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A Propósito de Quase Tudo: opiniões, factos, política, sociedade, comunicação

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Os jovens estão na moda e os radicais de esquerda não perdem tempo

04.10.23 | Manuel_AR

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Foto do jornal Público - NA DIAS CORDEIRO, MARIANA GODET

Um texto de opinião geralmente reflete visões, crenças e perspetivas pessoais de um autor sobre um determinado assunto. Deste modo, as generalizações podem ser usadas para reforçar ou ilustrar um ponto de vista do autor, no entanto podem ser entendidas como uma extensão arbitrária de fenómenos. Assim, neste contexto, considerar generalizações significa tirar uma conclusão ampla com base num conjunto limitado de evidências ou observações.

Ao fazermos generalizações derivadas de casos pontualmente observados é possível falhar nas conclusões que se possam retirar. Explicando-me melhor: fazer generalizações sobre uma observação não equivale, necessariamente, a falhar nas potenciais conclusões, mas há que ter algumas cautelas e considerar diversos fatores.

Neste artigo não se pretende fazer uma generalização a partir de pontos de vistas, no entanto, há fatores que se observam na maior parte da população mais jovem quer no comportamento, quer nas atitudes.  

O conceito de jovem torna-se ambíguo se não for caracterizado, porque depende do contexto cultural, sociológico e até mesmo legal. Para a ONU Organização das Nações Unidas para fins estatísticos, define a “juventude” como o grupo etário composto por pessoas entre os 15 e os 24 anos. Mas, para além disso, a juventude é muitas vezes um período de aprendizagem e de desenvolvimento pessoal e social, em que os jovens constroem as suas identidades e definem os seus interesses e objetivos.

Feitos estes esclarecimentos declaro que nada tenho contra os jovens, eles são o nosso futuro enquanto sociedade e serão as futuras elites de governantes, e, por isso, devemos exigir-lhes qualificações, responsabilidade e qualidade nas atitudes e comportamentos.

Para os jovens parece que tudo se resolve com manifestações e protestos conducentes à imediatez, própria da juventude e que têm para soluções de problemas complexos. Mas não têm! Mostram-no quando são abordados a justificarem porque protestam e quando lhes pedem soluções para os problemas, nada dizem de concreto, divagam. Repetem o que ouvem e lhes dizem.

A política, com a ajuda da comunicação social, colocou os jovens no centro das atenções e os partidos, sobretudo os da oposição da esquerda radical, aproveitam o filão. Os jovens passaram a ser as vítimas da sociedade, reclamam e sentem a falta de tudo. É uma onda de manifestações com os apoios partidários daquela esquerda que resolve os problemas com a queda do capitalismo. O radicalismo é inerente à própria juventude. Pretendem fazer-nos acreditar na espontaneidade dos movimentos mobilizados através das redes sociais ou fora delas, quer seja pelo direito à habitação, quer seja pela justiça climática, ou qualquer outra que esteja na agenda política de alguns partidos.

Os jovens estão contra tudo e são facilmente mobilizáveis e motivos não lhes faltam. São as alterações climáticas, é a poluição, para a qual as petrolíferas contribuem, é a falta de habitação (em Lisboa, claro!), é a falta de emprego, digno dizem (não de trabalho!). Estão contra os preços dos alimentos e ao mesmo tempo compram gangas e ténis de marcas mais caras. Reivindicam a abolição das propinas e reclamam por mais bolsas de estudo à discrição, mas pagam dezenas ou centenas de euros para ir a concertos. São os transportes que pretendem gratuitos, os aviões poluidores que devem ser abolidos, mas utilizam-nos para viajar para onde bem lhes aprouver. Queixam-se da falta de emprego, mas são contra o capitalismo e contra a exploração pelas empresas privadas, apesar de serem elas que criam emprego e sustentam o país.

Será que esses jovens alguma vez pensaram como viveriam se se viesse a concretizar e a pôr em prática de imediato todas as suas reivindicações? Acaba-se com as petrolíferas e depois? Acaba-se com o capitalismo, e depois? Congelam-se as rendas e depois? Querem viver na cidade? Como? Desalojando os que lá estão ou ocupando casas habitadas para substituírem os inquilinos, ou viverem com eles em comunidade como era na ex-União Soviética? Construir habitações sociais no centro de Lisboa para eles viverem? Onde está o espaço para tal?

São alguns destes, os mesmos jovens, que vemos à noite nos restaurantes, nos bares, nas discotecas, nos concertos, quando os há, nas ruas com garrafas ou copos de cervejas na mão fazendo barulho perturbando o descaço de quem vive nesses bairros e se levanta de manhã para o trabalho.

As “dificuldades” dos jovens são várias como hoje constatei ao fazerem fila para entrarem numa marisqueira das mais caras na Rua da Palma em Lisboa. São os jovens que convencem os pais a pagarem-lhes a carta de condução, e que depois não se dispensam de adquirir um carro como os que vemos estacionados nos parques em volta das universidades onde pretendem que as propinas sejam gratuitas.  

Os movimentos reivindicativos e de protesto, embora muitos deles sejam legítimos e justificados, têm sempre um intento político, e sobretudo partidário, com a pretensão de fazerem passar a mensagem de instabilidade social, das dificuldades de vida e de que tudo está mal para o que contam com o beneplácito dos noticiários e comentários cuja voz se solta a dizer que nada está bem e que tudo está mal!

