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Presidente e comentador

19.03.23 | Manuel_AR

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Hoje lembrei-me do filme “Oficial e Cavalheiro”, drama romântico de 1982 que teve grande sucesso que chamou a atenção sobre Richard Gere e que se não me engano foi vencedor do Óscar para melhor ator secundário Louis Gossett Jr.,Óscar para a melhor canção: "Up Where We Belong" e, ainda indicado nas categorias de melhor atriz (Debra Winger), melhor edição, melhor roteiro original e banda sonora (Jack Nitzche).

Lembrei-me deste filme quando escolhia um título adequado, talvez satírico, para o artigo do “post” que publico e que nada tem a ver com o filme.

O título escolhido, “Presidente e comentador”, parece querer antecipar sobre o quê e sobre quem escrevo. Exatamente, o nosso Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa. Votei a primeira vez nele para o primeiro mandato, voltei a votar nele para o segundo mandato e, provavelmente, voltaria a votar nele, à falta de melhor, se pudesse candidatar-se a um terceiro mandato. Exclamarão alguns neste exato momento, “poça”, já chega, estamos fartos! OK, cada um sabe de si. Mas eu também não lhes disse que que votaria, disse que talvez votasse, isto porque não saberemos o que virá por aí nessa altura.

Quando vemos notícias na televisão ou as lemos na imprensa oscilamos entre uma visão de conjunto que temos e o momento fugitivo de ideias gerais  e acontecimentos específicos que passam nos ecrãs, sobre atores da política que nos são mostrados conforme a agenda mediática, os interesses e os alinhamentos feitos para os jornais televisivos.

Por vezes identificamo-nos com os pensamentos desses personagens e concentramos nelas a nossa atenção e tentamos ver a paisagem política circundante através dos seus comentários, de tal modo que já nem nos apercebemos do que estamos a ver e a ouvir. É como estarmos a conduzir um automóvel quando acionamos automaticamente e inconscientemente os comandos. São os espectadores e os leitores a que me atrevo a chamar ingénuos para descrever os tipos que não estão minimamente preocupados com os aspetos exatos do conteúdo e ligam mais à artificialidade, aos aspetos artificiais das mensagens. A estes ingénuos podemos opor os reflexivos os interessados no conteúdo exato e à descodificação da eventual polissemia das mensagens e para a descoberta da artificialidade, prestando atenção aos métodos utilizados pelo mensageiro da notícia, cortando, amplificando, distorcendo a mensagem do emissor.

Mas vamos recuar no tempo, não muito, para vermos o professor Marcelo Rebelo de Sousa que também tinha sido jornalista e que, sem largar a Comunicação Social, aparece como comentador político primeiro na rádio, na TSF, e depois na televisão, na TVI de 2000 a 2004, na RTP de 2005 a 2010 e de 2010 até 2015 novamente na TVI e, paralelamente, a estes percursos, Marcelo teve uma longa carreira no ensino universitário. O seu percurso enquanto comentador tornou-o numa presença habitual e afável de grande maioria dos lares portugueses e até em certas alturas parecia mais um oráculo noticioso.

O abandono do comentário político foi apenas formal porque o Presidente continua a comentar a vida política nacional de todos os ângulos. Passou de comentário semanal para comentador diário, quase horário e em qualquer lugar, sem limites. É uma presença que mostra obsessão pelos media e que chega ao limiar do exagero. Talvez por isso os jornalistas, ávidos das suas palavras, solicitam-no a comentar, sejam os temas mais importantes, sejam os mais triviais. O fulano disse, o partido fez, o que tem a dizer sobre isso – perguntam-lhe – e, solicito, o Presidente lá vai comentando, intrometendo-se dizendo o que acha sobre assuntos que deveria ser da competência do Governo. São intervenções por vezes perturbadoras da governação que os media aproveitam para fazer aberturas nos jornais televisivos.

São José Almeida escreveu hoje no jornal Público que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa reformulou “a forma como projeta para o país a sua atitude perante o Governo, não no sentido de ser propriamente mais crítico, mas, sim, no sentido de se tornar ainda mais presente, mais incisivo” e que isso o faria “reganhar espaço no centro do palco político institucional”.

