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Educação ou má educação. Eis a questão!

Fundamentando uma opinião

por Manuel_AR, em 27.01.21

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A leitura de um artigo de opinião que Henrique Raposo escreveu para o semanário Expresso sobre má educação levou-me a refletir um pouco e a esboçar a minha sobre o tema que o autor aborda. Antes, porém, devo dizer que concordo com a maior parte do que o autor escreveu, mas situemo-nos em primeiro lugar nos conceitos de educação que, neste contexto, entendo deverem ser esclarecidos.

Entende-se por educação o conjunto dos princípios, valores e normas de conduta socialmente transmitidas que estruturam a personalidade de um sujeito. Não confundamos com outro conceito de educação que é o processo educativo formal sob a forma de escolarização, isto é, de instrução em ambientes educativos especializados onde as pessoas passam alguns anos da sua vida.

Há quem pense que a má ou a boa educação terá a ver com a classe social...

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onde cada um foi ou está a ser educado, mas a ideia de boa educação é transversal às diferentes classes sociais. Não é a pobreza ou a riqueza que determinam a boa ou a má educação em sentido não formal. Como iremos ver adiante há variáveis que influenciam o sentido da má e da boa educação.

A indisciplina pode traduzir-se em má educação. Mas o que devemos entender por indisciplina? A indisciplina depende do ponto de vista e dos contextos sob a forma em que ela se manifesta, mas de maneira geral é a transgressão de dois tipos de regras. A primeira são as morais, construídas socialmente com base em normas que regulam o universo da relação com os outros numa sociedade. O segundo tipo são as chamadas regras convencionais, geralmente aceites, definidas por um grupo restrito ou mais vasto com objetivos específicos. Entendo, assim, que ser disciplinado é comportar-se seguindo as regras sociais e morais, para alcançar algum objetivo e/ou resultado. Quando a má educação ultrapassa certos limites pende para a indisciplina.

Para os mais jovens a boa educação parece ter passado a ser algo que pertence ao passado qualquer coisa a que ainda se agarram os “cotas” - designação dada por adolescentes a pessoas mais velhas, e os “caretas” – alguém com grande apego aos padrões tradicionais.

A reboque de um alegado conflito ou desacordo geracional e de uma alegada autonomização em relação a normas convencionais começou a desenvolver-se um processo de degeneração da própria linguagem popular transformando-a numa espécie de linguajar e numa forma de falar livre ligada a uma classe e a alguns grupos urbanos.

Quando ouvimos reparos como “não sabemos o que eles andam a fazer na escola” ou “os professores é que têm a culpa do estado a que a isto chegou” está a confundir-se educação em termos de aprendizagem formal com os valores e com as condutas sociais que, de certo modo, são geralmente transmitidos em ambiente familiar ou em grupos de proximidade.

No referido artigo Henrique Raposo afirma que “hoje em dia, é quase impossível estar com as pessoas da minha infância sem ouvir a metralha do asneiredo”. E acrescenta, que “quando exijo tino, dizem-me assim: “Lá estás tu com a mania que és doutor.” A minha resposta é sempre a mesma: “Se eu dissesse um palavrão ao pé da avó, da tia ou da minha mãe, levava na hora uma estalada.” Haverá que perguntar quem não concorda com isto? Maioritariamente todos, digo eu!

Henrique Raposo terá hoje aproximadamente 41 anos, nasceu seis anos após o 25 de Abril de 1974, já no pós-revolução. Os seus pais terão vivido a maior parte da sua vida durante o regime da ditadura de Salazar e Caetano. Não admira, portanto, que a “estalada” viesse a propósito e bem aplicada. Fazia parte dos “modelos educativos” então em vigor inclusivamente no ensino formal, sobretudo na instrução primária, onde a palmatória ou a “menina de cinco olhos” estava sempre de prevenção.

Recordo-me bem dos métodos de aprendizagem desses tempos. Estávamos nos anos 50 quando os meus pais tiveram de me retirar da escola onde frequentava a instrução primária e em que o mau comportamento, a falta de trabalhos de casa e os erros cometidos, normais a qualquer aprendizagem, eram compensados pelo castigo corporal com a tal palmatória. Este tipo de violência cometido pelos professores sobre os alunos era frequente, mesmo nas escolas públicas e privadas, com a condescendência do ministério da tutela. Foi de tal forma que me retiraram daquela escola para outra cujos métodos eram o oposto. Lá consegui tirar a quarta classe e a antiga admissão ao liceu e matriculam-me a seguir no conhecido Colégio São João de Brito, na altura gerido na íntegra pela Companhia de Jesus em que os maus comportamentos e as irreverências desajustadas conduziam à abertura das palmas das mãos punidas pelo “prefeito jesuíta” em número de palmatoadas consoante a gravidade da má-criação ou ato praticado.   

