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Religião nas campanhas eleitorais: atitude e intenções dos candidatos

12.11.22 | Manuel_AR

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Falemos de guerra, revoluções, levantamentos populares, manifestações, eleições e de religião. A longo de milénios a religião tem tido um papel importante na vida de milhões de seres humanos pois ela existe em todas as sociedades e é um elemento central da experiência humana que influencia o modo como se vê e reage ao meio que nos rodeia. Há evidências de que a religião interfere no mundo secular, nomeadamente na política.

Durante a Idade Média houve uma luta constante entre a Europa Cristã e os estados Muçulmanos que culminou com o crescimento do Ocidente nos séculos XVIII e XIX. A incapacidade do mundo muçulmano para resistir à expansão do Ocidente deu lugar a reformas para procurar restaurar a pureza do Islamismo para afirmação da sua identidade, o que originou as denominadas revoluções islâmicas pelas mais diversas formas embora em alguns casos até a repressão por governos teocráticos islâmicos para fazerem cumprir os preceitos religiosas como se tem verificado no Irão.

Há, e sempre houve, uma tensão entre o pensamento racionalista e a atitude religiosa. O desconhecimento e a falta de respostas científicas definitivas sobre a origem da vida, juntamente com a incapacidade das sociedades, na maior parte do Mundo, para resolverem problemas sociais prementes, e alguns até angustiantes, têm tido consequências que podem a vir a ficar num futuro próximo, se é que já não estão, fora de controle.  

A tristeza e a angústia da morte alimentam a ideia de fé que empurra emocionalmente as pessoas para a crença de uma vida após a morte onde a virtude é premiada e o mal castigado, mundos opostos que foram alimentados com a crença no divino.

A variedade de crenças e de organizações religiosas é enorme pelo que se torna difícil uma definição sociológica de religião que seja universalmente aceite. No contexto deste artigo o senso comum poderá ajudar à sua compreensão. No Ocidente as generalidades das pessoas identificam a religião com o Cristianismo que nos promete uma vida para além da morte. Contudo, estas crenças e muitos outros aspetos do Cristianismo estão ausentes na grande maioria das religiões do mundo. Por outro lado, nas principais religiões do mundo, existiram e existem agrupamentos e seitas com zelo dos seus crentes idêntico ao encontrado no Cristianismo. Grupos religiosos podem seguir o seu caminho sem se oporem necessariamente a outras organizações mais estabelecidas, como é o caso das inúmeras igrejas evangélicas.

Novas seitas e novos cultos estão constantemente a surgir como uma qualquer atividade negocial. As suas atividades, rituais e crenças tornam-se semelhantes e as cerimónias litúrgicas ajudam à criação do sentimento da qualidade da experiência religiosa.

Deve ainda salientar-se a importância do fundamentalismo religioso com o regresso literal aos textos das escrituras que emerge como resposta à modernização e à racionalização. Negando respostas sociais, refugia-se em respostas sociais assentes na fé defendendo a tradição, fugindo à secularização, isto é, à sujeição às leis civis, como acontece, por exemplo, com o fundamentalismo islâmico no Irão e Afeganistão e a opressão sobre o sexo feminino, porque a lei da “sharia”, lei islâmica, em parte é contrária aos direitos humanos e especialmente severa com as mulheres e meninas.

Os movimentos fundamentalistas surgem como resposta a uma crise económica generalizada, cultural, de identidade e de autoridade. Defendem a aplicação da «sharia» como único fundamento de organização da sociedade. Há duas correntes  fundamentalistas, os moderados e os radicais. Os primeiros mantêm pressão sobre os dirigentes para que estes provoquem a transformação da sociedade. Para os radicais não há compromissos com a atual sociedade e defendem por isso a rutura política e introduzem o conceito de revolução.

Manipular a religiosidade do povo e das suas crenças leva políticos a invocar o nome de Deus independentemente dos cultos e das liturgias que venerem. Vladimir Putin e os que o apoiam na injusta guerra invasiva da Ucrânia também tem a religião ao seu serviço.

O apoio por parte da Igreja Ortodoxa foi evidente quando as tropas de Vladimir Putin invadiram a Ucrânia e Kirill, o patriarca de Moscou da Igreja Ortodoxa Russa, não condenou as ações militares. Pelo contrário, abençoou as tropas russas e, até agora, não apelou a um cessar-fogo. Kirill o máximo representante da Igreja Ortodoxa Russa é um antigo aliado de Putin que, em 2012, chamou ao governo de Putin "milagre de Deus". O conceito de paz não tem qualquer valor para ele. O feriado por ele criado no dia 4 de novembro que diz ser o Dia da Unidade Nacional que também é o dia da glória militar da Rússia. É um feriado oficial no país. O feriado está associado à libertação de Moscou dos invasores poloneses em 1612 e simboliza a unidade nacional.

