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O desgoverno das oposições ao Governo

por Manuel_AR, em 19.09.22

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Os partidos na oposição têm propensão para criticarem e para se oporem sistematicamente a tudo quanto dele venha, mesmo que oportuno, acertado e a favor das populações, o que é demonstrativo do mau serviço que prestam à democracia portuguesa, com mais relevância dos que fazem parte da alternância de poder.  

A democracia, é um poder que, por direito, possibilita ao povo a escolha dos seus representantes políticos que tem o dever de garantir os direitos inerentes à cidadania, a liberdade de expressão e possibilitar uma maior participação popular no que refere à política.

É ainda o exercício da democracia criticar e controlar os governos.  Também sabemos que, qualquer tomada decisão política, por mais criteriosa, bem avaliada, analisada e discutida nunca é garantido ser excelente, infalível, porque se encontrarão na legislação promulgada pontos de escape voluntários ou involuntários, distorções e falhas. Qualquer que seja o partido escolhido para formar governo, nunca será infalível. Mas, quando na oposição tentam demonstrar, segundo o seu ponto de vista ideológico, que fariam mais e melhor ao criticarem, quase como uma obrigação, as propostas ou decisões do governo em exercício.  

Um exemplo recente têm sido as críticas às medidas que o atual Governo tomou para tentar mitigar os efeitos da inflação e da crise energética nas famílias e nas empresas, sobretudo por parte do que mais poderá vir a aproximar-se do poder.

Todos os partidos, cada um à sua medida, fazem oposição, uns com mais razão do que outros, às medidas anunciadas com fogachos que utilizam as mais variadas retóricas e narrativas populistas e demagógicas. Dizem uns serem poucas, dizem outros, quase todos, que são tardias, e, ainda outros, mostram a centram-se apenas na baixa de impostos. Defendem estes que em vez de ajudas diretas ou créditos se deveria antes baixar impostos.  Mostram eles insensatez por não olharem às possibilidades financeiras do país não pensando nas contas públicas que devem ter em conta a dívida e o déficit a que dão importância apenas quando estão no poder e defendem a austeridade. Tivemos experiência disso. Agora chamam às contas públicas certas austeridade. Parecem ter-se esquecido dos tempos em que acusavam o PS de ser perdulário e de quando Teixeira dos Santos, ministro das finanças de José Sócrates, deixou que o Governo da altura fizesse derrapar as contas públicas até ao descalabro.

A Iniciativa Liberal é a mais coerente cuja tónica se mantém na bandeira menos Estado, melhor Estado, com a defesa da baixa de impostos para resolver os problemas da inflação e da energia. Dizem eles que o que faria sentido era um conjunto de reformas estruturais e defendem que as boas empresas não precisam de subsídios do Estado. O que é necessário, segundo a IL, é que as empresas possam crescer e desenvolver-se para que possam estar capitalizadas durante os períodos bons para fazer face aos períodos maus e isso passa pela redução de impostos (ou será eliminação dos ditos?). Mas, como para eles tudo dever privado a despesa pública seria substancialmente reduzida com o desinvestimento nos serviços públicos nomeadamente na saúde e na assistência social e assim deixaria de haver necessidade de serviços públicos porque a iniciativa privada daria resposta e a que apenas os ricos poderiam ter acesso. Baixavam-se impostos e deixavam de pagar crises, seria o povo a suportá-las.

O outro partido de direita, o PSD, parece ter virado socialista e alguns até se aproxima dos pontos de vista defendidos pelas esquerdas mais radicais. Na Assembleia da República as intervenções dos deputados, da esquerda à direita, os argumentos, tirando alguns dos que são mais ou menos repetitivos como o PCP e o BE, não divergem muito. A extrema-direita do Chega, que sempre foi contra os impostos e se tem mostrado contra os subsídios critica agora o Governo por não dar mais dinheiros às famílias. São medidas “tardias” e “vazias” e que são “migalhas” face às necessidades dos portugueses de menos recursos, comparando com o aumento do custo de vida e propôs aumentos de sete milhões. Se é contra os impostos reivindicando a sua baixa, e contra para pagamento de subsídios, onde iria arranjar recursos para satisfazer as pretensões. Nesta altura a estratégia de todos os partidos é a de falarem em defesa dos portugueses desvalidos e desfavorecidos num posicionamento à esquerda.

O xadrez partidário transformou-se num jogo competitivo em que, quem vence é quem mais defender as classes desfavorecidas, os pensionistas e os reformados, as pequenas e as médias empresas.

O PSD, após eleição do seu líder Luis Montenegro de sorriso forçado, que mostra uma simpatia que se prevê efémera se chegar ao poder é o que mais se tem destacado nesta competição. Com o slogan de cartaz “Acreditar” não sabemos em quê ou em quem, o líder promete o sol primaveril da esperança e pretende mostrar um partido renovado que se transformou, qual camaleão da política, cujo comportamento e atitude mudou para tirar proveito das circunstâncias. Na tentativa de captar o eleitorado que lhe escapou nas últimas eleições expõe-se como um partido que virou à esquerda e é defensor das classes mais necessitadas.

Com o slogan “Acreditar” Montenegro parece ele próprio não acreditar que o eleitorado que lhe escapou pode não ser transitório e pode até prever-se que seja definitivo com algumas nuances.

Segundo num estudo de março de 2022 sobre a transferência de votos nas eleições legislativas comparando com 2019 o PSD ganha mais votos do que aqueles que perdeu para a abstenção, e foi buscar votos à categoria Outros/ Brancos e Nulos e ao CDS-PP. Contudo, o PSD perdeu votos em primeiro lugar para a Iniciativa Liberal, em segundo lugar para o PS, e em terceiro para o Chega. Isto é, com alguma margem de erro, o eleitorado que o PSD perdeu foi alimentar, juntamente como o CDS, os partidos à sua direita, o Iniciativa Liberal e o Chega e também, alguns, para o PS. São os mais idosos que terão votado PS que Montenegro tenta agora atrair na espectativa de um regresso.

Luís Montenegro passou a ser líder de um partido que defendia a sustentabilidade da Segurança Social como Passos Coelho fazia quando em 2015 dizia que a sustentabilidade da Segurança Social não é "um papão" e no mesmo ano a então ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque explicava, sem esclarecer como pretendia fazê-lo, que o Governo previa "poupar 600 milhões de euros em 2016 com uma reforma do sistema de pensões". Em maio de 2015, alterou o discurso e afirmou mesmo ser "honesto dizer aos portugueses que vai ser preciso fazer alguma coisa sobre as pensões para garantir a sustentabilidade da Segurança Social" e que poderia passar, "se for essa a opção, por alguma redução, mesmo nos atuais pensionistas". Parece que atualmente o PS com António Costa, com mais ou menos artifício, pretende fazer o mesmo

Recorde-se que Montenegro em abril deste ano disse, claramente, numa entrevista, que tinha orgulho do tempo da governação de Passos Coelho. “Tenho orgulho no Governo de Pedro Passos Coelho”, afirmou Luís Montenegro. Questionado se teme ser visto como um candidato ligado a Pedro Passos Coelho, disse ter orgulho e não vergonha do seu passado.

Quem tem orgulho num passado que chamou “peste grisalha” aos pensionistas e reformados, que cortou reformas e pensões e previa agravá-los, é porque aceita as políticas praticadas nesse passado.

Mais sério ainda é que nas próximas eleições pode não estar fora de questão por parte do PSD uma abertura de solução com o Chega se atentarmos  nas palavras de Rui Gomes da Silva: "Dizer que não há governabilidade com o Chega como dizia Rui Rio para afastar acordos com André Ventura é autoexcluir-se de qualquer solução governativa nos tempos mais próximos. Isso é permitir à esquerda sempre governar.”

Portanto, a surpresa surge-nos quando passou a defender políticas de aumentos de pensões e de reformas, a considerar que o Governo está a enganar os pensionistas, que acha as medidas insuficientes, ilusórias e tardias e até uma sugere abertura despesista. Mesmo que possamos dar-lhe razão estranha-se a alteração opcional de políticas demasiado enlevada.

