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A questão que deve estar permanentemente no espírito de todos nós e levantar sérias preocupações, apesar disso raramente ou nunca, escrevi sobre as crises climáticas, porque são múltiplas. O tema é premente e deve ser objeto de preocupação global.

Ao refletir sobre o comportamento e atitude das sociedades face às questões da grave crise que estamos a atravessar saltei da minha atitude de cética para a de pessimista, tendo como alicerce o seguinte pressuposto: embora os políticos e líderes dos governos mundiais estejam a proclamar, tardiamente, supomos com as melhores intensões, ações no presente para se travar ou  retroceder os efeitos de catástrofe causadas pelas as alterações climáticas, não se conseguirão minimizar com rapidez suficiente os seu efeitos  o que levará séculos, senão milénios, a recuperar tudo o que foi destruído durante cerca de dois séculos.

As ações do homem sobre o ambiente, por maldade, descuido, desinteresse, estupidez e ignorância como no caso dos incêndios catastróficos desencadeados durante décadas têm sido apenas um dos grandes causadores da destruição ambiental. Os incêndios e as inundações são as catástrofes que ultimamente têm sido mais evidenciadas pelos noticiários televisivos com imagens aterradoras, mas não são apenas estes, há os que têm menos visibilidade como a emissão em massiva de gases para a atmosfera causadores do efeito estufa, a sobrepesca, as várias formas de poluição, o desmatamento, acumulação de plástico nos oceanos, etc.

Em circunstâncias como estas não há que escolher palavras, não há que ser politicamente correto, não há que evocar valores morais nem éticos para nos pronunciarmos contra atos causadores de tragédias como a extinção de espécies, a extração de recurso sem controle apenas devido à avidez do lucro imediato. Os recursos extrativos dos países são explorados até à exaustão para exportação, contribuindo para o equilíbrio das suas balanças comerciais. Os países denominados do terceiro mundo, os mais pobres, também têm contribuído em grande escala para a danificação ambiental nos seus próprios países.

Os governos de todo o mundo são responsáveis pelas decisões que não tomam ou adiam. As empresas são também responsáveis cavalgando a onda das indecisões desses governos e orientam as suas decisões para a maximização do lucro e nós, a sociedade, tem iguais responsabilidades porque não resiste ao estimulo dado pelas técnicas de publicidade das empresas que são orientadas para uma sociedade de consumo.

Uma notícia do jornal Público de 12 de agosto escrevia que “Projeto piloto que permitiu recolher, entre março de 2020 e junho de 2021, 16,2 milhões de garrafas destinadas à reciclagem” terminou, e a devolução de garrafas em 23 supermercados deixou de dar desconto pelo que as entregas caíram 70%. Face a esta notícia podemos concluir, embora apressadamente, que a sensibilização das pessoas para as questões ambientais ainda não está assumida e interiorizada se não for compensadora. No editorial no mesmo dia no mesmo jornal Manuel Carvalho escrevia: “Porque, como o mostra a história das garrafas de plástico, é uma utopia acreditar que o combate à maior ameaça dos nossos tempos se pode fazer apenas com apelos à boa vontade. Custa dizê-lo, mas a realidade é o que é”.   

Debater o tema da crise climática e da poluição ambiental exige, naturalmente, distanciamento de interesses e de pensamentos nacionalistas enraizados, de espírito científico aberto, prática que os líderes políticos de todo o mundo parecem não possuir. Ficam-se por promessas e por boas intenções. Os líderes dos países industrializados dizem que estão a fazer tudo para a reduzir as emissões de carbono e pensam que os problemas climáticos e salvar o planeta passa apenas por isso e que tudo se irá resolver através de medidas paliativas. Mas salvar o planeta passa também pelo que já atrás referi. Sofrem da espécie da síndrome do “efeito da terceira-pessoa” pela qual se acha que o que acontece é apenas aos outros. Pode também ver aqui ou aqui.

