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OPINIÃO

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Não sabe o que é o nó górdio? Se não sabe devia saber

José Pacheco Pereira

In Jornal Público, 2 de julho de 2020

turnover geracional político e jornalístico criou uma espécie de simbiose no pensar, no falar, no viver entre os jovens políticos e jornalistas.

Ele há dias, em bom rigor cada vez mais dias, em que o meu interesse pela política corrente portuguesa, se não é nulo, é quase nulo. Não é uma atitude aconselhável, porque o desinteresse pela coisa pública não é uma atitude cívica que se deva ter, mas não consigo, pura e simplesmente não consigo, passar o dia a ouvir e a ler sobre as trapalhadas entre António Costa e Pedro Nuno Santos, ou sobre a tragédia da menina Jessica, ou sobre as “contingências” na saúde, ou as ciclópicas tarefas do novo líder do PSD. No entanto, em todas estas histórias há aspectos relevantes, seja a qualidade da acção governativa, seja o retrato da miséria física e moral do mundo da pobreza e a sua implícita violência, seja o conflito larvar entre corporações poderosas, interesses privados e, de novo, a incompetência da governação, ou sobre o dilema entre uma oposição dos decibéis ou uma oposição reformista num país demasiado pequeno e atrasado para poder ultrapassar os interesses instalados.

De novo, insisto, tudo isto é relevante e não merece indiferença, mas… a pasta informativa que nos é servida todos os dias transforma-o numa espécie de puré de batata, ou melhor num puré de maçã adornado por frutos vermelhos e uma pétala ou uma pequena flor por cima, como um pastiche da pseudo-comida francesa que por aí se come. E quando não é só isso, no meio do puré está um fio de veneno, com a crescente politização escondida da informação, que torna mais saudável ler o Abril, Abril, um site informativo do PCP que não engana ninguém, do que a mais sofisticada e profissional manipulação da Rádio Observador pelas manhãs. Isto para quem não seja seguidor de Mitridates do Ponto, como eu sou há muito tempo, e corra o risco de se envenenar mesmo a sério.

A culpa é dos jornalistas? Já foi mais do que o que é, porque, entretanto, o turnover geracional político e jornalístico criou uma espécie de simbiose no pensar, no falar, no viver entre os jovens políticos e jornalistas - jovem aqui segue o critério do Konsomol - que cada vez são mais parecidos na visão do mundo, no vocabulário, no modo de viver entre si, na frequência de lugares, de restaurantes, de leituras, de “sítios”, do que vêem na televisão e ouvem na rádio, que se entendem como quem respira. É uma coisa que se tem vindo a desenvolver nos últimos anos, uma comunidade de vida e cultura, uma redução da política a critérios mediáticos, uma espécie de contínuo entre a má política e o mau jornalismo feito de uma atenção quase obsessiva às chamadas “redes sociais”, de uma redução da complexidade a favor de um simplismo redutor, de uma pobreza vocabular de que resulta numa incapacidade expressiva e, por isso mesmo, ou uma brutalidade argumentativa ou uma sucessão de lugares comuns, muito pouco estudo e uma dose exagerada de comentários e debates televisivos.

Todos os rodriguinhos dos nossos tempos são absorvidos, quer como aspirações, quer como tabus, com um medo pânico e um não-pensar em relação às matérias proibidas, seja o racismo, seja a homofobia, seja a condição feminina, seja, noutra área de “negócios”, a interiorização da economia da troika, a começar pelo PS. A indiferença face aos estragos feitos à língua portuguesa pelo Acordo Ortográfico, que só subsiste pela inércia cultural da ignorância, é mais difícil de mudar do que pôr-nos a todos a dizer “todes” para sermos politicamente correctos.

Viver vidas a sério, ou seja as que têm dificuldades e escolhas, não garante experiência, mas as vidas de plástico aproximam-se muito do mundo imbecil das/dos influenciadores das revistas do jetset. Esperem para chegar a praia e vão ver como é. Ler muito também não garante nem qualidade nem razão, mas ler pouco garante muita ignorância e, para quem vive num mundo com uma forte componente explícita de símbolos e escondida de interesses, resulta num modus operandi de rotina e incompetência e de serviço aos glutões que por aí andam e comem estes políticos e jornalistas ao pequeno-almoço.

Dizer isto é elitismo e sobranceria? Talvez. Mas tenho por mim a memória de José Medeiros Ferreira e um seu momento numa entrevista em que falou do “nó górdio”, e a jornalista perguntou-lhe o que era. Medeiros Ferreira irritou-se e respondeu: “Se não sabe devia saber”.

O autor é colunista do PÚBLICO

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publicado às 08:41

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Os portugueses sempre foram sebastianistas não nos amidaremos, portanto, que andem sempre à procura de um qualquer salvador que um dia surgir. Mas, quando aparece, e começa a “tratar-lhes da saúde” assobiam para o lado e queixam-se para o vizinho do lado que nada teve a ver com o caso.

Após a eleição de Luis Montenegro para líder do PSD saiu outra vez do refúgio desta vez com o impacto que desejaria e daí esperarmos que aproveitará ou criará as oportunidades que surjam para poder sair mais vezes.

Desta vez, numa entrevista à CNN feita por uma espécie de múmia jornalística que olhava embevecida para o entrevistado que criticou a comunicação social que, disse, ter ajudado António Costa e o PS a obter maioria absoluta. Esperemos, que essa mesma comunicação social não se sinta atingida nem culpabilizada e não corra a fazer a contrição e lhe dê agora um protagonismo indevido, exagerado e imerecido, encurralada por uma múmia política fora do seu tempo. Portugal, de tempos a tempos, seja nos bons ou maus momentos, sobretudo nos de crise, refugia-se no elogio ao passado, numa espécie de purga para solução dos problemas.

Cavaco Silva saiu da inércia parcial a que se dedicou, salvo em aparecimentos pontuais para lançar memórias e outros escritos que a sua autoestima lhe dita e para conseguir algum protagonismo que acha lhe ser devido.

Cada vez que aparece à tona as suas mensagens são azedas, prenhes de pessimismo e despeito. É uma espécie de profeta e arauto da desgraça dirigida aos da sua fação, mesmo que os resultados demonstrem o contrário.

Não admira que ainda haja saudosistas dessa figura mais ou menos austera, salazarenta, pouco sociável, que se dedicou à observação das cagarras no final do seu lúgubre mandato presidencial. Este personagem que se transformou numa caricatura de político saiu ressabiado por António Costa ter conseguido formar uma maioria de esquerda de incidência parlamentar estável, contra a previsões da figura sinistra da presidência que, se o conseguisse, permitam-me a especulação, imporia uma democracia musculosa ao país, depois de ter dado descaradamente a mão a Passos Coelho para a manutenção de um governo minoritário saído das eleições legislativas de 2015.

Com a maioria absoluta do PS os traumatizados da direita vão aproveitar tudo quanto vier à tona para desclassificar, desgastar e corroer António Costa e o PS. Veja-se o que, uma tal Pipa, escreveu num comentário um artigo de opinião que Cavaco Silva escreveu para vermos ao que chega o disparate, a falsidade e as mentiras que se escrevem:

“Que grande lição! Com uma oposição em condições e uma comunicação social isenta nunca o Costa seria reeleito, muito menos com maioria. Estamos a ser ultrapassados por todos os países de leste, o povo está esmagado e empobrecido por impostos e um salário médio quase igual ao mínimo, sem crescimento, com dívida pública brutal, com uma inflação gigante e são negados aumentos de salários/pensões, uma gestão desastrosa da pandemia, um SNS de rastos, um sistema educativo miserável, uma emigração em massa ao nível dos tempos de Salazar... e mesmo assim este homem foi premiado com uma maioria absoluta? De fato controlar as TVs e a sua propaganda diária pró-PS faz milagres.”

Quem escreve uma tal verborreia pertence à fação dos que já se esqueceram do tempo do governo de Passos Coelho com o apoio, do na altura, do presidente Cavaco. Este comentário totalmente deturpado e de mentira intencional foi objeto de desmontagem num outro artigo de opinião da Bárbara Reis no jornal Público.  Se analisarmos o texto do dito comentário está próxima das palavras de ordem da extrema-esquerda que poderá estar a colar-se à direita para fazer oposição ao PS.

