haja interferência direta do poder na comunicação social. A formação da opinião pública de acordo com interesses vários atravessa todos os regimes.

Em síntese esta espécie de exposição seletiva serve para captar o público para critica e oposição podendo-se desta forma iniciar o desgaste e a oposição aos governos de modo a auxiliar também partidos da oposição a fazê-lo na luta partidária que possa levar num futuro mais ou menos próximo à ocupação do poder, através de eleições obviamente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:25

 

  

Será a censura que incomoda Pacheco Pereira? | Nota da Direcção | PÚBLICO

O que revelam os debates

A racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates.

José Pacheco Pereira num artigo de opinião publicado no jornal Públicode faz uma análise dos debates que, de certo modo, coincidem com os meus pontos de vista enquanto telespectador atento.

Os intervenientes nos debates partidários, assim como os comentadores que se lhes seguem, preocupam-se mais com pontos de vista efémeros do que com a verdade e a isenção, sobre assuntos muitas vezes longe das suas áreas de competência profissional. São uma espécie de relatores do que se viu, mas, de acordo com a sua idiossincrasia ideológica e partidária avaliam positivamente os intervenientes que mais dela se aproxima podendo assim influenciar o público o sentido de voto.

O que revelam os debates

(José Pacheco Pereira, in jornal Público, 08/01/2022)

A racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates.

Numa campanha eleitoral que se passa quase exclusivamente na comunicação social, os debates televisivos, mais de 30, acabam por ter mais importância do que se fossem mitigados por eventos de campanha, que a pandemia hoje não permite. (*) Já escrevi e repito, apesar da fúria de alguns jornalistas e gente de agências de comunicação que precisa de os bajular: uma campanha eleitoral totalmente dependente da comunicação social abre caminho a perversidades. Não se trata de mediação, que é suposto ser uma função fundamental da comunicação social, trata-se de opinião, de manipulação, de parti-pris, simpatias e antipatias escondidos sob a intangibilidade da condição profissional. Não é preciso ir mais longe do que a recente campanha interna no PSD em que a maioria dos jornalistas e órgãos de comunicação social fez campanha por Paulo Rangel e contra Rio. A coisa foi tão evidente que não é preciso dar exemplos, mas, se for preciso, abundam.

Os debates, quando não têm um interlocutor suplementar que interfere de forma agressiva no debate, prejudicando-o (como se passou em debates da SIC em que parecia que havia um terceiro participante na campanha), na parte em que há um genuíno frente-a-frente são reveladores e podem ter um papel na opinião traduzida no voto. Eles revelam, em primeiro lugar, as qualidades e defeitos pessoais dos antagonistas, traços de carácter por detrás da encenação, o que sabem ou não sabem, a inteligência, a capacidade de clareza, a riqueza vocabular, a cultura política ou a sua ausência, a experiência e aquilo a que os sociólogos chamam background assumptions, as ideias, preconceitos, gostos, que estão por detrás do discurso público. Nisto os debates são razoavelmente eficazes, e a logomaquia dos comentários posteriores pode ser útil na sua revelação e escrutínio.


É, no entanto, verdade que essa torrente de comentários, mesmo os melhores - porque muitos não têm pés nem cabeça e resultam em “notas” absurdas para mostrar como são originais os “professores” ou são exercícios de La Palisse –, se tornam em grande parte desnecessários porque os espectadores apreendem com facilidade este aspecto da comunicação, que é empático e por isso imediatamente transmissível. Por exemplo, a frieza de Catarina Martins e Rui Tavares, o cansaço de Jerónimo, a habilidade de Costa, os labirintos em que se enreda Rio, a agressividade monocórdica de Ventura, tudo isto se percebe de imediato, seja quais forem as simpatias que se tenha por cada um deles.

Depois, há um outro nível, que é o da racionalidade, normalmente num exercício de “revelação” do outro, em que o grande e o único exemplo foi o de Rui Tavares face a Ventura. Mas a racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates. Quando Cotrim de Figueiredo disse que o Bloco de Esquerda era o “Bloqueio de Esquerda”, designação trazida no bolso de casa, acabou por conseguir que ela fosse repetida nos títulos comunicacionais – porque era para isso que tinha sido preparada –, mas por outro lado mostrava que nada mais do que dissera valia a pena repetir.

Ventura, que foi a personagem-chave nos primeiros debates pelo estilo agressivo, pareceu dominar, mas esse aparente domínio revelou algo que lhe é prejudicial, a repetição de acusações, invectivas, afirmações de peito cheio, mas de cabeça vazia, vai perdendo eficácia à medida que os debates com ele são sempre a mesma coisa. O seu único sucesso foi com Rio, que ele enredou em directo, com todos os outros ficou a falar sozinho, sem ter nada para dizer. Também aqui o debate mais conseguido foi o de Rui Tavares.

Aquilo para que os debates pouco servem é para discutir propostas ou programas de governação, com o tempo curto de mais para pensar e discutir a sério. Numa atitude hipócrita, a comunicação social está sempre a queixar-se de que não se discutem os “problemas dos portugueses”, porém aceita um modelo que impede qualquer discussão, mas que é bastante para o espectáculo, para os truques e armadilhas preparados. A rigidez da legislação eleitoral tem também um papel, ao multiplicar de forma absurda o número de debates para assegurar artificialmente a igualdade das candidaturas.

