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Tempestade Perfeita

por Manuel_AR, em 17.02.22

Livro de Daniela Sampaio.png

“Tempestade Perfeita” um livro de Daniela Santiago a não perder.

A jornalista Daniela Santiago consegue ter a capacidade de observação e de saber ouvir e depois.  

Estou a reler, desta vez, alguns capítulos.

É um livro por onde desfilam algumas das personagens que descredibilizam a democracia, marcando-a pela negativa. Este livro dá a conhecer os que se aproveitam, como diz na contracapa, “das fraquezas da sociedade carente de valores, sedenta de políticos carismáticos e de justiça mais eficaz, para construir um discurso demagógico alavancado pela discórdia, pelas notícias falsas e por conspirações”. Dá-nos pistas para anteciparmos a onde nos poderão levar partidos como o “Chega” que têm ídolos e conselheiros defensores e negacionistas de ditaduras.

A alguns dará a conhecer os populistas e a ascensão das extremas-direita, e, a outros, a ficarem raivosos por se sentirem retratados.

Tenho para mim que no jornalismo a isenção é uma prática difícil. Mesmo na descrição de factos não é fácil conseguir evitar sinais de opinião favorável ou desfavorável sobre o observável.

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publicado às 18:54

Maria João Marques-JPúblico.png

in jornal Público, 8/02/2022

"Manual de promoção e normalização do Chega" é o título do artigo de opinião que Maria João Marques publicou no jornal Público por vezes mordaz. Tenho alguma discordância em alguns pontos do artigo pela estratégia menos radical aque acho se deveria seguir no combate a este partido, sobretudo após as eleições.Todavia respeito a opinião da Maria João e, por isso mesmo, o publico no blog. Vejo André Ventura do Chega como um D. Quixote a investir contra o que ele pensa ser um moinho de vento, que é um maléfico gigante, a democracia, que deve ser combatido e derrubado.

Não é surpresa para mim a reação de parte da direita face ao Chega, sobretudo agora que tem um grupo parlamentar numeroso na Assembleia da República. Não me surpreende porque as mesmas pessoas que se dedicam à senda de normalizar (ou mesmo defender) a extrema-direita estão somente a replicar, tal qual, a reação que tiveram com a eleição e presidência de Donald Trump. Recordo-me bem destes tempos: foi com profundo horror que assisti à satisfação com o fenómeno Trump de pessoas que considerava politicamente próximas e, enfim, decentes.

Sabemos bem que a presidência Trump descambou numa tentativa de golpe de estado (atabalhoada, violenta e incompetente, é certo) com o objetivo de subverter resultados de eleições. Mostrando que os ataques à democracia da extrema-direita não são mera fanfarronice, mas incompatibilidade real com a convivência democrática. Os normalizadores do Chega sabem-no igualmente, e ainda assim persistem em repetir os pecados da direita americana. Não os devemos considerar inocentes e distraídos agentes políticos.

As tentativas de normalização e relativização do Chega são narrativas que vão em várias linhas, todas muito sonsas. Porque a direita que promove o Chega não quer assumir que o promove e que, na verdade, não se incomoda com nada que o partido propõe e representa. Quer manter a pertença à sociedade civilizada e polida enquanto age para abrir as portas ao mundo das cavernas.

A primeira narrativa de promoção, relativização e normalização do Chega é dirigida aos que se opõem com vigor ao Chega. Não é que o Chega seja coisa boa e de aroma floral e refrescante. Nada disso. É tudo péssimo. Uns grunhos do pior. Sucede que, infelizmente, os opositores do Chega são bem mais malvados. Maus, maus, mesmo retintamente maus são os socialistas e a esquerda no geral. Desses, sim, vem o verdadeiro perigo para a democracia. Mesmo a esquerda moderada, centrista, que governa com as contas públicas mais controladas da democracia é semelhante a Mao Zedong nos seus tempos de alucinação da Revolução Cultural. Pelo menos. Uns protocomunistas impenitentes, todos corruptos ou, no mínimo, cúmplices de corrupção. Perante isto, estas sensíveis almas veem-se obrigadas a ficar ao lado do Chega para combater o mal absoluto que é o socialismo. Não é que gostem, estão a ver? Lá agora. Mas o Chega é a inconveniência menor contra o perigo vermelho que vai destruir o nosso modo de vida.

Curiosamente (ou não), as críticas ferozes e virulentas que oferecem à esquerda nunca encontram simétrico em críticas (que não fazem) ao Chega. O partido é muito mau, claro, mas de forma difusa, nunca concretizada. A indignação que oferecem à aleivosa esquerda nunca é replicada para o Chega, que é, no máximo, admoestado afetuosamente como se de uma criança endiabrada se tratasse.

A segunda narrativa é novamente dirigida aos opositores daquele produto político tóxico. Péssimo, o Chega, estamos de acordo. Mas tenham paciência, fiquem lá calados, não protestem, porque qualquer contestação só serve para o Chega se vitimizar e beneficia-o. Portanto – querem fazer-nos acreditar estas luminárias da direita – temos de estar em silêncio para derrotar o Chega. Falar, protestar, denunciar, contrariar isso tudo só serve para lhes dar pontos.

O argumento é tão tonto que custa a acreditar como é feito por pessoas com ligações significantes aos partidos políticos de direita ou opinadores conhecidos que, supostamente, querem o seu nome respeitado. Pretende fazer crer que a forma eficaz de combater a extrema-direita é deixar o Chega propor as suas enormidades sem oposição. Tratar com extrema deferência e tolerância, e ademais de forma muito institucional, um partido que diz ser antissistema e almeja destruir o sistema. Porque, supostamente, tudo o que não seja facilitar a vida ao Chega rega-lhe e faz crescer o eleitorado. Combater o Chega é, garantem-nos, responder com silêncio às enormidades que crescentemente virão daquele partido. Deixar as suas propostas sem contraposição veemente.

Obviamente pretendem condicionar e calar quem se opõe ao Chega. E permitir a este partido não ser trucidado pela opinião pública, bem como deixar as calamidades que propõem passar como se de propostas normais se tratassem – afinal ninguém rasga as vestes com elas. Mas, pronto, fica melhor no CV fingir.

As mesmíssimas pessoas esclarecidas que agora argumentam para calar quem se opõe ao Chega diziam ser erros tremendos o ressurgimento do feminismo para responder aos ataques aos direitos das mulheres que Trump e aliados praticavam diariamente, o acicatar dos movimentos antirracistas perante a deflagrada retórica racista e por aí em diante com quaisquer contestatários. Nada de protestar contra eventuais tiradas ofensivas de Trump, porque ver os democratas, as mulheres e os negros de cabeça arrebitada e voz projetada espicaçava muito potenciais eleitores trumpistas que correriam a votar só para contrariar os contestatários. Viu-se.

A terceira narrativa de promoção, relativização e normalização do Chega vai na linha de dizer que temos de respeitar os eleitores do Chega e não devemos menorizar os seus deputados eleitos. Pobres dos eleitores do Chega, que estão cheios de zangas justificadas com a vida (sobretudo os das zonas endinheiradas de Cascais) e nós temos de respeitar muito estes estados de espírito. Claro que as mulheres, os imigrantes, os ciganos, os negros, os que recebem RSI, enfim, todos os alvos dos ataques torpes do Chega não merecem semelhante solidariedade e compreensão. Esses (regressemos aos parágrafos anteriores) devem ter paciência e permanecer calados. E oferecendo respeito a quem lhes quer suprimir os direitos, se faz favor. Do mesmo modo, a qualidade de todos os deputados pode ser posta em causa (desde logo pela extrema-direita), porém não se pode reputar de menos que intelectualmente brilhantes e tremendas boas pessoas os eleitos pelo Chega, entenderam?

