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Cavalgando as ondas

por Manuel_AR, em 17.01.14

 



 


Todos os partidos se treinaram para o surf político da conveniência. Uns mais do que outros têm uma tendência para cavalgar ondas quando isso lhes interessa. A estratégia da comunicação do PSD e do CDS são o caso acabado do que afirmo. No início desta semana cavalgavam a onda do sucesso da colocação no mercado títulos de dívida pública a taxas de juros mais baixas e os porta-vozes dos partidos e do Governo lançam-se para o topo da onda autoelogiando o trabalho que foi feito e que, por isso, os juros foram em quase todos os prazos os mais baixos desde Agosto de 2010. O que nunca dizem é que essa descida não foi resultado das notas por o Governo ser bom aluno porque para os maus alunos como dizem ser a Grécia os juros também desceram.


 


Ainda estavam do topo da onda quando, por azar hoje mesmo, os juros da dívida de Portugal a cinco anos sobem. Não nos convencem que estas oscilações, nomeadamente a baixa de juros, têm a ver com as boas medidas tomadas pelo Governo (quais?). A tendência na zona euro é para o alívio dos riscos em quase todos os países como se verifica, por exemplo, em dois casos extremos como o da Irlanda e o da Alemanha.


 


Outra onda que gostam de cavalgar é a da recuperação económica agarrando-se a alguns dados macroeconómicos divulgados. Quem é que não quer que haja recuperação económica? Acho que ninguém. A questão que se coloca à discussão é a de quem virá a beneficiar com essa, ainda hipotética, recuperação. Não serão com certeza os milhões de portugueses que foram espoliados dos seus ordenados e reformas e muitos outros que ficaram sem emprego e que já nenhuma recuperação económica irá resolver.


 


A subida de ténues décimas nos indicadores macroeconómicos, por vezes tão pequena que podemos supor ser resultado de erros de cálculo ou de arredondamento, servem para cavalgar a onda de um falso sucesso.


 


Todas as ondas, mesmo as mais pequenas, a partir deste momento e até às eleições, irão servir ao Governo para cavalgar.


 


As eleições para o Parlamento Europeu que para alguns podem não parecer importantes são de facto um indicador das tendências políticas e ideológicas na U.E. e, por maioria de razão, em Portugal. Basta ver o caso da progressão da extrema-direita mais radical. Se os partidos PSD e CDS que se prevê irem em coligação às eleições europeias obtiverem uma maioria podemos já todos sabemos com que mais medidas podemos contar.


 


A última onda que o PSD e os comentadores pró-governo cavalgam é agora a das posições tomadas pelo Presidente François Hollande apoiados pelas suas declarações face à austeridade. Sem querer ligar intencionalmente os acontecimentos das últimas semanas não deixa de ser curioso que o programa de austeridade que Hollande apresentou aos franceses tenha coincidido com o escândalo amoroso do líder francês. A questão de ser causa e efeito ou pura coincidência pode ser especulativa.


 


O PSD bem pode agora cavalgar a onda de Hollande mas do que não se livram os apoiantes do Governo é que em França não vai haver austeridade à Passos Coelho, isto é, à bruta e à pressa com medo das reguadas de Ângela Merkel. Quando ela espirra Passos assusta-se. 


 


Resta saber quando é que o Governo, em vez de cavalgar as ondas se vai embrulhar com elas.


 


 

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publicado às 15:04



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