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Que outros objetivos de Putin?

07.03.23 | Manuel_AR

Questiono-me várias vezes porque será que andam nas redes sociais muitos “personagens” a divulgar propaganda do Kremelin/Putin difundindo notícias falsas anti Ucrânia em sintonia com as mesmas que Vladimir Putin e os seus seguidores russos fazem em sucessivas lavagens cerebrais ao povo. A estes que, aqui, em liberdade, defendem as ideias de Putin pergunto porque não vão viver para esse extraordinário país sob o seu domínio e deixam de viver cá onde recebem salários à custa dos impostos que todos pagamos? É a liberdade de expressão a funcionar dirão, mas será que nesse regime que tanto defendem não haverá a mesma liberdade para dizerem o que pensam?

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Podemos conjeturar se a invasão da Ucrânia não será apenas o início de outros objetivos imperialistas e mais ambiciosos de Putin, se conseguisse ocupar parte ou a totalidade da Ucrânia. Por agora bastar-lhe-ia bloquear o acesso da Ucrânia ao Mar de Azov e ao Mar Negro, caso consiga dominar toda a área que vai da Kharkiv a Odessa passando por Zaporizhia, Kherson e Mikolaiv, o que, até à data, não foi conseguido.

O caso da Crimeia, república autónoma da Ucrânia, anexada pela Rússia em 2014, que gerou um conflito na região que dura até hoje. A crise na Crimeia foi motivada pela deposição do presidente ucraniano Viktor Ianukovitch, (que fugiu de seguida para a Rússia), alinhado com as políticas russas de Putin que foi seguida de um referendo fantoche que aprovou a sua união com a Rússia, não sendo, contudo, reconhecida por Kiev nem pela comunidade internacional.

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Fonte: Institute for the Study of War

O ponto de vista da preparação a de uma possível invasão da Europa em larga escala, planeada a longo prazo, a começar pela Polónia através da Bielorrússia, estaria em linha com o discurso do presidente Vladimir Putin antes da invasão da Ucrânia.

Não se sabe se, atualmente, a Rússia terá ou não capacidade militar para lançar um ataque contra a Polónia ou qualquer outro país da NATO, mas Putin tem ambições imperialistas, de longo prazo, ele próprio não o nega,  e está a procurar, numa primeira fase territórios vizinhos e próximos das suas fronteiras. É um processo contínuo a Rússia tentar invadir algumas das regiões que ela reivindica, pela voz de Putin, como sendo suas.

Dias antes da publicação deste “post”  o presidente da República Russa da Chechénia, Ramzan Kadyrov, sugeriu, numa entrevista na televisão do estatal daquele país, que o exército russo invadisse a “Alemanha Oriental”, como era chamado o território da antiga RDA (República Democrática Alemã) antes da queda do império soviético. O motivo de tal ataque verbal teria a ver com a entrega de tanques à Ucrânia, anunciada pela Alemanha. Também aquele radical terá sugerido que a Rússia atacasse a Ucrânia com armas nucleares.

Mais descarada ainda, e até ridícula, foi a afirmação do ministro dos negócios estrangeiros da Rússia, Lavrov, numa conferência na India, (3 de março), quando lhe perguntaram como é que a guerra afetou a estratégia energética da Rússia e como isso poderia beneficiar a Rússia, Lavrov respondeu: “A guerra que estamos tentando impedir foi lançada contra nós” o que suscitou gargalhada na plateia que pode ver aqui ou aqui. Este mesmo sujeito já afirmou em fevereiro do corrente ano que a Rússia deveria procurar "desnazificar" a Polónia, usando a mesma linguagem e argumento que Putin usou para justificar a invasão da Ucrânia.

