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Ainda estou para decidir se deva ou não chamar loucura a todo o erro de espírito desta panóplia de vedetas mediáticas oportunistas do propagandeio, comentadores ditos isentos que proliferam nas televisões.


 


A comunicação social há tempo que andava sôfrega por lançar para o universo da confusão política a questão das eleições presidenciais, antes até da constituição do novo governo, Marcelo Rebelo de Sousa deu-lhes agora uma ajudinha oportuna.


As candidaturas para a Presidência da República foram transformadas numa espécie de corrida louca dada a enfase com que a comunicação social a começou a "trabalhar" e a lançar para o mercado jornalístico.


Quando se falou na potencial candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa a Presidente da República coloquei um "post", neste mesmo blog, onde ironizei com a possibilidade duma candidatura de Luís Goucha ou de Cristina Ferreira, também eles figuras públicas, mediáticas e comunicadores de sucesso.


Jornalistas e comentadores sorriem em estado de grande contentamento e tecem nas televisões discursos laudatórios à apresentação da candidatura de Rebelo de Sousa que foi o início da sua pré-campanha eleitoral e o primeiro passo para dar voz perfil para candidato, revendo-se como sendo um político com as condições mais do que suficientes para exercer o cargo de Presidente justificando assim as sondagens, prova indubitável da sua vitória logo à primeira volta.


Passos Coelho, em janeiro de 2014 no Congresso do PSD, traçava o perfil do que deveria ser o futuro Presidente da República: "protagonista catalisador de qualquer conjunto de contrapoderes ou num catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político". Nem "deve buscar a popularidade fácil". Nestes dois pontos e apenas por uma questão de forma concordo com Passos Coelho,


Houve controvérsia sobre esta descrição, uns dizendo que se referiam a Marcelo Rebelo de Sousa e outros a dizer que nada tinha a ver com ele e que podia referir-se a qualquer um. A versão dos primeiros parecia ser mais verosímil


Coloquemos a seguinte hipótese: o candidato A. não é conhecido e não tem currículo político relevante e, por isso, não tem perfil para o cargo; o candidato B. não tem apoio de nenhum partido sendo quase nula a possibilidade de ser obter vantagens nas intenções de voto; por sua vez o candidato C. é muito conhecido pela visibilidade como comentador de televisão e pode vir a ter apoios alargados. O candidato C. é, de imediato, personificado por Marcelo Rebelo de Sousa porque todos o conhecem, não por ter funções políticas ativas mas porque tem uma visibilidade mediática permanente na televisão e faz comentários políticos semanais há anos e anos. Como poderia não ser conhecido? Quantos não haverá que, não sendo conhecidos nem tendo visibilidade mediática, podem ter perfil para Presidente da República.   


Rebelo de Sousa ao longo dos anos passou a ser um profissional da comunicação, um oráculo semanal da política. Não necessita de grande esforço para fazer uma campanha, mesmo sem falar muito. Despe a pele de comentador, vestindo a de candidato a Presidente comentador.


O segredo de Marcelo é ter-se "dedicando à comunicação social em jornais, na rádio e na televisão contactando milhões de leitores, ouvintes e telespetadores" como ele próprio afirmou no discurso de apresentação da candidatura que o jornal Expresso divulgou na íntegra.


Comunica como se estivesse perante o seu público da televisão, milhões de telespectadores, como afirma. Para salvaguarda do caso de alguns apenas o conhecerem apenas como comentador da televisão e como o professor encarregou-se de tecer a sua biografia profissional, diria antes um curriculum vitae, escusando assim que lha escrevam por ele. Diz-se "católico, influenciado pelo Vaticano II, concílio bem presente hoje no magistério do Papa Francisco" frase muito conveniente e convincente para captar votos de todos os devotos deste Portugal.


Para além de benemérito ao "devolver ao país tudo aquilo que Portugal lhe deu" segura também o discurso da estabilidade governativa que justifica através de argumentos de peso que apelam à fácil emoção quando revelou que para ele a "estabilidade e a governabilidade têm de estar ao serviço do fim maior e o fim maio na política é o combate à pobreza, é a luta contra as desigualdades, é a afirmação da justiça social." Palavras do agrado do governo e do ainda Presidente da República que serviram de mote à campanha da coligação PSD-CDS para gerar em parte da população um estado de temor.


