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A Propósito de Quase Tudo: opiniões, factos, política, sociedade, comunicação

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Relação político-mediática e jornalismo

24.01.24 | Manuel_AR

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Os meus pontos de vista sobre assuntos da atualidade política não se ajustam completamente às opiniões e comentários que leio nos jornais e sintonizo nas televisões, venham eles da direita, ou da esquerda. Por vezes há alguns pontos com que poderei estar de acordo tomando atenção à subjetividade inerente a cada um.

Hoje, ao ler um artigo de opinião de Pacheco Pereira no jornal Público, tive uma surpresa. Pacheco Pereira escolheu um tema sobre o qual tenho vindo a refletir e fê-lo de uma forma que eu não conseguiria, isto com alguma pena minha. Assim, resta-me tecer alguns comentários ao meu modo, de forma corriqueira, correndo o risco da possibilidade de alguma interpretação menos cuidada da minha parte.

Os media, nomeadamente nos noticiários das televisões, podem fazer com que, por exemplo, o agressor pareça o oprimido e o oprimido pareça o agressor, o que pode aumentar ou diminuir a gravidade duma circunstância, mensagem ou facto conforme os interesse ou conveniências.

Uma coisa que sempre pensei é a forma como as notícias são dadas e que são uma das manifestações do contínuo político-mediático que Pacheco Pereira, num outro artigo de opinião, descreve como sendo “um dos fatores que penso estar na origem da crise das democracias, o domínio da política democrática pela sua transformação num contínuo político-mediático, que diminui a autonomia da decisão política e a torna cada vez mais dependente dos mecanismos da comunicação social e da sua evolução.” E a “colocação da racionalidade como uma coisa do passado e de velhos, sem capacidade de competir com o glamour da superficialidade, tudo puxando para baixo, a política foi pelo mesmo caminho de vulgaridade e comodismo.”

Do artigo depreende-se que “a crise da democracia está a ser afetada entre outras coisas por um jornalismo a ser dominado pelo “jornalismo de baixo” que prejudica o “jornalismo de cima” e em que o “jornalismo de baixo”, é sobrevalorizado e que não é jornalismo, mas é muitas vezes citado como produtor de notícias sem qualquer cumprimento de regras da profissão.” “Um jornalista que usa as redes sociais como fonte está a suicidar-se como jornalista como se frases sem edição ou contexto, pseudofactos ou fake news pudessem ser consideradas fontes noticiosas”.

Uma outra consequência para crise da democracia está na “crescente politização do ´jornalismo, assim como “a subordinação do discurso jornalístico a lugares-comuns, modas, superficialidade, incompetências, estereótipos, que faz com que a politização seja muitas vezes involuntária, pela dificuldade de se sair do rebanho, e ter autonomia de julgamento.”

Atualmente verificamos que não existe uma distinção entre os comentadores que fazem comentários dos comentários dos jornalistas, isto é, “hoje o comentário não separa os jornalistas que o fazem dos restantes comentadores de direita ou esquerda conforme as conveniências dos autores de mensagens nas redes sociais”.

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Vejamos agora o caso das aberturas dos noticiários durante as primeiras semanas de janeiro, altura de grande afluência fora do normal às urgências hospitalares devido à gripe que pululava. Diariamente, à mesma hora, os dois jornais televisivos dos principais canais generalistas passavam uma parte significativa das notícias de abertura com imagens captadas nas urgências com as “voz off” a insistirem nos problemas a que se acrescentavam outro do internamento. Faziam-se entrevistas a utentes que, devido à ansiedade das esperas, não teriam nada de animador a dizer, antes pelo contrário, esquecendo tudo o que antes teriam considerado ter sido bom. Interessava politicamente que tudo quanto fosse alimentar a oposição contra o governo já demitido, mas que até se esgotar a última gota do governo mesmo que em gestão corrente.

Passaram depois, mais recentemente, a sintonizar o tema sobre as mortes em excesso como nunca dantes verificadas, e escolhem umas datas de anos anteriores para fazerem comparação. Esquecem as causas recentes e tentam associar ao que antes anunciaram sobre as urgências sem apontar as possíveis causas para tal.

A questão sobre o jornalismo é a de saber como se colocam as questões para se obter uma resposta desejada. Colocar os problemas do aumento da mortalidade como sendo devida aos problemas do SNS é tentar salientar um facto escondendo outro ou outros mais graves.  Porque não associa esse aumento de mortalidade à greve dos médicos? É certo que um dos problemas do SNS tem sido o da greve dos médicos, mas a forma como a causalidade da mortalidade não é associada também não está isenta de culpas, mas não aparece como uma possível causa.

Sobre este assunto escreveu Pacheco Pereira no referido artigo que passo a transcrever:

 “Vejamos alguns exemplos actuais. Por exemplo, quando se está a discutir o aumento significativo de mortalidade nos últimos meses a pergunta que ouvi feita a um especialista que estava a falar de vários factores explicativos foi a seguinte: “Não se deverá esse aumento de mortalidade aos problemas do SNS?” Essa pergunta tem sentido em abstracto, mas imaginemos que ela era formulada de outra maneira: “Não se deverá esse aumento de mortalidade à greve dos médicos?” Na verdade, a greve dos médicos é um “problema do SNS”, mas a forma como é apresentada a causalidade da mortalidade não é inocente. Aliás, a greve dos médicos nunca aparece como causa, ao contrário da greve dos ferroviários para as paragens de comboios. No entanto, nunca houve tantos simpatizantes das greves e de movimentos como o dos polícias desde que contribuam para atacar o Governo. Imagino que, se a “Aliança Democrática” governar, as greves e movimentos reivindicativos de trabalhadores tornar-se-ão de novo malditos e outras greves como a dos médicos não existirão.

Mais adiante acrescenta Pacheco Pereira fazendo uma comparação com os hospitais privados:

Aliás quase todas as peças sobre os “problemas do SNS” que abrem noticiários, muitas vezes de formas casuística para ter um feito cumulativo, não têm qualquer paralelo com a informação comparativa com o sector privado. Os tempos de espera nos hospitais privados raramente são citados, nem referido como é feita a triagem de doentes não rentáveis devolvidos aos hospitais públicos, e o que aconteceu durante a pandemia.

Não foi raro o anterior bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, aparecer frequentemente na hora dos noticiários a tecer críticas ao Governo no que respeitava ao SNS e à saúde sempre numa espécie de oposição crítica. A crítica é, em democracia, normal e necessária, mas a atitude e as narrativas do bastonário funcionavam aos olhos dos espectadores mais atentos como se fosse um político a fazer oposição que mais o aproximava ser um militante do PSD. 

A minha suspeita sobre o tipo de intervenções veio a confirmar-se no dia 7 de janeiro quando o Expresso noticia que o antigo bastonário da Ordem dos Médicos discursaria nessa tarde, ao lado de Montenegro, Melo e Câmara Pereira e que seria um dos nomes apontados para as listas de deputados do PSD, hipótese para a qual já se mostraria “disponível”.

Diariamente somos confrontados com dualidade de critérios nos noticiários numa variedade de casos o que contribui para a crise da democracia com a polarização e radicalização e por factos intencionalmente evidenciados em ponto conforma as conveniências do memento ou das agendas partidárias, tal como se fossem trabalhados nas redes sociais e não da forma jornalística. Sobre este tema da independência dos jornalistas já escrevi neste mesmo blogue.