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A propósito do PCP e das suas abstratas declarações sobre paz

25.09.22 | Manuel_AR

Por mais que me esforce não consigo compreender a posição do PCP sobre a invasão da Ucrânia. Afirma ser pela paz, mas não esclarece, nem sugere vias. É contra a guerra, mas não se refere concretamente contra a qual. Contra todas, é claro. Mas contra ela somos todos. Quando lhe é dirigida a pergunta sobre esta em especial, nem piu. Sabemos que todas são más e que há vários outros implicados. O PCP fala em escalada belicosa de quem? Também sabemos que houve, e há, vários implicados em guerras com que estamos contra. Mas, quanto a esta guerra de invasão nada. Mas, afinal, quem está a provocar uma escala belicosa? Nós, alguns, que ainda poderemos ter alguma simpatia psicológica e percetiva pelo partido que lutou e sofreu na luta antifascista, estamos na dúvida. 

O artigo de opinião de Pacheco Pereira talvez seja reacionário para o PCP, mas,  o que ele diz são factos. Tudo isto começa a ser estranho, e o pior é que começa a entranahr-se. Esclarecimentos concretos precisam-se por parte do PCP

Quando é que o PCP convoca uma manifestação pela paz contra Putin?

Se não saírem para a rua claramente contra quem faz esta escalada, pondo o nome às coisas, e Putin e a Federação Russa são os nomes, na verdade não é a paz que desejam, mas uma vitória militar russa.

Foto Imagem do filme <iDR</i

O facto de esta ser uma pergunta retórica mostra a absoluta fragilidade da posição do PCP e das organizações a ele ligadas, como o Conselho Português para a Paz e Cooperação, sobre a guerra da Ucrânia em matéria de paz. O que aconteceu nesta semana com o discurso de Putin, a sua intenção de fazer referendos-fantoches e a clara ameaça de uma guerra nuclear colocam o mundo mais perto de um conflito catastrófico do que alguma vez esteve desde a crise dos mísseis em Cuba em 1962.

Se isto não é um ataque à paz, não sei o que possa ser. E neste caso não adianta vir com duplicidades e falsas equivalências: não foram a Ucrânia, nem a NATO, nem os EUA que fizeram esta escalada, mas apenas o Presidente da Federação Russa, que não se limitou a ameaçar com um conflito nuclear, insistindo que o que estava a dizer não era um bluff, era para tomar a sério. Aliás, quem, desde o primeiro dia deste conflito, resultado de uma agressão militar da Rússia à Ucrânia, fez ameaças nucleares foram Putin, Lavrov e aquele belicista sem paralelo no lado de “cá”, Medvedev, vice-presidente do Conselho de Segurança russo. Sim, a guerra nuclear, aquela guerra que mata milhões, destrói as grandes cidades do mundo e não tem vencedores, a coisa mais próxima de nos mandar para a ficção científica catastrófica, e para a Idade da Pedra. Senhores que enchem a boca pela paz, há alguma coisa que se compare em dimensão com estas ameaças, do lado da NATO, dos EUA, da UE? Claro que não há, e não há hipócritas comparações nem duplicidades que possam ocultar este facto: se não saírem para a rua claramente contra quem faz esta escalada, pondo o nome às coisas, e Putin e a Federação Russa são os nomes, na verdade não é a paz que desejam, mas uma vitória militar russa.

A sequência perigosa está toda no discurso de Putin. Os referendos-fantoches — e uso a palavra fantoches porque é isso mesmo que são; mesmo que admita que uma parte dos habitantes do Donbass prefere ser russa a ucraniana, não é em guerra e numa ocupação militar que o seu voto tem qualquer valor — vão justificar a anexação de territórios ucranianos à Federação Russa.

Só um parêntesis: se o mesmo tipo de referendos fosse feito em certas zonas geográficas da Federação Russa, como o Cáucaso, também os habitantes votariam ou pela independência ou pela anexação, por exemplo, pela Turquia. A Tchetchénia foi mantida na Federação pela guerra, pela violência e pela repressão.

Os referendos têm apenas o papel de pseudolegitimar conquistas territoriais de um Estado sobre outro, o mais clássico motivo para uma guerra imperialista. E a reivindicação de uma espécie de “droit de regard” armado para “proteger os ‘russos’” é, neste contexto, exactamente o que Hitler fez nos Sudetas. Aliás, onde está Putin coloquem Hitler e as frases são idênticas no verbo e na substância. Logo a seguir à anexação, Putin passa a considerar esses territórios russos, que hoje vão muito para além do Donbass e se estendem a zonas onde se fala ucraniano e onde não há sentimentos pró-russos, mas que Putin quer anexar à Federação porque tem uma posição estratégica relativa à Crimeia e ao acesso da Ucrânia ao mar. E, depois, um ataque a Lugansk é um ataque à Rússia, logo a possibilidade de uma resposta nuclear é possível. “Não é um bluff.

Repito: quando é que o PCP sai para a rua para condenar Putin por colocar o mundo perto de um conflito nuclear? Silêncio. Nem pensar. Seria “fazer o jogo da NATO”. Eu percebo-os. Não tenho dúvidas de que a última coisa que desejavam era esta guerra, porque o PCP e os seus companheiros de estrada sabem que ela teve o efeito contrário ao pretendido, não vai acabar bem para Putin e a probabilidade de ter sido o balão de oxigénio de que a NATO precisava verifica-se todos os dias. Por outro lado, neste contexto, não querem que Putin perca de forma muito evidente e clamorosa. Duvido que apoiem a escalada belicista de Putin, mas também os incomoda muito a eficaz ofensiva ucraniana. É um mecanismo não só político, mas também psicológico, daquilo que tanto pode ser interpretado como comportamento dos indivíduos quando se metem numa argumentação sem saída e, em vez de a corrigirem, sobem de tom e caminham ainda mais para o abismo. O mesmo para aquilo a que antes se chamava “psicologia de massas”. Ou seja, estão metidos num imbróglio que não tem saída feliz, mas que tem um ponto forte: não querem que a Ucrânia ganhe. Não o podem dizer, mas é exactamente isso que desejam, de desejo forte, inominável, feio.

Foto Imagem do filme O Projecto Blair Witch DR

Por isso, estão bloqueados no plano político. Já os comparei aos enfeitiçados pela Bruxa de Blair, paralisados contra uma parede numa cave em ruínas.

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