Manifesta-se uma espécie de simbiose entre alguns políticos e religiões tendo em vista a manipulação do povo ao serviço dos mais diversos interesses. Entra-se no domínio da relação e de participação da religião na política e reciprocamente. Uma evidência relativamente recente foi o caso que ocorreu nos EUA durante o mandato de Donald Trump que prometeu na campanha a revogação da “Emenda Johnson”, legislação que limita a capacidade de organizações religiosas isentas de impostos de apoiar ou opor-se a um candidato político que usou para apelar ao voto, com algum sucesso, dos eleitores evangélicos.

Já na presidência, Trump afirmou que "se livrou" da emenda e que as organizações religiosas eram livres para defender opiniões políticas na discussão pública. Mas, a “Emenda Johnson” ainda se encontra em vigor, apesar das repetidas afirmações contrárias de Trump e da promessa da sua revogação.  

O recurso às religiões maioritárias não se verificou apenas no Brasil na campanha para as eleições de novembro deste ano. Em 2016 durante a campanha eleitoral de Donald Trump verificou-se o mesmo quando o nome de Deus foi frequentemente proferido.Como se viu durante o mandato de Trump nos EUA e de Bolsonaro no Brasil a palavra “Deus” em vários contextos era frequentemente utilizada nos seus comícios políticos. Na Europa estamos a testemunhar uma instrumentalização semelhante do cristianismo por políticas populistas de extrema-direita que utilizam o nome dado ao “Ser Supremo e Criador” para atrair os crentes para as suas “hostes” político-ideológicas.

 
  


Em Portugal André Ventura, do partido CHEGA, é o exemplo demonstrativo com as suas afirmações salvíficas no Tweet e com as suas intervenções públicas assumindo-se como o escolhido de Deus, o que caracteriza o discurso dos ditadores.

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Quando a religião é posta na bancada da disputa eleitoral e da contenda política são implícitos os riscos do messianismo político.

Éric Zemmour, político de extrema-direita francesa derrotado na eleição presidencial em 2022 que apresentou ao eleitorado um discurso xenófobo, misógino e revisionista exalta "o anjo que lidera o exército de anjos contra o dos demónios" usa símbolos histórico-políticos e religiosos. Não faz nada de novo, limita-se a assumir explicitamente os "valores cristãos" que diz defender.

Em Medjugorje, uma vila situada no Sul da Bósnia e Herzegovina, onde alegadamente ocorrem aparições da Virgem Maria, Salvini em março de 2020 expressou a sua devoção a Nossa Senhora de Medjugorje como o fez em várias ocasiões. Orban procura a Bíblia para afirmações com conotação e insistência religiosa: “Os ensinamentos de Deus levaram-nos a não ver uma mera coincidência ou capricho do destino no facto de que, aqui e agora, há um governo cristão de fé a liderar a Hungria”.

Os populistas de extrema-direita na Europa e em outros lugares procuram os símbolos, a linguagem e os rituais do cristianismo, para torná-lo uma defesa contra o estrangeiro e fortalecer o senso de identidade nacional do ocidente.

Seja Putin, Orban, Bolsonaro, Zemmour, Salvini ou Trump, são a evidência do mesmo apelo aos valores cristãos, a mesma exaltação duma herança que a Europa está a perder. Contudo, paradoxalmente, esses populistas que se proclamam defensores da tradição cristã encontraram em Roma o seu inimigo mais firme no coração deste cristianismo com o Papa Francisco. Os apelos do Vaticano e os valores cristãos pela voz do Papa não lhes chegam aos ouvidos.

O lema “Deus, Pátria, Família” ao qual alguns acrescentam abusivamente liberdade, são a evidência do salto, não muito longo, para a as tentativas de ligação da religião às políticas populistas autoritárias. Este slogan criado nos anos 30 ainda se mantém e é mencionado na atualidade tendo como finalidade o apelo à religiosidade do povo e às suas crenças.

O lema da trilogia "Deus, Pátria e Família" não foi, como se poderá supor, invenção da educação do Estado Novo como base do ensino escolar do tempo da ditadura. No Brasil já era usado pelo movimento Integralista Brasileiro em 1932 inspirado no fascismo italiano que tinha sido criado por Mussolini entre as décadas de 1920-1940. Estes movimentos de natureza fascista baseavam-se nos ideais do cristianismo (católico), unidade nacional (entenda-se não existência de vários partidos), corporativismo, combate ao liberalismo e ao socialismo. A religião ficava assim simbolizada pela palavra Deus todo-poderoso e soberano.