Nós, eleitores, não podemos deixar-nos embarcar pelas boas intenções de partidos quando, ao mesmo tempo, dizem que pretendem e irão ganhar as próximas eleições e, então, entram num jogo do vale tudo.

No caso das extremas esquerdas, BE e PCP, as intervenções dos deputados destes partidos são previsíveis, são uma repetição por palavras diferentes de intervenções anteriores, são uma espécie de leituras panfletárias, são o déjà entendu da cassete centrada no aumento dos salários e pensões, no ataque aos grandes grupos económicos, na fixação e tabelamento de preços, nas reivindicações demagógicas e populistas da taxação dos lucros acumulados pelas empresas.

O tabelamento de preços por entre os efeitos, salienta-se o desincentivo à produção e este, por consequência, pode gerar desabastecimento no mercado.  Preços congelados não incentivam a produção pela retirada da liberdade do ponto de vista da produção, já que a margem de custos e de lucro fica limitada. Assim, muito possivelmente, num cenário de preços congelados, os produtores não estão dispostos a empenhar esforços segundo critérios fixados pela autoridade pública o que resulta numa crise de abastecimento do mercado. Estas medidas pelo contrário poderia favorecer a concentração de mercado pelas empresas que já praticavam preços máximos. E ainda, as multas impostas em caso de descumprimento do preço tabelado, poderiam ser passadas para o consumidor.

Em síntese, embora os partidos da oposição tenham alguma margem de razão nas críticas que fazem ao Governo, nomeadamente na questão das pensões e das reformas, também é evidente que as críticas que agora fazem, nomeadamente o PSD, se fossem governo não hesitariam como no passado a pôr em prática as soluções que, segundo eles, seriam as necessárias mesmo que em prejuízo daqueles que agora dizem defender.

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publicado às 17:18

Ditos e escritos daqui e dali

por Manuel_AR, em 20.01.22

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Pelo que se escreve na imprensa, nas redes sociais e se diz nas televisões podemos ter uma visão aproximada do que se pensa ao decorrer desta campanha eleitoral. Assim, sintetizei algumas opiniões e comentários que circulam e que compus de forma coerente utilizando critérios de aproximação ou de afastamento de acordo com as minhas.

Os pontos que se seguem não são uma transcrição de citações, são as minhas opiniões expressas em coerência com os meus pontos de vista, suscetíveis, como é óbvio, de críticas.   

  1. Todos termos visto nos diferentes órgãos de a comunicação social reivindicações de organismos privados e públicos que passam pelos agricultores, comércio, indústria, saúde, justiça, etc. Acredito que estas reivindicações por mais aumentos, mais meios, mais pessoal e mais subsídios sejam justas e necessárias. Todavia, se pensarmos que ao satisfazer-se a justeza das exigências apontadas logo concluiríamos que se iria cair num descalabro financeiro do Estado com altos défices nas contas públicas e elevadas dívidas externas, conduzindo a situações idênticas ou piores às que nos trouxeram a troika. Face a isto, começo a pensar se não estarão todos desejosos que tal aconteça para justificarem uma subida ao poder da direita neoliberal que logo recorrerá, mais uma vez, a severas medidas de austeridade e outras idênticas para equilibrarem as finanças e agarrarem a oportunidade para culparem o partido do governo o causador desse descalabro. Vamos lá então ver se nos entendemos sobre o queremos para o país!

 

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  1. Começo pelo que tem sido mais comentado e criticado, a maioria estável pedida pelo Partido Socialista. Entenda-se por maioria estável uma maioria absoluta e, como consequência, António Costa ser primeiro-ministro. Com António Costa numa maioria absoluta é possível conviver sem receios. O mesmo já não se poderá dizer duma maioria de direita PSD e, ainda menos, se coligado com outros partidos como por exemplo o partido da extrema-direita Chega cuja hipótese não foi convictamente afastada por Rui Rio. Lembremo-nos dos Açores.
  2. Acordos parlamentares de esquerda do PS com o BE e PCP em princípio e no meu ponto de vista são soluções a afastar devido à perda de confiança consequente da irresponsabilidade pelo chumbo do Orçamento de Estado para 2022 alinhados com a direita. Assim, só uma maioria absoluta do PS poderá evitar pressões parlamentares que aqueles partidos farão para condicionar a governação, causando instabilidade.
  3. Há por aí quem pergunte se Rui Rio fizesse tudo o que está a prometer não poderá conduzir o país a uma nova crise. A resposta é afirmativa. Como ele próprio esclareceu em vários debates tudo o que promete é condicional justificado com uma possível aproximação de uma crise que se vislumbram, pelo que reconhece a possibilidade de adiamento das promessas que será inevitável, desconhecendo-se durante quanto tempo. Ora, como se avizinha uma crise económica e social devido a contextos exteriores o pretexto para o não cumprimento das promessas tem as portas entreabertas.
  4. Outra pergunta interessante que se coloca é a de saber quem é o grande inimigo do BE e do PCP que é preciso abater? É a direita? A resposta é imediata – Não, é o PS. Interessante a resposta até porque podemos fazer uma outra pergunta: Quem é que o BE e o PCP estão a ajudar nesta campanha eleitoral? A resposta é inequívoca: são a extrema-direita e a direita PSD, claro! A extrema-direita e o PSD agradecem a ajuda do BE e do PCP. Isto já foi visto no passado quando BE e PCP provocaram a queda do governo PS dando lugar à maioria de direita.
  5. A coordenadora do Bloco de Esquerda é uma atriz extraordinária acusou André Ventura do Chega. Ao que lhe diz respeito ele saberá porquê. No meu entender, e se bem me lembro, Catarina Martins passou da extrema-esquerda antissistema, revolucionária e contestatária a mostrar-se agora com uma faceta de política sedutora e calma que se quer afirmar como cooperante. Pelo meio vai acusando outros (leia-se PS) de que se não existe mais cooperação é porque esses outros não querem, diz ela. E porquê? - Perguntam vocês. Porque em primeiro lugar gostaria de submeter o PS à execução de políticas destrutivas, em segundo lugar para caçar aqui e ali uns votinhos de alguns indecisos e de descontentes com tudo e com todos. Não podemos afirmar com convicção que Catarina Martins é falsa. Faz parte do seu número de teatro a que a obriga a caça ou à dispersão de potenciais votos no PS, com o objetivo único de evitar uma maioria absoluta do PS.
  6. O BE e o PCP pretendem que a votação no PS seja a mais baixa possível, ainda que os votos vão para a direita, desta forma terão mais margem de manobra para, no contexto da Assembleia da República, pressionar o PS para impor políticas radicais. Sem uma maioria muito significativa do PS fica-se novamente na dependência das extremas-esquerdas do BE e do PCP com as inerentes dificuldades de governação pior do que a “geringonça”, ou, então, caminha-se para o país ficar na dependência da direita.
  7. Na campanha que a esquerda anda a fazer, não tenho a certeza se foi João Oliveira do PCP, andam por aí a dizer que se a direita ganha poderão vir campanhas de contestação socia e a instabilidade. Mas que raio de ponto de vista. Os portuguese não gostam que os ameacem e, quando assim é, vão mesmo para o outro lado. PCP e BE vejam se se acalmam. Estão muito agitados por debaixo dessa calma que aparentam.
  8. Há ainda os que falam e relembram com saudosismo o tempo de Salazar, (André Ventura recuperou a matriz do modelo do regime salazarista “Deus, Pátria, Família” ao qual acrescentou “Trabalho”). O regime de então utilizava todos os meios para neutralizar e difamar quem se lhe opunha. Atualmente a extrema-direita e a direita democrática utilizam a mesma estratégia da difamação.
  9. No caso de Ventura a suas narrativas populistas e demagógicas para baralhar a população são abissais. Então André Ventura não se tem afirmado contra a quantidade e qualidade de pessoas que recebem o RSI? Pois é! Mas a última dele foi negar agora o que afirmou poucos dias antes. Vejamos a resposta que deu ontem quando um jornalista lhe fez uma pergunta sobre o número de casos de “subsidiodependência no país”, à qual respondeu baralhando, para confundir, o que disse com o que não disse: “Como é que quer que eu tenha dados concretos sobre pessoas que recebem o RSI e que não devem? É você que os tem? As pessoas só veem e sabem que é assim. Sabemos quantas pessoas recebem RSI. Não sabemos, infelizmente, quantas pessoas o recebem indevidamente”.  Podemos deduzir que André Ventura passou do ser contra o RSI para o “fiscalizar a sério”. Isto é, quer saber das quarenta e tal mil pessoas que recebem RSI para quais são as “dezenas de milhar” (?) que o recebem indevidamente. Para saber quantas pessoas recebem aquele tipo de apoios, basta consultar AQUI. O problema de Ventura é o de saber quais os que o recebem e têm Porches à porta. Por outro lado, isso da fiscalização todos os partidos, da esquerda à direita a querem! Deixemos por agora o troca tintas.
  1. Voltando a António Costa. Em 20 de setembro de 2019 a revista alemã Der Spiegel escrevia sobre a “receita” do “confiável socialista” António Costa. Considerava assim como confiável o primeiro-ministro de Portugal. A autora, Helene Zuber, escrevia então: “Ele sabe como tirar um país da crise. O primeiro-ministro de esquerda, António Costa, salvou Portugal da falência. Enquanto isso, a economia está a crescer. Agora está prestes a ser reeleito. Qual é a sua receita para o sucesso? Quando António Costa conhece pessoas olha-as diretamente no rosto e sorri. Curioso, o primeiro-ministro português aproxima-se de colegas como Angela Merkel, aperta as mãos educadamente antes da entrevista ao vivo na televisão, ouve atentamente os cidadãos que se dirigem nas ruas ao seu chefe de governo. Parece estar sempre de bom humor, com o olhar levemente irónico dos olhos escuros por trás dos óculos sem aro. O simpático governante Costa, com seu governo de minoria socialista, tolerado pelos comunistas e pelo bloco de esquerda trotskista, resistiu por quatro anos - um feito que quase ninguém esperaria que ele fizesse. Dando-lhe o epíteto de "Geringonça", a oposição zombou da aliança quando assumiu o cargo há quatro anos. Costa tem um mandato bem-sucedido”.
  2. Quanto a Rui Rio Rui ele é um político popularucho que fala para o povo entender. Sem papas na língua diz o que pensa o que às vezes o prejudica. Daria um grande propagandista de feira com receitas para todas as maleitas. Nas entrevistas e nos debates mostra-se um exímio vendedor de um qualquer produto que alguém, se não pensasse, não hesitaria em comprar. Há, todavia, um problema. É que, depois do comprador abrir o embrulho e ao acabar de verificar que o produto verificaria que estava com defeito e que a devolução do material era impossível.
  3. Próximo de eleições a direita cata casinhos e tudo o que seja desfavorável que transformam e exageram para parecerem importantes. Esmiúça tudo para desviar o vazio apresentado nas suas propostas.
  4. O que Rui Rio diz disse no passado não têm muita relevância para o atual contexto. É uma incógnita o que se irá passar se ele ganhar as eleições e se uma potencial crise se confirmar. O que ele disse em 2017, quando candidato à liderança do PSD, ao responder a uma pergunta sobre a mudança de linha de rumo do partido, caso fosse eleito, assegurou que não iria haver mudança de estratégia e deu o exemplo da ex-ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, com quem teve divergências mas que, no seu lugar, seguiria a mesma linha, e que faria "igual" ou faria “pior” do que a governante.
  5. Então dr. Rui Rio, ir para o Governo e encontrar contas certinhas era tão bom não era?