O manual para normalizar a extrema-direita está em uso desde os tempos de Trump. A única novidade é termos cá pessoas dos partidos ditos de direita democrática tomando as dores do Chega, partido que nem sequer é o seu, para o defender dos mauzões da esquerda. A IL em peso tomou para si a causa da eleição de um vice-presidente da Assembleia da República do Chega. Pessoas do PSD (e do defunto CDS) igualmente. Bom, é uma tomada de posição ideológica, política, de escolha de lados. Fica anotado.

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publicado às 17:51

Chega-Assembleia da República.png

Começo por citar uma passagem do livro “A Arte da Guerra” de Sun Tzu:

“Não permitas que o inimigo tome a dianteira… Qualquer negligência nesse sentido pode ter consequências nefastas. Em geral, só há desvantagem em ocupar o terreno depois do adversário”; “se os seus métodos de comando (do general) são inflexíveis, se examina as situações de acordo com esquemas prévios, se toma as suas resoluções de maneira mecânica, é indigno de comandar.”.

António Costa está a dar vantagem ao estar a ocupar o “terreno” antes do adversário. Está a dar a possibilidade para o adversário (o CHEGA) atacar por antecipação.

Não li a entrevista completa que Ângelo Correia deu à TSF-DN, pelo que apenas me refiro a uma frase que ele disse: "António Costa está a criar um mártir que se chama Chega".

Foi uma ideia que após o PS ter ganho as eleições me passou pela cabeça a seguir às palavras de António Costa quando disse que não iria   ouvir o CHEGA.  O primeiro-ministro, António Costa, começou a ouvir na quarta-feira vários setores da sociedade civil, estando prevista uma reunião com cada um dos partidos com representação parlamentar, à exceção do Chega.

Por outro lado, a comunicação social que se mostra porventura hipocritamente alarmada com a possibilidade de crescimento da extrema-direita, deu palco exagerado à questão da vice-presidência para a Assembleia da República caso que para as pessoas não tem muito interesse. Também sabemos que no Parlamento Europeu tem havido reações à extrema-direita. Como noticiou o jornal Público: “O “cordão sanitário” em torno dos representantes dos partidos de extrema-direita da UE voltou a funcionar na eleição da presidente e vice-presidentes do Parlamento Europeu e das comissões e subcomissões, a 18 de janeiro. Todos os candidatos do grupo Identidade e Democracia falharam a eleição por voto secreto.”.

Ângelo Correia deu o mote para que o CHEGA de vítima possa passar a reivindicar o título de mártir. Contudo, concordo em parte, com ele. António Costa tem que ter, como teve até aqui, a agilidade/estratégia política de, por vezes, saber engolir sapos vivos e fazer disso uma estratégia política sem abalar as suas convicções.

A democracia é frágil. É do conhecimento que, mesmo em democracias consolidadas e aparentemente robustas, é possível eleger governos de partidos que podem vir a ser uma espécie de associação extremista de direita e conseguir manter pelo populismo o apoio entusiástico de uma parte considerável das pessoas.A democracia deve estar atenta aos que investem contra ela por ser um empecilho aos seus desígnios e, quais D. Quixotes, veem nela um perigoso gigante a abater.

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Na política, por vezes, há que deixar que esses mostrem que são grandes D. Quixotes a lutar contra a democracia liberal representativa, a que chamam o sistema a derrubar que, para eles, é o seu principal inimigo.

Temos que encarar a realidade de que houve uma parcela significativa do povo que, conscientemente, ou não, votou num D. Quixote e nos seus Sanchos Pança e lhes colocou uma lança na mão.

Um político estratega que defenda a democracia não deve querer confrontar-se sozinho contra D. Quixotes para os quais, por uma espécie de doença mental, a democracia é, qual moinho, um obstáculo a derrubar. Contudo deve notar-se que não podemos deixar de estar atentos a essa doença porque o perigo existe e é alimentado pelos escândalos de corrupção, pelo clientelismo, pelas promessas não cumpridas, pela promiscuidade entre políticos, poder económico e jornalistas, pelo amiguismo que assombram as elites e passam impunes que geram o populismo que é sintoma da fraqueza democrática.  

Uma formação política que parecia insignificante transformou-se em dois anos na terceira força política em Portugal. Esta extrema-direita extremista parece estar a erguer-se sem dificuldade, com a coresponsabilidade da direita moderada que, à falta do poder e sem maioria, lá vai aceitando migalhas que, afinal, são restos do pão fabricado com a sua própria massa.

Os partidos democráticos da esquerda à direita parecem não estar a sentir o ar que se respira na Europa e que exala para o lado de cá. Os partidos da direita parecem preocupar-se mais com um partido democrático que dá pelo nome de “socialista” e mostram a incapacidade de travar uma mistura explosiva nascida da sua área. Como não querem ser a consequência lançam a causa para outros com disparates como este: “O PS já percebeu: é preciso que o partido de Ventura cresça muito mais, para ser inevitável à direita, com a consequente consolidação nos socialistas quer do voto flutuante do centro quer do voto útil da esquerda.”

Não podemos, nós, portugueses, ser a sobremesa dos partidos radicais da extrema-direita que aproveitam para crescer a partir de sentimentos dos cidadãos que respeitam os valores mais conservadores e tradicionais associados à crise económica como a perda da individualidade, a família, a nação, a religião, a identidade sexual e outros modelos impulsionados por outro tipo de radicais, os de esquerda.

A direita e a esquerda atacam-se mutuamente com expressões de fascistas, “venezuelização”, chavistas do país, comunistas, coletivização e outros disparates do género. A direita, que diz ser democrata ataca o Partido Socialista que tem demonstrado desde a revolução de abril ser um dos garantes da democracia, tenta mostrar que existe o perigo do coletivismo e da perda da liberdade e outros vitupérios, que em nada tem a ver com a realidade vivida, alinhado com os partidos mais radicais da extrema-direita à medida das circunstâncias convenientes.

A direita, nomeadamente o PSD que diz ser um pilar e um dos fundadores da democracia, para poder chegar ao poder na Região Autónoma dos Açores fez acordos de incidência parlamentar com o CHEGA. Ou seja, PSD, CDS, PPM e CHEGA, viabilizaram um executivo regional, mas de entre eles há quem se recuse a aparecer em público com elementos do partido a que se juntaram. Recorde-se que André Ventura disse que não iria governar com partidos do sistema, mas por cá, no continente, pretende por todos os meios estar presente no sistema que diz querer combater, rejeitar e mudar.

Ventura nunca se acanhou de dizer que pretendia destruir o sistema por dentro, de prometer fazer tremer o sistema para construir uma nova república. Era a já conhecida estratégia utilizada por outros da mesma estirpe na Europa, destruir o sistema por dentro. Vemos agora e a tempo que a intenção era apenas metafórica: na verdade o que quer mesmo é lugares no sistema.

A melhor forma de destruir este tipo de partidos é deixá-los estar presente para depois, dentro do sistema onde se conseguiram instalar, os desmontar, mas, para tal, é necessário que todos os partidos que se dizem democráticos de direita e de esquerda se unam nesse objetivo e que a direita democrática que dá pelo nome de PSD se deixe de ambiguidades.

