Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Propósito de Quase Tudo: opiniões, factos, política, sociedade, comunicação

Aqui vocês, podem encontrar de tudo um pouco: sociedade, ambiente, comunicação, crítica, crónicas, opinião, política e até gastronomia, com apoio de fontes fidedignas.

As reparações dos pecados cometidos ou lá o que seja há mais de 500 anos

01.05.24 | Manuel_AR

Não resisto a incluir aqui um artigo de opinião de Maria João Marques sobre essa famigerda polémica das reparações da escravização e da colonização ocorridas há mais de 500 anos.

Quem nunca escravizou nem colonizou tem de pagar reparações?

A esquerda woke não anima os descamisados do mundo rico, pelo que tem de animar a malta urbana abonada com necessidade de expiar pecados.

Vou revisitar o já famoso e infame jantar de Marcelo Rebelo de Sousa com os jornalistas estrangeiros. No meio do racismo para com António Costa, o classismo para Luís Montenegro e a informação – dada de uma forma displicente que aterroriza a mãe que escreve estas linhas – do corte de relações com o filho, o Presidente faria bem em alegar perante o país tratar-se de um episódio de insanidade temporária.

Ou, pelo menos, como no filme Anatomia de um Crime, com o divino James Stewart, ter sido acometido por um "impulso irresistível". O que teria a vantagem de ser verosímil. Todos sabemos que Marcelo Rebelo de Sousa tem o impulso irresistível de falar.

Porém Marcelo Rebelo de Sousa falou em reparações que Portugal tem de pagar às ex-colónias, por massacres e escravatura. A expressão (inteiramente clara) foi "pagar custos" das maldades todas que fizemos. Foi leviano, claro, por impulso irresistível ou deliberadamente. Entretanto, percebendo que não é tema que lhe dê píncaros de popularidade, já veio amenizar: reparações podem ser o perdão da dívida ou o "estatuto de mobilidade" dos cidadãos do PALOP. Mas a discussão ficou.

Os vários partidos já tomaram posição – quer dizer, quase todos. O Chega rasgou as vestes e quer censurar o Presidente no Parlamento. Porventura viram algum episódio de uma série política americana onde tal ocorreu. O BE e o Livre garantem que temos muito que reparar por todo o lado. O Governo, e bem, informou não planear nenhum programa de reparações. O PS, percebendo que é um tema que não agrada ao eleitorado mas não querendo descolar da esquerda woke que é natureza de Pedro Nuno Santos, não tomou posição, dizendo (através de Marta Temido) que é um assunto muito sério a ser debatido nos fóruns próprios.

Há aspetos nesta discussão para mim inteiramente pacíficos. Sou, por princípio, favorável à devolução de todas as obras de arte e artefactos obtidos por pilhagem. Aplico-o aos países africanos ou aos mármores gregos do Parténon que estão no Museu Britânico. Desde que se garanta, claro, que a devolução assegura a preservação da peça e que é feita de modo a beneficiar a população espoliada (num museu onde possa ser visitada e estudada e fomente o turismo que enriqueça a região) e não termine nos salões de um qualquer oligarca do regime.

No caso português, sou de opinião (mesmo fora da discussão das tais reparações) que se deve privilegiar imigração dos PALOP face a outras proveniências sem ligações culturais a Portugal. Não me chocariam quotas, bem como um regime de bolsas, nas universidades portuguesas específicas para alunos dos PALOP, que de resto as têm crescentemente procurado. E o perdão da dívida aos países pobres de África é um imperativo moral a que todos os países europeus têm respondido, e há que incrementar.

Qual é então o meu problema com a discussão das reparações? Vários e o menor é o mais prosaico: não temos dinheiro. E pagamos a quem? A indivíduos (nem escravizados nem colonizados) ou a regimes peculiares (se não mesmo cleptocratas)?

Começo por ver muito problemática a vontade de fazer contas à História velha de séculos que se julga com lentes do presente. Mais: onde paramos? Outro problema: há uns anos fomos surpreendidos com números portugueses avassaladores do comércio transatlântico de escravos; sucede que há nuances. Afinal Lisboa foi responsável por 4% do comércio de escravos africanos e o grosso foi feito a partir do Brasil (37%), por interesse (e proveito) da economia brasileira, sem ser política da metrópole, que deixava andar por não conseguir parar o tráfico.

Não temos de nos orgulhar dos nossos 4%, nem de inaugurar a prática. Porém o país que mais escravizou e traficou foi o Brasil. Que a administração Lula, exemplo indigesto do populismo de esquerda sul-americano, venha pedir reparações a Portugal, duzentos anos depois da independência, é topete. Cerca de 400.000 brasileiros vivem em Portugal, extremamente bem inseridos. Tratam-se nos hospitais públicos e os filhos frequentam as escolas pagas com os impostos dos portugueses que já cá viviam antes. Diria que é uma boa reparação.

O meu problema maior é a real finalidade desta discussão, que nada tem que ver com países colonizados nem descendentes de escravos. É simplesmente parte da agenda niilista antiocidental. O objetivo é expor a malícia e maldade da humanidade branca ocidental, causa de todas as calamidades desse mundo vítima e marionete da perfídia europeia.

Claro que isto é a maior confissão de ignorância, racismo e eurocentrismo. Não concebem que o resto do mundo tem uma existência e uma História que vai muito além da interação com os países europeus. Não sabem que até à revolução industrial os países mais ricos do mundo eram a China e a Índia. Desconhecem que depois da revolução industrial os países asiáticos prosperaram quando (e se) implementaram políticas copiadas das europeias (o caso japonês é sintomático). Ignoram as tensões regionais que nada têm que ver com a Europa. Más práticas de outros países e culturas são apagadas: só interessa visar o que cabe no simbólico Ocidente. A escravatura também industrial praticada pelo mundo árabe, com números igualmente assustadores e muito mais recente (até Hergé escreveu um livro do Tintin sobre este crime em meados do século XX) – não interessa nada, afinal o mundo islâmico é o clímax do anti-Ocidente.

A discussão é tão freudiana e religiosa quanto política. A esquerda woke não anima os descamisados do mundo rico, pelo que tem de animar a malta urbana abonada com necessidade de expiar pecados. Como odeiam o catolicismo e hábitos como a confissão (que Freud muito bem considerava e tem um princípio parecido à "cura pela conversa" que é a psicanálise: construir uma narrativa para contar o que vivemos é em si mesmo curativo), têm ética deficiente que os incentive a olhar para pecados próprios, e vivem num mundo superficial onde o que mais conta é a sinalização pública de virtude, escolhem expiar pecados alheios, passados há séculos, numa tentativa de demonstração de moral intocável.

Pela minha parte, sou católica, reparo os meus próprios pecados, não tenho necessidade psicológica de expiar a História, desde logo porque nunca escravizei nem colonizei. Deixo "pagar custos" para o Presidente e para os seres perfeitos da nossa esquerda que o propõem.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico