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A propósito das eleições na Rússia e do tempo de Estaline

22.03.24 | Manuel_AR

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O resultado das eleições na Federação Russa não foram novidade para Putin, era previsível, dado o défice democrático daquele país. O resultado eleitoral 87% obtido sem oposição credível que o conduzem ao 5º mandato não poderia ser outro. Foi e é assim que nos regimes totalitários e autocráticos onde a forma de governo está nas mãos de um governante que detém controle absoluto e poder de decisão em todos os assuntos de Estado e sobre todo o povo do país. Para tal, só com a simulação de eleições livres se prolonga o poder. Foi assim na ex-União Soviética, é a gora assim na Rússia, foi assim em Portugal no tempo de Salazar e Caetano, é assim em Cuba e noutros países como a Coreia do Norte onde o “chefe máximo” é nomeado e ou herdado como se fosse uma monarquia. Após a morte do fundador da União Soviética, Vladimir Lenin, José Estaline governou o país de forma autocrática e ditatorial.

A atual Federação Russa é uma república federal semipresidencialista e gerida por uma oligarquia. O presidente Vladimir Putin vai cumprir o seu quinto mandato como presidente da Rússia. Apesar de em anos anteriores ter feito repetidas promessas de deixar o cargo em 2024, quando o seu limite de mandato fosse atingido, Putin encabeçou no país o projeto para em 2020 fazer uma alteração constitucional que lhe permitiria permanecer no poder até 2036.

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Dizer que Vladimir Putin é um ditador é assunto que pode levantar várias questões ideológicas. Mas, de qualquer modo, num regime em que se diz haver democracia liberal no sentido de sistema partidário de liberdade política, económica, religiosa etc., não se prendem ou matam opositores, não se retira a liberdade de expressão, não se publica na imprensa e se diz nas televisões a visão única, não se reestruturam governos para se deter poder duradouro, não se detém numa única pessoa a autoridade executiva, nem o poder judicial e legislativo, nem é possível mudar a legislação para se adequar à agenda de um único poder. E não me venham dizer que isto é propaganda anti russa dos EUA e do ocidente. Basta consultar os órgãos de comunicação do próprio país através da net e ler e ouvir os discursos de Putin para o interior do país (há traduções).

 Podemos presumir que o resultado da eleição terá sido previamente decidido e que Putin seria “obrigatoriamente eleito” com a maior percentagem de sempre e com a mais baixa abstenção verificada até ao momento. Pode mesmo dizer-se, sem garantia, que terá avisado todas as autoridades do país aos vários níveis, do oriente mais longínquo da Rússia até às fronteiras com o ocidente, de ele teria de ser feito com limites máximos e mínimos e que teria de ser assim.

As eleições da Rússia e a invasão da Ucrânia fizeram-me pensar sobre as semelhanças entre o Presidente Vladimir Putin e José Estaline. Não tinha e ainda não tenho a certeza sobre tais semelhanças. No entanto, recorrendo a documentos históricos a semelhança entre eles em alguns aspetos parece ser por demais evidente. Assim é inevitável deixarmos de associar o regime de Putin ao de Estaline. Dizem alguns que são épocas diferentes e com contextos diferentes. É certo, mas, ainda assim, este ponto de vista leva-nos a recordar o passado e há alguns paralelos que podem ser traçados. Vejamos então alguns pontos de aproximação entre eles.  

Um aspeto muito importante é o da religião e das crenças do povo.  A religião e a igreja é usada para abençoar as campanhas militares, e, no atual regime de Putin, motivos religiosos, culturais e históricos combinam-se com motivos políticos, não é por acaso que Vladimir Putin tem uma associação significativa com a Igreja Ortodoxa Russa. Há um apoio mútuo entre Putin e a Igreja Ortodoxa Russa em que a Igreja confere legitimidade espiritual ao regime de Putin, enquanto Putin apoia a influência da Igreja na sociedade. Por outro lado, o patriarca Kirill, chefe da Igreja Ortodoxa Russa, é visto como um aliado próximo de Putin e tem sido um destacado defensor das políticas de Putin, incluindo a a legitimação da invasão da Ucrânia.

Se consultarmos documentos históricos sobre a governação de Estaline notaremos algumas semelhanças. Aliás, o próprio Putin está a fazer uma reescrita da história e uma lavagem da época estalinistas, porque, segundo ele, é tudo um exagero e uma invenção dos inimigos da Rússia.