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publicado às 17:02

Eleições e indecisões.png

Os comentários que se seguem aos debates é suposto serem feitos por jornalistas credenciados e cada um com a sua orientação ideológica. A meu ver tenho constatado que a isenção e a independência, sobretudo na SIC, não são os pontos fortes dos intervenientes nos paneis de comentário.

Sou dos que considero que a comunicação social deve ter um papel relevante na critica e no escrutínio público do poder e, ao mesmo tempo, ter a liberdade de expressão e de opinião que devem ser estimuladas dentro dos limites da civilidade, da educação, da tolerância e de respeito pelo caráter de cada um.

Naquele canal televisivo os comentadores Ricardo Costa, José Gomes Ferreira e Bernardo Ferrão nos seus comentários tentam fazer passar para os telespetadores uma perceção de distanciamento ideológico, mas, para quem esteja atento aos pormenores, notará que incluem cirurgicamente pequenas "alterações”, provavelmente intencionais, ao significado ou às circunstâncias de um facto que possa sugerir algo em desabono do governo socialista e de António Costa.

Com a proximidade das eleições notam-se mais estas pequenas campanhas detratoras por via de jornalistas e comentadores. São opiniões, dirão. Certo. Mas também nos comentários sobre acontecimentos da política que se relacionem com a justiça e com a economia tiram da cartola algo do passado que introduzem no confuso emaranhado das lógicas em que se embrenham fazendo campanha e oposição partidária ao abrigo de fazer jornalismo. Não admira, têm que estar sintonizados com a “voz dos donos”. É normal.

Os jornalistas também são eleitores e terão as suas simpatias ideológicas e partidárias e alguns não as escondem, pelo que tentam fazer comentários positivos aos políticos do seu círculo ideológico-partidário e negativos para outros candidatos concorrentes colocando-os nos pratos de uma balança. Comentar desfavoravelmente a prestação de um interveniente político num debate que seja da simpatia do comentador pode favorecer o seu preferido em prejuízo do adversário.

Dou um exemplo como hipótese: quem estiver a comentar um debate entre, por exemplo, a líder do BE Catarina Martins e o líder do PSD Rui Rio poderá emitir uma opinião em que a prestação do BE foi mais bem conseguida do que a do PSD evidenciando os argumentos do BE ao fazer críticas ao PS. Assim, ao concordar com a crítica feita pelo BE ao PS potencialmente posso estar a condicionar pela negativa potenciais eleitores do PS que irão para o BE já que é pouco provável que haja eleitores do BE que irão votar PSD mesmo considerando a critica feita ao PS. Mas, pelo contrário, é mais provável que estes mesmos possam votar no PSD.

Como é possível em debates como os que temos visto entrar com pormenores que podem ser tecnicamente relevantes, mas que só contribuem para ruído e compressão da mensagem. Quanto a avaliações, tenham paciência! Catem também as falhas de pormenor nas narrativas de Rui Rio.

A obtenção de mais votos e, consequentemente, de deputados é, em quaisquer eleições, o grande objetivo dos partidos. Para as eleições que se irão realizar em 30 de janeiro há um outro objetivo que se apresenta: o do BE e do PCP é retirar votos ao PS para evitar que este tenha uma maioria absoluta.  Para a direita, no caso do PSD, o objetivo é o de conseguir mais votos alguns retirados ao PS.

Para os liberais de direita e para os extremistas de direita o objetivo é arrecadar mais votos, logo conseguir mais deputados, venham eles donde vierem, para que possam exercer pressão sobre o PSD para negociações pós-eleitorais. Para os partidos à esquerda do PS, chamados de extrema-esquerda, o objetivo é a obtenção de números de votos para pressionarem o PS a uma nova negociação.

Por entre estas competições para a obtenção de votos há também obsessões. A de Rui Rio, de Catarina Martins, marioneta do ideológico trotskista Francisco Louçã, do troca-tintas de André Ventura do Chega é o reconhecimento, mas que não dizem, de que António Costa é um político inteligente e competente que receiam e, por isso, jogam tudo para afastá-lo. É a pessoa de António Costa que é o político, o primeiro-ministro, o secretário-geral do PS e o defensor da democracia e do socialismo liberal constitucional que pretendem afastar.

O BE espera que, com o afastamento de António Costa, possa surgir um novo líder do PS como Pedro Nuno dos Santos que ceda ao BE e ao PCP e constitua uma nova geringonça caso a direita ganhe sem maioria, ou o PS perca as eleições. Só uma maioria absoluta do PS poderá ter a capacidade para afastar essa possibilidade.