Há também um outro aspecto que é negativo nos debates tal como estes se têm desenvolvido. A obsessão de os transformar em combates, que é comunicacionalmente mais atractivo, impede que se tracem as “linhas vermelhas” com propostas antidemocráticas que o crescendo populista está a colocar em cima da mesa. Ora o populismo é a grande novidade na vida política portuguesa.

Não adianta chamar fascista a Ventura, que não o é, mas sim um extremista de direita, que já basta como epíteto e é mais correcto, mas já se ganhava alguma coisa se ele fosse confrontado com as suas propostas antidemocráticas que ele debita como se fossem “normais”. Um exemplo é a de “cortar” os lugares de “políticos” pela metade, ou a de cortar os salários dos deputados para metade, que parecem populares, mas que são intrinsecamente antidemocráticas. Alguém lhe explica que nos milhares de lugares “políticos”, nas autarquias, por exemplo, a esmagadora maioria não são remunerados, mas o sinal de uma dedicação à causa pública, ou uma democratização da participação popular? Ou que a demagogia sobre os salários dos políticos, conduz a que haja apenas candidatos desqualificados para quem qualquer salário é bom, ou lobistas ricos com rendimentos que não precisam de ganhar um tostão para beneficiar do acesso ao poder? Ou pura e simplesmente dizer-lhe que numa democracia há o primado da lei, e que as garantias de defesa e do ónus da prova são para todos, assassinos e corruptos incluídos. E que penalizar os “crimes de colarinho branco” com o dobro das penas dos assassinos é uma perversão da justiça, por muito que os seus apoiantes salivem com os “casos” de corrupção e se revelem indiferentes aos crimes de ódio. Em tudo isto e muito mais, tem havido falta de coragem para confrontá-lo, porque estas posições só são populares quando não se combatem com a intransigência da democracia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:31

A propósito de: Quem sou eu para comentar?

por Manuel_AR, em 10.12.21

Jornalismo e política.png

Quem sou eu para comentar, bem ou mal, o que doutos professores catedráticos, comentadores, experimentados políticos, conceituados jornalistas, analistas políticos (que proliferam nos canais de televisão), sindicalistas, bastonários de ordens profissionais que fazem política pró- partidária, cientistas, e muitos outros. Uns sentados nos bancos do serviço público e outros que se movem no mundo das instituições privadas onde praticam elaborações de leis e defesas de alta corrupção, mas que escrevem e proferem opiniões sobre tudo, mesmo sobre o que não dominam, nos vários órgãos de comunicação social, da imprensa à televisão.  Lançam sabedoria que o público admira e consome. Sendo, conhecidos, sobretudo, pelos seus prognóstico e oráculos, obtidos por canais privilegiados e informais de amigos do governo ou de fora dele.  Conjetura-se que transacionem informações sobre processos de investigação criminal em segredo de justiça e, como troca, entra-se no jogo do dás-me isso e eu dou-te aquilo.

Quem não têm amigos e conhecidos em postos chave há intermediações a fazerem-lhes chegar às mãos informações privilegiadas para em seguida emitirem opiniões escritas ou verbalizadas de algo que desconhecem sobre pessoas públicas que têm uma reputação a defender. É extraordinário que ninguém lhes pergunte pelas provas do que afirmam com tanta certeza, que ninguém pergunte onde estão os factos que justificam as suspeitas, enfim, que ninguém pergunte nada, apenas suspeições. É o velho aforismo da mentira tantas vezes repetida que passa a ser verdade.

Parece-me vir a propósito a forma como vejo de fora a imprensa e a televisão a formatarem e a lançarem para o público a informação editada. Por muito que se diga o contrário os media e os jornalistas são atores políticos que muitas vezes seguem subtilmente agendas partidárias ou ideológicas consequentes das especificidades editoriais.

A relação entre os órgãos de comunicação social e a política acentuou-se consideravelmente de tal forma que é impossível conceber a política sem a existência de um ambiente jornalístico, notando-se da parte dos políticos, sobretudo, quando num governo, envidarem esforços para controlar as margens de incerteza resultantes de um relacionamento dinâmico com a opinião pública. Um caso paradigmático é a falta de estratégia para controle de danos, para alguns deixado ao acaso dos acontecimentos, como aconteceu com o ministro António Cabrita.

Atualmente a ferramenta mais eficaz para comunicar com o público, ou melhor com os eleitores, é a televisão que, no entanto, é mediada/conduzida por jornalistas. Em última análise, empresas mediáticas que se orientam por valores e princípios distintos daqueles que são defendidos por poderes democraticamente eleitos, passa a haver uma tensão latente entre os media e esse tal poder político, sobretudo quando este não é da “simpatia” de algumas redações. Isto passa-se com um qualquer candidato seja ele a líder partidário, a ministro ou a primeiro-ministro de um governo quando não é o preferencial por um determinado órgão de comunicação.

O desagrado com alguns políticos e práticas políticas, com determinado governo ou com um primeiro-ministro pode manifestar-se num ataque cerrado por parte do media. É frequente a insistência diária e sistemática sobre o mesmo assunto, nomeadamente das televisões, a incidência em aspetos negativos sobre uma qualquer figura pública da política, atuação ministerial, mau funcionamento de instituições e falhas em determinada área como forma de colocar em desfavor a opinião pública considerando tal atitude como a de escrutinar o poder.