Acrescenta ainda frases bem conhecidas e já pronunciadas pela direita e por Cavaco Silva quando diz "considero essencial que haja, como nas democracias mais avançadas, convergências alargadas sobre aspetos fundamentais de regime" de coloca ainda um toque de emoção: "a estabilidade e a governabilidade têm de estar ao serviço do fim maior e o fim maio na política é o combate à pobreza, é a luta contra as desigualdades, é a afirmação da justiça social.". "Considero ainda que não há desenvolvimento, nem justiça, nem mais igualdade com governos a durarem seis meses ou um ano, com ingovernabilidade crónica e sem um horizonte que permita aos governados perceberem aquilo com que podem contar no quadro da composição parlamentar resultante daquilo que votam.". Pensamentos déjà vu.


É consensual que ninguém quer instabilidade, mas as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa são as mesmas da direita e de Cavaco Silva, divergindo apenas na forma e no tom que o traquejo de longos anos de comunicação televisiva lhe ofereceu.  


Com uma frente neoliberal, que diz ser agora social-democrata, a governar o país, Rebelo de Sousa, se for eleito Presidente da República, teremos novamente o lema "uma maioria, um governo e um presidente". Cabe perguntar o que fará diferente de Cavaco Silva nestas circunstâncias.


As posições defendidas à volta da candidatura de Marcelo por jornalistas e comentadores, conduziram-me à sátira "Elogio da Loucura" escrita em 1509 por Erasmo de Rotterdam.


Para finalizar transcrevo partes do texto de Erasmo com uma adaptação à atualidade política, livre e satírica, tendo, para tal, modificado e acrescentado umas poucas palavras.


 


Sei muito bem quanto o meu nome soa mal aos ouvidos dos mais tolos, orgulho-me de vos dizer que esta Loucura, sim, esta Loucura que estais vendo é a única capaz de alegrar os deuses e os mortais. A prova incontestável do que afirmo está em que não sei que súbita e desusada alegria brilhou no rosto de todos ao aparecer eu diante deste numerosíssimo auditório. De facto, erguestes logo a fronte, satisfeitos, e com tão prazenteiro e amável sorriso me aplaudistes, que na verdade todos os que distingo ao meu redor me parecem outros tantos deuses de Homero, embriagados pelo néctar do vinho embriagante.


Se, agora, fazeis questão de saber por que motivo me agrada aparecer diante de vós com uma nova roupa, eu vo-lo direi em seguida, se tiverdes a gentileza de me prestar atenção; não a atenção que me costumáveis prestar enquanto comentador que era a dos charlatães, e pantomineiros.


De facto, que mais poderia convir a Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores? Quem poderá pintar-me com mais fidelidade do que eu mesmo? Haverá, talvez, quem reconheça melhor em mim o que eu mesmo não reconheço? De resto, esta minha conduta parece-me muito mais modesta do que a que costuma ter a major parte dos grandes e dos sábios do mundo.


No entanto, esses insignificantes faladores a que atrás me refiro envaidecem-se com a sua vazia erudição e experimentam tanto prazer em ocupar-se dia e noite com essas suavíssimas nénias que nem tempo lhes sobra para ler ao menos uma vez programas e opiniões de outros. E o mais bonito é que, enquanto assim cacarejam nas suas escolas, imaginam-se os defensores do povo, que cairia na certa, se cessassem um momento de sustentá-la com a força dos seus silogismos, exatamente como Atlante, segundo os poetas, sustenta o céu com as costas.
Contam ainda os nossos discutidores com outro grande motivo de felicidade. A política e a governação são, nas suas mãos, como um pedaço de cera, pois costumam dar-lhes a forma e o significado que mais correspondam ao seu génio. Pretendem que as suas decisões uma vez aceitas por alguns outros devam ser mais respeitadas do que as leis de Sólon. Erigem-se em censores dos outros e, se alguém se afasta um pouquinho das suas conclusões, diretas ou indiretas, sentenciam oráculos: Essa proposição é escandalosa, esta aqui é temerária, aquela cheira a esquerdismo, aquela outra soa mal.


Para uma campanha eleitoral há que ter coragem, vamos! Dissimular, enganar, fingir, e apontar os defeitos dos adversário mas fechar os olhos aos defeitos dos amigos, ao ponto de apreciar e admirar grandes vícios como grandes virtudes, não será, acaso, avizinhar-se da loucura? Beijar, numa feira ou numa rua uma velhinha, sentir com prazer o fedor do seu nariz e, num mercado beijar peixeiras com cheiro a peixe e prometer atender um pai que o filho está desempregado não será isso uma verdadeira loucura?


Ainda estou para decidir se deva ou não chamar loucura a todo o erro de espírito desta panóplia de vedetas mediáticas oportunistas do propagandeio, comentadores ditos isentos que proliferam nas televisões.