De qualquer modo penso que foi um erro estratégico de António Costa excluir o CHEGA na receção dos partidos. Receber e ouvir o outro não significa aceitar, pactuar, seguir, negociar seja o que for. É assim a diplomacia interna. Receber alguém para ouvir o que tem a dizer, ainda que de antemão já saibamos o que vamos ouvir, não significa tomar chá nem dançar o tango.

Está a dar-se força ao dito partido para uma atitude de mal dizer, gritar contra a marginalização a que foi sujeito e outras frases feitas que tenham impacto em que André Ventura se especializou para que se faça eco na comunicação social.

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publicado às 16:25

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…”quem diz que os votos do Chega se devem somar aos do PSD e da IL assume que o racismo, a xenofobia, o apoio a retrocessos civilizacionais e a vontade de destruir princípios básicos do estado de direito faz parte do património político da direita portuguesa. Não faz.”

(Pedro Marque Lopes, in Facebook)

Comentários e opiniões sobre a maioria absoluta do Partido Socialista arrastam-se no resultado das eleições de 30 de janeiro. Recomendações, regressos ao passado do “socratismo” pré-troika, da troika e do pós-troika. Ele são os cavaquistas; ele são os da crença num movimento profético que surgirá em Portugal pela mão “passista”; ele são os traumatizados que viram em 2015 uma maioria relativa, mas sem maioria parlamentar, desaparecer por via de uma “geringonça” que conduziu ao desaparecimento político de Passos Coelho; ele são os que, ainda a medo e aos poucos, vão clarificando as suas opções ideológicas extremista de direita; ele são os que pretendem colar os jovens aos votos na Iniciativa Liberal; eles são os que acusam os mais velhos de terem contribuído para a maioria absoluta do PS. Há-os para todos os gostos e feitios.

As minhas previsões para a política dos próximos quatro anos vão ser anos do tipo “annus horribilis”. Não consulto oráculos, não faço profecias,  nem tomo o lugar de Pítia portuguesa, mas os próximos anos vão ser extremamente ruins.

O Partido Socialista irá confrontar-se com o circo propagandístico do partido extremista CHEGA na Assembleia da República, com as violentas oposições que virão da direita e da esquerda e pelos apaixonados, emotivos e facciosos jornalistas, natas dos artigos de opinião, comentadores em muitos jornais, rádios, televisões e por aí fora.

Não perdem tempo basta lermos, vermos e ouvirmos o que se publica e se profere, e o que ainda se publicará e divulgará na comunicação social. A espécie de “perseguição” ao Governo proveniente da maioria absoluta não seguirá dentro de momentos já está no ar.

Um outro contributo para o possível annus horribilis virá do PCP cujo seu líder, Jerónimo de Sousa, já voltou ao apelo à “luta de massas”, (leia-se luta de classes) a que, por acréscimo, irá certamente juntar-se o BE. É o contributo “democrático” destes partidos. Quando perdem lançam-se numa espécie de “contra a decisão do povo”. Não aceitam o escrutínio eleitoral. É a ditadura das massas. Não aceitam a democracia tal como ela é, não assumem a derrota e ameaçam. Aliás Jerónimo não assume erros na campanha, apenas “desvantagens”, e apela à “luta de massas”.

Haverá momentos em que as direitas que se dizem contra a esquerda radical e contra a “geringonça” irão alinhar com as duas extremas-esquerda para causarem pressão sobre o governo socialista liberal que recusa o dualismo irredutível, que sempre recusou, e prefere, a integração e o compromisso como a principal maneira de escapar tanto da armadilha extremista da direita neoliberal, quanto da coletivista.

A imprensa politicamente de direita como o Observador, o Nascer do Sol, o Novo e outros jornais, rádios e televisões já estão a postos, na atual situação pós-eleitoral com opiniões e comentários editoriais, com as escolhas das personalidades que entrevistam e que, com mais veemência, criticarão e criticam o “socialismo”, e a “ditadura do PS” e de António Costa. Até agora que até agora têm estado mais preocupados com o estado do PSD e com a perspetiva da saída de Rui Rio. Alguns até estarão muito mais satisfeitos com o desastre do PSD e com a queda certa de Rui Rio do que com a maioria absoluta do PS.

Mas temos ainda a imprensa que aconchega os partidos radicais de direita que estão contra os mais elementares direitos. Será a bem de todos os portugueses ou apenas de alguns? Veja-se esta pérola publicada no jornal Nascer do Sol:

Qual medo da covid-19, qual quê? Medo, sim, é de perder a pensão, o subsídio de desemprego ou outra prestação assistencial qualquer, o Serviço Nacional de Saúde gratuito, a escola e os livros escolares e computadores à borla, a segurança do lugar e do vencimentozinho na Função Pública, o Estado-providência e redistribuidor da riqueza que é incapaz de gerar. O resto que se dane”.

O autor da opinião fala do ‘papão’ da direita liberal que se criou. Não se engana é mesmo. E pergunta no título “Quem tem medo do liberalismo?” A resposta é fácil, muitos milhões de portugueses.

Não me interessa neste caso o contexto donde foi retirada a citação, mas é de facto isto que os portugueses de norte a sul poderão esperar de partidos orientados contra os princípios mais elementares de vivência numa sociedade democrática lançaria centenas de milhares de pessoas num gueto social e numa pobreza ainda maior do que aquela já temos.

É de facto isto o que os liberais radicais de direita pretendem quando falam em reformas do Estado. Acabar com a assistência; acabar com o ensino público e pôr os jovens a pagar propinas no privado; acabar com o SNS ou mantê-lo apenas para indigentes e passar a saúde para o privado; reduzir reformas e, se possível, acabar com elas; reduzir o Estado e os seus trabalhadores, para que os dinheiros públicos sejam desviados para investimentos privados lucrativos que, em vez de criarem riqueza como dizem, geram lucros para distribuir por acionistas. Note-se que sou a favor da iniciativa privada enquanto geradora de riqueza, mas não com a que eles não dizem, mas que está nas entrelinhas.

Deparamo-nos com alguns dos tais fazedores de opinião a darem tratamento elogioso aos novos partidos radicais de direita que entraram na Assembleia e que falam em nome de uma “juventude” que mobilizaram e do seu dinamismo e que terão, presumivelmente, com esses partidos uma “nova”, e mais eficaz, oposição. Esta argumentação é mais evidente com a IL.

A atitude dos da IL é mais galante, mais simpática, deixando esbaterem-se as “linhas vermelhas” programáticas. Em comparação o Chega não tem compostura nas relações sociais, é grosseiro, raiando a agressividade e a má educação.

Mas o problema que se coloca é a da IL vir a ser um engodo para os jovens por os fazer pensar que, por exemplo, na profissão docente ou noutra qualquer, será a IL a dar-lhes melhores perspetivas de futuro. O neoliberalismo poderá trazer vantagem a uma reduzidíssima elite de "ganhadores" das start-ups, enquanto todos os outros, os "perdedores", ficarão cada vez mais pobres. Porque é óbvio que nem todos poderão ser empresários de sucesso e se limitarão a ser trabalhadores por conta de outrem que ficarão sem instrumentos de regulamentação de trabalho.

Foi a ameaça de um Estado e de uma economia neoliberal que levaram o povo a concentrar o voto no PS e a dar-lhe a maioria absoluta e isso Cotrim Figueiredo e muitos outros não terão percebido.