O debate sobre o aquecimento global e a crise climática extremam pontos de vista que passam pela ignorância, obscurantismo e estupidez dos negacionistas até aos do politicamente correto e das posições não consensuais sobre que se pode ou não fazer.  O meu pessimismo, tendo em consideração as vãs promessas, qualquer que seja o objetivo apontado o ano 20?? já será o ponto sem retorno.

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Documentários e reportagens sobre fenómenos extremos causados pela crise climática que passam nos canais televisivos, nomeadamente a SIC, têm mostrado o terrível estado em que já nos encontramos.

Milhares de artigos científicos, comentadores da área climática e jornalistas de vários órgãos de comunicação, fazem alertas nos media que caem em saco roto.

Os discursos dos políticos raramente abordam a crise climática e a sustentabilidade ambiental, salvo quando há eventos internacionais sobre o tema.  Quer por imposições legislativas dos governos, quer por iniciativa de empresas mais responsáveis, a implementação maior parte das vezes as decisões que deveriam ser tomadas demora na sua aplicação, quando não adiadas mais ou menos ano, mesmo sabendo que as consequências serão cada vez mais gravosas para o ambiente à medida que o tempo passa o que está à vista de todos. Ficam-se pelas boas intensões que um dia terão de ser tomadas, mas, segundo os cientistas, o tempo urge.

Apesar das evidências da crise climática que atravessamos há ainda líderes de governos liderados por fantasistas, irresponsáveis e negacionistas que recusam olhar o problema de frente recusando-se a qualquer tomada de medidas. Estes não fazem parte da solução, são o problema.  

 O editorial de Manuel Carvalho do jornal Público de 9 de agosto alerta para o fenómeno que tem que ser encarado com urgência e responsabilidade. Afirma ele que

a resposta necessária contra a catástrofe exige dos políticos, dos gestores e de todos nós uma mudança de hábitos que pode estar para lá do que é possível. É preciso falar sem meias-palavras…”

Sublinha que as medidas a tomar irão implicar uma mudança de hábitos de consumo que poderá levar a um recuo civilizacional. Refere ainda que medidas como consumo de “menos carne, compra de menos televisões ou computadores, viajar menos”. A estes ainda podemos acrescentar trocar menos vezes de smartphone, de automóveis, de eletrodomésticos enfim, o abandono sustentável da sociedade de consumo e o regresso a uma austeridade de consumo assumida por todos. São tudo boas intensões. Intenções desajustadas à situação que esquecem que há mais vida para além da economia.

Concordo com Manuel de Carvalho quando escreve que, “uma travagem no modelo de economia e de sociedade voltado para a riqueza e o crescimento contínuo.” Pode ser uma das soluções.  Só uma mudança de atitude que tenha em vista a austeridade, a temperança, para utilizar um termo do catecismo da Igreja Católica, que louva a   virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados, usando com moderação os bens temporais como a comida, a bebida e o conforto com discrição.

A dúvida que sustenta o meu pessimismo baseia-se no pressuposto da dificuldade de mudanças de atitude e comportamentos numa sociedade de consumo como a nossa, em que o ter é mais importante do que o ser, e em que a publicidade, muitas vezes agressiva, incita ao consumo em massa e torna obsoletos objetos e bens materiais que anos após ano se vão substituindo por outros se irão alterar.

Os impressionantes progressos científicos e tecnológicos que, segundo o argumento deveriam ter sido suficientes para enfrentar a crise climática - pense em alternativas de carne, painéis solares, casas ecológicas, estes apenas dirigidos aos que têm disponibilidade financeira, não são suficientes. Quanto aos painéis solares, uma boa alternativa à produção energética, levam-me a imaginar as paisagens agora verdes e espaçosas a serem substituídas por painéis solares que se prologam em espaços espelhados até onde a vista alcança.   