Em democracia o escrutínio do exercício político dos governos e do poder político, são uma das mais importantes e legítimas funções do jornalismo, mas a liberdade de imprensa não é um privilégio dos jornalistas, mas sim uma condição da liberdade de expressão dos cidadãos visto estes só poderem captar um conjunto muito limitado de acontecimentos.

Os jornalistas não foram eleitos nem representam oficialmente ninguém, mas têm um contrato informal com os cidadãos numa espécie de procuração que lhes confere o dever de zelar pelo cumprimento dos valores democráticos e denunciar as suas falhas, através de uma informação isenta e verdadeira. Sublinho isenta porque considero ser óbvia a verdade e a isenção no jornalismo sério.

Por vezes alguma comunicação social atua tendenciosamente através da procura e da insistência em factos marginais para desacreditar na opinião pública um cidadão ou um poder político porque pertencem a uma dada área partidária e ideológica que pretendem atacar.

Um caso evidente e atual e que tomo como exemplo do que refiro são as falhas nos serviços de saúde públicos, tema sensível na opinião pública, que têm sido são diariamente salientados durante o atual Governo mesmo durante a contingência das vagas da crise pandémicas. Os meios de comunicação não devem, nem podem, tentar omitir os problemas que se passam no SNS que acho devem ser noticiados nos limites do bom senso e do não alarmismo. Alguns dos problemas no interior dos serviços do SNS que nos chegam como telespectadores fica-se com a perceção de que são por vezes organizados para criar instabilidade sobre o sistema e as ordens dão uma ajuda, mas quando o poder pertence a uma área ideológica da sua “preferência” os mesmos media manifestam mais complacência para com os problemas detetados e dados como notícias marginais.

Vejamos o caso mais paradigmático quando, durante o Governo PSD-CDS com Passos Coelho primeiro-ministro, a esquerda o pelos cortes no SNS. Durante esse período órgãos de comunicação afetos à direita que, pressurosamente, publicam notícias, comentários e opiniões favoráveis omitindo, na altura, os reais problemas.

Situemo-nos então no caso do SNS ao tempo do Governo de Passos Coelho. Quando em janeiro de 2015 Passos justificava que a qualidade do SNS não podia ser aferida pelas falhas registadas que coincidiram com o período de crise no país e reconhecia que a pressão e o escrutínio mediático criavam muita pressão.  Sobre o agravamento nas urgências hospitalares, Passos dizia na altura que "não se confunda o que se está a passar, se passa em Portugal" com o que "se tem passado noutros países" de "uma forma anormal, desafiando a capacidade instalada e a qualidade dos profissionais".

O que se verifica hoje apesar da pressão causada no SNS pela pandemia covid-19 é que sindicatos e ordens de médicos e enfermeiros que se juntam para fazer coro nos órgãos de comunicação que diariamente e com presteza por via do SNS pretendem atacar o Governo.

Também em janeiro de 2015 durante o Governo de Passos Coelho num debate com o primeiro-ministro na Assembleia da República a dirigente Catarina Martins do BE criticava Passos por não ter apresentado "uma única medida que o Governo tenha tomado para contrariar o descalabro na saúde", recebendo apupos da bancada do PSD. Acrescentava então: "Poupou-se despesa no SNS, mas não se pouparam vidas e isso não se pode desculpar a um Governo e que "Poupou-se despesa no SNS, mas não se pouparam vidas e isso não se pode desculpar a um Governo". Foi esta a intervenção da dirigente da extrema-esquerda durante o debate quinzenal no parlamento: "Quero saber de que cortes na despesa é que se orgulha, três dias antes de ter morrido uma pessoa sem assistência no Hospital de Santa Maria, a diretora das urgências disse que não tinha meios, nós temos pessoas a morrer nas urgências sem assistência".

Com o presente Governo socialista já demissionário e na antecipação da campanha contra o PS o  sinal dado pelos órgãos de comunicação as para as criticas ao SNS, que já tinham sido iniciadas pelas ordens dos médicos e sindicatos independentes, que também fazem política partidária, foram reforçadas em junho do corrente por Passos Coelho que, segundo a TSF, numa intervenção de mais de 50 minutos, acompanhada na primeira fila pelo candidato à Câmara de Lisboa Carlos MoedasPassos Coelho apontou "um paradoxo" à esquerda no domínio da saúde em particular.

"Seria imperdoável que a esquerda, que diz ser que é uma espécie de 'alma mater' do SNS o esteja a desqualificar desta maneira e que seja a o que se chama de direita sempre a tentar salvar a situação e ver se lhe consegue dar sustentabilidade". Criticava o que o que chamou de "estatização" do SNS, que considera ter resultado na falta de atração dos profissionais e na degradação de equipamentos e serviços prestados.

Durante a apresentação do livro de um militante do PSD este afirmou que Passos nunca cortou no SNS. E janeiro de 2021 no jornal Observador o dito militante apresentou uma série de generalidades e medidas avulso como medidas tomadas por Passos Coelho para melhorar o SNS que iam da “manipulação inteligente do sistema informático” que “que pôs todos os médicos a receitaram por princípio ativo genérico”, e na poupança em exames e medicamentos sem interesse clínico efetivo, “alargou os horários dos médicos para 40 horas, aumentando assim a oferta de mais horas médicas e poupando em horas extra, que pode ler aqui, coisa que os médicos posteriormente contestaram. Recordo-me daquela altura em que os médicos de família com receio reduziam os medicamentos e os exames aos utentes ficando sem meios de diagnóstico eficazes como aconteceu comigo.