O que todos temem por motivos diferentes, mas sobretudo o PCP e o BE, é que o PS liderado por António Costa possa conquistar uma maioria absoluta de deputados nas próximas eleições, que lhes tiraria a possibilidade de limitar e bloquear decisões fundamentais e a continuação de uma governabilidade estável do país para quatro anos.

No campo meramente de competição, para Rui Rio, António Costa é uma obstrução na engrenagem que o poderá elevar até ao poder. Está a ficar mais claro que para Rui Rio chegar ao poder precisa dos votos que possam vir de quem votou anteriormente PS e das franjas da direita que saiam das eleições para poder contar com uma maioria parlamentar, não negando em absoluto a possibilidade de também contar com os deputados do Chega.

No momento em que escrevo uma das últimas sondagens dá uma maioria de esquerda com algumas possíveis nuances. Segundo esta sondagem feita para o jornal Público, RTP e Antena 1 o PS conseguirá obter um mínimo de 104 deputados e um máximo de 113, neste caso a três lugares da maioria absoluta no Parlamento e podendo fazer negociações parlamentares com o PAN e o Livre, como defende Rui Tavares. Mesmo no cenário dos 104 deputados continua a existir uma maioria de esquerda com o BE, CDU, Livre (elege um deputado em qualquer dos cenários) e o PAN. Assim, a direita cresce, mas não ganha. O PSD em caso algum consegue uma maioria de direita para governar – nem no cenário mais otimista, nem mesmo com quatro deputados do PAN. Se assim acontecer Rui Rio vai confrontar-se, mais uma vez, com a oposição dentro do partido.

Mais do que uma maioria do PS é mais de temer uma maioria absoluta do PSD. Rui Rio apesar de se dizer do centro facilmente irá infletir para a direita por pressão da ala mais à direita do partido. Só PS ao conseguir uma maioria confortável nas eleições se pode libertar-se do jugo do PCP e, sobretudo, do BE ao mesmo tempo que poderá também influenciar Rui Rio a manter um rumo diferente. Note-se que para o caso duma revisão constitucional serão necessários dois terços de votos dos deputados.

O que Rui Rio propõe é uma espécie de continuação do modelo social que o governo de Coelho/Portas estabeleceu de 2011 a 2015, mas numa versão mais light.

Pode ser uma versão menos radical, mas, do mesmo modo, pelo que tem vindo a reclamar de modo mais ou menos astucioso é um modelo baseado na redução de impostos às empresas, de salários, do Estado Social, da tendência para a privatização da Saúde, da Educação, Segurança Social, etc., e tudo o mais que a fação mais neoliberal do PSD irá impor a Rui Rio que irá originar o agravamento das condições económicas, financeiras e sociais que se conhecem até que, segundo o próprio, haja crescimento económico. Podemos até concordar com alguns pontos mas o modelo que apresenta pode ser ajustado à realidade portuguesa e de com uma progressão e ritmo adequados seguindo uma outra via.

Tudo isto apesar de, em termos pessoais, apreciar a atitude de Rui Rio como político franco, aberto, por vezes realista, mas outras vezes demagogo e cheio de condicionais “ses”, que capta simpatias, que pretende ser do centro e não de direita, mas lá vai piscando o olho à direita e ao votantes do centro-esquerda verdadeiro partido social-democrata que é o PS em termos de comparação europeia como o Grupo do Partido Popular Europeu a que pertence o PSD e Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Sociais Democratas Parlamento Europeu a que pertence o PS.

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publicado às 19:18

A queda de governo e os votos de esquerda.png

Incluo um texto de opinião publicado no jornal Público que justifica o pedido de votos para uma maioria de esquerda que teoricamente subscrevo quanto a partes do seu conteúdo, embora com muitas reservas. O texto em alguns pontos revela alguma demagogia e pretende ser um manifesto de colagem ao pensamento ideológico do BE e do PCP e em alguns dos seus argumentos.

Sou por uma maioria confortável do centro-esquerda e, caso essa impossibilidade, sou por alguns acordos de incidência parlamentar com partidos do centro-direita como o PSD se liderado como até agora por Rui Rio, mas que nada tenha a ver com aquilo a que pretendem chamar bloco central.

A experiência final de acordos com o BE e o PCP foram traumatizantes perturbadores da estabilidade. Estes dois partidos, como alguém já a firmou há algum tempo não são confiáveis devido às suas características de algum extremismo e historicamente revolucionárias que, por obrigação imposta pelas circunstâncias, se foram ajustando às regras democráticas com alguma contrariedade.

Em caso de emergência económica e financeira tendo em vista o crescimento não são partidos com que se possa contar. A sua posição de combate frontal a tudo quanto seja do domínio privado é prejudicial ao país. Pretendem o crescimento descontrolado da função pública por ser aí onde poderão angariar seguidores para sindicatos, greve e manifestações de contestação criando instabilidade social e, consequentemente, instabilidade política. As suas origens ideológicas apontam para um coletivismo que são fonte de imobilismo económico e social.

Todavia não se lhes pode tirar razão quando defendem um Serviço Nacional de Saúde público e universal, os direitos do trabalho, a escola e a universidade públicas, assim como a produção cultural e a defesa da preservação do planeta.

Ao longo das legislaturas não tem sido raro que aqueles partidos se juntem à direita em coligações parlamentares negativas apenas como oposição ao seu principal rival que, espante-se, não é a direita, mas o Partido Socialista, prejudicando assim o país e os trabalhores que dizem defender.

Por isso, embora pesando a honestidade intelectual e política dos signatários da carta, não defendo convergências com os partidos BE e PCP que contribuíram para o derrube de um Governo a meio de uma legislatura e que pretendem, agora, dar o dito pelo não dito para evitarem uma esperada queda de votos que milhares de portugueses não lhes irão dar.  

Votos por uma maioria plural de esquerda

(in jornal Público, 04/01/2022)

Em 2015, os entendimentos à esquerda permitiram reverter medidas socialmente injustas e economicamente contraproducentes impostas pela troika e pelo Governo de direita. Mostraram também que foi possível fazer convergências à esquerda em torno de objetivos concretos, mesmo no quadro de constrangimentos europeus que continuam a limitar o alcance das mudanças. A longevidade da solução política então encontrada superou todas as expectativas iniciais.

Os signatários desta carta, que apoiaram desde a primeira hora as convergências à esquerda, entendem que a devolução do voto aos cidadãos, no atual contexto, não tem de ser um drama. Pode e deve ser uma oportunidade de clarificação sobre o projeto de desenvolvimento para o país.

Apesar de não termos militância partidária, entendemos que os progressos políticos verificados desde 2015, mesmo quando insuficientes, não teriam sido possíveis sem o empenho do BE, do PCP e do PEV, no quadro de uma maioria parlamentar de esquerda com o PS. Sem prejuízo do balanço diferenciado que fazemos das razões que levaram à interrupção da legislatura, sabemos que a concretização de uma agenda socioeconómica mais ambiciosa é uma tarefa que o PS, sozinho, não poderá cumprir.

Defendemos um Serviço Nacional de Saúde público e universal, que valorize os seus profissionais, travando assim a crise que a pandemia acelerou. Defendemos os direitos do trabalho, revertendo as leis laborais do tempo da troika, recusando que a evolução da economia nacional seja baseada nos baixos salários e na precariedade. Defendemos uma política de habitação pública que responda à especulação que expulsa jovens, pobres e a classe média dos centros das cidades e promove a segregação social e racial. Defendemos a escola e a universidade públicas, assim como a produção cultural e o respeito pelos seus profissionais. Defendemos a preservação do planeta, recusando encarar a urgência climática como uma oportunidade de negócios.

Sabemos, porque quase meio século de democracia nos ensinou, que isto só é possível se garantirmos e reforçarmos a diversidade e pluralidade do campo da esquerda. Sabemos, porque 2015 nos ensinou, que todos os deputados que elegemos contam e que o próximo governo será formado pela conjugação da vontade das diversas forças parlamentares, independentemente de qual venha a ser o partido mais votado. E sabemos que a reedição, formal ou informal, do bloco central só pode ser evitada se as esquerdas parlamentares saírem reforçadas.