 

 

Para se presentear com algum protagonismo e sair da toca do esquecimento veio agitar divisões e prejuízos idênticos aos que provocou no tempo da troica fazendo com o seu dileto aprendiz Passos Coelho

Os regressos ao passado agravando divisionismos não têm dado bons resultados, mas eles continuam a ressurgir em Portugal e por essa Europa e Cavaco parece estar a surfar nessa onda.

Cavaco Silva foi muito claro ao dizer na entrevista que o PSD tem que falar para todos mesmo para aqueles que não gostam do PS (o sublinhado é meu).  É óbvio que está a conotar-se com o GHEGA e com a IL. O extremismo de direita está bem presente neste pensamento de Cavaco que não consegue disfarçar.

Saudosistas e admiradores acríticos da personagem prestam-lhe vénia com elogios à mistura sobre a sua “vasta obra de escritos” ou, no dizer de João Miguel Tavares, “vários textos marcantes ao longo da carreira”. Para alguns, felizmente poucos fiéis adeptos, Cavaco será uma figura sábia, portanto, digna de qual Prémio Nobel da literatura, da economia, da política, da democracia, isto digo eu. Isto tudo porquê? Apenas e por causa de um artigo critico que ele escreveu sobre António Costa. É que, não sei se se recordam, a memória do povo é fraca, mas a ira e a fria vingança estão instaladas nesta mesquinha personagem da política que não consegue esquecer e distanciar-se dos constrangimentos, ressentimento e revolta que António Costa lhe causou no final do seu mandato ao ter que aceitar a negociação parlamentar com o PCP e o BE que veio a ser a causa do derrube do governo de Passos Coelho e à maioria de esquerda encontrada no âmbito da Assembleia da República, a tal “geringonça”.

Cavaco não consegue ver a três dimensões, vê a política a uma dimensão, a dele.

Atualmente, por coincidência, ou não, depois de Luís Montenegro ter ganho as eleições para a liderança do PSD Cavaco, mais uma vez, saiu da sua letargia e os seus admiradores incondicionais apressaram-se a elogiar os mandatos de primeiro-ministro marcados pelo betão e pelas obras megalómanas para que ficasse na história. Momentos de reconstrução com fundos europeus que Cavaco não fez mais do que a sua obrigação, utilizá-los para desenvolver as infraestruturas de Portugal.

E, claro, Montenegro irá ser um fiel seguidor “offline” dos doutos conselhos cavaquistas. Não é por acaso que surge neste momento o artigo de opinião crítico a António Costa. Atrevo-me a dizer que irão surgir aparições e convites mais frequentes nas televisões desse santo padroeiro por parte do PSD. Aliás, não tardou e a CNN já iniciou o périplo dando-lhe voz onde começou a atirar a todos os alvos numa simbiose de ira e vingança onde teceu duras críticas à liderança de Rui Rio e elogios a Luís Montenegro.

Não terá sido por acaso que que Cavaco surge logo após a vitória de Montenegro, este sabe que sabe terá nele um precioso auxiliar na oposição ao PS que já iniciou ao sair da toca dos políticos escondidos. Cavaco sabe que é o momento para voltar ao protagonismo.

Estamos a ver que as previsões/especulações sobre Montenegro que tracei num blogue anterior começam a verificar-se. Montenegro não só é seguidor de Passos Coelho, como também vê em Cavaco o seu inspirador político.    

Cavaco Silva pretende mostrar-se como um visionário da política por antecipação e procura teorias da conspiração. Veja-se esta com base numa afirmação de Rui Rio proferida em abril de 2019 quando disse que “Nós não somos de direita. Nós somos do centro, somos moderados”. Afirmara ainda Rui Rio, líder dos sociais-democratas que “votar no PSD dá garantia de moderação”. E, claro, a douta personagem infere que “Foi um erro o PSD deixar-se enlear numa dicotomia direita esquerda”. E acrescenta que “era uma armadilha montada pelo PS e alguns órgãos de comunicação social para desqualificar o PSD e impedir alguns votantes de saírem do PS para votarem no PSD”.

Altas conspirações e conluios entre um partido e órgãos e comunicação. Mostra também a sua ira contra” alguns” órgãos de comunicação social, talvez, a SIC porque não lhe dará a papa que ele gostaria.  Num processo de avaliação não sei se não ficaria bem classificado numa escala de senilidade.  

Duvido que este político “sagaz” não consiga discernir que muitos do que não votaram PSD saíram para a IL e para o CHEGA. Mas, ao elogiar Montenegro, vem reforçar a ideia de que é um péssimo líder e vai matar o PSD. Problemático será se, como prevejo, novas lideranças venham a cheirar tanto a bafio como estes "antiquíssimos".

Em resposta ao artigo de opinião de Cavaco Silva publicado na passada quarta-feira, em que disse desafiar António Costa a “fazer mais e melhor” do que ele próprio fez nos seus governos maioritários. O atual líder do executivo afirmou na sexta-feira seguinte que está “preocupado com o futuro dos portugueses”, ao contrário de Cavaco Silva, que diz estar preocupado “com o seu lugar na história”.

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publicado às 19:08

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Começo por citar uma passagem do livro “A Arte da Guerra” de Sun Tzu:

“Não permitas que o inimigo tome a dianteira… Qualquer negligência nesse sentido pode ter consequências nefastas. Em geral, só há desvantagem em ocupar o terreno depois do adversário”; “se os seus métodos de comando (do general) são inflexíveis, se examina as situações de acordo com esquemas prévios, se toma as suas resoluções de maneira mecânica, é indigno de comandar.”.

António Costa está a dar vantagem ao estar a ocupar o “terreno” antes do adversário. Está a dar a possibilidade para o adversário (o CHEGA) atacar por antecipação.

Não li a entrevista completa que Ângelo Correia deu à TSF-DN, pelo que apenas me refiro a uma frase que ele disse: "António Costa está a criar um mártir que se chama Chega".

Foi uma ideia que após o PS ter ganho as eleições me passou pela cabeça a seguir às palavras de António Costa quando disse que não iria   ouvir o CHEGA.  O primeiro-ministro, António Costa, começou a ouvir na quarta-feira vários setores da sociedade civil, estando prevista uma reunião com cada um dos partidos com representação parlamentar, à exceção do Chega.

Por outro lado, a comunicação social que se mostra porventura hipocritamente alarmada com a possibilidade de crescimento da extrema-direita, deu palco exagerado à questão da vice-presidência para a Assembleia da República caso que para as pessoas não tem muito interesse. Também sabemos que no Parlamento Europeu tem havido reações à extrema-direita. Como noticiou o jornal Público: “O “cordão sanitário” em torno dos representantes dos partidos de extrema-direita da UE voltou a funcionar na eleição da presidente e vice-presidentes do Parlamento Europeu e das comissões e subcomissões, a 18 de janeiro. Todos os candidatos do grupo Identidade e Democracia falharam a eleição por voto secreto.”.

Ângelo Correia deu o mote para que o CHEGA de vítima possa passar a reivindicar o título de mártir. Contudo, concordo em parte, com ele. António Costa tem que ter, como teve até aqui, a agilidade/estratégia política de, por vezes, saber engolir sapos vivos e fazer disso uma estratégia política sem abalar as suas convicções.

A democracia é frágil. É do conhecimento que, mesmo em democracias consolidadas e aparentemente robustas, é possível eleger governos de partidos que podem vir a ser uma espécie de associação extremista de direita e conseguir manter pelo populismo o apoio entusiástico de uma parte considerável das pessoas.A democracia deve estar atenta aos que investem contra ela por ser um empecilho aos seus desígnios e, quais D. Quixotes, veem nela um perigoso gigante a abater.

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Na política, por vezes, há que deixar que esses mostrem que são grandes D. Quixotes a lutar contra a democracia liberal representativa, a que chamam o sistema a derrubar que, para eles, é o seu principal inimigo.

Temos que encarar a realidade de que houve uma parcela significativa do povo que, conscientemente, ou não, votou num D. Quixote e nos seus Sanchos Pança e lhes colocou uma lança na mão.