O Chega não é o “fofinho” da direita, procura a senda do retorno ao passado encoberto por alguns ajustes. Defende um conjunto de medidas que vão no caminho do ensino do passado cujos “conteúdos” foram vivenciados pelos mais velhos, mas que poderá atrair os mais novos a quem o passado nada diz por terem sempre vivido em liberdade.

O professor do programa é Gabriel Mithá Ribeiro (podem ver o que ele tem a dizer sobre o ensino aqui). Claramente tem defendido a valorização da ordem, da autoridade e da hierarquia, da família e da nação, combate ao valor da “solidariedade” trazido pelo 25 de Abril que para ele é um movimento secundário face à “autorresponsabilidade”, reabilitação da história colonial portuguesa e negacionista do racismo na atualidade.

Afinal podemos ter um espírito aberto e ao mesmo tempo crítico sem, contudo, acreditarmos em tudo o que nos dizem. Podemos fazer perguntas às quais ainda não nos deram respostas objetivas.

O que propõem, ou melhor, o que prometem estes partidos que dizem ter soluções para bem do país e do povo? Falam em reformas em sentido lato; falam na reforma dos Estado sem dizer em quê e como; falam em mudar a vida das pessoas (em quê e a quais pessoas?); falam em baixa de impostos sem dizerem como e quando o farão.

Outras perguntas se podem ainda fazer: como pensam os eleitores que aqueles partidos irão contribuir para melhorar a sua vida e a do povo em geral? Por que razões defendem com tanta veemência esses partidos os seus apoiantes? Como pensam que ficaria Portugal sob o domínio desses mesmos partidos? Para o justificarem adjetivo “melhor”, sem mais nada, não serve.

Que vantagens obteriam com maiorias destes partidos? A resposta tirar o socialismo do poder não serve.  O derrube do PS e de António Costa que vantagens traria para o país e para eles próprios? Estará esta gente preocupada com o país e com as pessoas que nele trabalham e vivem? Os órgãos de comunicação social de direita e de quem com ela se identifica estarão de facto preocupados com a vida dos portugueses em geral ou com apenas a de alguns?

As perguntas parecem ser redundantes, mas é mesmo assim. Naqueles partidos as propostas também são redundantes.

 

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publicado às 18:33

Democracia e Perigo.png

Li um artigo de Luís Monteiro Carvalho publicado na “Rosa Mecânica” que me pareceu, embora com algum exagero é bom para nos fazer refletir sobfre a preservação da democracia com distanciamento e sem emoções à flor da pele que este momento propicía a todos os que a querem manter e defender, por isso, aqui o incluo.

 

Quando observamos a maioria das últimas sondagens, relativas às eleições legislativas do próximo domingo, 30 de janeiro, ficamos com a sensação de que o perigo bate à porta. O PSD aparece posicionado em primeiro lugar nas intenções de voto e o CHEGA destaca-se como terceira força política mais votada.

O perigo não é só relativamente ao facto de o PSD poder vir a ganhar as eleições e reverter ou desvirtuar tudo aquilo que foi possível conquistar com uma governação à esquerda durante seis anos, nomeadamente na educação, na saúde, na economia, no combate às desigualdades, no aumento do salário mínimo e das pensões, no clima e no combate à pandemia, através do apoio às pessoas, às famílias e às empresas. O perigo é, também e principalmente, o CHEGA aparecer em algumas sondagens, como terceira força política mais votada.

Sejamos realistas, se o PSD sozinho não for o mais votado – que é um cenário muito provável – Rui Rio precisará do CDS, da IL e, naturalmente, do CHEGA. Solução que para Rui Rio é preferencial, estando os partidos disponíveis para negociar em conjunto. Significa isto que corremos o perigo de acordar no dia a seguir às eleições com um futuro governo formado pela direita e pela extrema-direita. Um governo que reverterá medidas tão importantes, como é o caso da devolução de rendimentos às famílias. Corremos um risco que acabem com o Serviço Nacional de Saúde tendencialmente gratuito. Corremos o risco de haver um aumento e acentuação no que diz respeito às desigualdades socioeconómicas. Corremos o risco de haver uma reversão de direitos, liberdades e garantias que tanto nos custaram a conquistar.

Num cenário de vitória do PSD, ter o CHEGA como terceira força política mais votada, dará a André Ventura um maior poder de negociação política junto de Rui Rio, exigindo por isso ser Vice-Primeiro Ministro de Portugal e uns quantos Ministérios, como o próprio já fez questão de referir.

Corremos o risco de acordar com um novo regime, como o líder do CHEGA tanto ambiciona. Um regime idêntico ao dos tempos do Estado Novo num país “que nos tempos do passado se chamava Portugal suicidado”. Aliás, o próprio CHEGA usou já por várias vezes e tem no seu programa eleitoral o lema “Deus, Pátria e Família”, a trilogia da educação durante esse período negro da nossa história, doutrina defendida por Salazar, base do ensino escolar nos tempos da ditadura.

Corremos o risco de acordar com um futuro Governo onde há necessidade de ter, na sua formação, um partido de extrema direita, como é o caso do CHEGA. Um partido que tem constantemente posições atentatórios ao nosso Estado de Direito Democrático. Um partido saudosista, xenófobo, racista e que defende e incentiva ao ódio, à repressão e à perseguição de minorias e etnias. Recorde-se até que Rui Rio, há uns tempos, negou a existência de racismo na sociedade portuguesa.

Não podemos, nem devemos tolerar, esta normalização e transposição de barreiras que são impensáveis em pleno século XXI, considerando tudo aquilo que a história já nos mostrou.

O perigo bate à porta. Será isto que queremos deixar entrar no nosso País, nas nossas comunidades, na nossa casa?

Não deixemos cerrar as portas que abril abriu! Não deixemos que a semente de esperança, que deu origem ao cravo que em tempos foi plantado, morra!

Para isso é preciso votar. É preciso votar bem. Votar em quem defende um país melhor, mais justo, mais fraterno, mais coeso e solidário.

É preciso votar em quem pretende relançar a economia, em quem quer aumentar os salários médios e em quem combate, de forma exemplar, a pandemia.

É absolutamente essencial votar em quem defende contas públicas certas.

É preciso votar em quem defende a construção ou modernização de mais 100 unidades de cuidados de saúde primários e a construção de novas unidades hospitalares.

É preciso votar em quem tem ideias concretas para reduzir o peso da dívida pública no PIB.

É preciso votar em quem defende creches gratuitas, de forma progressiva, até 2024.

É preciso votar num partido que pretende aprovar as alterações legislativas para a Agenda do Trabalho Digno na Assembleia da República até julho de 2022.

É preciso votar em quem defende os apoios à habitação jovem e residências para os estudantes deslocados.

É absolutamente essencial votar num partido que garante a estabilidade e o progresso social e económico das pessoas e do nosso País.

No próximo domingo, dia 30 de janeiro, vota. Vota com responsabilidade. Vota Partido Socialista, porque só assim, todas e todos juntos, seguimos e conseguimos!

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publicado às 16:05

Falou, mas agora anda calado para não se comprometer nem contradizer, daí as balelas sem interesse que tem andado por aí lançar. O cheiro a poder e a "bazuca" mandam mais do que a franqueza e a propagada honestidade que tem andado a mostrar, tipo ratoeira virtual para caçar ratos. O seus ex-inimigos, agora ditos amigos (Montenegro, Rangel e outros) esconderam as facas que traziam para lhe espetar nas costas logo que possível tendo em vista possibilidade da ida ao pote. 

O seguinte artigo do blogue Estátua de Sal desmonta as mentiras daquele Rui Rio que diz que os outros é que são mentirosos. 