Recorde-se que em 2008, durante o Jornal Nacional da TVI, em campanha para a liderança do PSD Manuela Ferreira Leite e Passos Coelho, candidatos à liderança do PSD, declaravam-se a favor do fim do Serviço Nacional de Saúde (SNS) tendencialmente gratuito para todos, defendendo que sirva quem tem menos recursos e Passos reforçava então que "concordo com este princípio de acabar com a universalidade na área da saúde e não só". Isto era a proposta para um SNS para pobres e outro para ricos, isto é, o fim de um SNS universal.

Tenho observado ao longo dos anos que os órgãos de comunicação social serem mais condescendentes, muitas vezes por omissão, com as falhas e os erros dos governos de direita e ávidos predadores sempre ao ataque quando os governos são do Partido Socialista moldando de forma mais ou menos direta, a perceção que cada um de nós tem da realidade em que se insere. Deste modo, os jornalistas deixam de ser mediadores e transforma-se em contrapoder e em produtores de opinião pública e a perceção com que ficamos pode ser uma armadilha lixada. Ainda que os factos seguramente nos digam uma coisa, temos a capacidade de construir sólidos argumentos excecionais para sustentar o contrário, se para isso formos levados.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:27

Televisões generalistas-Carta aberta.png

Porque já várias vezes me questionei sobre os pontos incluídos nesta carta aberta resolvi divulgá-la aqui, neste blogue ,apesar de, provavelmente, muitos já tomaram dela conhecimento.

Sabemos também que comentários dos críticos a esta carta aberta tentam descredibilizá-la porque os signatários, ou porque não pertencem ao mesmo ”clube” dos críticos, ou porque pretendem, como tantas vezes é habitual, defender com mentira ou desdenho da verdade dos factos que eles próprios verificam mas negam.

A carta aberta foi publicada como artigo de opinião no jornal Público em 23 de fevereiro de 2020.

 OPINIÃO

Carta aberta às televisões generalistas nacionais

Como cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.

23 de Fevereiro de 2021, 0:30

Sabemos que há uma pandemia – e que o SARS-CoV-2, em vez de se deixar ficar a dizimar pessoas no chamado Terceiro Mundo, resolveu ser mais igualitário e fazer pesadas baixas em países menos habituados a essas crises sanitárias.

Sabemos que não há poções mágicas – as vacinas não se fazem à velocidade desejada e as farmacêuticas são poderosas entidades mercantis.

Sabemos que, mesmo cumprindo os cuidados tantas vezes repetidos – distância física, máscara a tapar boca e nariz, lavagem insistente das mãos, confinamento máximo –, qualquer um de nós, ou um dos nossos familiares e amigos, pode ser vítima da doença e que isso causa medo a todos, incluindo a jornalistas, fazedores de opinião e responsáveis de órgãos de informação.

Sabemos também que os média estão em crise, que sofrem a ameaça das redes sociais, a competição por audiências, as redações desfalcadas, os ritmos de trabalho acelerados impostos aos que nelas restam, a precariedade laboral de muitos jornalistas.

Mas mesmo sabendo tudo isto, assinalamos a excessiva duração dos telejornais, contraproducente em termos informativos. Não aceitamos o tom agressivo, quase inquisitorial, usado em algumas entrevistas, condicionando o pensamento e a respostas dos entrevistados. Não aceitamos a obsessão opinativa, destinada a condicionar a receção da notícia, em detrimento de uma saudável preocupação pedagógica de informar. E não podemos admitir o estilo acusatório com que vários jornalistas se insurgem contra governantes, cientistas e até o infatigável pessoal de saúde por, alegadamente, não terem sabido prever o imprevisível – doenças desconhecidas, mutações virais – nem antever medidas definitivas, soluções que nos permitissem, a nós, felizes desconhecedores das agruras do método científico, sair à rua sem máscara e sem medo, perspetivar o futuro.

Sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo

Mesmo sabendo a importância da informação sobre a pandemia, não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS, as pseudonotícias (que só contribuem para lançar o pânico) sobre o “caos” nos hospitais, a “catástrofe”, a “rutura” sempre anunciada, com a hipotética “escolha entre quem vive e quem morre”, a sistemática invasão dos espaços hospitalares, incluindo enfermarias, a falta de respeito pela privacidade dos doentes, a ladainha dos números de infetados e mortos que acaba por os banalizar, o tempo de antena dado a falsos especialistas, as entrevistas feitas a pessoas que nada sabem do assunto, as imagens, repetidas até à náusea, de agulhas a serem espetadas em braços, ventiladores, filas de ambulâncias, médicos, enfermeiros e auxiliares em corredores e salas de hospitais. Para não falar das mesmas imagens repetidas constantemente ao longo dos telejornais do mesmo dia ou até de vários dias, ou da omnipresença de representantes das mesmas corporações profissionais, mais interessados em promoção pessoal do que em pedagogia da pandemia.

Enfim, sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo.

Consideramos inaceitável a agenda política dos diversos canais televisivos generalistas, sobretudo no Serviço Público de Televisão.