Um político estratega que defenda a democracia não deve querer confrontar-se sozinho contra D. Quixotes para os quais, por uma espécie de doença mental, a democracia é, qual moinho, um obstáculo a derrubar. Contudo deve notar-se que não podemos deixar de estar atentos a essa doença porque o perigo existe e é alimentado pelos escândalos de corrupção, pelo clientelismo, pelas promessas não cumpridas, pela promiscuidade entre políticos, poder económico e jornalistas, pelo amiguismo que assombram as elites e passam impunes que geram o populismo que é sintoma da fraqueza democrática.  

Uma formação política que parecia insignificante transformou-se em dois anos na terceira força política em Portugal. Esta extrema-direita extremista parece estar a erguer-se sem dificuldade, com a coresponsabilidade da direita moderada que, à falta do poder e sem maioria, lá vai aceitando migalhas que, afinal, são restos do pão fabricado com a sua própria massa.

Os partidos democráticos da esquerda à direita parecem não estar a sentir o ar que se respira na Europa e que exala para o lado de cá. Os partidos da direita parecem preocupar-se mais com um partido democrático que dá pelo nome de “socialista” e mostram a incapacidade de travar uma mistura explosiva nascida da sua área. Como não querem ser a consequência lançam a causa para outros com disparates como este: “O PS já percebeu: é preciso que o partido de Ventura cresça muito mais, para ser inevitável à direita, com a consequente consolidação nos socialistas quer do voto flutuante do centro quer do voto útil da esquerda.”

Não podemos, nós, portugueses, ser a sobremesa dos partidos radicais da extrema-direita que aproveitam para crescer a partir de sentimentos dos cidadãos que respeitam os valores mais conservadores e tradicionais associados à crise económica como a perda da individualidade, a família, a nação, a religião, a identidade sexual e outros modelos impulsionados por outro tipo de radicais, os de esquerda.

A direita e a esquerda atacam-se mutuamente com expressões de fascistas, “venezuelização”, chavistas do país, comunistas, coletivização e outros disparates do género. A direita, que diz ser democrata ataca o Partido Socialista que tem demonstrado desde a revolução de abril ser um dos garantes da democracia, tenta mostrar que existe o perigo do coletivismo e da perda da liberdade e outros vitupérios, que em nada tem a ver com a realidade vivida, alinhado com os partidos mais radicais da extrema-direita à medida das circunstâncias convenientes.

A direita, nomeadamente o PSD que diz ser um pilar e um dos fundadores da democracia, para poder chegar ao poder na Região Autónoma dos Açores fez acordos de incidência parlamentar com o CHEGA. Ou seja, PSD, CDS, PPM e CHEGA, viabilizaram um executivo regional, mas de entre eles há quem se recuse a aparecer em público com elementos do partido a que se juntaram. Recorde-se que André Ventura disse que não iria governar com partidos do sistema, mas por cá, no continente, pretende por todos os meios estar presente no sistema que diz querer combater, rejeitar e mudar.

Ventura nunca se acanhou de dizer que pretendia destruir o sistema por dentro, de prometer fazer tremer o sistema para construir uma nova república. Era a já conhecida estratégia utilizada por outros da mesma estirpe na Europa, destruir o sistema por dentro. Vemos agora e a tempo que a intenção era apenas metafórica: na verdade o que quer mesmo é lugares no sistema.

A melhor forma de destruir este tipo de partidos é deixá-los estar presente para depois, dentro do sistema onde se conseguiram instalar, os desmontar, mas, para tal, é necessário que todos os partidos que se dizem democráticos de direita e de esquerda se unam nesse objetivo e que a direita democrática que dá pelo nome de PSD se deixe de ambiguidades.

De qualquer modo penso que foi um erro estratégico de António Costa excluir o CHEGA na receção dos partidos. Receber e ouvir o outro não significa aceitar, pactuar, seguir, negociar seja o que for. É assim a diplomacia interna. Receber alguém para ouvir o que tem a dizer, ainda que de antemão já saibamos o que vamos ouvir, não significa tomar chá nem dançar o tango.

Está a dar-se força ao dito partido para uma atitude de mal dizer, gritar contra a marginalização a que foi sujeito e outras frases feitas que tenham impacto em que André Ventura se especializou para que se faça eco na comunicação social.

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publicado às 16:25

Ouço dizer todos os dias

por Manuel_AR, em 27.01.22

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Contatei há muitos anos com Maria do Céu Guerra no espaço de um café na baixa lisboeta e por um breve tempo. Tinha-me sido apresentada por um amigo meu de longa data que com ela tinha trabalhado. Isto foi, já lá vão décadas, e a idade não perdoa.

Para quem não saiba quem é Maria João Guerra pode saber mais sobre ela AQUI.

Li este texto no Facebook e tomei a liberdade de o publicar com título da minha autoria a partir do texto sobre o qual não teço quaisquer comentários discordantes ou concordantes. Se alguém tiver dúvidas sobre o que ela escreve cada um que as tente esclarecer por si próprio!

Citação de um texto de MARIA DO CÉU GUERRA

"Ouço dizer todos os dias aos nossos clarividentes comentadores e jornalistas políticos que o António Costa está cansado. O governo está cansado!

Cansado? De que será?

- Não equilibrou a economia que o PSD (aluno exemplar da Troika já reconhecidamente errada e criminosa) estilhaçou?

- Não devolveu a dignidade ao nosso País na sua posição de membro respeitável e civilizado da Comunidade Europeia?

- Não organizou um SNS com antecedência para responder à Pandemia (estou daqui a pensar nas difamações de despesismo da direita se a Saúde pública estivesse antes do Covid-19 apetrechada pelo governo socialista para responder ao triplo das suas necessidades)?

- Não tentou acorrer ao desemprego com o Lay-off?

- Não investiu na organização de um país mais solidário?

- Não tentou (sem a mão estendida nem a cerviz dobrada dos anteriores poderes) recolher apoios em todas as plataformas europeias que com mais ou menos dificuldade se lhe abriram?

- Não tentou cicatrizar (com menos êxito embora do que desejaria) as feridas abertas com a sangria da emigração de jovens qualificados (que o convite criminoso do governo anterior abriu)?

- Não tentou sempre proteger a saúde física e mental e a vida dos seus compatriotas (a lutar com um inimigo desconhecido que todos os dias lhe fazia novas rasteiras e emboscadas)?

Que seria de Portugal se durante estes dois anos estivesse no poder um Passos Coelho ou um Durão Barroso a combinar às escondidas guerras criminosas contra a Humanidade, ou um Cavaco Silva a construir rotundas desnecessárias e a afundar a frota pesqueira e a agricultura que alimentava o nosso povo e lhe dava trabalho todos os dias, enquanto o País de letras gordas ia aprendendo com ele e os seus a embrenhar-se em «irregularidades» de colarinho branco.

António Costa: deves estar muito mais farto do que cansado.

Tu és rijo, numa semana recuperarás as forças que nenhum dos teus opositores tem para oferecer ao país.

Força Amigo! Obrigada pelo teu cansaço."

(Maria do Céu Guerra, atriz.)

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publicado às 16:27

Ditos e escritos daqui e dali

por Manuel_AR, em 20.01.22

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Pelo que se escreve na imprensa, nas redes sociais e se diz nas televisões podemos ter uma visão aproximada do que se pensa ao decorrer desta campanha eleitoral. Assim, sintetizei algumas opiniões e comentários que circulam e que compus de forma coerente utilizando critérios de aproximação ou de afastamento de acordo com as minhas.

Os pontos que se seguem não são uma transcrição de citações, são as minhas opiniões expressas em coerência com os meus pontos de vista, suscetíveis, como é óbvio, de críticas.   

  1. Todos termos visto nos diferentes órgãos de a comunicação social reivindicações de organismos privados e públicos que passam pelos agricultores, comércio, indústria, saúde, justiça, etc. Acredito que estas reivindicações por mais aumentos, mais meios, mais pessoal e mais subsídios sejam justas e necessárias. Todavia, se pensarmos que ao satisfazer-se a justeza das exigências apontadas logo concluiríamos que se iria cair num descalabro financeiro do Estado com altos défices nas contas públicas e elevadas dívidas externas, conduzindo a situações idênticas ou piores às que nos trouxeram a troika. Face a isto, começo a pensar se não estarão todos desejosos que tal aconteça para justificarem uma subida ao poder da direita neoliberal que logo recorrerá, mais uma vez, a severas medidas de austeridade e outras idênticas para equilibrarem as finanças e agarrarem a oportunidade para culparem o partido do governo o causador desse descalabro. Vamos lá então ver se nos entendemos sobre o queremos para o país!

