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Quem tiver a disponibilidade e a paciência para ver e ouvir os comentadores políticos, analistas de economia e um novo grupo, a que alguns “pivots” da televisão resolveram dar o pomposo nome de “senadores”, que proliferam pelos vários canais de televisão, poderá, facilmente, tirar algumas conclusões. A primeira é que, todos eles, quase sempre os mesmos, pertencentes ou simpatizantes de uma determinada ala político-partidária, tecem de cima da sua cátedra,  sapiência sobre as medidas que se tomaram e que se devem ou não tomar.


Como se tem reparado, este jogo de xadrez de comentadores está à partida viciado. Porquê? Porque, salvo raras exceções, são conhecidos militantes de topo dos partidos atualmente no governo, pelo que, estamos no direito, de em princípio pôr em causa a sua isenção. Claro que mau seria que por vezes não fizessem críticas ao executivo em pontos demasiado evidentes. Mas se num dia o fazem noutro dia apontam logo no sentido contrário.


Quando se referem, por exemplo, à necessidades de mais austeridade, aos cortes de subsídios e de pensões, aos cortes na saúde e na educação como soluções inevitáveis, medidas que afetam a maior parte das populações, podemos pensar, e o pensamento ainda é livre, que se estão a defender a eles próprios porque sabem que ficarão em certa medida salvaguardados e, por isso, os “outros” que somos nós, o povaréu, como alguns já chamaram, que paguem a crise.


Se nos dermos ao trabalho de pesquisar quem é esta elite de comentadores, facilmente chegaremos à conclusão de que estão todos bem instalados, sem preocupações de desemprego, com remunerações mensais que ultrapassam em muito as dezenas de milhares de euros mensais, e a saúde e as reformas estão mais do que garantidas. Poderá dizer-se que eles também são afetados pelos impostos, pois também era o que mais faltava! Mas, como todos sabemos, há sempre formas de minimizar esse efeito, coisa que qualquer vulgar trabalhador por conta de outrem, que recebe o seu salário mais do que controlado, não consegue.


Coloquemos como hipótese que um de nós concorria a um emprego, éramos selecionados e a proposta contratual remuneratória era a seguinte: um valor base de remuneração que seria 1000€, com direito a viatura própria, pagamento mensal de gasolina pela empresa, pagamento de parte da habitação própria através de despesas, cartão de crédito da empresa com permissão de despesas pessoais, seguro de saúde pago pela empresa, entre outras regalias. Vejamos agora qual seria o valor que iria declarar para o IRS. Fazendo as contas teríamos 1000€X14 meses seria igual a 14000€ anuais e seria isso que declarava como rendimento. Comparemos agora com outro trabalhador que recebia também e apenas um salário mensal dos mesmos 1000€ sem quaisquer outras regalias. A sua declaração para o IRS seria 14000€ de rendimento anual. Para bom entendedor meia palavra basta. O que está em causa é a facilidade com que alguns e não tão poucos como se pensa, contornam os impostos.


Também não está em causa o valor salarial recebido que pode ser maior ou menor pois tem que ser de acordo com a sua formação, responsabilidades, experiência profissional, grau de exposição pública, etc., etc.. Um administrador de uma grande empresa ou um governante têm que ser bem remunerados, pois que ninguém aceitaria um ordenado, por exemplo, de 1000€ mais ajudas de custo para ter determinada responsabilidade, preocupações e o ritmo de trabalho que se lhe exige. A grande vantagem não está apenas na remuneração, mas nas portas que se lhe abrem, posteriormente, para o domínio privado. São contra o aumento de impostos mas, por outro lado, defendem a austeridade ma para os “outros”, porque da austeridade estão mais ou menos a salvo.


Ainda em 30 de outubro deste ano pudemos ouvir um banqueiro defender publicamente que ainda há espaço para mais austeridade e, comparando Portugal com a Grécia dizia que lá fazem umas revoluções, “partem umas montras”, mas “lá continuam vivos”. Que conclusões se podem tirar destas afirmações? Que interesses poderão existir por detrás delas ao apoiar o orçamento? Que interesses estarão em jogo? Que promessas terão sido feitas à banca? Perante as afirmações do referido senhor banqueiro, se tivesse dinheiro em tal banco correria a tirá-lo de lá nem que, para isso, tivesse de sacrificar os juros.


Não sou contra os bancos, longe disso. Que se deve tentar baixar o défice e diminuir a despesa e que para isso deva haver austeridade é um facto, contudo há limites.


Os bancos estão a ganhar com a dívida pública. Estão a financiar-se junto do banco central europeu a uma taxa baixíssima, cerca de 0,75%, e estão a emprestá-lo ao estado português a 7% ou 8%. Que grande negócio está a ser a nossa dívida.


Portugal perdeu a sua soberania face à Alemanha e tenta uma aproximação ao nível da educação e, internamente, o Estado perdeu a autoridade face aos grandes grupos financeiros que o controlam e dele tentam obter o maisque podem. Ainda esta tarde foi divulgada uma notícia pelo Correio da Manhã de que Nuno Crato “assinou um memorando de entendimento com a Alemanha para a cooperação na área do ensino profissional”.



Podem dizer que este é m texto populista e demagógico, talvez, mas não digam que não é realista.

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publicado às 20:29


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