Tem-se escrito e falado muito sobre a equiparação dos propósitos de Putin com os que Hitler para começara a guerra: a expansão da Alemanha e a disseminação da política nazi; depois de, no tempo da União Soviética de Estaline este ter feito um pacto em 23 de agosto de 1939 com a  Alemanha nazi de Hitler, Putin diz agora querer combater o nazismo na Ucrânia.  O governo de Hitler tinha em mente a criação de um império vasto, um “espaço vital” como ele lhe chamava então conducente à expansão germânica no leste europeu. Vladimir Putin tem a mesma ambição, mas para ocidente para criação dum império, conforme as suas próprias palavras. A efetivação da dominação russa sobre a Europa, como têm dito os seus correligionários, requereria uma nova guerra. Como já várias vezes escrevi neste mesmo local Putin nunca aceitou a dissolução da União Soviética e descreveu o seu colapso como uma “grande tragédia do século XX".

Putin recorre a uma narrativa sobre eventos passados para dar, no presente, um significado especial que sirva para fortalecer a sua autoridade como detentor do poder e reavivar no povo antigos mitos políticos do  culto de personalidade. É isto que Putin pretende criar um novo, mas retrogrado, um culto à sua personalidade, de inspiração estalinista que remeta para uma forma de propaganda que eleve a sua figura  a político de dimensões quase religiosas cujos discursos procurem promover, de forma exagerada, os seus méritos e qualidades, fazendo ocultar críticas ou defeitos que possam vir a ameaçar o seu poder e a condição de grande líder e guia da pátria russa.

O presidente Vladimir Putin, que muitas vezes invocou e  a história para alimentar sentimentos nacionalistas, comparou-se ao czar Pedro, o imperador que expandiu o território russo através de conflitos prolongados no século XVIII.

Logo após a invasão da Ucrânia de fevereiro, no dia 9 de junho de 2022, num discurso do 350º aniversário do nascimento de Pedro, Putin pareceu fazer uma ligação da sua sangrenta invasão da Ucrânia com o passado imperial da Rússia. Segundo um jornal russo “o presidente russo Vladimir Putin, durante uma reunião com jovens empresários, engenheiros e cientistas na VDNKh em Moscovo, comparou a situação atual na Ucrânia com a Guerra do Norte (1700-1721) com a Suécia, que foi liderada por Pedro I”.

O jornal MKRU escrevia na altura que “o presidente Vladimir Putin traçou analogias com Pedro I. Segundo o presidente, “o imperador "não tirou nada" dos suecos durante a Guerra do Norte, mas devolveu os territórios que historicamente pertenciam à Rússia. E também coube à nossa parte retornar e fortalecer". Confirmava assim que, no pano de fundo ideológico da “operação especial” na Ucrânia, subsistia a ideia de reunir ao que ele chama mundo russo e recriar a “Novorossiya”.

Putin elogiou a construção do império de Pedro I e sugeriu que as terras tomadas pelo czar pertenciam legitimamente à Rússia. "O que Pedro estava fazendo?" De acordo com a Associated Press Putin disse na altura que o que Pedro fez foi segundo ele "Retomar e reforçar. Foi o que ele fez. E parece que nos coube também retomar e reforçar." Os comentários foram amplamente vistos como uma referência ao ataque de Putin à Ucrânia, que há muito vê como parte da esfera de influência da Rússia.

Em 24 de fevereiro, Vladimir Putin chocou o mundo ao iniciar uma guerra com a invasão da Ucrânia. No período que antecedeu a invasão russa, Putin fez discursos de longo alcance e escreveu um artigo para legitimar as suas ações que estava repleto de intensa retórica sobre a história imperial e a história soviética. No entanto, isso não é algo novo. Putin tem consistentemente instrumentalizado a história para alcançar os seus objetivos políticos desde o dia em que se tornou presidente.

Ao longo dos anos, tem-se referido cada vez mais, e repetidamente, à história do Império Russo, como se pode verificar nos seus discursos. A história nas suas mãos tem-se transformado gradualmente numa arma. Putin pratica essa retórica dentro do país e para o exterior para justificar as suas ações, garantir a sua posição de poder e a legitimação da invasão que foi sua e apenas sua, culminar da sua estratégia. Por outro lado parece haver também, por parte de Putin, uma espécie de saudosismo que reside numa espécie de esperança profética assente na crença de que é possível um retorno ao antigo regime soviético numa versão século XXI.