 

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  1. Começo pelo que tem sido mais comentado e criticado, a maioria estável pedida pelo Partido Socialista. Entenda-se por maioria estável uma maioria absoluta e, como consequência, António Costa ser primeiro-ministro. Com António Costa numa maioria absoluta é possível conviver sem receios. O mesmo já não se poderá dizer duma maioria de direita PSD e, ainda menos, se coligado com outros partidos como por exemplo o partido da extrema-direita Chega cuja hipótese não foi convictamente afastada por Rui Rio. Lembremo-nos dos Açores.
  2. Acordos parlamentares de esquerda do PS com o BE e PCP em princípio e no meu ponto de vista são soluções a afastar devido à perda de confiança consequente da irresponsabilidade pelo chumbo do Orçamento de Estado para 2022 alinhados com a direita. Assim, só uma maioria absoluta do PS poderá evitar pressões parlamentares que aqueles partidos farão para condicionar a governação, causando instabilidade.
  3. Há por aí quem pergunte se Rui Rio fizesse tudo o que está a prometer não poderá conduzir o país a uma nova crise. A resposta é afirmativa. Como ele próprio esclareceu em vários debates tudo o que promete é condicional justificado com uma possível aproximação de uma crise que se vislumbram, pelo que reconhece a possibilidade de adiamento das promessas que será inevitável, desconhecendo-se durante quanto tempo. Ora, como se avizinha uma crise económica e social devido a contextos exteriores o pretexto para o não cumprimento das promessas tem as portas entreabertas.
  4. Outra pergunta interessante que se coloca é a de saber quem é o grande inimigo do BE e do PCP que é preciso abater? É a direita? A resposta é imediata – Não, é o PS. Interessante a resposta até porque podemos fazer uma outra pergunta: Quem é que o BE e o PCP estão a ajudar nesta campanha eleitoral? A resposta é inequívoca: são a extrema-direita e a direita PSD, claro! A extrema-direita e o PSD agradecem a ajuda do BE e do PCP. Isto já foi visto no passado quando BE e PCP provocaram a queda do governo PS dando lugar à maioria de direita.
  5. A coordenadora do Bloco de Esquerda é uma atriz extraordinária acusou André Ventura do Chega. Ao que lhe diz respeito ele saberá porquê. No meu entender, e se bem me lembro, Catarina Martins passou da extrema-esquerda antissistema, revolucionária e contestatária a mostrar-se agora com uma faceta de política sedutora e calma que se quer afirmar como cooperante. Pelo meio vai acusando outros (leia-se PS) de que se não existe mais cooperação é porque esses outros não querem, diz ela. E porquê? - Perguntam vocês. Porque em primeiro lugar gostaria de submeter o PS à execução de políticas destrutivas, em segundo lugar para caçar aqui e ali uns votinhos de alguns indecisos e de descontentes com tudo e com todos. Não podemos afirmar com convicção que Catarina Martins é falsa. Faz parte do seu número de teatro a que a obriga a caça ou à dispersão de potenciais votos no PS, com o objetivo único de evitar uma maioria absoluta do PS.
  6. O BE e o PCP pretendem que a votação no PS seja a mais baixa possível, ainda que os votos vão para a direita, desta forma terão mais margem de manobra para, no contexto da Assembleia da República, pressionar o PS para impor políticas radicais. Sem uma maioria muito significativa do PS fica-se novamente na dependência das extremas-esquerdas do BE e do PCP com as inerentes dificuldades de governação pior do que a “geringonça”, ou, então, caminha-se para o país ficar na dependência da direita.
  7. Na campanha que a esquerda anda a fazer, não tenho a certeza se foi João Oliveira do PCP, andam por aí a dizer que se a direita ganha poderão vir campanhas de contestação socia e a instabilidade. Mas que raio de ponto de vista. Os portuguese não gostam que os ameacem e, quando assim é, vão mesmo para o outro lado. PCP e BE vejam se se acalmam. Estão muito agitados por debaixo dessa calma que aparentam.
  8. Há ainda os que falam e relembram com saudosismo o tempo de Salazar, (André Ventura recuperou a matriz do modelo do regime salazarista “Deus, Pátria, Família” ao qual acrescentou “Trabalho”). O regime de então utilizava todos os meios para neutralizar e difamar quem se lhe opunha. Atualmente a extrema-direita e a direita democrática utilizam a mesma estratégia da difamação.
  9. No caso de Ventura a suas narrativas populistas e demagógicas para baralhar a população são abissais. Então André Ventura não se tem afirmado contra a quantidade e qualidade de pessoas que recebem o RSI? Pois é! Mas a última dele foi negar agora o que afirmou poucos dias antes. Vejamos a resposta que deu ontem quando um jornalista lhe fez uma pergunta sobre o número de casos de “subsidiodependência no país”, à qual respondeu baralhando, para confundir, o que disse com o que não disse: “Como é que quer que eu tenha dados concretos sobre pessoas que recebem o RSI e que não devem? É você que os tem? As pessoas só veem e sabem que é assim. Sabemos quantas pessoas recebem RSI. Não sabemos, infelizmente, quantas pessoas o recebem indevidamente”.  Podemos deduzir que André Ventura passou do ser contra o RSI para o “fiscalizar a sério”. Isto é, quer saber das quarenta e tal mil pessoas que recebem RSI para quais são as “dezenas de milhar” (?) que o recebem indevidamente. Para saber quantas pessoas recebem aquele tipo de apoios, basta consultar AQUI. O problema de Ventura é o de saber quais os que o recebem e têm Porches à porta. Por outro lado, isso da fiscalização todos os partidos, da esquerda à direita a querem! Deixemos por agora o troca tintas.
  1. Voltando a António Costa. Em 20 de setembro de 2019 a revista alemã Der Spiegel escrevia sobre a “receita” do “confiável socialista” António Costa. Considerava assim como confiável o primeiro-ministro de Portugal. A autora, Helene Zuber, escrevia então: “Ele sabe como tirar um país da crise. O primeiro-ministro de esquerda, António Costa, salvou Portugal da falência. Enquanto isso, a economia está a crescer. Agora está prestes a ser reeleito. Qual é a sua receita para o sucesso? Quando António Costa conhece pessoas olha-as diretamente no rosto e sorri. Curioso, o primeiro-ministro português aproxima-se de colegas como Angela Merkel, aperta as mãos educadamente antes da entrevista ao vivo na televisão, ouve atentamente os cidadãos que se dirigem nas ruas ao seu chefe de governo. Parece estar sempre de bom humor, com o olhar levemente irónico dos olhos escuros por trás dos óculos sem aro. O simpático governante Costa, com seu governo de minoria socialista, tolerado pelos comunistas e pelo bloco de esquerda trotskista, resistiu por quatro anos - um feito que quase ninguém esperaria que ele fizesse. Dando-lhe o epíteto de "Geringonça", a oposição zombou da aliança quando assumiu o cargo há quatro anos. Costa tem um mandato bem-sucedido”.
  2. Quanto a Rui Rio Rui ele é um político popularucho que fala para o povo entender. Sem papas na língua diz o que pensa o que às vezes o prejudica. Daria um grande propagandista de feira com receitas para todas as maleitas. Nas entrevistas e nos debates mostra-se um exímio vendedor de um qualquer produto que alguém, se não pensasse, não hesitaria em comprar. Há, todavia, um problema. É que, depois do comprador abrir o embrulho e ao acabar de verificar que o produto verificaria que estava com defeito e que a devolução do material era impossível.
  3. Próximo de eleições a direita cata casinhos e tudo o que seja desfavorável que transformam e exageram para parecerem importantes. Esmiúça tudo para desviar o vazio apresentado nas suas propostas.
  4. O que Rui Rio diz disse no passado não têm muita relevância para o atual contexto. É uma incógnita o que se irá passar se ele ganhar as eleições e se uma potencial crise se confirmar. O que ele disse em 2017, quando candidato à liderança do PSD, ao responder a uma pergunta sobre a mudança de linha de rumo do partido, caso fosse eleito, assegurou que não iria haver mudança de estratégia e deu o exemplo da ex-ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, com quem teve divergências mas que, no seu lugar, seguiria a mesma linha, e que faria "igual" ou faria “pior” do que a governante.
  5. Então dr. Rui Rio, ir para o Governo e encontrar contas certinhas era tão bom não era?