Como cidadãs e cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.

Subscritores

Abílio Hernandez, Professor universitário; Alberto Melo, Dirigente associativo; Alfredo Caldeira, Jurista; Alice Vieira, Escritora; Ana Benavente, Professora universitária; Ana Maria Pereirinha, Tradutora; António Rodrigues, Médico; António Teodoro, Professor universitário; Avelino Rodrigues, Jornalista; Bárbara Bulhosa, Editora; Diana Andringa, Jornalista; Eduardo Paz Ferreira, Professor universitário; Elísio Estanque, Professor universitário; Fernando Mora Ramos, Encenador; Graça Aníbal, Professora; Graça Castanheira, Realizadora; Helder Mateus da Costa, Encenador; Helena Cabeçadas, Antropóloga; Helena Pato, Professora; Isabel do Carmo, Médica; J.-M. Nobre-Correia, Professor universitário; Jorge Silva Melo, Encenador; José Rebelo, Professor universitário; José Reis, Professor universitário; José Vítor Malheiros, Consultor de Comunicação de Ciência; Luís Farinha, Investigador; Luís Januário, Médico; Manuel Carvalho da Silva, Sociólogo; Manuela Vieira da Silva, Médica; Maria do Rosário Gama, Professora; Maria Emília Brederode Santos, Pedagoga; Maria Manuel Viana, Escritora; Maria Teresa Horta, Escritora; Mário de Carvalho, Escritor; Paula Coutinho, Médica intensivista; Pedro Campiche, Artista multidisciplinar; Rita Rato, Directora do Museu do Aljube; Rui Bebiano, Professor universitário; Rui Pato, Médico; São José Lapa, Actriz; Tiago Rodrigues, Encenador; Vasco Lourenço, Capitão de Abril

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:14

Audiências e jornalismo de investigação

por Manuel_AR, em 12.06.20

Jornalismo_investigação.png


Para com a televisão somos todos crédulos e somos levados por quem pensamos que é politicamente honesto e que nos vende ideias, ideologias e nos sugere algo para alcançarmos aquilo que supomos ser a verdade.


A justificação por jornalistas de falta de liberdade de imprensa e de liberdade de expressão são por vezes refúgios para quando, numa reportagem, se ultrapassam limites cujo bom senso leva a avaliações limitadoras da emissão de uma reportagem de jornalismo de investigação, como várias vezes já tem acontecido.


Há cerca de duas semanas li no jornal Público que Ana Leal que tem um programa dedicado ao jornalismo de investigação na TVI foi suspensa por divulgar emails trocados com a direção. A defesa acusa o Conselho de Redação de censura. Está em causa, até agora, “a divulgação ao conselho de redação (CR) da TVI de e-mails particulares entre a jornalista e a direção do canal”.


A defesa de Ana Leal acrescenta que “está em casa, a receber vencimento, mas sem atividade atual na TVI – explica ainda que está em causa uma questão de “liberdade de imprensa e de expressão”. Na altura, ainda afirmou que, “não há fundamento para a suspensão ou processo disciplinar. Há divergências editoriais normais e acho que esta ação de a suspender e promover um inquérito é pouco compatível com o espírito de liberdade de imprensa e expressão que devem reinar”.


Desconheço as razões para os fundamentos, ou não, da sua suspensão. Apesar de o tema não ser de somenos importância tal facto não me interessou e apenas serviu de mote para a preparação deste comentário.


Não é a primeira vez que ao entrarem em conflito com as direções de informação, redações e setor editorial estas são acusadas por jornalistas de fazerem censura interna, de falta de liberdade de imprensa e de expressão. Não sei se tal se verifica ou não, mas o conceito é demasiado forte e pode confundir-se com a prática do bom senso, ou falta dele, quanto às reportagens ou parte delas feitas pelos jornalistas destinadas a ir para o ar. Aconteceu também na RTP1 com Sandra Felgueiras com o programa Sexta às Nove. A acusação de censura pode não ser mais do que uma espécie de refúgio dos(as) jornalistas que consideram que tudo deve ser permitido, e sem limites.


Entre as televisões e especificamente no que se refere também ao chamado jornalismo de investigação parece existir uma competição entre canais e os próprios jornalistas de cada um deles, não pela qualidade, nem pela isenção na informação, mas pelos conteúdos que possam elevar os shares.


As peças de jornalismo de investigação não têm primado pela qualidade e isenção porque tem como objetivo o impacto sensacionalista que capte audiências que, por isso mesmo, mostram falta de valor informativo e técnico. As peças que vão para o ar são muitas das vezes confusas, ambíguas que em vez de informar desinformam.


Peças jornalísticas de investigação apresentadas em dias certos, conforme os canais, são dirigidas a um certo tipo de audiências mostram-nos simplesmente o tratamento de um tema chave de interesse para o momento. O “universo” do tema apresenta-se fracionado preocupando-se mais com os impactos nas potenciais audiências, e menos com a comprovação dos factos numa preocupação de pré-julgamento público através da apresentação de realidades fracionadas.


É um facto que algum desse “jornalismo de investigação” feito tipo à la carte tem o interesse de fidelizar certo o tipo de audiências. Não tem sido raro que na sequência de peças de jornalismo daquele tipo que por falta, omissão ou adulteração dos factos tenha havido protestos e até repúdio que a redação do canal emissor tarda ou se escusa posteriormente a divulgar a sua falha e quando o faz é através de comunicados da redação plenos de justificativas complicadas enunciadas em voz off.