Parece ser atributo de ambos a substituição de generais e comandantes que não conseguem fornecer aos militares o que eles precisam em homens e material, em nome do sacrifício pela pátria e a honra bem maior do povo russo. Recentemente, a 19 de março, foi anunciada mais uma substituição que o Presidente Putin efetuou de entre várias mudanças nos principais comandos das Forças Armadas desde que lançou a invasão militar na Ucrânia.

Antes da visita de Putin a Volgogrado para comemorar o aniversário da vitória na Segunda Guerra Mundial foi colocado um busto de Estaline para ser inaugurado. Putin não se coíbe de em entrevistas como a que deu em 2017 em que criticou a “excessiva demonização” de Estaline promovida pelo Ocidente, e que a estratégia é usada “como um meio de atacar a União Soviética e a Rússia”.

Ambos os líderes são conhecidos pelos seus esforços para centralizar o poder. Estaline criou um Estado totalitário de partido único, enquanto Putin criou organização vertical de poder, isto é, uma estrutura governativa em que existem papéis muito específicos de cima para baixo. A liderança encontra-se no topo e, à medida que se desce, a autonomia e o poder de decisão diminuem.

Quanto às políticas interna e externa também podemos encontrar algumas semelhanças. Putin também envenenou ou prendeu opositores e transformou a principal fonte de divisas da Rússia - a indústria do petróleo - numa ferramenta de política de Estado. A repressão de Putin à dissidência lembra repressão brutal da era soviética e Putin, tal como Estaline, são conhecidos pela sua repressão a opositores políticos.

Também como Estaline, Putin convenceu grande parte do povo que “o mundo está todo contra a Rússia”. Nas suas retóricas políticas Putin também faz apelo ao nacionalismo russo e à expansão e recorre ao elogio do império russo. Em ambos há uma forma semelhante na abordagem das suas políticas internas e externas. A de Estaline consistia em construir o socialismo no país e reduzir o tamanho do império alemão, a política externa de Putin tem sido a de conter o “domínio” ocidental e conseguir novos parceiros importantes para o futuro.

A chamada reeducação dos cidadãos quando eram dissidentes da política oficial foi também exercida. O regime de Putin, nas atuais circunstâncias da invasão sa Ucrânia, também tem o mesmo procedimento, pois retira crianças das suas famílais e dios seu páis enviando-as para lares russos para passarem, segundo dizem porta vozes do regime, por um processo de reeducação.  

Contudo, estas semelhanças são relativas porque é importante notar que, apesar destas semelhanças, também há diferenças significativas. O regime de Estaline foi marcado pela repressão em massa, expurgos e um regime de terror, que é bem diferente na Rússia de Putin. Além disso, a Rússia de Putin faz parte da economia global e das instituições internacionais duma forma que o difere da União Soviética de Estaline. A explicação da diferença talvez seja devida a que na altura de Estaline estava-se na terceira fase da globalização que abrange o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945 estendendo-se até ao final da Guerra Fria e à queda do Muro de Berlim em 1989. Um dos principais acontecimentos dessa fase determinante para a atual fase da globalização foi a “terceira revolução industrial” responsável pelas inovações tecnológicas e científicas que surgiram a partir da década de 1970 e que são características do meio técnico-científico-informacional atual. Atualmente contribuem para a estratégia militar e da guerra cibernética entre países e regimes.

Em conclusão, embora existam alguns paralelos entre as políticas de Putin e de Estaline, elas são produtos de seus respetivos tempos e têm diferenças significativas. Também vale a pena notar que a interpretação das suas políticas pode variar, e esta é uma comparação simplificada.

Enfim, sobre as eleições na Rússia, Vladimir Putin terá organizado uma outra espécie de operação especial para mostrar aos russos, (e à parte do mundo que ainda está, ou diz estar, com ele), que o seu poder é absoluto. Vladimir Putin é um “czar” que faz acreditar ao povo russo que está a travar uma guerra defensiva porque está a ser atacado pela NATO, pelo EUA e pelo ocidente os que lhe estão a impor com a pretensão para mostrar ao mundo que o povo o apoia esmagadoramente, isto para quem quiser acreditar.