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publicado às 17:02

Eleições e indecisões.png

Os comentários que se seguem aos debates é suposto serem feitos por jornalistas credenciados e cada um com a sua orientação ideológica. A meu ver tenho constatado que a isenção e a independência, sobretudo na SIC, não são os pontos fortes dos intervenientes nos paneis de comentário.

Sou dos que considero que a comunicação social deve ter um papel relevante na critica e no escrutínio público do poder e, ao mesmo tempo, ter a liberdade de expressão e de opinião que devem ser estimuladas dentro dos limites da civilidade, da educação, da tolerância e de respeito pelo caráter de cada um.

Naquele canal televisivo os comentadores Ricardo Costa, José Gomes Ferreira e Bernardo Ferrão nos seus comentários tentam fazer passar para os telespetadores uma perceção de distanciamento ideológico, mas, para quem esteja atento aos pormenores, notará que incluem cirurgicamente pequenas "alterações”, provavelmente intencionais, ao significado ou às circunstâncias de um facto que possa sugerir algo em desabono do governo socialista e de António Costa.

Com a proximidade das eleições notam-se mais estas pequenas campanhas detratoras por via de jornalistas e comentadores. São opiniões, dirão. Certo. Mas também nos comentários sobre acontecimentos da política que se relacionem com a justiça e com a economia tiram da cartola algo do passado que introduzem no confuso emaranhado das lógicas em que se embrenham fazendo campanha e oposição partidária ao abrigo de fazer jornalismo. Não admira, têm que estar sintonizados com a “voz dos donos”. É normal.

Os jornalistas também são eleitores e terão as suas simpatias ideológicas e partidárias e alguns não as escondem, pelo que tentam fazer comentários positivos aos políticos do seu círculo ideológico-partidário e negativos para outros candidatos concorrentes colocando-os nos pratos de uma balança. Comentar desfavoravelmente a prestação de um interveniente político num debate que seja da simpatia do comentador pode favorecer o seu preferido em prejuízo do adversário.

Dou um exemplo como hipótese: quem estiver a comentar um debate entre, por exemplo, a líder do BE Catarina Martins e o líder do PSD Rui Rio poderá emitir uma opinião em que a prestação do BE foi mais bem conseguida do que a do PSD evidenciando os argumentos do BE ao fazer críticas ao PS. Assim, ao concordar com a crítica feita pelo BE ao PS potencialmente posso estar a condicionar pela negativa potenciais eleitores do PS que irão para o BE já que é pouco provável que haja eleitores do BE que irão votar PSD mesmo considerando a critica feita ao PS. Mas, pelo contrário, é mais provável que estes mesmos possam votar no PSD.

Como é possível em debates como os que temos visto entrar com pormenores que podem ser tecnicamente relevantes, mas que só contribuem para ruído e compressão da mensagem. Quanto a avaliações, tenham paciência! Catem também as falhas de pormenor nas narrativas de Rui Rio.

A obtenção de mais votos e, consequentemente, de deputados é, em quaisquer eleições, o grande objetivo dos partidos. Para as eleições que se irão realizar em 30 de janeiro há um outro objetivo que se apresenta: o do BE e do PCP é retirar votos ao PS para evitar que este tenha uma maioria absoluta.  Para a direita, no caso do PSD, o objetivo é o de conseguir mais votos alguns retirados ao PS.

Para os liberais de direita e para os extremistas de direita o objetivo é arrecadar mais votos, logo conseguir mais deputados, venham eles donde vierem, para que possam exercer pressão sobre o PSD para negociações pós-eleitorais. Para os partidos à esquerda do PS, chamados de extrema-esquerda, o objetivo é a obtenção de números de votos para pressionarem o PS a uma nova negociação.

Por entre estas competições para a obtenção de votos há também obsessões. A de Rui Rio, de Catarina Martins, marioneta do ideológico trotskista Francisco Louçã, do troca-tintas de André Ventura do Chega é o reconhecimento, mas que não dizem, de que António Costa é um político inteligente e competente que receiam e, por isso, jogam tudo para afastá-lo. É a pessoa de António Costa que é o político, o primeiro-ministro, o secretário-geral do PS e o defensor da democracia e do socialismo liberal constitucional que pretendem afastar.

O BE espera que, com o afastamento de António Costa, possa surgir um novo líder do PS como Pedro Nuno dos Santos que ceda ao BE e ao PCP e constitua uma nova geringonça caso a direita ganhe sem maioria, ou o PS perca as eleições. Só uma maioria absoluta do PS poderá ter a capacidade para afastar essa possibilidade.

O que todos temem por motivos diferentes, mas sobretudo o PCP e o BE, é que o PS liderado por António Costa possa conquistar uma maioria absoluta de deputados nas próximas eleições, que lhes tiraria a possibilidade de limitar e bloquear decisões fundamentais e a continuação de uma governabilidade estável do país para quatro anos.

No campo meramente de competição, para Rui Rio, António Costa é uma obstrução na engrenagem que o poderá elevar até ao poder. Está a ficar mais claro que para Rui Rio chegar ao poder precisa dos votos que possam vir de quem votou anteriormente PS e das franjas da direita que saiam das eleições para poder contar com uma maioria parlamentar, não negando em absoluto a possibilidade de também contar com os deputados do Chega.

No momento em que escrevo uma das últimas sondagens dá uma maioria de esquerda com algumas possíveis nuances. Segundo esta sondagem feita para o jornal Público, RTP e Antena 1 o PS conseguirá obter um mínimo de 104 deputados e um máximo de 113, neste caso a três lugares da maioria absoluta no Parlamento e podendo fazer negociações parlamentares com o PAN e o Livre, como defende Rui Tavares. Mesmo no cenário dos 104 deputados continua a existir uma maioria de esquerda com o BE, CDU, Livre (elege um deputado em qualquer dos cenários) e o PAN. Assim, a direita cresce, mas não ganha. O PSD em caso algum consegue uma maioria de direita para governar – nem no cenário mais otimista, nem mesmo com quatro deputados do PAN. Se assim acontecer Rui Rio vai confrontar-se, mais uma vez, com a oposição dentro do partido.

Mais do que uma maioria do PS é mais de temer uma maioria absoluta do PSD. Rui Rio apesar de se dizer do centro facilmente irá infletir para a direita por pressão da ala mais à direita do partido. Só PS ao conseguir uma maioria confortável nas eleições se pode libertar-se do jugo do PCP e, sobretudo, do BE ao mesmo tempo que poderá também influenciar Rui Rio a manter um rumo diferente. Note-se que para o caso duma revisão constitucional serão necessários dois terços de votos dos deputados.

O que Rui Rio propõe é uma espécie de continuação do modelo social que o governo de Coelho/Portas estabeleceu de 2011 a 2015, mas numa versão mais light.

Pode ser uma versão menos radical, mas, do mesmo modo, pelo que tem vindo a reclamar de modo mais ou menos astucioso é um modelo baseado na redução de impostos às empresas, de salários, do Estado Social, da tendência para a privatização da Saúde, da Educação, Segurança Social, etc., e tudo o mais que a fação mais neoliberal do PSD irá impor a Rui Rio que irá originar o agravamento das condições económicas, financeiras e sociais que se conhecem até que, segundo o próprio, haja crescimento económico. Podemos até concordar com alguns pontos mas o modelo que apresenta pode ser ajustado à realidade portuguesa e de com uma progressão e ritmo adequados seguindo uma outra via.

Tudo isto apesar de, em termos pessoais, apreciar a atitude de Rui Rio como político franco, aberto, por vezes realista, mas outras vezes demagogo e cheio de condicionais “ses”, que capta simpatias, que pretende ser do centro e não de direita, mas lá vai piscando o olho à direita e ao votantes do centro-esquerda verdadeiro partido social-democrata que é o PS em termos de comparação europeia como o Grupo do Partido Popular Europeu a que pertence o PSD e Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Sociais Democratas Parlamento Europeu a que pertence o PS.