O nosso apelo é que o dia 30 de janeiro sirva para promover uma maioria plural de esquerda. A mesma pluralidade que impediu o aprofundamento do retrocesso social que a troika e o Governo de direita quiseram impor. A mesma pluralidade que permitiu avançar com medidas para a justiça social e económica neste país. Seja qual for o futuro, só essa pluralidade pode construir o diálogo, a alternativa e a resistência. Sem ela, a esquerda derrota-se. Com pluralidade, a agenda de esquerda para um desenvolvimento mais justo e sustentável de Portugal sairá reforçada.

Os 100 subscritores:

Abílio Hernandez (professor universitário); Alberto Melo (professor); Álvaro Siza Vieira (arquiteto); Américo Monteiro Oliveira (membro da CE CGTP-IN); Ana Benavente (socióloga); Ana Cordeiro Santos (investigadora); Ana Costa (professora universitária); Ana Drago (socióloga); Ana Ferreira (investigadora); Ana Luísa Amaral (poetisa); Ana Petronilho (investigadora); André Carmo (professor universitário e sindicalista); António Pinho Vargas (compositor); Artur Cristóvão (professor universitário); Bárbara Bulhosa (editora); Bernardino Aranda (livreiro); Boaventura Sousa Santos (professor universitário); Carlos Seixas (programador); Carlos Vargas (jornalista); Carmo Afonso (advogada); Constança Cunha e Sá (jornalista); Cláudio Torres (arqueólogo); Daniel Oliveira (jornalista); Diogo Martins (economista); Domingos Lopes (advogado); Elisabete Moreira (professora); Fátima Sá (professora universitária); Fernanda Rodrigues (assistente social); Fernando Nunes da Silva (professor universitário); Fernando Paulouro das Neves (jornalista e escritor); Francisco Bethencourt (professor universitário); Gabriela Moita (psicóloga); Gonçalo Leite Velho (professor ensino superior); Guadalupe Simões (enfermeira e sindicalista); Henrique Barros (médico de saúde pública); Henrique Sousa (investigador social); Isabel do Carmo (médica); Isabel Lindim (jornalista); Ivan Dias (produtor); Joana Craveiro (encenadora e dramaturga); João Fazenda (ilustrador); João Leal (professor universitário); João Leal Amado (professor universitário); João M. Almeida (quadro superior); João Rodrigues (professor universitário); José António Bandeirinha (professor universitário); José Aranda da Silva (ex-bastonário da Ordem dos Farmacêuticos); José Carlos Martins (enfermeiro e membro da CE CGTP-IN); José Feliciano Costa (professor e sindicalista); José Luís Peixoto (escritor); José Maria Silva (dirigente associativo); José Neves (professor universitário); José Reis (professor universitário); José Vítor Malheiros (consultor); Lúcia Amante (professora universitária); Luís Miguel Correia (realizador); Magda Henriques (programadora cultural e professora); Manuel Correia Fernandes (arquiteto); Manuel João Ramos (professor universitário); Manuel Lisboa (sociólogo); Manuel Morais (agente principal unidade especial de polícia e antropólogo); Manuel San-Payo (artista plástico); Manuela Barreto Nunes (bibliotecária); Manuela Mendonça (professora e sindicalista); Manuela Ribeiro Sanches (professora universitária); Manuela Silva (médica); Margarida Santos (investigadora social); Maria Augusta Sousa (enfermeira); Maria Irene Ramalho (professora universitária); Maria José Espinheira (administrativa ); Mário de Carvalho (escritor); Mário Laginha (músico); Marta Delgado Martins (advogada); Marta Lança (jornalista e tradutora); Miguel Gonçalves Mendes (realizador); Miguel Real (escritor); Nuno Serra (geógrafo); Nuno Teles (professor universitário); Patrícia Bastos (professora universitária); Paula Cabeçadas (ativista política); Paulo Pedroso (sociólogo); Pedro Abrunhosa (músico); Pedro Estêvão (sindicalista e investigador); Pedro Messias (sindicalista e bancário); Pedro Vieira (escritor); Pilar del Rio (jornalista); Ricardo Paes Mamede (professor universitário); Rogério Moreira (gestor); Rui Bebiano (professor universitário); Rui Graça Feijó (investigador); Sérgio Antunes (arquiteto); Sérgio Tréfaut (realizador); Tatiana Salem Levy (escritora); Teresa Beleza (professora universitária); Teresa Dias Coelho (artista plástica); Teresa Villaverde (cineasta); Tiago Rodrigues (encenador); Ulisses Garrido (sindicalista); Victor Louro (engenheiro silvicultor); Vitorino Salomé (músico).

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publicado às 19:41

Mais do mesmo e o bluff da maioria absoluta

por Manuel_AR, em 24.11.21

Bluff das esquerdas (1).png

Neste blog já abordei o tema do temor de maiorias absolutas manifestado pelo PCP e pelo BE. A propósito entrou na calha a vez a Jorge Cordeiro, membro da comissão política do PCP, defender, quinta-feira 11 de novembro, que uma maioria absoluta aproximaria o PS de uma política de direita e premiaria o partido que "devia ser castigado" ao mesmo tempo que acusa António Costa de apropriação de propostas apresentadas pelo PCP.

Acusa e tenta descredibilizar António Costa ao afirmar que ele fez bluff nas negociações porque queria eleições legislativas antecipadas e acusa ainda o PS de se apropriar “indevidamente” de propostas do PCP para as incluir no programa eleitoral com que se apresentará ao eleitorado nas eleições de 30 de janeiro. Permitam-me duvidar de Jorge Cordeiro. Será que o bluff vem só de um lado? Durante todo o debate sobre o OE para 2022 o bluff partiu do PCP.

Como pode ler aqui as maiorias absolutas são, para o BE e para o PCP, uma obsessão fóbica. Estes partidos e os seus dirigentes têm um medo patológico de carácter obsessivo de que se possa vir a concretizar uma maioria absoluta do PS o que se torna evidente quando Jorge Cordeiro concretiza que “o PS tinha um objetivo: alcançar a maioria absoluta, porque imagina que com essa maioria absoluta pode ficar mais livre para fazer aquilo que quiser”.  

A pergunta que também que se pode colocar é: e se a direita conseguir uma maioria absoluta já não há problema? A atitude anti PS é uma visão das esquerdas radicais que parece indiciar que, para elas, é pior uma maioria absoluta do PS do que uma maioria absoluta da direita PSD sem ou em coligação com outros partidos como já se verificou no passado quando o BE e o PCP votaram ao lado da direita abrindo alas ao governo de Passos Coelho.

O empenho em recuperar votos perdidos é tal que o bom senso se perde na verborreia partidária do PCP e do BE. Uma coisa é fazer campanha para fazer passar uma mensagem com propostas concretas ao eleitorado para captar votos, outra é fazer campanha com ataques sistemáticos, sem fundamento válido. É evidente o objetivo. O partido de onde poderão captar alguns votos, por algum descontentamento, é o PS.  A atitude anti PS do PCP não é nova. No passado o seu alvo de ataque era também o PS. Aliás, Jorge Cordeiro não se acanha em afirmar isso mesmo: “as eleições são uma oportunidade para o reforço da CDU com a garantia de que com mais deputados poderemos ter melhores condições para assegurar uma trajetória política no país que valorize salários, direitos e o SNS”. Nada de novo, as ferramentas mobilizadoras do PCP para melhorar e fazer crescer o país são os sucessivos aumentos de salários, aumentar direitos e ao mesmo tempo reduzir deveres e menos horas de trabalho. A demagogia no seu melhor. Tudo isto é socialmente justo desde que isso não possibilite debilitar empresas, aumentar o desemprego e quebrar o país. Quanto ao SNS, o BE e o PCP nada concretizam, a direita também faz oposição utilizando os mesmos argumentos, portanto, também aqui nada de novo o que nos apresentam aqueles partidos.