Putin parece ter adaptado à atualidade a frase que Estaline escreveu em 1924 no seu livro “Foundations of Leninism”  onde afirmava que o mundo estava dividido em dois campos hostis «a frente mundial do imperialismo» e «a frente comum do movimento revolucionário em todos os países»; afirmava ainda Estaline, de modo particular, que «na presente fase do capitalismo as guerras não se podem evitar». Na linha interpretativa de Putin o mundo continua dividido em dois campos, o ocidente e a NATO que fazem parte da maquinação do campo hostil e invasor da Rússia, e o dele, pacifista, defensivo. Mas é ele que mostra uma agressividade bélica, expansionista, no sentido de regressar ao anterior império czarista. É o pensamento dos totalitaristas.

A solução adotada pelos ditadores totalitários é dirigir a hostilidade latente do povo contra inimigos reais ou imaginários. É este último caso o de Putin contra a Ucrânia e o Ocidente. Hitler escolheu primeiro os judeus para alvo da agressividade alemã; uma vez arranjado um alvo não ficou satisfeitos e, mais tarde, outros povos e personalidades tomaram o lugar dos judeus. No caso de Putin parece ser o povo ucraniano e, segundo ele, um produtor de fake news, passa para o povo russo a ideia de que os invasores são o ocidente e  a NATO que estão a cercar e a invadir a Rússia.

A Rússia é um país localizado na Europa e na Ásia com os montes Urais frequentemente vistos como a fronteira entre os dois continentes e é amplamente considerado política e culturalmente europeu. Segundo as estatísticas mais recentes, em janeiro de 2023, tem aproximadamente três quartos da população que vive a oeste dos montes Urais, na Europa portanto, geograficamente fronteira entre os dois continentes.

Se observarmos o mapa seguinte que nos mostra as atuais fronteiras da Rússia comparadas com as de 1914 podemos supor até onde poderá ir o sonho imperial de Putin, que tenta comparar-se ao czar Pedro, com uma ideologia irracionalista, pretensamente mítica que mostra uma colocação política irracional tendente a  voltar a consolidar as suas posições em direção ao sul e leste do país.

 

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Putin parece não se ter desligado, nem esquecido do mundo russo soviético em que viveu e em que participou que implodiu em dezembro de 1991. Entre 1922 e 1991 a ex-URSS era formada por 15 nações diferentes: Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Estónia, Letónia, Lituânia, Arménia, Geórgia, Moldávia, Azerbaijão, Cazaquistão, Tajiquistão, Quirguistão, Turquemenistão, Uzbequistão. Sob o domínio de Estaline e durante a Segunda Guerra a URSS combateu ao lado dos Países Aliados, e fez da Alemanha o seu principal alvo militar. Nesse contexto, o Exército da URSS invadiu a Alemanha e os territórios sob a sua zona de influência e formou estados-satélite como a República Popular da Polónia, República Popular da Hungria, República Popular da Roménia, República Popular da Bulgária, República Popular da Albânia, República Socialista da Checoslováquia (atualmente República Checa e Eslovénia) e, no fim do conflito, a parte leste da Alemanha que passou a ser denominada por República Democrática Alemã.

Questiono-me várias vezes porque será que andam nas redes sociais muitos “personagens” a divulgar propaganda do Kremelin/Putin difundindo notícias falsas anti Ucrânia em sintonia com as mesmas que Vladimir Putin e os seus seguidores russos fazem em sucessivas lavagens cerebrais ao povo. A estes que, aqui, em liberdade, defendem as ideias de Putin pergunto porque não vão viver para esse extraordinário país sob o seu domínio e deixam de viver cá onde recebem salários à custa dos impostos que todos pagamos? É a liberdade de expressão a funcionar dirão, mas será que nesse regime que tanto defendem não haverá a mesma liberdade para dizerem o que pensam?