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publicado às 19:18

Os trajes e os “ses” de Rui Rio

por Manuel_AR, em 14.01.22

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Do debate entre António Costa e Rui Rio tirei duas conclusões, a primeira é que Rui Rio veste dois fatos conforme lhe dá mais jeito. Um dos fatos é o do político social-democrata que diz querer ocupar o centro político, é o fato com corte ajustado ao que diz ser o seu ideário. No debate de ontem vestiu outro fato cujo corte mal-amanhado pelo alfaiate que lhe deixou a aba e a manga do casaco demasiado descaídas para o lado direito.

Baralhou-se e baralhou quem o escutou. Quando António Costa disse que se demitiria se ficar em segundo, Rui Rio para assustar o povo especula que com Pedro Nuno Santos, como seu sucessor, a “geringonça” pode ser reativada. Qual foi o objetivo de Rio? Será concentrar os votos em Costa? Tal lógica de Rui Rio a partir das palavras de Costa não se percebe.

A maneira frontal de Rui Rio debater e tentar esclarecer complicou a análise das suas soluções para o país que poderá ter levado a que parte de quem o viu e ouviu estivesse menos preparada para compreender os aspetos técnicos das opções que tomaria para baixar impostos, para não atualizar salários, para privatizar a TAP e parte do Serviço Nacional de Saúde. Sobre alterações na justiça não soube explicar ao cidadão comum que não era uma forma subtil com que pretende controlar os juízes, ao propor a nomeação de portugueses idóneos (?!!) para ir para o Conselho Superior do Ministério Público ou da Magistratura. Porventura será algo idêntico ao que está a acontecer com a Polónia e a Hungria que ameaçam "valores fundamentais" da União Europeia, como a independência do poder judicial e a defesa do Estado de direito. Para Rui Rio tudo foi um pouco atabalhoado e cujos resultados são duvidosos quer na sua eficácia, quer nas vantagens, se aplicados.

A segunda conclusão que tirei é no domínio do “Se”, como no caso da baixa do IRC e IRS, do crescimento económico. A primeira é que, no que se refere à economia as empresas terão logo baixa no IRC para a economia crescer tudo o resto se verá ou adiará. É fácil resolver problemas assim.

Por entre outras soluções tiradas da cartola para resolver os problemas do país que tenciona aplicá-las se as atuais circunstâncias se mantiverem. Está a aproximar-se uma crise, consequência da pandemia C-19, com o aumento das energias, a inflação, aumento das taxas de juro, etc., daí que é muito fácil prometer apenas e se tudo se mantiver como está. Mas as incertezas são várias nada pode estar garantido, por isso Rui Rio ter-se mantido numa atitude de “Se”…

Em quase tudo o que disse Rui Rio a vestimenta que apresentou com abas e mangas descaídas para a direita são o modelo light do neoliberalismo do último governo PSD-CDS com a diferença de que um desculpou-se com a crise financeira e com a troika e Rui Rio irá, se ganhar as eleições, desculpar-se com a crise energética, aumento das matérias-primas, crise económica e aumento das taxas de juro. Com Rui Rio é tudo no domínio do se.  Nada está garantido se ganhar e for da responsabilidade dele o novo orçamento que, segundo ele será apenas para sei meses a contar da data da eventual aprovação.

Estas são as conclusões que tirei e que me interessam para tomar uma decisão sobre o meu sentido de voto. O que está implícito no modelo que Rui Rio apresenta é para os cidadãos esperarem dois ou mais anos, dependendo de que a economia melhor, depois, quanto aos impostos, logo se verá. Mais um “Se”.

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publicado às 17:32

O lustroso e falacioso Rangel

por Manuel_AR, em 31.10.21

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A campanha de propaganda a Paulo Rangel para projetar e purificar a sua imagem política e pessoal já começou com o apoio de alguns órgãos de comunicação. O que já era espectável. Desde que Rui Rio é líder do PSD tem havido tentativas para o desmontar do cavalo do poder.

Em 2020 Paulo Rangel apoiou Rui Rio na disputa interna desencadeada por Luis Montenegro e por Miguel Pinto Luz, propõe-se agora à corrida para montar o cavalo apetecível do poder, primeiro no PSD e quiçá do governo do país se, eleito líder do partido. Justifica o propósito da sua candidatura a líder do PSD pelo seu posicionamento mais ao centro e por considerar que tem uma “visão de médio prazo”.

Anos antes esteve ao lado da ala mais à direita do PSD com Cavaco Silva e Passos Coelho e numa entrevista ao programa Grande Reportagem na RTP3 em 27 de outubro abriu portas a um acordo com CDS-PP e com a Iniciativa Liberal. Só não se pronunciou quanto ao Chega. Como em política tudo é possível não sabemos se para conseguir uma maioria de direita no Parlamento não o chamará para um acordo. Aliás o próprio Rui Rio assim fez nos Açores. Hoje, antes de ter publicado este texto, Rangel afirmou numa entrevista à TSF que o PSD deve ambicionar governar o país e rejeita a ideia de uma aliança ao Chega, talvez não, mas há outras formas obter apoios. Com Rangel há sempre incógnitas na equação da política.

Em dezembro de 2019 o eurodeputado do PSD não encontrava no discurso de André Ventura "nenhum fascismo - até agora, não quer dizer que no futuro não seja assim" e, sobretudo, discorda dos que procuram diabolizar o deputado único do Chega, afirmou. Bem, dá que pensar!

Mas há mais, o mesmo eurodeputado do PSD Paulo Rangel afirmou em setembro do corrente ano que o antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho deve ser "uma inspiração" para o país.

Paulo Rangel esteve sempre alinhado com potenciais caminhos onde se encontra o poder e que o pudessem levar até lá. Passado uma década, depois de ter disputado a liderança e perdido para Pedro Passos Coelho, e sendo eurodeputado desde 2009 vai concorrer pela segunda vez à presidência do PSD, desta vez contra Rui Rio.

Rui Rio escolheu Rangel como ‘número 1’ a Bruxelas em 2017 com o PSD quando desta vez, sozinho, registou o pior resultado de sempre nestes sufrágios, pouco abaixo dos 22%, o que levou Rui Rio a afirmar sobre Rangel que “Podia ser compreensível que mudássemos, podia vir uma outra pessoa. Mas face àquilo que são as características dele e às características que precisamos, ele simplesmente não é dispensável desse cargo e faz todo o sentido fazer mais um mandato”.

Depois do chumbo do Orçamento de Estado para 2022 alguns órgãos de comunicação iniciaram a promoção do produto Rangel como candidato à liderança do PSD. Mesmo o Presidente da República fez a sua ação promocional de Paulo Rangel ao receber, nesta fase crítica do país e sem justificação objetiva, um elemento que é apenas um candidato à liderança de um partido. Mas Rangel representa também a figura do candidato de alguns grupos sociais minoritários que são um lóbi poderoso. Não sabemos se farão ou não parte rede de contactos internacionais que pode ser útil ao partido como ele afirmou numa entrevista.

Pelo que conheço de Paulo Rangel, que é apenas pela análise das suas intervenções, entrevistas, debates televisivos e comentário político, noto que os seus melhores atributos se baseiam nos seus dotes oratórios, na retórica falaciosa que utiliza nos debates políticos. Em resumo: é uma espécie de tagarela da política que altera a visão dos factos de forma bem construída com o objetivo de iludir quem o escuta e quem esteja pouco atento às suas narrativas e ao desenrolar da política.

Numa entrevista referiu-se ao clientelismo do PS. Fase a alguns factos terá alguma razão. Mas quem tem telhados de vidro o melhor é ficar calado. A pergunta que se coloca é qual o partido que não tem clientelas. O PSD também é um herói do dito clientelismo vejam-se quando se prevê trocas de líder  a procura que cada um faz de clientelas de apoio que depois poderão ter consequência nas distribuição de poderes.

Rangel é uma espécie de embusteiro da política, com arte, de tal modo que os desprevenidos nem dão pelo engano. As suas intervenções políticas são lustrosas, demagogicamente e aparentemente consistentes e ao mesmo tempo obscuras porque não se lhe vislumbram as intensões por se concentrar apenas no ataque dos adversários políticos e menos nos seus projetos para o partido e para país. À pergunta se já tinha um programa do partido para as eleições a resposta foi ainda não, mas isso é uma coisa que se faz rapidamente. Claro faz-se qualquer que não será exequível apenas para convencer eleitores. Rangel escolhe bem e manipula as palavras que acha terão mais impacto nos mais iletrados que o escutam que não conseguem vislumbrar os seus esquemas silogísticos falaciosos.