Quando há eleições, como os portugueses já se habituaram, o objetivo assenta na tónica do ataque ao PS. Para aqueles partidos o alvo não é a direita. A direita, para o PCP e o BE, transforma-se então numa aliada.

Tal e qual como diz Fernando Rosas num artigo de opinião com o título Tempo dos Oráculos onde critica comentadores que, segundo ele, “sentenciam que a esquerda consumir-se-á no fogo dos infernos e o regresso ao bloco central ou à direita desenha-se certo nos despojos da razão.” Nem a propósito,  porque para se ter o voto dos eleitores o que importa são as intervenções que o intimidem e manipulem. O voto pelos projetos para o país, muitas vezes inexequíveis, ficam para segundo plano.  

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publicado às 19:35

Esquerda desconcertada (1).png

A propósito da crise gerada pelo BE e pelo PCP que estes partidos pretendem imputar ao PS, o desconcerto de Catarina Martins do Bloco de Esquerda, coadjuvada por opiniões e comentários de Francisco Louçã Fernando Rosas e Daniel Oliveira e outros comentadores, cada um ao seu estilo, saem do quadro da razoabilidade política.

Catarina Martins dia sim, dia sim, afirma que o Primeiro-ministro “quebrou pontes com a esquerda na obsessão da maioria absoluta” que a culpa de tudo o que se passou durante a discussão do O.E. 22 não aprovado juntamente com a direita é da responsabilidade do PS e, claro, de António Costa.

Catarina diariamente traz inovações e retóricas para demonstrar que a crise política é “artificial, desnecessária e é um truque de António Costa”. Parece uma obsessão compulsiva da Catarina estar a ser perseguida por maiorias absolutas.

É uma obsessão de Catarina e também de Jerónimo atacarem o PS que é, segundo eles, onde está o grande perigo.  Para eles o perigo não vem da direita, vem do PS. Esta obsessão está rapidamente a transformar-se numa fobia da maioria absoluta do PS. Estão a ficar partidariamente megalofóbicos, ou seja, estão a ter medo de algo maior do que para eles é considerado o normal. Isto é, sentem-se desconfortáveis e agitados, por um partido ou um personagem que possa vir a ser maior e mais poderoso (PS?), (António Costa?).

A fobia é um medo irracional e desproporcional em relação a algo. O medo é uma emoção causada por um tipo de ameaça ou dano real ou ilusório. A reação ao medo é um mecanismo de defesa adaptativo e de grande utilidade, pois serve como um aviso de perigo. É entre o medo e a fobia que os partidos, quer o PCP, quer o BE, se situam.

E para sublimar os seus medos e combaterem a sua fobia (a da maioria absoluta do PS) repetem os mesmos argumentos fazendo de alvo o PS. A sublimação é o mecanismo de defesa que transforma uma frustração e energia em impulsos que possam ser bem vistos pela sociedade e, neste caso, também úteis para os partidos.  Isto é, a sublimação ameniza, por exemplo, dor, angústia, frustração, entre outros.

Jerónimo de Sousa do PCP, embora mais moderado, segue os passos de Catarina. A sua obsessão  é também o chamado bloco central com que “A direita sonha novamente”, dizem. Sobre isto Jerónimo de Sousa lá vai lançando para o ar que (eles) "queriam e querem, no fundo, que o PS consiga uma maioria absoluta e, se depois perder, roda outra vez para os partidos do chamado 'bloco central'. Começa-se outra vez a ouvir falar no bloco central. Corrigidas as zangas lá na direita, do PSD e do CDS, lá sonham outra vez com o bloco central", sustentou em 6 de novembro Jerónimo de Sousa, num discurso no final de um jantar comemorativo do centenário do PCP.

Para além desta obsessão Jerónimo de Sousa acumula à semelhança de Catarina a fobia da maioria absoluta do PS e, para evitar tal “catástrofe” (este nome que aqui insiro é ironia), Jerónimo de Sousa também pede o voto no PCP que é a forma de evitar a maioria absoluta do PS e o regresso do "Bloco Central". Estas obsessões da maioria absoluta têm como objetivo enfraquecer o PS e recuperar votos perdidos.

Isto do Bloco Central é um mito que serve como prenúncio de um mal que é utilizado pelo BE e pelo PCP. Duvido que o PS vá alinhar numa fórmula como de entendimento político entre o Partido Socialista e o Partido Social-Democrata.  Entre 1983 e 1985, com Mário Soares como primeiro-ministro partidos na altura de centro-esquerda e de centro-direita respetivamente formaram uma coligação de Governo. Os dois partidos à esquerda do PS, críticos da U.E., serão sempre contra coligações como a que foi feita na Alemanha, a denominada Grande Coligação, que durou cerca de dezasseis anos e que proporcionou estabilidade no país.

Em Portugal um acordo ao centro seria possível sem ser como Bloco Central que possuiu uma carga negativa. Seria antes uma espécie de “trotinete”, uma espécie de compromisso assente em dois partidos cuja extremidade guiadora seria o governo e que permitiria dirigir as duas rodas (partidos) e se propelia com o impulso dos dois.

O que Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, cada um a seu modo, estão a tentar com as suas declarações não é mais do que uma gestão/reparação de danos que os respetivos partidos causaram a si próprios culpabilizando o Governo e o PS. Em sentido figurado, claro, tudo está a passar-se como se, após um "crime", o "criminoso" culpasse a vítima por ter morrido.

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publicado às 19:30

Comentário e opinião.png

Quem sou eu para, bem ou mal, comentar o que doutos comentadores, professores catedráticos, experimentados políticos, advogados chamados para comentadores, conceituados jornalistas e muitos outros, muitos deles sentados nos bancos do serviço público que nada têm a perder.  A estes podemos juntar ainda os que se movem no mundo do privado que escrevem, opinam e publicam nos vários órgãos de comunicação social da imprensa à televisão.

Quando emito uma opinião, por muito fundamentada e acertada que seja, consegue ser, para frequentadores das redes sociais, menos credível do que as “fake news” que eles partilham e multiplicam num ápice.

Entendo que a análise política é diferente do comentário e da opinião política. Assim, uma afirmação sobre um facto pode ser comprovada como verdadeira ou falsa. Um comentário é algo que se diz ou escreve e que expressa uma opinião pessoal. Expressa sentimentos subjetivos sobre um facto ou factos, mas que não podem ser provados. As opiniões podem ser baseadas em factos e, muitas vezes pretendem aliciar outros deliberadamente para as posições de quem as emite. A análise política grosso modo aborda ou aprofunda a origem dos sistemas políticos e o modo como se desenvolvem e funcionam. Pesquisa e analisa governos, ideias políticas, políticas, e as suas tendências entre outros temas.

Quando o comentário e a opinião pretendem ser preditivos e substituir-se à análise política transformam-se duma espécie de oráculos o que é frequente verificar-se nos comentários e nos frente a frente televisivos.

Considerar que face a acontecimentos presentes comparativamente com o passado colocar várias hipóteses que poderão ser confirmadas, ou infirmadas, é uma coisa, outra é, dizer-se que vai acontecer isto ou aquilo com base em circunstâncias tão fluidas como são as da política. Vejamos o seguinte exemplo: quando se afirma que a “geringonça” chegou ao fim, ou que a destruição da esquerda está à vista, ou que a direita não ganhará as próximas eleições através de informações vagas e dados insuficientes é aproxima-se de oráculos.

O prof. Fernando Rosas, pessoa por quem tenho imensa consideração enquanto intelectual de esquerda, escreveu num artigo de opinião no jornal Público a propósito do “tempo dos oráculos da desgraça” que vê numa “campanha destinada a tentar fazer as forças de esquerda pagar a ousadia de, desta vez no seu conjunto, votarem contra o Orçamento de Estado (OE). À exceção dos seus próprios argumentos e predições tudo quanto se alvitrar sobre isto do que possa acontecer à esquerda são oráculos. Considera que “há uma vaga oracular que assenta num punhado de fábulas mistificadoras” que tenta justificar.

