Como eu gosto de ser emocionalmente instrumentalizado!

A instrumentalização em política é o uso de pessoas, grupos de pessoas duma sociedade para atingir determinados fins e está ligada a emoções, sentimentos, atitudes e comportamentos inerentes ao ser humano que variam em função da cultura, família, etnia, entre outros.
A atitude política tem uma componente afetiva e é uma resposta emotiva face a determinado acontecimento social, pessoa, seja ela política, ou não, e apresenta-se sob a forma de ideia favorável ou desfavorável em relação a essa pessoa ou acontecimento e pode ter uma componente que se costuma confundir com afeto, emoção e sentimento. Os três conceitos referem-se ao que sentimos, mas distinguem-se pelo modo como são expressos.
Como podemos associar estes sentimentos a tomadas de decisões eleitorais. Os comportamentos eleitorais são ações e decisões de indivíduos ou grupos durante um determinado período que se revelam como votamos, porque apoiamos determinados candidatos ou partidos e por que os apoiamos e sobre os quais somos afetados pelas influências que moldam as nossas escolhas.
Há vários estudos publicados sobre o comportamento eleitoral dos eleitores como por exemplo “Emoções e Comportamento Eleitoral em Portugal” de José Manuel Rivera Otero, Nieves Lagares Diez, Erika Jaráiz Gulías, Patrício Costaé publicado em novembro de 2025, edição do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa que coloca as emoções no centro da explicação do comportamento político e eleitoral em Portugal. É crucial para entender a dinâmica da participação e da representação política, pois revela padrões no envolvimento dos eleitores e os fatores subjacentes que impulsionam os resultados eleitorais.
A atitude eleitoral é complexa porque faz também parte dum conjunto complexo de sentimentos, crenças e disposições individuais que os eleitores têm em relação à política, aos partidos e aos candidatos que ajudam a moldar o seu comportamento e a escolha do voto. Estas escolhas são muitas vezes enraizadas por fatores psicológicos, identidade social, confiança, ou até lealdade partidária, tradições culturais que funcionam como um atalho para a tomada de decisões.
Contudo, em política não existem apenas lógica, racionalidade e ideologia, há também outros aspetos emocionais usados como estímulos pelos políticos consoante os objetivos, as pessoas ou grupos sociais, tendo em vista motivar atitudes políticas e eleitorais.
Durante as campanhas muitos políticos utilizam as emoções dos potenciais eleitores como ferramenta de mobilização. Frequentemente constroem e manipulam emoções de forma estratégica, utilizando discursos, imagens e narrativas para incitar sentimentos como o medo, raiva, compaixão ou orgulho nacional. Essas emoções podem ser usadas não apenas para fortalecer a coesão social, mas também para legitimarem decisões políticas ou mobilizar a população em torno de causas específicas. Por exemplo, imagens de tragédias ou discursos de vitimização são frequentemente empregues para gerar empatia e apoio, veja-se o caso do Primeiro-Ministro Luís Montenegro que, mais do que uma vez, usou essa estratégia com sucesso, nomeadamente aquando da apresentação de uma moção de confiança ao Parlamento sobre o caso Spinumviva.
Mas, temos ainda visitas de candidatos a locais religiosos que têm grande impacto na religiosidade das populações tal como fez Marques Mendes durante a sua visita a Fátima onde se deixou fotografar junto a imagens religiosas. A hipocrisia parece estar validada nos políticos e na política. O uso da família para obter vantagem eleitoral tem sido para Marques Mendes, comentador- mor, um ato de propaganda eleitoral. Em Leiria, durante um almoço com empresários, Sofia Marques Mendes, mulher do candidato presidencial, subiu ao púlpito para uma declaração de amor: “Todos os dias consegues surpreender com a tua generosidade e sentido de missão.” “Amo-te”, declarou em frente a todos os convidados.
Mas esta participação na campanha não ficou por aqui. Segundo o jornal Público, numa breve mensagem que leu do telemóvel, Sofia Marques Mendes começou por referir que gosta de “passar despercebida”, mas que desde a primeira hora não podia “ser egoísta” e decidiu estar “fisicamente” ao lado do candidato durante a campanha e “mostrar publicamente o orgulho” que tem nele. E mete ao barulho o resto da família dizendo que “realmente sente” que Luís Marques Mendes é a “pessoa mais certa” para o cargo de Presidente da República, “pelos filhos e netos de todos nós”. De resto, o neto mais novo do candidato, de apenas um mês, esteve presente na iniciativa.
Este é um exemplo de como o provocar emoções pode desempenhar um papel central e multifacetado na política influenciando a formação de atitudes e opiniões públicas, a mobilização coletiva e a legitimação de políticas. O uso das emoções passou a ser reconhecidas como elementos fundamentais para compreender a estrutura para a chegada ao poder.
As emoções estão intimamente ligadas à polarização partidária e à formação de identidades políticas. Sentimentos como raiva, medo e ansiedade podem ser usados como incentivos para angariação política, mas também para o aumento da intolerância e da divisão social. A combinação de várias emoções em torno de um evento ou numa narrativa de campanha eleitoral é frequentemente utilizado para criar identidades políticas e mobilizar massas.
Escândalos, discursos emocionais e imagens que tenham impacto são usados para influenciar a opinião pública e direcionar o debate político, assim como o uso estratégico das emoções pela comunicação social tanto pode fortalecer como enfraquecer a confiança nas instituições e nos próprios meios de comunicação. Veja o caso da estratégia de André Ventura do partido “Chega”.