Eram outros tempos, outras épocas, outros métodos pedagógicos que a Revolução de Abril veio eliminar substituindo-os por outros determinados por práticas e investigações que vieram melhorar o ensino e a aprendizagem. Como não há bela sem senão, os excessos revolucionários o “boom” da liberdade e a obsessão de tudo mudar a todo e qualquer custo, por vezes com critérios ideológicos cujos fins eram claramente calculados, contestava-se qualquer autoridade, até a dos próprios professores nas escolas, sem as prudentes cautelas. Pedia-se publicamente o desmantelamento de estruturas políticas autoritárias, defendia-se a democratização das instituições sociais, culturais e educativas.

Na educação informal os nossos valores são sustentados pelo que vivenciamos no seio familiar e, por esse motivo, os filhos começam a tornar-se parecidos com os pais na convivência diária. A tendência é que os jovens, desde criança, reproduzam o que observam e o que lhes é transmitido no dia a dia das suas vidas. O problema parece não estar na rebeldia do filho, mas sim nos pais que não souberam impor a sua autoridade enquanto educadores e manifestaram atitudes e comportamentos grosseiros e inadequados diante dos filhos.

A má educação e a indisciplina na escola e na sala de aula e fora dela é encarada por muitos investigadores como tendo origem na sociedade ou no grupo social através do qual o jovem aluno é arrastado a reproduzir comportamentos e atitudes experienciados.

As crianças copiam principalmente as atitudes e comportamentos dos pais e a própria linguagem utilizada em família ou dos grupos a que se associam.  Não se trata de um padrão absoluto, pois depende também do tipo de relação entre pais e filhos. Trata-se de uma aprendizagem social por imitação, ou vicariante, teoria desenvolvida por Albert Bandura (Teoria da Aprendizagem Social, Social Learning Theory e Social Foundations of Thought and Action). Na aprendizagem por modelação todos os fenómenos que ocorrem por meio da experiência podem ocorrer de forma vicariante, isto é, pela observação de outras pessoas e das consequências daí resultantes.

Todos os dias ouvimos pais a pedir ajuda para lidarem com a má educação e mau comportamento dos seus filhos ou educandos. Do mesmo modo professores queixam-se de que existem cada vez mais alunos indisciplinados que desafiam a autoridade do adulto no contexto escolar e familiar. O ponto de convergência está na dificuldade que as crianças e jovens têm em acatar ordens e em obedecerem a regras, ou seja, em saber estar.

O rápido salto de uma ditadura, com regras severamente impostas, para uma democracia “apressada” e com a instabilidade daí decorrente, associado aos procedimentos de um povo ansioso pela liberdade de expressão e de pensamento conduziu à rebeldia manifestada e induzida pela aquisição de mais direitos sociais e contra a exploração, extravasou e substituiu antigos valores por outros que passaram a ser mais importantes do que os deveres, o que consequentemente se refletiu na educação.

A implementação da gestão democrática nas escolas com a participação dos encarregados de educação que sobrevalorizando os seus educandos e exercendo pressões sobre os diversos poderes, condicionou, e pôs em causa, a autoridade dos órgãos diretivos das escolas e dos professores dentro e fora da sala de aula.  Tudo isto gerou abusos e atropelos devido ao protecionismo complacente dos ministérios tutelados pelos governos dos partidos frequentadores do poder cujas políticas educativas têm mais de ideológico-partidário do que de pedagógicas.

Os professores encontram-se assim no olho do furacão passando mais tempo a manter a disciplina do que a lecionar o conteúdo dos programas no seu exercício. Encontram-se por um lado na condição de educadores e, por outro, de agentes de ensino/aprendizagem.

Um dos grandes desafios dos educadores e dos professores na atualidade é o de resolver o problema da indisciplina associada à má educação dos alunos no espaço escolar e dentro da sala de aula, e fora dela. Esta situação não é um problema exclusivo das escolas públicas, é também das privadas e ultrapassa as fronteiras das escolas portuguesas.

