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Porque o Chega e André Ventura não ganharam as eleições

06.12.22 | Manuel_AR

ERC Ventura e SIC.png

Várias vezes aqui coloquei o meu ponto de vista sobre artigos de João Miguel Tavares. Nem sempre, ou quase nunca, concordo com ele porque tenta ser isento, mas não é. A sua isenção foge sempre para o meu lado direito e só vê entraves no meu lado esquerdo. Mas, em democracia é assim, apesar de apreciar os cumprimentos com a mão esquerda, por vezes há que fazer jus quando, com isenção, criticam e comentam sobre o que a minha mão direita e a minha mão esquerda fazem. Aqui vai o  artigo com a respetiva vénia.

A ERC propõe quotas de gargalhadas para André Ventura

Um artigo de opinião de João Miguel Tavares publicado no jornal Público em 6 de dezembro de 2022

Aqui há três anos, António Costa foi ao programa da Cristina cozinhar uma cataplana de peixe. Cara ERC: para quando André Ventura e um ensopado de coelho?

Declaração de interesses: sou amigo e colega de trabalho de Ricardo Araújo Pereira. Declaração de desinteresse: o Ricardo precisa tanto que eu diga bem dele como José Sócrates precisa que eu diga mal. A justificação para vir aqui falar deste tema tem zero por cento de amiguismo e cem por cento de fascínio deliberativo: estou absolutamente maravilhado com a deliberação da ERC a propósito da ausência do Chega e de André Ventura do programa Isto É Gozar com Quem Trabalha. O tema é demasiado giro para que me possa dar ao luxo de passar ao largo.

A história: na última campanha eleitoral, a ERC recebeu várias queixas por causa da exclusão de representantes do Chega do segmento de entrevistas do programa de Ricardo Araújo Pereira – e concordou com elas. A ERC admite que Isto É Gozar com Quem Trabalha “não é um programa informativo”; admite que ele “não se rege pelas normas legais, éticas e deontológicas da actividade jornalística”; admite que é “um programa de autor”; admite que “em programas de humor deve ser admitida uma maior margem de discricionariedade na forma como é abordado o período eleitoral”; mas, apesar de admitir tudo isto, entendeu, ainda assim, que a Constituição e a Lei Eleitoral “não circunscrevem o princípio da igualdade de oportunidades e de tratamento das diversas candidaturas à cobertura jornalística da campanha ou a programas de actualidade informativa e a serviços noticiosos”.

Donde, mesmo “um programa de entretenimento” como aquele, dado “o seu potencial para conferir visibilidade aos candidatos e influenciar o sentido de voto”, deve conformar-se às regras do período eleitoral. Lamentavelmente, a ERC não exigiu que Ventura fosse entrevistado com retroactivos (o que é pena, porque daria óptima televisão), mas recomenda à SIC que “compense na restante programação” os “desequilíbrios gerados” por Isto É Gozar com Quem Trabalha, de forma a assegurar “o pluralismo político-partidário”, violentado pelo Ricardo ao recusar-se a fazer perguntas extremamente engraçadas a André Ventura. A SIC é assim convidada a compensar o Chega pelas gargalhadas que lhe ficou a dever.

Vamos cá ver: não creio que os quatro membros da ERC que subscrevem esta deliberação tenham grande simpatia pelo Chega. O problema deles é outro, e logo a triplicar. 1) Não percebem o que é um programa de humor. 2) Não percebem o que é um programa de autor. 3) Não percebem que um regulador deveria agir como um VAR – limitar-se a intervir em casos de falta absolutamente grosseira.

Talvez ainda haja um quarto problema: os membros da ERC acham que dominam a psicologia das massas com raciocínios infantis. A cara do senhor A aparece na TV, logo, o senhor A vai obter grandes benefícios eleitorais. A sério? Na última campanha eleitoral, João Oliveira (PCP) e Francisco Rodrigues dos Santos (CDS) foram entrevistados pelo Ricardo. Ri-me muito. As eleições correram-lhes de feição, não correram?

Existe uma lamentável tradição de a ERC analisar o pluralismo partidário a partir da contagem de cabeças falantes, razão pela qual a RTP decidiu em 2008 encurtar o programa de comentário de Marcelo, porque tinha mais minutos do que o de António Vitorino. Não interessava o que se dizia, nem o interesse de quem dizia. Pelos vistos, essa mentalidade burocrática está de pedra e cal. Aqui há três anos, António Costa foi ao programa da Cristina cozinhar uma cataplana de peixe. Cara ERC: para quando André Ventura e um ensopado de coelho?