No “jornalismo de investigação” que nos impingem não são despiciendas as conotações ideológicas numa perspetiva de revelar algo que possa prender a atenção do público por qualquer coisa que provoque escândalo ou indignação  o que interessa em determinado momento. Quanto à forma e ao conteúdo o método baseia-se em visões parciais e truncadas dos factos que respeitam a uma certa realidade destinada a instrumentalizar a opinião pública.


Os conteúdos das peças pretendem mostrar factos e provar as teses para credibilizar as reportagens nas quais se inserem entrevistas onde são selecionados extratos de frases e raciocínios truncados das mesmas que não interessem por não ajudarem a defender a tese do(a) autor(a) jornalista, oferecendo ao telespectador apenas partes de realidades descontextualizadas. Quanto à forma as peças são montadas recorrendo a artifícios de edição e a entrevistas com planos rápidos com perda da continuidade das afirmações dos intervenientes acrescido ou substituídos na narrativa em voz off. Utilizam-se técnicas da mostra de documentos e passagens de momentos alusivos que nada têm a ver com a realidade dos factos que estão a ser relatados. São inserts destinados a criar impacto no telespectador que apenas servem para preenchimento da peça, para encher chouriços como se diz.  Um exemplo: numa reportagem ao tratar um tema sobre corrupção ou peculato recorre-se na edição de vídeo não linear a inserts a notas de euro a serem contadas seguidas de novas sequências de imagens de pessoas a manusear documentos que o espectador não consegue identificar devido à rapidez dos planos que servem para o dinamismo e impacto visual da reportagem.


Os significados das imagens são obtidos quando os seus elementos são vistos e logo de seguida interpretados, assim, podem ser criados e/ou modificados de cada vez que elas forem vistas consoante o contexto sócio histórico da sua produção que influenciará a interpretação de quem as vê.


A semiótica trata da análise das relações entre uma coisa e o seu significado, quando se faz a interpretação de imagens, sejam fixas ou em movimento, com a finalidade consciente ou não de a compreender como nas reportagens televisivas. Nestas a semiótica das imagens e a análise do seu conteúdo levantam por vezes interrogações e ambiguidades que se tornam pouco esclarecedoras para os telespectadores.


Assim, geram-se narrativas audiovisuais específicas, por meio de práticas de significação, para se produzirem certos sentidos e não outros. Isto é, durante a peça jornalística dão-se aos elementos nela constantes uns certos significados, e não outros, para criar efeitos de sentido pretendidos nos telespectadores. Utiliza-se um conjunto formal de significações para dar um sentido às relações entre os elementos da linguagem que se manifestam em diversas naturezas das expressões verbais, visuais e audiovisuais.


Em muitas peças a que pomposamente atribui a designação de “jornalismo de investigação” estão por vezes intenções que passam para além dos factos e do esclarecimento do público, daí que a edição das peças com situações descontextualizadas e com a inclusão de imagens alusivas e que, por conotação com o facto, possibilitam, em si mesmas, interpretações erróneas por parte do telespectador.


Para além do cunho ideológico e político de que algumas dessas reportagens também se revestem pretende-se o efeito da eficácia tendo em vista a captação de audiências para a narrativa através de técnicas populistas e demagógicas. Utilizam-se formas, técnicas e modelos também utilizados pelos populistas para se revelarem antissistema. Um jornalista numa da reportagem não é ideológica e politicamente isento e fica sem o perceber envolvido apesar do esforço que faz para criar ao telespetador a perceção de distanciamento, imparcialidade e isenção na denúncia de corrupções, compadrios, negócios ilegítimos e outros. Em síntese, elege-se um alvo a atingir e, a partir daí, produz-se uma peça a que se dá um título atrativo e classifica-se como jornalismo de investigação.


Têm sido realizados vários estudos sobre os efeitos dos media, como por exemplo o de McDonald, Daniel G. Twentieth-Century Media Effects Research em 2004, que tratam a forma como são escolhidas as mensagens a difundir e as motivações económicas, políticas ou ideológicas dos jornalistas. Contudo ainda há quem tenha uma visão romântica do papel do jornalista que o vê a “representar a sociedade objetivamente, desinteressado e imune a qualquer influência, impossível de desviar da sua missão de informar e contar a verdade, ‘doa a quem doer’”. Porém não é assim, há quem define o que será emitido de acordo com o valor-notícia, a linha editorial e outros critérios, de acordo com os acontecimentos considerados suficientemente interessantes, significativos e relevantes para serem transformados em reportagem ou notícia.


Johan Vincent Galtung e Mari Holmboe Ruge sociólogos noruegueses utilizando uma psicologia simplificada da perceção e algumas suposições adicionais apresentaram em tempo um sistema de que descrevem eventos usados ​​como uma definição para o que deve ser notados nas notícias: a hipótese da adicionalidade em que quanto mais condições satisfaz um acontecimento tanto maior a probabilidade de se tornar notícia; a hipótese de complementaridade em que os fatores tenderão a exclui-se, pois se um fator estiver presente, será menos necessário do que outros fatores que estejam também presentes para que o evento se torne notícia; e a hipótese de exclusão em que eventos que não satisfaçam nenhum ou muito poucos fatores não se tornarão notícias. Na maioria dos casos, os dados são consistentes com a teoria. (Galtung, Johan; Ruge, Mari, The Structure of Foreign News, p.65)


As más notícias e os escândalos aumentam as audiências então, pelo efeito da negatividade, as más notícias vendem mais do que boas notícias e são mais fáceis de noticiar do que as boas. Mesmo entre as más notícias há uma certa hierarquia na preferência do telespectador que demonstra que por entre as notícias negativas umas vendem mais do que outras.