A quem compete uma e outra? Uma deveria essencialmente competir à família, a outra à escola que pode e deve complementar a primeira que é indispensável. As famílias parecem ter abdicado da educação dos seus filhos ou educandos.

No dizer de Henrique Raposo “Os pobres estão a ficar cada vez mais pobres e menos instruídos porque criou-se a ideia perversa de que a boa educação é coisa de betinhos.” Parece-me que fazer depender a pobreza e o seu aumento da falta de boa educação parece-me ser arrevesado.

A má educação não está desassociada da indisciplina nas escolas que não podem ser atribuídas apenas aos jovens enquanto pessoas. A formação do sujeito é também fruto do meio / sociedade de onde ele procede. Desde a fase de tenra idade a pessoa é influenciada pela sociedade e pelo ambiente, cabendo a maior parte desta influência à responsabilidade parental, visto que os pais são os principais responsáveis ​​pelo cuidar dos seus filhos ou educandos. A estrutura e as organizações familiares contemporâneas são um dos fatores que interfere no comportamento dos educandos na escola, e fora dela, o que está a refletir-se no modo de encarar a educação não formal já que muitos pais tentam transferir para a escola a tarefa e a responsabilidade de educar os seus filhos.

Quando uma criança não é ensinada a mostrar boa educação e a ser disciplinada, a possibilidade de essa criança vir a ser mal-educada é muito alta, assim como é muito fácil para uma criança copiar as atitudes dos pais ou responsáveis educativos, especialmente quando essas atitudes são contra as normas e valores da sociedade.

Quando desde tenra idade a convivência se processa em ambientes sem limites, regras e princípios e onde tudo é permitido, transformar-se-ão em sujeitos que não obedecerão a regras, não terão limites em casa, na escola ou em qualquer grupo em que conviva. Passarão a acreditar que todas as suas vontades deverão serão atendidas, tornando-se assim em alguém incapaz de conviver em sociedade. Este tipo de atitude dificultará a sua adaptação e à aceitação dentro de grupos sociais.

Os alunos que não aceitam e nem compreendem a importância e a necessidade das regras sociais, não conseguirão adaptar-se às regras e normas impostas pela escola, apresentando atitudes indisciplinadas e algumas vezes afastando-se das instituições educacionais, pois para esses educandos é mais fácil viver sem algo que restrinja suas ações.

 Algumas das causas da má educação e de indisciplina nas instituições escolares são: perda de respeito pelos professores; falta de ideais; prática educacional defeituosa no ambiente familiar; desvalorização progressiva do valor e importância da escola pelos pais; crises económicas e financeiras gerais ou familiares e consequente pobreza. Estes São os fatores externos a interferir nos atos de indisciplina na escola.

Se efetuarmos, portanto,  uma pesquisa rigorosa sobre o tema não restarão dúvidas que a má educação que leva à indisciplina dos educandos é um problema social, onde as atitudes dos alunos estão diretamente ligadas às influências do meio em que vivem. Acresce o facto de que o mesmo aluno que é disciplinado com um professor pode ser indisciplinado com outro tornando assim a questão muito mais complexa.

A má educação e a indisciplina traduzem-se numa perda do respeito ao nível familiar e pelos professores que não se verificava no passado com a mesma intensidade onde sistemas mais ou menos totalitários dominavam e onde atualmente ainda dominam em alguns países.

Durante a revolução do 25 de Abril alguns movimentos de partidos e políticos influenciaram com algum exagero o sentimento dos alunos encorajando-os a participar ativamente da revolução. Do meu ponto de vista os professores não puderam ter uma participação idêntica devido às perturbações então vividas nas escolas, e em certa medida como resultado perderam a consideração e o respeito dos alunos.

Uma das causas poderá ter sido a “deslocação do poder do Ministério da Educação para as escolas, dos diretores das escolas e do corpo docente tradicional para os professores progressistas e para o corpo estudantil”[1]. Para Stoer, sociólogo português com trabalhos na área da Sociologia da Educação, a “ocupação” das escolas não foi operada por iniciativa do poder político ou da administração central, na base de qualquer projeto consistente de descentralização. Não se tratou, sequer, de uma delegação de poderes, e menos ainda de uma devolução, mesmo que transitória. Tratou-se, isso sim, de uma deslocação de facto, de uma “imposição da periferia e da base do sistema” que se apropriou progressivamente de poderes e ensaiada na prática, através de processos de democracia direta. Aprendendo a decidir, decidindo, e através da decisão alcançando a autonomia. Do meu ponto de vista talvez tenha sido o que poderá ter levado os alunos ao desrespeito pelos professores numa lógica de que todos estavam no mesmo barco e somos “todos iguais em direitos”.