Aquilo que estás a ver não é aquilo que estás a pensar

(In Estátua de Sal, 28/01/2022)

Um saudoso amigo meu, psiquiatra já falecido, costumava contar a seguinte história, exemplificativa da capacidade de mistificação dos seres humanos. O marido, por exigência inesperada, regressa a casa a meio da tarde e dá com a esposa nua, na cama com um desconhecido. Ela, ultrapassada a atrapalhação inicial, dispara-lhe com sorridente bonomia:

– Querido, aquilo que tu estás a ver não é aquilo que tu estás a pensar.

Lembrei-me desta história a propósito das repetidas negações e reinterpretações que as declarações de Rui Rio têm vindo a suscitar. Ele diz, mas não era bem isso o que queria dizer. O malvado do Costa é que “mente” sobre aquilo que ele diz.

Ele votou contra o aumento do salário mínimo, mas é mentira quando dizem que é contra.

O PSD votou contra o SNS, quer mudar o artigo da Constituição que postula que a saúde deve ser “tendencialmente gratuita”, mas é mentira quando se diz que quer pôr os portugueses a pagá-la.

Ele, Rio, disse que “há várias modalidades de prisão perpétua” no debate com o Ventura. Mas é mentira quando dizem que ele se aproximou do Ventura nesse retrocesso civilizacional que o Chega defende.

Ele acha que os maiores rendimentos devem poder optar por descontar parte do seu rendimento para planos de reforma privados, enfraquecendo a Segurança Social. Mas é mentira quando se diz que a quer privatizar.

O PSD fez um acordo de governo nos Açores com o Chega e David Justino – em entrevista à CNN -, veio dizer que não há linhas vermelhas em relação ao Chega. Mas é mentira quando António Costa diz que Rio se propõe governar com o apoio de Ventura e da extrema-direita.

Perante estes exemplos, parece que os eleitores terão que contratar um tradutor especializado para fazer a tradução e a interpretação “autêntica” da verborreia do Dr. Rui Rio. Ele não fala o português que cada um de nós – tristes almas simplórias e incultas -, fala.

Não, ele fala um português quântico e erudito em que cada frase é uma espécie de “dois em um” e significa tudo e o seu contrário. E, tanto é assim, que entre os comentadores das televisões já se disputa o primeiro lugar no concurso de melhor tradutor e intérprete da sumidade. Neste momento, lidera o Gomes Ferreira seguido de muito perto pelo Bernardo Ferrão e pelo Bogalho.  

É por isso que me quer parecer que aquilo que os comentadores de direita atribuem a Rui Rio, como sendo autenticidade e espontaneidade, não passa de falta de jeito para mentir e para a mistificação. Ele bem tenta mas acaba sempre por lhe fugir a língua para a verdade. Ao menos Passos Coelho tinha mais jeito, como se viu em 2011: depois de passar semanas a prometer convicto a descida de impostos, mal chegou ao poder produziu o maior aumento de impostos da história da democracia.

A direita sempre recorreu à mentira e às falsas promessas para se alcandorar ao poder. Mas nunca teve o topete de nos propor um aldrabão desajeitado.

Não, Dr. Rui Rio. O senhor é mesmo um pequeno ditador com tendências de extrema-direita e de solidariedades íntimas com o Dr. Ventura, de quem se prepara para colher o apoio, sem vergonha ou engulhos maiores.

E não nos queira enganar como a adúltera da história. Aquilo que o ouvimos dizer é mesmo aquilo que diz e nos leva a não querer que venha a governar este país.

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publicado às 18:34

 

FALSO

Na rubrica Prova de Factos do jornal Público fica demonstrada a falsidade com que André Ventura tenta convencer potencias adeptos com uma espécie de rasca discussão futebolística. Assim, com a devida permissão que deveria ter e ao mesmo tempo com o pedido de desculpas ao Jornal transcrevo na integra o artigo de

Marta Martinho Oliveira, in jornal Público, 10 de Janeiro de 2022

A despesa com RSI é mais do que um terço de todos os salários da Administração Pública?

No debate com João Cotrim de Figueiredo, André Ventura disse que o gasto com RSI é “extraordinariamente elevado” e estabeleceu uma relação entre a despesa com este apoio social e o gasto com salários.

A frase

"Temos hoje um valor de Rendimento Social de Inserção (RSI) extraordinariamente elevado. Estamos a falar de mais de 300 milhões por ano. Só para as pessoas terem uma ideia é um terço, é um bocadinho mais do que um terço de todos os salários da Administração Pública.”

André Ventura, no frente-a-frente com João Cotrim de Figueiredo, domingo à noite na CNN Portugal

O contexto

No frente-a-frente, o líder do Chega foi desafiado a explicar um dos temas mais marcantes do programa eleitoral do partido e que passa pela ideia de reduzir subsídios para aumentar pensões. Um dos apoios sociais sobre o qual Ventura tem uma posição mais crítica é o RSI, que é pago pela Segurança Social a pessoas em situação de pobreza extrema. Ventura criticou a posição da Iniciativa Liberal sobre esta questão e defendeu que o país não pode “continuar a ter a bandalheira que tem nos apoios sociais”.

Os factos

De acordo com a proposta de Orçamento do Estado para 2022, que foi chumbada no Parlamento, o Governo esperava gastar até ao final do ano passado 364 milhões de euros com RSI e previa gastar 377 milhões de euros este ano. Também de acordo com o mesmo documento, a despesa com todos os salários da Administração Pública deveria ter chegado a 23.277 milhões de euros em 2021, aumentando para 24.285 milhões de euros em 2022.

Segundo dados da Segurança Social, em Novembro de 2021, o último mês para o qual há dados disponíveis, havia 97.700 famílias abrangidas pelo RSI, que incluíam 206.879 pessoas, das quais um terço (67.185) eram crianças e jovens até aos 17 anos A prestação média por cada agregado familiar apoiado foi nesse mês de 261 euros.

Em resumo

A afirmação de André Ventura é falsa. Um terço de todos os salários da Administração Pública é 7759 milhões de euros (em 2021) ou 8095 milhões de euros (usando como referência os dados de 2022). A relação certa seria: o que é gasto num ano em RSI – os tais mais de 300 milhões de euros – corresponde grosso modo a cerca de um terço do aumento de despesa com salários de toda a Administração Pública, entre 2021 e 2022, e não do total gasto com remunerações.

Falso

 

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publicado às 18:00

Debates com orangotangos.png

Li hoje um artigo de opinião no jornal Público que me pareceu ao mesmo tempo sério e com algum humor pesando, contudo, que há pontos com que não concordei. Mas isso é outra dança.

Permitam-me, previamente, esclarecer os leitores que não tenho quaisquer simpatias ideológicas nem com a opositora Catarina Martins, parte interveniente no debate, nem com o seu partido.

Há intervenientes nos debates que se comportam e exprimem como orangotangos. Isto é uma caricatura e não um ataque pessoal, nem ao caráter, mas à forma que essa gente utiliza nos debates. Também Trump nos debates com Biden se comportou como um orangotango, compara a autora do artigo.

Sei que muitos outros orangotangos, fiéis subservientes do orangotango mor, não concordarão comigo, mas ficamos quites, também não concordo mesmo nada com eles, se concordasse também pertenceria ao grupo dos ditos.

