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A longa guerra pelo futuro está para começar

 Editorial de Manuel Carvalho

in jornal Público, 11de Julho de 2022

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Os autocratas russos vão certamente reprimir todos os sinais de descontentamento da sua população. As democracias europeias terão outras dificuldades.

A Rússia está cada vez mais perto de conseguir os seus objectivos militares na Ucrânia. Já não está em causa a queda do Governo de Volodymyr Zelensky e a sua substituição por um executivo fantoche manipulado pelo Kremlin, como a primeira fase da “operação militar especial” indicava. Como revelou sem qualquer pudor o embaixador de Moscovo em Londres, a Rússia parece para já ficar contente com o controlo de um quinto da área actual da Ucrânia.

O que está em causa é o controlo do Donbass, a zona mais rica em matérias-primas, na produção industrial e na agricultura, e um corredor junto ao mar Negro que garante a continuidade territorial da Rússia até à Crimeia. Mas não é de afastar a possibilidade de Moscovo levar as suas conquistas até ao Dniepre, como aconteceu quando o país foi partilhado com a Áustria-Hungria, até ao final da I Guerra Mundial.

Se a Ucrânia for amputada de uma parte substancial dos seus territórios históricos, a Europa estará condenada a viver uma longa era de Guerra Fria. A ocupação jamais será aceite por Kiev, pela União Europeia e, em geral, pela NATO. As sanções vão perdurar, a militarização da fronteira Leste da Europa será acelerada e a Rússia tenderá a cortar os abastecimentos de energia ao Ocidente.

Como nos anos duros do pós-guerra, a ameaça russa tenderá a reforçar o projecto europeu. Mas, sejamos realistas, a eventualidade de o conflito actual se perpetuar num jogo de nervos não augura nada de bom. O que acontecer nos próximos meses, principalmente no Inverno, permitirá antecipar com maior nitidez os desafios com os quais a Europa terá de lidar.

Se os custos das sanções e o corte nos abastecimentos de gás à Europa vão agravar as debilidades económicas da Rússia e submeter a sua população a maiores privações, sabemos também que os europeus terão de sofrer um agravamento das suas condições de bem-estar. As restrições no consumo de gás vão gerar dificuldades numa população habituada a enfrentar as agruras do Inverno com a energia vinda da Rússia. E os impactes na economia de países como a Alemanha, onde o gás é essencial para a produção industrial, estão ainda por avaliar.

É neste confronto que residem todas as incertezas. Os autocratas russos vão certamente reprimir todos os sinais de descontentamento da sua população. As democracias europeias terão outras dificuldades. Uma crise económica longa e o agravamento das condições de vida são ameaças capazes de estimular soluções autoritárias e extremistas. A guerra pode ficar em suspenso na Ucrânia, mas as suas consequências imprevisíveis serão determinantes para o futuro próximo.

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publicado às 09:40



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