O que ocorreu, em termos de implantação da gestão democrática das escolas, foi uma decisão, que exerceu uma autonomia não concedida, mas antes conquistada pela ação dita revolucionária dos movimentos da época.

Algumas opiniões para que “um dos grandes feitos do 25 de Abril foi precisamente o de permitir que cada macaco não esteja no seu galho. A liberdade deu lugar à libertinagem. O professor passou a ser o mau da fita” para o que todos os partidos contribuíram e continuam a contribuir para isso.

Mas a indisciplina começa quando a falta de educação e ausência de princípios acabam. A importância da participação ativa da família com a escola tem sido alvo de diversos estudos, tendo em conta fatores como o comportamento dos alunos em sala de aula e os problemas de adaptação. De uma maneira geral o que se verifica é que na família não se impõem regras e limites aos filhos, e até porque ela própria muitas vezes não as têm ou não as praticam.

O que está em discussão é saber se a má educação e a indisciplina a ela associada refletem a importância que a sociedade lhes atribui. Em primeiro lugar, a disciplinas na escola está expressa nas várias perspetivas e posições mais ou menos instaladas em torno de ideologias ou escalas de valores que são conflituantes.

Como a maior ênfase é dada aos exames os professores ensinam apenas para preparar os alunos para aquelas provas colocando de lado os ideais e valores da boa educação. A disciplina e a boa educação são valores sociais muito importantes, porém, há crianças e jovens que convivem num meio ou grupo onde essas regras não existem ou não são consideradas.

As deficiências de nosso atual sistema educacional proveniente dos primeiros 20 a 30 anos afetaram todo o sistema e os professores estiveram, e ainda estão, expostos a críticas, por vezes infundadas, e a interferências externas ao espaço pedagógico da escola o que afetou o seu status ficando sujeitos a ter contacto mais direto, e quase permanente, com a sociedade, sobretudo pais, contestação de alunos e ainda de outros agentes que não fazem parte do domínio pedagógico. As pessoas passaram a respeitar menos esta profissão. Os próprios professores não raras vezes devido aos sindicatos que apenas se centram e os movimentam em torno de reivindicações principalmente no que se refere as remunerações salariais, acabando por ignorar imperativos inerentes exercício da sua função.

No período da revolução solicitava-se pela intervenção de algumas forças políticas a não seguir leis e regras que consideravam serem do passado, da ditadura consideradas impróprias, tornando-se difícil diferenciar entre as leis certas e as erradas. Quando os alunos desenvolvem o hábito de violar algumas regras básicas da boa convivência e educação também desenvolvem o hábito de violar todos os tipos de leis. O principal motivo da indisciplina entre as crianças e jovens reside neste facto. Ao longo dos anos buscam-se causas, como se fosse uma doença para a qual, ao ser diagnosticada será encontrada a cura, mas o tratamento quando diagnosticada a doença demorará anos a prevalecer até ser vencida.

Tratando da dimensão ideológica do currículo para a teoria curricular o conhecimento presente no currículo serve a legitimação e o desenvolvimento da ordem social e democrática enquanto uma construção social. Dessa forma, a linguagem, metodologias, conteúdos e os códigos culturais modelam a perceção e o modo de compreensão dos alunos, sendo marcado pelas relações de poder decorrentes de opções ideológicas e de posições hegemónicas de diferentes grupos de interesses.[2]

Henrique Raposo com algum assomo sectário aponta o dedo a um dos alvos que contribuiu para os desmandos da má educação atual que, segundo ele, foram os “gurus pós-modernos” como Pierre Bourdieu e outros que “impuseram a ideia errada de que a “boa educação era uma prisão burguesa que aprisionava o povo; criou-se assim a perceção de que o decoro não é um valor universal, mas sim um tique dos ricos”.