Há quem aprecie e valorize intervenientes nos debates políticos em que, à falta de projetos objetivos, e de argumentos credíveis e fundamentados, servem-se de grunhisses para fazer passar as suas mensagens. Mas, “Debater com demagogos populistas, sem educação, maneiras ou escrúpulos, que querem precisamente não debater, não é fácil”, tal como não seria fácil debater com um orangotango.

Posto isto incluo o artigo que fará os tais fiéis adeptos de peixeiradas vibrar de raiva e de ódio, único sentimento que lhes assiste. Mas também reconheço que no intervalo dos grunhidos alguma coisa, mas muito pouca, poderá ser percetível. Mas, enfim, há gente para gostar de tudo e, como diz o ditado cada cabeça sua sentença, e esta é a minha.

 

Quero alguém que saiba debater com o demagogo sem maneiras

(Maria João Marques, in jornal Público, 05/01/2022)

Nestas legislativas teremos pouca campanha de rua, à conta da quinta vaga de uma pandemia que anda por aí. Donde, os debates entre candidatos são úteis – essenciais mesmo – para passar mensagens, diferenciar projetos políticos, confrontar ideias, arrebatar eleitores. Porém, desta feita, temos uma novidade: o líder do Chega, repetindo a estratégia das presidenciais. A saber: estragar os debates em que participa.

Dos dois debates que vi com André Ventura, este portou-se como aquele miúdo parvo e abusador que vê um colega no recreio a desenhar e vai lá e risca a folha e o desenho todo. Há quem julgue esta estratégia vencedora. Não é. Os eleitores veem só o miúdo parvo, nenhum génio político. Tirando o pequeno nicho que se deleita com políticos comportando-se como orangotangos (sem ofensa para os orangotangos), os restantes veem à légua a fanfarronice de fazer muito barulho para, precisamente, não debater. O objetivo é pôr-se de fora e boicotar uma característica do regime que alegadamente pretendem destruir: os debates (mais ou menos esclarecedores) antes de cada eleição.

Claro que a estratégia não é nova, nem foi inventada por Ventura, político que de resto não tem muita criatividade própria e vai buscar quer o conteúdo quer a forma aos seus superiores – copia o já desaparecido Trump e defende obedientemente o que lhe mandam os seus financiadores. Trump, no primeiro debate com Biden para as presidenciais de 2020, também transformou o exercício numa gritaria a que a comentadora Dana Bash famosamente chamou shitshow. Nessa altura também houve quem garantisse que os urros de Trump ganharam a um aparentemente frágil Biden. Não percebem que estes produtos políticos como Trump e Ventura se derrotam a si próprios nos debates (e na política em geral).

Em todo o caso, se Ventura e Trump se arrumam a si próprios pelo nojo e desprezo que geram na maioria, o certo é que os parceiros de debate também ficam com o desenho todo riscado. Foi o que aconteceu a Catarina Martins e a Rui Rio. Em ambos, quem determinou os temas dos debates foi Ventura – ao lançar as suas atoardas, dislates, mentiras, ataques pessoais (estes só para Catarina Martins, que é mulher, e os homens como Ventura sentem-se importantes quando atacam mulheres; já com Rio, o desejado futuro chefe, convinha não atacar pessoalmente; e os homens como Ventura também usualmente têm medo de atacar outros homens). As duas contrapartes aceitaram passivamente responder a tudo o que Ventura lançava para o debate, por mais alucinado que fosse. Ao invés de debates, tivemos uma espécie de entrevistas hostis de Ventura aos seus oponentes. Foi penoso.

Catarina Martins lá marcou o seu ponto aqui e ali. Falou da ambiguidade do Chega nos “vistos gold” e offshores. Lembrou que a maioria dos que recebem apoios sociais são mulheres pobres e crianças; e reputou de “cruel” a atuação do Chega nos Açores ao cortar estas ajudas. Se esteve bem em não descer ao nível subterrâneo de Ventura, é incompreensível não ter ripostado (perante as várias acusações de ter faltado a votações) que Ventura está no pódio dos deputados faltosos. Foi insuportável como permitiu ser interrompida constantemente, em pose de carneiro sacrificial, ao invés de lhe dirigir um imperioso “não me interrompa”. Tendo em conta o fenómeno estudado de mulheres permanentemente interrompidas em reuniões (e debates), é intolerável ver tal coisa replicada sem resposta na televisão. A moderadora (e bem) repreendeu Ventura, mas Catarina Martins perdeu a oportunidade de dar uma de Kamala Harris com o seu “I’m speaking” quando Mike Pence a interrompia no debate dos vice-presidentes.

Rui Rio foi ainda mais surpreendente. Se rejeitou acordos e coligações, deu o exemplo do errático Chega nos Açores, mencionou que votar no Chega em vez de no PSD era ajudar à vitória do PS, no resto do tempo foi outro cordeirinho respondendo àquilo que Ventura exigia. E assim tivemos um líder da oposição, candidato a primeiro-ministro, com possibilidades de ganhar as eleições, falando de temas inúteis como a diminuição do número de deputados (temos um número de deputados perfeitamente adequado ao tamanho da população comparativamente às outras democracias europeias) ou indo mesmo, todo contente, para assuntos perigosos como os abusos dos apoios sociais (isto vindo do partido que votou para criar apoios sociais para acudir a vários grupos afetados pela pandemia, numa coligação negativa contra o Governo) ou prisão perpétua.

Das duas, uma. Ou Rui Rio estava com grande vontade de irritar o eleitorado centrista que lhe pode ganhar as legislativas, tudo para ir buscar meia dúzia de votos aos simpatizantes da extrema-direita; ou está bastante confundido, julgando que os problemas mais importantes do país são a quantidade de deputados, a inexistência de prisão perpétua, os abusos das migalhas do RSI e quejandos. Incompreensível como Rio, lá pelo meio do debate, não disse que julgava mais útil debater economia, alterações climáticas (dois temas que lhe são caros), como remendar o SNS, aplicação dos fundos de recuperação pós-covid, enfim, os assuntos que de facto têm influência na vida das pessoas. Para explicar as suas ideias. E para evidenciar que nestas áreas Ventura fica sem ter que dizer.

Nenhum atirou a Ventura que discussões securitárias são pouco relevantes num dos países mais seguros do mundo. Que a corrupção não se combate com medidas histriónicas de faz de conta como a duplicação do tempo das penas – porque o problema não é a duração destas mas praticamente não existirem acusações nem condenações por corrupção (seja qual for a pena). As campanhas milionárias onde o Chega desbarata dinheiro como se não houvesse amanhã. Um largo etc. Não. Passou sem escrutínio.

Debater com demagogos populistas, sem educação, maneiras ou escrúpulos, que querem precisamente não debater, não é fácil. Concedo. De todo o modo, os que debatem com Ventura ou se preparam para não deixar a conversa enredar-se nos temas de estimação do Chega, e atacam as muitas fragilidades de Ventura, ou mais vale seguirem o exemplo do PCP. Ventura é um político risível, cheio de vulnerabilidades a que se pode atirar, o único talento que tem é para a histeria, foi ao tapete em vários debates nas presidenciais. O problema nem é Ventura ganhar votos com os debates, que não ganha. Mas os outros perderem eleitores à conta da falta de habilidade.

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publicado às 18:01

A direita destrambelhada e as tetas da vaca

por Manuel_AR, em 30.06.21

Teta da vaca-2.png

As direitas acusam o PS de estar a e a apoderar-se e a ocupar as estruturas do Estado. Mas qual é o objetivo dos partidos senão o da conquista do poder e o controle absoluto das estruturas estatais, utilizando todos os meios que a democracia lhes possibilita, para alimentar clientelas partidária?  É o jogo de sais tu para ir para lá eu. Quando a teta da vaca é só uma todos querem a sua mamada.