Ideologicamente a esquerda critica o slogan “Deus, Pátria, Família” que associa à ditadura. Salazar, para destruir o espírito partidário, planeou e organizou a instituição que é a União Nacional que, embora com intuídos políticos, era considerado, por alguns um partido político e por outros um partido único.  O seu fim político consistia em criar no País a atmosfera dita, indispensável, para uma alegada reforma necessária na política e nos costumes.  Para Salazar os partidos fizeram-se para servir clientelas, mas a União Nacional nunca seria um partido político por que teria a aspiração mais alta de “organizar a Nação” sobe o lema Deus, Pátria, Família.

Mas será que, por a ditadura de Salazar não aceitar o sistema pluripartidário, desvalorizar a democracia e assentar a política na chamada União Nacional, de partido único, haverá razoabilidade para em democracia se odiar aquele slogan para sempre. Cada qual poderá tirar as ilações que entender sobre os significado e carga política que são atribuídos ao slogan, contudo slogans podem ser aplicado de cordo com propósitos pretendidos.

O populismo da extrema-direita portuguesa, dando como exemplo o caso português do partido CHEGA, que se apropriou do mesmo lema do regime ditatorial salazarista parece também valorizar os valores e princípios salazarista e antidemocráticos com arrazoados tais como estar contra o sistema, manifestações xenófobas e racistas, nacionalismo extremado, anti europa, etc. Para André Ventura a ideia de que o seu partido é de extrema-direita é falsa com alegação estranha de que, se o fosse, “não teria a implantação que tem no Alentejo”.

Mas, o que é, para ele, ser antissistema e pretender ser "uma nova Direita antissistema"? Será opor-se ao sistema económico, político, democrático, etc., vigente? Será ser contra a ordem estabelecida? Então que sistema propõe? Será ser antissistema por oposição à democracia? (Ver várias intervenções de André Ventura do partido Chega). Será que ser antissistema é estar contra a democracia e contra tudo o que ela conseguiu e representa? Não temos respostas satisfatórias da sua parte e clamar “Deus, Pátria, Família” não ajuda.

Durante a última campanha eleitoral no Brasil, na disputa pela presidência entre Lula e Bolsonaro, algumas vezes se dirigiam às igrejas e seitas religiosas para a captação de votos. Bolsonaro apoiado pelas igrejas evangélicas e Lula também à igreja católica que fizeram entrar no confronto eleitoral.

Os apoiantes de Bolsonaro após o apuramento dos votos reagiram mal à derrota e fizeram a saudação nazi em frente a um quartel, onde pediam a intervenção militar e de mãos levantadas em posição de prece invocavam Deus numa que exorcização dos resultados.

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Se estivermos atentos ao que se passa no mundo de hoje e sobretudo em em alguns países podemos facilmente constatar através das notícias e informações que nos chegam que as religiões ao intrometerem-se na política ficam cúmplices da potencial instabilidade social criada e da perturbação do exercício democrático que deveria ser pacífico.

A ligação das igrejas evangélicas a Bolsonaro foi várias vezes referida na imprensa brasileira durante a campanha eleitoral, mas a igreja católica, mais discreta, por meias palavras terá dado o seu apoio ao lado oposto. Assim, é possível que a campanha dentro das igrejas ou nas redes sociais direcionada aos fiéis evangélicos tenha tido um papel relevante nos resultados.   

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De acordo com pesquisas de opinião a massa dos apoiantes de Bolsonaro terá sido composta por membros das igrejas e fiéis simpatizantes do mundo evangélico, como fonte de “apoio inabalável”. Note-se que segundo o último censo demográfico brasileiro de 2010, (último conhecido porque o prazo para a recolha de informações para o Censo 2022 foi prorrogado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística até ao início de dezembro), 64,63% diziam ser Católicos Apostólicos Romanos, Evangélicas 22,16% e Evangélicos de Origem Pentecostal 13,30% estas duas últimas obtinham um total de 35,46%.  

 Os cristãos das igrejas evangélica estão do lado oposto ao que seria previsto oporem-se que era o da violência, da morte e das armas. Com os olhos postos na política abandonaram o lema de “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, deixando-o para o passado.

Pastores e “influencers” nas redes sociais escreveram barbaridades como a de que Jesus andaria armado se precisasse, o que contraria o Evangelho segundo São João, (18:10,11): “Simão Pedro, que trazia uma espada, tirou-a e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. Jesus, porém, ordenou a Pedro: Guarde a espada! Acaso não haverei de beber o cálice que o Pai me deu? ".

Parece começar a emergir a tentativa de associação entre religião, armas e política. Não é por acaso que ocorrem fenómenos político-religiosos de nacionalismo cristão que nasce como ideologia duma extrema-direita global, que se descola como movimento organizado do fascismo tradicional.

Um século depois, pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, o partido de extrema-direita, Irmãos de Itália, de Giorgia Meloni, o mais votado em Itália que tem as suas raízes fincadas no fascismo também recuperou o lema que popularizou Mussolini "Deus, Pátria, Família". Parece que tudo se está a encaminhar para uma tempestade complexa que poderá ser difícil de parar.

 

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