Henrique Raposo conforme depreendo da leitura dos artigos que acompanho, sempre que posso, será tendencialmente um neoliberal ou um liberal o que poderá justificar algum sectarismo ideológico ao referir-se a Bourdieu, sociólogo e filósofo francês cujo pensamento se baseia em fontes que se estendem ao marxismo e ao diálogo intelectual com contemporâneos, como Althusser, Habermas e Foucault também eles de influência marxista.

O pensamento de Bourdieu leva, por vezes, por aceitações por alguns e a outros a rejeições precipitadas do seu pensamento filosófico e sociológico. As avaliações levadas pela emoção conduzidas por sectarismos ideológicos de esquerda, ou de direita, não contribuem para uma compreensão da obra no âmbito da sociologia da educação que nada têm a ver com o que Henrique Raposo afirma, generalizando: “Criou-se assim a perceção de que o decoro não é um valor universal, mas sim um tique dos ricos.” O pensamento filosófico marxista passou a ser um preconceito de setores da direita e de alguma esquerda moderada.

Henrique Raposo ao atribuir a culpa a Bourdieu pelo conceito de “boa educação” que é uma clausura/prisão devida à burguesia parece-me ser, de certo modo, deturpada quanto ao objetivo original do seu autor. Tomou o particular pelo geral, descuidando o contexto em que tal afirmação foi expressa, isto é, a boa educação é afinal uma questão “chunga” inventada pela burguesia como diz Raposo.

O que Bourdieu refere diz respeito à educação formal que é facultada pelos currículos escolares e projetos escolares que Bourdieu, de facto numa perspetiva marxista de domínio classista, afirma ser um ensino dito burguês numa perspetiva de formação tendencialmente economicista para a competição, que é atribuída à educação.

Henrique Raposo sabe, com certeza e muito bem, que toda a política educacional contém intencionalidade, valores, ideias e orientações, que se estendem pelas escolas atuando decisivamente na prática pedagógica, e, consequentemente, à construção de perfis dos cidadãos desejado pelo Estado. Todas as políticas educativas são desenhadas ideologicamente, vimos isso em todos os regimes, dos democráticos aos totalitários sejam de que sinal forem.

De facto, a educação sempre serviu para responder aos interesses das classes dominantes, (isto é, da sociedade organizada em estratos socioeconómicos, profissionais e religiosos), e   do   mercado, e, nesse   sentido, as   camadas   populares, cujos filhos frequentam o sistema de educação pública, foram   sempre desfavorecidas em comparação com o ensino privado, embora a má educação seja mais frequente no primeiro. Esta não deve ser encarada como sinónimo de interpretação de perspetiva marxista, ela deve interpretar-se consoante as ideologias dos poderes que em cada altura controlam os Estados.

 
   


Se nos situarmos em dois momentos marcantes da nossa história recente deparamo-nos com diferenças entre dois modelos educativos e curriculares: um ao tempo do Estado Novo e outro no pós-revolução do 25 de abril, podendo este ser dividido em dois ou três momentos.

O Estado Novo recorria às escolas primárias para comunicar com as populações e para difundir a imagem e a “herança da Nação Portuguesa”. A escola era responsável pelo desenvolvimento de ações conducentes à criação de vínculos entre as crianças e a Nação[3]. Para tal, recorria a referenciais simbólicos como a bandeira e o hino nacional, por forma a promover a construção da identidade nacional. Basta darmos uma olhadela aos manuais de leitura da instrução primária para o constatarmos.

 Nas escolas do Estado Novo, afixados nas salas de aula a fotografia de Salazar estava sempre presente ao lado de um crucifixo. Eram fábricas de cidadãos nacionais obedientes e bem-educados e “Nos bancos das escolas, aprenderam os rudimentos de geografia e de história necessários para adquirir algo como uma consciência nacional. A identificação de certos símbolos – hino, bandeira, instituições, figuras, monumentos, etc. – é outro aspeto importante desse processo de formação cívica que só na época contemporânea mereceu uma atenção sistemática por parte dos responsáveis políticos.” [4]

A escola primária era um dos principais agentes ideológicos do regime que utilizava os currículos escolares para mentalização ideológica. Era uma imagem distorcida da realidade, marcada pela existência de um regimento autoritário e por um líder a quem se exigia total obediência. O modelo de comportamento do chefe era o exemplo e devia ser assimilado e seguido pelo povo, porque só assim se poderiam formar novas gerações educadas no espírito do amor e da defesa da Pátria Salazar era tomando como o exemplo do português modesto e trabalhador, pronto a sacrificar-se pela Pátria.