A covid-19 veio causar no povo uma inércia no pensamento político restringido a protestos pela falta de liberdade, de sociabilização e de diversão pelos confinamentos e restrições imposta pelo Governo por motivo de preservação de saúde pública que muitos veem como atentados às liberdades individuais e à intervenção coletiva.

Da esquerda à direita, cada um à sua maneira, por motivos diversos, têm clamado, com mais ou menos vigo,r contra o que alguns chamam atentado às liberdades. Pretendem incutir na sociedade a perceção de que a pandemia pode servir como tentativa de limitação das liberdades democráticas, insinuando até, que, à boleia da pandemia, o governo está a querer minar a democracia à semelhança de outros países, como tem perpassado pelas redes sociais o que não é  mais do que um dos disparates que se divulgam através daqueles canais vulgarmente conotados com as direita radicais.

Há um exemplo que ajuda a caraterizar muito bem o ponto de vista de alguns partidos da direita que manifestamente se mostram contra as restrições impostas devido à Covid-19 que são evidência demagógica e demonstrativa do seu desprezo pela saúde pública. Um dos exemplos é veiculado pela IL – Iniciativa Liberal num cartaz colocado em Lisboa na Alameda Afonso Henriques, (esteve lá meses e foi retirado à cerca de uma semana), na altura em que a pandemia se encontrava no seu ponto alto e a expandir-se, onde se podia ler “Libertem a Infância” e “Abram os parques infantis”.

Declarações e casos como este mostram o valor que essa agente dá à saúde colocando a população em perigo em nome de uma “liberdade” egoisticamente individual desdenhando da saúde pública e do cumprimento dos requisitos científicos e legislativos aplicáveis e pertinentemente adequados em caso de emergência pública.

Cartaz Iniciativa Liberal.png

Se a IL estivesse no poder saberíamos com que contar, teríamos a mesma política sanitária que Bolsonaro tem praticado no Brasil.

Na ótica das alianças partidos da direita que se juntem, ou façam aliança com o CHEGA de Ventura e quejandos, mostram a sofreguidão do poder e enquadram-se perfeitamente naquele provérbio popular que diz “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem tu és”.

O PSD e o CDS enquanto não decidirem deixar de fazer oposição com casos e casinhos, sem rumo e sem um projeto coerente e que sejam uma alternativa credível ao governo do PS, não abandonarem soluções que passem por alianças com a extrema-direita não se livram da fama sem obterem disso qualquer proveito.

Acordos e compromissos com a extrema-direita além de serem vulneráveis à crítica têm de mostrar que é vantajoso para ambos para não ser entendido como capitulação pela direita e centro-direita, refiro-me, claro está, à tendência que Rui Rio tem mostrado em relação ao partido CHEGA seja diretamente, seja por aproximação a candidatos que se encontram entre um e outro, coisa bastante estranha. Veja-se o caso da candidata à Câmara da Amadora Suzana Garcia pelo PSD que  aceitou o convite depois de ter andado hesitante entre os convites do CHEGA e de Rui Rio.

As direitas andam destrambelhadas, cindem-se, criam novos partidos e movimentos, militantes de partidos do centro desligam-se e criam partidos de extrema-direita, veja-se o caso de André Ventura, obra de Passos Coelho por ocasião das eleições autárquicas de 2017 em que o CDS-PP deixa cair André Ventura e o PSD lhe mantém o apoio.

As afirmações feitas por André Ventura sobre a comunidade cigana levantaram à data muita polémica que levou o dirigente do CDS, Francisco Mendes da Silva, a não ficar calado disparando na altura uma feroz crítica nas redes sociais: “Não há praticamente nada que André Ventura diga que eu não considere profundamente errado, ligeiro, fruto da ignorância e de um populismo que tanto pode ser gratuito, telegénico ou eleitoralista. Já o vi falar de tudo e mais alguma coisa, em muitos casos de assuntos que conheço técnica e/ou factualmente. Nunca desilude na impreparação e no gosto em ser o porta-estandarte das mais variadas e assustadoras turbas. Se perder, tudo bem: que nem mais um dia o meu partido fique associado a tão lamentável personagem.”, enquanto o PSD de Passos Coelho fazia orelhas moucas. Ventura foi um derrame da fervura do caldo de cultura neoliberal e de direita mais radical criada no PSD de Passos Coelho.

Em maio decorreu uma reunião/convenção de “amigos”, o Movimento Europa e Liberdade (MEL), o mesmo que é dizer convenção das direitas, que conseguiu juntar, pela primeira vez, os quatro líderes partidários do espaço não socialista, PSD, CDS, IL e CHEGA onde tentaram mostrar que há pontes de diálogo entre os vários partidos. Defendendo Rui Rio que "o PSD não é um partido de direita", reiterando o posicionamento "ao centro" que tem defendido e acrescentando que se a convenção do MEL fosse "um congresso das direitas" provavelmente "era barrado à entrada".

Nesse encontro o líder do Chega, André Ventura, foi aplaudido à entrada na sala e sentou-se junto a Passos Coelho, que o aplaudiu no final. O significado deste ato poderá ter vários sentidos. No seu discurso quando subiu ao palco disse que “Rui Rio não tem conseguido fazer o seu papel de oposição à direita e que não há possibilidade nenhuma de governo à direita sem o CHEGA”. Não se percebe que haja pontes com partidos de extrema-direita xenófoba e racista como o CHEGA.

Não é um congresso das direitas democráticas, mas elas lá estavam. Se revirmos os programas escritos, mas não publicitados de alguns dos partidos da MEL como o IL e o CHEGA podemos confirmar a sua posição no leque ideológico. O Iniciativa Liberal defende a liberalização total da economia propondo, por exemplo, no caso da educação e da saúde dois sistemas paralelos: um para os pobres, sem condições, e outro para quem possa pagar a expensas próprias as despesas de saúde ou pagar os prémios de seguro exorbitantes pedidos pelas companhias de seguros que se agravam à medida do envelhecimento dos segurados.

O programa do IL é demagógico, ambíguo e inexequível. Quando fosse aplicado, se o fosse, os que nele votaram já estariam todos mortos. Seriam votos em vão, tal a impossibilidade a curto prazo no nosso país. O programa da IL é apenas um programa de manobra de distração e para apresentar quando do pedido de legalização do partido.

Para o mundo do trabalho na visão da IL há dois patamares de indivíduos: aqueles a que chamam empreendedores e os outros, os que ficariam submetidos às regras da oferta e procura como qualquer mercadoria. Para a IL Portugal seria um país dividido entre os ricos e os pobres. Os primeiros, os que criavam riqueza os segundo os que lhe proporcionariam a riqueza entre os quais muitos ficariam para trás.

Para a IL acabar-se-ia com o imposto progressivo e o que cada um pagaria seria os mesmos em termos percentuais fossem ricos ou pobres.

No capítulo do emprego do dito programa a contradição e a ambiguidade são patentes, basta ler o ponto introdutório:

“No mercado de trabalho, insiste-se num combate à “precariedade” muitas vezes em detrimento da criação de emprego, e consequente aumento da liberdade de escolha de ocupação. Quantos de nós, presos a um sistema criado para toda a vida – quer do lado do emprego, quer do lado das obrigações – não temos capacidade para ser livres e arriscar fazer mais, construir algo diferente. O que nos retira a mobilidade social, e a esperança de construir um futuro melhor.”.