A repetição de palavras sinónimas que enchem a frase sem explicitação completa do pensamento, e com adjetivações sucessivas são uma estratégia que ajuda a reter a ideia no ataque que pretende fazer passar. O estribilho “dizer com toda a clareza” tem o objetivo de fazer crer que a sua mensagem tem credibilidade. Bem-falante Rangel é um tribuno da narrativa política, um embusteiro de casaca que se faz acreditar através de patranhas muito bem construídas montadas por raciocínios que deturpam a realidade objetiva recorrendo a figuras de estilo linguístico como a linguagem metafórica, perífrases, anáforas, eufemismos para reforçar as suas mensagens. Tomemos como exemplo as suas próprias palavras ao dizer que pretende ser “Um líder aberto, um líder executivo, um líder agregador”, linguagem anafórica que cria algum impacto. Há um outro chavão que Rangel recuperou de 2007 que é a de que “Portugal vive uma verdadeira claustrofobia constitucional, verdadeira claustrofobia democrática”.

O alvo de Paulo Rangel não é apenas o PS é, sobretudo, António Costa a quem faz ataques pessoais, com o seu estilo lustroso. Ele sabe que é por ai que terá margem de manobra para atrair apoiantes.  Todavia, ofende-se quando é ele o visado. Repare-se que Rangel disse que António Costa era viscoso. “Com costa é tudo mais viscoso, mais gasoso” afirmou publicamente numa entrevista *a revista Visão sua apoiante. Não será isto ataque pessoal? Deteta-se em Rangel algum cinismo enganoso, uma espécie de “santinho de pau carunchoso”, que é sinónimo de pessoa de aspeto sonso e coração velhaco. A sua própria divulgação pública de que é homossexual faz parte da sua estratégia política.

Os portugueses não precisam de primeiros-ministros bem-falantes com vocabulário rico, para muitos, incompreensível, com retóricas enganadoras e sedutoras. Ele próprio o afirmou ao dizer que pretende “cativar”, “seduzir” as pessoas. Compare-se com o primeiro-ministro inglês ou o francês que falam direta e claramente ao povo sem uma comunicação rebuscada.

Como é sabido o combate democrático desenrola-se em muitas e variada circunstância no espaço dos meios de comunicação que o torna possível, mas que tantas vezes contribui para exagerar alguns dos seus defeitos promovendo um regime baseado na negatividade.

Num momento em que os cidadãos têm mais necessidade de informação para terem uma ideia acerca do que se está a passar para poderem tomar decisões apropriadas os meios de comunicação social alimentam e distorcem a visão dos temas políticos de tal modo que acabam por gerar desesperos e ansiedades inúteis. Eles alimentam o desencanto e a desconfiança em vez de explicarem a normalidade democrática. As pessoas ficariam a saber que as coisas não são tão graves quanto nos fazem crer. Neste contexto o verbo distorcer não significa falsidade. É mais no sentido relativo do que absoluto tendo em conta as conotações que se pode tomar de um texto noticioso.

Por outro lado, as pessoas prestam mais atenção aos pormenores triviais do que aos assuntos políticos centrais e que não sejam expostos em toda a sua complexidade. É a preferência pelo sensacional que pode ser explicado pelo facto de a política ser um tema aborrecido e até irritante o que coloca os meios de comunicação face ao desafio de a tornar interessante para os consumidores diários. A sensação que nos fica é que apenas o escândalo o desastre, o que é mau, é notícia. Nunca se fala nos meios de comunicação do que corre bem, mas quase sempre do que corre mal daí se chegar à conclusão de que tudo é mal feito.

Este meu exercício de opinião tem a ver com as atribulações que se passam no PSD e com a crise que resultou do chumbo do Orçamento de Estado. O que Rangel trará para o país, se por acaso for eleito líder do PSD, é o seu posicionamento ideológico à direita na linha de Cavaco Silva e de Passos Coelho.  Basta vermos que Poiares Maduro, antigo ministro da Presidência de Passos Coelho foi escolhido para coordenador das bases do seu programa e Fernando Alexandre, ex-secretário de Estado Adjunto do ministro da Administração Interna também do governo de Passos Coelho, que será o responsável pela coordenação da parte económica. Aliás, como Rangel afirmou na entrevista à RTP3 poderá recorrer ao apoio da direita CDS-PP e IL, mas, por outro lado, diz-se do centro-direita.

Vejamos os grupos a que pertencem no parlamento Europeu os dois principais partidos PSD e PS. Os dois principais grupos do Parlamento Europeu são o PPE – Partido Popular Europeu, agrupamento partidário democrata cristão/conservador, onde estão incluídos o PSD e CDS-PP. O Grupo S&D, Aliança Progressista dos Socialistas e Sociais-Democratas a que pertencer o PS. A CDU (PCP+PEV) pertence ao grupo GUE/NGL - Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde.

O PSD está no grupo da direita e centro-direita e o PS encontra-se no grupo dos sociais-democratas de que também faz parte o SPD Partido Social-Democrata da Alemanha que ganhou as últimas eleições com uma diferença mínima da CDU/CSU.

Posto isto o que pretendo demonstrar é que o PSD não faz parte do grupo dos sociais-democratas onde se encontra o PS como prendem fazer crer isto porque é importante para a luta interna pela liderança do PSD. Há, portanto, duas tendências: uma aproximada à social-democracia que é Rui Rio e outra mais de direita, mas neoliberal que é a de Paula Rangel.

Para terminar, e apenas como curiosidade histórica, podem ver o vídeo de 08/08/3013 que abaixo incluo.

 

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publicado às 16:27

Os extremos não são o que nós queremos

por Manuel_AR, em 21.10.21

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O PS está no seu direito de questionar se esquerda prefere novamente direita no poder. Todos nos recordamos do tempo em que o PCP e o BE Em 2011, o Bloco de Esquerda e o PCP juntaram-se à direita para ajudarem a chumbar o PEC IV de José Sócrates, independentemente de ser ou não uma má governação o facto foi que contribuíram no todo para que a direita viesse em 2011, com Passos Coelho e Paulo Portas, ocupar o poder, já lá vão exatamente 20 anos.

Quem está agora a decidir se o momento da direita se movimentar para tomar novamente o poder com ou sem Passos Coelho é o Bloco de Esquerda, mas também o PCP, cada um à sua maneira. Mas afinal o preferem estes partidos um país à esquerda ou à direita?

A possibilidade destes dois partidos poderem, caso haja eleições antecipadas, recuperar votos são tão-só ilusões ideológicas. Parece-me que o país começa a estar farto deles. O PCP tem um grande poder de mobilização, tem nas mãos os sindicatos e ainda dar o contribuo para conter movimentos inorgânicos sem lei que por aí surgem. É um partido importante para preservação da democracia.

É provável que se houver eleições antecipadas a situação atual de maioria de esquerda se mantenha mesmo com algumas perdas de votos do PCP e do BE e um PS sem maioria absoluta. Se Rui Rio se mantiver no PSD será possível um novo alinhamento parlamentar, com o PS a virar ligeiramente á direita e o PSD a virar ligeiramente à esquerda o que ajudaria à governabilidade do país. Contudo, haveria que esperar uma “retaliação” do PCP com manifestações e greves a proliferar provocando instabilidade social.

O PCP, e, sobretudo, o BE estão-se a tramar para o país, está no seu ADN o leninismo para um e o trotskismo para outro. Há palavras de ordem que eles sabem que atrai as massas: salários, direitos, menos trabalho e mais férias.

Está em causa a aprovação do orçamento para 2022 e, sobre isto, escreveu ontem Manuel Carvalho no editorial do jornal Público:

“A cada orçamento constatava-se que o PS pagava o mínimo possível para poder executar o máximo possível. O preço da colaboração disparou. É no Orçamento que mais redistribui e mais agrava a despesa pública que o PCP e o Bloco mais exigem ao Governo. E, ao fazê-lo, intensificam a gravidade do dilema da governação para um patamar mais perigoso. Já não está apenas em causa a navegação à vista, a sempre eterna promessa do “virar de página da austeridade” ou um programa político excessivamente concentrado no Estado e nas suas funções públicas. O que está em causa é exactamente o equilíbrio que o Governo foi conseguindo gerir, entre o que dá e o défice, entre o que negoceia e executa. Se metade das exigências do Bloco e do PCP fossem atendidas, quem na verdade governaria eram eles e não o PS.