Se estabelecermos ligações de causa e efeito há uma conjugação de esforços quer de forças à esquerda, quer à direita a quem custou, e custa, estar a “engolir” um regime e uma governação saídos duma maioria absoluta. Assim, tudo serve para criar entropias através de vários tipos de contestação social por vezes fictícios. É a contestação pela contestação, bastou ouvirmos na última manifestação os cânticos e as palavras de ordem da tarde de sábado passado (30 de outubro) onde observavam cartazes com mensagens incluindo frases como “Morte aos ricos”, “Senhorio não é profissão” ou “Turistas, chegou a vossa hora, emigrantes ficam e vocês vão embora!”.

As televisões têm dado visibilidade a um sujeito que montou uma barraca de madeira no Rossio com um placar onde pode ler-se apartamento T0 1800 euros para parodiar o problema da habitação. Pois é, o excesso de procura aumenta os preços da habitação e para esta situação temos o contributo do turismo e da imigração. Veja o caso de haver seis imigrantes ou seis jovens que se juntem à procura cada um de um quarto que se aluga a mais de quinhentos euros se seis alugarem um apartamento com uma renda de 1800 euros eles passam a pagar apenas 300 euros cada e o senhorio fica também a ganhar porque o apartamento pode até valer mais do que mil euros. Portanto, o autor daquela iniciativa de protesto apenas pretende visibilidade televisiva que lhe é concedida e é uma oportunidade para fazer oposição ao governo. 

O populismo só prolifera na mesma medida em que a ignorância e a falta de conhecimento para avaliar as situações também prolifera. Em algumas circunstâncias populismos de diferentes tendências acomodam-se uns aos outros numa espécie de simbiose em que a cooperação pode vir a beneficiar oportunisticamente um dos lados. Foi o caso dos deputados do Chega que estiveram mo meio da manifestação. No meio dos protestos, em Lisboa, deputados do Chega que se misturaram na manifestação onde se encontravam entre outros o Bloco de Esquerda, o PCP e a CGTP tiveram de ser escoltados por polícias e foram forçados a abandonar a manifestação depois de serem chamados de “fascistas”. Segundo a revista Visão «a líder bloquista Mariana Mortágua considerou “natural” a reação dos manifestantes presentes» afirmando que «Parece-me só natural que um partido de extrema-direita que defende a especulação imobiliária e o negócio imobiliário não seja bem recebido numa manifestação pelo direito à habitação». O Observador escreve que «A líder do Bloco de Esquerda, que está presente na manifestação em Lisboa, diz que é “natural que um partido de extrema-direita que defende a especulação imobiliária não seja bem recebido numa manifestação pelo direito à habitação”. Mariana Mortágua diz mesmo que “é muito razoável” e “expectável” a reação dos manifestantes ao Chega, que lembra que é um “partido de extrema-direita que defende interesses imobiliários e os vistos gold».

Na mesma manifestação, manifestantes com a cara tapada atacaram uma imobiliária com tinta vermelha e chegaram a partir vidros com martelos. É esta a juventude que temos e que todos agora defendem. É também por aqui que alguns partidos podem encontrar a mina de ouro que lhe enriqueça os votos.

Recorde-se também o caso da intervenção de uma ativista(?) pelo clima lançou tinta verde sobre o mistro do ambiente. Sobre este caso ouvimos um comentário de Susana Peralta, pessoa que não sei onde se posiciona, tal as análises que ora são para um lado, ora são para outro, numa espécie de cata-vento, o que não significa necessariamente isenção. No passado domingo, no noticiário das 8 na RTP1 Susana Peralta num comentário político que faz com Pedro Norton, afirmou então que não concordou com a atitude da manifestante lançar tinta verde contra o ministro do ambiente e que, em vez disso, poderia antes lançado tinta contra a secretária ou para o chão, foram mais ou menos estas as palavras. Pois claro, procedeu à validação deste tipo de comportamentos. Afirmou ainda que vivemos numa “gerontocracia”, isto porque falava das justas reivindicações dos jovens.

A vida é tão complexa que nos tem mostrado que nem o poder nem a estupidez têm idade. A questão se coloca é a de saber se a gestão do Estado justificaria uma mudança geracional, sangue novo, como dizem por aí alguns, para canalizar o país para reformas que dizem ser imprescindíveis. Para os que acham que a juventocracia poderá ser uma opção melhor do que a gerontocracia, o melhor é pensarem porque, uma vez instalada no poder, os membros dessa nova elite política e intelectual e esses líderes ditos revolucionários tornam-se a geração tampão que acaba por bloquear o resto do caminho aos que vieram e aos que virão detrás.

Um rápido relance pelos órgãos de comunicação social ao longo dos tempos mostra-nos que na nossa civilização que é o que, afinal, constitui o aspeto técnico e material da nossa cultura gera novos valores centrados no ideal do eu, do egocentrismo: é preciso ser jovem, bonito, rico, feliz; não se fala mais de velhice, isso não merece uma particular atenção. Existem ainda muito poucos jornais, moda, programas de rádio ou canais de televisão dedicados aos idosos. Veja-se a publicidade dirigidas aos jovens sugerindo-lhes comportamentos consumistas que, afinal, causam problemas ambientais sem precedentes, que os jovens relegam para segundo plano.

A sociedade parece aspirar por jovens empreendedores, jovens médicos, jovens professores, jovens ministros, jovens pesquisadores, etc. A essa juventocracia acrescenta-se o “tratar por tu” generalizado pela publicidade dos anúncios televisivos e dos sites da internet que, para algumas pessoas, tornou-se um pesadelo. O importante para a eficácia profissional não é quantos anos um sujeito tem, mas o que ele sabe. Parece que o maior mérito é o certificado pelo (CC) Cartão de Cidadão.