“Estamos, num certo sentido, agrilhoados para a vida a um emprego e a pagar as contas com que o Estado está a contar.”

Pergunta-se desde quando é que alguém, no sistema liberal atual, fica agrilhoado a um emprego para toda a vida? Podemos concluir que o verdadeiro significado é a liberalização total dos contratos de trabalhos com articulações que possibilitem aos “empreendedores” quaisquer despedimentos incondicionais, ou seja a liberalização total do mercado de trabalho.

Mas há mais no local das promessas a que dão o título de “queremos” sem se perceber como serão concretizadas:

            Queremos:

“Aumentar a liberdade contratual, mantendo standards de salários… Defender um seguro mínimo universal de desemprego em substituição do atual sistema de SS – Segurança Social; baixar os encargos sociais para emprego de longa duração, tornando-o competitivo.”. Seguro mínimo universal a ser pago por quem? Pelo trabalhador, claro está!

Não se percebe o que se entende por “standards” de salários nem outros pontos do programa da IL. Seria exaustivo estar aqui a enumerar e a comentar o dito programa. Para saber mais basta consultá-lo com espírito crítico para se perceberem as armadilhas da aplicação.

As direitas acusam o PS de estar a querer dominar e a apoderar-se das estruturas do Estado, mas qual é o objetivo dos partidos, senão a conquista do poder e o controle das estruturas estatais e o controle absoluto utilizando todos os meios que a democracia lhes possibilita. É o jogo do, sais tu para ir para lá eu. Quando a teta da vaca é só uma todos querem a sua mamada.

Nota Final: A imagem reproduzida no início, podendo ter uma conotação anti partidos e antidemocrática, não foi esse o sentido que o autor lhe pretendeu dar.

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publicado às 18:04

O trio de Odemira e do sudoeste alentejano

por Manuel_AR, em 08.05.21

 

Confinamento-Odemira (4).png

Não, não lhes vou falar do Trio Odemirada que surgiu em 1955, primeiro a dois que depois passou a trio com a entrada de um terceiro elemento que, em 2019, celebrou os 60 anos de carreira. Vou falar de um trio, este não musical, que se instalou em Odemira em que os seus elementos são protagonistas e coniventes pelo que se passa no sudoeste alentejano.

No concelho de Odemira os referidos protagonistas dos acontecimentos chegaram à ribalta, não fosse a covid-19. Mas deixemo-nos de graças porque a coisa é agreste lá para aquelas bandas.

É um trio da irresponsabilidade, da indiferença, do deixa andar, dos culpados, como queiram.

Os elementos do trio que protagonizam a desgraça são: em primeiro lugar os empresários agroindustriais que lançam para o ar o chavão “criamos riqueza”, seja lá o que eles entendam por isso, mas apenas quando lhes convém. São áreas extensíssimas de estufas que empregam mão de obra com facilidade de adaptação, por necessidade de sobrevivência, à exploração. São os trabalhadores usados para criar riqueza, resta saber para quem, (não, não sou contra a iniciativa privada, bem pelo contrário, mas há a ética, meus senhores, a ética!);

O segundo elemento do trio são os imigrantes que trabalham naqueles empreendimentos que vivem em condições de trabalho e de habitabilidade impensáveis e desumanas na segunda década do século XXI;

O terceiro elemento do trio é o Governo e os ministérios, instituições e organismos por ele tutelados que deveriam supervisionar, dentro das suas competências, e fiscalizar os dois anteriores elementos do trio.

Não fosse a gravidade da situação causada pela covid-19 os factos relacionados com imigração ilegal, tráfego humano, escravatura versão século XXI, condições de habitabilidade indignas para seres humanos e exploração salarial que vieram para a opinião pública continuariam bem guardados no segredo das gavetas. Só agora alguma comunicação social acordou para o pesadelo comentando, relatando e produzindo peças ditas de investigação para telespectador ver e, por vezes, até confundir. Segura o tema porque também é um “postigo” de comunicação por onde possa atacar o governo socialista. Afirmar que, daqui para a frente, a imagem do Zmar ficará degradada com o anátema de um covidário, é demagógico e, no mínimo, ridículo.

Miguel Sousa Tavares, já tinha denunciado esta situação num artigo de opinião publicado no semanário Expresso em fevereiro de 2021 onde escreveu: “… E, além disso, tudo contribui para as exportações, não interessando saber também se, nos olivais do Alqueva ou nas estufas do Mira, todos os trabalhadores são estrangeiros e a maior parte das empresas também, tirando partido de infraestruturas pagas pelos contribuintes portugueses, de água subsidiada pelos contribuintes portugueses e de subsídios ao investimento com dinheiro europeu do qual parte é nossa.

Mas seria de facto curioso fazer as contas e perceber quanto do saldo final dessas exportações representam lucros que ficam cá, impostos e contribuições sociais que se pagam aqui. Para que desta agricultura industrial não fique apenas o rasto de uma situação social que nos envergonha e um desastre ambiental e paisagístico como aquele que cada vez mais vai crescendo no Alentejo.”.

E, acrescenta que: “Qualquer ministro da Agricultura responsável estaria em pânico com o que se está a passar no Alentejo com as culturas superintensivas de olival e amendoal à conta da água do Alqueva e com as estufas do Sudoeste à conta da exaurida barragem de Santa Clara…”

Para finalizar pergunto eu:

Alguém acredita que a freguesia do concelho de Odemira, em cerca sanitária nos próximos meses, será um destino turístico preferencial como é justificado pelos gerentes do resort Zmar(?) que se opuseram e opõe à requisição civil para alojamento dos trabalhadores das empresas agrícola? Eu não!

Alguém acredita que haja uma depreciação económica do resort Zmar, projeto que está à beira da falência, afastará a possibilidade de um possível investidor tal como foi dramatizado pelos ditos proprietários do Zmar? Eu não!

Alguém acreditou que a requisição civil incidiria também na imaginada ocupação das casas de férias dos proprietários? Eu, não!

Alguém acredita que os donos de restaurantes, que vivem situações seguramente muito mais dramáticas do que os donos do projeto Zmar, na prática falido, também sofreram as consequências da prioridade à saúde pública para não falar de todos os que perderam o emprego nessa área? Eu, sim!

A explosão de posições públicas dadas pela comunicação social incidiu sobre o resort Zmar mas, sobretudo, pelo regime de semiescravidão em que trabalhadores imigrantes se encontram, que foi obsequiada ao longo de anos com o silêncio sobre a vergonha da exploração de seres humanos sem que lhes seja garantido o mínimo de direitos em troca do trabalho que contribui para a nossa economia.

Vergonha é a palavra tantas vezes proferida por André Ventura do Chega mesmo a despropósito, mas que agora viria a propósito aplicá-la faz vistinhas de circunstância eleitoral, ele e outros que se lhe juntam, como o IL e o CDS. Talvez para eles a exploração de imigrantes não seja uma vergonha para o país.

A responsabilidade não é do Estado, é de quem o gere e o geriu e que não apenas do atual governo. É, sobretudo, da direita que nos governaram nas últimas décadas.  A dignidades daquelas pessoas só foi vista como um problema quando pôs em perigo a nossa saúde. Bem pode agora a direita apontar o dedo ao Governo, que a tem em parte, mas também foram cúmplices no seu tempo de governação do que se passa agora. Porque isto é apenas a ponta do iceberg que a covid-19 tornou ainda mais visível.  

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publicado às 19:27


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