“Porque é que as notícias são como são?”. Estudos sobre métodos de seleção que definem as notícias que fazem parte de um noticiário ou peça jornalística a emitir concluíram que o processo é arbitrário e que as decisões do jornalista são altamente pessoais, subjetivas e dependentes das atitudes e espectativas de quem define o que irá para o ar e não se limitam a selecionar os temas que lhes interessam pessoalmente, mas as que eles presumem ser do interesse do público. Definem o que será noticiado de acordo como um valor-notícia, linha editorial e outros critérios por vezes mais ou menos subjetivos e ideológicos de acordo com o momento.


Em algumas peças de jornalismo de investigação a mensagem que se pretende passar está relacionada a um referente que, para além de simplesmente informar o telespectador, também pretende atingir algo ou alguém. Neste caso o referente, isto é, o assunto a que a mensagem se refere, e o tratamento audiovisual dado ao conteúdo do tema não são coincidentes.


Esta aceção pode ser bem explicada através de uma citação de António Damásio no livro “O Sentimento de Si”: “Se o leitor tiver alguém que lhe conte duas histórias comparáveis com igual número de factos e que apenas diferem porque numa delas alguns dos factos têm elevado conteúdo emocional, o leitor lembrar-se-á de um número muito maior de pormenores da história emotiva do que da outra” (António Damásio, O Sentimento de Si, 2000; p.336).


A televisão pode ser formativa, mas “o poder que a televisão tem em oferecer interpretações poderosas sobre a forma de compreendermos os acontecimentos que são escolhidos para serem notícia afetam diretamente a formação dos cidadãos”. (O Papel da televisão na Educação e na Construção Social da realidade, (2006). Revista do SNESup. Disponível em: http://www.snesup.pt/cgi-bin/artigo.pl?id=EEZuZVFyElfSrnWtRU (Consultado a 09/06/2020).


Alguns autores apontam algumas exigências que nem sempre são respeitadas encontrando-se sempre formas de as ultrapassar tais como: apresentação parcial da verdade quando se ocultam deliberadamente aspetos da realidade que impedem o indivíduo de aprender a totalidade do que foi apresentado; o sensacionalismo quando se distorcem os fatos mediante a acentuação de aspetos que provocam reações emocionais e não racionais; silêncio quando se suprimem determinadas informações necessárias nas compreensão de uma notícia; o engano quando há um falseamento da realidade. Por exemplo: quando se apresenta como uma reportagem autêntica aquilo que não é outra coisa que a imaginação do autor.


O propósito das reportagens do jornalismo de investigação deveria ser o de oferecerem temas únicos, rigorosos, profundos e analíticos dos acontecimentos recorrendo ao flashback para introduzir os antecedentes do acontecimento. Todavia são editados de modo a satisfazer o objetivo e o interesse do jornalista, por vezes até destituídas de sentido ético, no sentido de provocar polémicas na opinião pública. Assim, os telespectadores devem estar preparados para empreender uma leitura crítica do que vêem nas reportagens, o que raramente é feito.


O jornalismo de investigação precisa e deve obedecer à lei da objetividade, sinceridade e verdade. Torna-se, por isso, necessário que a comunicação transmita os factos a partir da verdade, o que muitas vezes acontece, mas, no decorrer da reportagem essa verdade vai-se tornando difusa e usa de subterfúgios ou rodeios para a tornar um valor absoluto e indiscutível conducentes a julgamentos na opinião pública. É frequente deparamo-nos em alguns casos com uma suposta coerências na informação emitida mas com uma documentação mostrada truncada e confusa.


O(a) jornalista autor de uma reportagem que deveria ser justo e escrupuloso em relação aos factos do objeto da reportagem nem sempre segue estas regras ao designar as suas “vítimas” heróis ou praticantes de atos ilegais e por vezes manifesta juízos de valor e até vereditos sobre a história que conta cometendo erros formais ou informais que descredibilizam o(a) jornalista e os meios de comunicação.


Para com a televisão somos todos crédulos e somos levados por quem pensamos que é politicamente honesto e que nos vende ideias, ideologias e nos sugere algo para alcançarmos aquilo que supomos ser a verdade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:49

Coronavirus-profetas.png


A limitação aos contactos sociais a que estamos sujeitos para proteção nossa e dos outros cria na maior parte das pessoas novos estados de ansiedade e emocionais. Até que se encontrem caminhos seguros devem ser dados apenas pequenos passos em direção à porta da liberdade. Até lá os canais de televisão e a imprensa têm-nos brindado com oráculos da desgraça que aparecem como cogumelos no espaço mediático com intervenções, entrevistas, divagações, propostas, palpites, comentários e opiniões das mais díspares e contraditórias.