Sobre os oráculos em geral concordo com Fernando Rosas, porque há muitos comentários e opiniões que por vezes são mais oráculos do que pontos de vista. A tentativa de desconstrução das opiniões que ele toma como fábulas mistificadoras vão no sentido de purificar os falhanços do BE devido a radicalismo e sectarismo. Note-se que o prof. Fernando Rosas foi um dos fundadores do Bloco de Esquerda.

Fernando Rosas apresenta quatro pontos, a que chama fábulas mistificadoras, que, segundo ele fundamentam a sua tese.  Razões que, na minha opinião, fogem às verdadeiras questões. Foi criada uma crise sim porque se ousou “votar contra um OE por se considerar que ele não serve os interesses do país” e sim foi uma “irresponsabilidade” apesar de haver “outras soluções constitucionalmente possíveis.” Seria que qualquer uma dessas outras soluções, dado os pressupostos do PCP, e, sobretudo, os do BE evitariam uma crise num futuro próximo?  Creio que não porque estas forças quiseram impor o seu próprio orçamento ao Governo descaracterizando o inicial.

A segunda que Fernando Rosas aponta como mistificação é uma falácia baseada numa hipotética obsessão de António Costa por uma maioria absoluta e que, por isso, desejava uma crise. Este ponto é uma possibilidade sem fundamento. O desejar-se algo não significa que esse algo aconteça, aliás há sondagens que neste momento desmentem tal argumento.  A crise foi desencadeada pelo PCP e pelo BE porque foi evidente que de facto que “o Governo “cedeu tudo o que podia ceder” para salvar o OE. Sim, tendo em vista as boas contas públicas com redução possível do défice e redução da dívida. O BE não entende isso dos mercados e das dívidas dos países, ou melhor, entende, mas como é pela revolução permanente deveria cortar-se com o Mundo. Os restantes argumentos do segundo ponto são pontos de vista subjetivos e muito discutíveis.

O terceiro ponto ou mistificação passa, segundo diz Fernando Rosas, por ser uma dramatização sobre o que perdem os funcionários públicos ou os pensionistas pela não passagem do OE ao escrever que o “Governo em funções pode e deve, mesmo sem aprovação do OE, proceder aos aumentos e atualizações anunciados para cada um destes casos”. Então, assim sendo, os OE em alguns casos são uma espécie de jogo que se faz entre partidos e que, aprovados ou não, tudo pode continuar como se nada tivesse acontecido. Parece-me uma visão um pouco enviesada.

A quarta mistificação apresentada por Fernando Rosas é quando escreve que é um oráculo feito por alguns que “faz furor no comentário político dos oráculos, é de que a esquerda que hoje não se entende não será solução para uma maioria futura”. Acrescenta ainda que este é um “argumento surpreendente, pois é a direita que parece estar triplamente descredibilizada”, e “porque é ela que se esfarela em cruentas lutas intestinas para saber quem apresenta ao ato eleitoral e que “para governar, as direitas todas juntas precisam de maioria absoluta e parecem estar longe dessa possibilidade”.

Será assim? Verdade é que a direita anda descredibilizada e em lutas intestinas e por isso não terá maioria para governar. Estes argumentos também me parecem ser oráculos. E se, entretanto, a direita se conseguir reorganizar?

O argumento que faz depender dos problemas internos nos partidos de direita e das circunstâncias políticas atuais um possível entendimento à esquerda, parece-me estar a desvalorizar qualquer hipótese de a direita vir a ter maioria. Repare-se que no caso do PSD se Paulo Rangel ganhar a liderança assumiu acordos com a Iniciativa Liberal. Por outro lado, o CDS está a ser desfalcado de militantes que, na melhor das hipóteses, irão engrossar o IL e já não incluo o Chega. O imprevisível em política acontece.

Mantendo-se os partidos à esquerda do PS, PCP e BE, irredutíveis e na negação de cedências e de acerto de alguns consensos e compromissos é também provável que, mesmo que uma maioria de esquerda saia das próximas eleições, seja mais difícil manter-se um acordo semelhante ou melhor do que a passada “geringonça”. O contrário disto será um otimismo e uma profecia de Fernando Rosas. As dificuldades que existem na direita são um argumento aceitável, contudo, quem diz que após a sua organização maioria de direita não poderá vir a ser uma possibilidade, então, lá estará a esquerda toda tramada. E a responsabilidade será então de quem?

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publicado às 19:04

Daniel Oliveira e PS.png

A propósito, e mais uma vez, do chumbo do Orçamento de Estado para 2022 pelas esquerdas radicais, Daniel Oliveira, ex-Bloco de Esquerda de que foi um dos fundadoresn e do qual abandonou a militância, sendo hoje independente afirmou no programa "Sem Moderação" que o PS deseja a perda de força da Esquerda para virar ao centro e aniquilar a sua ala mais progressista.

Segundo Daniel Oliveira o chumbo do orçamento foi perpetrado por aqueles que agora dizem que a culpa foi de quem o queria aprovar, isto é, o PS. Isto parece algo como se alguém partisse um copo que estava na mesa e depois viesse desculpar-se dizendo que a culpa foi de quem colocou o copo na mesa.

Mas, afinal, quem poderia aceitar as propostas do BE e do PCP para alteração do O.E. que iriam colocar novamente Portugal no fio da navalha orçamental, dando passos mais compridos do que a perna.

Daniel Oliveira afina o seu diapasão com Catarina Martins e com Francisco Louçã e arroja dizer que “Há uma parte do PS que quer secar o Bloco de Esquerda e o PCP, e isso é por causa do próprio PS”. E que “Há uma parte que vê grande vantagem nisto", para virar o PS ao centro. Talvez até não fosse mau de todo, mesmo os que são de esquerda começam a estar fartos especialmenet do BE. Os que ainda seguem as teses do BE no que se refere ao chumbo O.E. ou são os seguidistas a todos o custo e os sectários.

A política é uma ciência social recente não exata, baseia-se nas probabilidades não quantitativas dos  acontecimentos, a não sere em sondagens. Procede à análise dos fenómenos que impliquem a existência de poder político, ou seja, dos fenómenos que impliquem a capacidade de influenciar os indivíduos. Para tal tenta explicações prováveis mais ou menos fundamentadas, por meio de estudos, observações e experimentações, esta última difícil de executar em ciência política.

Sobre política o que nos chega, a nós, leigos, não são os resultados de investigações sistemáticas e metodológicas, são apenas comentários e opiniões transformadas em hipóteses não comprovadas empiricamente, e as intervenções de políticos, essas, conforme as ocasiões do tempo político.  

Deste modo, quando se dão opiniões ou se escrevem comentários sobre política, mesmo os que estão nos seus meandros baseiam-se nas informações que têm e em decisões aproximadas tendo em conta factos, experiências anteriores e informações obtidas nos momentos.

Voltando ao propósito de Daniel Oliveira é interessante analisar a sua análise doa acontecimentos políticos que estão implícitos na sua afirmação de que "a radicalização da Direita facilita" o processo, ao mesmo tempo que a "perda de força do Bloco de Esquerda e do PCP libertam o voto para a extrema-Direita". Esta afirmação causa-me alguma perplexidade. Então se o BE e o PCP perdem força a consequência é o voto ser libertado para a extrema-direita? Mas os votos libertados de onde e de quem vão para a extrema-direita?  

E mais, teorizou ele, "Dá-se uma inclinação total do sistema político para a Direita por falta de força da Esquerda, e isto tem a ver com lutas internas no PS."

Alguém por aí me ajude a perceber!

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publicado às 19:28

A morte anunciada de um Orçamento Estado

por Manuel_AR, em 29.10.21

Chumbo Orçamento 22.png

Logo após a notícia do chumbo do Orçamento de Estado para 2022 veio-me à memória o de livro de Gabriel Garcia Marquez, Crónicas de uma Morte Anunciada do qual faço uma sinopse: um jovem vítima da denúncia falaciosa de uma mulher repudiada na noite de núpcias, foi condenado à morte pelos irmãos da sua hipotética amante, como forma de vingar publicamente a sua honra ultrajada sob o olhar cúmplice ou impotente da população expectante de uma aldeia colombiana. O enredo do livro, baseado numa história verídica nada tem a ver com política, mas serviu-me como raciocínio através do qual inferi de uma semelhança não comprovada um facto de semelhança comprovado, a morte anunciada do orçamento.