Será que poderemos sair desta sucessão de acontecimentos que se repetem e colidem com obstáculos que contrariam uma desejável regeneração climática, numa espécie de círculo vicioso. Acho que não, nem numa nem em duas décadas. Alinho com o argumento do antropólogo Jason Hickel no seu último livro “Less Is More. Como o Degrowth Will Save the World ”, 2020, segundo o qual as sociedades ricas têm como objetivo fundamental o crescimento da economia cujos ganhos são imediatamente reinvestidos na mesma economia, produzindo mais bens, exigindo e arrancando cada vez maiores porções da natureza para alimentar os circuitos de extração de recursos minerais, e de produção de animais e vegetais, alguns destes últimos cultivados fora das suas regiões endémicas exaurindo as reservas aquíferas que vão contribuir para a mesma pegada ecológica, não a reduzindo, por vezes até aumentando-a.

Pergunto como será possível que, ao mesmo tempo que se procuram estratégias para descobrir fórmulas para a redução das emissões de carbono, preservar os ecossistemas e salvar espécies ameaçadas, defenda-se uma sociedade de consumo excessivo num suposto melhoramento das condições materiais de vida em todo o mundo?

Alguns afirmam que é tudo a penas uma questão de “vontade política”. Não me parece que seja apenas isso porque há razões psicossociais lógicas sérias para se ficar no status quo e adiar decisões drásticas mantendo a passividade quando se coloca a decisão de ter de abdicar de um bem menor no presente em favor de um bem maior no futuro, a preservação do nosso planeta. Tudo quanto possa criar entropias ao poder económico e financeiro mundial é sucessivamente adiado. São os intocáveis e, face a ameaças, clamam que as alternativas que se colocarem conduzirão ao apocalipse económico. Preferem o apocalipse climático com a destruição de bens e vidas humanas ao apocalipse económico, este que pode ter soluções várias e rápidas enquanto o climático não terá remédio conduzindo ao fim do planeta e da humanidade.

Há pouco mais de dois anos tivemos uma amostra disso quando o mundo estava numa fase decisiva para travar a tempo o agravamento da crise climática que foram as tentativas da administração dos EUA, leia-se, Trump, para desmantelar grande parte das leis de proteção ambiental e ao retirar-se do acordo climático de Paris abrindo caminho para mais acidentes industriais em larga escala e catástrofes futuras.  As consequências das políticas governamentais só se fazem sentir várias décadas depois das decisões tomadas, quando os que as protelaram ou as fizeram aplicar já estiverem fora dos governos.

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Algumas das soluções propostas são radicais e potencialmente inexequíveis. Há estudos de economistas que avançam a solução de reduzir o crescimento económico (decrescimento), como se pode verificar pelos gráficos da Our World Data. Ver gráfico anterior.

Os defensores do decrescimento argumentam que não podemos continuara a crescer sem que daí ocorra a já anunciada catástrofe climática. Mas como será isso possível quando o PIB tem tido um crescimento que apenas abrandou com a pandemia covid-19.

Podemos observar a correlação positiva entre o crescimento do PIB per capita e o aumento das emissões de CO2.

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Ao considerar-se o desempenho de uma economia em função do seu crescimento, algo acontece à medida que toda essa atividade económica se expande, é que a quantidade de energia e recursos que usamos também aumentam. Assim, a única solução é uma transformação extrema do nosso modo de vida. Por outro lado, os países mais pobres, ditos do Terceiro Mundo, precisarão de um mínimo de crescimento para elevar os seus bastante baixos padrões de vida e para alimentar a sua crescente população.

Enquanto redigia este texto li um artigo de opinião de João Miguel Tavares, com o qual muitas vezes discordo, que, oportunamente, veio em auxílio dos meus argumentos e que pode ler aqui. Escreveu JMT que:

“…. Alerto apenas para o facto de muitas discussões partirem do pressuposto de que as pessoas ainda não estão convencidas da existência do aquecimento global (por exemplo), e só por isso não agem. Infelizmente, o problema é bem mais assustador: elas estão convencidas, mas ainda não sofreram o suficiente por causa dele para justificar uma alteração drástica do seu modo de vida…”.

Pois é. É este o ponto fundamental das questões climáticas. E, mais uma vez, até lá funciona nas pessoas a síndrome da terceira-pessoa.

Nota: As minhas desculpas por algumas imperfeições do texto porque este foi escrito ao correr da pena.

 

 

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publicado às 18:45



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