Entre os que de modo imparcial e com base na ciência se pronunciam sobre a atual situação fazendo projeções com base no que a ciência conhece até ao momento, surge umas outras espécies que, de forma muitas vezes categórica, proferem sobre assuntos de que não são especialistas, mas apenas aprendizes de profetas da desgraça conforme as conveniências.


Acenam com ameaças terríveis que hão de chegar, por vezes contraditórias, pouco concisas e até redundantes que, embora possam parecer despejadas de intencionalidade, o objetivo parece ser o de influenciar, confundir e desorientar quem os escuta. Laçam para o ar medidas para responder às crise causada pelo novo coronavírus e consequente área socioeconómica, o que é  agravado pelo lixo de conselhos errados, perigosos e falsas e forjadas notícias difundidas por alienados (com objetivos obscuros) que não têm o mínimo pejo em troçar de populações desprevenidas, ansiosas e com fraca capacidade de avaliar e compreender as mensagens dos vários meios de comunicação social, ou seja, com fraca literacia mediática.


Na passada semana órgãos internacionais de comunicação social como New York Times, o El País ou o Der Spiegel dedicaram-nos artigos com elogios aos procedimentos no que respeita aos controle do COVID-19 mesmo que as coisas possam estar a correr bem, há que, para além de não aligeirar as  guardas, tentar descobrir maneiras de evitar a tempestade económica e social que se forma no horizonte. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:54

Quo vadis, democracia?

por Manuel_AR, em 27.02.20




(Texto de Carlos Esperança, 22/02/2020)


Temos de perguntar como foi possível legalizar um partido racista e xenófobo, quando a CRP expressamente proíbe a difusão da ideologia de quem se está nas tintas [sic] para a Constituição, normaliza a violência racista e subverte a democracia na AR.


A memória dos povos perde-se, ao contrário da ambição das pessoas a quem qualquer desculpa serve para ascenderem ao poder, como o vereador que Passos Coelho escolheu liderar a lista do PSD às eleições autárquicas de Loures. Ele é o íman que atrai nazis, marginais, cadastrados e intelectuais extremistas, que canalizam medos e ressentimentos contra a democracia e a moldura jurídica que a define.


É o deputado que diariamente ocupa a comunicação social que segue a velha máxima: notícia não é o cão que morde um homem, mas o homem que morde um cão. Mitómano, narcisista e incoerente, alimenta as notícias com o medo que infunde, a violência verbal que verte e o carácter amoral de quem não tem moral nem carácter.


É inútil acusar o invertebrado que defendeu uma tese humanista para efeitos académicos e a contraria para fins eleitorais. Ele viu o filão fascista que, à semelhança da década de 30 do século passado, vulgarizou os ideólogos do nazi/fascismo. Basta-lhe a falta de escrúpulos.


Engana-se quem pensa que 48 anos de ditadura, 5 de ditadura militar e 43 de fascismo, podem constituir uma vacina contra novas aventuras, quando a própria Alemanha, onde a pedagogia e repressão antinazi foram exercidas, não conseguiu impedir a ressurreição dos demónios que atormentaram o mundo e levaram a tragédia ao seu próprio povo.


Não conheço uma receita para evitar a deriva fascista que, tudo leva a crer, já entrou no aparelho de Estado, nas polícias, nos órgãos de soberania e na mentalidade de quem não sabe o que foi a tragédia da guerra de 1939/45.


O que hoje é visto com leviandade por quem julga o país imune ao regresso ao passado, passará a ser uma preocupação antes de acabar em tragédia.


Não é preciso ser bruxo.


Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:56

Realidade social e televisão.png


A televisão deveria ser uma referência de estabilidade, diante da violência da insegurança e da complexidade do cotidiano. Os telejornais deveriam funcionar como uma janela para a realidade, mostrando que o mundo circundante existe, está lá e que o mundo não se transformou num caos e a vida segue a sua normalidade. Infelizmente não é isso o que acontece, quanto mais caos e o passar do que é normal a uma anormalidade tanto melhor, porque também quanto mais audiências tanto melhor. Temos, por isso que nos capacitar da necessidade de uma leitura distanciada, mas atenta, do que as televisões e, já agora também, as redes sociais, nos dão para consumo para evitarmos ser manipulados.


Sobre o que afirmamos conhecer como sendo um facto objetivo e como uma verdade empírica, também estão envolvidos os nossos preconceitos culturais, interesses económicos, pontos de vista políticos e, ainda, as nossas crenças e perceções que também podem ser uma projeção induzida pelos meios de comunicação social, nomeadamente os canais de televisão.


Há duas realidades sociais: a objetiva que existe independentemente de cada um de nós e a realidade subjetiva contruída numa perspetiva que depende de cada um de nós que não é mais do que uma combinação de múltiplas subjetividades. A realidade é influenciada pelos meios de comunicação (imprensa, rádio, televisão, redes sociais) que leva as mesmas mensagens a múltiplos recetores cujo poder é manifesto porque uma ideia transmitida através deles pode modificar a realidade social, isto é, alterar a forma como a comunidade entende aquilo que acontece dentro da sua própria sociedade. Realidade social é então o conjunto das interações que os seres humanos estabelecem entre si e entre aquilo que os rodeia num dado espaço e tempo.  


Os meios de comunicação social, especialmente as televisões, são os que mais contribuem para informar acerca da



 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:13


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.