O aparelho ideológico do Estado Novo, consciente desta questão, formulará e difundirá, nomeadamente através da criação do Secretariado de Propaganda Nacional em 1933, um programa de política do espírito.[5]

Apesar de na chamada primavera marcelista algumas alterações e revisões terem sido submetidas a modificações nos currículos educativos, só após a queda do regime se procedeu a alterações profundas que se executaram desta vez numa orientação ideológica de esquerda de tendência pró-marxista que se prolongou por alguns anos.   

Portanto, voltando a Bourdieu, e em síntese, o significado de a “boa educação” ser uma “prisão burguesa” este autor referia-se, no ano em que o escreveu, às políticas e orientações educativas associadas à ideologia dominante sinalizadas pelos Estados através dos currículos educativos e à orientação educativa das escolas que as aplicavam.

No início deste texto referi dois conceitos de educação, a instrucional e a formativa: a que é fornecida pelas escolas em função de cada projeto educativo o outro que se refere ao conjunto dos princípios, valores e normas de conduta socialmente transmitidas em que a família está incluída. Parece-me ser ao âmbito da educação formal que Bourdieu refere. Este caracteriza-se por ser estruturada e desenvolvida no ambiente de instituições como escolas e universidades onde o aluno deve seguir um programa pré-determinado e, mais importante ainda é idêntico ao dos outros alunos que frequentam a mesma instituição.

A educação não formal processa-se fora da esfera escolar e é veiculada através de meios de comunicação e outras instituições desenvolvendo-se, assim, de acordo com os desejos do indivíduo, ocorrendo de forma espontânea na vida do dia-a-dia através de conversas e vivências com familiares, amigos, colegas e interlocutores ocasionais.

De facto, para Bourdieu, a educação formal perde o papel que ao longo do tempo lhe é atribuído pela instância transformadora e democratizadora das sociedades e passa a ser vista como uma das principais instituições por meio da qual se mantêm e se legitimam os privilégios sociais em sentido lato. Trata-se, portanto, de uma inversão total de perspetiva encarada por Henrique Raposo. Bourdieu oferece apenas um novo quadro teórico para a análise da educação, dentro do qual os dados estatísticos acumulados a partir dos anos 50 e a crise de confiança no sistema de ensino vivenciada nos anos 60 ganharam uma nova interpretação.

Termino com uma citação de Henrique Raposo: “Quem não percebe isto não percebe nada. Não percebe, por exemplo, porque é que os políticos abertamente mal-educados como Trump e Ventura recolhem os votos do tal povo deseducado por três décadas de pós-modernismo à Bourdieu e à Jon Stewart. Tão modernos que eles são: fazem rir a malta porque dizem fuck três vezes num minuto. Tão sofisticados, meu Deus!”.

Concordo, mas, por favor, não se culpe Bourdie. Quanto a Jon Stuart não sei, só conheço Stuart Mill e Stuart Hall[6] e, mesmo assim, este último, mal.

____________________________

[1] (Soer, Stephen R. ; 1985 - A Revolução de Abril e o sindicalismo dos professores em Portugal. Cadernos de Ciências Sociais, 3, p. 61-83 e p.67

[2] APPLE, Michael W. Ideologia e currículo. Porto Alegre, ARTMED, 2006. p. 288

[3]Consultar Jorge Ramos do Ó, 1999, Os anos de Ferro, o dispositivo cultural durante a “Política do Espírito” 1933-1949; pp. 55-59, citado em A Escola Portuguesa ao serviço do Estado Novo: as Lições de História de Portugal do Boletim do Ensino Primário Oficial e o Projeto Ideológico do Salazarismo; Maria Paula Pereira, U. Aberta; Revista Da Investigação às Práticas: Estudos de Natureza Educacional (INVEP), publicação do Centro Interdisciplinar de Estudos Educacionais (CIED) da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Lisboa.

[4] João, M. I.; 2001. Estado, Nação e Região; Arquipélago-Revista da Universidade dos Açores,5, 689-702. Maria Isabel João, Professora da Universidade Aberta.

[5] Idem

[6] Professor de sociologia jamaicano que viveu no Reino Unido, um dos defensores do multiculturalismo.

 

 

 

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