O destino do O.E. já seria conhecido de antemão por todos e apenas um milagre ou passe de magia poderia salvá-lo embora muitos acreditassem anda que poderia passar.  O chumbo do Orçamento despertou a indignação de uns, a satisfação de outros e a tentativa de distorção do facto por outros. A indiferença, o desprezo e o egoísmo partidário e introvertido levaram a que dois partidos, o BE e o PCP, acabassem regendo o processo que culminou simbolicamente na morte da vítima que é o interesse do país e dos portugueses.

Antes da votação final a morte anunciada do O.E. despertou nas pessoas, comentadores e analistas políticos sentimentos diversos e conflituantes por entre visões diferentes, especialmente nos atores durante a discussão do objeto do litígio.

Alguns ouvintes e observadores da trágica anunciação colocaram-se em posição de descrença, acreditando devotamente que os executores da sentença de morte não levariam o seu plano adiante. Para outros, o ódio nutrido pela vítima, leia-se orçamento, resultou numa posição de indiferença quanto ao resultado provável, a sua morte. De qualquer modo o que se observou, em quase todas as reações, foi que, a despeito da trágica notícia da morte ser por todos previamente conhecida, ninguém agiu exceto a já conhecida vítima o protagonista no sentido de evitar o resultado final.

Quem provocou a crise não foi a direita, mas ajudou, foram as esquerdas radicais. A direita foi honesta. Desde o início que O.E. se não fosse alterado não era o que aprovariam, e, muito menos, após os ajustes dados como benesses aos dois partidos à esquerda do PS.  Por outro lado, um entendimento à direita foi logo rejeitado por António Costa ao dizer em agosto que “No dia em que a subsistência deste Governo depender de um acordo com o PSD, nesse dia este Governo acabou”. Pois foi, acabou pelas mãos dos antigos parceiros do PS.

A ideia inicial de acabar com os muros que, ao longo dos anos, marginalizavam os partidos à esquerda do PS foi democrática, idealistas, romântica.  Depositavam-se muitas esperanças na aproximação. Todavia, pareceu uma ingenuidade da parte de António Costa e de alguns setores do PS meterem-se na cama com o “assassino”, nome de filme um cujo título é “Dormindo com um Assassino”. Em 2015 alguém disse que aqueles dois partidos não eram de fiar.

Com a assombração da perda de votos nas eleições que os penalizaram posteriormente ao acordo o PCP e o BE começaram a ver no PS o seu principal inimigo e direcionaram a sua tática para o combater a qualquer preço.

A estabilidade e a sobrevivência política que se viveu até ontem foi baseada num paradigma que, em vez de olhar para o futuro, visava apenas o combate à herança de Passos Coelho que agora ameaça regressar. O que prevaleceu no final foi o desprezo pelos interesses do país em favor dos dogmas partidários das esquerdas radicais Bloco e PCP que só sobrevivem do protesto, das greves e do combate ao modelo social e económico europeu, da aversão ao mercado e ao liberalismo europeu que um partido social-democrata como o PS perfilha.

É o regresso à praia preferida do PCP e do BE onde, só aí, sabem surfar e conseguem sobreviver às ondas da democracia. Neste aspeto há semelhanças com a extrema-direita que se congratula, a única que ganhar porque prospera por entre os pântanos políticos.

Os políticos pressionados pelos seus partidos têm o centro do olhar no seu umbigo, com um sectarismo cego obediente às estratégias partidárias. Na política as estratégias são necessárias quando o objetivo é o de chegar ao poder deixando os interesses da maioria do povo para segundo plano. A extrema-esquerda não têm esta ambição porque estes partidos sabem que, isoladamente e através de eleições, nunca chegarão ao poder. A sua política centra-se na instabilidade usando tudo o que a democracia lhes permite como manifestações, greves, movimentos sindicais. Se estas estratégias há tempos eram apenas das extremas-esquerda hoje em dia as extremas-direita adotaram as mesmas e infiltrações em manifestações para provocarem instabilidade.

A política como atividade ocupacional que nós todos pagamos deveria ter a função de conseguir articular equilíbrios o que exige a capacidade de julgamento, visão de conjunto, prudência, intuição, sentido de tempo e de oportunidade, jeito e disposição para tomar decisões sobre assuntos sobre as quais não existem certezas absolutas. A falta destas qualidades revelou-se nos políticos de todos os partidos à esquerda do PS ao chumbarem o Orçamento de Estado com exceção do PAN e das deputadas não inscritas.

A política não serve apenas para gerir objetivos governativos ou de oposição tem mais que ver com ponderação sobre o significado social das decisões, certas ou erradas, que se tomam assim como da sua oportunidade e do modo como podem afetar as pessoas. É disto que o PCP e o BE têm falta, - e não apenas estes - centrando-se, como já afirmei, no seu umbigo partidário dogmático mesmo em situações cuja gravidade nos afetará a todos. A questão ideológica está entranhada no inconsciente revolucionário daqueles partidos que vem do passado, é uma espécie de arquétipo que se sobrepõe à racionalidade e ao bom senso.

A essência ideológica dos partidos da esquerda radical ainda se mantém, contudo, personalizou-se, deu lugar simultaneamente à personalização da decisão que é aceite por um “mercado” eleitoral amorfo e ideologicamente desinteressado. O eleitor vota por vezes no sujeito A ou no sujeito B e não da ideologia que move os partidos em que votou.  

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publicado às 12:13

Orçamento22-Líderes.png

As máfias tipo Cosa Nostra funcionavam com sua hierarquia estrutura vertical e centralizada o que é incompatível com a flexibilidade negocial exigida hoje em dia pelos negócios de qualquer organização mesmo que mafiosa.

Os pedidos de favores que forem concedidos terão um custo que é a contrapartida que, quando necessário, e oportuno, os favorecidos terão que pagar através de um preço por vezes demasiado alto que não será apenas monetário. Para tal a “organização” exerce pressão sob a forma de chantagem.

Recordo-me de um filme muito antigo que vi em 1962 quando era jovem, Mafioso, realizado por Alberto Lattuada e protagonizado por Alberto Sordi no papel de Antonio Badalamenti. Nino, (Alberto Sordi), reencontra Don Vincenzo (Ugo Attanazio) o chefe da “organização”. Durante a narrativa fílmica vemos como, por pequenas etapas, uma armadilha fecha-se, pouco a pouco, sobre Nino, a partir do pedido do diretor da fábrica onde trabalhava para que ele leve um presente ao homem rico da sua aldeia. Em síntese: em vez de ir caçar perdizes e lebres, como pensava Nino é levado a “caçar” outro homem sob pena dele próprio e da sua família se transformarem em caça caso não o fizesse. Nino acabava de ser escolhido para realizar uma missão para a máfia. Mas nada lhe é dito abertamente, fica tudo subentendido em meias palavras.

O que é que o filme tem a ver com a aprovação do O.E.? Nada. Mas o facto é que podemos estabelecer uma analogia com o que se está a passar com os partidos da extrema-esquerda PCP e BE que têm feito, ao longo das últimas semanas, uma espécie de chantagem. Durante os dois últimos anos prestaram “favores” ao Governo PS aprovando orçamentos (no último apenas aprovado pelo PCP) , agora, como retorno desse favor, exigem-lhe um preço demasiado alto utilizando como arma (a chantagem) a possibilidade de não aprovação do Orçamento de Estado para 2022 que, nesta hora em que escrevo já foi anunciada. Pretendiam como objetivo final a obtenção de todas as exigências algumas delas impossíveis de cedência por colocarem em risco a sustentabilidade financeira e económica do país. Numa espécie de hooliganismo partidário não facilitaram nem possibilitaram qualquer espécie de consenso passando o Orçamento ser o da extrema-esquerda BE e PCP que passaria a ser uma mera amostra da razoabilidade do inicial.

 

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publicado às 18:41


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