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publicado às 16:49

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É notória a preocupação dos órgãos de comunicação social, em especial os televisivos, quer em debates sobre política, quer no âmbito comentarista, sobre as candidaturas à Presidência da República que o Partido Socialista irá ou não apoiar e, muito pouca vontade, em saber qual será o candidato a apoiar pela direita.


As eleições presidenciais são lá para 2016, antes serão as eleições legislativas pelo que é sobre estas que se devem centrar as atenções, o resto virá por acréscimo em devido tempo. Todavia o tempo e o espaço dos órgãos de comunicação social é sobrecarregado pelas presidenciais.


A preocupação é acima de tudo com o candidato à Presidência da República a apoiar pelo Partido Socialista que, a cada dia que passa, transforma-se em agitação, numa pressão para que o PS diga quem vai ser o seu candidato.


Para alguns comentadores, analistas políticos e "fazedores" de opinião não interessa quem vai ser o candidato dos partidos do Governo ou quem irão apoiar para Presidente da República, o seu alvo de interesse é apenas o Partido Socialista. Especulam e induzem a quem os ouve representações mentais falsas sobre potenciais candidatos à esquerda ou ao centro, alegando desconhecer o que eles pensam, quem são, ou até acusando-os de populismo. Por outro lado, promovem os potenciais candidatos da direita que ainda não se posicionaram ou mostraram claramente abertura para o cargo, fazendo deles, desde logo, os mais bem colocados e consensuais entre os eleitores.


Estão mais preocupados interessados em quem será o candidato apoiado pelo Partido Socialista do que pelos próprios candidatos. São parcos em comentar os "dotes para presidenciais" de candidatos como Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa, Durão Barroso (?) que entretanto desaparecem de cena para concorrer ao cargo, pelo menos até ver.


Passos Coelho no Congresso do PSD caracterizou o perfil que não deve ter um chefe de Estado: "protagonista catalisador de contrapoderes, catavento de opiniões erráticas, popularidade fácil, complicar ou bloquear, protagonista político.". O perfil traçado por Cavaco Silva é para esquecer nem merece gastar tempo.


A direita parece não ter candidatos, mas, ao contrário de Passos Coelho, parece apostar em Marcelo Rebelo de Sousa como potencial vencedor das eleições presidenciais. É conhecido e um protagonista conhecido e mediático. A ser verdade deixa muito a desejar o que pensam da cultura política dos portugueses, passando-lhes um atestado de ignorância política porque são levados apenas pelo mediatismo daqueles em que vão votar.


Na expectativa do Partido de Socialista poder vir a ganhar as eleições legislativas querem a todo custo que seja eleito um Presidente da República que lhes seja tão favorável quanto Cavaco Silva.  


Começa a perceber-se que, qualquer que seja o candidato à Presidência da República que venha a ser apoiado pelo Partido Socialista, será sempre arrasado por comentadores e jornalistas que apoiam a direita. Até há quem, sob a capa da isenção, emite opiniões que desembocam na apreciação favorável dos potenciais candidatos apoiados ou a apoiar pela direita. Começou um pré-campanha de propaganda a Marcelo Rebelo de Sousa para ver se pega.


Marcelo Rebelo de Sousa colhe muitas simpatias, dizem. Claro, vale a publicidade que lhe tem sido concedida enquanto comentador político ao longo de anos. Passou a ser uma vedeta mediática. Mostra ser simpático, afável e, por isso, apesar dos seus comentários políticos do tipo cata-vento não deixa de ser um grande apoiante das políticas seguidas pelo PSD. A técnica do cata-vento tem a ver com uma espécie de autopromoção no sentido de mostrar ser isento nas suas opiniões.


Se Marcelo se candidatar e tomar lugar em Belém será pata todos os efeitos políticos uma espécie de Cavaco, apesar de menos carrancudo e com uma atitude comunicacional diferente. Será um Cavaco menos rancoroso, mais simpático, menos cara fechada, mas um Cavaco que, como ele, não hesitaria em manter ao limite o mandato do primeiro-ministro mesmo com prejuízo do país.


Tentar relevar as presidenciais não é mais do que uma tentativa de manobra de distração sobre as reais discussões que devem existir sobre a péssima governação que nos atormenta há mais de três anos. Recorde-se que o XIX Governo Constitucional liderado pelo neoliberal Passos Coelho tomou posse em 21 de junho de 2011 e o seu mandato, de acordo com a Constituição da República, é de quatro anos seria nesse mês que deveria terminar a 4.ª sessão legislativa, da XII legislatura que se iniciou em 5.09.2014 mas o Presidente da República resolveu adiar as eleições para setembro ou outubro.

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publicado às 22:37


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