O poder de influência reclamado por outros Presidentes da República, como Cavaco Silva fazia por utilizar, pode diminuir quando há maiorias absolutas dando segurança ao primeiro-ministro. Por isso vemos o Presidente Marcelo fazer por não perder o seu poder de influência que pretende mostrar via comunicação social. Ora provoca o Governo, ora diz que está a justificar opções. E agora passou também a ser uma espécie de inspetor da execução dos projetos PRR (Plano de Recuperação e Resiliência).

A existência de uma maioria absoluta, assim como dá segurança ao primeiro-ministro, diminui o poder de influência do Presidente da República sobre o Governo. Desde que deixou de ser comentador de televisão, devido à candidatura para Presidente e ter ganhos duas eleições presidenciais nunca mais deixou de estar no ar e faz por isso.

Num comentário em 12 de março passado o Presidente da República deu uma entrevista à RTP, onde teceu algumas das mais duras críticas ao Governo, desde que foi eleito. A comentadora da CNN Portugal Alexandra Leitão analisou as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, que "não escondeu o seu gosto pelo comentário político".

O Presidente Marcelo parece estar num país que alterna entre sistemas de governo. Para um observador inexperiente umas vezes ele parece ser um presidencialista, outras, semipresidencialista, outras ainda, um parlamentarista. Talvez tenha razão quem em tempo disse que Marcelo Rebelo de Sousa é um cata-vento. Foi Passos Coelho, num Congresso do PSD (XXXV) em 2014, que traçou o perfil do Presidente da República como candidato onde afirmou que para o cargo não deveria ser um “protagonista catalisador de qualquer conjunto de contrapoderes ou num catavento de opiniões erráticas”. Passos Coelho terá idealizado um candidato como tinha sido Cavaco Silva, uma espécie de adepto do solipsismo que, como ironia, podemos considerar como uma pessoa que apenas reconhece a sua existência como sujeito pensante, sendo os outros apenas simples representações mentais sem existência própria.

Cavaco Silva foi um presidente que se refugiava no Palácio que é presidencial e onde, qual “monarca”, se distanciava da nação, autoanalisando o seu “eu” de político de Presidente. Raramente se expunha publicamente, exceto quando aparecia para fazer comunicações que ele achava serem relevantes. Tal e qual um monarca com tendências absolutistas, talvez até uns laivos salazaristas.

Apenas tenho presente a sua saída com mais impacto mediático, tirando os discursos de pouca isenção ideológica, foi a sua saída para ir ver as “cagarras”, pássaro dos Açores. Afirmou ele na altura, julho de 2013: “As cagarras resolveram ter muito respeito e consideração pelo Presidente da República de Portugal por ter sido o primeiro a dormir aqui. Contrariamente ao que me tinham avisado, não me incomodaram”, revelou ele, acrescentando que “foi uma noite tranquila, em que não chegou nenhuma notícia desagradável de Lisboa”.

O seu último discurso de 18 de março nos “30 Anos PER: génese e impacto nos territórios” autocentrava-se, e, como se esperava, colocou as políticas focadas nele mesmo, como sempre fez. Dos seus discursos não podemos esperar outra coisa. Como se verificou neste último aparecimento pareceu um ente imaginário que veio das catacumbas, mais uma vez, parar perorar contra o que ainda lhe está marcado na alma, o PS, (sobretudo António Costa), que o “obrigou” a “destronar” o seu partido minoritário saído, na altura, das eleições.

Antes Rebelo de Sousa!! Ao estar também, embora numa outra perspetiva, focado em si mesmo, preocupado com a sua popularidade mediática e com a produção de selfies. Numa sondagem em finais de fevereiro de 2023 do Cesop/Universidade Católica para o PÚBLICO, RTP e Antena 1, apesar de ter recebido nota positiva, igual ou superior a 10 dos 79% dos inquiridos. Mas a avaliação média estava já em queda acentuada desde o início do segundo mandato, e situava-se numa nota de 12,2, o que representa uma queda de 0,7 pontos desde julho do ano passado.

Mas, contudo, lá vai andando como Presidente e comentador. Estaremos atentos para ver o respeito que irá ter pela maioria absoluta sem se deixar influenciar pelos órgãos de comunicacional, pelas greves políticas e manifestações, convocadas pela da extrema-esquerda ansiosa por recuperar os votos perdidos, das quais se aproveita a extrema-direita.