O que está agora em causa não é, portanto, uma natural cedência entre as partes. É o risco de, em nome da estabilidade, o país ter de pagar uma factura insustentável para o futuro. A escolha é difícil e é isso que é preocupante: entre um orçamento lunático e o risco da instabilidade política, o país ficará sempre a perder.”

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publicado às 16:09

O retorno dos coelhos

por Manuel_AR, em 09.10.21

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O eterno retorno era uma doutrina dos estoicos retomada, em particular pelo filósofo alemão, Nietzsche segundo a qual há um eterno recomeço, isto é, uma série de acontecimentos idênticos aos precedentes. O estoicismo foi criado por Zenão de Cício, na cidade de Atenas, cerca de 300 a.C.. Os estoicos defendem a austeridade na virtude, o desprezo por todos os tipos de sentimentos externos, como a paixão e os desejos extremos e foi recuperado pelo cristianismo que afirmava e afirma que só "através da aceitação do destino e da renúncia às paixões, pelo que o homem deverá destacar-se pela indiferença face à dor e pela firmeza de ânimo perante os males e as agruras da vida”. Enfim, mais ou menos a apologia da austeridade aos níveis das agruras pessoais e bens materiais.

Não vou aqui dissertar sobre temas filosóficos, mas isto vem a propósito do que tem vindo a ser noticiado e comentado após a calma das emoções geradas pelos resultados das eleições autárquica. Interpretações que têm emanado dos comentadores políticos e fazedores de opinião, quais oráculos do tipo Pítias, sobre o futuro político, quer em relação ao partido dito perdedor, quer em relação ao partido dito ganhador oriundos da comunicação social.

Com é sabido, Carlos Moedas ganhou Lisboa, mas teve ao seu lado durante a campanha elementos que estiveram também em tempo ao lado de Passos Coelho. Moedas foi, e ainda é, um animado adepto saudosista das políticas de Passos, assim como os que o ajudaram na campanha como é o caso de Sofia Galvão, Miguel Morgado, João Marques de Almeida, António Leitão Amaro não são dedicados "passistas”.

Moedas integrou o XIX Governo Constitucional e que fez parte do Executivo durante a maior parte do seu período de vigência. Era considerado o braço-direito do anterior primeiro-ministro, facto que o colocou em destaque nas relações entre o governo português e os responsáveis da troika. Mais recentemente, a 30 de julho, Carlos Moedas, numa entrevista ao semanário NOVO, afirmou que “gostava de ver outra vez Passos Coelho num lugar de destaque". Segundo o semanário a frase é suficientemente ampla para nela caberem várias hipóteses, mas a “admiração” é indisfarçável.

Este enquadramento serve como justificação para o título do artigo e para alerta de que o retorno da direita passista ao poder pode vir a ser mais real do que virtual, caso Rui Rio não se candidate novamente à liderança do PSD ou se se candidatar não ganhar. Se assim for é certo que o poder do PSD fica novamente na mão dos neoliberais de Passos Coelho numa campanha a fazerem-se passar por sociais-democratas. Aliás, hoje o semanário Expresso publica um artigo de opinião do senhor de má memória que dá pelo nome de Cavaco Silva que o comprova: Cavaco diz que Governo de Costa “não foi capaz” de aproveitar as condições herdadas de Passos, (!?) e critica também os adversários do Governo, denunciando uma “oposição política débil e sem rumo, desprovida de uma estratégia consistente”.

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Começo por mencionar as minhas impressões sobre os comentários que se teceram e tecem em catadupa nos órgãos de comunicação social sobre o primeiro-ministro António Costa, o Governo, o PSD e Rui Rio durante a campanha eleitoral para as autárquicas e após as eleições.

António Costa desde que esteve na presidência portuguesa do Conselho da União Europeia e, tendo em conta as notícias que, entretanto, foram surgindo nos órgãos de comunicação e a que alguns socialistas chamam casos e casinhos, fica-se com a ideia de que o Governo, e sobretudo alguns ministros, entraram em roda livre, mesmo depois de junho quando do seu regresso. A coisa que já vinha de antes parece que piorou. Os casos que iam surgindo como sendo de casos e casinhos sucederam outros que o são de facto. Não é certo que algumas perdas nas autárquicas não tenham contribuído também para esses factos.

Chegado até aqui penso que António Costa deve começar a ter algum cuidado e prestar mais atenção e observar mais tudo quanto o rodeia. Ouvir neste caso não significa executar o que outros acham que deveria fazer, mas descobrir estratégias para o futuro próximo. Analisemos agora, com algum cuidado, os mais recentes comentários sobre António Costa e o seu Governo e também os comentários sobre a sucessão, ou não, de Rui Rio no PSD levantados após as eleições autárquicas. 

Quanto a António Costa e sem qualquer ordem cronológica detenho-me em algumas das afirmações que são sistematicamente repetidas nos comentários mais ou menos proféticos como a insistência na fragilidade do Governo após as eleições; remodelação do governo a ser feita após aprovação do orçamento (a única que poderá ter algum fundamento); perda de autoridade do primeiro-ministro; fadiga em relação ao Governo; o Governo está muito mais fraco após as eleições; a inversão da tendência política em Portugal; a semana tal foi um desastre para o Governo.

A somar a estes sinais amargos, as semanas a seguir às autárquicas foram um desastre para o Governo. Pedro Nuno Santos verbalizou — da forma mais bruta possível — tudo o que o opõe ao ministro das Finanças, a quem culpa pelo afastamento do presidente da CP. O descontentamento com João Leão será alargado a outros ministérios, como escreve o Expresso, mas a declaração do ministro das infraestruturas abriu a caixa de Pandora. Dificilmente os dois poderão coexistir num próximo Governo e vai ser interessante ver como se desfaz este novelo. Para somar à semana desgraçada, o ministro da Defesa decidiu aproveitar politicamente o fim do mandato do vice-almirante, louvado quase unanimemente pelo sucesso das vacinas, para despachar o Chefe de Estado-Maior da Armada e colocar Gouveia e Melo no posto.

Daqui as primeiras mexidas consequentes saídas da primeira reunião da direção socialista neste sábado que elegeu os dirigentes que integrarão a comissão política, o secretariado e a comissão permanente do PS

Quanto ao PSD e a Rui Rio parecer ser evidente a exploração jornalística de um dito “combate” dentro do PSD, que é o de “se concentrar naquele que é o combate maior que terá pela frente, que é o de se constituir como verdadeira alternativa ao Governo do Partido Socialista” como afirmou numa entrevista de Montenegro falando das rivalidades internas no partido, afastando-se estrategicamente dessas guerras. Faz-se de bom da fita, por agora, para depois atacar os despojos. Rio não está em condições de ser "alternativa sólida" ao PS. Acrescentou ainda que não pretende pôr-se já a caminho porque acha que o PSD ainda não está na hora de ganhar eleições e porque não acredita que o PSD sendo com Rui Rio ou sendo com Paulo Rangel não tem tempo de recuperar e renascer das perdas eleitorais.

Infeliz, à sua maneira, também está o PSD. A vitória de Lisboa e de Coimbra e o aumento total de câmaras deram a Rui Rio um sopro de vida, mas o combate interno intensifica-se — enquanto o PS sonha que Rio se mantenha no cargo. Com o PSD em convulsão, se Paulo Rangel conseguir ganhar as diretas a situação política muda: o curriculum de Rangel faz prever um PSD mais combativo, numa altura em que o PS ainda se encontra no cimo da colina, mas vai escorregando.

A proposição de que basta repetir uma mentira para que ela se torne verdade, uma das regras básicas da propaganda política, pode aplicar-se também num propósito de formulações hipotéticas, opiniões e suposições que sucessivamente se repetem mesmo que não sejam mentiras. Se se repetir uma ideia que não sendo mentira pode ser potencialmente uma verdade, ou seja, algo não verificado ainda, a sua repetição passada pelos “fazedores” da opinião pública pode ser vista como sendo uma verdade, embora não o seja ainda. É a chamada a ilusão da verdade.

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publicado às 18:28


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